domingo, 28 de fevereiro de 2010

Cartas do P.e Aldo 138

Asunción, 28 de fevereiro de 2010.

Caros amigos,
Padre Paolino, apesar da tragédia, não perde o seu habitual bom humor. De Puerto Mont (onde está preso, com Martino, Julián de la Morena etc., por causa do terremoto), me mandou esta mensagem: "Obrigado! Quando for possível, ligo para você. Estamos todos presos em Puerto Mont, também o companheiro Padre Daf (que esta procurando comida)". Padre Daf, como sempre, procura comida, apessar de seus 150 kg e, portanto, não pouca reserva. Melhor assim: estão vivos. Agradeçamos a Nossa Senhora e continuemos a rezar por eles.
Padre Aldo

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Lc 9,28b-36
Naquele tempo: Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante. Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias. Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. E quando estes homens se iam afastando, Pedro disse a Jesus: "Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias." Pedro não sabia o que estava dizendo. Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem. Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia: "Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!" Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho. Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto.

Comentário feito por Anastásio do Sinai (?-depois de 700)
monge

Neste dia apareceu misteriosamente no Monte Tabor a condição da vida futura e do Reino da alegria. Neste dia, os mensageiros da Antiga e da Nova Aliança reuniram-se de forma extraordinária em torno de Deus na montanha, portadores de um mistério cheio de paradoxo. Neste dia, desenha-se no Monte Tabor o mistério da Cruz que, pela morte, dá a vida: assim como Cristo foi crucificado entre dois homens no Monte Calvário, assim também Se apresentou na majestade divina entre Moisés e Elias. E a festa de hoje mostra-nos este outro Sinai, montanha ó quão mais preciosa que o Sinai, pelas suas maravilhas e os seus eventos, que ultrapassa, pela teofania que nela se deu, as visões divinas figuradas e obscuras. [...] Rejubila, ó Criador de todas as coisas, Cristo Rei, Filho de Deus resplandecente de luz, que transfiguraste à Tua imagem toda a criação e de forma misteriosa a recriaste. [...] E rejubila, ó imagem do Reino celeste, santíssimo Monte Tabor, que ultrapassas em beleza todas as montanhas! Monte Gólgota e Monte das Oliveiras, cantai juntos um hino e rejubilai; cantai a Cristo a uma só voz no Monte Tabor e celebrai-O juntos!

40 dias com Giussani

"Nós estamos entre os assassinos de Cristo como todos os outros, mas o somos de um modo absolutamente particular, como é particular o Seu relacionamento conosco. E no entanto permanece inexorável esta Presença na nossa vida, porque ela pertence a Ele.
O Senhor, na Sua Misericórdia, nos escolheu, nos perdoou, nos abraçou. Ele tomou sobre Si todos os nossos pecados, fomos já perdoados. Deve manifestar-Se. Como? Através do meu coração que O acolhe, que O reconhece. É algo simples, mas não há nada de mais divino no mundo, de mais milagroso, isto é, de maior antecipação da evidência última e eterna."
(GIUSSANI, Luigi. Egli solo è: Via Crucis, 2005, pp. 5-6)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Cartas do P.e Aldo 137

Asunción, 27 de fevereiro de 2010.

Caros amigos,
um forte terremoto balançou o Chile.
Rezemos para os meus amigos sacerdotes, que estavam de retiro exatamente ali. Que aquilo que acontece nos ajude a nos entregar totalmente a Jesus.
Como vocês sabem, a nossa Fraternidade (de São Carlos Borromeu; ndt) tem duas casas no Chile e, além do mais, nestes dias, também os meus irmãos de casa estão lá para o encontro anual.
O embaixador do Chile me fez saber (através do embaixador da Itália no Paraguai) que entre os mortos não há nenhum italiano.
Que Nossa Senhora nos proteja e os proteja.
Padre Aldo

40 dias com Giussani

"A medida do mistério de Deus é uma pessoa, é um homem maduro, é uma personalidade precisa, que se aproxima como presença a que não se pode fugir entre as nossas amizades, entre as nossas casas, dentro dos nossos ambientes de trabalho e de interesse, que enfrenta pessoalmente a nós mesmos, que nos enfrenta pessoalmente. Toda a fé está aqui: toda a fé está no rosto que assumimos, está no olhar que assumimos diante desta pessoa, na reação que temos a esta presença.
A liturgia quaresmal ilumina esta presença, a imponência da sua proposta, a concretude da sua figura através dos Evangelhos. O da Samaritana - este homem que lê verdadeiramente até o fundo, de forma que nada lhe escapa, nada pode se subtrair, de forma que verdadeiramente é preciso ir até o fundo, não se pode fica no meio do caminho -; o de Abraão - 'Se escutardes a minha palavra até o fundo sereis meus discípulos', menos que isso é a medida da mentira -; o do cego de nascença curado e o de Lázaro resuscitado da morte - a potência com a qual governa as coisas e o tempo. (...)
Esta é a primeira ideia: perguntemo-nos se nos encontramos diante desta figura, desta realidade, desta pessoa, se este Tu está em nós, se este Tu invade toda a nossa personalidade, se este Tu vai até o fundo como direção, como intenção, vontade, desejo, amor, se a nossa vida é este amor.
De outra forma, apoiamos sobre a carne e 'toda carne é como a erva e toda a sua glóia é como a flora da erva: secou a erva e a flor cai, mas a palavra do Senhor permanece para sempre' (IPd 1, 24). Esta palavra não é um discurso, é uma pessoa real, um homem, é Jesus Cristo (IPd 2, 6-8).
Desenterremos, pois, a consciência desta presença da profundidade de névoa, de desconhecimento, de discordância enormes. Recoloquemo-nos diante dAquele a quem a nossa vida é resposta, que é o fundamento, o significado da nossa responsabilidade."
(GIUSSANI, Luigi. Dalla liturgia vissuta: una testimonianza - Appunti da conversazioni comunitarie, 1973, 49-50, 55)

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 5,43-48
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Vós ouvistes o que foi dito: "Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!" Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos. Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? E se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito."

Comentário feito por Santo Isaac o Sírio (séc. VII)
monge em Nínive, perto de Mossoul, no atual Iraque

No Criador, não há mudança, não há intenções anteriores ou posteriores; na Sua natureza, não há ódio nem ressentimentos, não há lugar maior ou menor no Seu amor, nem antes nem depois no Seu conhecimento. Pois, se todos creem que a criação começou a existir como consequência da bondade e do amor do Criador, nós sabemos que esta primeira motivação não diminui nem se altera no Criador em consequência do curso desordenado da Sua criação. Seria profundamente odioso e perfeitamente blasfemo supor que há em Deus ódio e ressentimento - sequer para com os próprios demônios -, ou imaginar Nele alguma fraqueza ou paixão. [...] Muito pelo contrário, Deus age sempre conosco pelos caminhos que sabe serem para nossa vantagem, quer estes sejam para nós causa de sofrimento ou de consolo, de alegria ou de tristeza, quer sejam insignificantes ou gloriosos. Todos eles são orientados para os mesmos bens eternos.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

40 dias com Giussani

"O mistério, isto é Cristo, que entrou na nossa carne e no nosso espírito através do Batismo, da Penitência e da Eucaristia, se torne visível nas expressões da vida do nosso eu, como reza a beleza de uma liturgial quaresmal: 'Ó Deus... faz que manifestemos nas nossas obras a realidade escondida no sacramento'. Todos os nosso pecados, perseguidos pela constância de tal desejo, se encontrarão em uma situação sempre mais frágil, efêmera.
Na pobreza de espírito, segundo o nome da tradição cristã, que é a raiz regeneradora e refrigeradora deste desejo, começamos a nos tornar cristãos, a nos tornar santos, homens verdadeiros, 'libertados do jugo maligno' - como diz o início de um hino monástico das Vésperas quaresmais. Aqui, de fato - não custa repetir - está situado o primeiro sinal fenomênico, a primeira reverberação e o primeiro calor da experiência daquela redenção que é Cristo comunicado à nossa ontologia como semente misteriosa de uma existência nova. A invocação que Ele faz ao Pai assumindo a nossa condição de miseráveis - 'livrai-nos do mal' -, e que a liturgia repete como eco humilde e apaixonado - 'livrai-nos de todo mal...' -, encontra a sua realização inicial no desejo do seu Se manifestar em nós, vitorioso sobre a medida humana.
Que tal desejo se torne capacidade do coração de um homem, conteúdo supremo do seu juízo de valor, objeto agudamente privilegiado do seu querer para além de toda a sua miséria, este é o milagre, milagre de santidade. 'O amor que nos foi demonstrado por Cristo - diz São Paulo aos cristãos de Corinto - nos absorve completamente, ao pensar que um só morreu por todos... morreu para que, os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que morreu e ressuscitou por eles' (2Cor 5, 14-15)."
(GIUSSANI, Luigi. Alla ricerca del volto umano, 1995, p. 177)

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 5,20-26
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus. Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: "Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal". Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: "patife!" será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de "tolo" será condenado ao fogo do inferno. Portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. Só então vai apresentar a tua oferta. Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. Em verdade eu te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo.

Comentário feito por Santo Agostinho (354-430)
Bispo de Hipona (Norte de África) e Doutor da Igreja

"Deus faz que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores" (Mt 5, 45). Ele mostra a sua paciência; não lamenta o Seu poder. Também tu [...], renuncia à provocação, não aumentes a tribulação dos que semeiam o tumulto. És amigo da paz? Mantém-te tranquilo dentro de ti mesmo. [...] Deixa de lado as querelas, e volta-te para a oração. Não respondas à injúria com a injúria, mas reza por esse homem.
Queres opor-te a ele: fala a Deus por ele. Não digo que te cales: escolhe o meio conveniente, e vê Aquele a quem falas, em silêncio, com um grito do coração. Onde o teu adversário não te vê, aí mesmo, sê bom para ele. A esse adversário da paz, a esse amigo da disputa, responde tu, amigo da paz: "Diz tudo o que quiseres, porque, seja qual for a tua inimizade, tu és meu irmão" [...]. "Bem me podes odiar e repelir: tu és meu irmão! Reconhece em ti o sinal do meu Pai; é esta a Palavra do meu Pai: és um irmão quezilento, mas és meu irmão, porque tu dizes tal como eu: 'Pai nosso que estais nos céus'. Se invocamos um único Pai, por que não somos um só? Peço-te, reconhece o que dizes comigo e reprova o que fazes contra mim. [...] Temos uma única voz diante do Pai; por que não havemos de ter juntos uma única paz?"

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

40 dias com Giussani

"Por que Cristo veio dois mil anos atrás e não há trinta mil, vinte mil, hoje? Por quê? Estas perguntas não têm resposta na nossa cabeça, a única resposta é a vontade de Deus, o desígnio de Deus, o desígnio misterioso do Pai. Mas, uma vez aceitado e reconhecido, devemos nos abandonar a isto, porque esta é a verdade (a verdade nunca é uma imagem nossa) e esta é a bondade (a nossa imagem de humanidade não é a bondade) e esta é a justiça, porque a justiça é Deus e basta, e é como um abismo sem fundo, não tem medida, não podemos medir, opor um critério ou uma medida. E a pessoa entende que está aqui o se perder, o abandonar-se total, entende que ele é nada e tudo é o desígnio e a vontade do Outro, o Absoluto - sem vínculos, sem medidas - e o Inefável - que não se pode descrever, dizer, definir. E a oração, se não é isto - entendem? -, é nada, é uma pretensão de adolescente malcriado, presunçoso e malcriado. Mas este abandono evita o intelectualismo ou o esteticismo ('é doce naufragar neste mar'); e, de fato, se torna real, se torna existencial, apenas na experiência cristã. (...) Uma vez entendido e aceitado isto, compreende-se como aquele desígnio é por amor à nossa liberdade, é por misericórdia pela nossa fragilidade. O tempo nos é dado como amor à nossa liberdade e misericórdia pela nossa fragilidade."
(GIUSSANI, Luigi. La familiarità con Cristo: meditazioni sull'anno liturgico, 2008, pp. 53-54).

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

40 dias com Giussani

"A terceira coisa que (...) nos é indicada é a caridade fraterna. (...)
Nós tratamos os outros, normalmente, mutilando a sua história (...). O que quer dizer mutilar a história do outro ou mutilar a pessoa, reduzir o outro e reduzir a história do outro? Tendemos a reduzir a história do outro aos nossos critérios e à nossa medida, ao nosso estado de ânimo, à nossa conveniência, à nossa avaliação das coisas. Tendemos a reduzir a história do outro a isto e tendemos a mutilar a personalidade do outro, porque sublinhamos aquilo que nos interessa, aquilo que corresponde, e aquilo que não corresponde e não nos interessa não o olhamos, ou então alimentamos uma raiva contra. Quer dizer: é a instrumentalização do outro. Este é o primeiro colossal e permanente pecado nos nossos relacionamentos: a instrumentalização do outro.
O segundo aspecto que sublinho, entre todos aqueles para os quais posso chamar a atenção, é uma modulação desta mutilação do outro e desta redução da história do outro, desta instrumentalização, que se chama indiferença pelo outro. (...)
O terceiro aspecto é aquele que a liturgia de ontem chamava 'apontar o dedo' [refere-se ao texto de Isaías, capítulo 58], ou seja, a ira, ou como ressentimento interior ou como ressentimento explosivo ou como ressentimento serpenteante (lamentação e murmuração).
Aquilo que origina estes graves erros na caridade fraterna, que a Quaresma nos convida a ficar de olho - ficar de olho quer dizer que, cada dia, vocês devem fazer o exame de consciência sobre estes pontos; fazer o exame de consciência significa pedir a Cristo que estas coisas sejam perdoadas pela Sua misericórdia, por isso reabsorvidas na nossa história, eliminadas; sem esta paciência não é pedir -, o que origina estes erros na caridade fraterna é a falta da 'simplicidade de coração', que é o aspecto psicológico da 'pobreza de espírito'."
(GIUSSANI, Luigi. La familiarità con Cristo: meditazioni sull'anno liturgico, 2008, pp. 64-66)

1942/Alemanha - 2010/Brasil

Publiquei, há quatro anos, o post que segue abaixo... Na ocasião - ano de campanha eleitoral -, eram evidentes, para mim, as semelhanças entre o que os jovens da Rosa Branca criticavam do regime nazi-fascista alemão e o regime que poderia ser descrito como ditadura edulcorada do lulo-petismo brasileiro. Hoje, passados mais quatro anos de totalitarismo edulcorado, de pobrismo paternalista esvaziador da consciência e da liberdade, de censura velada da imprensa, de controle estatal dentro de casa, de ignorância como sinônimo de poder, de culto à personalidade parva do rei da escatologia... e, enfim, de mediocridade elevada à categoria de valor, as parecenças se tornaram ainda mais gritantes... Não é demais lembrar, inclusive, as semelhanças de alguns personagens da política brasileira atual com os porcos Napoleão e Garganta de "A Revolução dos Bichos", de George Orwell... e por que não nos lembrarmos também do Partido tal como descrito em "1984", do mesmo escritor? Mas, deixo à avaliação de vocês o que esses jovens alemães escreveram há mais de 60 anos atrás.

No verão de 1942, um grupo de jovens universitários alemães começou a divulgar uma série de panfletos contra o Nazismo. Tratava-se da Rosa Branca: Sophie Scholl, Hans Scholl, Christoph Probst, Alexander Schmorell, Willi Graf, Kurt Huber, George Wittenstein e Hans Leipelt compunham o grupo de resistência passiva. No dia 27 de julho de 1942, escreveram o primeiro de seis panfletos, antes de começarem a ser perseguidos e alguns decapitados pelo regime nacional-socialista.

Segue uma tradução (do italiano) de um extrato do primeiro panfleto:

"Não há nada de mais indigno para um povo civil que deixar-se governar, sem nenhuma oposição, por um bando de irresponsáveis dominados pelos próprios instintos. Não é verdade que cada alemão hoje se envergonha do seu governo? E quem de nós tem idéia das dimensões da infâmia que um dia cairão sobre nós e sobre nossos filhos, quando o véu cair dos nossos olhos e enfim vierem à luz os crimes mais horríveis, infinitamente superiores a qualquer medida? Se o povo alemão está assim corrompido e deteriorado na sua mais íntima essência a ponto de renunciar, sem levantar nem menos uma mão e numa confiança irracional na discutível legitimidade da história (...); se renuncia à liberdade do homem de intervir no curso da história e submetê-lo às próprias decisões racionais; se os alemães, assim privados de toda individualidade, se tornaram uma massa insípida e vil, então, de fato, merecem a ruína.
Goethe fala dos alemães como de um povo trágico, semelhantes aos judeus e aos gregos, mas hoje se parecem mais a uma manada insignificante e privada de vontade, de adeptos, privados, nos extratos mais profundos, do próprio miolo e roubados da própria essência, prontos a deixar-se conduzir à ruína. Parece assim, mas não é assim; antes, com uma violência lenta, enganadora e sistemática, cada indivíduo foi induzido a caminhar em direção a uma prisão espiritual e apenas quando se descobriu acorrentado, se tornou consciente da desventura. Só poucos reconheceram a ruína iminente, e o prêmio para suas heróicas advertências foi a morte. Será preciso ainda falar do destino destes homens.
Se cada um espera que o outro comece, os mensageiros da Nemesi vingadora se aproximarão sempre mais, sem limites, e então ainda uma última vítima será lançada sem sentido nas mãos do demônio insaciável. Por isso, nesta última hora, cada indivíduo, consciente da própria responsabilidade como parte da civilização cristã e ocidental, deve opor-se até onde puder, trabalhar contra o flagelo da humanidade, contra o fascismo e contra todo sistema de Estado absoluto semelhante a este. Façam resistência passiva - resistência -, onde quer que estejam, impeçam que esta máquina de guerra atéia continue a funcionar, antes que seja muito tarde, antes que as últimas cidades se tornem, como Köln, um monte de escombros e antes que a última juventude do povo derrame seu sangue por causa da arrogância de um ser sub-humano. Não esqueçam que cada povo merece o regime que suporta!".

* Na foto: Alex Schmorell, Sophie Scholl e Hans Scholl

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

40 dias com Giussani

"Há um eco desta 'fidelidade ao mais significativo' [veja no post de ontem, clicando aqui] - que deve operar posturas de real mortificação, deve instaurar componentes de real mortificação -, há um teste, um resultado: a liberdade, a liberdade na coisa. Este é exatamente um teste. É disso que se percebe fisicamente a fidelidade ao mais significativo, e é isto que a mortificação opera, é isto que a mortificação exalta, edifica: a liberdade. Liberdade do resultado, de forma que, finalmente, a pessoa é capaz de querer bem ao outro, livre da resposta do outro, do modo de correspondência do outro: é, de fato, a liberdade, é verdadeiramente o amar e basta, o amor finalmente sem mentira. E, em segundo lugar, a liberdade de si mesmo, isto é, do gosto. A liberdade do resultado, do outro, e a liberdade do gosto".
(GIUSSANI, Luigi. La familiarità con Cristo: meditazioni sull'anno liturgico, 2008, p. 64).

Cartas do P.e Aldo 136

Asunción, 22 de fevereiro de 2010.

“Padre Aldo, o senhor crê nisto?” é a pergunta de Jesus a Marta diante do cadáver do irmão, e que Ele lança, em cada instante, à minha liberdade. E é maravilhoso viver respondendo à realidade: “sim, Senhor, eu creio”. Responder sempre e sempre com mais intensidade porque o Amor exige sempre mais Amor. Assim, hoje, disse “sim, creio”, olhando um de meus filhos morrer de câncer. Chamava-se Rômulo e tinha 19 anos. Ontem à noite, perguntei-lhe se queria se confessar. Fez uma confissão belíssima, respirando com dificuldade. O seu grito de perdão, o seu amor intenso por Jesus podia ser lido no esplendor do seu rosto. Logo depois, perto das 20h, quis receber a comunhão. Nesta manhã, quando cheguei com o Santíssimo para dar-lhe a comunhão, Jesus, naquele momento preciso, o tomou consigo. Eu estava para dizer “o Corpo de Cristo” e, de repente, a sua cabeça tombou como a de Jesus. Que morte santíssima! Que bela esta morte, como aquela de todos aqueles que morrem em nossa companhia. A dor é grande, mas maior é “sim, Jesus, eu creio”.
Como, em outro dia, quando me chamaram à casa para os mendigos São Joaquim, porque havia chegado um outro pobre Cristo. Parecia o servo de Iahweh de que fala Isaías: “Não tem nem forma nem beleza”. Toda a sujeira que revestia um esqueleto humano. Estavam limpando seu corpo como se fosse Jesus, e ele, do chuveiro (onde estava sentando em uma cadeira) perguntou quem era o padre, colocou juntas as mãos e me pediu a bênção. Mendigo, doente, havia pedido, na noite anterior, a um padre, que o deixasse dormir na calçada casa paroquial. E passou, então, a noite ali. De frente dessa casa paroquial estão as irmãs franciscanas, a quem pedia ajuda no alvorecer. E elas lhe diziam que tinham uma outra tarefa pastoral... de forma que lhe deram um pouco de comida e chamaram um táxi, dizendo: “Leve-o ao Padre Aldo”. E, assim, chegou... obviamente transtornando sempre a nossa comodidade, a organização, os esquemas... Mas, os meus amigos, os enfermeiros, que respiram sempre mais com as categorias que caracterizam a minha vida – as do imprevisto e da providência – o acolheram logo. Sim, porque sabem que, quando chega um pobre, a primeira coisa a fazer não é pedir ao chefe, ao responsável, mas é dizer “Tu, ó Cristo, entra. Tu, ó Cristo, toma, come e veste. Tu, ó Cristo, cheio de vermes (como Carlos que chegou, sem avisar, há alguns dias), vem que eu os tiro, um a um” etc.
Amigos, que depressão, câncer, miséria, fome... a grande aventura que vivemos entre amigos é apenas esta: “Sim, Senhor, eu creio que Tu sejas a resposta à minha humanidade”. E não é por que a doença deixa de existir e os problemas deixam de ser problemas... tudo é doloros, tudo pretende uma resposta... mas é tudo uma outra coisa dentro deste “Tu, ó meu Cristo”.
Eu senti necessidade de comunicar a vocês esta beleza, agora, tão logo celebrei os funerais do meu Rômulo, que ainda está ali, no leito, com seu belo rosto branco, cabelos pretos e olhos semi-cerrados, sinal estupendo da glória de Cristo, em quem já vive e vive definitivamente. Ele, finalmente, passou da fé e da esperança ao Amor: olhar eternamente o esplendor do rosto de Deus.
Rezem por mim e por meus doentes.
Padre Aldo

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

40 dias com Giussani

“O segundo tema, a segunda indicação (...) como fator do sinal da Quaresma, da realidade física, visível, que contém a ação sacramental, é a palavra ‘jejum’. Não se poderia usar a palavra ‘sacrifício’, porque esta palavra tinha um sentido propriamente religioso e de culto. Para nós, ‘sacrifício’ é mais genérico, por isso podemos usar, sem dúvida, a palavra ‘sacrifício’ ao invés da palavra ‘jejum’, ou ‘mortificação’ (...). Estamos falando no sentido restrito do termo: fazer sacrifícios, fazer mortificações ou fazer jejum. Imediatamente, isto significa uma temperança no ímpeto, no instinto, uma temperança no uso do instinto. Temperare, em latim, quer dizer governar segundo o objetivo, para o objetivo, por isso manter na ordem. A ordem é o relacionamento da coisa com o seu objetivo, seja como direção, seja como tempo. Temperar, governar a coisa ao objetivo é, por isso, manter a coisa na ordem dinâmica em direção ao seu objetivo.
Poderemos, então, traduzir o convite ao sacrifício, o convite à mortificação e ao jejum, como fidelidade ao ‘mais significativo’ na coisa. Na coisa em que nos devemos temperar, na coisa na qual nos devemos mortificar e sacrificar, a norma é a fidelidade àquilo que é significativo, ao significado da coisa. Digamos: o sacrifício é a fidelidade ao ‘mais significativo’. Há, de fato, um significado imediato da coisa: a pessoa sente fome, se lança; a pessoa sente uma afeição, ‘tac’, gruda. (...)
Mas, eu quero que nos detenhamos mais sobre a definição que dei de sacrifício como fidelidade àquilo que é mais significativo na coisa. No comer e no beber o que é mais significativo é que são instrumentos para o nosso caminho, não é o encher-se ou o sentir todo o palato reagir doce e vibrantemente ao contato com as moléculas do vinho. (...)
Mas, sobretudo, devemos centrar nossa atenção sobre a afetividade (...): é exatamente na afetividade que este sacrifício, esta mortificação, como fidelidade ao mais significativo, deve agir, e deve agir estando bem alerta, deve agir sem descanso, sem se adormentar, sem parênteses de esquecimento. Fidelidade ao mais significativo: na afeição, o mais significativo não é o aderir à reverberação imediata que a afeição (em qualquer nível e em qualquer cor, com qualquer nome que possa ter) tem. Por isso, há uma sintonia que, expressa de uma certa maneira, divide e há uma tensão que, se não é temperada, altera, faz sair do caminho. Seja como for, basta que vocês reflitam sobre a fórmula ‘fidelidade ao mais significativo’.”
(GIUSSANI, Luigi. La familiarità con Cristo: meditazioni sull’anno liturgico, 2008, pp. 61-63)

Luigi Giussani


Luigi Giussani
+ 22/02/2005

"Se não fosse teu, ó meu Cristo,
eu seria um nada".
(São Gregório Nazianzeno)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

40 dias com Giussani

"Antes de mais nada, é preciso que, neste período, respondamos o convite a recuperar mais profundamente o sentido da oração. E o sentido da oração cristã é um apenas: a espera de Cristo. (...) A oração cristã é a espera do Seu retorno, o pedido pelo Seu retorno, este maranathà, 'Vem, Senhor', com o qual conclui o Apocalipse. Se alguma oração nossa, se algum olhar nosso para Deus, se alguma reflexão não é sustentada por isso - 'Vem, Senhor' -, não é oração ou é oração ainda pagã. (...)
Esta essência da oração, o recordamos exatamente em vista da conversão quaresmal, do aprofundamento como conversão quaresmal, quer sublinhar sobretudo duas implicações.
a) A primeira implicação é a segurança; a segurança que, tendo nos chamado a pedi-Lo, a fazer memória dEle e pedi-Lo, Ele realizará seu desígnio em nós. (...)
b) Em segundo lugar - e esta é exatamente outra coisa totalmente esquecida na nossa oração -, se a oração é espera do Seu se manifestar, é ela que nos dá o 'como' verdadeiro do tempo, o 'como' do tempo que passa. A oração é o coração do tempo que passa - o coração! -, quer dizer que nos dá a postura, o 'como' do tempo que passa. O tempo que passa: levantar-se de manhã, tomar o café com leite, pegar o metrô, ir para o trabalho ou colocar-se na cozinha para reordenar todas as coisas, arrumar as camas, varrer, voltar para casa, falar com as pessoas. Este é o tempo que passa. O 'como' do tempo que passa, o coração do tempo que passa, por isso o valor, o significado do tempo que passa, é dado pela oração. Porque se a oração é espera do Seu retorno e o Seu retorno é a consistência de tudo, é exatamente na oração que o 'como' do tempo que passa acontece. (...)
Disse essas duas coisas porque, de fato, falta à nossa oração - primeira observação - esta segurança, exatamente porque não é pedido verdadeiro, não é pedir Deus, não é afirmar que Deus é tudo, mas é um pedir Deus de forma a que sirva à preocupação que temos de nós mesmos, e então é finita. Em segundo lugar, a oração é destacada do trabalho que fazemos. E isso é um sintoma feio (...). A nossa oração não é uma postura que tende a investir o trabalho que fazemos".
(GIUSSANI, Luigi. La familiarità con Cristo: meditazioni sull'anno liturgico, 2008, pp. 49-51, 52, 59).

sábado, 20 de fevereiro de 2010

40 dias com Giussani

"A Quaresma é o instrumento - instrumento sacramental - para incrementar nossa conversão. Quer dizer: operando o sinal quaresmal, "gerindo" as indicações pedagógicas nas quais a Igreja faz consistir o chamado de atenção quaresmal, acontece, pela potência do Espírito, algo em nós de muito maior do que, normalmente, nos dão nossos esforços. É um tempo sacramental, é um tempo que, destinado por Deus, nos dá um maior ímpeto de transformação. Por isso, as coisas e práticas de sempre, empreendidos, por obediência à Igreja, no tempo quaresmal, têm uma potência transformadora maior. De outra forma, é tudo nominalismo, são todos nomes para nós, e não têm diferença, não têm história (...). Por isso, justamente, a liturgia dizia que a Quaresma é um 'sinal sacramental', tem um valor sacramental pela conversão que os outros momentos do ano, os outros períodos do ano, não têm. Neste sentido é, de fato, uma espera não formal. (...)
Devemos, então, chamar nossa atenção, chamar atenção da nossa vida, para a verdade daqueles três pontos, para o uso daqueles três pontos. A Quaresma deve ser uma obediência a este convite da Igreja: oração, jejum e obras de caridade fraterna".
(GIUSSANI, Luigi. La familiarità con Cristo: meditazioni sull'anno liturgico, 2008, pp. 47-49)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Cartas do P.e Aldo 135



Asunción, 12 de fevereiro de 2010.

Caros amigos,
Não são os especialistas mas a certeza de alguém cujo “eu” é definido por “eu sou Tu que me fazes” o que permite a dois irmãozinhos, vítimas das piores violências que só uma mente doentia pode cometer, reencontrar a alegria de viver.
Olhem as duas cartinhas que me deram, ontem à noite, estes dois dos meus filhinhos. A menina é aquela que tinha desenhado o monstro e me tinha escrito: “Papai Aldo, proteja-me, não me deixe sozinha”. Hoje, seus rostos são como a primavera.
Amigos, não tenho nenhum especialista: somente a certeza de que “eu e eles somos um Tu que nos fazes”.
Hoje, batizamos um mendigo sem nome. Eu o chamei Aldo Trento. Está muito doente este meu pobre Jesus e não sei quanto tempo viverá... porém, parece muito comigo, porque também eu sou um mendigo, um pobre mendicante do Mistério.
Ainda hoje, me trouxeram uma criança de 10 anos, pesando mais ou menos 10kg, todo disforme, com apenas um pulmão, cego e mudo. Ninguém o queria, e nós temos todos os quartos ocupados. Eu o olhei, vi o rosto de Jesus e disse a um dos responsáveis: “tem lugar na capela do Santíssimo Sacramento exposto... coloquemo-lo ali, ao lado”. Agora, ambos se fazem companhia. Disseram-me que ele não pode viver sem oxigênio e sem uma assistência de 24h. “Padre, precisamos de muito dinheiro, porque será preciso contratar 3 enfermeiras e pagar o oxigênio necessário”.
Olhei nos olhos da responsável e lhe disse: “mas, este é Jesus... e você me vem com essa bobagem de dinheiro. Que fiquemos com uma dívida, porque, para Jesus, ou se dá tudo ou não se dá nada”.
Agora, está ali, com Jesus, como eu, quando estou doente. Pensem que bonito é olhar no rosto de Jesus, em cada instante: é uma surpresa contínua, que não nos deixa tranquilos nunca, porque a Ele a pessoa deve responder... e como é bonito dizer-lhe sempre “sim, ó Cristo”.
Confio-me às orações de vocês, para que o meu SIM seja a minha respiração.
Padre Aldo.

40 dias com Giussani

"Quão grandes são, ó Senhor, as tuas obras! [é Mistério, é o Pai], quão profundos são os teus pensamentos! O homem [...] insensato [não] entende isto (Sl 92, 5-6): esta confissão está na base de cada dia da Quaresma (...).
O homem néscio não sabe, nem o insensato entende isto (Sl 92, 6). Mas, se nós pecadoresbrotamos como a erva, o que nos espera é uma ruína eterna (cf. Sl 92, 7): a destruição para sempre de tudo aquilo que fazemos. Tudo o que fazemos é parecido com a degradação de uma parede caindo, úmida e podre, ou com as frutas podres que oferecemos com vergonha.
Mas Tu, Senhor, estás nas alturas para sempre (Sl 92, 8). Tu vences, penetras esta nossa distração e fraqueza, esta nossa insensatez. A Tua força penetra esta nossa estupidez, porque é maior do que a nossa miséria.
Eis aqui o riacho de letícia que nos chega da Quaresma, já que na liturgia deste tempo aparecem, todos os dias, estas insistências. Tu, Senhor, estás nas alturas: a Tua força é mais forte do que nossa fraqueza. E, por isso, quem quer ser Teu inimigo - quem quer sê-lo - perecerá e tudo aquilo que ele fizer na vida - o verá na medida em que os anos passam - será disperso, sem sentido, sem sabor (cf. Sl 92, 9).
Ao invés, Tu, que és mais forte do que a minha miséria, tens exaltado o meu poder, como o do boi selvagem (Sl 92, 10); os meus olhos desprezarão todos os dias aquilo que fiz, faço, farei: os meus olhos desprezarão vencendo. E contra os que me espreitam (Sl 92, 11), contra todas as sugestões que distraem, contra todas as sugestões feias que o tempo me oferece a cada minuto, por aquele veneno que foi colocado no tempo, por esta iniquidade que continuar a me espreitar, em mim algo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano (Sl 92, 12), florescerão também os ângulos da minha pessoa, florescerão todos os ângulos da minha casa; da Tua casa porque é dom Teu, é posse Tua reconhecida. Isto se faz luz, se faz caminho em meio a toda a tortura da nossa miséria: ser dom Teu e posse Tua, possuído por Ti.
Então, o objetivo pelo qual me deste a existência e tudo aquilo que me deste, o objetivo da Tua posse de mim ficará claro como horizonte da minha vida: para proclamar que o Senhor é reto: Ele é a minha rocha na qual não há injustiça (Sl 92, 15)."
(GIUSSANI, Luigi. Che cos'è l'uomo perché te ne curi?, 2000, pp. 98-99)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

40 dias com Giussani

"Certamente olhar Cristo no rosto e não fazer projetos de perfeição quer dizer que se olha Cristo no rosto desejando de verdade o bem, desejando realmente ser verdadeiro, desejando de verdade querer bem: 'desejando-te de verdade, ó Senhor'.
Aproxima-se a Semana Santa. Se uma pessoa entra na Quinta-Feira Santa, na Sexta-Feira Santa, no Sábado Santo, na Páscoa, nesses quatro dias, sem olhar Cristo no rosto e basta, mas preocupada com os próprios pecados ou com a perfeição ou então com as coisas a serem meditadas, sai desses dias cansada e retoma as coisas como antes. Olhar Cristo no rosto, ao contrário, muda. Mas, para que mude é preciso olhá-Lo no rosto de verdade, com o desejo do bem, com o desejo da verdade: 'De tudo sou capaz, Senhor, se estou contigo que és a minha força'; é um 'Tu' que domina e não as coisas a serem respeitadas".
(GIUSSANI, Luigi. É possível viver assim?, 2008, p. 236)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Mensagem do Papa Bento XVI para a Quaresma

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
O PAPA BENTO XVI
PARA A QUARESMA DE 2010

A justiça de Deus está manifestada
mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3, 21–22 )

Queridos irmãos e irmãs,
todos os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma revisão sincera da nossa vida à luz dos ensinamentos evangélicos . Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões sobre o tema vasto da justiça, partindo da afirmação Paulina: A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3,21 – 22 ).
Justiça: “dare cuique suum
Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra “justiça” que na linguagem comum implica “dar a cada um o que é seu – dare cuique suum”, segundo a conhecida expressão de Ulpiano, jurista romano do século III. Porém, na realidade, tal definição clássica não precisa em que é que consiste aquele “suo” que se deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa não lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência em plenitude, precisa de algo mais intimo que lhe pode ser concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado á sua imagem e semelhança. São certamente úteis e necessários os bens materiais – no fim de contas o próprio Jesus se preocupou com a cura dos doentes, em matar a fome das multidões que o seguiam e certamente condena a indiferença que também hoje condena centenas de milhões de seres humanos á morte por falta de alimentos, de água e de medicamentos –, mas a justiça distributiva não restitui ao ser humano todo o “suo” que lhe é devido. Como e mais do que o pão ele de facto precisa de Deus. Nota Santo Agostinho: se “ a justiça é a virtude que distribui a cada um o que é seu…não é justiça do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus” (De civitate Dei, XIX, 21).
De onde vem a injustiça?
O evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus, que se inserem no debate de então acerca do que é puro e impuro: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do interior do coração dos homens, que saem os maus pensamentos” (Mc 7,14-15.20-21). Para além da questão imediata relativo ao alimento, podemos entrever nas reacções dos fariseus uma tentação permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa exterior. Muitas das ideologias modernas, a bem ver, têm este pressuposto: visto que a injustiça vem “de fora”, para que reine a justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a sua atuação: Esta maneira de pensar - admoesta Jesus – é ingênua e míope. A injustiça, fruto do mal , não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal. Reconhece-o com amargura o Salmista:”Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-me no pecado” (Sl 51,7). Sim, o homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, adverte dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o egoísmo, consequência do pecado original. Adão e Eva, seduzidos pela mentira de Satanás, pegando no fruto misterioso contra a vontade divina, substituíram à lógica de confiar no Amor aquela da suspeita e da competição ; à lógica do receber, da espera confiante do Outro, aquela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho (cf. Gn 3,1-6) experimentando como resultado uma sensação de inquietação e de incerteza. Como pode o homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao amor?
Justiça e Sedaqah
No coração da sabedoria de Israel encontramos um laço profundo entre fé em Deus que “levanta do pó o indigente” (Sl 113,7) e justiça em relação ao próximo. A própria palavra com a qual em hebraico se indica a virtude da justiça, sedaqah, exprime-o bem. De fato sedaqah significa, dum lado a aceitação plena da vontade do Deus de Israel; do outro, equidade em relação ao próximo (cf. Ex 29,12-17), de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva (cf. Dt 10,18-19). Mas os dois significados estão ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais é senão a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da miséria do seu povo. Não é por acaso que o dom das tábuas da Lei a Moisés, no monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar Vermelho. Isto é, a escuta da Lei , pressupõe a fé no Deus que foi o primeiro a ouvir o lamento do seu povo e desceu para o libertar do poder do Egipto (cf. Ex s,8). Deus está atento ao grito do pobre e em resposta pede para ser ouvido: pede justiça para o pobre ( cf. Ecli 4,4-5.8-9), o estrangeiro (cf. Ex 22,20), o escravo (cf. Dt 15,12-18). Para entrar na justiça é portanto necessário sair daquela ilusão de auto – suficiência , daquele estado profundo de fecho, que á a própria origem da injustiça. Por outras palavras, é necessário um “êxodo” mais profundo do que aquele que Deus efectuou com Moisés, uma libertação do coração, que a palavra da Lei, sozinha, é impotente a realizar. Existe portanto para o homem esperança de justiça?
Cristo, justiça de Deus
O anuncio cristão responde positivamente à sede de justiça do homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: “ Mas agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus… mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os crentes. De facto não há distinção, porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como vitima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé” (3,21-25).
Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os outros. O fato de que a “expiação” se verifique no “sangue” de Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si “a maldição” que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que toca a Deus (cf. Gal 3,13-14). Mas isto levanta imediatamente uma objeção: que justiça existe lá onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira cada um não recebe o contrário do que é “seu”? Na realidade, aqui manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante. Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidencia que o homem não é um ser autárquico , mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência – indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.
Compreende-se então como a fé não é um fato natural, cómodo, obvio: é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitencia e da Eucaristia. Graças à ação de Cristo, nós podemos entrar na justiça “ maior”, que é aquela do amor (cf. Rm 13,8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar.
Precisamente fortalecido por esta experiencia, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.
Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Tríduo Pascal, no qual também este ano celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autentica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar a justiça. Com estes sentimentos, a todos concedo de coração, a Bênção Apostólica.
Vaticano, 30 de Outubro de 2009
BENEDICTUS PP. XVI

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Cartas do P.e Aldo 134

Asunción, 09 de fevereiro de 2010.

Caros amigos,
Deus nos dá sempre alguém para quem olhar. Às vezes, é um mendigo que pede algo e nós o olhamos vendo nele o rosto de Cristo, ou uma criança abandonada que se afeiçoa e a quem perguntamos o seu nome e sobrenome e ela responde: Gabriel Trento. Às vezes, é o Vice-Presidente da República que estava de férias no Brasil quando o ex-bispo Presidente o chama com urgência porque tem que ir visitar os seus amigos Chávez, Morales e Correa, e obviamente o Vice deve assumir a presidência interina. Assim, Federico, o Vice, parte e, com o carro, guiando ele mesmo, volta para casa ontem, domingo. Já era 21h quando acabava de entrar no território paraguaio e me ligava: “Padre Aldo, amanhã de manhã estarei aí às 5h30 para recitar as Laudes, me espere”. Fiquei comovido: um homem, um político que se preocupa em me avisar que estará aqui às 5h30 para recitar as Laudes. Amigos, vocês entendem? Quem de nós e dos nossos políticos se preocupa em viver um gesto como este das Laudes? Segunda-feira de manhã, às 5h, me levantei para preparar o café da manhã, como toda segunda-feira, para o Presidente em exercício, porque às 5h30, pontualmente, ele chega. Porém, desta vez, às 5h30 chegou o seu secretário e me disse: “Padre, Federico ligou para o senhor ontem à noite, por volta das 22h, para dizer que só conseguiria chegar em casa por volta da 1h da manhã e para perguntar-lhe se seria possível rezar as Laudes às 7h”. Que atenção... que consciência do Mistério! Às 7h ele chegou e eu lhe disse: “Presidente, agora tem a procissão com o Santíssimo na clínica e a adoração”. “Padre, vamos”. E assim, em companhia de Jesus, visitamos enfermo por enfermo... ele comungou de joelhos no chão, escutou o evangelho do dia com o comentário e, depois, tomamos café da manhã juntos. “Padre, não posso começar a semana sem este gesto com vocês, padres, porque como poderia enfrentar as obrigações, as incompreensões cotidianas? Para mim, rezar é reconhecer que não estou sozinho, mas que há um Outro que me faz as coisas”. Normalmente, ele chega sempre às 5h30 da manhã, porque às 6h este Presidente convoca o conselho de ministros, que, sendo um problema, se não olha primeiro no rosto de Jesus, lhe seria impossível suportar o rosto do Presidente e de certos ministros. Temos mesmo muita coisa para aprender.
Ciao.
Padre Aldo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A obsessão autoritária

por Sandro Vaia

Está bem que um ex-porta-voz do governo lulista nos afiança, do alto de uma conversa confidencial com "um dos ministros mais importantes do governo Lula", que esse negócio de "controle social da imprensa" é papo furado. Para nos tranquilizar diz que podemos "tirar o cavalinho da chuva" porque esse negócio não vai rolar - pelo menos neste governo. (Quem duvida procure ler De onde vem tanto medo?, de Ricardo Kotscho, publicado no blog do autor e republicado no Observatório da Imprensa.)
Ufa, se estamos livres do perigo, como nos garante Kotscho, por que diabos vamos ficar insistindo nesse assunto?
Há pelo menos uma razão para isso: existe um grupo de pessoas que tem uma obsessão paranoica pela palavra "controle" (e todas as suas sequelas) e sempre que podem a encaixam em qualquer projeto em que procuram edificar um futuro glorioso para nós, para nossos filhos e nossos netos - embora não lhes tenhamos concedido delegação para tanto.
Vai que um dia a sociedade relaxe a vigilância e baixe a guarda, acreditando na palavra de "um dos ministros mais importantes do governo Lula", e elas consigam, enfim, emplacar o seu sonho dourado - que é não apenas o de controlar o que chamam pejorativamente de "mídia", mas controlar tudo o que lhes pareça controlável. Afinal, não existe ideologia esquerdista que não inclua no sonho terminal de sua utopia instalada o controle amplo, geral e irrestrito de todas as atividades humanas. Como só eles sabem onde mora o sol, generosamente querem que todos nós usufruamos sua luz.
Depois do fracasso da tentativa de emplacar um Conselho Nacional de Comunicação, usaram um projétil de nome insuspeito - Plano Nacional de Direitos Humanos-3 (PNDH-3) - para empacotar outra tentativa de controle. Controle é uma palavra que de suspeita se tornou insuportável, e até um dos ideólogos do jornalismo esquerdista, Bernardo Kucinski, professor da USP, recomendou aos companheiros que parem de usá-la. Nem a tentativa de enobrecê-la acoplando-a ao qualificativo "social" caiu bem. Enquanto o Houaiss continuar insistindo em definir "controle" como "poder, domínio ou autoridade sobre alguém ou algo", a parte da sociedade que preza o livre-arbítrio - tal qual o cachorro de Pavlov - vai continuar rosnando cada vez que ela for pronunciada.
O amigo de Lula pergunta, em seu artigo, de onde vem tanto medo, uma vez que o presidente nunca mexeu uma palha contra a liberdade de imprensa e nunca deu sinais de ser a favor da censura. Noves fora duas ou três bravatas verbais ambíguas disparadas a esmo em algum palanque eleitoral e a tentativa de expulsão de Larry Rohter, correspondente do jornal The New York Times, o presidente, de fato, nunca tomou nenhuma iniciativa concreta para calar a imprensa. Mas é verdade também que nunca tomou nenhuma iniciativa concreta para aplicar o programa do PT em seu governo. Ao permitir a edição desse calhamaço chamado PNDH-3, e assiná-lo embaixo, Lula parece ter feito o papel do psiquiatra que conduz seus pacientes a um desabafo catártico para aliviar-lhes os pesos da consciência. Já que nada mais fizemos do que continuar aplicando o programa econômico neoliberal de nossos antecessores, vamos despejar sobre a cabeça do País 29 mil palavras do mais puro malte petista, sem blended de nenhuma espécie. Se colar, colou.
Eis aí por que temos medo: puseram a caneta na mão dos inspetores de quarteirão - e, como se sabe, é deles que temos de ter medo, mais que dos chefes.
É a última chance - pelo menos neste governo - que os inspetores de quarteirão do petismo têm de pôr em prática suas ideias. Por isso no PNDH-3 estão as ideias recorrentes da vulgata petista, entre as quais as mais vistosas e típicas são estas:
- O desprezo à democracia representativa, substituída por um arremedo de democracia direta, que são as conferências das "organizações sociais", por suposto, formadas pelos militantes dos partidos que apoiam o governo;
- a tentativa de abastardamento do Poder Judiciário, substituído pela mediação das "organizações sociais" em casos de conflitos de invasões de terras;
- a tentativa de criação de um ranking de empresas de mídia sob o aspecto de sua atuação em relação aos direitos humanos (com critérios ditados por quem? Claro, pelas "organizações sociais" controladas pela máquina partidária);
- a criação de uma "Comissão da Verdade" para julgar as violações dos direitos humanos cometidas por uma - e só uma - das partes em conflito depois do golpe militar de 1964; a nomeação de uma instância sindical para atuar nos processos de licenciamento ambiental de empresas, oferecendo mais um criador de dificuldades para vender facilidades.
Os governistas estão indignados com a reação da imprensa e de muitos setores da sociedade contra os aspectos mais "controladores" do PNDH-3, pois, afinal de contas, dizem, as conclusões foram "tiradas" (é assim que se fala ainda, como nas velhas assembleias estudantis?) em dezenas, centenas, quase milhares de conferências locais, regionais, municipais, estaduais, nacionais, etc., das quais participaram 14 mil pessoas. E essa fica sendo a conta da peculiar democracia petista: se, num país de 190 milhões de habitantes, 14 mil militantes foram mobilizados para essa prática de democracia direta, o problema da legitimidade está resolvido. Pouco importa se os 14 mil foram tirados do mesmo embornal ideológico e que não tenham sido escolhidos por nenhum mecanismo representativo legitimado e reconhecido pelo resto da sociedade. O dedazo ideológico substitui a representatividade e quem for contra esse método é contra os direitos humanos, segundo o diktat petista.
Pode ser que nada disso seja para valer (o presidente já se cansou de teorizar sobre "bravatas", lembram-se?), mas é sempre bom ficar atento. O autoritarismo costuma instalar-se disfarçado de justiceiro.

Sandro Vaia, jornalista, ex-diretor de redação do jornal O Estado de S. Paulo, é articulista do Instituto Millenium

* Extraído d'O Estado de São Paulo, do dia 08 de Fevereiro de 2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Sem medo do passado

por Fernando Henrique Cardoso

O presidente Lula passa por momentos de euforia que o levam a inventar inimigos e enunciar inverdades. Para ganhar sua guerra imaginária distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos. Por trás dessas bravatas estão o personalismo e o fantasma da intolerância: só eu e os meus somos capazes de tanta glória. Houve quem dissesse: "O Estado sou eu." Lula dirá: "O Brasil sou eu!" Ecos de um autoritarismo mais chegado à direita.
Lamento que Lula se deixe contaminar por impulsos tão toscos e perigosos. Ele possui méritos de sobra para defender a candidatura que queira. Deu passos adiante no que fora plantado por seus antecessores. Para que, então, baixar o nível da política à dissimulação e à mentira?
A estratégia do petismo-lulista é simples: desconstruir o inimigo principal, o PSDB e FHC (muita honra para um pobre marquês...). Por que seríamos o inimigo principal? Porque podemos ganhar as eleições. Como desconstruir o inimigo? Negando o que de bom foi feito e apossando-se de tudo o que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido. Onde está a política mais consciente e benéfica para todos? No ralo.
Na campanha haverá um mote - o governo do PSDB foi "neoliberal" - e dois alvos principais: a privatização das estatais e a suposta inação na área social. Os dados dizem outra coisa. Mas os dados, ora, os dados... O que conta é repetir a versão conveniente. Há três semanas Lula disse que recebeu um governo estagnado, sem plano de desenvolvimento. Esqueceu-se da estabilidade da moeda, da Lei de Responsabilidade Fiscal, da recuperação do BNDES, da modernização da Petrobrás, que triplicou a produção depois do fim do monopólio e, premida pela competição e beneficiada pela flexibilidade, chegou à descoberta do pré-sal. Esqueceu-se do fortalecimento do Banco do Brasil, capitalizado com mais de R$ 6 bilhões, e junto com a Caixa Econômica, libertados da politicagem e recuperados para a execução de políticas de Estado. Esqueceu-se dos investimentos do Programa Avança Brasil, que, com menos alarde e mais eficiência que o PAC, permitiu concluir um número maior de obras essenciais ao País. Esqueceu-se dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal, de que a Embraer, hoje orgulho nacional, só pôde dar o salto que deu depois de privatizada, de que essas empresas continuam em mãos brasileiras, gerando empregos e desenvolvimento no País.
Esqueceu-se de que o País pagou um custo alto por anos de "bravata" do PT e dele próprio. Esqueceu-se de sua responsabilidade e de seu partido pelo temor que tomou conta dos mercados em 2002, quando fomos obrigados a pedir socorro ao FMI - com aval de Lula, diga-se - para que houvesse um colchão de reservas no início do governo seguinte. Esqueceu-se de que foi esse temor que atiçou a inflação e levou seu governo a elevar o superávit primário e os juros às nuvens em 2003, para comprar a confiança dos mercados, mesmo que à custa de tudo o que haviam pregado, ele e seu partido, nos anos anteriores.
Os exemplos são inúmeros para desmontar o espantalho petista sobre o suposto "neoliberalismo" peessedebista. Alguns vêm do próprio campo petista. Vejam o que disse o atual presidente do partido, José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobrás, citado por Adriano Pires no Brasil Econômico de 13/1: "Se eu voltar ao parlamento e tiver uma emenda propondo a situação anterior (monopólio), voto contra. Quando foi quebrado o monopólio, a Petrobrás produzia 600 mil barris por dia e tinha 6 milhões de barris de reservas. Dez anos depois produz 1,8 milhão por dia, tem reservas de 13 bilhões. Venceu a realidade, que muitas vezes é bem diferente da idealização que a gente faz dela."
O outro alvo da distorção petista se refere à insensibilidade social de quem só se preocuparia com a economia. Os fatos são diferentes: com o real, a população pobre diminuiu de 35% para 28% do total. A pobreza continuou caindo, com alguma oscilação, até atingir 18% em 2007, fruto do efeito acumulado de políticas sociais e econômicas, entre elas o aumento do salário mínimo. De 1995 a 2002 houve um aumento real de 47,4%; de 2003 a 2009, de 49,5%. O rendimento médio mensal dos trabalhadores, descontada a inflação, não cresceu espetacularmente no período, salvo entre 1993 e 1997, quando saltou de R$ 800 para aproximadamente R$ 1.200. Hoje se encontra abaixo do nível alcançado nos anos iniciais do Plano Real.
Por fim, os programas de transferência direta de renda (hoje Bolsa-Família), vendidos como uma exclusividade deste governo. Na verdade, eles começaram num município (Campinas) e no Distrito Federal, estenderam-se para Estados (Goiás) e ganharam abrangência nacional em meu governo. O Bolsa-Escola atingiu cerca de 5 milhões de famílias, às quais o governo atual juntou outros 6 milhões, já com o nome de Bolsa-Família, englobando numa só bolsa os programas anteriores.
É mentira, portanto, dizer que o PSDB "não olhou para o social". Não apenas olhou como fez e fez muito nessa área: o SUS saiu do papel para a realidade; o programa da aids tornou-se referência mundial; viabilizamos os medicamentos genéricos, sem temor às multinacionais; as equipes de Saúde da Família, pouco mais de 300 em 1994, tornaram-se mais de 16 mil em 2002; o programa Toda Criança na Escola trouxe para o ensino fundamental quase 100% das crianças de 7 a 14 anos. Foi também no governo do PSDB que se pôs em prática a política que assiste hoje mais de 3 milhões de idosos e deficientes (em 1996 eram apenas 300 mil).
Eleições não se ganham com o retrovisor. O eleitor vota em quem confia e lhe abre um horizonte de esperanças. Mas se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer.

* Extraído d'O Estado de São Paulo, do dia 07 de fevereiro de 2010.