segunda-feira, 31 de maio de 2010

"A voz única do ideal"

Encontro de padre Julián Carrón
com os formandos de Juventude Estudantil
Roma, 16 de maio de 2010

Amigos, este momento da vida de vocês é particularmente decisivo, porque em nós, em cada um de nós, há uma batalha se travando entre a "voz única do ideal" [1] (como acabamos de cantar), que todos sentimos vibrar dentro de nós, e todas aquelas circunstâncias que tantas vezes tentar expulsar esta voz, de forma que não sabemos mais para onde ir. Esta é uma luta que cada um de vocês vive dentro de si, e por isso este momento é particularmente dramático, porque escolhas como aquelas que vocês estão para fazer são determinantes na vida, porque a pessoa começa a tomar consciência de todos os fatores e vê emergir o próprio rosto: "O que estou fazendo no mundo?". E entendo muito bem o drama que cada um pode viver neste período da vida; é um período que nos obriga a escolher; vocês estão para terminar, é preciso escolher, é preciso começar a escolher, não é que a vida nos espera; é preciso escolher, porque não escolher é já uma escolha; de fato, todos, no final do ensino médio, escolhem, se colocam na vida com um rosto, e têm que enfrentar esta luta: "Não fiquem presos à corte das almas anãs que repetem os gestos e não sabem entender. Não subam ao castelo dos jovens justos que adoram o sol" [2]. Pelo contrário, o ideal nos convida a lutar contra esta redução. A primeira consciência que devemos ter é desta luta que está acontecendo agora.
A segunda questão é o caminho, saber o caminho para chegar àquele ideal, porque "caminha o homem quando sabe bem para onde deve ir" [3].
Padre Giussani nos ensina: "Somente na clareza e na segurança o homem encontra energia para a ação" [4]. Por isso, queremos nos ajudar a esclarecer aquilo de que temos necessidade para poder viver, para podermos nos lançar na vida, porque é uma exigência do momento que vocês estão vivendo, uma urgência que nasce no profundo do ser de vocês, a descoberta da vida como vocação.

1) Pelo que vale a pena viver?
A primeira questão da vocação, que temos que encarar de frente, não é o que escolher, esta é a consequência. A primeira é questão é a que urge tantas vezes em nosso coração: "Mas, por que eu existo? Por que estou no mundo? Pelo que vale a pena viver? O eu serve para quê? Para que serve o meu eu?". Como vocês podem ver, é a questão da vida, a questão fundamental de cada um de nós. A primeiríssima decisão é levar a sério esta pergunta, esta urgência, porque, como dizia R. M. Rilke, "tudo se concerta para nos calar" [5], para nos fazer agir segundo outros critérios. Parar esta pergunta significaria matar a natureza do homem, ou seja, bloquear o nosso eu no momento em que ele se lança na vida. Por isso estamos juntos nesta manhã, para que, antes de mais nada, não bloqueemos a pergunta, para não bloquearmos a voz do ideal.
Imaginem se um pedaço de alguma coisa, por exemplo uma engrenagem de uma máquina, se perguntasse: "Qual é a minha utilidade? O que estou fazendo aqui?". Ela só conseguiria entender isso a partir de dentro do relacionamento, no seu nexo com toda a máquina, porque cada pedaço do real só pode ser compreendido no seu nexo com o todo. Por isso, se nos perguntássemos: "Para que serve a minha vida? O que sou chamado a realizar?", a questão é encontrar o critério que nos ligue ao todo, "aquele critério que, sendo seguido, faz com que o homem se torne útil ao mundo, de tal modo que caminhe sempre mais em direção à sua personalidade, no rumo da sua felicidade, [...] não em direção à sua perda" [6]. Atenção, porque isto é fundamental: não é que servir ao mundo signifique nos perdermos, mas o serviço ao mundo é um ganho para nós, é a nossa realização. Entender isto é fundamental, porque tantos pensam que a única modalidade para realização de si seja a auto-afirmação (não afirmar-se na relação com a totalidade, mas na relação consigo mesmo) e, por isso, depois, acabam sozinhos num esconderijo, perguntando-se sobre o sentido da vida. Por isso é tão decisivo. Para a minha realização, devo entender o que estou fazendo no mundo, porque sem isto vou me perder inexoravelmente. Mas, como entender essa coisa? Como entender o que estou fazendo no mundo? A que sou útil?
Para responder a esta pergunta é preciso entender qual é o sentido do mundo, qual é o significado do mundo. E isto, amigos, para nós, é misterioso: qual é o sentido da totalidade, qual é o sentido do mundo, da história? Como dizia São Paulo: "Ele fez nascer de um só homem todo o gênero humano, para que habitasse sobre toda a face da terra. Fixou aos povos os tempos e os limites da sua habitação. Tudo isso para que procurem a Deus e se esforcem por encontrá-Lo como que às apalpadelas, pois na verdade Ele não está longe de cada um de nós" [7]. Seria, de fato, difícil descobrir o sentido do mundo - ou, em outras palavras, a Deus -, e por isso mesmo a minha utilidade neste mundo, se permanecessémos no escuro, neste mistério: "Por toda a vida, a verdadeira lei moral seria a de estarmos suspensos ao aceno deste 'senhor' desconhecido, atentos aos sinais de uma vontade que nos apareceria através da pura e imediata circunstância. Repito: o homem, a vida racional do homem deveria estar suspensa ao instante, suspensa a cada instante a este sinal aparentemente tão volúvel, tão casual, que são as circunstâncias" [8]. Em termos teologicamente eruditos, Santo Tomás afirma: "a verdade sobre Deus, registrada pela razão, chegaria aos homens por meio de poucos, depois de longo tempo e de mistura com muitos erros" [9].
Mas, o Mistério teve piedade de nós: vendo-nos tão fracos, teve piedade de nós e entrou na história para nos revelar o que, sozinhos, não seríamos capazes de penetrar, tornou-Se um homem para ajudar os homens a serem si mesmos, para revelar o sentido último do mundo e ajudá-los a entender o significado da vida. Jesus Cristo usou uma expressão para descrever qual é o significado do mundo: o reino de Deus. Todo o valor da realidade está em construir o reino de Deus, está em participar da construção deste reino, ou seja, participar da construção de um mundo que corresponda ao Ideal que se fez carne. Por isso, deum contribuição fundamental para entender o nosso lugar no mundo. O meu valor e o seu valor estão na medida em que colaboramos com o reino de Deus, na medida em que ajudamos a humanidade a caminhar no rumo da felicidade. Porque é somente participando deste reino - que é o reconhecimento da Sua presença entre nós - que o indivíduo pode alcançar a própria felicidade, a própria realização.
Vocês têm que trabalhar sobre cada uma dessas frases, se perguntando: é verdade ou não é verdade? Não é que, agora, vocês devem repetir as frases como se fossem uma sequência lógica e, então, o problema se resolveu; não! Vocês têm que perguntar, porque, de outra forma, não irão entender o alcance daquilo que nos dizemos e, depois, vão acabar decidindo sem pensar, já que não entenderam. Nestas passagens se joga, de fato, a vida. Por isso, este é um momento precioso, fundamental, para darem um salto na consciência de quem sou eu, de o que estou fazendo no mundo e qual é o sentido do mundo.
"Para a escolha da vocação, portanto, o critério não pode ser outro que: como eu, com tudo o que sou espiritual e intelectualmente, como temperamento e como educação, como físico, posso servir mais ao reino de Deus" [10].

2) A descoberta da vocação
Como posso entender os sinais que me permitem esclarecer a forma como posso servir mais ao reino de Deus? Devo localizar aquele complexo que eu sou para poder entender como posso usar tudo o que tenho, tudo que trago comigo e que me foi dado, para a utilidade do reino de Deus.
Tomo o que disse padre Giussani e o subdivido, para maior clareza em três grandes critérios.
O primeiro critério a ser olhado é o complexo de inclinações ou dotes naturais. Cada um de nós traz consigo uma série de capacidades, desejos, ímpetos, um temperamento. São dons preciosos que devemos colocar a serviço de algo outro. Foram-nos dados, todos estes dons, para algo na vida, para serem usados, para viver: como eu posso usar todos estes dons que o Senhor me deu para servir mais ao reino de Deus? “Por exemplo, há um temperamento de inteligência que parece bobo quando se aplica à matemática, mas é genialíssimo quando se trata de construir [...] um conto: é um gênio literário, que em matemática pareceria um bobo. Se o forçam a fazer o Politécnico, lhe impedem de ser útil à humanidade” [11]. Se o professor, o pai, a mãe, a criança, a babá, o cachorro dizem: “Não... você tem que fazer o Politécnico”, eles “matam” você. Parece banal, mas você não conseguirá ficar contente, não conseguirá render, não será capaz de servir; você não terá encontrado o seu lugar no mundo e, por isso, será enganado, porque terá escolhido algo a partir de fora, não levando em consideração os dons que você recebeu. “Há, por exemplo, um tipo que é genial na arte musical. Se o obrigarem a fazer Direito, certamente seu rendimento diminuirá e, portanto, se torna mais difícil o seu caminho, visto que as duas coisas coincidem sempre. A intensidade ou a beleza... a beleza do caminho – já que a beleza é o esplendor do verdadeiro – coincide com a utilidade que realizamos no mundo [...]. A beleza do caminho corresponde à verificação [no sentido de tornar-se verdadeiro] da nossa vocação. Portanto, para localizar este condicionamento [este complexo de dons recebidos, de inclinações, de dotes], antes de mais nada é necessário a atenção aos próprios dotes naturais, ou capacidades [atenção àquilo que tenho como tendência, como facilidade, tenho como gênio]. Como se chama aquele fenômeno que faz os dotes e as capacidades naturais virem à tona? Se chama ‘inclinação’, a inclinação. [...] A natureza nos introduz aos ideais, mas sempre através de um gosto ou de uma inclinação, um prazer ou uma necessidade. [...] Por isso, a primeira grande regra prática é [...] a simplicidade” [12], a sinceridade de olhar e reconhecer e abraçar estes dons como o primeiro sinal que a realidade me oferece para entender o que faço no mundo. O erro mais grave que se pode cometer na determinação da própria vocação “é se colocar em uma condição de desconfiança quanto às próprias inclinações, quanto ao gosto, quanto ao prazer autêntico [...] e natural” [13]. Podemos resumir assim: os dotes, o temperamento, as tendências de que somos constituídos são aquilo para o que devemos olhar, porque são aquilo através do que o Mistério nos chama, dando-nos esta capacidade, estas inclinações dentro de nossa carne; não nos manda um anjo, mas nos plasma a partir de dentro de nossas vísceras, para dizer-nos a que nos chama, porque é Ele que nos fez assim. Por isso, também a orientação profissional, por exemplo, deverá levar em consideração estas tendências nativas como um modo de encaminhar-se para onde Deus, através das capacidades que nós dá, nos chama. Chama você, mas chama você não de fora, chama você dando a você todas estas inclinações.
Segundo critério: as condições inevitáveis ou as circunstâncias inevitáveis. Padre Giussani diz que “a circunstância inevitável é certamente – como dizer? – a coisa mais amiga que temos no mundo, porque é o fator mais evidente da nossa existência. Porque na avaliação das nossas inclinações e dos nossos dotes, frequentemente há a possibilidade da incerteza, ou o medo” [14]... Nem todos são Mozart e têm a clareza dos dons e dos dotes tão claramente desde o princípio; às vezes, não é tão evidente assim, enquanto que as circunstâncias inevitáveis são evidentes e uma pessoa, por exemplo, pode querer fazer astronomia porque é, de fato, dotado para isso, mas – pensemos – por uma circunstância familiar, por falta de recursos, uma circunstância de fato inevitável, não pode fazer esse curso, porque a família passou mal pela crise econômica. Então, o resultado disso é que ele tem que começar a trabalhar. Circunstâncias inevitáveis determinam a possibilidade ou não de fazer certas coisas: alguém quer fazer ciclismo ou participar das Olimpíadas porque é, de fato, bem dotado atleticamente, mas sofre um acidente e fica manco. Para entender o que está fazendo no mundo, o primeiro movimento não pode ser ficar com raiva, mas aceitar esta circunstância inevitável. Imaginem que aquela pessoa, que ficou manca, ficasse de cabeça dura insistindo em dizer “Não, eu quero ir às Olimpíadas”; seria uma teimosia, um capricho” Do ponto de vista vocacional, padre Giussani diz: “A circunstância inevitável é 100%, com certeza absoluta, sinal do caminho a ser seguido. Por isso, não existe nada de mais amigo, de mais facilmente amigo nosso, do que a circunstância inevitável, o fato” [15]. Acrescento ainda um aspecto fundamental, uma nota fundamental: nada disso é fatalidade, o destino não é o fato: tudo – mas tudo mesmo – se torna instrumento de vocação! Você está seguro de que se tornando um atleta vai atingir a sua plenitude e a satisfação mais facilmente do que através daquela circunstância inevitável? Não. Abraçar este acidente como parte do caminho em direção ao destino é esperar, curioso, como o Senhor vai fazer para me levar até à felicidade, através do meu ser manco. Mas não introduz uma dúvida! Não fico ali lamentando-me por toda a vida. Antes: esta condição inevitável se torna elemento fundamental através do qual o Mistério me fará chegar ao destino, ao ideal, à felicidade. Se, porém, paramos na raiva, será a nossa tumba, porque na vida podem acontecer muitos acidentes de percurso que são inevitáveis, mas se nós não tivéssemos a possibilidade de que a vida continuasse a ter um sentido (e pensamos que apenas certas pessoas, com certas capacidades, podem atingir o escopo da vida), dependeremos apenas do acaso. Pelo contrário, qualquer circunstância é parte da conquista do destino, da felicidade. E isto é, de fato, libertador, porque a felicidade não depende do sucesso mundano, mas do meu serviço ao todo, ao reino de Deus (por isso, pode ser a mesma coisa ser um porteiro ou um ministro).
Terceiro critério: a necessidade social, ou melhor, a necessidade do mundo e da comunidade cristã. Vocês têm que olhar de frente para o mundo, neste momento: do que ele precisa? Do que a Igreja precisa? A comunidade cristã tem necessidade de quê? Cada um tem que olhar aquilo que percebe como mais urgente, porque pode haver épocas e situações nas quais a urgência de uma dedicação total a Deus é mais forte, em outro momento, porém, é mais decisivo que existam homens no meio da realidade, no trabalho, na família, que possam testemunhar, a partir de dentro das vísceras da sociedade, lá onde todos vivem, o que é a vida, qual o sentido do viver. Também assim podemos descobrir a que somos chamados.
“O juízo deve brotar do complexo destes fatores colocados juntos. Mas isto implica outra consideração: sem reflexão e sem uma comparação – a comparação dialógica – com a comunidade na sua função típica, ou seja, com quem guia a comunidade, é inevitável que o nosso modo de proceder seja instintivo e mecânico. Nós refletimos sobre todas as coisas, mas quanto a isso, do que depende toda a estrutura da nossa via no seu valor mais pessoal, deixamo-nos levar automaticamente por aquilo que sentimos. É preciso refletir; e refletir quer dizer se comparar com o próprio destino, com o próprio fim, com Deus, com o escopo da vida, com o servir ao reino de Deus. Quem tem ainda o problema intacto deve sentir o dever de recuperar imediatamente estes critérios; e que tem às suas costas fatores que não podem ser eliminados, também ele, mesmo que de outra forma, deve recuperar os mesmos critérios” [16]. Imaginem que vocês ganhem milhões; a coisa normal é perguntar a alguém onde colocar o dinheiro para não o perder fazendo investimentos malucos, não? Perguntar não é um dever, mas é um interesse: interessa-me fazer esta comparação para não perder o dinheiro. Certo, no final serei eu a decidir, mas me agradaria decidir com toda a consciência para que ele renda bem. Se isto acontece com o dinheiro, imaginem o que deveria acontecer com a vida: quero estar seguro de ter presente todos aqueles fatores que me permitem tomar uma decisão completa, porque a razão é a consciência de todos os fatores.

3) A escolha da vocação
Com tudo isso, fica claro que são duas as questões fundamentais para serem decididas, duas são as escolhas fundamentais que cada um de nós é chamado a fazer na vida.
a) A vocação como escolha do estado de vida
Há dois estados de vida fundamentais: um é o “normal”, natural, ou seja, o de colocar-se diante de Deus através da mediação de outra pessoa [17]. O que quer dizer colocar-se diante de Deus através da mediação de outra pessoa? Que, apaixonando-se, a pessoa que mais faz você vibrar, que mais abre você, que mais o lança, que mais chama a sua atenção para algo de outro é um mediador: você é chamado a se abrir à totalidade através deste fato que lhe aconteceu, que você carrega consigo. Se Deus dá a você aquela pessoa, não é para bloquear você naquele lugar, mas para abri-lo ainda mais ao Mistério, para abri-lo ainda mais àquela totalidade para a qual você foi feito: então, você começa a ter algum sinal de qual é a vocação a que Deus lhe chama. Você caminha em direção ao Destino através da mediação, na companhia da mediação de outro ou de outra. Neste sentido, uma pessoa segue a grande lei que une o homem a Deus através da realidade mundana, e uma pessoa assim diz: “Eu, com esta pessoa, vou até o fim do mundo”, vou até ao destino, sou chamado a ir ao destino com essa pessoa porque ela chama mais a minha atenção para o escopo da vida. Não é que esta pessoa me possa fazer feliz, porque não me fará feliz – atentos, porque nisso vocês erram sempre –, na medida em que o meu desejo é muito maior e onde isto se evidencia mais é exatamente aqui: nenhuma pessoa é capaz de despertar em você todo o desejo de felicidade como aquela pessoa, mas ao mesmo tempo nenhuma pessoa é mais incapaz de satisfazê-lo do que aquela mesma pessoa. Por isso, não se deve repreender o marido ou a mulher por causa dessa incapacidade, mas se deve entender que ela é parte da vocação, que aquela pessoa lhe é dada para despertar todo o desejo de caminhar juntos no rumo dAquele que é capaz de satisfazer o desejo (por isso, é uma vocação, porque é a possibilidade de chegar ao destino). Se você, pelo contrário, identifica o destino como sendo aquela pessoa e para nela, acontece como com todos: “Ah! Agora sei por que nasci!”. Qual se torna, na cabeça de vocês, a utilidade para o mundo? Querer aquela mulher, ponto! “Por que tenho que ir além? Por que tenho que me abrir para o além?”. Depois disso, sufocam e se separam, porque não são capazes mais de viver um com o outro: são tão feitos um para a outra que não conseguem mais viver juntos! Se cometemos esse erro, acabaremos como vemos que acabam tantos, hoje em dia, porque não compreendemos a natureza da experiência amorosa, daquilo para o que o Mistério nos faz, ao nos fazer assim: para que nos abramos mais Àquele que pode saciar a vida. “No âmbito cristão, a realidade deste estado [que é fazer uma família] é fundamental por que a isso é confiada a possibilidade mesma do prolongar-se do reino de Deus no mundo [através dos filhos]” [18].
Mas, na vida da Igreja há um outro estado de vida, que é aquele da virgindade, “que se constitui, também, numa função fundamental e que aparecerá também mais claramente na medida em que recuperarmos o motivo último e exaustivo pelo qual nos oferecemos a Deus: este motivo é a imitação de Cristo [Cristo, o Mistério feito carne, colocou na história uma modalidade de se ser útil ao reino de Deus que é viver para este reino, viver para fazer a vontade de Deus, dando toda a própria vida para isto: é exatamente o que fez Jesus, que não constituiu família, deu toda a sua vida para isso]. A imitação de Cristo é a lei de todos os cristãos, porém a escolha de um estado deste gênero toca objetivamente o seu vértice [uma vocação à virgindade toca o seu vértice], porque é a imitação do estado de Cristo na sua plenitude. O estado de Cristo na sua plenitude era um relacionamento com o Pai que, de um certo ponto de vista, como pessoa, não era mediado por nada [assim como no matrimônio o relacionamento com o Pai é mediado por outro, aqui o relacionamento com o Pai não é mediado por nada]” [19]. Aqueles que são chamados a este estado são chamados a um relacionamento único, imediato, direto com o Mistério. Esta é a virgindade: Deus chama, Deus introduz na vida uma semente, uma experiência do viver tal que torna você tão pleno, tão grato, que torna possível a você uma experiência de vida que lhe permite dizer: “Eu quero isto”, e isto lhe torna livre para dar toda a vida, não para mutilá-la. É por uma plenitude, não por um sacrifício, é por ter ficado fascinado por Cristo que uma pessoa sente a urgência de dar-Lhe tudo: “Eu sou para ti, Cristo”. Atenção, que ninguém pense neste caminho por outro motivo que não seja a plenitude! Não é porque é mais perfeito, não é porque é mais bonito, não; é porque a pessoa vive suspensa sobre um cheio e não quer perdê-lo por nada desse mundo, tanto é verdade que as pessoas que encontram essa plenitude, às vezes, nunca nem pensaram nesse caminho, mas, de repente, descobrem essa plenitude e dizem: “isso é demais, isso é bonito demais para não ser seguido”. Por isso, padre Giussani diz: “Cristo, com a sua virgindade, não era um mutilado. Por isso, o conceito de renúncia, se indica a ressonância psicológica que a existência gera naquele caso, do ponto de vista do valor, do ponto de vista ontológico, não é renúncia a algo, mas é o entrar na posse mais profunda e mais última das coisas. A virgindade de Cristo era um modo mais profundo de possuir a mulher, um modo mais profundo de possuir as coisas. Isto teve, por assim dizer, a sua realização no fato da ressurreição, através da qual Cristo possuiu todas as coisas, como nós possuiremos no fim do mundo. Neste sentido, a virgindade, no âmbito da comunidade cristã, é a situação paradigmática, exemplificativa, ideal de referência a todos” [20]. É o paradigma, o exemplo, o ideal não de uma não-posse, mas da posse verdadeira.
Outro dia, na pausa de uma aula na Católica [refere-se à Universidade Católica de Milão; ndt], uma garota veio até a mim para dizer, depois de anos de noivado: “Gostaria de voltar àquele primeiro momento, àquele primeiro vislumbre do relacionamento com meu namorado”, quando ainda não se tinham tocado: esta é a virgindade! E por que esta garota, depois de anos, ainda tem saudade daquele instante? Porque tudo o que aconteceu depois não foi capaz de recriar nem um pouquinho da plenitude que havia experimentado então. Esta garota está noiva ainda, mas deseja isto, deseja uma posse do outro assim, e ser possuída pelo seu noivo assim, como naquele primeiro instante comovente. A virgindade é um modo mais profundo de possuir a mulher, um modo mais profundo de possuir as coisas. E hoje, que é a Ascensão, é a festa disso: quando Cristo ressuscitado entrou na profundidade das coisas, possuindo-as. Também nós as possuiremos no fim dos tempos, é uma realização verdadeira, afetivamente falando, porque é aquilo a que todos somos chamados: “A virgindade, portanto, na vida da Igreja [no reino de Deus], representa a função suprema, tanto é verdade que a história da Igreja identificou o testemunho nas suas formas supremas em dois pontos: a virgindade e o martírio. A virgindade, no âmbito da comunidade cristã, constitui-se em função e testemunho para o fim da vida” [21]. Nela podemos gritar a todos: “Preste atenção no fato de que aquilo pelo que você ama a sua namorada, o seu namorado, aquilo pelo que você se casa, pelo que você tem filhos, tem um nome que eu grito para você através da minha vida: Cristo. E é possível aquilo pelo que você foi feito tendo a mulher e os filhos, existe, eu o testemunho para você. Por quê? Porque eu dou a vida para isso e a minha vida não existiria, não seria o que é se Ele não existisse. Seria impossível se Cristo não tivesse entrado na história e nos tivesse fascinado tanto a ponto podermos viver dEle”.
Quais dos dois caminhos abraçar, então? “A escolha entre um e outro caminho não pode ser uma ‘criação’ nossa, mas deve ser um ‘reconhecimento’ nosso. Devemos reconhecer algo para o que fomos destinados. Não deve ser uma decisão nossa no sentido de que a nossa vontade construa a própria posição, mas no sentido de que a nossa liberdade adira à indicação que nos assinala o caminho” [22]. Então, a questão fundamental para a escolha da vocação é nos educarmos ao Mistério, educarmo-nos a permanecer escancarados, tesos a descobrir os sinais através dos quais eu possa entender a que sou chamado.
E isto, tantas vezes, é complicado, amigos. Porque somos feitos para o “portanto”, devemos chegar à clareza e, por isso, queremos acelerar o caminho quando não nos é ainda claro – sentimos um estranho mal-estar, uma impaciência. Como essa posição é vertiginosa, queremos superá-la o mais rápido possível e, tantas vezes, acabamos errando; ao invés de esperar que emerjam os sinais através dos quais o Mistério me dá todas as indicações às quais devo obedecer, ou decidimos nós ou fazemos com que outros decidam por nós. Porque o caminho é, no fundo, uma obediência; é uma obediência que tem dentro de si tudo aquilo para o que eu fui feito, que leva em consideração todos os fatores que me tornam verdadeiramente o que eu sou, não é uma decisão “minha”.
b) A vocação como escolha da profissão
Tudo o que dissemos até agora nos ajuda a entender também o caminho da escolha da profissão a desenvolver, mas gostaria de sublinhar fundamentalmente uma coisa. “A concepção moderna da vida nunca se mostra tão distante do Espírito de Cristo como neste ponto. O critério com o qual a mentalidade de hoje habitua a olhar o futuro tem como centro o proveito, o gosto ou a facilidade do indivíduo. O caminho a escolher, a pessoa a amar, a profissão a desempenhar, a faculdade em que se matricular, tudo é determinado de modo a erigir como critério absoluto a utilidade particular do indivíduo. E isto parece tão óbvio e normal que a subversão causada pelo chamado se mostra, mesmo a muitas pessoas de bem, um desafio ao bom senso, um fanatismo, um exagero. São acusações repetidas até por educadores que se sentem cristãos, ou por pais preocupados com o sucesso humano dos filhos: os juízos nas situações privadas e públicas, os conselhos para bem viver, as advertências e repreensões, tudo é ditado por um ponto de vista do qual estão totalmente ausentes a devoção ao todo e a preocupação com o Reino, e a realidade de Cristo é exilada” [23]. Podemos ser de GS [Giuventù Studentesca – Juventude Estudantil –, é o âmbito dos colegiais de Comunhão e Libertação; ndt], podemos ter encontrado a Cristo, mas no momento decisivo das escolhas fundamentais Ele não tem nada que ver. Por isso, é dramático este momento, só de falar sobre isso sinto arrepios; imagino que arrepios vocês que estão para escolher devem sentir, tanto é contrário a toda a mentalidade no qual estamos imersos.
Vocês entendem por que é uma luta? A luta em nós é entre seguir a voz única do ideal (que seja aquela a nos indicar o caminho) ou deixar-nos engolir pela mentalidade do mundo. Se não nos dizemos estas coisas, não somos amigos; eu digo isso a vocês porque sou amigo de vocês, porque a questão é o objetivo da vida, a questão é o que estamos fazendo aqui. Se nós, neste momento-chave da decisão, não vinculamos a escolha da profissão ao o que estamos fazendo aqui, nos perderemos pelo caminho. “‘O que o todo poderá me dar? Como obter o maior proveito possível do todo?’: estes são os critérios imanentes à sabedoria mais difundida e ao bom senso mais reconhecido. A mentalidade cristã, ao contrário, derruba essas perguntas, as contradiz e as mortifica e agiganta o imperativo exatamente oposto: ‘Como eu poderei doar-me, com aquilo que sou, servir mais ao todo, ao Reino, a Cristo?’. Este é o único critério educativo da personalidade humana redimida pela luz e pela força do Espírito de Cristo” [24].
“Na escolha do trabalho e da profissão deve vir à tona aquela terceira categoria sobre a qual falamos [antes]: as necessidades da sociedade. Mas, para o cristão estas não podem ser um critério isolado de outro conceito mais profundo: a necessidade da comunidade cristã” [25]. Então, o que significa, no fundo, esta disponibilidade se não prontidão, disponibilidade à vocação? É isto que devemos pedir: que o Senhor nos dê a graça de ver todos os sinais que nos permitem identificar a vocação de modo tal que não nos enganemos no caminho e nos tornemos disponíveis – porque, às vezes, podemos ver com muita clareza e não estarmos disponíveis.
“A profunda disponibilidade de toda a própria vida no serviço ao todo é de extrema importância exatamente também para compreender qual a função que se é chamado a desempenhar, qual a vocação pessoal” [26]. Porque a vocação, amigos, não é uma ordem, ninguém ordena nada a vocês aqui, nesta manhã, nem mesmo Cristo deu uma ordem; é uma sugestão, um convite, uma possibilidade entrevista, e deixa intacta a liberdade de vocês. Depois de tudo o que dissemos, toda a liberdade, dramaticamente, está nas mãos de vocês.

Notas
[1] CHIEFFO, C. “Parsifal (Canzone dell’ideale)”, em Canti. Milano: Cooperativa Editoriale Nuovo Mondo, 2002, p. 236.
[2] Idem.
[3] CHIEFFO, C. “Il popolo canta”, em Cantos. São Paulo: Companhia Ilimitada, 2002, p. 292.
[4] GIUSSANI, L. O caminho para a verdade é uma experiência. São Paulo: Companhia Ilimitada, 2006, p. 143.
[5] RILKE, R. M. “Segunda Elegia”, em Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 115.
[6] GIUSSANI, L. Intervento alle Vacanze Maturati, Campitello, 28 a 30 de julho de 1964 [Arquivo de CL].
[7] At 17, 26-27.
[8] GIUSSANI, L. O senso religioso: primeiro volume do PerCurso. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, pp. 186-187.
[9] AQUINO, T. Summa Theologiae, Q. I, Art. 1, 1.
[10] GIUSSANI, L. “La vocazione della vita”, em Tracce – Litterae Communionis, n. 6, julho de 2005, p. 2.
[11] GIUSSANI, L. Intervento alle Vacanze Maturati, Campitello, 28 a 30 de julho de 1964 [Arquivo de CL].
[12] Idem.
[13] Idem.
[14] Idem.
[15] Idem.
[16] GIUSSANI, L. “La vocazione della vita”, em Tracce – Litterae Communionis, n. 6, julho de 2005, p. 4.
[17] Idem, p. 2.
[18] Idem.
[19] Idem.
[20] Idem, pp. 2-3.
[21] Idem, p. 3.
[22] Idem, p. 4.
[23] GIUSSANI, L. O caminho para a verdade é uma experiência. São Paulo: Companhia Ilimitada, 2006, pp. 144-145.
[24] Idem, p. 145.
[25] GIUSSANI, L. “La vocazione della vita”, em Tracce – Litterae Communionis, n. 6, julho de 2005, p. 5.
[26] GIUSSANI, L. O caminho para a verdade é uma experiência. São Paulo: Companhia Ilimitada, 2006, p. 145

* Extraído do Site Internacional de Comunhão e Libertação. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco, sem correção do autor.

Cartas do P.e Aldo 145



Asunción, 31 de maio de 2010.

Caros amigos,
O que significa, para mim, aquele “Tu” que domina, de que fala Carrón no fim da primeira meditação dos Exercícios [refere-se aos Exercícios espirituais anuais da Fraternidade de Comunhão e Libertação que, no Brasil, aconteceram no último fim de semana; ndt], o que significa nesse momento? Tenho o coração lacerado. Tinha acabado de chegar da Itália e, como sempre, o primeiro gesto, depois de ter saudado Jesus Eucarístico e Nossa Senhora, foi encontrar os meus Jesus que sofrem, beijando-os um a um. Apenas uma grande comoção e alegria. Porém, depois de algumas horas, chega, afobada, no meu escritório a garota da recepção da clínica: “Padre, corre! A sua filhinha, Cristinita, de 3 anos, está morrendo”. Achei que eu iria desmaiar. Corri até o seu quarto: estava agonizante. Ela que, desde que nasceu, está conosco; ela que, tão logo nasceu, já foi maltratada pelos “pais” alcoolizados, de onde deriva, inclusive, toda a sua doença que a deixou surda, cega, marcada pela meningite e com hidrocefalia. Três anos no leito... a minha pequena. De vez em quando, agonizando, dava uma aspiradas fortes... Deixam-me a sós com ela, choro como uma criança enquanto a vejo respirar com muita dificuldade. “Senhor, por quê? Por que a tiras de mim?”. Perguntas, perguntas, porém o coração em pedaços diz “Tu, meu Cristo” continuamente. As horas passam, não me interessa o dinheiro, quero que alguém venha de um centro especializado para tirar um chapa. Uma gravíssima pneumonia. É urgente que a internem em outro hospital. Fizemos isso. Terapia intensiva. Não posso vê-la. Avisam-me: “ela também está com uma hemorragia interna”. Não me dão nenhuma esperança. Enquanto que, para mim, se aproximava a hora de pegar o avião para ir ao Brasil, para os Exercícios Espirituais com os amigos Marcos e Cleuza. O que faço? O sentimento é terrível: por que deixá-la e não acompanhar sua morte? É uma briga dentro de mim. É como se uma voz repetisse: “mas, esta filha não é tua, é de Jesus”. Momentos difíceis. “Tu, meu Cristo”, “olhar Cristo no rosto”: são as palavras que enchem o meu eu. Confio-a a Jesus e a Nossa Senhora... pouco depois, disse à responsável do meu hospital: “Se minha filha morrer antes que eu volte, não a enterrem, porque eu quero levá-la ao cemitério onde todos os meus filhos repousam”. Peguei o avião porque o amor da minha Cristinita é Cristo e ninguém, neste momento, me recorda mais aquele “Tu” que fez Cristina e a mim, unindo-nos para sempre, do que Carrón com a sua palavra dita nos Exercícios, do que os meus amigos Marcos, Cleuza e Julián, Bracco etc.
Estou, aqui, em São Paulo... gostaria de ligar o celular para saber... Mas não consigo... o silêncio cheio dEle me garante tudo. A minha natureza de homem gostaria de saber, fazer, exigir... pobre ilusão que pensa poder substituir-se a Ele. Choro no silêncio do meu coração, imerjo nas palavras de Carrón, certo de que aquele “Tu” de que sou feito responde à sede de justiça, de amor, sabe porque a minha Cristinita está morrendo, se não já estiver morta.
Amigos, ser pai, ser pai de um filho dado é dramático... mais dramático do que ser pai de um filho desejado... exatamente porque é dado, não procurado. Mesmo o rasgo, no seu imenso sofrimento, torna maior aquele “Tu que colocou juntos Cristinita e eu. Ela que, com a morte, se torna, de fato, minha... como nunca foi nesta vida.
Estou nos Exercícios da Fraternidade, em São Paulo. Estou preparando, com Marcos, Cleuza, Julián e outros amigos, a assembleia da noite... e me chegou, então a notícia: Cristinita morreu. O coração sofre, mas está feliz. Agora, é, de fato, minha para sempre. Pedi ao Padre Paolino que a velem bem e, quando eu estiver de volta – amanhã –, a levarei aonde repousam os meus outros tantos filhos, pequenos e grandes. Uma vez mais, sinto a beleza de ser pai de um filho dado, agora, finalmente, meu. Porém, a cada dia, é necessário sofrer para que esta verdade não se cristalize em doutrina. “É preciso morder a pedra”, como dizia o abade a Miguel Mañara [refere-se ao texto homônimo de Milosz; ndt].
Padre Aldo.

Comentário ao evangelho do dia


Visitação de Nossa Senhora

Evangelho - Lc 1,39-56
Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judéia. Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu". Maria disse: "A minha alma engrandece o Senhor, e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador, pois, ele viu a pequenez de sua serva, eis que agora as gerações hão de chamar-me de bendita. O Poderoso fez por mim maravilhas e Santo é o seu nome! Seu amor, de geração em geração, chega a todos que o respeitam. Demonstrou o poder de seu braço, dispersou os orgulhosos. Derrubou os poderosos de seus tronos e os humildes exaltou. De bens saciou os famintos despediu, sem nada, os ricos. Acolheu Israel, seu servidor, fiel ao seu amor, como havia prometido aos nossos pais, em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre". Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.

Comentário feito por Bem-aventurada Teresa de Calcutá (1910-1997)
fundadora das Irmãs Missionárias da Caridade

Depois de ter sido visitada pelo anjo, Maria foi ter com a sua prima Isabel, que estava grávida. E a criança que ia nascer, João Batista, saltou de alegria no seio de Isabel. Que maravilha! Deus todo poderoso escolheu uma criança que ia nascer para anunciar a vinda do Seu Filho! Pelo mistério da Anunciação e da Visitação, Maria representa o próprio modelo da vida que devíamos levar. Primeiro, acolheu Jesus na sua existência; depois, partilhou o que recebeu. Cada vez que recebemos a Sagrada Comunhão, Jesus, o Verbo, torna-Se carne na nossa vida - dom de Deus, ao mesmo tempo belo, gracioso, singular. Assim foi a primeira Eucaristia: o oferecimento por Maria do seu Filho, que estava nela, nela em quem Ele tinha estabelecido o primeiro altar. Maria, a única que podia afirmar com absoluta confiança: "Isto é o meu corpo", ofereceu, a partir deste primeiro momento, o seu próprio corpo, a sua força, todo o seu ser, para a formação do Corpo de Cristo. A nossa Mãe, a Igreja, elevou as mulheres a uma grande honra diante de Deus, ao proclamar Maria Mãe da Igreja.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Aos jovens são necessárias medidas altas...

... para indicar o caminho rumo à felicidade.

Por Marina Corradi

Educar, o que é? É suscitar a paixão do eu por aquilo que o cerca: pelo outro, portanto pelo "tu"; pelos homens, por Deus - disse o Papa. Educar é cultivar o desejo que nos impulsina rumo ao real. É, no fundo, se deixar contagiar pela paixão pelo homem. Aquela paixão, disse o Papa, que devemos despertar entre nós. Na Sala do Sínodo, Bento XVI falou aos bispos italianos reunidos em assembleia geral. Dois anos se passaram desde quando denunciou a profundidade da "emergência educativa". Hoje, a CEI (Conferência Episcopal Italiana, ndt) coloca a educação no centro da atividade pastoral da Igreja italiana para os próximos dez anos (como quem, diante de uma casa que parece instável, resolve se ocupar dos fundamentos, daquilo que está por baixo, daquilo que vem antes).
E, ao mesmo tempo, Bento - num discurso que é uma palestra magistral e um augúrio - vai até às raizes daquela dificuldade obscura que, porém, quem tem filhos, conhece muito bem. Aquela estranha resistência a transmitir o que temos de bom, e antes de mais nada o sentido do viver; como se algo confusamente remasse contra nós, como se o vínculo entre as gerações tivesse se rompido. O que aconteceu para que se rompesse uma transmissão, de pai para filho, antiga, de tal forma que os pais de hoje gaguejam, e os filhos parecem frequentemente incapazes de continuar a história que os pais começaram? Para Bento XVI - mas seria preciso dizer mais corretamente para o professor Ratzinger, tal é a lucidez da análise mesmo que em poucas linhas -, as raízes deste mal sombrio são duas. Primeiro, "uma falsa ideia de autonomia do homem", como de um "eu completo em si mesmo"; segundo, "a exclusão das duas fontes que, desde sempre, orientaram o caminho humano": natureza e Revelação. Se a natureza não é mais criação de Deus, e a Revelação é apenas uma imagem de um remoto passado, as bases mesmas do Ocidente vacilam. E não é de se estranhar se, neste humus herdado, os filhos desorientados buscam - sem encontrá-las - uma direção e represas, e ficam como rios que não encontram o caminho para o mar.
Mas, nesse ponto, o professor Ratzinger se remete à figura do pai: e solicita que se reencontre a paixão pelo educar. Para libertar o eu da gaiola da falsa autonomia na qual a modernidade o encerrou, para impulsioná-lo outra vez no rumo do seu destino. Que é diferente de si: é o rosto, antes, da mãe e, depois, os mil rostos dos outros, e aquele Deus que está por trás daqueles rostos, e que pede para ser livremente reconhecido. E não, educar "não é uma didática, ou uma técnica": é habitar famílias, escolas, paróquias onde se encontrem rostos nos quais se possa acreditar, rostos que anunciam que há um destino para cada um, e um destino que é bom.
Na sequência, a palestra de Bento se faz ainda mais audaz. Voltemos - ele disse - "a propor aos filhos a medida alta e transcendente da vida, entendida como vocação". Vocação ao matrimônio e ao sacerdócio; "vocação", seja lá como for, no sentido de que a vida é resposta a um chamado, é adesão a um desígnio que não é nosso. E certamente esta é a antiga visão da Igreja; mas experimentem, hoje, no meio de um grupo de jovens fora da escola, afirmar que a vida não é "auto-realização" mas vocação, adesão ao desígnio de Deus sobre cada um de nós. Tantos olhariam para vocês como se fossem loucos; porque, crescidos na ideia de homem "como um eu completo em si mesmo", os jovens são talvez até generosos, entusiastas, altruístas; porém o são apenas na medida em que, de alguma maneira, expande-se neles a ideia de um eu que se concebe como origem e horizonte de cada gesto. Poucas coisas estão tão distantes de nós, gente do terceiro milênio, como a palavra "vocação"; como a ideia de que a felicidade possa estar na adesão aos planos de um Outro.
E, porém, não seria talvez exatamente este o nó mais profundo da obscura dificuldade de educar? Somos "nossos", ou pertencemos a um Pai? Somos mónadas proprietárias de si, ou filhos, e irmãos, chamados juntos a um destino? O desafio acolhido pela Igreja italiana ao colocar a educação na frente de tudo, por dez anos, é grande. A esta Igreja o Papa indica um horizonte radical. Educar cristãmente é testemunhar aos filhos, na ditadura do eu, no triunfo orgulhoso de uma ciência e de uma potência humanas: "filho, você é de Deus, e aquela felicidade que, desde os primeiros passos, você persegue e busca - como que às apalpadelas, obstinadamente - habita, de fato, somente nEle".

* Extraído do Jornal Avvenire, do dia 28 de maio de 2010 (p. 1). Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mc 11,11-26
Tendo sido aclamado pela multidão, Jesus entrou, no Templo, em Jerusalém, e observou tudo. Mas, como já era tarde, saiu para Betânia com os doze. No dia seguinte, quando saíam de Betânia, Jesus teve fome. De longe, ele viu uma figueira coberta de folhas e foi até lá ver se encontrava algum fruto. Quando chegou perto, encontrou somente folhas, pois não era tempo de figos. Então Jesus disse à figueira: "Que ninguém mais coma de teus frutos." E os discípulos escutaram o que ele disse. Chegaram a Jerusalém. Jesus entrou no Templo e começou a expulsar os que vendiam e os que compravam no Templo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos vendedores de pombas. Ele não deixava ninguém carregar nada através do Templo. E ensinava o povo, dizendo: "Não está escrito: 'Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos'? No entanto, vós fizestes dela uma toca de ladrões." Os sumos sacerdotes e os mestres da Lei ouviram isso e começaram a procurar uma maneira de o matar. Mas tinham medo de Jesus, porque a multidão estava maravilhada com o ensinamento dele. Ao entardecer, Jesus e os discípulos saíram da cidade. Na manhã seguinte, quando passavam, Jesus e os discípulos viram que a figueira tinha secado até a raiz. Pedro lembrou-se e disse a Jesus: "Olha, Mestre: a figueira que amaldiçoaste secou." Jesus lhes disse: 'Tende fé em Deus. Em verdade vos digo, se alguém disser a esta montanha: 'Levanta-te e atira-te no mar', e não duvidar no seu coração, mas acreditar que isso vai acontecer, assim acontecerá. Por isso vos digo, tudo o que pedirdes na oração, acreditai que já o recebestes, e assim será. Quando estiverdes rezando, perdoai tudo o que tiverdes contra alguém, para que vosso Pai que está nos céus também perdoe os vossos pecados."

Comentário feito por Jean Tauler (c. 1300-1361)
dominicano

Nosso Senhor entrou no Templo e expulsou todos os que compravam e vendiam, dizendo: "Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos? No entanto, vós fizestes dela uma toca de ladrões". Que templo é este que se tornou um covil de ladrões? É a alma e o corpo do homem, que são muito mais o verdadeiro templo de Deus que todos os templos alguma vez edificados (1Cor 3, 17; 6, 19). Quando Nosso Senhor quer vir a este templo, encontra-o transformado num covil de ladrões e numa feira de mercadores. Quem é o mercador? São os que dão o que têm – o seu livre árbitro – por aquilo que não têm – as coisas deste mundo. O mundo está cheio desses mercadores! Há entre os padres e os leigos, entre os religiosos, monges e freiras. [...] Tanta gente tão cheia da sua própria vontade [...]; tanta gente que procura em tudo o seu próprio interesse. Pelo contrário, se quisessem fazer negócio com Deus, oferecendo-Lhe a sua vontade, que feliz negócio fariam! O homem deve querer, deve seguir, deve procurar Deus em tudo o que faz; e quando tiver feito tudo – beber, dormir, comer, falar, ouvir –, deixe então completamente as imagens das coisas e esvazie o seu templo. Uma vez o templo esvaziado, uma vez expulso esse bando de vendedores, a imaginação que te estorva, poderás ser uma casa de Deus (Ef 2, 19). Terás então a paz e a alegria do coração, e mais nada te perturbará, nada do que agora te preocupa, te deprime e te faz sofrer.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Aquelas “habilidades desconhecidas” que são uma riqueza para todos

Por Marco Lepore

Pode um projeto, que por sua natureza nasce com finalidades, objetivos, métodos e instrumentos pré-ordenados – e, portanto, pareceria imune a qualquer surpresa –, se tornar a ocasião para descobrir novos e inesperados cenários? E, sobretudo, cenários “intensos” e comoventes?
Evidentemente sim, porque é exatamente o que aconteceu durante o desenvolvimento do projeto financiado pela Região da Lombardia, “Deficiência e sucesso formativo: boas práticas e contribuições para ações formativas de excelência”, realizado em colaboração com a CdO (Companhia das Obras) Obras Educativas e CFP San Giuseppe di Lodi.
A missão era localizar e documentar as experiências de acompanhamento na inserção no mundo do trabalho de pessoas deficientes, na saída do percurso da escola média ou da formação profissional, através de uma pesquisa realizada em todo o território nacional.
E é assim que o projeto começou: contatando e visitando numerosas obras sociais, cooperativas e centros de formação profissional que se ocupam da deficiência; pouco a pouco, porém, assumiu a dimensão de uma descoberta bonita e tocante: o nosso país é, de fato, rico de realidades que levam em consideração os “últimos”, pessoas que, para viver uma vida digna e satisfatória – assim como cada um de nós, legitimamente, deseja –, têm necessidade de serem acudidas, acompanhadas, cuidadas cotidianamente. Às vezes, até mesmo no desenvolvimento de operações tão elementares quanto ineludíveis.
Quantos doentes psíquicos, quantas pessoas com deficiência estão “nas dobras” da nossa sociedade. Quase sempre escondidas ao nosso olhar, porque marginalizadas da sociedade hedonista e produtivista, mas muito presentes aos olhos e ao coração de quem cuida delas com infinita paixão e atenção.
Na Itália, existem cerca de 3 milhões de deficientes; tantos são limitados por dificuldades cognitivas, também graves; tantos outros têm problemas motores congênitos ou, não raro, adquiridos por causa de graves eventos traumáticos. As famílias, em muitos casos, não têm possibilidades, capacidades ou recursos para se ocuparem dessas pessoas em tempo integral, como seria necessário. E eis, então, a importante contribuição destas cooperativas sociais, fundações e associações, que auxiliam as famílias e as socorrem, oferecendo percursos de formação, centros diurnos, laboratórios protegidos, além de verdadeiras empresas que ocupam pessoas com deficiência.
Em todas domina uma grande atenção à dignidade e ao valor da pessoa, que não é, nem pode ser diminuído, seja lá qual for a gravidade ou a natureza da deficiência; como também domina uma grande ternura e compaixão – no sentido próprio de “sofrer junto” – por estes irmãos e irmãs que carregam uma cruz particular. Pessoas que, às vezes, nos vêm ao encontro para uma saudação, para um carinho, para nos estender a mão e nos dizer seu nome, para nos tornar participantes do que estão fazendo; ou mesmo, aparentemente fechadas no seu misterioso mundo e no seu sofrimento, mas igualmente desejosas de serem olhadas e amadas.
Em muitos casos foram colocadas em jogo criatividade e fantasia para consentir a cada um – às vezes adaptando máquinas, utensílios e instrumentos – que se desenvolvesse e exprimisse os próprios talentos (que sempre existem!) e que contribuísse para o bem comum através do trabalho. Trabalho que não é nunca fim em si mesmo, mas é sempre destinado a uma utilidade, mesmo que consista, às vezes, simplesmente no enxugar folhas de papel ou no cortar pedacinhos de pano, ou mesmo no misturar materiais muitos simples para a produção de objetos artesanais. E que resultados! Que intensidade e frescor humanos transparecem destas produções, inesperados e misteriosos florescimentos do desejo de felicidade e de beleza que marca o coração de cada um de nós!
O máximo do fascínio e da comoção, depois, se experimenta no ver suas atividades expressivas: a pintura, o teatro, a música e a dança; o “Festival das habilidades diferentes”, promovido pela Cooperativa o Nazareno di Carpi (que se também se envolveu com o projeto) está acontecendo exatamente nesses dias, é uma documentação extraordinária do que vimos dizendo.
Certo, os problemas – e são tantos – não faltam, e é por isso que começamos a trabalhar, solicitados pela Região Lombardia, para entender como enfrentar, de modo sempre mais adequado, o problema da transição para o trabalho e da qualidade de vida para estes jovens. Descobriu-se, então, que, de fato, é necessário olhar para a pessoa toda e não apenas para a sua deficiência; que é importante que exista uma continuidade nas figuras de referência independentemente do pedaço de caminho que se está realizando; que é fundamental, portanto, raciocinar em termos de “projeto de vida” e não cindir o percurso em tantos pedacinhos independentes uns dos outros... Estas, e tantas outras considerações; mas os resultados completos do projeto serão evidenciados mais à frente, quando terminar.
Enquanto isso, quem quiser saber mais sobre isso poderá participar do Congresso que acontecerá em Milão, no dia 28 de maio, no Instituto Maria Ausiliatrice, na via Bonvesin de la Riva, 12, às 10h. Além dos belos testemunhos de quem está trabalhando “na trincheira”, vai haver também uma interessante mesa redonda moderada pela Professora Lorenza Violini (docente de Direito Constitucional, na Universidade de Milão), da qual participarão alguns especialistas e acadêmicos. A introdução será feita pelo Professor Mario Melazzini, na qualidade de coordenador nos trabalhos técnicos sobre deficiência da Região Lombardia.
O título, “As habilidades desconhecidas”, é um resumo, de fato, da experiência impressionante e do fascínio experimentado por quem se empenhou na realização do projeto; mas é também um convite, dirigido a todos, a partilhar um pedacinho de caminho com estas pessoas “deficientes” que, mais do que outras, nos sacodem do torpor de uma existência “normal” e fazem sacudir o coração diante do insondável Mistério da pessoa humana.

* Extraído de IlSussidiario.net, do dia 27 de maio de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Professores despreparados

O Estado de S.Paulo - 27 de maio de 2010

Por falta de docentes qualificados em disciplinas muito específicas, a rede pública de ensino básico do Estado de São Paulo anunciou que terá de continuar utilizando professores temporários em 2011. A informação revela as dificuldades que as autoridades educacionais paulistas vêm enfrentando para tentar melhorar a qualidade da educação fundamental e média, mediante o aumento do número de professores selecionados em concurso público pelo critério de mérito.
Dos 181 mil docentes temporários que se submeteram a um exame de avaliação preparado pela Unesp e aplicado em dezembro de 2009, cerca de 88 mil não alcançaram a nota mínima para lecionar. Ou seja, quase metade dos candidatos foi reprovada, não tendo acertado metade das 80 questões. Isso deixa claro por que a categoria se recusou a ser avaliada quando a medida foi adotada pelo então governador José Serra, em 2008.
No último concurso de ingresso para o magistério público, os resultados foram tão decepcionantes quanto os da prova de avaliação dos docentes temporários. Dos 261 mil inscritos, apenas 52.839 -22,8% do total - conseguiram obter a nota mínima de aprovação. Na disciplina de artes, 82% dos 13.003 candidatos foram reprovados. E, dos 29.519 docentes que disputaram as vagas de educação física, 78,8% não obtiveram a nota mínima.
Em língua portuguesa, a taxa de aprovação foi 18,1%. Em biologia, ela foi de 20,4%; em história, atingiu 23,4%; em geografia, 32,3%; e em química, 33,2%. São médias muito baixas, que revelam a má qualidade dos cursos de licenciatura. Eles despejam anualmente no mercado milhares de bacharéis sem preparo teórico e sem treinamento pedagógico para lecionar na área em que se especializaram, o que é absurdo. Que tipo de atividade didática esperar de quem não conhece a disciplina que pretende ensinar?
A taxa mais alta de aprovação foi em inglês, onde 43,6% dos candidatos obtiveram a nota mínima de aprovação. As situações consideradas críticas pelas autoridades educacionais ocorreram nas disciplinas de matemática e de física. Em matemática foram reprovados 89,3% dos 27.308 professores que participaram do concurso de ingresso. E, em física, a reprovação foi de mais de 93%, motivo pelo qual só puderam ser preenchidos 304 dos 941 cargos levados a concurso. Por causa disso, a Secretaria da Educação terá de fazer o que não queria: convocar temporários, para evitar falta de professores da disciplina nos colégios estaduais.
Como as autoridades educacionais já estimavam que fosse baixo o nível médio de preparo dos candidatos ao magistério público, os candidatos aprovados passarão por uma Escola de Formação de Professores, entre agosto e novembro. Depois do curso, esses professores terão de se submeter a um novo exame e somente os que forem aprovados lecionarão na rede escolar pública, a partir de 2011.
Dependendo dos resultados dessa prova, a Secretaria da Educação poderá ter de chamar um número ainda maior de docentes temporários, em 2011. Isso seria um retrocesso na política de melhoria da qualidade do ensino público no Estado.
Para sair desse círculo vicioso há duas estratégias complementares. A primeira é de alçada do governo estadual e consiste em investir na formação continuada do professorado, como prevê a lei que obriga os docentes da rede escolar estadual a cursar uma Escola de Formação, antes de assumir uma sala de aula, e que autoriza o governo a conceder bolsas de estímulo para o professor que fizer cursos de especialização e atingir metas prefixadas.
A segunda estratégia é de alçada da União e consiste em cobrar mais rigor dos cursos de licenciatura e criar um padrão mínimo de qualidade para que possam continuar funcionando. Como estes são baratos, uma vez que os gastos são apenas com giz e biblioteca, foi por meio deles que a iniciativa privada se expandiu no âmbito do ensino superior, a partir da década de 1990. Eles cobram mensalidades baixas, mas são muito fracos, o que sobrecarrega as Secretarias da Educação com atividades de formação e treinamento.

* Extraído d'O Estado de São Paulo, do dia 27 de maio de 2010 (versão online).

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mc 10,46-52
Naquele tempo: Jesus saiu de Jericó, junto com seus discípulos e uma grande multidão. O filho de Timeu, Bartimeu, cego e mendigo, estava sentado à beira do caminho. Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: "Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!" Muitos o repreendiam para que se calasse. Mas ele gritava mais ainda: "Filho de Davi, tem piedade de mim!" Então Jesus parou e disse: "Chamai-o". Eles o chamaram e disseram: "Coragem, levanta-te, Jesus te chama!" O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus. Então Jesus lhe perguntou: "O que queres que eu te faça?" O cego respondeu: "Mestre, que eu veja!" Jesus disse: "Vai, a tua fé te curou". No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho.

Comentário feito por São Gregório Magno (c. 540-604)
Papa e Doutor da Igreja

Com razão a Escritura nos apresenta este cego sentado à beira do caminho e pedindo esmola, porque a Verdade diz acerca de Si mesma: "Eu sou o caminho" (Jo 14, 6). Assim, todo aquele que ignora a claridade da luz eterna é cego. Se já cremos no Redentor, estamos sentados à beira do caminho. Se já cremos, mas descuramos pedir que nos seja dada a luz eterna e descuramos a oração, podemos estar sentados à beira do caminho, mas não pedimos esmola. Mas se cremos, se conhecemos a cegueira do nosso coração e oramos a fim de recebermos a luz da verdade, então somos efetivamente este cego sentado à beira do caminho e que pede esmola. Assim, aquele que reconhece as trevas da sua cegueira e sente a privação da luz eterna, grite do fundo do seu coração, grite com toda a sua alma: "Jesus, Filho de David, tem piedade de mim!".

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Por que o ser ao invés do nada?


Por Lorenzo Albacete

Em qual jornal do establishment americano se esperaria encontrar um editorial oficial (portanto, não assinado) intitulado “O Ser de Ser”? Francamente, não me vem em mente nenhum nome. Não é à toa que eu tenha ficado tão surpreso quando encontrei um editorial deste gênero no The New York Times de alguns dias atrás (no dia 21 de maio).
Era realmente surpreendente que o Times estivesse pronto a revelar os pressupostos filosóficos que sustentam a escolha das notícias que os seus redatores consideram “adaptadas ao jornal” (como declara o mote do Times) e o modo com o qual devem ser tratadas.
O editorial começa com esta pergunta: “Por que o ser ao invés do nada?”. Obviamente, esta é a famosa pergunta de Martin Heidegger, tomada de empréstimo de Leibniz, e discutida por ele na famosa conferência sobre “O que é a Metafísica?”. Filósofos de todas as escolas de pensamento trataram da mesma questão, antes e depois de Heidegger. A resposta dada por Heidegger foi criticada, apreciada, rejeitada ou ampliada; a sua formulação foi modificada, porém a maior parte dos filósofos reconheceu que esta é a questão fundamental da filosofia ocidental.
Porém, segundo os redatores do Times, a discussão filosófica sobre a questão foi um perda de tempo, porque são os físicos e os matemáticos que a podem tratar melhor. Isto é o que eles sabem: “A matéria e a antimatéria criadas no Big Bang poderiam ter se cancelado, deixando lugar ao nada, ao invés de algo a que damos o nome de universo. Por que isso não aconteceu pode ser, em parte, explicado pelo que emergiu de um recente experimento realizado com o Tevatron, um acelerador de partículas, no Fermilab de Batávia, Illinois”.
Aparentemente, tudo se fundamenta em um “desvio muito pequeno”, “uma assimetria no comportamento de uma partícula subatômica neutra, o B-meson. Na oscilação entre os seus estados de matéria e antimatéria, ela mostra uma diminuta predileção pelo estado de matéria, um resultado previsto por Andrei Sakharov”.
Bem, fiquei muito contente por esta predileção do B-meson, da qual também compartilho. A única diferença é que a preferência do B-meson pela sobrevivência como matéria parece muito pequena, cerca de 1,1%, enquanto que a minha é de 100%! Os cientistas, todavia, creem que esta predileção de 1,1%, quase um curioso capricho, possa ser suficiente para explicar a preponderância da matéria. Os pesquisadores esperam descobrir mais sobre a questão a partir do Tevatron e do seu parente europeu, o Large Hadron Collider.
Quais são, então, as consequências antropológicas da pequena preferência do B-meson pela existência material? O que é o homem, segundo a interpretação que o The New York Times dá do significado destes experimentos?
Simplesmente isso: “Somos, como sabemos, feitos de poeira estelar e de outros elementos que se formaram a partir do Big Bang e das sucessivas criações e destruições de estrelas. A existência mesma do que, no universo, chamamos matéria pode depender de um pequeno desvio na variação frenética de uma partícula, que só se revela em um instante, em meio a um calor nunca criado pelo homem”.
Este juízo não é, seguramente, surpreendente, visto ser o resultado da perigosa redução da humanidade apenas àquilo que pode ser observado, descrito e reproduzido de modo empírico. Os físicos estão preocupados com as implicações desta redução há muito tempo. Lembro da conversa entre Werner Heisenberg e outros físicos importantes, “pais” da mecânica quântica.
A conclusão de Heisenberg é que, quando se apaga totalmente a “bússola magnética” que devemos seguir na busca do nosso caminho através da vida (na fidelidade àquela “ordem central” que define a racionalidade do universo), “coisas terríveis podem acontecer, que superam de longe os campos de concentração e a bomba atômica”. O editorial do Times reduz esta “ordem central” ao comportamento irracional, observável experimentalmente, de uma partícula elementar.
Segundo a perspectiva da fé católica, há nesse editorial uma observação que sugere o caminho a seguir, ainda que o redator não se tenha dado conta. É o comentário de que a pergunta de Heidegger é a pergunta de uma criança. De fato, é apenas através da simplicidade e da admiração de uma criança que podemos experimentar aquela ordem central chamada pelo Evangelista João de o “Logos”, que, depois, se tornou uma criança humana.

* Extraído de IlSussidiario.net, do dia 26 de maio de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mc 10,32-45
Naquele tempo: Os discípulos estavam a caminho subindo para Jerusalém. Jesus ia na frente. Os discípulos estavam espantados, e aqueles que iam atrás estavam com medo. Jesus chamou de novo os Doze à parte e começou a dizer-lhes o que estava para acontecer com ele: "Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos. Vão zombar dele, cuspir nele, vão torturá-lo e matá-lo. E depois de três dias ele ressuscitará." Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e lhe disseram: "Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir." Ele perguntou: "O que quereis que eu vos faça?" Eles responderam: "Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória!" Jesus então lhes disse: "Vós não sabeis o que pedis. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?" Eles responderam: "Podemos." E ele lhes disse: "Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado. Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado". Quando os outros dez discípulos ouviram isso, indignaram-se com Tiago e João. Jesus os chamou e disse: "Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos."

Comentário feito por Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787)
bispo e Doutor da Igreja

Um Deus que serve, que varre a casa, que se entrega a trabalhos penosos – deveria bastar um destes pensamentos para nos encher de amor! Quando o Salvador começou a pregar o Seu Evangelho tornou-Se "o servo de todos", afirmando de Si mesmo que "não veio para ser servido, mas para servir". Foi como se tivesse dito que queria ser servo de todos os homens. E, no final da Sua vida, conforme dizia São Bernardo, "não contente com o fato de ter tomado a condição de servo para Se colocar ao serviço dos homens, quis ainda tomar a aparência de servo indigno para ser maltratado e suportar o castigo que devia cair sobre nós, em consequência dos nossos pecados". Eis que o Senhor, servo obediente de todos, Se submete à sentença de Pilatos, injusta como é, e Se entrega aos Seus algozes. [...] Assim, tanto nos amou Deus que, por amor de nós, quis obedecer como escravo até morrer e morrer de uma morte dolorosa e infame, o suplício da cruz (Fl 2, 8). Ora, em tudo isso Ele obedecia, não como Deus, mas como homem, como escravo de que assumira a condição. Tal santo entregou-se como escravo para resgatar um pobre e atraiu a admiração do mundo devido a esse ato heróico de caridade. Mas que caridade é essa, comparada com a do Redentor? Sendo Deus e querendo resgatar-nos da escravidão do Diabo e da morte que nos era devida, tornou-Se Ele mesmo escravo e deixou-Se amarrar e pregar na cruz. "Para que o servo se torne senhor, dizia Santo Agostinho, Deus quis fazer-Se servo".

terça-feira, 25 de maio de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mc 10,28-31
Naquele tempo: Começou Pedro a dizer a Jesus: "Eis que nós deixamos tudo e te seguimos." Respondeu Jesus: "Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida - casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições - e, no mundo futuro, a vida eterna. Muitos que agora são os primeiros serão os últimos. E muitos que agora são os últimos serão os primeiros."

Comentário feito por
Cardeal John Henry Newman (1801-1890)
presbítero, fundador de comunidade religiosa, teólogo

Não somos chamados somente uma vez, mas muitas vezes; ao longo de toda a nossa vida Cristo chama-nos. Chamou-nos em primeiro lugar pelo batismo, mas também mais tarde; quer obedeçamos ou não à Sua voz, Ela continua a chamar-nos na Sua misericórdia. Se faltamos às nossas promessas do batismo, Ele nos chama para nos arrependermos. Se nos esforçamos por responder à nossa vocação, Ele continua a chamar-nos, de graça em graça, de santidade em santidade, tanto tempo quanto durar a nossa vida. Abraão foi chamado a deixar a sua casa e a sua terra (Gn 12, 1), Pedro as suas redes (Mt 4, 18), Mateus o seu emprego (Mt 9, 9), Eliseu a sua quinta (1Rs 19, 19), Natanael o seu repouso (Jo 1, 47). Todos nós somos incessantemente chamados, de uma coisa para outra, a ir cada vez mais longe, não tendo local de repouso, mas subindo em direção ao nosso repouso eterno, e não obedecendo a um chamamento interior senão para estarmos prontos para ouvir outro. Cristo chama-nos incessantemente para nos justificar sem cessar; sem cessar, cada vez mais, Ele quer santificar-nos e glorificar-nos. Devemos compreendê-Lo mas demoramos a dar-nos conta desta grande verdade, a de que de algum modo Cristo caminha entre nós e com a Sua mão, o Seu olhar, a Sua voz, nos faz sinal para O seguirmos. Não apreendemos que o Seu chamamento é uma coisa que tem lugar neste preciso momento. Pensamos que ocorreu no tempo dos apóstolos; mas não cremos nisso, não O esperamos verdadeiramente para nós próprios.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Um autor russo do século XX dizia...


do Testamento de Pável Aleksándrovich Florenski (1882-1937)

"Meus caríssimos filhinhos... acostumem-se, aprendam a fazer tudo o que vocês fazem com paixão, a ter gosto pela beleza, pela ordem; não se dispersem, não façam nada sem gosto, de qualquer maneira. Lembrem-se, no 'mais ou menos' é possível perder a vida toda e, pelo contrário, cumprindo de modo ordenado, harmonioso, até as coisas de importância secundária, é possível fazer muitas descobertas, que depois vão servir a vocês como fonte muito profunda de criatividade nova... E não apenas. Quem faz 'de qualquer jeito', aprende a falar do mesmo modo, e a palavra descuidada implica, depois, como consequência, num pensamento confuso. Meus queridos filhinhos, não permitam a vocês mesmos pensarem de modo descuidado. O pensamento é um dom de Deus, requer que cuidemos dele. Ser claros e responsáveis no próprio pensamento é o penhor da liberdade espiritual e da alegria do pensamento. Já faz muito tempo que eu queria lhes escrever isso: Observem as estrelas com mais frequência. Quando tiverem um peso na alma, olhem as estrelas ou o azul do céu. Quando se sentirem tristes, quando lhes ofenderem, quando alguma coisa não der certo ou se abater a tempestade interior, venham para fora e fiquem frente a frente com o céu. Então, a vossa alma encontrará sossego. Não fiquem tristes nem sofram por mim. Se vocês forem alegres e corajosos, eu também ficarei confortado. Sempre estarei com vocês na alma e, se o Senhor assim permitir, virei até vocês com frequência para velar por vocês. A coisa mais importante que lhes peço é que façam sempre memória do Senhor e caminhem na Sua presença. Com isso, lhes disse tudo o que eu era capaz de lhes dizer. O resto, nada mais é que particulares secundários. Mas, disso, nunca se esqueçam".

* Extraído do site da Revista Passos - Litterae Communionis.

Educação superior: imperativo?

Recentemente, a revista Dicta & Contradicta, em seu blog, publicou um texto de Joel Pinheiro intitulado "Universidade para todos?". Na ocasião, escrevi um longo comentário ao texto, descrevendo uma experiência pela qual acabara de passar. Relendo o comentário, lendo algumas coisas nos últimos dias, conversando com algumas pessoas, e repensando o episódio que me levara a escrever o que escrevi, achei por bem publicá-lo aqui, com algumas ligeiras modificações/atualizações e alguns acréscimos.

Veio bem a calhar a reflexão proposta por Joel Pinheiro, especialmente levando-se em conta os espaços de trabalho com os quais estou envolvido atualmente. Valho-me não apenas de minha experiência docente em uma instituição privada de ensino superior da cidade de São Paulo, como também da minha experiência como psicólogo dentro desta mesma instituição (lidando diretamente com os problemas de ensino-aprendizagem, as relações professor-aluno, as relações instituição-clientes, e as questões vocacionais que emergem tanto antes da entrada na universidade, como depois da entrada), mas também de minha atuação junto à Associação Educar para Vida, como professor de língua portuguesa, lógica, gramática e retórica para alunos pré-universitários associados.
Em minha curta carreira como professor universitário, já passei por universidades públicas (federais e estaduais) e privadas confessionais. Há uma semana, porém, aconteceu, numa sala de aula de sétimo semestre de Pedagogia da instituição na qual trabalho atualmente, o que considero a "gota d’água" de um processo de reflexão pelo qual vinha passando há alguns meses… Há muito, vinha me perguntando e discutindo com colegas e amigos, se a universidade é mesmo para todos. Se não haveria um abismo entre o pretenso direito à educação e essa quase obrigatoriedade a uma educação de nível superior. Se a queda na qualidade em todos os níveis do que se oferece nessas instituições medíocres não seria um preço alto demais a se pagar por essa suposta democratização (que me cheira mais a uma ditadura imbecil do consenso mancomunada com uma lógica financeira perversa que prescinde de qualquer Valor em nome de dígitos depois da vírgula).
Vejamos alguns fatos: as alunas que cursam Pedagogia nesta instituição têm idades que variam entre 20 e 60 anos. A escolha pelo curso foi motivada, em sua grande maioria, pelas justificativas – bastante conhecidas de muitos – da "facilidade para encontrar um emprego público em escolas municipais e estaduais", além da de "ser um curso mais fácil". A história educativa dessas alunas – pode-se dizer sem muita chance de erro – é a história do estudante típico da maioria das universidades privadas que por aí estão: sem um emprego adequado; há anos distante dos bancos escolares; muitas vezes com apenas o ensino fundamental concluído regularmente (quando muito!); com um ensino médio feito em esquema de supletivo; passa, um belo dia, na frente de uma das tantas instituições de ensino superior que – como botecos – se espalham pela cidade, e resolve, confiado na promessa de uma melhora no nível salarial, se inscrever para um vestibular que não separa mais do que o apto do não apto a marcar com um "X" uma entre várias alternativas em uma prova absolutamente medíocre (já viram a qualidade dessas provas? não consegue vencer sequer o nível baixíssimo da qualidade das provas do ENEM), além de pretender verificar, em 10 (ou no máximo 20) linhas, a capacidade lógica argumentativa (?) do pretenso aluno, em uma redação cujo tema é incapaz sequer de verificar o nível de conhecimentos gerais do candidato... A descrição poderia ir mais longe, mas, já com esse pequeno quadro, tem-se o pano de fundo do episódio que tive que encarar na semana passada: deparei-me com uma aluna que se queixava de não ter sido aprovada num processo seletivo para estagiar – vejam bem, "estagiar"! – em uma escola privada de São Paulo; investigando o motivo da não aprovação, descobri que a aluna, na carta de apresentação (de oito linhas, manuscritas) que escreveu para a escola, conseguiu a proeza de grafar a palavra "encino" três vezes e a palavra "serviso" duas vezes, sem falar nos erros de pontuação etc. Já escutei discursos suficientes sobre a "opressão da gramática" ou sobre as relações de poder que se escondem por trás da norma culta etc. Mas, uma aluna de sétimo semestre de Pedagogia, certamente, em três anos e meio de curso, deveria ter lido uma boa centena de vezes a palavra "ensino"... não se trata pois de uma crítica que vem a corroborar o argumento da "opressão da gramática" contra o valor do desejo de se expressar, mas de se perguntar se essa aluna, alguma vez, leu a palavra que está ou estará em sua boca cotidianamente, se trata de se perguntar se podemos nos valer apenas do argumento da experiência (tão comum entre as alunas da Pedagogia: "eu tenho 30 anos de Estado"...) quando o que está em jogo é a formação (e não uso essa palavra banalmente...) das gerações que vêm por aí. Sou até mesmo capaz de dizer que escrever "encino" é, dos males, o menor… Porque a gota d’água mesmo não foi o "encino"… foi bem outra.
Depois desse aperitivo, entrei em sala e me deparei com uma algazarra digna de uma feira livre (não fosse a algazarra, a cena por si mesma descreveria o mesmo ambiente: soutiens e calcinhas espalhados nas mesas, revistas da Natura e da Avon circulando entre as mãos, maquilagens sendo exibidas aqui e ali, um grupo de "meninas" penteando outra...). Pedi licença para entrar, disse bom-dia, ajeitei-me para dar uma aula (nessa instituição, eu era - porque não sou mais - o que o professor eventual é nas escolas públicas: substituía professores que, por algum motivo, se ausentavam ou se atrasavam. Com um agravante, porém: eu era pago para enganar os alunos... segundo me informaram, a "filosofia da proposta" justificava o erro moral que a sustentava), tentei um novo bom-dia e, finalmente, notei alguns movimentos que se pareciam com movimentos de interesse por parte das alunas... até descobrir que não: não eram de interesse, mas de indiferença manifesta claramente nas caras e bocas que me foram dirigidas. Tentei, então, uma medida um pouco mais contundente: "não querem assistir à aula, mas querem ficar aqui para garantir a presença... peço, em nome ao menos da boa condução, que se assentem viradas para cá… em sinal de um mínimo de respeito... visto que, em nome dele, não me parece possível pedir muita coisa". Resultado? Mais caras feias, comentários ofendidos, zombarias e… uma gritaria que eu nunca havia visto, em toda a minha vida, dentro de uma universidade. Fui caluniado, fui agredido, fui impedido de falar... E a cena toda tomou formas inesperadas. Vou resumir toda a ópera apresentando apenas os últimos movimentos, do último ato, a partir das falas de algumas personagens: "professor, se o senhor quer a nossa atenção, não devia estar dando aula" (Ah, não! O que eu deveria estar fazendo, então?... Não souberam responder), "professor, eu tenho uma vida muito cheia – tenho família para cuidar, tenho meu trabalho, saio cedo de casa todos os dias e volto tarde… aqui é o único lugar que eu tenho para bater papo" (Ah! então você paga universidade para bater papo, assinar a lista de presença cotidianamente e pegar seu diploma no final de 4 anos? Novo silêncio), "professor, a gente está quase se formando, não dá para ficar perdendo tempo com aulas, né?" ("Perdendo tempo com aula"? O que vocês esperam desse lugar – além de ser um espaço para bater papo, assinar listas de presença e receber um papel mágico que pretensamente lhes abrirá portas? Novo silêncio), "professor, o dinheiro que eu gasto com a universidade é meu… se eu não estou interessada, é problema meu"… Uma depois da outra, frases grotescas como essas foram sendo regurgitadas daquelas gargantas. O pior de tudo isso foi ver que eu estava vislumbrando, ali, numa sala de aula de ensino superior, um retrato das salas de aula dos ensinos fundamental e médio… sem nenhuma reflexão, sem nenhum espaço para reflexão, sem nenhuma intenção de reflexão, sem nenhum respeito, sem nenhuma crítica ou autocrítica… pura reação, caótica, mecânica ("pago-e-recebo-pelo-que-pago"), histérica, digna de uma descrição dantesca dos círculos infernais. Tentar propor um olhar reflexivo sobre o que me diziam, como metralhadoras ensandecidas, parecia – olhando-me de fora e de longe – com jogar pérolas a porcos. Enojado, peguei minhas coisas, dirigi-me à porta e, num ímpeto de esperança, voltei o olhar a espera de, pelo menos, um rosto envergonhado. Não havia vergonha em nenhum rosto. Finda a vergonha, findos os valores. Findos os valores, o que resta?
Essas mulheres, daqui a seis meses, estarão dando aulas para os "nossos" filhos, com um diploma assinado pela coordenação do curso de Pedagogia dessa instituição, pelo "reitor", e com um carimbo do MEC. É a mediocridade fazendo escola!
Não, a universidade não pode ser para todos! Definitivamente… sobretudo se esse "para todos" for um imperativo!

Testemunhas lá onde o silêncio da fé é mais profundo...

Na verdade, os tempos que vivemos exigem um novo vigor missionário dos cristãos chamados a formar um laicado maduro, identificado com a Igreja, solidário com a complexa transformação do mundo. Há necessidade de verdadeiras testemunhas de Jesus Cristo, sobretudo nos meios humanos onde o silêncio da fé é mais amplo e profundo: políticos, intelectuais, profissionais da comunicação que professam e promovem uma proposta mono-cultural com menosprezo pela dimensão religiosa e contemplativa da vida. Em tais âmbitos, não faltam crentes envergonhados que dão as mãos ao secularismo, construtor de barreiras à inspiração cristã. Entretanto, amados Irmãos, aqueles que lá defendem com coragem um pensamento católico vigoroso e fiel ao Magistério continuem a receber o vosso estímulo e palavra esclarecedora para, como leigos, viverem a liberdade cristã.
(Bento XVI, no Encontro com os bispos de Portugal, no dia 13/05/2010).

Comentário ao evangelho do dia


Nossa Senhora da Estrada

Evangelho - Mc 10,17-27
Naquele tempo: Quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele, e perguntou: "Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?" Jesus disse: "Por que me chamas de bom? Só Deus é bom, e mais ninguém. Tu conheces os mandamentos: não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás ninguém; honra teu pai e tua mãe!" Ele respondeu: "Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude." Jesus olhou para ele com amor, e disse: "Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!" Mas quando ele ouviu isso, ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico. Jesus então olhou ao redor e disse aos discípulos: "Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!" Os discípulos se admiravam com estas palavras, mas ele disse de novo: "Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!" Eles ficaram muito espantados ao ouvirem isso, e perguntavam uns aos outros: "Então, quem pode ser salvo?" Jesus olhou para eles e disse: "Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível."

Comentário extraído do
Relato de três companheiros de São Francisco de Assis (c. 1244)

Certa noite, depois do seu regresso a Assis, os companheiros do jovem Francisco elegeram-no como chefe do grupo. Com tantas vezes tinha feito, mandou então preparar um suntuoso banquete. Depois de saciados, saíram todos e percorreram a cidade, a cantar. Os companheiros, em grupo, iam à frente de Francisco; este, empunhando o bastão de chefe, fechava o cortejo, um pouco mais atrás, sem cantar, mergulhado nos seus pensamentos. E eis que, de súbito, o Senhor lhe aparece, enchendo-lhe o coração de uma doçura tal, que ele ficou sem conseguir falar, sem se mexer [...]. Quando os companheiros se voltaram para trás e o viram assim tão longe deles, voltaram atrás e aproximaram-se, receosos; encontraram-no mudado, como se fosse outro homem. Perguntaram-lhe: "Em que é que pensavas para te esqueceres assim de nos seguir? Estarias a pensar em arranjar mulher?" "Têm toda a razão! Decidi ter esposa, uma esposa mais nobre, mais rica e mais bela do que todas as que vocês já viram". Os companheiros puseram-se a troçar dele [...]. A partir daquele momento, ele fazia os possíveis para que Jesus Cristo lhe ocupasse a alma, e bem assim aquela pérola que tanto desejava comprar depois de tudo ter vendido (Mt 13, 46). Furtando-se frequentemente aos olhos dos que dele troçavam, ia muitas vezes – quase diariamente – rezar em segredo. De alguma maneira a isso era impelido pelo gozo antecipado daquela doçura extrema que tantas vezes o visitava e que com tanta força o atraía, estando ele na praça ou em outros locais públicos, para a oração.

domingo, 23 de maio de 2010

De Arte Voluntatis


Estou, há alguns meses, traduzindo e publicando num blog especialmente dedicado a isso, a obra de Juan Eusebio Nieremberg, chamada De Arte Voluntatis. Trata-se, na verdade, de uma parte de meu projeto de pós-doutorado... e gostaria de compartilhar com todos. Além do mais, gostaria de pedir que, na medida em que forem lendo e identificando problemas com a tradução (ou problemas de compreensão - certamente devidos à tradução), que me informem. Todos os comentários serão bem-vindos.
Para acessar o blog, clique aqui.

House no raio-x


Peço licença ao pessoal da Dicta & Contradicta, especialmente ao Joel Pinheiro, para publicar este texto de 18 de março de 2010... a fineza da análise me obriga a partilhar com os amigos... e me obriga, outrossim, a indicar a todos os que por aqui passam a darem sempre uma olhada no que por lá se publica.

Por Joel Pinheiro

Não há atualmente melhor série televisiva do que House (salvo um possível concorrente: The Good Wife). Personagens marcantes e um mistério envolvente a cada episódio levam-me à tela toda quinta à noite. E me entretém ainda mais a profundidade filosófica da série ao expor com honestidade sua concepção do ser humano e da relação entre razão e sentimentos, concepção aliás muito comum, cujos atrativos e fraquezas ficam explícitos, pois não se foge das possíveis contradições e dos becos sem-saída existenciais aos quais suas premissas básicas naturalmente levam.
Como é comum em tantas séries, House entrelaça duas narrativas: uma de curto e outra de longo prazo. A de curto prazo consiste em House e sua equipe desvendarem e curarem uma doença misteriosa a cada episódio, numa fórmula que pouco varia a cada semana. Isso permite ao espectador não-assíduo acompanhar qualquer episódio, tendo, ao fim dele, uma boa idéia do que é a série. Já a narrativa de longo prazo desenrola-se ao longo de vários episódios e até de temporadas. Nela, acompanhamos as mudanças na equipe do hospital e no relacionamento de seus membros, com o foco nos altos e baixos pessoais de House, que ora parece se afundar ainda mais em seus vícios, ora parece tornar-se, passo a passo, uma pessoa melhor. O que faz dessa série algo muito superior à média é que a narrativa de longo prazo mina e questiona as verdades tidas como evidentes na narrativa de curto prazo.

O curto prazo
O gancho que prende o espectador não é o enredo, mas os personagens, principalmente o protagonista, o médico Gregory House, que encarna à perfeição a idéia contemporânea de racionalidade: no âmbito do pensamento, a busca da verdade pelo método científico e, no da ação, a adequação de meios a fins. Nada que fuja disso é racional. A razão é entendida como oposta a sentimentos, a qualquer fé ou crença não-científica, e à moralidade (todos os três províncias das paixões). Sendo assim, a motivação de House enquanto médico não é salvar vidas (o que seria uma intromissão dos sentimentos, da empatia) mas pura e simplesmente descobrir a verdade, desvendar os enigmas apresentados pelos pacientes que lhe são encaminhados. Sua inteligência lhe permite, além disso, ser igualmente brilhante no diagnóstico das motivações humanas e dos relacionamentos alheios, que também o interessam sobretudo enquanto enigmas e objetos de manipulação. Como não poderia deixar de ser, racionalidade significa ateísmo convicto e uma visão cínica da humanidade (todo indivíduo é egoísta). O que o salva de ser insuportável é o senso de humor, que não se priva de nenhuma tirada espirituosa. Nem a paz de espírito e nem a ilusão de bondade devem vir antes da busca pela verdade que, por mais dura que seja, não nos impede de rir dela.
É até eufemismo chamar House de brilhante, pois o mesmo adjetivo se aplicaria a todos os médicos da série, verdadeiros manuais de medicina ambulantes, com casos excepcionais e notas de rodapé na ponta da língua. A racionalidade superdesenvolvida de House faz com que ele ascenda ao patamar da genialidade. Frequentemente, após tentar, sem sucesso, descobrir de todas as maneiras a doença que aflige um paciente, ele encontra a resposta numa situação não-relacionada ao caso. Uma conversa com seu colega Wilson, ou com a coordenadora do hospital, Cuddy, um comentário espirituoso ou um fato aleatório lhe leva ao insight inesperado que soluciona o caso. O trabalho de processamento e interpretação dos dados é automático e constante, de forma que a resposta apareça quando menos se espera. É essa genialidade do intelecto, essa faísca criativa e penetrante, que faz de House um médico superior aos demais; e é ela também que o torna mestre em decifrar pessoas.
Sua segunda característica distintiva é consequência da aplicação consistente da racionalidade às ações: a total ausência de escrúpulos na adequação de meios a fins. Quebras de protocolo; transgressões da lei, de mandamentos religiosos e de absolutos morais; métodos heterodoxos; procedimentos arriscadíssimos (ex: matar temporariamente um paciente para logo depois trazê-lo de volta à vida); nada o detém. Sua genialidade justifica ações que, num médico inferior, seriam condenáveis. Nos casos mais extremos, está disposto a praticar o aborto e a eutanásia sem titubeios (felizmente, na imensa maioria dos episódios ele salva vidas). Apesar do grave problema moral envolvido aí, é impossível negar que, aceitas as premissas por trás da narrativa mestra, seria arbitrário impor limites éticos (ou seja, sentimentais) à conduta do gênio, o único capaz de chegar ao fim almejado.
O médico gênio é, no entanto, um fracasso pessoal. Divorciado, solitário, recluso, ressentido. A personalidade anti-social, a língua afiada, a ironia implacável e a facilidade psicológica com que engana e manipula aqueles à sua volta fazem com que seja quase impossível aguenta-lo por muito tempo.
O único amigo de House é Wilson, seu oposto humano (embora também ótimo médico). Wilson vive em contato com seus sentimentos e – mais importante – com os sentimentos dos outros; não para desmascará-los e desmistificar a bondade alheia, como faz House, mas para oferecer consolo a quem precise. Dar conforto emocional é sua razão de existir, e por isso ele não vê grandes problemas em deixar cada um com suas crenças (ao contrário da intransigência cientificista do amigo); a paz interior pode ter prioridade sobre a verdade – mesmo porque muitos dos seus pacientes (ele é oncologista) têm apenas a morte pela frente, enquanto os de House costumam padecer de doenças curáveis.

O longo prazo
O melhor da série é que ela não simplifica e não estereotipa as coisas; há uma honestidade e um realismo maior do que estamos acostumados na TV. A narrativa de curto prazo pinta o quadro do racionalista bem-resolvido que enxerga a realidade como ela é, embora pague um preço alto por isso. A narrativa de longo prazo indica que há mais coisas entre o céu e a terra do que ele sonha. House renega suas emoções e sua consciência, mas nem por isso elas deixam de existir. Diz que sua motivação é puramente intelectual, mas diversos episódios revelam que a empatia e o desejo de curar os pacientes também o movem.
A frieza irônica, por sua vez, é um mecanismo de defesa, fruto de uma personalidade profundamente ferida. Sua vida é marcada pelo arrependimento e pela falta de coragem de ir atrás do que realmente quer (por exemplo, o amor de sua vida). Além disso, uma dor crônica na perna (não se sabe até que ponto física ou psicológica) o deixa permanentemente manco e mal-humorado, e o humor cruel é uma forma de partilhar a frustração que sente. Fica confortável apenas naquela atividade em que exerce total controle e superioridade. O vício em analgésicos é um símbolo dos vícios de comportamento. Longe de transformar House num ser desprezível, contudo, esse lado mais humano torna-o digno da simpatia do espectador. Não se trata, afinal de um psicopata, desprovido de uma consciência que o guie. Por mais que, teoricamente, encare seu senso moral como um entrave emotivo a uma vida puramente racional, também não quer se livrar dele.
Já Wilson, muito mais confortável com seus sentimentos e relacionamentos, também tem uma vida pessoal em frangalhos. Três divórcios (e muitos casos que não levam a nada) e incontáveis arrependimentos. Embora seja uma boa pessoa sempre disposta a ajudar, seu caráter é ambíguo. Ser amigo de Wilson é enredar-se numa malha de culpas, sensibilidades e auto-piedade; é cair numa teia de tentáculos emocionais que constituem uma prisão da alma. Usando a expressão perspicaz de Nietzsche, o oncologista parece ser daqueles sempre a procura de vítimas para suas boas ações, e que termina por sufocar quem dele depende. Assim, se Wilson é o único com a paciência e a disposição para ser amigo de House, House é o único com o devido distanciamento, frieza e ironia para aguentar a amizade de Wilson. Tudo considerado, Wilson é um ser humano mais completo e maduro do que House, e na maior parte das vezes tem bons conselhos a oferecer; mesmo assim, fica claro que a vida dos sentimentos e relacionamentos não oferece uma saída e, assim como a suposta razão pura, ela também pode esconder fraquezas de caráter e desejos mais baixos.
Há um certo pessimismo acerca do lado “humano” da vida. Se na ciência chegamos a verdades e certezas, na vida pessoal não há solução. Todos os casamentos e relacionamentos amorosos terminam em separação ou são vítimas da infidelidade, e todas as amizades e lealdades, quando não baseadas desde o início em alguma ilusão, estão sujeitas ao desapontamento e ao rompimento.

Um diagnóstico?
No final das contas, a série não se decide. É possível um ato não-egoísta? Qual é a postura mais de acordo com a realidade: a racionalista ou a sentimental? Oscila-se entre duas possíveis concepções de moral: uma positiva, segundo a qual a ética consiste em sentimentos que nos levam a ajudar os outros e nos sentir bem – paixões irracionais, é verdade, mas a constituição humana demanda uma certa irracionalidade e o resultado final é bom; e outra negativa, segundo a qual a ética é um resíduo de instintos e pressões sociais acumulados que nos torna infelizes e, pior ainda, serve de máscara para o egoísmo.
Felizmente, é a primeira visão que costuma prevalecer nos momentos mais importantes. É uma visão pobre, admito, mas é tão longe quanto a série pode ir sem abandonar sua concepção de mundo inicial: a idéia de que razão e sentimentos, verdade e moralidade, ciência e fé, vida profissional e pessoal ocupam esferas completamente separadas, quando não antagônicas. Na ciência, verdade objetiva; no trato com pessoas, na conduta ética e na religião, apenas subjetividade. A idéia antiga de uma ciência da felicidade (ou seja, a ética), de que as paixões humanas devem obedecer a um ordenamento racional e que a razão recebe delas dados importantes, em suma, que a objetividade seja possível tanto nas “humanas” quanto nas “exatas”, é totalmente alheia ao seriado.
Bem, quase totalmente, pois há duas exceções. A primeira delas, bem pouco explorada, é a arte, em particular a música, que funciona como a válvula criativa de House. A segunda é o sentimento de culpa, cujos efeitos devastadores sobre os personagens a série não tem pudores de mostrar. Isso indica a percepção de uma ordem objetiva nos atos humanos, passível de ser violada. Contudo, ninguém sabe o que fazer com ela. A confissão da falta é frequentemente vista como um ato egoísta, um alívio da consciência às custas de quem ouve a confissão. E o perdão, mesmo quando sincero, é incapaz de restabelecer a ordem moral e a paz de espírito ao pecador. Fica-se entre duas escolhas ruins: a verdade dolorosa e que nos torna solitários, ou a felicidade e o companheirismo numa vida de ilusões. E não poderia ser diferente num mundo onde o Cristianismo enquanto possibilidade real de salvação morreu mas em que seus juízos de valor e idéias da importância do perdão permanecem como um resíduo sentimental que exige uma resposta. Mas se tudo que não é científico é subjetivo, então a razão é incapaz de nos tirar desse impasse.
No final das contas, temos que concluir que a concepção de razão da série (que é, enfim, a concepção moderna) é incapaz de lidar satisfatoriamente com a realidade. House não é o homem racional, e sim o homem que baniu a razão de todas as esferas de sua vida exceto uma, ainda que nessa uma ela opere excepcionalmente. Não há equilíbrio e nem justa medida. A razão elenca meios para se chegar aos fins, mas é incapaz de mostrar quais os fins nobres e dignos de serem perseguidos. Será possível uma mudança em House nessa direção de uma razão mais completa, ou seja, uma mudança outra que a mera intrusão irracionalista dos sentimentos na conduta, que o tornaria um médico pior e, pior ainda, nos privaria das tiradas satíricas pelas quais ele é tão amado? Não sei. Sei que, se isso acontecesse, a série acabaria; mas não deixaria de ser um belo final.

* Escrito por Joel Pinheiro; extraído de Dicta & Contradicta, do dia 18 de março de 2010.