quarta-feira, 31 de março de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Quarta-Feira da Semana Santa

Evangelho - Mt 26,14-25
Naquele tempo: Um dos doze discípulos, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes e disse: "O que me dareis se vos entregar Jesus?" Combinaram, então, trinta moedas de prata. E daí em diante, Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus. No primeiro dia da festa dos Ázimos, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: "Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?" Jesus respondeu: "Ide à cidade, procurai certo homem e dizei-lhe: 'O Mestre manda dizer: o meu tempo está próximo, vou celebrar a Páscoa em tua casa, junto com meus discípulos'." Os discípulos fizeram como Jesus mandou e prepararam a Páscoa. Ao cair da tarde, Jesus pôs-se à mesa com os doze discípulos. Enquanto comiam, Jesus disse: "Em verdade eu vos digo, um de vós vai me trair." Eles ficaram muito tristes e, um por um, começaram a lhe perguntar: "Senhor, será que sou eu?" Jesus respondeu: "Quem vai me trair é aquele que comigo põe a mão no prato. O Filho do Homem vai morrer, conforme diz a Escritura a respeito dele. Contudo, ai daquele que trair o Filho do Homem! Seria melhor que nunca tivesse nascido!" Então Judas, o traidor, perguntou: "Mestre, serei eu?" Jesus lhe respondeu: "Tu o dizes."

Comentário feito por Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) (1891-1942)
carmelita, mártir, co-padroeira da Europa

Sabemos, pelos relatos evangélicos, que Cristo orou como judeu crente e fiel à Lei. [...] Ele pronunciou as velhas orações de bênção do pão, do vinho e dos frutos da terra que ainda hoje se recitam, como testemunham os relatos da Última Ceia, totalmente consagrada a uma das mais sagradas obrigações religiosas: a solene refeição pascal, que comemorava a libertação da servidão do Egito. Talvez seja aqui que temos a visão mais profunda da oração de Cristo, e como que a chave que nos introduz na oração de toda a Igreja. [...] A bênção e a partilha do pão e do vinho faziam parte do rito da refeição pascal. Mas uma e outra recebem aqui um sentido inteiramente novo. Aqui nasce a vida da Igreja. É certo que só no Pentecostes é que a Igreja nasce como comunidade espiritual e visível; mas aqui, na Ceia, cumpre-se o enxerto do sarmento na cepa que torna possível a efusão do Espírito. As antigas orações de bênção tornaram-se, nos lábios de Cristo, palavras criadoras de vida. Os frutos da terra transformaram-se na Sua carne e no Seu sangue, encheram-se da Sua vida. [...] A Páscoa da Antiga Aliança veio a ser a Páscoa da Nova Aliança.

terça-feira, 30 de março de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Terça-Feira da Semana Santa

Evangelho - Jo 13,21-33.36-38
Naquele tempo: Estando à mesa com seus discípulos, Jesus ficou profundamente comovido e testemunhou: "Em verdade, em verdade vos digo, um de vós me entregará." Desconcertados, os discípulos olhavam uns para os outros, pois não sabiam de quem Jesus estava falando. Um deles, a quem Jesus amava, estava recostado ao lado de Jesus. Simão Pedro fez-lhe um sinal para que ele procurasse saber de quem Jesus estava falando. Então, o discípulo, reclinando-se sobre o peito de Jesus, perguntou-lhe: "Senhor, quem é?" Jesus respondeu: "É aquele a quem eu der o pedaço de pão passado no molho." Então Jesus molhou um pedaço de pão e deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. Depois do pedaço de pão, Satanás entrou em Judas. Então Jesus lhe disse: "O que tens a fazer, executa-o depressa." Nenhum dos presentes compreendeu por que Jesus lhe disse isso. Como Judas guardava a bolsa, alguns pensavam que Jesus lhe queria dizer: "Compra o que precisamos para a festa", ou que desse alguma coisa aos pobres. Depois de receber o pedaço de pão, Judas saiu imediatamente. Era noite. Depois que Judas saiu, disse Jesus: "Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele. Se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo. Filhinhos, por pouco tempo estou ainda convosco. Vós me procurareis, e agora vos digo, como eu disse também aos judeus: Para onde eu vou, vós não podeis ir. Simão Pedro perguntou: "Senhor, para onde vais?" Jesus respondeu-lhe: "Para onde eu vou, tu não me podes seguir agora, mas me seguirás mais tarde." Pedro disse: "Senhor, por que não posso seguir-te agora? Eu darei a minha vida por ti!" Respondeu Jesus: "Darás a tua vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: o galo não cantará antes que me tenhas negado três vezes."

Comentário feito por Santo Agostinho (354-430)
Bispo de Hipona (Norte de África) e Doutor da Igreja

Quando o Senhor, Pão da Vida (Jo 6, 35), deu pão a este homem morto e marcado, entregando a quem traía o pão vivo, disse-lhe: "O que tens a fazer, fá-lo depressa". Não ordenava o crime; descobria o mal em Judas, e anunciava-nos o nosso bem. O fato de Cristo ser entregue não terá sido o pior para Judas e o melhor para nós? Por conseguinte, Judas prejudica-se, beneficiando-nos sem o saber. "O que tens a fazer, fá-lo depressa." Palavras de um homem que está pronto, não de um homem irritado. Palavras que não anunciam a punição de quem trai, mas a recompensa do Redentor, dAquele que resgata. Ao dizer: "O que tens a fazer, fá-lo depressa", Cristo, mais que condenar o crime de infidelidade, procura apressar a salvação dos crentes. "Foi entregue por causa das nossas faltas; como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela" (Rom 4, 25; Ef 5, 25). É isso que leva o apóstolo Paulo a dizer: "Amou-me e a Si mesmo Se entregou por mim" (Gal 2, 20). De fato, ninguém entregava Cristo se Ele mesmo não Se tivesse entregado. [...] Quando Judas O trai, é Cristo que Se entrega; um negocia a sua venda, o Outro o nosso resgate. "O que tens a fazer, fá-lo depressa": não que tenhas poder para tal, mas porque é a vontade dAquele que pode tudo. [...] "Tendo tomado o bocado de pão, saiu logo. Fazia-se noite". E aquele que saía era a noite. Então, quando a noite saiu, Jesus disse: "Agora o Filho do Homem foi glorificado!" "Um dia passa ao outro esta mensagem" (Sl 18, 3), ou seja, Cristo confiou-Se aos Seus discípulos para que O escutassem e O seguissem no amor. [...] Algo de semelhante acontecerá quando este mundo, vencido por Cristo, acabar. Então, o joio deixará de se misturar com o trigo, "então, os justos resplandecerão como o Sol, no Reino de seu Pai" (Mt 13, 43).

segunda-feira, 29 de março de 2010

Muito maior que o pecado

Na última Escola de Comunidade, padre Carrón, lendo o editorial de Passos dedicado à “carta que o Papa escreveu diante de um fato tão brutal como o abuso de crianças”, sublinhou que esta carta “é um testemunho da ‘comoção’ da qual fala a Escola de Comunidade, que nos permite olhar tudo, sem eliminar nada, até chegar ao juízo. Visto que todos os jornais carregam um olhar diferente, nós não podemos fazer esta Escola de Comunidade sem falar e sem olhar esse fato de um outro modo, ajudados pelo testemunho do Papa, pois a pergunta é: ‘De onde nasce esse olhar?’”.
Por isso é muito importante que nesses dias leiamos, tornemos conhecido e difundamos o máximo possível nos ambientes o texto publicado.

Haveria muito o que discutir a respeito do que levou Bento XVI a escrever a Carta aos católicos da Irlanda. Poderíamos fazê-lo partindo dos fatos, dos números e dos dados que – lidos corretamente – falam de uma realidade muito menos imponente do que dá a entender a feroz campanha encetada pela mídia; ou das contradições dos que, nos mesmos jornais, acusam – com razão – certas coisas ignóbeis, mas algumas páginas depois justificam tudo e todos, sobretudo em matéria de sexo. Seria possível, e talvez isso ajudasse a entender melhor o contexto de uma Igreja sob ataque, independentemente dos seus erros. Só que o gesto humilde e corajoso do Papa levou a coisa para outros patamares, para o centro da questão.
Claro, a ferida existe. E é gravíssima. Do tipo da que levou Cristo a dizer aquelas palavras de fogo: “Quem escandalizar um só destes pequeninos que creem em mim, seria melhor que lhe pendurassem no pescoço uma pedra e o jogassem no abismo...”.
Há coisas torpes na Igreja. Isso foi reconhecido, de modo claro e forte, pelo próprio Joseph Ratzinger na Via Sacra de cinco anos atrás, pouco antes de se tornar Papa, e que nunca parou de lembrar depois, com realismo. Há o pecado, inclusive grave. Há o mal e o abismo de dor trazido pelo pecado. E há também a exigência de se fazer todo o possível – até com dureza – para frear esse mal e reparar essa dor. O Papa o está fazendo, como prova eloquentemente a sua Carta, ao lembrar que os culpados terão de responder “diante do Deus onipotente, como também perante os tribunais” humanos.
Mas, justamente por essas razões, o verdadeiro centro da questão, o focus esquecido, está em outro lugar. A par de todos os limites e dentro da humanidade ferida da Igreja há ou não há algo maior do que o pecado? Radicalmente maior que o pecado? Há algo que pode romper a medida inexorável do nosso mal? Algo que, como escreve o Pontífice, “tem o poder de perdoar até o mais grave pecado e de tirar o bem inclusive do mais terrível dos males?”.
Esse é o ponto: “Deus teve compaixão do nosso nada”, lembrava Dom Giussani numa frase usada por CL no cartaz de Páscoa: “Não só: Deus se comoveu com a nossa traição, com a nossa rude pobreza, esquecida e traidora, com a nossa mesquinhez. É uma compaixão, uma piedade, uma paixão. Teve piedade de mim”.
É isso que a Igreja traz ao mundo, não certamente por mérito, bravura ou coerência dos seus membros: a compaixão de Deus é pela nossa mesquinhez. Algo muito maior do que os nossos limites. A única coisa infinitamente maior do que nossos limites. Se não partirmos daí, não compreenderemos nada. Tudo fica incompreensível, literalmente.
Costumamos nos esquivar dessa compaixão, tentar escapar dela. Às vezes é dentro da própria Igreja que se reduz a fé a uma ética, e a moralidade a um impossível recurso solitário às leis, parecendo até que sentir necessidade desse abraço seja uma coisa de que deveríamos nos envergonhar. Mas se nos esquecermos de Cristo, se descartarmos totalmente a medida diferente que Ele introduz no mundo agora, através da Igreja, não teremos mais os termos necessários para entendermos e julgarmos a própria Igreja. Então, fica fácil confundir a atenção às vítimas e à sua história com silêncio conivente, e a prudência em relação aos culpados (verdadeiros ou presumidos) – acusados, talvez, por vozes que só se levantaram décadas depois – com a vontade de criar “cortina de fumaça” (o que, às vezes, evidentemente, ocorreu mesmo). Torna-se quase que inevitável falar mal do celibato, sem mencionar sequer o valor real da virgindade. E torna-se impossível entender por que a Igreja pode ser dura e, ao mesmo tempo, materna com os seus sacerdotes que erram. Pode puni-los com severidade e exigir que paguem a pena e reparem o mal feito (é o que ela vem fazendo, não de hoje, pois sempre o fez), mas sem romper – quando possível – o elo de ligação, por ser a única coisa que poderá redimi-los. Pode pedir aos seus filhos “sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai”, não para exigir deles algo impossível, mas para despertar neles a tensão a viver a misericórdia com que Deus nos abraça (“sede misericordiosos como é misericordioso o Pai que está nos céus”). É justamente por isso que a Igreja pode educar. Que, no fundo, é a verdadeira questão posta em discussão pelos que estão acusando (“vejam como até os padres erram, e erram feio! Como podemos confiar a eles as nossas crianças?”), como se o título de mestra da Igreja dependesse da coerência dos seus filhos, e não dEle. De Cristo. Da Presença que – em meio a todos os erros e horrores cometidos – torna possível no mundo um abraço como aquele do Filho pródigo retratado por Chagall no mesmo cartaz de Páscoa. Ali, junto com a frase de Giussani, há uma outra, de Bento XVI: “No fundo, converter-se a Cristo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto-suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência, a exigência do seu perdão e da sua amizade”.
É isso: o abraço de Cristo, dentro da nossa humanidade ferida e indigente e para além do mal que podemos cometer. Se a Igreja – com todos os seus limites – não pudesse oferecer isso ao mundo, inclusive às vítimas dessas barbaridades, então sim estaríamos perdidos. Porque o mal continuaria a existir, mas aí seria impossível vencê-lo.

Comunhão e Libertação

Aviso aos navegantes

Estou fora de Sampa, pessoal! Por isso, nos próximos dias, não vou conseguir postar os textos do "40 dias com Giussani". Consegui, agora, num intervalinho dos trabalhos do congresso, postar o "comentário ao evangelho do dia", mas não sei se vou ter tempo até quarta-feira. Vou me esforçar, porém!
Abraço em todos.
P.S.: tenho duas cartas do P.e Aldo para traduzir... em breve, postarei!

Comentário ao evangelho do dia

Segunda-Feira da Semana Santa

Evangelho - Jo 12,1-11
Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi para Betânia, onde morava Lázaro, que ele havia ressuscitado dos mortos. Ali ofereceram a Jesus um jantar; Marta servia e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Maria, tomando quase meio litro de perfume de nardo puro e muito caro, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa inteira ficou cheia do perfume do bálsamo. Então, falou Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, aquele que o havia de entregar: "Por que não se vendeu este perfume por trezentas moedas de prata, para as dar aos pobres?" Judas falou assim, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão; ele tomava conta da bolsa comum e roubava o que se depositava nela. Jesus, porém, disse: "Deixa-a; ela fez isto em vista do dia de minha sepultura. Pobres, sempre os tereis convosco, enquanto a mim, nem sempre me tereis." Muitos judeus, tendo sabido que Jesus estava em Betânia, foram para lá, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Jesus havia ressuscitado dos mortos. Então, os sumos sacerdotes decidiram matar também Lázaro, porque, por causa dele, muitos deixavam os judeus e acreditavam em Jesus.

Comentário feito por Guilherme Saint-Thierry (c. 1085-1148)
monge beneditino depois cisterciense

Desde a minha infância, não parei de pecar, e Tu não cessaste de me fazer bem. [...] Contudo, Senhor, que o Teu julgamento se transforme em misericórdia. Toma a ocasião do pecado para condenar o pecado. [...] Que o meu coração seja digno do fogo do Teu perfeito amor, que o Seu calor intenso faça sair de mim e consuma todo o veneno do pecado! Que ponha a nu e afogue nas lágrimas dos meus olhos toda a infecção da minha consciência. Que a Tua cruz crucifique tudo o que a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho da vida corromperam devido à minha longa negligência. Senhor, quem o desejar pode ouvir-me e desprezar a minha confissão: que me olhe prostrado como a pecadora aos pés da Tua misericórdia, banhando-os com as lágrimas do meu coração, vertendo sobre eles o perfume de uma terna devoção (Lc 7, 38). Que todos os meus recursos, por mais pobres que sejam, de corpo e alma, sejam usados para comprar este perfume que Te agrada. Espalhá-lo-ei sobre a Tua cabeça, sobre Ti cuja cabeça é Deus; e sobre os Teus pés, sobre Ti cuja ponta é a nossa natureza fraca. Ainda que o fariseu murmure, Tu, meu Deus, tem piedade de mim! Ainda que o ladrão aperte os cordões da bolsa rangendo os dentes, desde que eu Te agrade, pouco me importa incomodar seja quem for. Ó amor do meu coração, que em cada dia eu verta sem parar este perfume, porque espalhando-o sobre Ti, espalho-o também sobre mim. [...] Concede-me o dom de Te entregar lealmente tudo o que tenho, tudo o que sei, tudo o que sou, tudo o que posso! Que fique sem nada! Estou aos pés da Tua misericórdia, aonde permanecerei, aonde chorarei, até que me faças escutar a Tua suave voz, o julgamento da Tua boca, a sentença da Tua e da minha justiça: "São-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou" (Lc 7, 47).

domingo, 28 de março de 2010

Comentário ao evangelho do dia


Domingo de Ramos

Evangelho - Procissão - Lc 19,28-40
Naquele tempo: Jesus caminhava à frente dos discípulos, subindo para Jerusalém. Quando se aproximou de Betfagé e Betânia, perto do monte chamado das Oliveiras, enviou dois de seus discípulos, dizendo: "Ide ao povoado ali na frente. Logo na entrada encontrareis um jumentinho amarrado, que nunca foi montado. Desamarrai-o e trazei-o aqui. Se alguém, por acaso, vos perguntar: 'Por que desamarrais o jumentinho?', respondereis assim: 'O Senhor precisa dele'." Os enviados partiram e encontraram tudo exatamente como Jesus lhes havia dito. Quando desamarravam o jumentinho, os donos perguntaram: "Por que estais desamarrando o jumentinho?" Eles responderam: "O Senhor precisa dele." E levaram o jumentinho a Jesus. Então puseram seus mantos sobre o animal e ajudaram Jesus a montar. E enquanto Jesus passava, o povo ia estendendo suas roupas no caminho. Quando chegou perto da descida do monte das Oliveiras, a multidão dos discípulos, aos gritos e cheia de alegria, começou a louvar a Deus por todos os milagres que tinha visto. Todos gritavam: "Bendito o Rei, que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!" Do meio da multidão, alguns dos fariseus disseram a Jesus: "Mestre, repreende teus discípulos!" Jesus, porém, respondeu: "Eu vos declaro: se eles se calarem, as pedras gritarão."

Evangelho - Lc 22,14-23,56
Quando chegou a hora, Jesus pôs-se à mesa com os apóstolos e disse: "Desejei ardentemente comer convosco esta ceia pascal, antes de sofrer. Pois eu vos digo que nunca mais a comerei, até que ela se realize no Reino de Deus". Então Jesus tomou um cálice, deu graças e disse: "Tomai este cálice e reparti entre vós; pois eu vos digo que, de agora em diante, não mais bebereis do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus". Fazei isto em memória de mim. A seguir, Jesus tomou um pão, deu graças, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo: "Isto é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim". Depois da ceia, Jesus fez o mesmo com o cálice, dizendo: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós". Mas ai daquele por meio de quem o Filho do Homem é entregue. "Todavia, a mão de quem me vai entregar está comigo, nesta mesa. Sim, o Filho do Homem vai morrer, como está determinado. Mas ai daquele homem por meio de quem ele é entregue." Então os apóstolos começaram a perguntar uns aos outros qual deles haveria de fazer tal coisa. Houve também uma discussão entre eles sobre qual deles deveria ser considerado o maior. Jesus, porém, lhes disse: "Os reis das nações dominam sobre elas, e os que têm poder se fazem chamar benfeitores. Entre vós, não deve ser assim. Pelo contrário, o maior entre vós seja como o mais novo, e o que manda, como quem está servindo. Afinal, quem é o maior: quem está sentado à mesa, ou quem está servindo? Não é quem está sentado à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve. Vós ficastes comigo em minhas provações. Por isso, assim como o meu Pai me confiou o Reino, eu também vos confio o Reino. Vós havereis de comer e beber à minha mesa no meu Reino, e sentar-vos em tronos para julgar as doze tribos de Israel. Tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos. Simão, Simão! Olha que Satanás pediu permissão para vos peneirar como trigo. Eu, porém, rezei por ti, para que tua fé não se apague. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos." Mas Simão disse: "Senhor, eu estou pronto para ir contigo até mesmo à prisão e à morte!" Jesus, porém, respondeu: "Pedro, eu te digo que hoje, antes que o galo cante, três vezes tu negarás que me conheces." É preciso que se cumpra em mim a palavra da Escritura. E Jesus lhes perguntou: "Quando vos enviei sem bolsa, sem sacola, sem sandálias, faltou-vos alguma coisa?" Eles responderam: "Nada." Jesus continuou: "Agora, porém, quem tiver bolsa, deve pegá-la; do mesmo modo, quem tiver uma sacola; e quem não tiver espada, venda o manto para comprar uma. Porque eu vos digo: É preciso que se cumpra em mim a palavra da Escritura: 'Ele foi contado entre os malfeitores'. Pois o que foi dito a meu respeito tem de se realizar." Mas eles disseram: "Senhor, aqui estão duas espadas." Jesus respondeu: "Basta." Tomado de angústia, Jesus rezava com mais insistência. Jesus saiu e, como de costume, foi para o monte das Oliveiras. Os discípulos o acompanharam. Chegando ao lugar, Jesus lhes disse: "Orai para não entrardes em tentação." Então afastou-se a uma certa distância e, de joelhos, começou a rezar: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua!" Apareceu-lhe um anjo do céu, que o confortava. Tomado de angústia, Jesus rezava com mais insistência. Seu suor tornou-se como gotas de sangue que caíam no chão. Levantando-se da oração, Jesus foi para junto dos discípulos e encontrou-os dormindo, de tanta tristeza. E perguntou-lhes: "Por que estais dormindo? Levantai-vos e orai para não entrardes em tentação." Jesus ainda falava, quando chegou uma multidão. Na frente, vinha um dos Doze, chamado Judas, que se aproximou de Jesus para beijá-lo. Jesus lhe disse: "Judas, com um beijo tu entregas o Filho do Homem?" Vendo o que ia acontecer, os que estavam com Jesus disseram: "Senhor, vamos atacá-los com a espada?" E um deles feriu o empregado do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. Jesus, porém, ordenou: "Deixai, basta!" E tocando a orelha do homem, o curou. Depois Jesus disse aos sumos sacerdotes, aos chefes dos guardas do templo e aos ancióos, que tinham vindo prendê-lo: "Vós saístes com espadas e paus, como se eu fosse um ladrão? Todos os dias eu estava convosco no templo, e nunca levantastes a mão contra mim. Mas esta é a vossa hora, a hora do poder das trevas." Pedro saiu para fora e chorou amargamente. Eles prenderam Jesus e o levaram, conduzindo-o à casa do Sumo Sacerdote. Pedro acompanhava de longe. Eles acenderam uma fogueira no meio do pátio e sentaram-se ao redor. Pedro sentou-se no meio deles. Ora, uma criada viu Pedro sentado perto do fogo; encarou-o bem e disse: "Este aqui também estava com ele!" Mas Pedro negou: "Mulher, eu nem o conheço!" Pouco depois, um outro viu Pedro e disse: "Tu também és um deles." Mas Pedro respondeu: "Homem, não sou ." Passou mais ou menos uma hora, e um outro insistia: "Certamente, este aqui também estava com ele, porque é galileu!" Mas Pedro respondeu: "Homem, não sei o que estás dizendo!" Nesse momento, enquanto Pedro ainda falava, um galo cantou. Então o Senhor se voltou e olhou para Pedro. E Pedro lembrou-se da palavra que o Senhor lhe tinha dito: "Hoje, antes que o galo cante, três vezes me negarás." Então Pedro saiu para fora e chorou amargamente. Os guardas caçoavam de Jesus e espancavam-no; cobriam o seu rosto e lhe diziam: "Profetiza quem foi que te bateu?" E o insultavam de muitos outros modos. Levaram Jesus ao tribunal deles. Ao amanhecer, os anciãos do povo, os sumos sacerdotes e os mestres da Lei reuniram-se em conselho e levaram Jesus ao tribunal deles. E diziam: "Se és o Cristo, dize-nos!" Jesus respondeu: "Se eu vos disser, não me acreditareis, e, se eu vos fizer perguntas, não me respondereis. Mas, de agora em diante, o Filho do Homem estará sentado à direita do Deus Poderoso." Então todos perguntaram: "Tu és, portanto, o Filho de Deus?" Jesus respondeu: "Vós mesmos estais dizendo que eu sou!" Eles disseram: "Será que ainda precisamos de testemunhas? Nós mesmos o ouvimos de sua própria boca!" Em seguida, toda a multidão se levantou e levou Jesus a Pilatos. Não encontro neste homem nenhum crime. Começaram então a acusá-lo, dizendo: "Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo, proibindo pagar impostos a César e afirmando ser ele mesmo Cristo, o Rei." Pilatos o interrogou: "Tu és o rei dos judeus?" Jesus respondeu, declarando: "Tu o dizes!" Então Pilatos disse aos sumos sacerdotes e à multidão: "Não encontro neste homem nenhum crime." Eles, porém, insistiam: "Ele agita o povo, ensinando por toda a Judéia, desde a Galiléia, onde começou, até aqui." Quando ouviu isto, Pilatos perguntou: "Este homem é galileu?" Ao saber que Jesus estava sob a autoridade de Herodes, Pilatos enviou-o a este, pois também Herodes estava em Jerusalém naqueles dias. Herodes, com seus soldados, tratou Jesus com desprezo. Herodes ficou muito contente ao ver Jesus, pois havia muito tempo desejava vê-lo. Já ouvira falar a seu respeito e esperava vê-lo fazer algum milagre. Ele interrogou-o com muitas perguntas. Jesus, porém, nada lhe respondeu. Os sumos sacerdotes e os mestres da Lei estavam presentes e o acusavam com insistência. Herodes, com seus soldados, tratou Jesus com desprezo, zombou dele, vestiu-o com uma roupa vistosa e mandou-o de volta a Pilatos. Naquele dia Herodes e Pilatos ficaram amigos um do outro, pois antes eram inimigos. Pilatos entregou Jesus à vontade deles. Então Pilatos convocou os sumos sacerdotes, os chefes e o povo, e lhes disse: "Vós me trouxestes este homem como se fosse um agitador do povo. Pois bem! Já o interroguei diante de vós e não encontrei nele nenhum dos crimes de que o acusais; nem Herodes, pois o mandou de volta para nós. Como podeis ver, ele nada fez para merecer a morte. Portanto, vou castigá-lo e o soltarei. Toda a multidão começou a gritar: "Fora com ele! Solta-nos Barrabás!" Barrabás tinha sido preso por causa de uma revolta na cidade e por homicídio. Pilatos falou outra vez à multidão, pois queria libertar Jesus. Mas eles gritavam: "Crucifica-o! Crucifica-o!" E Pilatos falou pela terceira vez: "Que mal fez este homem? Não encontrei nele nenhum crime que mereça a morte. Portanto, vou castigá-lo e o soltarei." Eles, porém, continuaram a gritar com toda a força, pedindo que fosse crucificado. E a gritaria deles aumentava sempre mais. Então Pilatos decidiu que fosse feito o que eles pediam. Soltou o homem que eles queriam - aquele que fora preso por revolta e homicídio - e entregou Jesus à vontade deles. Enquanto levavam Jesus, pegaram um certo Simão, de Cirene, que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz para carregá-la atrás de Jesus. Seguia-o uma grande multidão do povo e de mulheres que batiam no peito e choravam por ele. Jesus, porém, voltou-se e disse: "Filhas de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos! Porque dias virão em que se dirá: 'Felizes as mulheres que nunca tiveram filhos, os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca amamentaram'. Então começarão a pedir às montanhas: 'Caí sobre nós!' e às colinas: 'Escondei-nos!' Porque, se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?" Levavam também outros dois malfeitores para serem mortos junto com Jesus. Quando chegaram ao lugar chamado "Calvário", ali crucificaram Jesus e os malfeitores: um à sua direita e outro à sua esquerda. Jesus dizia: "Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!" Depois fizeram um sorteio, repartindo entre si as roupas de Jesus. O povo permanecia lá, olhando. E até os chefes zombavam, dizendo: "A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido!" Os soldados também caçoavam dele; aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre, e diziam: "Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!" Acima dele havia um letreiro: "Este é o Rei dos Judeus." Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: "Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!" Mas o outro o repreendeu, dizendo: "Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal." E acrescentou: "Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado." Jesus lhe respondeu: "Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso." Já era mais ou menos meio-dia e uma escuridão cobriu toda a terra até às três horas da tarde, pois o sol parou de brilhar... e Jesus deu um forte grito: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito." Dizendo isso, expirou. (Aqui todos se ajoelham e faz-se uma pausa) O oficial do exército romano viu o que acontecera e glorificou a Deus dizendo: "De fato! Este homem era justo!" E as multidões, que tinham acorrido para assistir, viram o que havia acontecido, e voltaram para casa, batendo no peito. Todos os conhecidos de Jesus, bem como as mulheres que o acompanhavam desde a Galiléia, ficaram à distância, olhando essas coisas. Havia um homem bom e justo, chamado José, membro do Conselho, o qual não tinha aprovado a decisão nem a ação dos outros membros. Ele era de Arimatéia, uma cidade da Judéia, e esperava a vinda do Reino de Deus. José foi ter com Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Desceu o corpo da cruz, enrolou-o num lençol e colocou-o num túmulo escavado na rocha, onde ninguém ainda tinha sido sepultado. Era o dia da preparação da Páscoa, e o sábado já estava começando. As mulheres, que tinham vindo da Galiléia com Jesus, foram com José, para ver o túmulo e como o corpo de Jesus ali fora colocado. Depois voltaram para casa e prepararam perfumes e bálsamos. E, no sábado, elas descansaram, conforme ordenava a Lei.

Comentário feito por Proclo de Constantinopla (c. 390-446)
bispo

O dia de hoje, meus bem-amados, é da maior importância. É um dia que nos solicita um grande desejo, uma pressa imensa, um alento vivo, para nos conduzir ao encontro do Rei dos Céus. Paulo, o mensageiro da Boa Nova, dizia-nos: "O Senhor está perto. Não vos inquieteis" (Fil 4, 5-6). [...] Acendamos, pois, as lamparinas da fé; à semelhança das cinco virgens sensatas (Mt 25, 1ss.), enchamo-las do óleo da misericórdia para com os pobres; acolhamos a Cristo bem despertos, e cantemos-Lhe com as palmas da justiça na mão. Beijemo-Lo, derramando sobre Ele o perfume de Maria (Jo 12, 3). Ouçamos o cântico da ressurreição: que as nossas vozes se elevem, dignas da majestade divina, e brademos com o povo, soltando esse grito que se escapa das bocas da multidão: "Hosana nas alturas! Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel". É razoável chamar-Lhe "Aquele que vem", porque Ele vem sem cessar, porque Ele nunca nos falta: "O Senhor está próximo de quantos O invocam em verdade" (Sl 144, 18). "Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor". O Rei manso e pacífico está à nossa porta. Aquele que tem o trono nos céus, acima dos querubins, senta-Se, cá em baixo, sobre um burrinho. Preparemos a casa da nossa alma, limpemos as teias de aranha que são os mal-entendidos fraternos, que não haja em nós a poeira da maledicência. Difundamos às mãos-cheias a água do amor, e apaziguemos todas as feridas criadas pela animosidade; semeemos o vestíbulo dos nossos lábios com as flores da piedade. E soltemos então, na companhia do povo, esse grito que brota dos lábios da multidão: "Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel".

sábado, 27 de março de 2010

Contra quem cospe nos padres

Por Aldo Trento

Um missionário indignado com a campanha da mídia sobre a pedofilia nos escreve.*

Estou na Itália há alguns dias e fiquei, de fato, amargurado, dolorido com estes contínuos ataques ao Santo Padre, aos sacerdotes, à Igreja Católica, usando a diabólica arma da pedofilia. É verdade: este argumento parece interessar mais a certos jornais e à sua fantasia e alucinação que ao público; porque encontrei milhares de pessoas, sobretudo jovens, e ninguém me fez sequer uma pergunta sobre este assunto.
O que significa que, apesar de existir este flagelo no mundo e ter mesmo atacado a Igreja, com a dura, clara e forte condenação do Santo Padre, estamos distantes anos luz daquele fenômeno de massa, como se todos os padres fossem pedófilos, como querem nos fazer crer. Sou sacerdote há quarenta anos, já estive em muitos lugares do mundo, vivi em orfanatos, escolas, internatos para crianças, mas nunca encontrei um colega culpado deste delito. Não apenas: vivi com sacerdotes, religiosos que deram a vida para que crianças como estas tivessem vida.
Atualmente, vivo no Paraguai. A minha missão abraça todo o humano na sua pobreza, aquele humano jogado na imundície do sensacionalismo da mídia. Há vinte anos compartilho a minha vida com prostitutas, homossexuais, travestis, doentes de AIDS, recolhidos nas ruas, encontrados no lixo, nas favelas, e os trago comigo à casa onde a Divina Providência criou um hospital de primeiro mundo como estrutura arquitetônica, mas paradisíaco como clima humano. Nesta “antecâmara do Paraíso”, como todo mundo o chama, eu os acompanho ao Paraíso. Viveram como “cães” e morrem como príncipes. Perto da clínica, a mesma Providência criou duas “Casas de Belém” para recordar o lugar onde nasceu Jesus, que acolhem 32 crianças, muitas delas violentadas pelos padrinhos ou pelo companheiro ocasional da “mãe”. Todos os dias tenho algum trabalho com situações terríveis e indescritíveis. Muito frequentemente não tenho nem mesmo a capacidade de ler os relatórios das assistentes sociais, tão horrendas as violências sexuais sofridas pelos meus filhos. E no entanto, depois de alguns meses conosco, respiram um outro ar, aquele ar que somente o fato cristão e o amor de nós sacerdotes contra o qual os monstros do jornalismo se precipitam, fazendo tempestade em copa d’água. Pablo Neruda tinha razão quando definia certos jornalistas como “aquele vivem comendo os excrementos do poder”.
A certeza de que “eu sou Tu que me fazes”, de que sou fruto do Mistério e não o êxito dos meus antecedentes, por piores que possam ter sido, se transmite como que por osmose no coração das minhas crianças que redescobrem o sorriso. E que pode ser transmitido também aos “monstros” (se assim lhes agrada que os chamemos, jornalistas... a quem tanto vocês se assemelham pela hipocrisia que vocês também carregam... falo daqueles jornalistas que parecem se divertir cuspindo contra a Igreja) que, no fundo, por sua vez, frequentemente, são vítimas e verdugos, vítimas quando pequenos e verdugos quando crescidos, tendo vivido como animais. O meu coração de padre, enquanto dou a minha vida por estes inocentes, não pode não dar a vida, como Jesus, também por aqueles para quem Jesus disse palavras fortíssimas: “antes de escandalizar um desses pequeninos é melhor amarrar uma pedra no pescoço e lançar-se no fundo do mar”.
São apenas alguns exemplos, entre milhões, da caridade da Igreja. Faz-se sofrer ver cuspir sobre o prato no qual, Deus o queira, também certos mórbidos jornalistas, um dia, se encontrarão comendo, porque se alguém erra não significa que a Igreja seja assim. Esta Igreja que é o respiro do mundo. Vocês não se perguntam o que seria deste mundo sem este porto de segura esperança para todo homem, mesmo para vocês que, nestes dias, como corvos ferozes, se divertem sadicamente em cuspir sobre o Seu Casto Rosto. Venham ao terceiro mundo para entender o que quer dizer milhares de padres e irmãs que morrem dando a vida pelas crianças. Venham ver os meus filhinhos violentados que, alguns dias antes de eu vi para a Itália, choravam me perguntando: “Papai, quando volta?”.
Não quero arrancar lágrimas de vocês que são como as padres, mas apenas recordar a vocês que também para vocês, um dia, quando a vida pedir o “redde rationem vilicationis tuae” (Lc 16, 2), esta Igreja, esta mãe contra a qual aprenderam a cuspir, os acolherá, os abraçará, os perdoará. Esta mãe, que há 2000 anos é aviltada, ridicularizada, acusada e que, há 2000 anos, continua a dizer a todos aqueles que pedem: “eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.
Esta mãe, que julga e condena duramente o pecado e que chama a atenção duramente do pecador, réu de certos horrendos delitos, como a pedofilia, não fecha e nunca fechará as portas da sua misericórdia a ninguém. Confortam-me as palavras de Jesus: “as portas do inferno nunca prevalecerão”. Como me conforta a imensa santidade que transborda do seu corpo de “casta meretrix”.
Então, não percamos tempo atrás dos delírios de alguns jornalistas que usam certos execráveis casos de pedofilia para atacar o Acontecimento cristão, para colocar em discussão a pérola do celibato, mas olhemos as milhares de pessoas, jovens em particular, encontrados pessoalmente em uma semana que estou na Itália, que crêem, buscam e pedem à Igreja o porquê, o sentido último da vida e que vêem nela a única resposta possível.
Pessoalmente, me preocupa muito mais a ausência de santidade em muitos de nós sacerdotes, do que outras coisas, ainda que sejam graves e dolorosas. Preocupa-me muito mais uma Igreja que se envergonha de Cristo, ao invés de anunciá-Lo dos telhados. Preocupa-me muito mais não encontrar os sacerdotes no confessionário... e, por isso, o pecador, tão frequentemente vive aquele tormento do seu pecado sem encontrar um confessor que o absolva. Às acusações difamadoras destes dias urge responder com a santidade da nossa vida e com uma entrega total a Cristo e aos homens necessitados, como nunca, de certeza e de esperança. À pedofilia se deve responder como o Papa nos ensina. Porém, apenas anunciando Cristo é possível sair deste horrível esterqueiro, porque só Cristo salva totalmente o homem. Mas, se Cristo não é mais o coração da vida, então toda perversão é possível. A única defesa que temos são os nossos olhos apaixonados por Cristo. A dor é grandíssima, mas a segurança é granítica: “Eu vencI o mundo” é infinitamente maior.

* Extraído do jornal Il Foglio, de 20 de março de 2010, e traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

40 dias com Giussani

"A afirmação do Seu domínio em nós é como se continuasse prosseguindo, não obstante a vileza do nosso esquecimento e a mesquinhez das nossas traições pesadas. 'Não morrerei, ao contrário viverei e anunciarei as obras do Senhor': no momento sacramental [que estamos vivendo] esta é a palavra e, por todo o tempo pascal, este é o tema que cada um de nós deve repetir como teste da capacidade que nosso coração tem de se recuperar.
'Não morrerei, ao contrário viverei e anunciarei as obras do Senhor': não como propósito pessoal, que seria a conclusão mais adequada da nossa ignorância, não como pretensão de um propósito nosso, mas como reconhecimento maravilhado, admirado, que contempla Sua misericórdia sem fim.
'Como posso te abandonar' - meditamos durante a Semana Santa - 'como posso te abandonar, ó Efraim?'. Por isto, 'não morrerei, ao contrário viverei e anunciarei as obras do Senhor': a sinceridade com a qual repetirmos cotidianamente (...) esta palavra, a espontaneidade, não obstante tudo, com a qual diremos esta palavra, revelará a nossa fé, a nossa aceitação, o nosso reconhecimento dEle, ou revelará a nossa fidelidade já corroída, a nossa dureza de coração, a nossa recusa serpenteante. 'Não morrerei, ao contrário viverei e anunciarei as obras do Senhor' ainda que a densidade da pedra que recobre o meu coração seja muito espessa."
(GIUSSANI, Luigi. Che cos'è l'uomo perché te ne curi? 2000, pp. 112-113).

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Jo 11,45-56
Naquele tempo: Muitos dos judeus que tinham ido à casa de Maria e viram o que Jesus fizera, creram nele. Alguns, porém, foram ter com os fariseus e contaram o que Jesus tinha feito. Então os sumos sacerdotes e os fariseus reuniram o Conselho e disseram: "O que faremos? Este homem realiza muitos sinais. Se deixamos que ele continue assim, todos vão acreditar nele, e virão os romanos e destruirão o nosso Lugar Santo e a nossa nação." Um deles, chamado Caifás, sumo sacerdote em função naquele ano, disse: "Vós não entendeis nada. Não percebeis que é melhor um só morrer pelo povo do que perecer a nação inteira?" Caifás não falou isso por si mesmo. Sendo sumo sacerdote em função naquele ano, profetizou que Jesus iria morrer pela nação. E não só pela nação, mas também para reunir os filhos de Deus dispersos. A partir desse dia, as autoridades judaicas tomaram a decisão de matar Jesus. Por isso, Jesus não andava mais em público no meio dos judeus. Retirou-se para uma região perto do deserto, para a cidade chamada Efraim. Ali permaneceu com os seus discípulos. A Páscoa dos judeus estava próxima. Muita gente do campo tinha subido a Jerusalém para se purificar antes da Páscoa. Procuravam Jesus e, ao reunirem-se no Templo, comentavam entre si: "O que vos parece? Será que ele não vem para a festa?"

Comentário feito por São Cirilo de Jerusalém (313-350)
bispo e Doutor da Igreja

Está escrito: "Nós, que somos muitos, constituímos um só corpo em Cristo" (Rom 12, 5), porque Cristo nos congrega na unidade, pelos laços do amor: "Ele que, de dois povos, fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava, anulando pela Sua carne a Lei, os preceitos e as prescrições" (Ef 2, 14-15). Temos, pois, de ter os mesmos sentimentos recíprocos: "Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele" (1Cor 12, 26). Por isso, prossegue São Paulo, "acolhei-vos uns aos outros, como Cristo também vos acolheu, para glória de Deus" (Rom 15, 7). Acolhamo-nos uns aos outros, se queremos ter os mesmos sentimentos, "suportando-nos uns aos outros com caridade, solícitos em conservar a unidade de espírito, mediante o vículo da paz" (Ef 4, 2-3). Foi assim que Deus nos acolheu em Cristo, que disse: "Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o Seu Filho único" (Jo 3, 16). Com efeito, o Filho foi dado em resgate pela vida de todos nós, e nós fomos libertados da morte, resgatados da morte e do pecado. São Paulo esclarece as perspectivas deste plano de salvação quando afirma que "Cristo Se fez servidor dos circuncisos, a fim de mostrar a veracidade de Deus" (Rom 15, 8). Porque Deus tinha prometido aos patriarcas, pais dos judeus, que abençoaria a sua descendência, que seria tão numerosa como as estrelas do céu. Foi por isso que o Verbo, que é Deus, Se manifestou na carne e Se fez homem. Ele mantém na existência toda a criação e assegura o bem de tudo quanto existe, pois é Deus. Mas veio a este mundo e se encarnou, "não para ser servido, mas", como Ele próprio afirmou, "para servir e dar a vida em resgate pela multidão" (Mc 10, 45).

sexta-feira, 26 de março de 2010

40 dias com Giussani

"Todo o mundo julga que a dor é um castigo, julga o homem alcançado pela dor, obrigado à renúncia, ao sacrifício como se fosse golpeado por Deus e humilhado, mas Maria não. Como era claro ao seu coração, crucificado com o de Cristo, que o castigo que nos dá salvação, que exalta a vida se tinha abatido sobre Ele e, por isso, Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todo outro nome. Fac ut ardeat cor meum in amando Christum Deum, ut sibi complaceam (Faz com que o meu coração arda de amor por Cristo Deus, para agradá-Lo). Eis a grande lei moral. Aqui emerge a verdadeira lei moral que é a fonte da moral: agradar o Mistério, agradar Àquele homem crucificado, agradar o Mistério de Deus que se tornou homem e foi crucificado por mim, e ressuscitou para que eu fosse libertado."
(GIUSSANI, Luigi. Egli solo è. Via Crucis. 2005, pp. 41-42).

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Jo 10,31-42
Naquele tempo: Os judeus pegaram pedras para apedrejar Jesus. E ele lhes disse: "Por ordem do Pai, mostrei-vos muitas obras boas. Por qual delas me quereis apedrejar?" Os judeus responderam: "Não queremos te apedrejar por causa das obras boas, mas por causa de blasfêmia, porque sendo apenas um homem, tu te fazes Deus!" Jesus disse: "Acaso não está escrito na vossa Lei: 'Eu disse: vós sois deuses'? Ora, ninguém pode anular a Escritura: se a Lei chama deuses as pessoas às quais se dirigiu a palavra de Deus, por que então me acusais de blasfêmia, quando eu digo que sou Filho de Deus, eu a quem o Pai consagrou e enviou ao mundo? Se não faço as obras do meu Pai, não acrediteis em mim. Mas, se eu as faço, mesmo que não queirais acreditar em mim, acreditai nas minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em mim e eu no Pai." Outra vez procuravam prender Jesus, mas ele escapou das mãos deles. Jesus passou para o outro lado do Jordão, e foi para o lugar onde, antes, João tinha batizado. E permaneceu ali. Muitos foram ter com ele, e diziam: "João não realizou nenhum sinal, mas tudo o que ele disse a respeito deste homem, é verdade." E muitos, ali, acreditaram nele.

Comentário feito por São Bernardo (1091-1153)
Monge cisterciense e Doutor da Igreja

Deves toda a tua vida a Cristo Jesus, visto que Ele deu a Sua vida pela tua e suportou amargos tormentos para que tu não tivesses que suportar os tormentos eternos. [...] Quão doces te hão de parecer todas as coisas, depois de teres compreendido no teu coração todas as amarguras do teu Senhor! [...] Tanto quanto os céus estão acima da terra (Is 55, 9), assim a Sua vida é mais alta do que a nossa vida e, no entanto, foi dada pela nossa. Tal como o nada não pode ser comparado a nenhuma outra coisa, assim a nossa vida não é proporcional à Sua [...]. Quando eu Lhe tiver consagrado tudo o que sou, tudo o que posso, isso será como uma estrela comparada com o sol, uma gota de água com o rio, uma pedra com uma torre, um grão de areia com uma montanha. Tenho apenas duas pequenas coisas, realmente mínimas: o meu corpo e a minha alma, ou antes, uma única coisinha: a minha vontade. E não a daria eu Àquele que proveu de tantos benefícios um ser tão pequeno como eu, Àquele que, dando-Se completamente, me resgatou inteiramente? Além disso, se guardo para mim a minha vontade, com que cara, com que olhos, com que espírito, com que consciência me poderei refugiar junto do coração, da misericórdia do nosso Deus? Ousaria eu atravessar essa muralha tão forte que guarda Israel, e fazer correr, pelo preço do meu resgate, não apenas umas gotas, mas os jorros de sangue que saem das cinco chagas do Seu corpo?

quinta-feira, 25 de março de 2010

40 dias com Giussani

"Cristo na cruz é o pecado condenado pelo Pai. A cruz de Cristo é a explosão da consciência do mal. Nós entramos em relacionamento com Cristo pela consciência que temos do pecado. Aqui atua a queda sem fim em nós: na ausência da consciência do pecado e na consciência falsa do pecado; porque o remorso, o ceticismo não são consciência do pecado. Quem tem consciência do próprio pecado tem a consciência da libertação."
(GIUSSANI, Luigi. Egli solo è. Via Crucis. 2005, p. 35)

A aventura educativa 2

Encontro com o Cardeal Angelo Bagnasco
Milão, Palasharp – 18 de março de 2010

Instâncias educativas e questão antropológica*
Por Angelo Cardeal Bagnasco
(Arcebispo Metropolitano de Gênova e Presidente da Conferência Episcopal Italiana)

Premissa
Estou feliz de estar aqui com vocês, para falar de uma coisa que não apenas nos interessa, mas que sentimos ser parte do nosso ser pessoas e crentes. Ou seja, do nosso ser discípulos do Mestre – o Senhor Jesus – que não cessa de educar a uma humanidade nova e plena. Ele continua a falar à inteligência e a aquecer o coração daqueles que se abrem à Sua verdade e ao Seu amor, e acolhem a companhia dos irmãos, para fazer experiência da novidade do Evangelho e, assim, anunciar a todos a alegria e o fascínio de um encontro que muda a vida e que faz florescer o humano. A Igreja continua a obra do seu Senhor, e a sua história de dois mil anos é um cruzamento de evangelização e de educação: anunciar a pessoa de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, significa levar à plenitude o homem e, portanto, criar cultura e civilização. Às vezes, diante de tantas situações de violências, velhas e novas, diante de um mundo ainda tão ferido pelos desequilíbrios e injustiças, ou de formas de involução cultural, poderíamos nos perguntar: qual é o papel do Cristianismo na elevação da humanidade? Qual é a eficácia da pregação da fé? Poderíamos responder a nós mesmos: e o que seria do mundo sem o Evangelho de Cristo? Sem a presença da Igreja com os seus sacerdotes, os religiosos e as religiosas, os leigos, os grupos, as associações, os movimentos, as instituições de caridade e de promoção, de escuta? Sem o vórtice de contínua oração que se eleva a Deus de cada parte da terra, há séculos, e que eleva os corações de multidões, torna a consciência melhor, a reforça contra o mal? Sem esta rede sem fim de pequenas luzes que tornam o universo mais luminoso? E onde estaria aquele povo imenso espalhado até os confins da terra, feito de pessoas humildes e boas que fazem a história verdadeira – a história do bem – com as suas vidas referidas à vida de Cristo? Conhecemos os limites e os erros da condição humana, mas isto não pode obscurecer a experiência secular da comunidade cristã.
Os Bispos italianos escolheram, como Orientações Pastorais para os decênio que acaba de começar, exatamente o desafio educativo: responsabilidade e graça! Graça porque significa continuar a “comunicar o Evangelho em um mundo que muda”, e significa decliná-lo na dimensão específica da educação. Responsabilidade porque se educar nunca foi fácil, hoje se trata de aceitar o desafio que nasce da complexidade muitas vezes contraditória da cultura e da sociedade. O Santo Padre Bento XVI não apenas nos exorta a isto com o límpido e pontual Magistério, mas nos precede no caminho educativo do povo de Deus, tendo claramente no olhar e no coração cada homem, já que a humanidade plena que se revela em Jesus, e nEle se encontra, não exclui ninguém.
A feliz expressão “emergência educativa”, tornada tão familiar nestes últimos tempos dentro e fora da Igreja, pode parecer particularmente enriquecida se a lemos com um olho atento à lição de um grande filósofo e teólogo italiano do século XIX, o beato Antonio Rosmini. A sua perspectiva, me parece, cruza pontos cruciais e emergentes do atual contexto cultural e pastoral. E para recolher todo o alcance da contribuição positiva que pode nos ser dada da perspectiva rosminiana, e que vai na direção de um enriquecimento do sentido que Bento XVI quis dar à “emergência educativa”, é útil recordar que as “emergências”, pela sua natureza, não fazem parte da vida ordinária e da história cotidiana das pessoas; elas irrompem repentina e inesperadamente. Enquanto que as exigências de educar e de se educar não podem ser inesperadas, na medida em que, como escreve Rosmini, “a educação é uma tarefa gravíssima” (Dell’educazione Cristiana, Città Nuova Ed., Roma, 1994, p. 47), no sentido de “tarefa de grande alcance”, pelo fato que essa tarefa tem como objetivo “tornar o homem bom em relação a todas as circunstâncias nas quais se encontra; [tornar o homem] capaz de usar dessas circunstâncias, e de todos os outros meios como verdeira vantagem a si e aos outros; e [torná-lo], assim, autor do próprio bem e, especialmente, da própria virtude e da própria felicidade” (Idem, Scritti vari di método e di pedagogia, Unione Tipografica Ed., Torino, 1883, p. 499). E isto, acrescenta Rosmini, pertence a cada homem, em cada fase da sua vida, desde o momento em que se pede a todos os homens que se dediquem para realizar o bem.
Em outros termos, se é verdadeiro que a sociedade contemporânea é atravessada sempre mais por déficites preocupantes de “boa educação”, é também verdadeiro que uma resposta eficaz não pode vir de uma comunidade que se limita a enfrentar este déficit como se se tratasse de uma “emergência” mais do que uma “tarefa” cotidiana.
E não são as circunstâncias episódicas – mesmo que preocupantes –, nem mesmo será o multiplicar-se de sinais de uma má ou inexistente educação, que solicitarão ao dever pedagógico que seja uma tarefa cotidiana, mas será a natureza mesma do homem. Tanto que não é imprudente afirmar que a “questão pedagógica” (ou, se se quiser, a emergência educativa) caminha lado a lado com a “questão antropológica”.
As circunstâncias que formaram o pano de fundo das páginas pedagógicas do nosso autor apresentam fortes analogias com o tempo presente, que nos pede que recolhamos as energias mais sensíveis em torno da emergência educativa (...).
É notável o enorme desperdício de energias no Iluminismo ou no Liberalismo dos séculos XVIII e XIX. Tanto um quanto o outro não omitiram o recurso a instrumentos de propaganda e de formação que faziam coincidir a racionalização das atividades de trabalho e o melhoramento da qualidade de vida com um decisivo e progressivo distanciamento da religião e da ética cristã. A consequência mais imediata da ofensiva iluminista-liberal apresentou-se com as características de uma evidente fratura entre Cristianismo e sociedade civil e política, abrindo para a Igreja um novo e inédito front missionário.
Rosmini, diante desta situação, não veste nem os panos do derrotista nem os do obtuso opositor: a validade da sua impostação – “apologética”, no sentido mais alto da palavra – encontra fundamento no estreito vínculo entre filosofia, antropologia, pedagogia; vínculo que, por sua vez, garante a consequencialidade entre pensamento teológico e instâncias éticas, políticas e de natureza jurídica.
Neste quadro, a educação da pessoa não se apresenta, em absoluto, como uma tarefa marginal ou de qualquer modo a ser invocada apenas em momentos de “emergência”, mas, muito mais, como a continuação do “governo divino do mundo”, “com o qual, ordenando e dispondo os acontecimentos, [Deus] educou o gênero humano e o educa continuamente” (Idem, Sistema filosofico, n. 244).

1. A pessoa humana: centro e fim da educação
A visão antropológica que a Revelação judaico-cristã oferece à humanidade é toda centrada sobre a pessoa humana, que não se deixa enredar por nenhuma ideia, categoria, conceito, nem reduzir a dimensões e perspectivas particulares. A pessoa não é o sujeito nem o indivíduo, não é a alma nem o corpo, não é o pensamento nem o sentimento, mas se dá em todas estas expressões e dimensões, consentindo a nós revelar uma instância fundamental dúplice, que se torna particularmente instrutiva para a questão educativa. Trata-se, em primeiro lugar, da irredutibilidade da pessoa. Em segundo lugar, trata-se da relação que constitui o ser pessoal de maneira não meramente extrínseca ou acessória. O gênio de Santo Tomás de Aquino, inspirando-se nas grandes formulações cristológicas e trinitárias, expressou esta realidade, oferecendo-nos a fórmula da relatio subsistens (cf. S.T. I, q. 29, a. 4, c. 9). A pessoa, cada pessoa é uma relação subsistente. Sem relação nem mesmo se pode originar um ser humano, sem uma sua profunda subsistência individual (Rosmini, seguindo Scoto, diz “incomunicável”) se perderia em uma generalidade homologante e dissolvente.
Bento XVI, na Caritas in veritate, recolhendo esta grande tradição antropológica e situando-a no contexto da aldeia global, nos oferece uma referência explícita à lição do personalismo comunitário, que o pensamento católico do século XX não deixou de acolher e articular: “A verdade da globalização como processo e o seu critério ético fundamental são dados a partir da unidade da família humana e do seu desenvolvimento no bem. É preciso, portanto, empenhar-se incessantemente para favorecer uma orientação cultural personalista e comunitária, aberta à transcendência, do processo de integração planetária” (n. 42).
Cada processo educativo e formativo não pode descuidar ou esquecer deste dúplice fator, que nasce da constituiçõa mesma do ser pessoa que é o homem. Com espírito de realista sabedoria, nem os educadores, nem os projetos realizados, podem se arrogar a tarefa de inventar ou criar as pessoas, nem de desestruturá-las e recriá-las em relação com os objetivos que organizações, grupos ou indivíduos se estabelecem. A educação não cria a pessoa, mas a encontra e a reconhece, oferecendo uma relação – chamada exatamente de “relação educativa” – de autêntico serviço ao homem e à mulher a que é destinada. Mas isto só é possível se aqueles que são chamados a educar possuam o sentido profundo da sua irredutibilidade e capacidade de relação, sabendo colher também na experiência de educadores do passado possibilidades de crescimento e de maturidade para si mesmos, mais do que para aqueles a quem é destinado o seu empenho. Se, como o beato Rosmini lembra na sua Filosofia del diritto, “a pessoa humana é o direito subsistente” (A. Rosmini, Filosofia del diritto, Cedam, Padova, 1967-69, IV, 898), então não apenas a jurisprudência relativa à educação (pensamos nas reformas escolares nos mais diversos níveis), mas a atividade educativa mesma, não pode deixar de levar isso em conta. Mas a inalienabilidade da pessoa humana nos leva ainda para além desta consideração fundamental, na medida em que nos consente de identificar o sujeito educativo fundamental não no Estado ou em qualquer outra organização estrutural, mas sim naquele lugar originário da relação que constitui a pessoa na sua identidade, ou seja a família, a quem o Estado e as outras eventuais organizações oferecem a sua ajuda e suporte na ativação e articulação de itinerários educativos. Este dado antropológico fundamental consente a superação de toda tentação de idolatria sempre subjacente às ideologias estatalistas de toda cor e de cada época. Trata-se de uma visão do homem profundamente libertadora e capaz de desmascarar todo tipo de violência cultural massificante e eliminadora da dignidade da pessoa.

2. A educação e as formas do ser
Reconhecer a pessoa na relação educativa significa saber colher e seguir/ajudar o desenvolvimento harmônico das suas diversas dimensões estruturais constitutivas. Neste sentido, certamente a educação não cria o ser da pessoa, mas o acompanha, portanto tem que ver primeiro com o ser, mais do que com o fazer, com o sentir que com o pensar mesmo. Ousaríamos dizer que a questão antropológica e a educativa a ela estreitamente ligada é uma questão metafísica. Neste horizonte se situa uma reflexão sobre o homem e sobre o ser que é possível articular rosminianamente segundo a doutrina das três formas, que no homem encontra unidade e realização: real, ideal, moral.
2.1. A educação, nesta perspectiva antropológica e ontológica, refere-se à realidade e, em relação a ela, se articula e se desenvolve. O realismo não é apenas uma teoria do conhecimento, mas, também enquanto tal, uma direção e uma tarefa imprescindível no que diz respeito à formação das pessoas. Trata-se de um realismo sapiencial, que nada tem que ver com a anuência ou a resignação, muito menos com a busca exclusiva do útil e do interesse. Neste sentido, a dimensão real da existência humana tem que ver, mesmo se não se exaure nela, com a corporeidade, com a carne, com a terra, a que devemos tanta fidelidade quanto ao céu.
Processos educativos desencarnados e meramente utópicos, além de ineficazes, poderiam, de fato, gerar posturas de evasão desumanizantes. Ao lado da tentação do materialismo, somos chamados, em nome de uma antropologia autêntica, mais do que da fé na encarnação, a confrontar com todas as nossas forças também a tentação oposta do espiritualismo desencarnacionista muito presente nas ditas novas formas de religiosidade.
O horizonte realista da educação, ligado à dimensão corpórea da existência humana, evoca e invoca a necessidade de referência à relação homem-mulher como lugar no qual se exprime, revelando-se, a relação subsistente que é a pessoa. Trata-se de uma temática que, hoje, apresenta uma atualidade bastante peculiar, mesmo em relação aos desafios antropológicos e culturais do contexto no qual se desenvolve a ação educativa e formativa. A educação à vida de casal pede vigilância e cuidado particulares e um acompanhamento atento que não pode se reduzir a atenção quanto aos desvios ou anomalisas que atentam contra esta dimensão fundamental do humano. A atenção à esfera afetiva e aos vínculos gerados por ela se apoia na capacidade de salvaguardar e formar aquele rosminiano “sentimento fundamental” chamado a coordenar e harmonizar as diversas dimensões do ser humano e, em particular, a esfera corpórea com a espiritual.
Levar em consideração as “coisas mesmas” (como diziam os primeiros fenomenólogos) significa ter atenção à res publica e, portanto, à cidadania na polis, que encontra, no empenho político, a sua mais alta forma de expressão. O sonho de alargar as gerações dos políticos cristãmente inspirados, que sejam capazes de renovar profundamente este âmbito fundamental da existência, passa através da capacidade de educar e formar ao sentido da cidadania e do Estado, da legalidade e do empenho na sociedade civil, no qual se vive aquele sã laicidade da qual falava Bento XVI. O apelo à participação e à paixão, artigo raro neste nosso contexto atual, se não quer ser apenas retórico, pede energias e recursos para serem destinados à educação das jovens gerações que, se receberam a democracia, muito frequentemente não parecem capazes de habitá-la e vivê-la em referência aos valores fundamentais da justiça, da liberdade e da paz.
Enfim, o horizonte do realismo pedagógico chama em sua causa o universo midiático e o virtual, quase sempre vivido como alternativa ao real, mas que, pelo contrário, é pensado e percorrido – como nos lembra o ensinamento do Papa na jornada pelas comunicações sociais – como um recurso incrível e inédito para a pessoa e a suas expressões. O Diretório para as comunicações sociais Comunicazione e missione que a Conferência Episcopal Italiana nos consignou nos oferece uma leitura profunda e significativa do areópago midiático contemporâneo, sugerindo critérios de discernimento e modalidades concretas de utilização destes poderosos meios para o crescimento humano e cristão de todos nós.
2.2. De frente e ao lado da dimensão real do ser situa-se a ideal, que se refere à inteligibilidade do mundo, do homem e de Deus. O caráter caótico que imediatamente transparece quando olhamos fora de nós e em nós mesmos não pode nos entregar à resignação ou à irracionalidade. A toda forma de saber está subentendida a convicção segundo a qual o real é inteligível, na medida em que oferece um logos que o homem é chamado a descobrir e interpretar. Esta descoberta e correta interpretação constitui o horizonte de possibilidade de uma autêntica transformação do mundo e de si a que somos chamados. A ação pedagógica deve se referir ao logos-razão e, portanto, deve interpelar o pensamento, suscitando-o e articulando-o nas diversas metodologias que os âmbitos do saber colocam em ação. Se “o fato mais preocupante da nossa época é que ainda não pensamos” (M. Heidegger, Che cosa significa pensare? Chi è lo Zarathustra di Nietzsche, SugarCo, Milão, 1978, p. 39), então a emergência educativa está na urgência de ensinar e aprender a pensar, ultrapassando aquela modalidade difusa e superficial própria não apenas dos que aprendem, mas muito frequentemente dos que ensinam, tendente a substituir o saber refleXVIo por aquele assemblativo, novo nome do saber gnóstico do passado. Aquela metafísica implícita que todo percurso de conhecimento encerra pede uma operação maiêutica paciente e eficaz, mas sobretudo não renunciadora e preguiçosa, que caracteriza os verdadeiros mestres mais que os simples professores, os verdadeiros discípulos mais que os simples alunos.
E se o logos-razão não pode certamente se reduzir à forma moderna da racionalidade, na medida em que inclui a inteligência e, com essa, a capacidade de “ler-dentro” do mundo e de si mesmo, então o mistério constituirá o seu horizonte mais próprio e, diante disso, o homem será chamado a “alargar a razão” (como nos convida a fazer o Papa Bento XVI), educando e deixando-se educar àquele “pensar alto” que Rosmini amava evocar diante das pequenezas do próprio ambiente e dos reducionismos de todo gênero que a cultura difundida lhe oferecia e nos oferece. Não pareça um salto indevido, ou mesmo contraditório, afirmar que o horizonte mais próprio da razão é o mistério: se, de fato, a razão é, em si mesma, ordenada não apenas a colher o como das coisas, mas também o “o quê?” e “o por quê?” do seu existir, então esbarramos com o sentido do real do qual o homem é a ponta incandescente. Trata-se da perene pergunta que, hoje em dia, é tida como “questão ociosa”, como o dizem Comte, Marx, Nietzsche: por que o ser e não o nada... se o que existe não é necessário para o seu ser e se – talvez ainda mais provocativo e dramático – o que existe permite o câncer de uma criança ou o lager, isto é o mal físico e o mal moral? Nem tudo, portanto, é reduzível a cálculo instrumental, a esquema cartesiano, e a razão não pode subtrair-se da realidade inteira refugiando-se no perímetro da mera funcionalidade. Ela é chamada pelas coisas a se fazer contemplativa, podemos dizer “metafísica”, e a razão deve responder. São as coisas mesmas que “querem” não apenas ser usadas, mas explicadas, invocam um horizonte de sentido. Tal dimensão constitutivamente responsiva da razão cruza com a necessidade de “alargar os espaços da racionalidade” e, por outro lado, de “purificar a razão” mesma.
A correlação originária do logos com o pensamento e, nele, com a inteligência e a razão, não pode esquecer o nexo logos-palavra, que lembra a temática não apenas da linguagem, mas do verbo que nele vive e se exprime. Em tempos de crise da linguagem e da palavra, pode ser oportunamente evocada uma sugestiva expressão poético-filosófica que diz: “Somos um sinal que nada indica. Somos sem dor e quase fizemos a língua se perder em terra estranha” (F. Hölderlin). Encontramo-nos diante de uma espécie de exílio da palavra em um mundo desorientado. O evento da palavra pede sempre de novo para ser acolhido e pensado, para que se possa entrever ao menos uma luz débil na noite do mundo. Nesta perspectiva, um pensador caro também a Joseph Ratzinger como é Ferdinand Ebner – que, antes de ser filósofo, era professor de escola básica e, portanto, vivia em primeira pessoa a questão educativa – repropôs a dimensão espiritual da linguagem. O pensador austríaco chegou à retomada da incômoda e certamente contracorrente doutrina da origem divina da palavra: “A palavra deveria receber vida de Deus, já que a vida não seria por si mesma capaz de encontrar o caminho para a palavra, que no homem criou e desperta a vida do espírito. Para entender isto, obviamente, o homem tem necessidade de acreditar em Deus; e isto significa, em primeiro lugar: tornar-se consciente na fé do fundamento espiritual da própria existência e da própria orientação em direção a um relacionamento pessoal com tal fundamento. Deus é tal fundamento e Ele é também o verdadeiro Tu do verdadeiro Eu que é o homem” (F. Ebner, La parola e le realtà spirituali, Frammenti pneumatologici, San Paolo, Cinisello Balsamo, 1998, p. 150). Ecoa aqui uma mensagem que Antonio Rosmini retoma na sua Teodicea. De qualquer modo, trata-se do lugar originário daquela revelação primordial, à qual a nossa cultura acadêmica, seja teológica que filosófica, reserva escasso interesse, mas a que a Dei Verbum faz certamente referência quando chama atenção para o diálogo originário de Deus com a humanidade.
A dimensão da inteligibilidade do real remete à instância de autenticidade que toda forma de saber subentende e desenvolve. Com incrível semelhança com o tema da última encíclica do Papa Bento XVI, Antonio Rosmini soube desenvolver tal horizonte profundamente genuíno em relação à caridade e, portanto, na perspectiva de uma “metafísica agápica” e “trinitária”. Verdade e Caridade são inseparáveis na divina sabedoria, que nos faz discípulos de Deus mesmo. Se o primeiro termo exprime Deus na pessoa do Verbo, “a nova palavra Caridade exprime o mesmo Deus na pessoa do Espírito”. Os textos joaninos oferecem abundante matéria de reflexão a este respeito, e Rosmini se apoia constamente sobre eles: “São, portanto, duas as palavras sobre as quais se resume a escola de Deus, tornado mestre dos homens, Verdade e Caridade; e estas duas palavras significam coisas diferentes, mas cada um delas compreende a outra: em cada um está tudo; mas na verdade é a caridade como uma outra, e na caridade é a verdade como uma outra: se cada uma não tivesse a outra não seria mais dela” (A. Rosmini, Introduzione alla filosofia, Città Nuova/CISR, Roma/Stresa, 1979, p. 181).
A alteridade recíproca de Verdade e Caridade fala da alteridade das pessoas divinas: Verbo e Espírito Santo. A obra da sabedoria cristã consiste apenas na caridade exercitada na verdade, para que o homem se faça discípulo do Mestre divino interior: “Se o Mestre de que se trata for de uma natureza tão diferente da humana, que tenha o poder de entrar e quase se assentar na alma mesma do discípulo, como um cocheiro no coche, e guiar dali todas as suas potências, e ainda mais, animá-las a partir do seu próprio espírito, e consequentemente, se a sabedoria divina participada, o mesmo mestre que entrou no homem, ali dentro, com o seu consentimento e com a sua adesão, ali habitasse e o fizesse viver de si, aquelas três coisas sobre as quais falávamos não teriam mais nenhuma dificuldade de ser compreendidas; ou seja, torna-se claríssimo como se reduz à imitação de Cristo a sabedoria sobrenatural dos outros homens, e como esta imitação é possível, e possível de uma maravilhosa maneira, confrontando-se uma tal identidade de sabedoria. Qual intelecto humano poderia conceber uma maneira tão estupenda e tão sublime de efetuar aquele preceito que chega mesmo a indicar filosofia: ‘Imita a Deus!’?” (Ib., p. 181s).
2.3. Finalmente, mas não menos importante, a dimensão moral do ser, que chama a atenção para a vida e para a liberdade. Aqui, se toca o ápice do universo pessoal e a possibilidade de ter juntos o ideal e o real num relacionamento que, metaforicamente, poderíamos definir como esponsal. Sem o ideal e o real nem mesmo o moral tem um sentido, e isso é capaz de catalizar e polarizar as outras duas formas do ser. Tudo o que é ou é pessoa ou tem como finalidade a pessoa e na pessoa se realiza a com-presença das três formas do ser. Mas a pessoa se constitui segundo o próprio fim no exercício da moralidade, ou seja da liberdade orientada para o bem, porque somente o bem faz bem, no sentido de que constrói a pessoa na linha do ser e do seu dever ser, enquanto que o mal moral pode satisfazer mas não faz bem. Insere-se o tema da caridade em um discurso antropológico, metafísico e teológico, todo orientado para a pessoa. Não se dá pessoa sem as três formas do ser (eis a equivalência), mas a pessoa se realiza através de escolhas morais orientadas para o bem objetivo (eis o primado). A vontade livre é o vértice da pessoa, o ponto de Arquimedes sobre o qual se constrói e se move toda a antropologia rosminiana. A escolha agápica, na medida em que celebra o encontro com a escolha fundamental de Cristo e da sua pro-existência de amor e de doação, seja em relação ao Pai que em relação a nós, realiza a pessoa segundo o projeto de Deus Criador e Pai.

3. A unidade da educação
Se o nosso tempo é tempo de fragmentação e de desorientação, emergência educativa deve significar busca pela unidade e pela capacidade de orientação. Já no iluminismo alemão, um pensador como G. E. Lessing tinha trazido à tona a ideia segundo a qual a Revelação representa para a humanidade aquilo que a educação exprime no relacionamento como indivíduo. Neste sentido, a Revelação é orientação, aquela “estrela” que a Fides et ratio indica como ponto de referência imprescindível num contexto nômade como o atual.
A época da desorientação apresenta como própria componente não marginal e não meramente epistemológico a fragmentação do sentido e do saber que nele se produz. Como escreve a Fides et ratio: “É de se observar que um dos dados mais relevantes da nossa condição atual consiste na ‘crise do sentido’. Os pontos de vista, frequentemente de caráter científico, sobre a vida e sobre o mundo multiplicaram-se de tal maneira que, de fato, assistimos ao afirmar-se do fenômeno da fragmentariedade do saber. Exatamente isso torna difícil e certamente vã a busca por um sentido. Pelo contrário – o que é ainda mais dramático –, neste emaranhado de dados e de fatos entre os quais se vive e que parecem constituir a trama mesma da existência, não poucos são os que se perguntam se existe ainda algum sentido colocar-se a perguntar pelo sentido. A pluralidade das teorias que se disputam como resposta, ou os diversos modos de ver e de interpretar o mundo e a vida do homem, apenas aguçam esta dúvida radical, que facilmente desemboca num estado de ceticismo e de indiferença ou nas diversas expressões do niilismo” (FeR, 81).
Neste contexto de “desespero epistemológico” e de dispersão antropológica, uma mensagem particularmente iluminadora das trevas da noite do mundo é a que emanda da expressão adotada por Franz Rosenzwig como “ponto de Arquimedes” da própria reflexão, e que João Paulo II inseriu na Fides et ratio (n. 15): “A Revelação cristão é a verdadeira estrela de orientação para o homem que avança entre os condicionamentos da mentalidade imanentista e os estreitamentos de uma lógica tecnocrática; é a última possibilidade oferecida por Deus para reencontrar em plenitude o projeto originário de amor, iniciado com a criação. Ao homem desejoso de conhecer o verdadeiro, se ainda for capaz de olhar para além de si mesmo e alçar o olhar para além dos próprios projetos, é dada a possibilidade de recuperar o genuíno relacionamento com a sua vida, seguindo a estrada da verdade. As palavras do Deuteronômio podem muito bem ser aplicadas nesta situação: ‘Porque este mandamento que, hoje, te ordeno não é demasiado difícil, nem está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Pois esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires’ (30, 11-14)”. A este texto faz eco o famoso pensamento do santo filósofo e teólogo Agostinho: “Noli foras ire, in te ipsum redi. In interiore homine habitat veritas”. Voltando à fórmula da Revelação-orientação é retomada a necessidade de colher o nexo inscindível entre pessoa e verdade que o ‘pensamento revelador’ reconhece como constitutivo de um autêntico e libertador conhecimento. Tal vínculo foi tematizado pelo pensamento contemporâneo em algumas de suas figuras representativas e foi eficazmente exposto nas páginas introdutórias do importante volume de Luigi Pareyson intitulado Verità e interpretazione: “quando a liberdade cessa de reger o vínculo originário de liberdade e pessoa, tudo se transforma. A verdade desaparece, deixando o pensamento vazio e desancorado, e desaparece também a pessoa, reduzida da mera situação histórica. A harmonia entre dizer, revelar e exprimir, se rompe, e todos os relacionamentos ficam confusos e profundamente alterados. (...) Sem verdade, o aspecto revelador da palavra é puramente aparente e se reduz a uma racionalidade vazia e privada de conteúdo; não mais referida à pessoa na sua abertura reveladora, mas à situação na sua mera temporalidade, a expressão se torna inconsciente e oculta” (L. Pareyson, Verità e interpretazione, Mursia, Milão, 1982, p. 19).
A tarefa educativa e a ação pedagógica só são possíveis na medida em que a busca pelo verdadeiro, pelo bem e pelo belo seja vivida numa relação interpessoal e dialógica, pela qual nunca será vão repetir a advertência rosminiana com a qual concluímos esta nossa reflexão: “Somente grandes homens podem formar outros grandes homens” (A. Rosmini, Delle cinque piaghe della Santa Chiesa, a cura di N. Galantino, San Paolo, Cinisello Balsamo, 1997, n. 27, p. 48; n. 34, p. 160).

* Extraído da página italiana de Comunhão e Libertação e traduzido por Paulo R. A. Pacheco sem revisão do autor.

A aventura educativa 1

Encontro com o Cardeal Angelo Bagnasco
Milão, Palasharp - 18 de março de 2010

Introdução*
Por Padre Julián Carrón

"O tema principal, para nós, em todos os nossos discursos, é a educação: como nos educarmos, no que consiste e como se desenvolve a educação, uma educação que seja verdadeira, isto é correspondente ao humano" [1].
Nada mais do que esta frase de Padre Luigi Giussani explica tão claramente e de forma tão definitiva como o carisma dado a ele encontre na educação a sua dimensão mais decisiva. A sua constante preocupação - que por graça de Deus se tornou também nossa - foi a de "educar o coração do homem assim como Deus o fez" [2], isto é evocar e sustentar nele a abertura incansável à realidade, encorajada por aqueles desejos nativos e por aquelas exigências inextirpáveis que constituem o tecido de que é feito o coração, antes mesmo que qualquer condicionamento cultural ou social.
Neste momento histórico, ainda uma vez, o desafio mais decisivo que nos alcança é exatamente o da educação. Há dois anos, o santo padre Bento XVI colocou diante de todos os cristãos e homens de boa vontade esta urgência: "Educar (...) nunca foi fácil, e hoje parece ter se tornado ainda mais difícil. Sabem-no bem os pais, os educadores, os sacerdotes e todos aqueles que têm responsabilidade educativa direta. Fala-se, por isso, de uma grande 'emergência educativa', confirmada pelos fracassos contra os quais nossos esforços para formar pessoas sólidas e capazes de colaborar com os outros e dar um sentido à própria vida se embatem. (...) Exatamente disso nasce a dificuldade talvez mais profunda para uma verdadeira obra educativa: na raiz da crise da educação existe, de fato, uma crise de confiança na vida" [3].
Está enfraquecendo - sob os olhos de todos - a solidez do humano. Algumas vezes conseguimos viver com os rendimentos de uma tradição. Agora, porém, que o Cristianismo e a tradição são cada vez menos incidentes e que prevalece toda uma outra concepção de vida, nós nos encontramos diante de uma paralisia, de uma incapacidade de nos interessarmos por alguma coisa (sabem-no bem os educadores que entram em sala de aula todos os dias).
Com sua capacidade profética, Padre Giussani identificava, já em 1987, este desvio que, hoje, parece ter se propagado: "É como se todos os jovens [e agora podemos dizer que também muitos adultos] de hoje tivessem sido contaminados pelas radiações de Chernobyl [por uma enorme explosão nuclear]: o organismo, estruturalmente, é como antes, mas dinamicamente não é mais o mesmo. Aconteceu como que um assujeitamente fisiológico pela mentalidade dominante" [4]. Esta mentalidade provoca uma estranheidade a nós mesmos, que torna abstratos no relacionamento com nós mesmos e sem energia afetiva. A consequência é aquele "misterioso torpor" [5] de que falava, anos atrás, Pietro Citati. Isto nos evidencia a profundidade da crise. Não é uma crise de natureza moral, mas é uma verdadeira crise do humano.
Então, a que podemos apelar para recomeçar? Não podemos apelar à tradição que, para tantos, é completamente desconhecida ou é gravemente fragmentada naqueles em que se pode encontrar ainda algum traço. O único apoio que temos é o que nenhum poder pode destruir e que permanece sob todas as possíveis ruínas: a "experiência elementar" [6] do homem, o seu coração que contém as exigências constitutivas de verdade, de beleza, de justiça...
É aqui onde o Cristianismo pode, de novo, mostrar a sua verdade e dar uma contribuição decisiva, exatamente onde todos estão falhando. Esta contribuição será possível apenas se a atual circunstância histórica - tão difícil - seja enfrentada como uma grande aventura, como uma oportunidade para uma nova autoconsciência da natureza do Cristianismo. De fato, uma fé reduzida a ética ou a espiritualismo (a isto se reduziu o Cristianismo na modernidade) não é capaz de responder ao desafio. A história documentou isto amplamente. Somente um Cristianismo que se apresente segundo a sua verdadeira natureza, ou seja a de um "fato histórico" que se documenta em uma diversidade humana, pode ser capaz de dar uma verdadeira contribuiçõa a esta situação problemática.
E então, "onde se pode encontrar (...) a pessoa?", perguntava-se Padre Giussani. "A resposta que estou para dar não é uma resposta para a situação na qual estamos (...); é uma regra, uma lei universal desde quando o homem existe: a pessoa reencontra a si mesma num encontro vivo, ou seja em uma presença com a qual se depara e que libera uma atração, (...) ou seja provoca ao fato que o nosso coração, com aquilo de que é constituído, com as exigências que o constituem, existe". É uma presença que move, que produz um desconcerto carregado de razoabilidade, uma rebelião no nosso coração. Esta presença faz reencontrar a originalidade da própria vida, isto é "uma correspondência à vida segundo a totalidade das suas dimensões. Em suma, a pessoa se reencontra quando uma presença que corresponde à natureza da vida abre espaço dentro dele - esta é a primeira evidência - e, assim, o homem não está mais na solidão" [7].
Dois são, então, os fatores de um renascimento da experiência educativa.
Em primeiro lugar, a consciência do método. A única coisa capaz de despertar o eu do seu torpor, não é uma organização ou um chamado de atenção ético mais obstinado, mas o deparar-se com uma diversidade humana. Para que isto possa acontecer são necessários - e este é o segundo fator indispensável - adultos que encarnem na própria vida uma "resposta plausível" [8] (tal como foi definida por Sua Eminência o Cardel Angelo Bagnasco, na homelia da Missa, em Gênova, pelo quinto aniversário da morte de Padre Giussani), que possa ser oferecida aos outros. Trata-se de uma extraordinária possibilidade de verificação: participando da aventura educativa, ou seja buscando introduzir homens à totalidade do real, vem à tona, sem possibilidade de abstrações, se nós, antes de todos, participamos da aventura do conhecimento. Padre Giussani sempre nos disse que a forma da educação é a "comunicação de si" [9], ou seja, do modo próprio de relacionamento com a realidade; por isso, só podemos educar na medida em que, antes, aceitarmos o desafio do real, compreendidos aí os medos, as dificuldades, as objeções. Exatamente isto mostrará a todos o alcance da fé como resposta às exigências de um homem racional do nosso tempo. E tornará a aventura educativa entusiasmente e cheia de esperança, para cada um de nós.
Através do encontro desta noite, queremos, portanto, corresponder à preocupação educativa da Igreja italiana, repetida também recentemente nas palavras do nosso arcebispo Dionigi Tettamanzi (durante a Missa pelo quinto aniversário da morte de Padre Giussani): "O juízo cristão sobre a realidade, a formação da consciência segundo a fé cristã se coloca como fundamento e força para aquele empenho educativo que representa, sem dúvida nenhuma, como tão frequentemente repete o Santo Padre, uma das atuais prioridades pastorais da Igreja. Os Bispos italianos querem assumir este desafio e o apresentam como algo decisivo para o próximo decênio pastoral. Penso que os ensinamentos, a vida, as obras de Padre Giussani tenham ainda muito para oferecer às nossas comunidades" [10].
Arrancar o homem do torpor, chamá-lo outra vez ao ser: este é o nível elementar e decisivo da educação. E isto será, de fato, possível, como êxito, apenas se aceitarmos e se se tornar nosso o olhar de Cristo sobre a realidade: "Deus se dá, dá a Si mesmo ao homem. E o que é Deus? A fonte do ser. Deus dá ao homem o ser: permite ao homem ser; permite ao homem ser mais, crescer; permite ao homem ser si mesmo, crescer até a sua realização, isto é permite ao homem ser feliz" [11].

1 L. Giussani, Il rischio educativo, Rizzoli, Milano 2005, p. 15.
2 L. Giussani, Il rischio educativo, Rizzoli, Milano 2005, pp. 15-16.
3 Benedetto XVI, Lettera alla Diocesi e alla città di Roma sul compito urgente dell’educazione, 21 gennaio 2008.
4 L. Giussani, L’io rinasce in un incontro (1986-1987), BUR, Milano 2010, p. 181 (in corso di pubblicazione).
5 P. Citati, «Gli eterni adolescenti», la Repubblica, 2/8/1999, p. 1.
6 L. Giussani, Il senso religioso, Rizzoli, Milano 1997, p. 8.
7 L. Giussani, L’io rinasce in un incontro, BUR, Rizzoli 2010, p. 183 (in corso di pubblicazione).
8 A. Bagnasco, «Esserci!”, Omelia alla Messa nel V anniversario della morte di Luigi Giussani, Genova, 23 febbraio 2010.
9 L. Giussani, Realtà e giovinezza. La sfida, Società Editrice Internazionale, Torino 1995, p. 172
10 D. Tettamanzi, «Un’eredità spirituale e pastorale da vivere», Omelia alla Messa nel V anniversario della morte di Luigi Giussani, Milano, 22 febbraio 2010.
11 L. Giussani, Si può vivere così?, Rizzoli, Milano 2007, p. 327.

* Extraído da página italiana de Comunhão e Libertação e traduzido por Paulo R. A. Pacheco, sem revisão do autor.

Comentário ao evangelho do dia


Anunciação do Senhor

Evangelho - Lc 1,26-38
Naquele tempo: O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!" Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. O anjo, então, disse-lhe: "Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim". Maria perguntou ao anjo: "Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?" O anjo respondeu: "O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altissimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, porque para Deus nada é impossível". Maria, então, disse: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!" E o anjo retirou-se.

Comentário feito por São Beda, o Venerável (c. 673-735)
monge, Doutor da Igreja

"O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, uma virgem, desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria". O que é dito da casa de Davi não diz respeito apenas a José, mas também a Maria. Porque a Lei prescrevia que um homem se casasse com uma mulher da sua tribo e da sua estirpe, segundo o testemunho do apóstolo Paulo, que escreveu a Timóteo: "Lembra-te de Jesus Cristo, saído da estirpe de Davi, e ressuscitado dos mortos, segundo o meu Evangelho (2Tim 2, 8). [...] "Ele será grande e vai chamar-Se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-Lhe o trono de Seu pai Davi". O trono de Davi significa aqui o poder sobre o povo de Israel, que Davi governou no seu tempo, com um zelo pleno de fé. [...] A este povo, que Davi dirigiu pelo seu poder temporal, vai Cristo conduzir por uma graça espiritual para o reino eterno. [...] "Ele reinará eternamente sobre a casa de Jacó". A casa de Jacó designa a Igreja universal que, pela fé e o testemunho rendido a Cristo, se une ao destino dos patriarcas, quer dos que tiram a sua origem carnal da sua cepa, quer dos que, nascidos pela carne de uma outra nação, são reunidos em Cristo, pelo batismo no Espírito. É sobre esta casa de Jacó que Ele reinará eternamente: "e o Seu reinado não terá fim". Sim, Ele reina sobre ela na vida presente, quando governa o coração dos eleitos onde habita, pela sua fé e o seu amor para com Ele; e governa-os pela Sua contínua proteção, para lhes fazer chegar os dons da recompensa celeste. Ele reina no futuro, quando, uma vez terminado o estado de exílio temporal, os introduz na estadia da pátria celeste, onde eles se regozijam com a Sua presença visível que continuamente lhes lembra que não podem senão cantar os Seus louvores.

quarta-feira, 24 de março de 2010

40 dias com Giussani

"O sentido do mundo e da história é a misericórdia de Cristo, Filho do Pai, mandado pelo Pai para morrer por nós. No drama de Milosz, o Abade, ao um certo ponto, meio que impaciente, diz a Miguel Mañara, que ia, todos os dias, lamentar-se com ele de seus pecados passados: 'Pare com esses lamentos de mocinha. Tudo isso nunca existiu'. Como, 'nunca existiu'? Miguel tinha assassinado, estuprado, tinha sido injusto... 'Tudo isso nunca existiu. Só Ele é'. Ele, Jesus, se volta a nós, se faz 'encontro' para nós, perguntando-nos apenas uma coisa: não 'o que você fez?', mas 'você me ama?'.
Amá-Lo sobre todas as coisas, então, não quer dizer que eu não tenha pecado ou que eu não peque amanhã. Que estranho! É preciso uma potência infinita para existir esta misericórdia, uma potência infinita da qual - neste mundo terreno, no tempo e no espaço que nos foi dado viver, nos anos, poucos ou muitos que sejam - nós (...) chegamos à letícia. Porque um homem, com a consciência de toda a sua pequenez, fica feliz diante do anúncio desta misericórdia: Jesus é misericórdia. Ele foi mandado pelo Pai para nos fazer conhecer que a essência de Deus tem como característica suprema para o homem a misericórdia. 'Inclinaste-Te sobre as nossas feridas e nos curastes', diz um Prefácio da Liturgia Ambrosiana, 'dando-nos um remédio mais forte do que as nossas chagas, uma misericórdia maior do que a nossa culpa. Assim, mesmo o pecado, em virtude do Teu amor invencível, serviu para nos elevar à vida divina'.
Desta letícia surge a paz, a possibilidade da paz. Mesmo em todos os nossos infortúnios, em todas as nossas maldades, em toda a nossa incoerência, em toda a nossa fraqueza, naquela fraqueza mortal que é o homem, podemos realmente respirar e suspirar a paz, gerar paz e respeito pelo outro."
(GIUSSANI, Luigi. Generare tracce nella storia del mondo. Nuove tracce di esperienza cristiana. 1998, pp. 87-88)

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Jo 8,31-42
Naquele tempo: Jesus disse aos judeus que nele tinham acreditado: "Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." Responderam eles: "Somos descendentes de Abraão, e nunca fomos escravos de ninguém. Como podes dizer: 'Vós vos tornareis livres'?" Jesus respondeu: "Em verdade, em verdade vos digo, todo aquele que comete pecado é escravo do pecado. O escravo não permanece para sempre numa família, mas o filho permanece nela para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres. Bem sei que sois descendentes de Abraão; no entanto, procurais matar-me, porque a minha palavra não é acolhida por vós. Eu falo o que vi junto do Pai; e vós fazeis o que ouvistes do vosso pai." Eles responderam então: "O nosso pai é Abraão." Disse-lhes Jesus: "Se sois filhos de Abraão, praticai as obras de Abraão! Mas agora, vós procurais matar-me, a mim, que vos falei a verdade que ouvi de Deus. Isto, Abraão não o fez. Vós fazeis as obras do vosso pai." Disseram-lhe, então: "Nós não nascemos do adultério, temos um só pai: Deus." Respondeu-lhes Jesus: "Se Deus fosse vosso Pai, vós certamente me amaríeis, porque de Deus é que eu saí, e vim. Não vim por mim mesmo, mas foi ele que me enviou."

Comentário feito por Orígenes (c. 185-253)
presbítero e teólogo

"Eu sou o Senhor teu Deus que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão" (Ex 20, 2). Estas palavras não se dirigem apenas aos que já saíram do Egito; dirigem-se sobretudo a ti que as ouves agora, se quiseres sair do Egito. [...] Reflete, pois: as coisas deste mundo e as ações da carne não serão essa casa de servidão e, ao contrário, a fuga às coisas deste mundo e a vida segundo Deus não serão a casa da liberdade, conforme o que o Senhor diz no Evangelho: "Se permanecerdes na Minha palavra, conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres"? Sim, o Egito é a casa de servidão; Jerusalém e a Judeia são a casa da liberdade. Escuta o que o Apóstolo Paulo declara a este respeito [...]: "A Jerusalém que é do alto é livre; é a mãe de todos nós" (Gal 4, 26). E, da mesma forma que o Egito, esta província terrestre, é chamada "casa de servidão" para os filhos de Israel relativamente a Jerusalém e à Judeia, que são para eles a casa da liberdade, assim também, relativamente à Jerusalém celeste que é, pode-se dizer, a mãe da liberdade, o mundo inteiro, com tudo o que ele contém, é uma casa de servidão. Houve outrora, para castigo do pecado, uma passagem do paraíso da liberdade à servidão deste mundo [...]; por isso a primeira palavra dos mandamentos de Deus diz respeito à liberdade: "Eu sou o Senhor teu Deus que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão".