sexta-feira, 30 de abril de 2010

Cartas do P.e Aldo 142

Asunción, 30 de abril de 2010.

Caros amigos,
vários me têm perguntado por que eu não escrevo mais como antes. A resposta é muito simples: é sempre mais necessário que nos eduquemos a seguir e a levar a sério o que Carrón nos ensina com o seu modo de viver o carisma de Giussani, enriquecido com o seu dom pessoal de entrar no coração da realidade, fazendo-nos colher toda a espetacular positividade que contém. É como se, olhando para ele, para a sua liberdade, para o seu modo de estar diante de Cristo, se percebesse sempre mais que, também para mim, é o mesmo.
“Olhar Cristo no rosto”: eis que nesta afirmação está contido todo o meu viver, estar diante dEle da manhã à noite. Estar diante dEle quando me levanto com mau humor e imediatamente preciso me colocar de joelhos para olhar no rosto a alvorada que desponta com um sorriso. Estar diante dEle para sair, fazer minha corridinha de meia hora para permitir que minha diabetes não brinque comigo... estar diante dEle rezando, possivelmente, os quatro mistérios do rosário para poder, mesmo que distraidamente, gozar da Sua vida tão bem sintetizada no rosário. Estar diante dEle tomando o café e, depois, correr, às 7h da manhã, para pegar as minhas crianças e levá-las para a escola, depois de ter dado um beijo em cada um delas - que tanto esperam - e depois de ter rezado com elas as orações diante de Nossa Senhora. Estar diante dEle quando, deixadas as crianças na escola, corro para a clínica onde, às 7h15, todos os dependentes da Divina Providência, a Chefe do hospital, esperam pela meia hora de adoração, dividida entre a procissão e a comunhão aos doentes, as leituras do evangelho e um pensamento que desperte em cada um a mesma posição do coração que há já mais de uma hora e meia enche o meu. Estar diante dEle quando me ajoelho diante de cada doente, dando-lhe um beijo no rosto e fazendo-lhe um carinho. É o momento mais bonito do dia: com a Eucaristia nas mãos, de joelhos diante de cada paciente. É reviver, em cada momento, o Mistério da paixão, morte e ressurreição. Este Mistério tão concreto do meu cotidiano, um cotidiano que começa cedo e termina tarde, quando, depois de ter dado um beijinho de boa noite nas minhas crianças (nem sempre consigo ir à Casinha de Belém, porque sempre tem um imprevisto), retorno para a clínica, para saudar as minhas pequenas hóstias brancas (Vítor, Cristina, Celeste, Aldo, Mário), frequentemente ainda acordados. Beijo-os, me ajoelho diante de cada um e, depois, tocando o rosto de um por um, faço o sinal da cruz. São o meu Jesus, o que mais sofre e que mais me conforta. Só depois de ter saudado este Crucifixo que são os meus pequenos doentes, é que saúdo Jesus Eucarístico e vou para a cama, tentar dormir... porém, olhando para Ele.
Vocês sabem quantas vezes eu retomo esse trecho da Escola de Comunidade no qual Giussani fala de olhar Cristo no rosto, e quantas vezes leio, releio as coisas que Carrón nos diz.
A surpresa mais bonita (vocês podem ler isso em Tempi) foi a visita de Marcos, Cleuza e Bracco (responsáveis do Brasil) na semana passada. Eu tinha voltado de uma longa viagem e todos sentíamos um grande desejo de nos vermos. Assim, eles pegaram o primeiro avião e vieram para cá. Eu estava muito cansado e precisava vê-los, estar com eles, porque, como diz Cleuza, “frequentemente, na vida, podemos nos encontrar no fundo de um poço. Então, você tem duas possibilidades: ou olhar em volta e se sentir sufocando, ou levantar os olhos e ver aquele metro quadrado de céu azul que lhe faz pedir, gritar por ajuda”. E, de fato, aconteceu assim: eles foram, para mim, aquele pedaço de céu azul. Mas, não porque tivéssemos feito um dia de retiro espiritual, mas pelo simples fato de que nos fizemos companhia, ajudando-nos com o texto de Carrón, publicado no jornal Repubblica, na Páscoa: “Feridos, voltamos a Cristo”. Todos somos feridos e, por isso, somos necessitados de voltar àquele Tu, àquele estar diante dEle.
Foi muito bonito, porque, vivendo com eles o que eu vivo todos os dias, foi como entrar ainda mais no coração da questão: a paixão pela glória de Cristo. E além do mais foi bonito porque mesmo os meus confrades vibram sempre mais com esta beleza. Porém, em Tempi, vocês vão encontrar todos os detalhes daqueles dias.
No dia primeiro de maio, a clínica faz 6 anos. Acompanhei mais de 700 pacientes para a morte entre os braços de Jesus. Em seis anos, a morte se tornou minha amiga e não tem mais o rosto feio como sempre eu a vi. Pensem: é o momento no qual você está para encontrar Jesus, aquele Jesus pelo qual eu acabei aqui, aquele Jesus pelo qual, graças a tantas misérias vividas, aprendi a tocar com a mão o significado do Horto do Getsemani, aquele Jesus que se serviu e se serve de um pobrezinho como eu, com um temperamento único e, frequentemente, com uma emotividade tão variada, mas que está bem ancorada na certeza de que nenhum problema é maior do que a resposta. Que nenhum problema é maior do que Jesus.
Uma enfermeira me dizia ontem: “O que move a minha vida é o milagre: tudo é, para mim, um milagre... do modo com o qual tiro uma fralda dos idosos ao modo como os limpo etc. A fé não é dizer ‘ou conta só até aqui’, mas a certeza de que Deus cumpre e, por isso, pede ajuda para você. Se eu estou aqui é porque o Senhor me quer aqui. A fé é a esperança que se cumpre. Por exemplo, quando chegam os mendigos, alguém poderia dizer: ‘Mas, estes não mudarão nunca, é inútil querer educá-los’. Porém, para mim, não é assim, porque tenho a certeza que nasce da fé de que, com o meu afeto, a esperança que algo lhes aconteça se tornará verdadeira. De fato, depois de meses, aprenderam a usar o banheiro, a aceitar os remédios, a ficar juntos na mesa usando mesmo o guardanapo. O milagre é o fruto da insistência da fé que é a esperança. Depende de mim que isso aconteça, porque se a minha liberdade não deixa uma fissura aberta para a graça, nem mesmo Deus pode fazer alguma coisa”.
E é belo ver como estas 150 pessoas que trabalham aqui, dependentes diretos do Pai Eterno, aprendam a viver assim o trabalho, aprendam a estar diante de Cristo e vejam, cada dia, os sinais da Sua Vitória. Chegam cheios de confusões e, no tempo, educados a estar diante dEle, mudam, se tornam humanos.
O mês de maio está às portas, e eu peço a vocês que rezem a Nossa Senhora para mim e para os meus doentes e para todos este povo que vive e sofre aqui.
Uma nota final: ontem, como a cada 15 dias, encontramos os doentes de AIDS para ficar com eles, porque o homem é uma companhia. Este é um índio, transexual com cabelos (tingidos) louros. É meu afilhado de crisma. É um daqueles que, graças ao afeto e aos remédios, de moribundo que era recomeçou a viver. Pois bem, veio de longe, tão pobre que disse: “Para vir ficar com vocês, em companhia, peguei emprestado um par de sapatos, porque, há meses, que ando descalço, porque não tenho nada, muitas vezes nada nem para comer”. Que comoção! É verdade: quando se há uma pergunto grande na vida, se busca uma companhia adequada e, não havendo sapatos para alcançá-la, pede-se emprestado a quem tem. Pergunta pequena, homens anãos. Pergunta grande, encontram-se gigantes.
“Feridos, buscamos Cristo”... levemos isso a sério... se não se está ferido... não se pede sapatos emprestado...
Com afeto,
Padre Aldo

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Sobre P.e Aldo

Como eu, acredito que muitos dos que acompanham este blog devem estar se perguntando onde foram parar as cartas do P.e Aldo. Recebi, hoje, um bilhete do secretário dele e aproveitei para perguntar o que estava havendo. A resposta que me veio foi esta: "Padre Aldo não teve tempo (por conta de suas contínuas viagens de trabalho missionário) de escrever novas cartas. Uma saudação cordial. Guilhermo". Portanto, lembremo-nos dele em nossas orações.
Abraço em todos.

Um saquinho de laranjas pela emergência educativa

Por Giorgio Paolucci

Emergência educativa: um fenômeno que está na boca de todos. Tantas vozes se levantam para enfrentar estes "jovens de todos os tipos que não sabemos mais como gerir". Desperdiçam-se análises e denúncias, carece-se de remédios. Aquilo sobre o que (quase) todos concordam é que, depois da época do "é proibido proibir", é necessária uma maior severidade. Traduzindo: é como se se entendesse que professores e pais devem se tornar os policiais da juventude. Que é preciso voltar a punir como antes, ou então a situação se tornará incontrolável. Mas, será que um adulto-xerife é suficiente? Um episódio do qual fomos testemunhas há alguns dias ajuda a responder às perguntas que muitos se colocam, sem encontrarem uma resposta convicente.
Estudantes do ensino médio aproveitando um feriado em Firenze. Parada para um lanche na frente do mosteiro de São Marcos. Depois de terem saciado a fome, começam a jogar, uns nos outros, o resto dos sanduíches e a esmigalhar os biscoitos, jogam a água das garrafinhas uns sobre os outros, enquanto um grupo improvisa uma partida de futebol com as laranjas que ficaram nos saquinhos. Gritos, risadas sardônicas, e o desconcerto e a desaprovação dos passantes: "mas, o que os pais ensinam em casa a essa gente? E os professores o que fazem?".
Acontece um fato imprevisto: dois professores recolhem as laranjas que sobraram e as colocam em dois saquinhos, outros dois saquinhos são enchidos com os sanduíches, depois recolhem as garrafinhas de água espalhadas no chão. Chamam aqueles que estavam jogando bola e os convidam a segui-los. "O que é? Não fizemos nada". "Não se preocupem. Venham conosco". Juntos vão para a frente do portal do Hospital dos Inocentes - que fica ali perto -, onde dormem alguns velhos mendigos. Um professor se aproxima daquela humanidade afligida e pergunta: "Vocês querem alguns sanduíches? Não se ofendem?". No rosto daqueles homens se acende um sorriso, as mãos se estendem para pegar os saquinhos. "Aceitam água também?" "Não, obrigado. Ainda temos um pouco." Como isso pode ser possível? Eles poderiam ter feito uma reserva... mas preferem deixar para outros que também podem ter necessidade. Do meio das colunas desponta uma senhora mal vestida, com os olhos fundos e o olhar orgulhoso: "Tenho seis filhos, seis... podem me dar também?". Ainda há as laranjas, e os olhares dos mendigos se iluminam: "Que maravilha, fruta!".
Os dois professores voltam para o mosteiro de São Marcos, seguidos pelos jovens que se olham quase incrédulos, alguns com olhos baixos, e comentam: "Mas, você viu aquele lá como pegou a laranja? E o outro que não quis a garrafinha de água?". A bravata de onde tudo tinha nascido deixou lugar para o maravilhamento diante de algo grande que testemunharam e do que foram protagonistas involuntários. Algo maior do que a tolice que haviam feito, algo que tornou evidente, no impacto com a pergunta presente naquela humanidade necessitada, a pequenez do comportamento que tinham assumido.
A realidade ensina mais do que muita falação sobre os valores. Basta saber olhar para ela com olhos sinceros. Mas, para isso, é necessário alguém que eduque a olhá-la assim. Alguém capaz de conduzir pelas mãos jovens que, jogando futebol com laranjas que sobraram do lanche, jogam futebol com a própria vida. E que, da vida, possam redescobrir o significado e o valor, tendo diante dos olhos alguém que não esperavam. Aqueles dois professores economizaram a enésima e previsível reprimenda, deram aula fora de sala. Uma aula de vida feita de poucas palavras e de um gesto capaz de despertar perguntas que cada um traz em si no coração. E, assim, conseguiram uma pequena-grande conquista educativa que nenhum "xerife" saberia conseguir.

* Artigo publicado no jornal Avvenire, do dia 23 de abril de 2010, p. 2. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Assim, Bento XVI defende a Igreja...

Por Adrian Pabst

Cinco anos após a sucessão de João Paulo II, que ocorreu no dia 19 de abril de 2005, Bento XVI se encontra enfrentado a crise mais grave do seu papado. O escândalo da pedofilia, que está em curso atualmente, continua a enfraquecer a credibilidade da Igreja e reforça os estereótipos tradicionais que veem o Vaticano, sob o seu comando, como uma teocracia medieval governada por um autocrata absoluto, de temperamento reacionário e intolerante.
Tal opinião não é difundida apenas por ateus como Richard Dawkins ou Christopher Hitchens. Ao lado destes acusadores habituais se encontram numerosos católicos importantes que estão desfrutando do escândalo dos abusos sexuais como pretexto para atacar o pontífice. Em uma carta aberta, endereçada aos bispos católicos, publicada no sábado passado, o teólogo suíço Hans Küng culpou Ratzinger pela “mais profunda crise de credibilidade da Igreja, desde os tempos da reforma protestante”. Substancialmente, Küng acusa o Papa de ter restaurado uma visão reacionária do catolicismo, que renega as reformas progressistas do Concílio Vaticano II (1962-1965), do qual ambos participaram como peritos (jovens conselheiros teólogos, a serviço de cardeais).
Como grande parte do ateísmo contemporâneo, a carta de Küng é devida muito mais à ideologia do que à razão. A sua subdivisão do catolicismo (e de outras tradições religiosas) em uma ala liberal e progressista e outra conservadora e reacionária é uma distinção típica do laicismo moderno, que desnaturaliza a unicidade de cada e de todas as religiões. Eis porque o principal interesse de Küng, a construção de uma “ética mundial”, é uma abstração do caráter único das diversas tradições de fé, uma instrumentalização da religião a serviço de uma dúbia moralidade que não é outra coisa que um simples “comportar-se bem na relação com outros”.
É uma notável diferença com relação à ética universal e às outras verdades que todas as religiões defendem, mas sobre as quais estão em desacordo umas com as outras, como, por exemplo, quanto ao papel do amor e da lei no Judaísmo e no Cristianismo. Negando um real universalismo, a “ética mundial” de Küng é perfeitamente compatível com o laicismo moderno e com aquela “ditadura do relativismo” que o Papa Bento XVI denunciou repetidas vezes. Não é de se estranhar que Küng prefira um catolicismo liberal que imita a cultura laica, perdendo, neste processo, a própria visão integral única.
O que é pior é que Küng não compreende a longa tradição intelectual que o Papa tenta preservar e estender, uma espécie de ortodoxia romântica que aborrece grande parte da reforma e da contra-reforma modernas, a favor da herança da patrística e da Idade Média compartilhada por cristãos do leste ao oeste. Tal herança cultural deriva dos ensinamentos de doutores e de padres da Igreja, como Santo Agostinho, Dionísio ou Santo Tomás de Aquino, sobre o tema da unidade do natural e do sobrenatural, em contraposição à separação moderna entre universo natural e graça e criatividade divina. Em poucas palavras, podemos dizer que Bento XVI refuta o dualismo moderno entre natureza e graça, ou entre fé e razão, como expôs no seu controvertido discurso em Regensburg, em 2006.
A argumentação do Papa é que tais dualismos modernos nivelaram o caminho para a desastrosa separação entre razão e fé, uma oposição que está na base do conflito cada vez mais obstinado entre a razão absoluta do laicismo (e do ateísmo) extremo e a fé cega dos fundamentalismos religiosos. Neste sentido, o apelo de Bento XVI para um retorno à “grandeza da razão”, pelo qual razão e fé necessitam uma da outra e se incrementam, é muito mais radical e progressista do que as pretensões de Küng por um diálogo mais liberal.
Efetivamente, a intervenção do Papa trouxe para um diálogo mais intenso e de maior vigor intelectuais cristãos e muçulmanos, como ficou demonstrado pelo fórum permanente para o diálogo católico-muçulmano. Ele foi estabelecido em resposta às críticas movidas pelo discurso papal em Regensburg, no qual vinculou a violência do Islã à maior importância dada ao poder e à vontade de Deus em detrimento da razão e do intelecto divino. Küng acusa Bento XVI de ter causado uma crise de confiança entre cristãos e muçulmanos, mas o Papa tem razão ao insistir que tal confiança é verdadeiramente autêntica apenas se for baseada numa recíproca compreensão das reais diferenças entre Cristianismo e Islã: a encarnação de Deus, a divina natureza de Cristo e a Santíssima Trindade.
Não é nem mesmo verdadeiro que Bento XVI tenha nostalgia da doutrina e dos concílios da Igreja das origens. Pelo contrário, ele reúne a herança cultural da patrística e da Idade Média ao Romantismo moderno, com suas ênfases comuns sobre declarações naturais do divino e sobre a atividade artística humana. É esta tradução romântica que contribuiu para criar e manter a cultura elevada pela qual briga o Papa. Isto está na base de sua defesa da liturgia tradicional (inclusive da Missa Tridentina), contra o advento do “sacro-pop”: “liturgias de festinhas paroquiais e canções banais do tipo ‘abraça-me Jesus’”, como escreve de modo um tanto apropriado Tracey Rowland no seu livro “A fé de Ratzinger”.
Além da liturgia, o Romantismo é também a chave para defender a cultura laica de si mesma. Refutando seja a razão absoluta e instrumental que a fé cega e emotiva, a tradição romântica coloca em dificuldade a convergência contemporânea entre um progresso tecnológico sem alma e uma cultura empobrecida dominada pela sexualidade e pela violência. O que é ainda mais importante, ela se opõe à confabulação cúmplice de uma liberação econômica e social sem limites que produziu a moral sexual do “laissez-faire”, com a obsessão do livre arbítrio individual em detrimento de parâmetros objetivos (mesmo que contestados) de verdade, beleza e retidão, uma preocupação compartilhada pelo arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, no seu influente livro “Os ícones perdidos”.
Permanecem abertas numerosas perguntas sobre como seria possível traduzir a visão de Bento XVI numa radical revisão da Cúria e das relações entre Roma e os bispos católicos. Mas, bem longe de ser nostálgico ou reacionário, o Papa de hoje é um obstinado romântico que está realizando um Renascimento intelectual e cultural do catolicismo.

* Publicado em Il sussidiario, no dia 22 de abril de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Unidos na paixão por Cristo e pelo homem

Por Antonio Lopez*

Afastados cinco anos da eleição, a CEI (Conferência Episcopal Italiana) convida a rezar por Bento XVI. Que continua a missão de João Paulo II, seu predecessor. Mas, o que os liga em profundidade? Falamos sobre isso com Monsenhor Lorenzo Albacete e David Schindler

Cinco anos atrás, Bento XVI sucedia a João Paulo II. O que os liga em profundidade? Pedimos a Monsenhor Lorenzo Albacete, editor, ensaista e responsável eclesiástico de CL nos EUA, e ao professor David Schindler, reitor e decano do Instituto João Paulo II para o Matrimônio e a Família, que ilustrassem os principais elementos de continuidade entre os dois pontificados. Por exemplo, o modo tão particular de conceber a fé: paixão por Cristo e pela pessoa humana.

Qual é a opinião de vocês a respeito da continuidade entre aquele grande Papa e seu sucessor?
Albacete: Acredito que a maior parte das pessoas não tenha prestado muita atenção na questão da continuidade. O ensinamento cheio de autoridade de João Paulo II e a sua contribuição para a vida da Igreja, a forma que deu à Igreja, pode se dizer substancialmente esgotada? Pode-se dizer que, hoje, temos algo de novo? Pessoalmente, fui muito tocado pela continuidade. Certamente que os estilos são diferentes, mas a continuidade é impressionante. Talvez alguns não a vejam, porque não é percebida a novidade de Cristo. A Igreja fez um esforço para ultrapassar esta divisão.
Schindler: Estou de acordo sobre o fato de que a continuidade seja profunda. Antes de mais nada, como todos os grandes homens da Igreja, ambos testemunharam o Evangelho e a unidade do Evangelho. Podemos reconhecer a sua unidade no fato de Bento XVI sublinhar, várias vezes, que o problema fundamental, hoje, é o esquecimento de Deus. No centro de todos os problemas culturais ou eclesiais que se tentam enfrentar está a recuperação da memória de Deus. João Paulo II disse algo parecido com isso em "Cruzando o limiar da esperança": o século XXI será um século religioso, ou não será em nada. Penso que este seja, de fato, o fundo de unidade entre eles: a recuperação do senso religioso e a memória de Deus, tal como é concretamente revelada em Jesus Cristo.

Qual é o olhar deles sobre o mundo? O que eles pretendem quando buscam restabelecer um significado adequado da laicidade?
Schindler: Algo que me impressionou de verdade na insistência de Bento XVI sobre a laicidade - por exemplo, quando encontrou os líderes franceses - é a sua insistência sobre o fato de que temos necessidade de recuperar uma compreensão adequada do que é a laicidade. Laicidade, para a nossa cultura, significa calar a respeito de Deus, enquanto que o ponto central de Bento é a retomada do conceito de laicidade, em cujo centro está a busca de Deus, o desejo de Deus, e em segundo lugar um desejo sem descanso, que não encontra realização total senão no encontro com Deus, na forma na qual Ele se revelou na história, ou seja, em Jesus Cristo.
Albacete: Exato. Não haveria laicidade se não existisse o Deus de Cristo. O que se tem chamado de laicidade, a separação de Deus ou da dimensão espiritual, não é laicidade em nada. Uma verdadeira laicidade é possível apenas através do Deus de Jesus Cristo.

Por quê?
Albacete: Porque é Ele que leva juntos, em si, o divino e o humano, na modalidade delineada desde o Concílio da Calcedônia, em 451. Creio que esta seja uma das coisas mais importantes que emergiram no discurso feito no Collège des Bernardins: sem Cristo não há laicidade.

Vocês podem nos dizer algo a mais a respeito da insistência de Bento XVI sobre o monaquismo, e sobre o por que não se trata de uma redução da Igreja a uma forma de vida espiritual, fora do mundo?
Schindler: Para mim, o ponto é que cada dia, na sua realidade mais profunda, cada dia, em cada aspecto seu, é dies Domini. Cada dia é Dia do Senhor. A natureza do homem é litúrgica.
Albacete: Lembrem-se de como Bento XVI expressou isso naquela ocasião: o primeiro fruto desta busca é construir uma biblioteca.
Schindler: E trabalhar!
Albacete: E trabalhar... exatamente assim. Ora et labora.
Schindler: E aqui está a dignidade do que é humilde. Neste contexto, o trabalho manual tem grande dignidade. Em um certo sentido, somente um cristão pode viver seriamente o trabalho manual. Em outros termos, a encarnação é céu e terra que se conjugam. O objetivo do nosso empenho sobre a terra é realizar o céu, mesmo que não nos seja possível realizá-lo plenamente nesta vida. Em Jesus, o céu veio sobre a terra, para que a terra pudesse ir para o céu. Ora, em Jesus, nós já participamos, agora, da unidade entre céu e terra. Por isso, somente no Cristianismo, somente na revelação de Cristo, é possível que a cada tempo, lugar e espaço, seja dada a dignidade que lhe é própria. Hoje, a nossa concepção do trabalho é tão limitada que nós o compreendemos tão somente como um instrumento para adquirir algo. É, em parte, verdadeiro, mas o trabalho é uma atividade que é participação na criatividade mesma de Deus, na ação de Deus encarnado.

A concepção moderna de trabalho é fundamentada sobre a separação entre a vida enquanto tal e o que a pessoa faz no trabalho. O que há de novo na afirmação de João Paulo II e de Bento XVI acerca da unidade entre a vida na sua inteireza e o agir do homem?
Albacete: Todas as divisões como esta são apenas manifestações de uma divisão que está na origem. Trata-se da perda da experiência do Deus cristão. São maneiras diversas de expressar este dualismo.
Schindler: Acredito que seja uma questão muito ampla. O que torna possível unir o conceito de vocação e o trabalho é reconhecer que a liberdade se realiza apenas na afirmação de um "para sempre". A verdadeira liberdade é dirigida a um amor que assume a forma de uma promessa, cuja realização só é possível mediante a verificação da relação de Deus com mundo, que se manifesta na pessoa de Cristo. O fundo da questão é simplesmente reconhecer que o significado da liberdade consiste em dizer "para sempre" a Deus, tornados livres mediante Jesus Cristo, até o ponto de compreender a relação de Deus com todas as coisas, e ao serviço de todas as coisas.

Tanto João Paulo II quanto Bento XVI insistiram sobre a liberdade do homem e tentaram defendê-la. Em quase todas as suas encíclicas, João Paulo II citou a Gaudium et spes (n. 22): Cristo revela Deus ao homem e revela o homem a si mesmo. O Cristianismo, para Bento XVI, revela (sem eliminá-lo) o mistério da pessoa humana: cada pessoa é relação com o Mistério, e é livre na medida em que reconhece esta dependência e vive para um outro. Este conceito de liberdade não é um desafio aberto ao mundo contemporâneo, que identifica liberdade com "criatividade", "autonomia" e "igualdade"?
Albacete: Não há nada de errado, em princípio, nestas duas acepções... mas a liberdade não pode ser criativa sem Cristo. Porque, sem Ele, tudo perde a força, tudo passa, e a morte não é vencida. Os impérios vão e vêm, das grandes obras e dos grandes eventos se perde a lembrança.
Schindler: Ratzinger tem um modo maravilhoso de expôr ascoisas. Quando fala do sacramento diz que consiste no dar algo que não se possui. Parece-me que a chave de todo o agir humano é que ele é pré-sacramental. Em outras palavras, eu nunca sou a primeira e absoluta origem do que transmito. Se quisermos falar em termos de paternidade e filiação: queremos ser criativos, estar na origem; queremos ser pais de nossas ações, e em um certo sentido isto é verdadeiro. Mas, na medida em que somos criaturas, podemos ser verdadeiramente pais apenas dentro de uma filiação. Em um nível mais profundo, recebemos a capacidade, a energia que transmitimos, mesmo que participemos dela plenamente. Temos autonomia, mas é a autonomia própria de um dom que recebemos e do qual participamos. Ratzinger fala do sacramento exatamente nestes termos, belíssimos: eu participo de uma força, mas não sou originalmente o seu proprietário. Participo de uma força na medida em que sou seu receptor.

Os pontificados de João Paulo II e o de Bento XVI é um grande "irradiar-se de paternidade" e uma defesa da profundidade do mistério da paternidade. O que se perdeu na atual crise da paternidade?
Albacete: Para mim, não é por acaso nem fruto de uma definição cultural o fato de o nome do Deus cristão ser "Pai": cada gesto e cada palavra de Deus são reveladores, e mesmo Jesus chamava a Deus de "Pai". Isto significa que o primeiro modo no qual se manifesta a perda de orientação natural que, como homens, temos em relação ao infinito, é exatamente a perda do significado da paternidade. Participar da vida de Deus é participar da vida do Pai, é ser como que "a sombra do Pai", como na obra de Karol Wojtyla, "Raios de paternidade", centrada sobre São José, visto como a sombra do Pai. A incapacidade de compreender quão profundamente José encarne isto demonstra a fratura que se verificou.

Uma das maiores contribuições de João Paulo II foram suas catequeses de quarta-feira, nas quais apresentou uma visão do amor humano nos termos do relacionamento nupcial. Quais são os elementos mais essencialmente novidadeiros deste ensinamento?
Albacete: Gostaria de ligar isto à perda do sentido do sacramento, porque o matrimônio é o sacramento primordial. Se não tivesse existido o Pecado original, não existiriam os sacramentos, mas tão somente o matrimônio. O matrimônio revela a intenção de Deus no criar a partir do nada. Não é apenas paternidade, porque a paternidade é inseparável da maternidade e do relacionamento nupcial. Tudo isso, porém, se perdeu. João Paulo II oferece uma grandíssima ajuda para recuperar a unidade entre estes elementos que definem o amor humano. Sem esta unidade, o amor humano é como um edifício que desaba: é um 11 de setembro. Resiste por um pouco, se incendeia e você pensa que o problema é manter o fogo sob controle e, de repente, o edifício desaba.
Schindler: Concordo. Gostaria apenas de acrescentar uma coisa: parece-me que o que ambos os papas querem dizer é que há algo que diz respeito ao homem como destino de paternidade, que diz respeito à mulher como destino de maternidade, que diz respeito à criança; algo que manifesta uma característica essencial da natureza do amor humano. Na nossa cultura, tendemos a julgar que existem agentes humanos, abstratos, pelos quais acontece de serem homens e mulheres. Mas, se perdermos os caracteres distintivos do homem, perdemos uma característica essencial do amor. Se perdermos os caracteres distintivos da mulher, perdemos algo de essencial quanto ao significado do amor. E se pensarmos nas crianças como pequenos adultos que se originarão disto, perdemos algo de essencial quanto ao que respeita ao significado do amor humano. Pensando neste último aspecto, há uma beleza particular no fato de que Deus tenha revelado a Si mesmo em Cristo, na forma de uma criança. Não é uma circunstância temporal: Jesus é Filho do Pai pela eternidade. Por isto, a filiação, o ser criança, não é uma condição da qual somos destinados a sair.
Albacete: Até que não se tornem uma coisa só, vocês não irão ao encontro do próprio destino.

* Publicado em Tracce, no dia 19 de abril de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

A curva da razão

Por Ignacio Carbajosa

O pontificado de Bento XVI, exemplificado no discurso de Regensburg, marcou um ponto fundamental na curva histórica que a razão descreveu nos últimos três séculos na cultura ocidental. O Iluminismo começou com um programa de separação radical entre razão e fé que, com o tempo, relegou o crer e o fato religioso ao campo da irracionalidade ou, pelo menos, ao âmbito da não razão. Aos olhos do movimento iluminista, a Igreja católica se constituiu em um obstáculo para o conhecimento, de que parecia justo se desembaraçar.
Porém, a razão é chamada a ser abertura à realidade total, incluindo aí o seu significado, de forma que a exclusão da pergunta religiosa representa uma "autolimitação moderna da razão", tal como a chamou Bento XVI. Paradoxalmente, este percurso histórico desembocou num "pensamento fraco" que, na pós-modernidade, abandonou, na prática, a razão.
Em nossa sociedade espanhola este abandono é especialmente evidente. No debate público se alude à liberdade de cada um, a "ampliações de direitos", porém poucos se atêm à razão. O discurso do Papa em Regensburg coroa esta parábola histórica. É paradoxal que, no início do século XXI, tenha sido precisamente um Papa a chamar a atenção do Ocidente para a necessidade de "ter a coragem" de "ampliar o conceito de razão". E este chamado de atenção é, por sua vez, decisivo para a apresentação do cristianismo hoje, já que "não atuar razoavelmente é contrário à natureza de Deus".

* Ignacio Carbajosa é o responsável por Comunhão e Libertação na Espanha. O presente artigo foi publicado no jornal La razon, do dia 18 de abril de 2010, e traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Annuntio vobis gaudium magnum


19 de abril de 2005

Annuntio vobis gaudium magnum;
habemus Papam:

Eminentissimum ac Reverendissimum Dominum,
Dominum Josephum
Sanctae Romanae Ecclesiae Cardinalem Ratzinger
qui sibi nomen imposuit Benedictum XVI

Há 5 anos, era eleito o Papa Bento XVI. A grande alegria daquele dia é a mesma que nos acompanha, hoje, na comemoração de seu V aniversário de pontificado.

19 de abril de 2010

domingo, 18 de abril de 2010

Verbum caro factum est...

Se Ele não se mostra, não chegamos a Ele de forma alguma. A novidade do anúncio cristão é a possibilidade de dizer agora a todos os povos: Ele se mostrou. Ele em pessoa. E agora está aberto o caminho para Ele. A novidade do anúncio cristão não consiste num pensamento, mas num fato: Ele se mostrou. Isso, porém, não é um fato cego, mas um fato que, em si mesmo, é Logos – presença da Razão eterna na nossa carne. Verbum caro factum est (Jo 1, 14): assim mesmo, agora, no fato, está o Logos, o Logos presente entre nós. O fato é razoável. Certamente, continua a ser necessária a humildade da razão para poder acolhê-lo; é necessária a humildade do homem que responde à humildade de Deus.
Bento XVI

sábado, 17 de abril de 2010

Um aluno... o que é?

Quando o aluno não faz outra coisa a não ser repetir não a mesma ressonância mas uma miserável cópia do pensamento do mestre; quando o aluno não é mais que um aluno, mesmo que seja o maior dos alunos, nunca irá gerar nada. Um aluno começa a criar quando introduz ele mesmo uma ressonância nova (ou seja, na medida em que não é um aluno). Não que não se deva ter um mestre, mas uma pessoa deve descender da outra por vias naturais da filiação, não pelas vias escolares do discipulado.
Charles Péguy

... não feches a Tua porta.

Mesmo que eu esteja atrasado, não feches a Tua porta. Vim bater. A quem Te busca aos prantos, abre, Senhor piedoso; acolhe-me no Teu banquete, doa-me o pão do Reino.
Liturgia Ambrosiana

Sou apenas um homem...

Sou apenas um homem, necessito de sinais sensíveis, construir escadas de abstração me cansa logo. Desperta, então, ó Deus, um homem num lugar qualquer da terra e permite que olhando-o eu possa admirar-Te.
Czesław Miłosz (1911-2004)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

B.O.O.K. (L.I.V.R.O.)



Topei com esse vídeo e este texto no blog do Reinaldo Azevedo... é tão genial que achei que valeria muito a pena repeti-lo aqui no Mosaico.

Um novo e revolucionário conceito de tecnologia de informação
por Millôr Fernandes

Na deixa da virada do milênio, anuncia-se um revolucionário conceito de tecnologia de informação, chamado de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas - L.I.V.R.O.
L.I.V.R.O. representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo!
Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de páginas numeradas, feitas de papel reciclável e capazes de conter milhares de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantêm automaticamente em sua seqüência correta.
Através do uso intensivo do recurso TPA - Tecnologia do Papel Opaco - permite-se que os fabricantes usem as duas faces da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os seus custos pela metade!
Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para se fazer L.I.V.R.O.s com mais informações, basta se usar mais páginas. Isso, porém, os torna mais grossos e mais difíceis de serem transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema.
Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, em seu cérebro. Lembramos que quanto maior e mais complexa a informação a ser transmitida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.
Outra vantagem do sistema é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite o acesso instantâneo à próxima página. O L.I.V.R.O. pode ser rapidamente retomado a qualquer momento, bastando abri-lo. Ele nunca apresenta “ERRO GERAL DE PROTEÇÃO”, nem precisa ser reinicializado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo.
O comando “browse” permite fazer o acesso a qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com o equipamento “índice” instalado, o qual indica a localização exata de grupos de dados selecionados.
Um acessório opcional, o marca-páginas, permite que você faça um acesso ao L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou marca de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração.
Além disso, qualquer L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso seu usuário deseje manter selecionados vários trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com o número de páginas.
Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O. através de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada - L.A.P.I.S. Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro. Milhares de programadores desse sistema já disponibilizaram vários títulos e upgrades utilizando a plataforma L.I.V.R.O.

terça-feira, 13 de abril de 2010

A nossa vida pertence a um Outro


"A nossa vida pertence a um Outro. A inevitabilidade [daquilo que acontece] é como o sinônimo mais esclarecedor deste não pertencer das coisas a nós, e principalmente não pertence a nós aquilo de que tudo deriva: a nossa vida pertence a um Outro. Neste sentido se entende por que a vida do homem é dramática: se não pertencesse a um Outro seria trágica.
A tragédia é quando uma construção desmorona e todas as pedras e os pedaçoes de mármore e os pedaços de parede desabam. E tudo na vida se torna nada, é fadado a se tornar nada porque daquilo que vivemos no passado, daquilo que vivemos há um hora, há cinco minutos, não existe mais nada de construído. E isso é trágico. A tragédia é o nada como meta, o nada daquilo que existe.
No entanto, se tudo pertece a um Outro, então a vida do homem é dramática, não trágica. Reconheço que te pertenço, reconheço que o tempo não foi meu, não me pertencia, como até hoje não me pertence, não me pertence. Aquilo que possui o nosso tempo morreu por nós, apresenta-se aos nossos olhos e ao nosso coração como o lugar onde o nosso destino é amado, onde é amada a nossa felicidade, tanto que Aquele que possui o tempo morre para o nosso tempo. O Senhor, Aquele ao qual pertence o tempo, é bom."
(Luigi Giussani, É possível viver assim?)

"Diante da calamidade pela qual passa nossa querida cidade do Rio de Janeiro, peço às paróquias de nossa Arquidiocese para acolherem os desabrigados, bem como às capelas, colégios e organismos arquidiocesanos para auxiliarem no socorro das suas necessidades, juntamente com os padres, religiosas e religiosos, somando esforços ao poder público e outras entidades, neste momento difícil. Nesta Semana Pascal, quando resplandece o vigor da caridade de Cristo por todos os seres humanos, invoco a intercessão de São Sebastião, Padroeiro da nossa Cidade, para que cessem as calamidades, e a de São Jorge, para que renove a força dos cariocas diante das dificuldades."
(Dom Orani João Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro)

A Páscoa que celebramos há poucos dias é o fato que mudou a história da humanidade até hoje. Naquele dia, Pedro e João encontraram o túmulo vazio. A resposta ao drama do homem é esse homem que estava morto e agora está vivo. Essa é a possibilidade da nossa esperança também diante dos fatos mais dramáticos. É a certeza deste pertencer que sustenta a nossa esperança e nos faz sentir como nosso o drama dos irmãos diante da morte, da perda dos familiares e da casa.

Colaboremos, depositando uma doação na conta bancária da Cáritas Arquidiocesana
Banco Bradesco
Agência: 0814-1
C.C.: 48500-4

Comunhão e Libertação - Rio de Janeiro
abril de 2010

Comunicado da CEI

COMUNICADO

Na segunda-feira, dia 19 de abril, comemora-se o quinto aniversário da eleição de Bento XVI ao pontificado.
A Presidência da CEI (Conferência Episcopal Italiana) convida a todas as comunidades eclesiais a se reunirem, nesse dia, em oração junto dele, centro de unidade e sinal visível de comunhão. Em tal ocasião, se determinarão, em nível local, as formas mais convenientes (por exemplo, a Eucaristia, a liturgia da Palavra, vígilia de oração, a adoração eucarística e a oração do rosário) para dar graças a Deus pelo magistério iluminado e o cristalino testemunho do Papa.
Ao mesmo tempo, nesta hora de provação, a Igreja da Itália não falta com seu dever de purificação, rezando em particular pelas vítimas dos abusos sexuais e por todos aqueles que, em todo o mundo, foram manchados por esses crimes odiosos. Confiando na Sua palavra, implora do Senhor, novas energias, para que se reforce na Igreja a paixão educativa, sustentada pela dedicação e pelo generoso empenho de tantos sacerdotes que, junto aos religiosos e aos leigos, a cada dia, dão suas vidas sobretudo nas situações mais difíceis.
Roma, 12 de abril de 2010.
A Presidência
da Conferência Episcopal Italiana

Não sabes de onde vem nem para onde vai


Quem és, suave luz que me sacias
E que iluminas as trevas do meu coração?
Guias-me como a mão de uma mãe,
e se me soltasses
não mais poderia dar um só passo.
És o espaço
que envolve o meu ser e me protege.
Longe de Ti, naufragaria no abismo do nada
de onde me tiraste para me criar para a luz.
Tu, mais próximo de mim
do que eu própria,
mais intimo do que as profundezas da minha alma,
e contudo incompreensível e inefável,
para além de qualquer nome,
Espírito Santo, Amor Eterno!

Não és Tu o doce maná
que do coração do Filho
transborda para o meu,
o alimento dos anjos e dos bem-aventurados?
Aquele que Se elevou da morte à vida
também me despertou do sono da morte para uma vida nova.
E, dia após dia,
continua a dar-me uma nova vida,
de que um dia a plenitude me inundará por completo,
vida procedente da Tua vida, sim, Tu mesmo,
Espírito Santo, Vida Eterna!
(Edith Stein)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O abraço de Cristo, maior que as feridas

Por Dom Filippo Santoro

O momento presente, marcado pela acirrada discussão sobre a pedofilia, é uma grande ocasião de purificação e de conversão da Igreja, para poder comunicar a todos, com transparência, o abraço da justiça e da misericórdia de Deus , que é a razão pela qual ela existe.
O papa Bento XVI na Carta aos católicos na Irlanda, com grande humildade e coragem, afirma que: “para se recuperar desta dolorosa ferida, a Igreja na Irlanda deve em primeiro lugar reconhecer diante do Senhor e diante dos outros, os graves pecados cometidos contra jovens indefesos. Esta consciência, acompanhada de sincera dor pelo dano causado às vítimas e às suas famílias, deve levar a um esforço concentrado para garantir a proteção dos jovens em relação a semelhantes crimes no futuro” (n. 1).
E aos sacerdotes e religiosos que abusaram dos jovens diz: “deveis responder diante de Deus onipotente, assim como diante de tribunais devidamente constituídos” (n. 7). Por isso, indica-se uma perspectiva que, com toda clareza, submete estes crimes, no futuro, ao juízo dos tribunais eclesiásticos e civis. “Ao mesmo tempo, a justiça de Deus exige que prestemos contas das nossas ações sem nada esconder. Reconhecei abertamente a vossa culpa, submetei-vos às exigências da justiça, mas não desespereis da misericórdia de Deus” (n. 7).
E aos bispos acrescenta que “estabelecessem a verdade de quanto aconteceu no passado, tomassem todas as medidas adequadas para evitar que se repita no futuro, garantissem que os princípios de justiça sejam plenamente respeitados e, sobretudo, curassem as vítimas e quantos são atingidos por estes crimes horríveis” (n. 5).
“Deve-se admitir que foram cometidos graves erros de juízo e que se verificaram faltas de governo. Tudo isto minou seriamente a vossa credibilidade e eficiência. Aprecio os esforços que fizestes para remediar os erros do passado e para garantir que não se repitam. Além de pôr plenamente em prática as normas do direito canônico ao enfrentar os casos de abuso de jovens, continuai a cooperar com as autoridades civis no âmbito da sua competência. Só uma ação decidida, levada em frente com total honestidade e transparência, poderá restabelecer o respeito” (n. 11).
Algo mais claro que isso não poderia ser dito e a natureza emblemática desta carta se aplica não apenas à Irlanda como às outras nações no mundo onde estes crimes foram cometidos, manifestando o firme propósito de punir com rigor os culpados e de não esconder absolutamente nada.
Mas, com tudo isso, a onda midiática não se declara satisfeita, porque o seu objetivo é abater a autoridade moral do Papa e da Igreja. A culpa de alguns membros, uma pequena minoria, tiraria a autoridade de toda uma instituição que, atualmente, é a única que lembra, sem equívocos, a voz da consciência e a defesa total da vida e da dignidade das pessoas? Quer-se atingir a Igreja enquanto tal, na sua capacidade de falar aos homens e às mulheres de nosso tempo. É claro que os mesmos que acusam são aqueles que pregam qualquer liberdade e justificam tudo em matéria de sexo.
Essa é a tentativa de eliminação da consciência do bem e do mal deixando tudo ao arbítrio do homem e do poder. E, no fundo, trata-se da eliminação de Deus, não de um deus construído pelo sentimento e pelas opiniões - esta divindade é largamente acolhida pela mentalidade dominante -, mas de um Deus que é diferente de nós: o Altíssimo que quis se manifestar na nossa história como companheiro e salvador.
Ele já nos doou tudo, nos libertou. Não compactuou com o pecado, mas o perdoou por meio de um amor muito maior. O que não se tolera, em certa mentalidade dominante, é a Presença de um amor total, que incide e que transforma a vida e que lembra a todos o valor objetivo da consciência moral.
A partir de pecados detestáveis de alguns membros da Igreja, a partir de faltas morais, se quer destruir a origem da moral que é a presença do infinito no coração do homem, que a Igreja prega e testemunha por meio do dom generoso e total de muitos filhos seus, sacerdotes e religiosos. Chega-se a associar celibato e pedofilia, quando muitas sérias pesquisas científicas demonstraram que não tem que ver uma coisa com a outra, e que a maioria destes delitos acontece em família. Assim, se quer atingir todos os padres e negar a possibilidade de uma doação integral, isto é virgem, para Cristo e para o bem dos irmãos e irmãs.
Mas esta tentativa violenta de desmoralizar a Igreja não pode tirar a presença objetiva do bem maior que existe na História: o abraço de Cristo à humanidade ferida. A onda midiática e os gravíssimos erros não podem vencer o bem mais precioso que a Igreja tem e comunica: a esperança e a vitória da ressurreição. Esta é a fonte da qual partir novamente com humildade, transparência e rigor no serviço ao mundo de hoje.
Dom Filippo Santoro
Bispo de Petrópolis

* Extraído do site da Agência Zenit, e revisado por Paulo R. A. Pacheco.

Contra os escândalos, Bento prepara a “revolução” dos mestres e dos santos

por Massimo Introvigne

A carta de Carrón nos lembra que os padres pedófilos existem. A muitos de nós agradaria que se tratasse apenas de um sonho feio, ou de calúnias da imprensa laicista. Não é o que escreve Carrón, e não é o que nos ensina o papa. Na magnífica Carta aos Católicos da Irlanda, de 19 de março de 2010, Bento XVI denuncia com voz fortíssima os “crimes horríveis”, “a vergonha e a desonra”, a violação da dignidade das vítimas, o golpe dado à Igreja “a tal ponto ao qual nem sequer séculos de perseguição tinham chegado”. Em nome da Igreja “exprime abertamente a vergonha e o remorso”.
Certo, o papa enfrenta o problema do ponto de vista do direito canônico, confirmando com força que foi a sua “aplicação malograda”, algumas vezes da parte de bispos, não as suas normas como uma certa imprensa laicista pretenderia, a causar a “vergonha”. Certo também, o papa acena para o fato de que o problema da pedofilia não toca apenas – e tampouco principalmente – os sacerdotes, de forma que não é nem malícia que certos setores da mídia concentram o foco sobre a Igreja e sobre o pontífice. Mas, o papa, assim como Carrón, se coloca, em última instância, em um plano diferente. Fala da vida espiritual dos sacerdotes, cujo descuido está na raiz do problema, e para o qual pede que se retorne através da adoração eucarística, das missões, da prática frequente da confissão. E o retorno a Cristo não é apenas para os padres: é para todos nós.
Como uma tragédia tão terrível pode ter acontecido? Aqueles que os americanos e os ingleses chamam the Sixties (“os anos 1960”) – e nós, concentrando-nos sobre o ano emblemático, “o 1968” – aparecem sempre mais como os anos ou o tempo de uma profunda mudança de costumes, com efeitos cruciais e duradouros sobre a religião. Aconteceu, de resto, um 1968 na sociedade e também um 1968 na Igreja: exatamente o ano de 1968 é o ano do dissenso público contra a encíclica Humanae Vitae de Paulo VI.
Com muita perspicácia, um pensador católico brasileiro, Plínio Corrêa de Oliveira (1908-1995), falou de uma “4ª Revolução” – sucessiva à Reforma, à Revolução Francesa e à Soviética – mais radical do que as precedentes, porque capaz de transtornar não apenas o corpo social, mas o corpo humano. Na Igreja Católica, não houve consciência suficiente do alcance esta revolução. Pelo contrário, ela contagiou – explica, na sua carta, Bento XVI – “também sacerdotes e religiosos”, determinou “desentendimentos” na interpretação do Concílio, causou “insuficiente formação, humana, moral e espiritual nos seminários e nos noviciados”. Neste clima, certamente, nem todos os sacerdotes insuficientemente formados ou contagiados pelo clima que se seguiu aos anos 1960, e muito menos um percentual significativo, se tornou pedófilo. E, todavia, este número não é igual – como todos queremos – a zero, e justifica as severíssimas palavras do papa.
O estudo da “4ª Revolução” dos anos 1960, e de 1968, é crucial para entender o que aconteceu depois, a pedofilia inclusive. E, para encontrar remédios reais, a Igreja começou a se mexer. Se esta revolução, diferentemente das precedentes, é moral e espiritual e diz respeito à interioridade do homem, será apenas da restauração da moralidade, da vida espiritual e de uma verdade integral sobre a pessoa humana que poderão, em última instância, vir os remédios. Mas, para isto, os sociólogos, como sempre, não bastam: são necessários os pais e os mestres, os educadores e os santos.

* Extraído do Il sussidiario, do dia 12 de abril de 2010, traduzido por Paulo R. A. Pacheco, sem revisão do autor.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Fazer o Cristianismo 04

"Jenny - Comovi-me quando você leu este trecho de carta [refere-se à carta transcrita no post anterior; ndt], porque me aconteceu algo parecido este ano. No primeiro dia, entrei em sala e um jovem saiu batendo a porta, e eu não entendia porquê. Desceu e estava quase para bater na diretora. É um jovem cheio de problemas, e se tornou o caso mais difícil da escola, tem um monte de advertências e suspensões... Porém, o que aconteceu? É que, no primeiro dia, eu o persegui e descobri que tinha 'irrompido' porque eu o havia separado - dado que conversava - de um seu companheiro de banco, que é um grande amigo seu, e isto o fez reagir. Então, no dia seguinte, eu o parei e começamos a conversar. Ele me contou a sua história: pais separados, vive em um bairro degradado. Porém, o que aconteceu? Depois daquele meu gesto, eu o convidei, e ele veio à sede conosco algumas vezes. Sobretudo, fiquei tocada porque ele veio ao Dia de Início de Ano: ficou escutando todo o tempo e, no final, me procurou para dizer: 'Professora, obrigado pelas coisas bonitas que escutei hoje'. E, ali, eu pensei: esse jovem é considerado por todos como o tipo mais malvado da escola, mas tem um coração! No entanto, continuou levando suspensões - nós o afastamos por quinze dias porque bate as portas, responde mal aos professores... Alguns dias atrás, o vice-diretor me parou para me dizer: 'Olha só, nós o suspendemos uma outra vez por uma semana. Por mim ele deve ser expulso'. E eu lhe disse: 'Verdade, já fez o bastante... chega!'. Uma colega me escutou, me parou e disse: 'Desculpe, mas eu sei que você tem um bom relacionamento com ele'. Esta coisa me surpreendeu, e disso nasceu uma ferida terrível em mim. Porque quando o vice-diretor veio eu reagi assim pensando que havia cumprido meu dever, de tal forma que o ponto então era expulsá-lo. Aquilo que a minha colega me disse, porém - fora o fato que me deixou com muita dor, porque eu entendi que estava fechando a questão -, me fez lembrar que eu não estou fazendo memória do fato de que comigo Alguém nunca encerrou a questão. Alguém me amou gratuitamente, não obstante os meus erros. Como é fácil esquecer-me disso! Portanto, agradeço a você, porque entendo que o ponto é que não posso medir, enquanto que eu acabei medindo naquele dia.

Carrón - Mas, às vezes, você pode chegar a ter que expulsar! Eu tive que expulsar uma pessoa, quando era diretor. Todos os professores estavam ali, todos, com os refletores apontados, dizendo: 'Veremos se ele vai ter a coragem para mandá-lo embora'. E eu o mandei embora! Mas o espetáculo foi que aquele jovem foi para uma outra escola, mas no intervalo vinha ficar conosco! Nós geramos um vínculo que nos consente de fazer isso! Sem romper o relacionamento. Eu não podia fazê-lo, porque de outra maneira não seria mais capaz de guiar a escola, objetivamente falando. Mas, o problema não é que você deve fazer isso, mas que vínculo se estabeleceu. Se o vínculo que se estabeleceu é mais forte do que o fato de expulsá-lo, nada o interrompe. Depois, no ano seguinte, eu o aceitei de novo na escola. E ele, a quem ninguém dava um centavo, terminou a universidade, tem um diploma e, agora, é professor. Eis a questão: é este tipo de vínculo que nos permite não economizar a liberdade de ninguém. De outra forma ficaríamos agarrados nesses acontecimentos que acontecem quando temos que guiar, por exemplo, uma escola."
(CARRÓN, Julián. Fare il cristianesimo. Tracce. 2010, p. 5)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Fazer o Cristianismo 03

"Se uma pessoa não entende o que é a vida, não chega nunca a este nível de desafio [refere-se à resposta dada por um professor a um jovem que lhe perguntou por que ele o convidava a um determinado gesto realizado por CL: "Porque você tem uma ferida", referindo-se ao fato de que seu pai morrera, alguns anos antes, vítima da AIDS. Daquele momento em diante, o aluno não parou mais. E o professor terminou seu testemunho dizendo: "Por que digo isso? Porque a companhia não deve nunca se tornar uma anestesia para a ferida"; ndt]. A pessoa deve ter uma familiaridade com a vida para isso. Na medida em que a pessoa vive a vida, tem uma familiaridade, pode saber onde se encontram de verdade os nós para serem desfeitos. Então, é inútil insistir. Como quando você prende o pé e lhe dizem: 'Corre! Corre!'... A questão é soltá-lo, porque então conseguirá correr! Encontrar a modalidade - se o Senhor nos dá a luz - para fazer o movimento justo para soltá-lo: este é o verdadeiro desafio! Porque então você conseguirá correr. [...] O que isso quer dizer? Que o nosso movimento não nasce do êxito! Nasce do termos sido olhados assim! A questão é que, pelo contrário, tantas vezes o nosso movimento nasce da tentativa de sucesso. E quando não acontece segundo as nossas medidas, paramos de tentar. Porque tínhamos um projeto! Os jovens, que são mais inteligentes que nós, sabem disso muito bem. A questão é: qual é a fonte do movimento? Se eles percebem que é um movimento verdadeiramente gratuito, como estamos aprendendo na Escola de Comunidade [refere-se ao texto que, no momento, está sendo trabalhado nos encontros de Escola de Comunidade no mundo inteiro: o trecho sobre a caridade do livro de Luigi Giussani, "É possível viver assim?"; ndt], que é de fato por puro amor! Porque é este que comove o outro. Tenho aqui comigo um trecho de um texto escrito pela pianista russa Maria Judina: 'Exatamente no meu grupo tinha um chato, um jovenzinho de oito ou nove anos, praticamente sem família, que vivia junto com parentes de quem não gostava e por quem não era amado, de nome Akinfa; era antipático, enchia a paciência de todos, tirava sarro das crianças judias, brigava e assim por diante. Todos nós, e sobretudo eu que tinha uma responsabilidade maior com ele, o exortavam com a palavra e com o exemplo [não apenas com a palavra!], mas uma vez Afinka ultrapassou todos os limites: bateu em um de seus companheiros, xingou os adultos, cometeu um furtozinho e, assim, foi decretada a sua expulsão. Quando veio o momento de cumprir a condenação, o momento em que iria embora, eu, não sei como, desatei a chorar, e neste momento aconteceu o segundo nascimento de Afinka: desatou a chorar também, pediu perdão a todos, devolveu o que havia furtado e, daquele momento em diante, começou a me seguir sempre para onde eu ia como um cãozinho fiel, explicava a todos que, na sua vida, nunca tinha visto uma sua professora chorando por um aluno, que chorasse, para dizer com as suas palavras, pela alma e pela vida de uma criança mimada; esse era exatamente o sentido do seu maravilhamento e do seu desejo de se recolocar no caminho'. Isto não é para os jovens, mas para nós. É para nós! Então, quanto mais isso é familiar na nossa vida, tanto mais nos damos conta de que não é um problema de idade, de técnicas, mas é o mesmo para cada um."
(CARRÓN, Julián. Fare il cristianesimo. Tracce. 2010, p. 4)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Deixou-se consumir por Cristo, pela Igreja, pelo mundo inteiro...


Homilia do Santo Padre Bento XVI
por ocasião do V aniversário da morte do
Servo de Deus João Paulo II

Basílica Vaticana
Segunda-feira, 29 de março de 2010

Venerados Irmãos no episcopado e no sacerdócio,
caros irmãos e irmãs!
Estamos reunidos em torno do altar, perto da tumba do Apóstolo Pedro, para oferecer o Sacrifício eucarístico em sufrágio da alma eleita do Venerável João Paulo II, no quinto aniversário da sua partida. Fazemo-lo com alguns dias de antecipação, porque o dia 02 de abril será, neste ano, a Sexta-Feira Santa. Estamos, de qualquer forma, no meio da Semana Santa, contexto propício para o recolhimento e para a oração, no qual a Liturgia nos faz reviver mais intensamente os últimos dias da vida terrena de Jesus. Desejo exprimir o meu reconhecimento a todos vós que estais nesta Santa Missa. Saúdo cordialmente os Cardeais – de modo especial o Arcebispo Stanislao Dziwisz –, os Bispos, os sacerdotes, os religiosos e as religiosas; como também os peregrinos que vieram expressamente da Polônia, os tantos jovens e os numerosos fiéis que não quiseram faltar a esta Celebração.
Na primeira leitura bíblica que foi proclamada, o profeta Isaías apresenta a figura de um “Servo de Deus”, que é ao mesmo tempo o seu eleito, no qual ele se compraz. O Servo agirá como firmeza inquebrantável, com uma energia que não diminuirá até que ele cumpra a tarefa que lhe foi designada. Apesar de tudo, não terá a sua disposição aqueles meios humanos que parecem indispensáveis para a atuação de um plano tão grandioso. Ele se apresentará com a força da convicção, e será o Espírito que Deus colocou nele que lhe dará a capacidade de agir com mansidão e com força, assegurando-lhe o sucesso final. Aquilo que o profeta inspirado diz do Servo, o podemos aplicar ao amado João Paulo II: o Senhor o chamou para o Seu serviço e, no confiar-lhe tarefas de sempre maior responsabilidade, o acompanhou também com a Sua graça e com a Sua contínua assistência. Durante o seu longo Pontificado, ele se dedicou à proclamar o direito com firmeza, sem fraquezas ou hesitações, sobretudo quando tinha que se medir com resistências, hostilidades e recusas. Sabia que estava tomado pela mão do Senhor, e isso lhe consentiu exercer um ministério muito fecundo, pelo qual, ainda uma vez, damos graças a Deus.
O Evangelho que acabamos de escutar nos conduz a Betânia, onde, como anota o Evangelista, Lázaro, Marta e Maria ofereceram uma ceia ao Mestre (Jo 12, 1). Este banquete na casa dos três amigos de Jesus é caracterizado pelos pressentimentos da morte iminente: os seis dias antes da Páscoa, a sugestão do traidor Judas, a resposta de Jesus que chama atenção para um dos atos piedosos da sepultura antecipado por Maria, o aceno ao fato de que nem sempre O teriam consigo, o propósito de eliminar Lázaro no qual se reflete a vontade de matar Jesus. Neste relato evangélico há um gesto sobre o qual gostaria de chamar vossa atenção: Maria de Betânia “omando uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, ungiu os pés de Jesus, e os enxugou com os seus cabelos” (Jo 12, 3). O gesto de Maria é a expressão de fé e de grande amor pelo Senhor: para ela não é suficiente lavar os pés do Mestre com a água, mas os unge com uma grande quantidade de perfume precioso, que – como contestará Judas – poderia ter sido vendido por trezentos denários; não unge, depois, a cabeça, como era usual, mas os pés: Maria oferece a Jesus tudo o que tem de mais precioso e com um gesto de devoção profunda. O amor não calcula, não mede, não economiza, mas sabe dar com alegria, busca apenas o bem do outro, vence a mesquinhez, a avareza, os ressentimentos, os fechamentos que o homem carrega, às vezes, no seu coração.
Maria se coloca aos pés de Jesus em humilde postura de serviço, como o Mestre mesmo fará na Última Ceia, quando – nos diz o quarto Evangelho – “levantou-se da mesa, tirou o manto, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos” (Jo 13, 4-5), para que – disse – “como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13, 15): a regra da comunidade de Jesus é a do amor que sabe servir até ao dom da vida. E o perfume se difunde: “toda a casa” – anota o Evangelista – “se encheu com o aroma daquele perfume” (Jo 12, 3). O significado do gesto de Maria, que é resposta ao Amor infinito de Deus, se difunde entre todos os convidados; cada gesto de caridade e de devoção autêntica a Cristo não permanece como fato pessoal, não diz respeito apenas ao relacionamento entre o indivíduo e o Senhor, mas diz respeito a todo o corpo da Igreja, é contagioso: infunde amor, alegria, luz.
“Veio entre os seus, e o seus não o acolheram” (Jo 1, 11): ao ato de Maria se contrapõem a postura e as palavras de Judas, que, sob o pretexto de ajudar a sustentar os pobres, esconde o egoísmo e a falsidade do homem fechado em si mesmo, acorrentado à avidez da posse, que não se deixa envolver pelo bom perfume do amor divino. Judas calcula lá onde não se pode calcular, entra com o ânimo mesquinho onde o espaço é o do amor, do dom, da dedicação total. E Jesus, que até aquele momento havia permanecido em silêncio, intervém a favor do gesto de Maria: “Deixa-a; para o dia da minha preparação para a sepultura o guardou” (Jo 12, 7). Jesus compreende que Maria intuiu o amor de Deus e indica que agora a sua “hora” se aproxima, a “hora” na qual o Amor encontrará a sua expressão suprema no lenho da Cruz: o Filho de Deus dá a si mesmo para que o homem tenha a vida, desce aos abismos da morte para levar o homem até as alturas de Deus, não tem medo de Se humilhar “fazendo-Se obediente até a morte e morte de Cruz” (Fil 2, 8). Santo Agostinho, no Sermão no qual comenta tal trecho evangélico, endereça a cada um de nós, com palavras perseguidoras, o convite para entrar neste circuito de amor, imitando o gesto de Maria e colocando-se concretamente no seguimento de Jesus. Escreve Agostinho: “Cada alma que queira ser fiel, se une a Maria para ungir com precioso perfume os pés do Senhor... Unge os pés do Senhor: segue as pegadas do Senhor conduzindo uma vida digna. Enxuga-Lhe os pés com os cabelos: se tens coisas supérfluas, dá-las aos pobres, e terás enxugados os pés do Senhor” (In Ioh. Evang., 50, 6).
Caros irmãos e irmãs! Toda a vida do Venerável João Paulo II foi marcada pelo sinal desta caridade, pela capacidade de se dar de modo generoso, sem reservas, sem medidas, sem cálculo. O que o movia era o amor por Cristo, ao qual havia consagrado a vida, um amor superabundante e incondicional. E exatamente porque se aproximou sempre mais de Deus no amor, ele soube fazer-se companheiro de viagem para o homem de hoje, difundindo no mundo o perfume do Amor de Deus. Quem teve a alegria de conhecê-lo e frequentá-lo, pôde tocar com a mão quão viva era nele a certeza “de contemplar a bondade do Senhor na terra dos viventes”, como escutamos no Salmo responsorial (Sl 26[27], 13); certeza que o acompanhou no curso de sua existência e que, de modo particular, se manifestou durante o último período da sua peregrinação nesta terra: a progressiva fraqueza física, de fato, nunca danificou a sua fé rochosa, a sua luminosa esperança, a sua caridade fervente. Deixou-se consumir por Cristo, pela Igreja, pelo mundo inteiro: o seu sofrimento foi vivido até o fim por amor e com amor.
Na Homilia pelo XXV aniversário do seu Pontificado, ele nos confiou de ter sentido forte no seu coração, no momento da eleição, a pergunta de Jesus a Pedro: “Tu me amas? Tu me amas mais do que estes...?” (Jo 21, 15-16); e acrescentou: “A cada dia acontece no meu coração o mesmo diálogo que houve entre Jesus e Pedro. No espírito, fixo o olhar benévolo de Cristo ressuscitado. Ele, mesmo consciente da minha humana fragilidade, me encoraja a responder com fidelidade como Pedro: ‘Senhor, Tu sabes tudo; Tu sabes que Te amo’ (Jo 21, 17). E, depois, me convida a assumir as responsabilidades que Ele mesmo me confiou” (16 de outubro de 2003). São palavras carregadas de fé e de amor, amor a Deus, que vence tudo!
Na zakończenie pragnę pozdrowić obecnych tu Polaków. Gromadzicie się licznie wokół grobu Czcigodnego Sługi Bożego ze szczególnym sentymentem, jako córki i synowie tej samej ziemi, wyrastający w tej samej kulturze i duchowej tradycji. Życie i dzieło Jana Pawła II, wielkiego Polaka, może być dla Was powodem do dumy. Trzeba jednak byście pamiętali, że jest to również wielkie wezwanie, abyście byli wiernymi świadkami tej wiary, nadziei i miłości, jakich on nieustannie nas uczył. Przez wstawiennictwo Jana Pawła II niech was zawsze umacnia Boże błogosławieństwo.
[Enfim, gostaria de saudar os poloneses aqui presentes. Reuni-vos em grande número em torno da tumba do Venerável Servo de Deus com um sentimento especial, como filhas e filhos da mesma terra, crescidos na mesma cultura e tradição espiritual. A vida e a obra de João Paulo II, grande polonês, pode ser para vós motivo de orgulho. É preciso, porém, que vos lembreis que este é também um grande chamado para serdes fiéis testemunhas da fé, da esperança e do amor, que ele nos ensinou ininterruptamente. Pela intercessão de João Paulo II vos sustente sempre a bênção do Senhor]
Enquanto damos prosseguimento à Celebração eucarística, preparando-nos para viver os dias gloriosos da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, confiemo-nos com fé – a exemplo do Venerável João Paulo II – à intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, para que nos sustente no empenho de ser, em cada circunstância, apóstolos incansáveis do seu Filho divino e do Seu Amor misericordioso. Amém!

* Extraído do Site do Vaticano e traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

O ranço ideológico na educação

Editorial d'O Estado de S.Paulo*

A exemplo do que ocorreu com as Conferências Nacionais de Comunicação e Direitos Humanos, as propostas aprovadas pela 1.ª Conferência Nacional de Educação, que foi encerrada na última quinta-feira com a participação do presidente Lula, têm como denominador comum a expansão do dirigismo estatal e a supressão da liberdade de iniciativa no setor. Atualmente, as universidades particulares respondem por 75% das matrículas do ensino superior no País e muitas delas, além de abrir capital, têm recebido vultosas somas de fundos de investimentos para financiar sua expansão.
A justificativa dos participantes da 1.ª Conferência Nacional de Educação é que o ensino superior seria um "bem público", motivo pelo qual a oferta de vagas por universidades privadas e confessionais teria de ser feita por meio do regime de concessão, como ocorre nas áreas de energia, petróleo e telecomunicações. Para os 3 mil sindicalistas e representantes de movimentos sociais e ONGs que aprovaram essa proposta absurda, se cabe ao governo federal "articular" o sistema educacional, a União deveria "normatizar, controlar e fiscalizar" as instituições de ensino superior do País, por meio de uma agência reguladora, além de estabelecer parâmetros para currículos, projetos pedagógicos e programas de pesquisa para todas elas.
Essa tese colide frontalmente com a Constituição de 88, que é clara e objetiva em matéria de ensino. Ela prevê a livre iniciativa no setor educacional, concede autonomia didática, científica, administrativa e patrimonial às universidades e assegura aos Estados e municípios ampla liberdade para organizar suas respectivas redes escolares.
Como ocorreu nas Conferências Nacionais de Comunicação e Direitos Humanos, as entidades representadas na 1.ª Conferência Nacional de Educação - das quais pelo menos 40 atuam em áreas estranhas aos meios acadêmicos - em momento algum esconderam sua aversão ao livre jogo de mercado. Segundo elas, por visar ao lucro, as universidades particulares, ao contrário das universidades públicas, não se preocupariam com a qualidade dos serviços que prestam.
A afirmação é falaciosa, uma vez que há instituições privadas muito bem classificadas no ranking do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), assim como existem instituições federais que certamente não seriam autorizadas a funcionar, caso o Ministério da Educação fosse mais rigoroso na aplicação das regras por ele mesmo estabelecidas. É esse o caso das Universidades Federais do Vale do Jequitinhonha, que foi inaugurada por Lula sem ter corpo docente, e do ABC, que funciona em meio a um canteiro de obras atrasadas e abriu seu primeiro processo seletivo sem dispor sequer de laboratórios e de bibliotecas.
Além de investir contra a iniciativa privada, as propostas aprovadas na 1.ª Conferência Nacional de Educação esvaziam as competências das Secretarias Municipais e Estaduais de Educação, atribuindo-lhes o papel de meros fóruns consultivos. E, em nome da "democratização" do ensino, defendem a inclusão de integrantes da "sociedade civil organizada" nos órgãos educacionais. Com isso, os Conselhos Nacional e Estaduais de Educação deixariam de existir e sindicalistas vinculados à Central Única dos Trabalhadores, militantes de agremiações partidárias e representantes de ONGs sustentadas por dinheiro governamental poderiam interferir na formulação, implementação e execução da política do setor, colocando os interesses corporativos, políticos e ideológicos à frente do interesse público.
Tão ou mais espantoso do que o ranço ideológico das propostas da 1.ª Conferência Nacional de Educação foi a reação das autoridades educacionais. Elas se comprometeram a incluí-las no Plano Nacional da Educação - o projeto do MEC que define as principais políticas educacionais dos próximos dez anos e que em breve será enviado ao Congresso. Nos países desenvolvidos, o poder público estimula o aumento dos investimentos privados no ensino superior. O MEC, que na gestão do presidente Lula não conseguiu diminuir as taxas de evasão e repetência, faz o contrário.

* Extraído do jornal O Estado de São Paulo (versão on line), do dia 07 de abril de 2010.

Fazer o Cristianismo 02

"E este jovem, que entrou na 'máquina' [refere-se à ideia de atalho para facilitar a entrada dos jovens no mecanismo, que é o oposto a mistério; confira o post abaixo; ndt], dura quanto tempo? É essa a pergunta que eu fiz a vocês, no início, porque ou este jovem é criado segundo um desígnio que não é o nosso e ao qual devemos nos dobrar, ou então ficaremos sempre no medo. Porque, no fundo, nós temos medo de que o jovem faça mal a si mesmo. E assim estamos no centro da questão. Vocês podem girar ao redor o quanto quiserem, mas o problema de vocês é que têm medo, porque o Mistério correu o risco de deixar as pessoas livres (é o aspecto antropológico do problema do Inferno). E isto nos escandaliza e, por isso, temos medo. Mas o Mistério não tem esse medo! Somos nós que não somos capazes de estar diante do drama da liberdade. O que não quer dizer que nos desinteressemos pelo outro; ninguém assuma isto como justificativa para a preguiça. Pelo contrário, é preciso fazer tudo o que for possível, desafiar o outro de todas as maneiras. Mas, o outro permanece livre, queira ou não queira, porque não fui eu quem o fez.
A questão é se nós somos capazes de transmitir o olhar de Cristo: então seremos capazes de desafiar os outros até o fundo, e eles cederão diante de uma presença. E isto não depende apenas dos gestos que fazemos, mas da diversidade com a qual os fazemos! É verdadeiro gesto aquilo que torna Cristo presente hoje. Às vezes, achamos que estamos fazendo tudo muito bem; mas vocês estão seguros de que são o rosto do Mistério para aqueles que encontram? E é, depois, culpa do jovem que não entende? Mas, estamos loucos! E nós, não devemos mudar nada? Não devemos fazer pessoalmente um caminho para que, depois, se transmita esta diversidade? Não, nós já fizemos tudo muito justo, fizemos todos os gestos adequados, e reconhecê-Lo é um problema dos outros! Calma, amigos. Isto cabe dizê-lo a quem nos encontra. É o jovem que encontramos que deve dizê-lo, não nós. Estamos seguros de que algo aconteceu apenas - apenas! - quando o outro responde, de outra forma poderia ser uma imaginação nossa. A adesão do outro é um aspecto da verificação que estamos fazendo do caminho de relacionamento com o Senhor. Porque quer dizer que foi despertada toda a sua liberdade e toda a sua afeição para aderir. E apenas então, apenas naquele momento posso estar, de fato, certo. Mas que outro modo temos para sabê-lo se não este?
O Mistério colocou nas mãos de cada pessoa que encontramos o critério de juízo - por isso, correu o 'risco' de criá-la livre - , e por isso a questão do coração sempre estará presente. E vocês o veem muito mais que qualquer um no jovem. Ele tem o critério! Por quê? Porque é ele que deve decidir diante desta correspondência que descobre. Isto não é uma questão particular - da página 325, nota 48 de um livro qualquer -, mas pertence ao núcleo da impostação de Giussani, ao PerCurso, de O Senso Religioso ao Por que a Igreja: começa falando da experiência, do coração como critério de juízo, o retoma quando explica como alguém pode estar diante da concepção que Jesus tem da vida, e termina dizendo que toda a proposta da Igreja se submete ao juízo da pessoa. Sim ou não? Giussani é, de fato, consciente de que este é um diálogo misterioso entre duas liberdades. Ou entendemos isto ou ficaremos procurando atalhos, que não servem. Porque é inútil... você pode fazê-lo participar das iniciativas, mas o seu coração não é tomado. É o que diz Giussani falando do encontro de João e André (...). O problema é este: não que participe, mas se sinta agarrado. Depois, pode sobrevir que isto aconteça de modo 'intermitente'. É um problema de tempo quando este ser agarrado floresce: a pessoa pode ter visto acontecer e não estar de acordo ou recusá-lo por anos, até quando um acontecimento o faz entender todo o alcance daquilo que sobreveio. E não sabemos quando aquela semente produzirá fruto."
(CARRÓN, Julián. Fare il cristianesimo. Tracce. 2010, pp. 2-3)

terça-feira, 6 de abril de 2010

Fazer o Cristianismo 01

Publicarei alguns trechos do encontro de Padre Julián Carrón com o Diretivo Nacional (italiano) de CLE (Comunhão e Libertação - Educadores), ocorrido no dia 28 de fevereiro de 2010 e publicado no site internacional de Comunhão e Libertação.

"A questão é que podemos nos tornar uma presença ali onde estamos, testemunhando aos outros o nosso sorriso e dando a eles todo o tempo de que precisam para que a sua liberdade se mova, não os deixando sozinhos com a sua liberdade, mas continuando a provocá-los. Quando descobri isto, para mim foi uma libertação, porque em sala de aula podia, constantemente, ser eu mesmo diante dos jovens e a dar a eles todo o tempo de que precisavam para decidir. Com todos os meus limites, se na minha presença havia algo para ver, eles podiam ver; e se não havia, mesmo que eu dissesse que havia, não havia nada para eles verem. Porque o problema - como disse Padre Giussani - é ser uma presença. O problema dos jovens é o problema dos adultos: que o adulto se torne uma presença. De outra forma, ficaremos sempre ali discutindo sobre até onde podemos deixar os jovens livres e até onde intervir, e tentamos aqueles estranhos equilíbrios porque, na verdade, não sabemos como resolver a coisa. Enquanto que o adulto se torne uma presença é uma questão que se resolve tão somente no relacionamento com Cristo. Em outras palavras: Jesus resolveu o problema das nossas táticas de equilíbrio se tornando uma presença, porque este fato dá ao adulto todo o campo possível para ser si mesmo e colocar-se com toda a sua liberdade. E isto não é o jovem que eu tenho diante dos olhos quem decide, mas eu decido! Eu, com a minha presença, posso constantemente desafiar a razão e a liberdade do jovem, e ao mesmo tempo posso dar-lhe todo o espaço, todo o tempo de que precisa a sua liberdade - e para cada um este espaço é totalmente diferente, não é um esquema matemático, porque reduziria o eu a um mecanismo. Estamos diante do mistério do outro: ou nos colocamos isso muito bem na nossa cabeça ou ficaremos sempre procurando algo para conseguir entrar na liberdade do outro. Mas, não é possível: o outro é um mistério, não um mecanismo"
(CARRÓN, Julián. Fare il cristianesimo. Tracce. 2010, p. 2)

domingo, 4 de abril de 2010

Mensagem Urbi et Orbi do Santo Padre Bento XVI

"Cantemus Domino: gloriose enim magnificatus est".
"Cantemos ao Senhor: é verdadeiramente glorioso!"
(Liturgia das Horas: Páscoa, Ofício de Leituras, Ant. 1).

Queridos irmãos e irmãs!
Transmito-vos o anúncio da Páscoa com estas palavras da Liturgia, que repercutem o antiquíssimo hino de louvor dos hebreus depois da travessia do Mar Vermelho. Conta o Livro do Êxodo (cf. 15, 19-21) que, depois de atravessarem o mar enxuto e terem visto os egípcios submersos pelas águas, Míriam – a irmã de Moisés e Aarão – e as outras mulheres entoaram, dançando, este cântico de exultação: "Cantai ao Senhor que Se revestiu de glória. Precipitou no mar o cavalo e o cavaleiro!". Por todo o mundo, os cristãos repetem este cântico na Vigília Pascal, cujo significado é depois explicado na respectiva oração; uma oração que agora, na plena luz da Ressurreição, jubilosamente fazemos nossa: "Também em nossos dias, Senhor, vemos brilhar as vossas antigas maravilhas: se outrora manifestastes o vosso poder libertando um só povo da perseguição do Faraó, hoje assegurais a salvação de todas as nações fazendo-as renascer pela água do Batismo: fazei que todos os povos da terra se tornem filhos de Abraão e membros do vosso povo eleito".
O Evangelho revelou-nos o cumprimento das figuras antigas: com a sua morte e ressurreição, Jesus Cristo libertou o homem da escravidão radical, a do pecado, e abriu-lhe a estrada para a verdadeira Terra Prometida, o Reino de Deus, Reino universal de justiça, de amor e de paz. Este "êxodo" verifica-se, antes de mais nada, no íntimo do próprio homem e consiste num novo nascimento no Espírito Santo, efeito do Batismo que Cristo nos deu precisamente no mistério pascal. O homem velho cede o lugar ao homem novo; a vida anterior é deixada para trás, pode-se caminhar numa vida nova (cf. Rm 6, 4). Mas o "êxodo" espiritual é princípio de uma libertação integral, capaz de renovar toda a dimensão humana, pessoal e social.
Sim, irmãos, a Páscoa é a verdadeira salvação da humanidade! Se Cristo – o Cordeiro de Deus – não tivesse derramado o seu Sangue por nós, não teríamos qualquer esperança, o destino nosso e do mundo inteiro seria inevitavelmente a morte. Mas a Páscoa inverteu a tendência: a Ressurreição de Cristo é uma nova criação, como um enxerto que pode regenerar toda a planta. É um acontecimento que modificou a orientação profunda da história, fazendo-a pender de uma vez por todas para o lado do bem, da vida, do perdão. Somos livres, estamos salvos! Eis o motivo por que exultamos do íntimo do coração: "Cantemos ao Senhor: é verdadeiramente glorioso!"
O povo cristão, saído das águas do Batismo, é enviado por todo o mundo a testemunhar esta salvação, a levar a todos o fruto da Páscoa, que consiste numa vida nova, liberta do pecado e restituída à sua beleza original, à sua bondade e verdade. Continuamente, ao longo de dois mil anos, os cristãos – especialmente os santos – fecundaram a história com a experiência viva da Páscoa. A Igreja é o povo do êxodo, porque vive constantemente o mistério pascal e espalha a sua força renovadora em todo o tempo e lugar. Também em nossos dias a humanidade tem necessidade de um "êxodo", não de ajustamentos superficiais, mas de uma conversão espiritual e moral. Necessita da salvação do Evangelho, para sair de uma crise que é profunda e, como tal, requer mudanças profundas, a partir das consciências.
Peço ao Senhor Jesus que, no Oriente Médio e de modo particular na Terra santificada pela sua morte e ressurreição, os Povos realizem um verdadeiro e definitivo "êxodo" da guerra e da violência para a paz e a concórdia. Às comunidades cristãs que conhecem provações e sofrimentos, especialmente no Iraque, repita o Ressuscitado a frase cheia de consolação e encorajamento que dirigiu aos Apóstolos no Cenáculo: "A paz esteja convosco!" (Jo 20,21).
Para os países da América Latina e do Caribe que experimentam uma perigosa recrudescência de crimes ligados ao narcotráfico, a Páscoa de Cristo conceda a vitória da convivência pacífica e do respeito pelo bem comum. A dileta população do Haiti, devastado pela enorme tragédia do terremoto, realize o seu "êxodo" do luto e do desânimo para uma nova esperança, com o apoio da solidariedade internacional. Os amados cidadãos chilenos, prostrados por outra grave catástrofe mas sustentados pela fé, enfrentem com tenacidade a obra de reconstrução.
Na força de Jesus ressuscitado, ponha-se fim na África aos conflitos que continuam a provocar destruição e sofrimentos e chegue-se àquela paz e reconciliação que são garantias de desenvolvimento. De modo particular confio ao Senhor o futuro da República Democrática do Congo, da Guiné e da Nigéria.
O Ressuscitado ampare os cristãos que, pela sua fé, sofrem a perseguição e até a morte, como no Paquistão. Aos países assolados pelo terrorismo e pelas discriminações sociais ou religiosas, conceda Ele a força de começar percursos de diálogo e serena convivência. Aos responsáveis de todas as Nações, a Páscoa de Cristo traga luz e força para que a atividade econômica e financeira seja finalmente orientada segundo critérios de verdade, justiça e ajuda fraterna. A força salvífica da ressurreição de Cristo invada a humanidade inteira, para que esta supere as múltiplas e trágicas expressões de uma "cultura de morte" que tende a difundir-se, para edificar um futuro de amor e verdade no qual toda a vida humana seja respeitada e acolhida.
Queridos irmãos e irmãs! A Páscoa não efetua qualquer magia. Assim como, para além do Mar Vermelho, os hebreus encontraram o deserto, assim também a Igreja, depois da Ressurreição, encontra sempre a história com as suas alegrias e as suas esperanças, os seus sofrimentos e as suas angústias. E todavia esta história mudou, está marcada por uma aliança nova e eterna, está realmente aberta ao futuro. Por isso, salvos na esperança, prosseguimos a nossa peregrinação, levando no coração o cântico antigo e sempre novo: "Cantemos ao Senhor: é verdadeiramente glorioso!".

Feridos, voltamos para Cristo


por Julián Carrón

Caro diretor,
nunca antes, como diante do dolorosíssimo evento da pedofilia, todos nós sentimos tanto desânimo.
Desânimo devido à nossa incapacidade de responder à exigência de justiça que emergia do profundo do coração.
O pedido de responsabilidade, o reconhecimento do mal feito, a reprovação dos erros cometidos na condução dos eventos, tudo nos parece totalmente insuficiente diante deste mar de mal. Nada parece bastar. Compreendem-se, assim, as reações irritadas que pudemos ver nesses dias.
Tudo isso serviu para colocar diante de nossos olhos a natureza da nossa exigência de justiça. É sem confins. Sem fundo. Tanto quanto o é também a profundidade da ferida. Incapaz de ser esgotada tão infinita é. Por isso, é compreensível a impaciência, até mesmo a desilusão das vítimas, mesmo depois do reconhecimento dos erros: nada basta para satisfazer a sua sede de justiça. É como se tocássemos um drama sem fundo.
Deste ponto de vista, os autores dos abusos se encontram, paradoxalmente, diante de um desafio semelhante ao das vítimas: nada é suficiente para reparar o mal feito. Isto não quer dizer tirar deles a responsabilidade, muito menos a condenação que a justiça poderá lhes impor. Não bastará nem mesmo cumprir toda e pena.
Se esta é a situação, a questão ardente - que ninguém pode evitar - é tão simples quanto inexorável: "Quid animo satis?". O que pode saciar a nossa sede de justiça? Nesse ponto chegamos a tocar com a mão toda a nossa incapacidade, genialmente expressa no Brand de Ibsen: "Responde-me, ó Deus, na hora em que a morte me engole: não é, pois, suficiente toda a vontade de um homem para conseguir uma só parte da salvação?". Ou, dito com outras palavras: pode toda a vontade do homem conseguir realizar a justiça pela qual ansiamos?
Por isso, mesmo aqueles mais exigentes, mais ávidos na pretensão da justiça, não serão leais até o fundo de si mesmos com a sua exigência de justiça, se não enfrentam esta sua incapacidade, que é a de todos. Se isso não acontecesse, sucubiríamos a uma injustiça ainda mais grave, a um verdadeiro "assassinato" do humano, porque para poder continuar a gritar justiça segundo a nossa medida devemos fazer calar a voz do nosso coração. Esquecendo as vítimas e abandonando-as a seu próprio drama.
Na sua audácia desarmante, o Papa, paradoxalmente, foi aquele que não sucumbiu a esta redução da justiça a uma medida qualquer. De um lado, reconheceu sem hesitação a gravidade do mal cometido por padres e religiosos, os exortou a assumirem a responsabilidade, condenou o modo errado com o qual alguns bispos geriram o evento por medo do escândalo, expressando todo o desânimo que experimentava pelos fatos acontecidos, e tomando providências para evitar que se repitam.
Mas, de outro lado, Bento XVI é bem consciente de que isto não é suficiente para responder às exigências de justiça pelo dano infligido: "Sei que nada pode cancelar o mal que suportastes. A vossa confiança foi traída, e a vossa dignidade foi violada". Assim como o fato de cumprir a pena, ou o arrependimento e a penitência dos causadores dos abusos, não será nunca suficiente para reparar o dano acarretado às vítimas e a eles mesmos.
É mesmo o seu reconhecimento da verdadeira natureza da nossa necessidade, do nosso drama, o único modo para salvar - para levar a sério e para considerar - toda a nossa exigência de justiça. "A exigência de justiça é uma pergunta que se identifica com o homem, com a pessoa. Sem a perspectiva de um outro, de uma resposta que está para além das modalidades existenciais experimentáveis, a justiça é impossível... Se fosse eliminada a hipótese de um 'além', aquela exigência seria sufocada artificialmente" (Padre Giussani). E como o Papa a salvou? Apelando ao único que pode salvá-la. Alguém que torne presente o além no aquém: Cristo, o Mistério feito carne. "Ele mesmo vítima de injustiça e do pecado. Como vós, Ele carrega ainda as feridas do seu injusto sofrimento. Ele compreende a profundidade da vossa pena e a persistência do seu efeito nas vossas vidas e nos vossos relacionamentos com os outros, inclusive os vossos relacionamentos com a Igreja".
Apelar a Cristo, portanto, não é buscar um subterfúgio para escapar diante da exigência da justiça, mas é o único modo para realizá-la plenamente. O Papa apela a Cristo, evitando um obstáculo de fato traiçoeiro: o de retirar Cristo da Igreja valendo-se do argumento de que ela está muito cheia de sujeira para poder levá-Lo. A tentação protestante está sempre à espreita. Seria muito fácil, mas teria um preço muito alto: perder Cristo. Porque, lembra o Papa, "é na comunhão com a Igreja que encontramos a pessoa de Jesus Cristo". E por isso, consciente da dificuldade de vítimas e culpados (a "perdoar ou serem reconciliados com a Igreja"), ousa pedir que, aproximando-se de Cristo e participando da vida da Igreja, possam "chegar a redescobrir o infinito amor de Cristo por cada um de vós", o único capaz de curar as suas feridas e reconstruir a sua vida.
Este é o desafio diante do qual estamos todos, incapazes de encontrar uma resposta para os nossos pecados e para o dos outros: aceitar participar da Páscoa que celebramos nesses dias, o único caminho para ver reflorecer a esperança.

*Extraído do jornal La Repubblica, de 04 de abril de 2010 (p. 7). Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.