quarta-feira, 30 de junho de 2010

Bruce Springsteen - Paradise


Paradise
Where the river runs to black
I take the schoolbooks from your pack
Plastics, wire and your kiss
The breath of eternity on your lips

In the crowded marketplace
I drift from face to face
I hold my breath and close my eyes
I hold my breath and close my eyes
And I wait for paradise
And I wait for paradise

The Virginia hills have gone to brown
Another day, another sun goin' down
I visit you in another dream
I visit you in another dream

I reach and feel your hair
Your smell lingers in the air
I brush your cheek with my fingertips
I taste the void upon your lips
And I wait for paradise
And I wait for paradise

I search for you on the other side
Where the river runs clean and wide
Up to my heart the waters rise
Up to my heart the waters rise

I sink 'neath the river cool and clear
Drifting down I disappear
I see you on the other side
I search for the peace in your eyes
But they're as empty as paradise
They're as empty as paradise

I break above the waves
I feel the sun upon my face

Paraíso
Lá onde o rio escurece
Pego os livros de escola da sua mochila
Plásticos, fios e seu beijo
O sopro da eternidade em seus lábios

Na multidão do mercado
Eu me perco de rosto em rosto
Seguro a respiração e fecho os olhos
Seguro a respiração e fecho os olhos
E espero pelo paraíso
E espero pelo paraíso

As colinas da Virginia se tornaram castanhas
Outro dia, outro sol indo embora
Visito você em outro sonho
Visito você em outro sonho

Eu toco e sinto seus cabelos
Seu perfume continua no ar
Acaricio seu rosto com a ponta dos meus dedos
Experimento o vazio de seus lábios
E espero pelo paraíso
E espero pelo paraíso

Procuro por você do outro lado
Onde o rio corre limpo e tranquilo
As águas seguem para o meu coração
As águas seguem para o meu coração

Eu me afundo no rio fresco e claro
Afundando mais e mais desapareço
Eu vejo você do outro lado
Procuro pela paz em seus olhos
Mas eles estão tão vazios quanto o paraíso
Estão tão vazios quanto o paraíso

Eu reapareço sobre as ondas
Sinto o sol em meu rosto

Israel Kamakawiwo'ole' - Somewhere over the rainbow

Graças ao martírio, o homem que morre triunfa sobre o animal que vive



Por Michele Rosboch

A editora Adelphi publica, graças à valiosa tradução de Claudia Zonghetti, uma das primeiras obras do escritor Vasili Grossman, O Inferno de Treblinka. Trata-se de um documentário ágil (quase uma crônica “jornalística”, que foi publicada pela primeira vez no outono de 1944, na revista russa Znamja), fruto da observação de primeira mão do autor – na época, ele estava entre os mais apreciados cronista de guerra –, que foi mandado para o campo de Treblinka com a armada vermelha, em setembro de 1944. No livro, o autor de Vida e Destino relata com fidelidade o fruto das histórias contadas pelas testemunhas do inferno do lager, que foi, em seguida, destruído por uma revolta dos prisioneiros, em agosto de 1943, depois de ter assassinado mais de três milhões de pessoas, entre judeus, ciganos e outros cidadãos poloneses.
O fruto da investigação de Grossman foi, inclusive, usado como documento no processo de Nuremberg como prova dos crimes nazistas (mesmo que, num segundo momento, tenha se mostrado impreciso e até mesmo errôneo, por causa da emoção dos testemunhos recolhidos). É um quadro aterrorizante do abismo do mal e da deformação à qual a ideologia pode conduzir: “Todos estes seres não tinham nada de humano. Cérebro, coração e alma, palavras, gestos e hábitos eram deformados, uma horrenda caricatura que lembrava apenas levemente traços, pensamentos, sentimentos, hábitos, gestos humanos. (...) No novo lager nada era pensado para a vida, tudo era entendido para a morte” (pp. 15-16)
No livro emergem com clareza a abominação e a ignomínia dos carrascos nazistas, animados pelo projeto criminoso de contribuir com a “solução final”, através da anulação da vontade e da personalidade dos prisioneiros (valendo-se da “tortura da mentira”), antes ainda da sua cruel eliminação física: “Seres humanos nus dos quais tudo foi arrancado continuam tenazmente mil vezes mais humanos do que os animais com uniforme nazista que os circundam, continuam a respirar, a olhar e a pensar, os corações ainda batem. Então, os alemães arrancam de suas mãos sabão e toalha. E os depõem em fila de cinco em cinco” (p. 37)
Aos “animais” nazistas se contrapõem os “libertadores” soviéticos: no livro se afirma com clareza a diferença entre os alemães-malvados e os soviéticos-bonzinhos, que, depois, será superada em Vida e Destino, com a trágica denúncia tanto dos crimes nazistas quanto dos comunistas. De resto, Grossman, como repórter, tinha vivido em primeira pessoa a batalha de Stalingrado e a marcha sobre Berlim, e tinha ficado impressionado com o fato de que a União Soviética, depois de tantas atrocidades, tivesse representado, naquela ocasião, “a justa causa” da liberdade: “O poder. Carros armados e aviões, terras, cidades, céus, ferrovias, leis, jornais, rádio: tudo está nas suas mãos. O mundo silencia, achatado, submetido por bandidos com camisa marrom que o mantém em suas mãos. E no entanto, a muitos milhares de quilômetro, nas margens distantes do Volga, a artilharia soviética troveja ainda, proclamando obstinadamente a vontade do povo russo de lutar até a morte pela liberdade, e despertando, chamando para a luta os povos do mundo” (p. 28).
Mas isso não é tudo. Também nessa obra emerge a grandeza de Grossman, que não apenas é a grandeza do cronista ou do antinazista. Diante do drama da destruição do humano, Grossman reflete sobre a profundeza da natureza humana e sobre o significado da vida e da morte, dando voz àquelas perguntas últimas, que florescerão de modo emblemático na sua obra-prima Vida e Destino. “... Com um esforço sobre-humano uma mãe terá tentado conseguir um pouco mais de espaço para o seu filhos, esperando aliviar, pela milionésima vez, o seu último respiro. ‘Por que me sufocam? Por que não posso amar e ter filhos?’ terá se perguntado uma garota com a língua já entorpecida. A cabeça gira, um nó aperta a garganta. O que terão visto aqueles olhos vítreos, apagados? Cenas de infância e de dias felizes, ou talvez a duríssima última viagem?” (p. 52).
De onde vêm estas perguntas, que tornam “clássico” um repórter e interessante um livro que fala de fatos históricos distantes? O poder da escrita de Grossman está na grande capacidade de identificação com as coisas, na capacidade de colher naquilo que observa os sinais da verdade de um fenômeno. É bastante significativa, a propósito, a descrição com a qual ele conclui o livro: quando Grossman e os soldados da armada vermelha chegam a Treblinka as construções foram destruídas, mas é a terra com a sua cor escura (por causa das cinzas de milhares de cadáveres que tinha sido espalhadas no chão) que fala da vida do lager. E é daquela cor e daquela terra que a investigação sobre os eventos históricos do campo e sobre o humano partem.
Assim é Grossman: escuta um fato particular com tudo de si, deixando que esse fato liberte aquela infinidade de perguntas para as quais o coração do homem é feito. No final da leitura, o silêncio domina, eco misterioso daquele silêncio que “sobrevinha quando as portas das câmaras de gás eram fechadas” (p. 46), mas também humilde comoção pelo dom da vida, de que é tecida cada página da obra de Grossman: “Que grande é o dom da humanidade! Um dom que não morre enquanto não morre o homem. E se também sobrevier uma época histórica breve mas tremenda na qual o animal tiver a precedência sobre o homem, o homem morto pelo animal conservará, de qualquer forma, até o último instante, força de ânimo, mente lúcida e coração ardente. Enquanto que o animal triunfante que o mata continuará a ser apenas um animal. Na imortalidade do espírito humano existe, implícito, um sombrio martírio, triunfo – porém – do homem que morre sobre o animal que vive” (p. 43).

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 30 de junho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Leia também:


- Cristãos no lager, de P. Colognesi (em italiano).

terça-feira, 29 de junho de 2010

Os cento e dez anos do nascimento do pequeno príncipe

Por Laura Cioni

Antoine de Saint-Exupéry nasceu em Lion, no dia 24 de junho de 1900. A vida deste homem sensível e aventureiro é rica de ações: começa com uma juventude solitária; aos 12 anos voa pela primeira vez e, desde então, a sua paixão será o voo. Primeiro, torna-se piloto em uma companhia comercial que fazia o trajeto Toulouse-Dakar; depois, em 1930, vai para Buenos Aires, onde se torna diretor do correio aéreo entre Argentina e França e, ali, encontra a mulher de sua vida. O casamento foi tempestuoso, mas também a companhia na qual Saint-Exupéry trabalhava se encontrava em águas agitadas; muito rapidamente, passou para as mãos da Air France.
O piloto, então, passou a se dedicar ao jornalismo e à escrita; tentou transferir-se para a rota Paris-Saigon, mas a empresa se transformou num desastre no deserto da Líbia. A paixão pelo voo o induziu a se alistar na aeronáutica francesa durante a Segunda Guerra Mundial. A morte o surpreendeu em 1944, enquanto sobrevoava o mar Mediterrâneo, em um acidente que nunca foi esclarecido por completo. “Transporte de cartas, transporte da voz humana, transporte de imagens tremidas – neste século, como em outros, os nossos maiores progressos sempre tiveram o único objetivo de colocar os homens em contato”: assim o piloto descrevia o significado do seu trabalho e não é difícil encontrar nessa paixão pelo vínculo entre os seres humanos a resposta para a sua solidão de criança.
De resto, o seu pequeno príncipe representa a nostalgia da infância, mas também personifica a solidão na qual frequentemente as crianças são deixadas em um mundo que não considera a sua necessidade profunda de relações significativas, que não sejam aquelas dependentes do ter e do fazer ter. Deste ponto de vista, a criatura de Saint-Exupéry não demonstra os seus anos (o livro é publicado em 1943, em inglês) e mantém o frescor e a melancolia, que foram os fatores do seu sucesso em todo o mundo. É a fábula suave de um encontro no deserto entre um aviador e uma misteriosa criança caída do céu.
Os dois falam de coisas aparentemente sem importância, mas depois se tornam amigos; e o pequeno príncipe, de forma cândida, revela ao homem maduro o seu segredo de amor por uma rosa e a beleza dos pores do sol e da cor do trigo. Assim, se separam; mas permanecerá sempre, para o aviador, o encanto daquela pequena figura vinda das estrelas, que tem a doçura das crianças, mas também a severa dignidade dos cavaleiros antigos. Se há algo que ainda pode fascinar neste conto de fadas não é a acusação lançada contra o mundo adulto de não compreender as crianças e nem mesmo a ternura francesa dos diálogos.
É muito mais a vastidão do deserto, o lugar mais parecido com o céu, no qual tudo ocorre e que explica em parte a profundidade do que acontece; é também a advertência sobre a grande solidão do homem no cosmo e sua necessidade de uma companhia adequada a si e à sua exigência de sentido e de amor. Por isso, todos somos um pouco afeiçoados pelo pequeno príncipe e pelo afortunado aviador que o encontrou, por ambos que foram embora da terra de forma misteriosa.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 29 de junho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo

Bento XVI

Angelus

Praça São Pedro
Terça-feira, 29 de junho de 2010

Caros irmãos e irmãs,
hoje, a Igreja de Roma festeja as suas santas raízes, celebrando os Apóstolos Pedro e Paulo, cujas relíquias são custodiadas nas duas Basílicas a eles dedicadas e que ornam toda a Cidade cara aos cristãos residentes e peregrinos. A solenidade começou ontem à noite com a oração das Primeiras Vésperas na Basílica Ostiense. A liturgia do dia propõe a profissão de fé de Pedro diante de Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16, 16). Não é uma declaração que nasceu de um raciocínio, mas de uma revelação do Pai ao humilde pescador da Galileia, como Jesus confirma dizendo: “nem carne nem sangue te revelaram isto” (Mt 16, 17). Simão Pedro é de tal forma próximo do Senhor que se tornou uma rocha de fé e de amor sobre a qual Jesus edificou a sua Igreja e “a tornou – como observa São João Crisóstomo – mais forte do que o céu mesmo” (Hom. in Matthaeum 54, 2: PG 58, 535). De fato, o Senhor conclui dizendo: “tudo aquilo que ligares na terra será ligado no céu, e tudo aquilo que desligares na terra será desligado no céu” (Mt 16, 19).
São Paulo – de quem, recentemente, celebramos os dois mil anos de nascimento –, com a Graça divina, difundiu o Evangelho, semeando a Palavra da verdade e da salvação em meio aos povos pagãos. Os dois Santos Padroeiros de Roma, mesmo tendo recebido de Deus carismas diferentes e missões diversas para cumprir, são fundamentos da Igreja una, santa, católica e apostólica, “permanentemente aberta à dinâmica missionária e ecumênica, porque enviada ao mundo para anunciar e testemunhar, atualizar e expandir o mistério de comunhão que a constitui” (Congregação para a Doutrina da Fé, Communionis notio, 28 de maio de 1992, n. 4: AAS 85 [1993], 840). Por isso, durante a Santa Missa desta manhã na Basílica Vaticana, entreguei o Pálio a trinta e oito Arcebispos Metropolitanos, que simboliza tanto a comunhão com o Bispo de Roma, quanto a missão de apascentar com amor o rebanho único de Cristo. Nesta solenidade, desejo também agradecer de coração à Delegação do Patriarcado Ecumênico, o testemunho de vínculo espiritual entre a Igreja de Roma e a Igreja de Constantinopla.
Que o exemplo dos Apóstolos Pedro e Paulo ilumine as mentes e acenda nos corações dos fiéis o santo desejo de cumprir a vontade de Deus, para que a Igreja peregrina sobre a terra seja sempre fiel ao seu Senhor. Voltemos, confiantes, para a Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos, que do Céu guia e sustenta o caminho do Povo de Deus.

Depois do Angelus
Saúdo cordialmente os peregrinos francófonos e, particularmente, aqueles que acompanham os Arcebispos para quem acabo de consignar o Pálio! A Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, Colunas da Igreja, não lembra que Deus constrói sobre a rocha da nossa fé que é irrigada pelo ensinamento de Cristo transmitido pelos Apóstolos. Que nós possamos acolher a graça desta festa, para sermos como os primeiros cristãos: assíduos na fração do pão e atentos ao ensinamento dos Apóstolos, para sermos um só coração, uma só alma, solidamente enraizados no amor de Deus. Boa festa a todos!
Ofereço uma recepção calorosa a todos os visitantes de língua inglesa, que se reuniram para a oração do Angelus. A Solenidade de hoje, dos Santos Pedro e Paulo, Padroeiros da Igreja de Roma, convida-nos a agradecer pela fé que recebemos dos Apóstolos na comunhão da Igreja. Como sinal dessa unidade, nesta manhã, conferi o Pálio a um grupo de Arcebispos Metropolitanos de todo o mundo. Peço-vos que rezai para que, pela intercessão dos Apóstolos, eles possam ser verdadeiros arautos do Evangelho e modelos de caridade pastoral para o rebanho que lhes foi confiado. Sobre todos vós, invoco ricas bênçãos dos Senhor!
Uma cordial saudação para os Arcebispos Metropolitanos da Angola e do Brasil que acabaram de receber o Pálio, e também para os familiares e amigos que os acompanham: a Santíssima Virgem guie e proteja maternalmente a cada um deles e ao Rebanho que lhes foi confiado.

* Extraído do site oficial do Vaticano, no dia 29 de junho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco. Houve também saudações dirigidas aos peregrinos de língua espanhola, alemã, aos poloneses, aos tchecos, aos eslovacos e eslovenos.

Por que se confunde a liberdade de informação com a fofoca midiática?


Entrevista feita com Pietro Barcellona. Realizada por Federico Ferraù

Pietro Barcellona é filósofo e professor de Filosofia do Direito na Universidade da Catânia. É membro leigo do Conselho Superior da Magistratura, na Itália. “Neste país – disse Barcellona –, de fato, não é mais possível discutir, porque quem expressa uma opinião deve, imediatamente, ser partidário de um lado ou de outro”.

O que faz o senhor se sentir incomodado, professor?
Vivemos imersos em um clima de maniqueísmo extremista que está se tornado cada vez mais uma forma de pensamento único, e que representa uma patologia grave da vida democrática. Pessoalmente, não partilho desta batalha tão furiosa contra o risco da mordaça e a favor da liberdade absoluta de escuta telefônica de quem quer que seja.

Nem mesmo quando este é o único instrumento para descobrir crimes graves?
Todos os delitos devem ser descobertos e, para isso, é preciso dotar-se de instrumentos para fazê-lo. Mas, olhemos para a realidade dos fatos. Vimos de uma experiência muito longa de interceptações realizadas por centros de poder, sobre as quais ainda não temos nenhuma clareza. Pessoas como Giuliano Tavaroli e Gioacchino Genchi – e muitos outros antes deles – dedicaram tempo e recursos para “escutar” a vida democrática, construindo não averiguações da verdade, mas dossiês chantagistas que serviram apenas para desestabilizar o país.

Interceptamos ou não interceptamos ligações telefônicas?
Penso que o tema das escutas não possa mais ser visto apenas sob o ponto de vista da busca da verdade sobre os inimigos da máfia, sobre crimes mais graves e sobre tudo o que respeita ao código penal. As escutas telefônicas já fazem parte do contexto geral da nossa vida pública. É verdade que deram alguns resultados muito importantes quanto aos crimes de mafiosos, mas em 80% dos casos seu uso foi absolutamente anômalo e serviu para construir, em sinergia com o sistema midiático, processos mais ou menos fantasiosos sem nenhuma comprovação verdadeira.

O senhor, enfim, dá prevalência à privacidade.
Está vendo? Essa é a falsa contraposição. A vida privada é um grande bem, mas o verdadeiro tema é: nesse país, o que serve para se ter acesso à verdade dos fatos? O problema da verdade absorve tanto o problema da tutela da liberdade de imprensa, quanto a tutela do cidadão privado que pretende muito justamente a reserva. O uso indiscriminado das interceptações telefônicas, pelo contrário, levou a uma manipulação contínua da verdade.

Por exemplo?
Penso em Ottaviano Del Turco. Veio à tona uma encenação midiática na qual Del Turco, imerso em uma série de acusações que vinham em grande medida das escutas e das declarações dadas, mais ou menos livremente, por arrependidos, aparecia como um dos maiores criminosos da nossa vida pública.

Falemos da imprensa. A mídia, favorável ou contra o governo, falou de lei-da-mordaça.
Eu não acredito que se deva colocar a mordaça na imprensa. Ela deve ser livre, mas isso não significa que se pode fazer um jornalismo que nunca cita as fontes, no qual tudo se confunde.

Explique-se melhor.
Se eu leio, por exemplo, os artigos  sobre a “panelinha” de Balducci e Anemone, não consigo mais distinguir o que foi extraído da escuta, do que foi declarado ao magistrado (por quem foi interrogado), da reconstrução que o jornalista faz da história, e das declarações que circulam em certos ambientes. São quatro planos que se entrecruzam e que formam um todo único no qual os fatos esvanecem nas conjecturas ou nas reconstruções cheias de interesse. Deduzo a convicção de que Balducci e Anemone provavelmente cometeram certos atos, mas nenhuma das coisas reportadas contém um mínimo de indicação para verificar a veracidade das coisas ditas.

O senhor falou de “manipulação da verdade” induzida pelo uso distorcido das escutas. Não lhe parece exagerado?
Aqui, não me interessa a verdade com V maiúsculo, ma a verdade pública. O último livro de Priore e Fasanella demonstra que este país, desde o Caso Moro, foi objeto de desestabilizações organizadas por poderes ocultos. Mais do que se ocupar de como se pode enfrentar o tema da verdade dos fatos que dizem respeito à vida coletiva, somos chamados a escolher de que lado ficar: mas é uma falsa alternativa, porque o interceptador é sempre um homem santo, enquanto que o interceptado é sempre um réprobo. Nesse caminho, eu não fico, porque não ajuda a ninguém.

Como é possível “colocar-se na ótica do interesse coletivo, para a transparência e para a verdade”, como o senhor escreveu recentemente?
Seria necessária uma reforma política, jurídica e moral. Temo que nenhum dessas, sozinha, bastaria para mudar a mentalidade das pessoas. Se, pelo contrário, cada um pensa poder ser juiz de tudo, como acontece agora, toda reforma seria inútil. Quem é magistrado, que seja magistrado. Quem é jornalista, que seja jornalista.

Valerio Onida nos disse, certa vez, que o direito de informação, ou seja, de informar e ser informados, não pode ser anulado em nome de uma exigência de privacidade. O que o senhor pensa a esse respeito?
Estimo Onida, mas a sua resposta reflete aquela impostação que “rompe” com a complexidade do problema. Hoje, a comunicação não é mais a de meio século atrás. Se um jornal difunde a notícia que uma pessoa vai ser presa porque um crime lhe foi contestado, essa pessoa, na opinião pública, é presa por ter cometido aquele crime. Isto é comunicação? É liberdade de informação?

O que mais é liberdade informação, além de ser um direito garantido pela Constituição?
É aquilo que eu dizia no início: é o direito que os cidadãos temos de conhecer a verdade dos fatos sobre os quais se fundamentam as grandes decisões. É o primado da verdade dos fatos sobre as opiniões pessoais, que deve ser posto como premissa de todo raciocínio sobre a informação. Nenhum conflito puramente objetivo entre uma pessoa que deve acusar e outra que deve defender produzirá alguma verdade estável.

Estamos realmente seguros de que a introdução de novas regras, além daquelas que já existem, leve realmente a uma solução dos problemas?
Não sei. O que eu considero relevante é que não podem existir fontes ocultas e que quem dá notícias deve sempre poder dizer de qual fonte se serviu. Mas sobretudo, sou contra a ideia – que alguns querem fazer valer a todo custo – de que, neste momento, exista o risco de uma mordaça sendo imposta à imprensa. Parece-me absolutamente infundada.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 31 de maio de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Cristina Campo: o amor às pequenas coisas passa através das palavras


Por Laura Cioni

A figura de Cristina Campo não é conhecida do grande público, sobretudo devido ao silêncio no qual a crítica oficial a deixou. A escritora também gostava da sombra, e a sua existência foi apartada, em meio aos estudos e algumas amizades significativas, entre as quais figuram Luzi e Zambrano, e sobretudo a longa relação que a ligou a Elémire Zolla. Nascida em Bolonha, em 1923, viveu por longos anos em Firenze e, depois, a partir de 1955, em Roma. Morreu em 1977. Vittoria Guerrini gostava de esconder as suas produções sob vários pseudônimos.
A sua primeira atividade como tradutora contribuiu para dotá-la de uma sensibilidade marcada pela palavra, mas também pelo encontro entre o pensamento do autor e o do leitor, em quem se realiza a tarefa da obra de arte. Isso fica claro no livro de Massimo Marasso, In bianca maglia di ortiche, publicado recentemente pela Marietti, que recolhe conferências proferidas pelo autor sobre vários aspectos da personalidade de Campo: escritora, poetisa, crítica literária, amiga de personalidades com as quais conversou através de correspondências.
Em 1956, Campo escrevia à amiga Margherita Pieracci duas linhas particularmente iluminadas sobre a leitura crítica: “Tome contato consigo mesma, elabore uma lista de apontamentos (citações) e o discurso que os deve ligar crescerá no meio sozinho, como um alpinista em meio às rochas”.
Nada de mais distante do impressionismo crítico, mas capacidade refinada por muito tempo de diálogo com o autor. “Na Itália, o último crítico foi, me parece, Leopardi. Com De Sanctis, a pura disposição do espírito contemplativo foi definitivamente perturbada e distorcida pela obsessão histórica. Leopardi foi o último a examinar uma página como se deve, ou seja, como um paleógrafo, levando em consideração cinco ou seis planos ao mesmo tempo: do sentimento dos destinos à oportunidade de evitar o influxo das vogais.
Tudo aquilo que não se presta a uma leitura múltipla, ele ignorava. Evito pensar no seu exame de uma página contemporânea. Fosse esta página uma das mais belas, suponho que ele notaria sobretudo a ausência quase total do como e do ablativo absoluto: a carência de espírito analógico, se não quisermos dizer metafórico, da faculdade plenamente poética – profética – de transformar a realidade em figura, quer dizer em destino”.
Essa longa citação foi extraída de Gli imperdonabili (Os imperdoáveis), o livro mais conhecido e importante da atividade crítica de Cristina Campo. Em uma de suas partes, Con lievi mani (Com mãos suaves), Cristina Campo se dedica a analisar o significado do termo sprezzatura (desdém, desinteresse, indiferença), que todos, na Itália, vinculam à obra Il cortegiano (O cortesão), de Baldassar Castiglione. É um exercício de grande competência lexical, no qual são resenhadas e, pouco a pouco, descartadas, todas as palavras potencialmente conectadas, mas mais pobres na identificação do conceito.
É aqui que Cristina Campo, filha de um musicólogo, dá provas de uma sensibilidade que deve ter aprendido na família: escreve, de fato, acerca da sprezzatura de Chopin, da pureza e do orgulho das suas Poloneises, nas quais o inefável e o tremendo escolhem como mensageira a dança popular, a forma menos canonizada de todas. E termina com a sprezzatura nas regras trapistas que estabelecem os comportamentos nas recreações monásticas, excluindo delas toda rudeza.
A forma de escrever de Cristina Campo é culta sem ser pedante, o seu preço é a leveza. Parece roçar a variegada trama das suas predileções quando, pelo contrário, elas são apenas fruto de um gosto que, por muito tempo, exercitou. Nisto, ela é aluna da amada Simone Weil. Lê-la é um modo agradável para aprender o amor e a atenção implícitos no estudo de qualquer coisa.
* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 29 de junho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A barca de Pedro


Por Pigi Colognesi

Amanhã será a festa de São Pedro, a festa do Papa. Há muito tempo se diz que a barca, cujo timoneiro é o Primeiro dos Apóstolos, atravessa águas agitadas e é sacudida de dentro por movimentos imprudentes que a fazem balançar. Nos jornais, aparecem sucessivamente investigações e furos jornalísticos variadamente credíveis e documentados; em muitos sopra o cheiro macabro de quem – como um abutre – se satisfaz apenas quando consegue manchar e destruir. Multidões de comentaristas se exercitam em pontificar – é mesmo necessário usar este termo – sobre causas e remédios da presumida “crise”; deixando frequentemente no leitor a amarga impressão de que estão falando de algo que, no fundo, não lhes interessa, algo do que, arrogantemente, saem fora. Como o fariseu do Evangelho que olhava de alto a baixo as misérias do pobre publicano, no fundo da igreja, pedindo perdão de seus pecados.
Do seu lugar, o atual sucessor de Pedro não cessa de manter o timão da barca firmemente apontado em direção à meta. Com coragem, lembra o essencial; como quando, em Lisboa, disse: “muitas vezes nos preocupamos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista”. Sem hesitar, pede a nós, filhos da Igreja, a coragem de reconhecer o nosso pecado e fazer, seguros da misericórdia de Deus, a penitência necessária para purificar a barca da “sujeira” que nós mesmos trouxemos para ela e dos pesos que tornam difícil a sua navegação.
Um dos inúmeros comentários que os jornais dedicaram ao mundo católico tinha o seguinte título: “A Igreja do papa Ratzinger se salvará?”. Esteja tranquilo, jornalista (admitindo que isto lhe interessa, de fato): se salvará. E não tanto porque na sua história milenar tenha assistido a tempestades tão difíceis quanto a que está atravessando agora, ou porque tenha experimentado dolorosamente, no seu seio, divisões e traições muito mais graves do que as atuais. Salvar-se-á porque não é como uma multinacional que sofreu um revés nos negócios ou cujo administrador fugiu com o caixa; não é uma associação de pessoas bem intencionadas que perseguem um objetivo nobre e, de repente, se veem ultrapassados por outros naquele objetivou ou descobrem que alguns dos sócios pensas as coisas por conta própria; não é uma academia de estudiosos cujas teorias podem ser colocadas em discussão por qualquer das novas descobertas ou falhas de um experimento. Simplesmente, a Igreja – corpo de Cristo na história – está já salva e esta salvação é oferecida continuamente a todos.
Que, depois, a história tenha ido contra ela, castigando-a ou perseguindo-a, ou mesmo lhe tenha tributado triunfos e reconhecimentos, quem sabe até interessados, não muda a substância. Poderia acontecer como no final do Relato do Anticristo de Vladimir Soloviov: os habitantes da barca, reduzidos a poucos fiéis, o mundo que se desinteressa da proposta dos cristãos, os traidores que se multiplicam atraídos pelas seduções do poder ou oprimidos pelo medo. Sempre restaria a certeza inabalável no timoneiro; não por sua capacidade, mas porque foi eleito para isso. Sempre restaria alguém que teria a coragem de responder ao imperador do momento (e a seus cúmplices): “Grande soberano, o que temos de mais caro no cristianismo é Cristo mesmo. Ele mesmo e tudo o que vem dEle, já que sabemos que nEle habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 28 de junho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

A ousadia da santidade


Por Carlos Alberto Di Franco*

Paul Johnson é um dos grandes historiadores e intelectuais da atualidade. Colaborador da revista britânica The Spectator, seus textos são provocadores. Dono de uma cultura invejável e sinceridade afiada, Johnson não sucumbe aos clichês vazios. Em seu livro Os Heróis, destaca a importância das lideranças morais.
"Os heróis", diz, "inspiram, motivam. (?) Eles nos ajudam a distinguir o certo do errado e a compreender os méritos morais da nossa causa." Os comentários de Johnson trazem à minha memória um texto que exerceu forte influência no rumo da minha vida: Amar o Mundo Apaixonadamente, homilia proferida por São Josemaría Escrivá, fundador do Opus Dei e primeiro grão-chanceler da Universidade de Navarra, durante missa celebrada no campus daquela prestigiosa instituição. São Josemaría - cuja festa a Igreja celebrou no dia 26 de junho - foi um mestre na busca da santidade no trabalho profissional e nas atividades cotidianas. A Editora Quadrante, de São Paulo, acaba de lançar uma primorosa reedição da homilia.
Propunha, naquela homilia vibrante e carregada de ousadia, "materializar a vida espiritual". Queria afastar os cristãos da tentação de "levar uma espécie de vida dupla: a vida interior, a vida de relação com Deus, por um lado; e, por outro, diferente e separada, a vida familiar, profissional e social, cheia de pequenas realidades terrenas". O cristianismo encarnado nas realidades cotidianas: eis o miolo da proposta de São Josemaría. "Não pode haver uma vida dupla, não podemos ser esquizofrênicos, se queremos ser cristãos", sublinha. E, numa advertência contra todas as manifestações de espiritualismo mal entendido e de beatice, afirma de modo taxativo: "Ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida de todos os dias, ou não o encontraremos nunca."
"A vocação cristã consiste em transformar em poesia heroica a prosa de cada dia." A vida, o trabalho, as relações sociais, tudo o que compõe o mosaico da nossa vida é matéria para ser santificada. São Josemaría, um santo alegre e otimista, olha a vida com uma lente extremamente positiva: "O mundo não é ruim, porque saiu das mãos de Deus." O autêntico cristão não vive de costas para o mundo nem encara o seu tempo com inquietação ou nostalgia do passado. "Qualquer modo de evasão das honestas realidades diárias é para os homens e mulheres do mundo coisa oposta à vontade de Deus." A luta do nosso tempo, com suas luzes e sombras, é sempre o desafio mais fascinante.
O pensamento de São Josemaría, apoiado numa visão transcendente da vida e, ao mesmo tempo, com os pés bem fincados na realidade material e cotidiana, consegue, de fato, captar plenamente a contextura humana e ética dos acontecimentos. Ele tem, no fundo, a terceira dimensão: a religiosa e ética - e só com esse foco é possível entender plenamente o mundo em que vivemos. Na verdade, o esgotamento do materialismo histórico e a crescente frustração do consumismo hedonista prenunciam uma mudança comportamental: o mundo está sedento de liberdade, mas nostálgico de certezas.
Articular verdade e liberdade é, talvez, um dos mais interessantes recados de São Josemaría. Insurge-se, vigorosamente, contra o clericalismo que se oculta na mentalidade de discurso único, na injusta dogmatização das coisas que são legitimamente opináveis. São Josemaría afirma que um cristão não deve "pensar ou dizer que desce do templo ao mundo para representar a Igreja" nem que "as suas soluções são as soluções católicas para aqueles problemas". Por defender esse pluralismo sofreu incompreensões, até mesmo de algumas pessoas da Cúria Romana, que entendiam, por exemplo, que na Itália os católicos tinham o dever de votar no Partido da Democracia Cristã.
São Josemaría não deixa de enfatizar o valor insubstituível da liberdade - particularmente a liberdade de expressão e de pensamento - contra todas as formas de intolerância e sectarismo. Para ele, o pluralismo nas questões humanas não é algo que deve ser tolerado, mas, sim, amado e procurado.
A sua defesa da liberdade, no entanto, não fica num conceito descomprometido, mas mergulha na raiz existencial da liberdade: o amor - amor a Deus, amor aos homens, amor à verdade. Sua defesa da fé e da verdade não é, de fato, "antinada", mas a favor de uma concepção da vida que não pretende dominar, mas, ao contrário, é uma proposta que convida a uma livre resposta de cada ser humano.
Seus ensinamentos se contrapõem a uma tendência cultural do nosso tempo: o empenho em confrontar verdade e liberdade. Frequentemente, as convicções, mesmo quando livremente assumidas, recebem o estigma de fundamentalismo. Tenta-se impor, em nome da liberdade, o que poderíamos chamar de dogma do relativismo. Essa relativização da verdade não se manifesta apenas no campo das ideias. De fato, tem inúmeras consequências no conteúdo ético da informação.
A tese, por exemplo, de que é necessário ouvir os dois lados de uma mesma questão é irrepreensível; não há como discuti-la sem destruir os próprios fundamentos do jornalismo. Só que passou a ser usada para evitar a busca da verdade. A tendência a reduzir o jornalismo a um trabalho de simples transmissão de diversas versões oculta a falácia de que a captação da verdade dos fatos é uma quimera. E não é. O bom jornalismo é a busca apaixonada da verdade. O jornalismo de qualidade, verdadeiro e livre, está profundamente comprometido com a dignidade do ser humano e com uma perspectiva de serviço à sociedade.
A figura de São Josemaría Escrivá, o seu amor à verdade e a sua paixão pela liberdade tiveram grande influência em minha vida pessoal e profissional. Amar o Mundo Apaixonadamente não é apenas um texto moderno e forte. Sua mensagem, devidamente refletida, serve de poderosa alavanca para o exercício da nossa atividade profissional.

* Carlos Alberto Di Franco é Doutor em Comunicaçaõ, professor de Ética e Diretor do Master em Jornalismo. O texto foi extraído da versão online d'O Estado de São Paulo, do dia 28 de junho de 2010.

domingo, 27 de junho de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

Evangelho - Lc 9, 51-62
Estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu. Então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém e enviou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram num povoado de samaritanos, para preparar hospedagem para Jesus. Mas os samaritanos não o receberam, pois Jesus dava a impressão de que ia a Jerusalém. Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram: "Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los?". Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os. E partiram para outro povoado. Enquanto estavam caminhando, alguém na estrada disse a Jesus: "Eu te seguirei para onde quer que fores". Jesus lhe respondeu: "As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça". Jesus disse a outro: "Segue-me". Este respondeu: "Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai". Jesus respondeu: "Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus". Um outro ainda lhe disse: "Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares". Jesus, porém, respondeu-lhe: "Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus".

Comentário feito por Santa Edith Stein (1891-1942)
carmelita, mártir, co-padroeira da Europa 

O Salvador precedeu-nos no caminho da probreza. Todos os bens do céu e da terra Lhe pertencem. Não representam para Ele nenhum perigo; podia fazer uso deles e manter o Seu coração completamente livre. Mas Ele sabia que é quase impossível a um ser humano possuir bens sem se subordinar a eles e tornar-se seu escravo. Foi por esta razão que Ele abandonou tudo e nos mostrou, com o Seu exemplo, mais ainda do que pelas Suas palavras, que só possui tudo quem não possui nada. O Seu nascimento num estábulo e a Sua fuga para o Egito mostravam já que o Filho do Homem não teria onde reclinar a cabeça. Quem quiser segui-Lo tem de saber que não temos aqui morada permanente. Quanto mais vivamente tomarmos consciência disso, mais fervorosamente tenderemos para a nossa futura morada, e exultaremos com o pensamento de termos direito de cidadania no Céu. 

sábado, 26 de junho de 2010

Privado em nome da utilidade pública

Por Giorgio Vittadini*

Por que concepções tais como "mais sociedade, menos Estado" ou bem-estar subsidiário se tornaram atuais, como mostra o interessante debate que encontrou espaço nas páginas do Corriere? Um primeiro ponto sobre o qual devemos fixar nossa atenção é a necessidade de defender aquela tradição europeia que, a partir da centralidade da pessoa, "única e irrepetível", construiu um sistema de bem-estar universal voltado para a oferta de uma ampla gama de serviços públicos disponíveis para todos os cidadãos.
Mantendo a meta de não retroceder a partir desta importante conquista civil, e tendo presentes as novas exigências de um mundo em rápida mudança, torna-se necessário enfrentar as duas concepções de bem estar que, hoje, se contrapõem. Na Itália, há mais de dois séculos, prevaleceu a ideia de que um sistema de bem-estar universal só pudesse ser gerido por administrações e empresas públicas, através de uma forte programação do Estado central. Todavia, nas últimas décadas, por causa da crescente quantidade e qualidade das necessidades da população e por causa da explosão da dívida pública, tal concepção entrou em crise, levando muitos a acreditarem que, mesmo no bem-estar, devam valer as regras de um mercado "selvagem" guiado apenas pela lógica do proveito máximo. É evidente que se este sistema se afirmasse, as sociedades europeias assumiriam, em poucos anos, os aspectos mais deteriorados do mundo americano, com uma inaceitável e crescente contraposição entre ricos e pobres.
Contra esta contraposição estéril entre lógica pública e privada, chegou o momento de sublinhar o valor do chamado "bem-estar subsidiário", aquele no qual se encontra espaço para os serviços das realidades sem fim lucrativo, cujo melhor negócio consiste exatamente na busca de objetivos sociais. Os cidadãos, nestes casos, são titulares da liberdade de escolha a partir de dentro de uma pluralidade de oferta governada pelo Estado (através de mecanismos de credenciamento e avaliação que superem as assimetrias informativas) e financiada de forma a redistribuir as taxas (através de abonos, dotações, deduções e isenções fiscais, convenções etc.). Deste modo, se obteria a grande vantagem da liberdade de escolha dos usuários, típica dos mercados, e também a vantagem da garantia de serviços que respondam às necessidades elementares da população.
Um posterior valor agregado desta concepção é a recuperação de uma concepção de pessoa não isolada, mas em relação com outras pessoas e, enquanto tal, não apenas sujeito, mas sujeito do bem-estar. Desde a alta idade média, e depois por mérito do movimento católico, operário, e de uma concepção liberal e empresarial atenta às necessidades sociais, nasceram escolas, universidades, hospitais, obras assistenciais, intervenções de apoio ao trabalho, habitações populares, intervenções de proteção ambiental e artística, até mesmo institutos bancários. Ainda que não ajudadas por uma legislação que, pelo contrário, as discriminou, estas realidades de direito privado, mas públicas por objetivo, se encarregaram, de modo frequentemente mais eficaz e eficiente do que as estatais, das mais diversas necessidades sociais.
Este protagonismo social é o grande recurso a ser valorizado na atual fase de transição, como já entenderam, há bastante tempo, pensadores como Lester Salamon da Johns Hopkins (que fala da necessidade de parcerias público-privadas) ou Julian Le Grand da London School of Economics (que defende a livre escolha do usuário no bem-estar). Também a Corte constitucional italiana entendeu isso, há alguns anos atrás, quando definiu o escopo de utilidade pública das instituições e fundações bancárias. Mesmo a grande parte da população entendeu isso. E, finalmente, também entenderam algumas Regiões [no Brasil, essas "Regiões" equivaleriam, do ponto de vista administrativo, aos estados da federação; ndt] que reformaram suas legislações para permitir aos cidadãos a escolha, entre os prestadores de serviços de bem-estar, daqueles que mais respondiam às próprias necessidades. É chegado o momento de, também em nível nacional, colocar em ação uma reforma que recoloque no centro do sistema social a pessoa, não apenas como objeto mas também como sujeito do bem-estar. É chegado o momento de repensar as categorias de mérito e de paridade que, concebidas de maneira burocrática como são agora, arriscam obter o máximo da injustiça.

* Giorgio Vittadini é presidente da Fundação pela Subsidiariedade. Extraído do Corriere della Sera, do dia 26 de junho de 2010 (p. 56). Traduzido por Paulo R. A. Pacheco. 

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A nossa razão? Pode descobrir o Mistério porque entende o mundo

Por Costantino Esposito

O problema da racionalidade pareceria um daqueles argumentos que não excitam mais um real interesse, visto que todos (ou quase todos) pensam tê-lo, de alguma maneira, definido e resolvido. A quem, no debate cultural e político dos nossos dias, viria ainda em mente a ideia de verificar a razoabilidade de uma posição ou de uma escolha? Ou melhor, todos (ou quase todos) parecem dar como óbvio que a razão de um argumento ou de uma perspectiva consista na sua coerência, de partida, com alguns pressupostos culturais, ideológicos, políticos, científicos, religiosos. Mas o problema da razão raramente é reaberto a partir daqueles mesmos pressupostos, os quais são assumidos como “válidos” em virtude dos “valores” que os sustentam e que eles exprimem.
Mas, dessa forma, a racionalidade acaba por ser identificada com a capacidade de obter consequências eficazes a partir de posições (e de interesses) assumidas, no mais das vezes, de maneira preconceituosa e, portanto, com a nossa habilidade de medir os efeitos a partir das causas ou (re)modelar as causas em relação aos efeitos. Em suma, a racionalidade seria um procedimento de controle das nossas estratégias cognoscitivas e morais, um instrumento nas mãos de sujeitos (individuais mas também públicos, econômicos, políticos, ideológicos etc.), os quais o utilizam segundo os conteúdos e os objetivos que estabelecem para si a cada vez. Basta pensar em como usamos de forma óbvia – isto é, sem verificar a razoabilidade ou o significado essencial – algumas palavras fundamentais nos nossos discursos públicos, tais como nascimento e morte, vida e natureza, direito e justiça, democracia e mercado,  liberalismo e igualdade, e muitas outras.
Mas é exatamente aqui que se evidencia o problema: o sujeito que detém e usa a razão como uma faculdade sua ou um “poder” seu lhe dará também a orientação que ele já antecipadamente decidiu adotar. É a vontade de que quem a usa que decide qual é a natureza da razão, revirando assim toda uma longa e gloriosa história, segundo a qual é, pelo contrário, a natureza “objetiva” da razão que decide sobre a vontade do sujeito, abrindo, diante dele, todo o horizonte da sua pergunta pelo significado e arrastando a trajetória tendencialmente infinita da sua espera por uma resposta adequada.
Com a consequência que, se a razão (como faculdade humana) ou a racionalidade (como característica dos discursos e das ações dos homens) constituem o domínio da capacidade de mensuração e da produtividade das decisões preconceituosas, elas são condenadas a deixar fora de si todo aquilo que chamamos o “sentimental” ou o “emocional”, o “vital”, ou simplesmente “natural”, tidos “obviamente” como irracionais ou, na melhor das hipóteses, como a-racional, no sentido duplo de que excedem as nossas capacidades de controle natural e não têm uma origem e um fim diferentes do mero acontecimento natural.
Mas, há outra consequência relevante nesta perspectiva da razão como procedimento estratégico decidido pelo sujeito, e é que ela se joga inteira na “delimitação” do seu campo. Certamente,  discurso dos limites da razão (Kant docet!) é absolutamente central, exatamente porque compreende de forma realista o alcance da nossa faculdade cognoscitiva, e evita que ela pretenda definir ou agarrar, de forma idolátrica, aquilo que ultrapassa seus poderes. Mas esta cautela realística, no fim, foi tornada no seu exato contrário, ou seja na convicção de que exista razoavelmente, isto é verdadeiramente, somente aquilo que consegue entrar nos esquemas a priori da nossa mente, enquanto que aquilo que os supera, mesmo que exista, não poderá nunca ser objeto de um conhecimento ou de uma escolha racional.
O problema que se acredita que foi resolvido foi, na realidade, apenas evitado: quando reconheço que a realidade me supera, que o mundo é sempre maior do que os meus esquemas mentais, que os fatores em jogo são sempre mais numerosos do que eu sou capaz de contar, que o ser tem um sentido tendencialmente infinito, realizo um ato racional ou irracional? A razão funciona apenas quando mede e predetermina o mundo, ou também age quando descobre a existência do “mistério”? E vice-versa: esta realidade misteriosa é apenas aquilo que, por definição, escapa da razão humana (pelo menos por enquanto!), ou pode se tornar, enquanto tal, o objeto de um olhar racional que reconheça o outro de si?
Exatamente por isso, é preciso reabrir – desafiando a aparência de ingenuidade ou o veredicto de impossibilidade – a questão da razão. Não se trata, todavia, de perseguir um conceito unívoco de racionalidade, no qual se possa homologar a multiplicidade de perspectivas e a pluralidade dos métodos com os quais, a cada vez, a razão se aplica nos diversos campos do saber e do agir. Porém, não se trata também de repetir o velho auspício de uma integração entre racionalidade “instrumental” da tecno-ciência e a razão “meditativa” da filosofia ou da poesia. Muito mais do que isso, se trata de verificar se pode existir uma “natureza” ou uma “constituição” da razão humana que permita a suas múltiplas e diversificadas aplicações; e também verificar se tais aplicações exaurem, em si mesmas, a função da racionalidade ou necessitam – exatamente para poderem funcionar – um horizonte maior de referência.
A hipótese que pretendo verificar é a seguinte: a razão se apresenta como a experiência de um relacionamento, como um espaço de abertura do sujeito humano (uma abertura que tem o nome de “eu”) no qual a realidade emerge como um “dado”. Antes de todo o subjetivismo e antes de todo objetivismo, os “dois” – o eu e a realidade – não apenas entram em relação entre si, como também eles mesmos são um relacionamento. Deste ponto de vista, cada um de nossos limites, a inevitável delimitação no uso da nossa razão, pode ser entendido também como um confim, uma soleira ou um lugar de abertura a uma “razão” (ou logos) maior da nossa mesma faculdade. A razão é, portanto, uma faculdade cognoscitiva e valorativa, mas também – e indissociavelmente – é um princípio de inteligibilidade, ou seja, é um sentido do mundo, diria quase uma dimensão constitutiva do real.
Tentarei documentar esta hipótese através de quatro casos que, no meu entender, são emblemáticos. Trata-se de “figuras” nas quais está em ação uma verdadeira e própria experiência de pensamento, e que podemos reter deliciosamente como “filosóficas”, ainda que não se trate de filósofos profissionais, mas de individualidades criativas que buscam dar-se conta e comunicar a razoabilidade do seu relacionamento com o ser.
O primeiro caso é o do pintor Paul Cézanne, que, trabalhando sobre nossa capacidade de “perceber” visivelmente a natureza (e de torná-la, assim, uma pintura), chega à descoberta de que o nosso olhar, a nossa visão mesma da realidade que nos circunda, constitui o modo primário no qual a realidade chega à sua mais própria “realização”. Não porque a reduzamos ao nosso modo de ver, mas porque, pelo contrário, o nosso ver coincide com o modo mais próprio de dar-se ao mundo.
O segundo caso é o do poeta e escritor Thomas S. Eliot, e diz respeito àquela estranha “modificação” da história que acontece a cada vez que é criada uma nova obra literária, graças à qual toda a tradição precedente não apenas cresce, continua ou é interrompida, mas também é completamente reformulada. O que acontece com a criação de uma nova obra de arte acontece “contemporaneamente” a todas as obras do passado, e o sentido histórico se realiza exatamente na medida em que se descobre que o passado não “é” apenas passado, mas “é” também presente.
O terceiro caso é o do compositor Igor Stravinski, com a sua teoria da música como o único domínio no qual o homem “realiza” o seu presente, visto que, enquanto em todas as suas outras expressões e atividades, ele é obrigado a sofrer o passar irrevogável do tempo, na experiência musical ele o torna, pelo contrário, “real” e “estável”, na medida em que é capaz de colher e de “construir” a ordem do presente.
O quarto caso, finalmente, é o do físico Erwin Schrödinger, com as suas reflexões sobre o relacionamento entre os objetos da natureza, conhecidos através da pesquisa científica, e a consciência do eu, isto é do autor de todo o complexo de representações que formam a cena da ciência. Enquanto, de fato, esta última tem progressivamente “objetivado” o mundo, ela se revela sempre mais incapaz de conhecer o “sujeito” de tal objetivação. E assim o eu fica como um ponto de fuga, sem o qual toda a ciência não seria possível, mas que a ciência mesma não poderá nunca reduzir totalmente às suas explicações.
Este é, portanto, o enigma fascinante da racionalidade humana: algo totalmente “nosso”, que, porém, nunca poderemos reduzir a nós mesmos. 

* Extraído de IlSussidiario.net, do dia 25 de junho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 8,1-4
Tendo Jesus descido do monte, numerosas multidões o seguiam. Eis que um leproso se aproximou e se ajoelhou diante dele, dizendo: "Senhor, se queres, tu tens o poder de me purificar." Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: "Eu quero, fica limpo." No mesmo instante, o homem ficou curado da lepra. Então Jesus lhe disse: "Olha, não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote, e faze a oferta que Moisés ordenou, para servir de testemunho para eles." 

Comentário feito por São Simeão, o Novo Teólogo (c. 949-1022)
monge grego 

Antes que brilhasse a luz divina, 
Não me conhecia a mim mesmo. 
Vendo-me então nas trevas e na prisão, 
Preso num lamaçal, 
Coberto de sujeira, ferido, com a minha carne inchada [...], 
Caí aos pés dAquele que me iluminara. 

E Aquele que me iluminara tocou com as Suas mãos 
Nas minhas cadeias e nas minhas feridas; 
Do lugar onde a sua mão tocou e aonde o Seu dedo se chegou, 
No mesmo momento me caíram as cadeias, 
Desapareceram as feridas e toda a sujidade. 
A mácula da minha carne desapareceu [...] 
E Ele a tornou semelhante à Sua mão divina. 
Estranha maravilha: a minha carne, a minha alma e o meu corpo 
Participam da glória divina. 

Assim que fui purificado e desembaraçado das minhas cadeias, 
Ei-Lo que me estende uma mão divina, 
Retira-me completamente do lamaçal, 
Abraça-me, lança-se-me ao pescoço, 
Cobre-me de beijos (Lc 15, 20). 
E a mim, que estava completamente exausto, 
E tinha perdido as forças, 
Pôs-me aos ombros (Lc 15, 5), 
E levou-me para fora do meu inferno. [...] 
É a luz que me leva e me sustenta; 
Conduz-me para uma grande luz. [...] 
Permite-me contemplar através de que estranha renovação 
Ele próprio me tornou a formar (Gn 2, 7) e me arrancou à corrupção. 
Concedeu-me o dom da vida imortal 
E revestiu-me com uma túnica imaterial e luminosa 
E deu-me sandálias, um anel e uma coroa 
Incorruptíveis e eternos (Lc 15, 22). 

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Audiência Geral - Santo Tomás de Aquino (3)

Papa Bento XVI

Praça São Pedro
Quarta-feira, 16 de junho de 2010 

Santo Tomás de Aquino

Queridos irmãos e irmãs:
Hoje eu gostaria de completar, com uma terceira parte, minhas catequeses sobre Santo Tomás de Aquino. Apesar dos mais de 700 anos de distância da sua morte, podemos aprender muito dele; isso foi recordado também pelo meu predecessor, o Papa Paulo VI, quem, em um discurso pronunciado em Fossanova, no dia 14 de setembro de 1974, por ocasião do 7º centenário da morte de Santo Tomás, perguntava-se: "Mestre Tomás, o que você pode nos ensinar?". E respondia assim: "A confiança na verdade do pensamento religioso católico, como ele defendeu, expôs, abriu à capacidade cognoscitiva da mente humana" (Ensinamentos de Paulo VI, XII[1974], p. 833-834). E, no mesmo dia, em Aquino, referindo-se sempre a Santo Tomás, afirmava: "Todos nós, que somos filhos fiéis da Igreja, podemos e devemos, ao menos em alguma medida, ser seus discípulos" (ibid., p. 836).
Participemos, também nós, da escola da Santo Tomás e da sua obra prima, a Summa Theologiae. Esta ficou incompleta e, contudo, é uma obra monumental: contém 512 questões e 2669 artigos. Trata-se de um raciocínio compacto, no qual a aplicação da inteligência humana aos mistérios da fé procede com clareza e profundidade, concatenando perguntas e respostas, nas quais Santo Tomás aprofunda o ensinamento que vem da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja, sobretudo de Santo Agostinho. Nesta reflexão, no encontro com verdadeiras perguntas da sua época, que frequentemente são perguntas nossas também, Santo Tomás, utilizando o método e o pensamento dos filósofos antigos, em particular Aristóteles, chega assim a formulações precisas, lúcidas e pertinentes das verdades de fé, nas quais a verdade é dom da fé, resplandece e se torna acessível a nós, à nossa reflexão. Este esforço, no entanto, da mente humana - recorda o Aquinate com sua própria vida - está sempre iluminado pela oração, pela luz que vem do alto. Só quem vive com Deus e com os mistérios pode também compreender o que dizem.
Na Summa de teologia, Santo Tomás parte do fato de que existem três formas diferentes do ser e da essência de Deus: Deus existe em si mesmo, é o princípio e fim de todas as coisas, razão pela qual as criaturas procedem e dependem dEle; depois, Deus está presente através da Sua graça na vida e na atividade do cristão, dos santos; finalmente, Deus está presente de modo totalmente especial na pessoa de Cristo, unido aqui realmente com o homem Jesus e operante nos sacramentos, que brotam da sua obra redentora. Por isso, a estrutura dessa monumental obra (cf. TORRELL, Jean-Pierre. La "Summa" di San Tommaso. Milano, 2003, p. 29-75), uma busca com "olhar teológico" da plenitude de Deus (cf. Summa Theologiae, Ia, q. 1, a. 7), está articulada em três partes e ilustrada pelo próprio Doctor Communis - Santo Tomás - com estas palavras: "O principal fim da sagrada doutrina é o de dar a conhecer Deus e não somente em si mesmo, mas também enquanto princípio e fim das coisas, especialmente da criatura racional. Na tentativa de expor esta doutrina, trataremos, em primeiro lugar, de Deus; em segundo lugar, do movimento da criatura até Deus; e em terceiro lugar, de Cristo, o qual, enquanto homem, é para nós caminho para ir a Deus" (ibid., I, q. 2). É um círculo: Deus em si mesmo, que sai de si mesmo e nos conduz pela mão, de modo que, com Cristo, voltamos a Deus, estamos unidos a Deus e Deus será tudo em todos.
A primeira parte da Summa Theologiae indaga, portanto, sobre Deus em si mesmo, sobre o mistério da Trindade e sobre a atividade criadora de Deus. Nesta parte, encontramos também uma profunda reflexão sobre a realidade autêntica do ser humano enquanto que saiu das mãos criadoras de Deus, fruto do seu amor. Por um lado, somos um ser criado, dependente, não procedemos de nós mesmos; por outro, temos uma verdadeira autonomia, de modo que somos não só algo aparente - como dizem alguns filósofos platônicos -, mas uma realidade querida por Deus como tal e com valor em si mesma.
Na segunda parte, Santo Tomás considera o homem, conduzido pela graça, em sua aspiração a conhecer e amar a Deus para ser feliz no tempo e na eternidade. Em primeiro lugar, o autor apresenta os princípios teológicos do agir moral, estudando como, na livre escolha do homem de realizar atos bons, integram-se a razão, a vontade e as paixões, às quais se une a força que a graça de Deus dá através das virtudes e dons do Espírito Santo, como também a ajuda que é oferecida pela lei moral. Portanto, o ser humano é um ser dinâmico que busca a si mesmo, tenta ser ele mesmo e procura, neste sentido, realizar atos que o constroem, o tornam verdadeiramente homem; e aqui entra a lei moral, entra a graça e a própria razão, a vontade e as paixões. Sobre este fundamento, Santo Tomás delineia a fisionomia do homem que vive segundo o Espírito e que se converte, assim, em um ícone de Deus. Aqui, o Aquinate se detém a estudar as três virtudes teologais - fé, esperança e caridade -, seguidas pelo agudo exame de mais de cinquenta virtudes morais, organizadas em torno das quatro virtudes cardeais - prudência, justiça, fortaleza e temperança. Termina depois com a reflexão sobre as diversas vocações na Igreja.
Na terceira parte da Summa, Santo Tomás estuda o mistério de Cristo - o caminho e a verdade - por meio do qual podemos voltar a unir-nos a Deus Pai. Nesta seção, escreve páginas até agora não superadas sobre o mistério da Encarnação e da Paixão de Jesus, acrescentando depois um amplo tratado sobre os sete sacramentos, porque neles o Verbo divino encarnado estende os benefícios da Encarnação para a nossa salvação, para o nosso caminho de fé rumo a Deus e à vida eterna, permanece materialmente quase presente com as realidades da criação, nos toca assim no mais íntimo.
Falando dos sacramentos, Santo Tomás se detém de modo particular no mistério da Eucaristia, pelo qual teve uma grandíssima devoção, até o ponto de que, segundo seus antigos biógrafos, costumava aproximar sua cabeça do tabernáculo, como para ouvir pulsar o Coração divino e humano de Jesus. Em uma obra sua de comentário à Escritura, Santo Tomás nos ajuda a entender a excelência do sacramento da Eucaristia, quando escreve: "Sendo a Eucaristia o sacramento da Paixão do nosso Senhor, contém em si Jesus Cristo que sofreu por nós. Portanto, tudo o que é efeito da Paixão do nosso Senhor, é também efeito deste sacramento, não sendo este outra coisa a não ser a aplicação em nós da Paixão do Senhor" (In Ioannem, c.6, lect. 6, n. 963). Compreendemos bem por que Santo Tomás e outros santos celebravam a Santa Missa derramando lágrimas de compaixão pelo Senhor, que se oferece em sacrifício por nós, lágrimas de alegria e gratidão.
Queridos irmãos e irmãs: na escola dos santos, enamoremo-nos deste sacramento! Participemos da Santa Missa com recolhimento, para obter seus frutos espirituais! Alimentemo-nos do Corpo e do Sangue do Senhor, para ser incessantemente alimentados pela graça divina! Entretenhamo-nos com prazer e com frequência, de igual para igual, em companhia do Santíssimo Sacramento!
O que Santo Tomás ilustrou com rigor científico em suas obras teológicas maiores, como na Summa Theologiae, também a Summa contra Gentiles, ele expôs também em sua pregação, dirigida aos estudantes e aos fiéis. Em 1273, um ano antes da sua morte, durante toda a Quaresma, pregou na igreja de São Domingos o Maior, em Nápoles. O conteúdo desses sermões foi recolhido e conservado: são os Opúsculos, nos quais explica o Símbolo dos Apóstolos, interpreta a oração do Pai-Nosso, ilustra o Decálogo e comenta a Ave-Maria. O conteúdo da pregação do Doctor Angelicus corresponde quase totalmente à estrutura do Catecismo da Igreja Católica. De fato, na catequese e na pregação, em uma época como a nossa, de renovado compromisso pela evangelização, não deveriam faltar nunca estes temas fundamentais: o que nós cremos, e aí etá o Símbolo da Fé; o que nós oramos, e aí está o Pai-Nosso e a Ave-Maria; o que nós vivemos como nos ensina a Revelação Bíblica, e aí está a lei do amor a Deus e ao próximo e os Dez Mandamentos, como explicação desse mandato do amor.
Eu gostaria de propor um exemplo do conteúdo, simples, essencial e convincente, do ensinamento de Santo Tomás. Em seu Opúsculo sobre o Símbolo dos Apóstolos, ele explica o valor da fé. Por meio dela, diz, a alma se une a Deus e se produz uma espécie de gérmen da vida eterna; a vida recebe uma orientação segura e nós superamos agilmente as tentações. A quem objeta que a fé é uma necedade, porque faz cair em algo que não cai sob a experiência dos sentidos, Santo Tomás oferece uma resposta muito articulada e recorda que esta é uma dúvida inconsistente, porque a inteligência humana é limitada e não pode conhecer tudo. Somente se pudéssemos conhecer perfeitamente todas as coisas visíveis e invisíveis, então seria uma autêntica necedade aceitar as verdades por pura fé. No demais, é impossível viver, observa Santo Tomás, sem confiar na experiência dos demais, lá onde não chega o conhecimento pessoal. É razoável, portanto, ter Deus que se revela e no testemunho dos Apóstolos: estes eram poucos, simples e pobres, aflitos por causa da crucifixão do seu Mestre; e, no entanto, muitas pessoas sábias, nobres e ricas se converteram à escuta da sua pregação. Trata-se, de fato, de um fenômeno historicamente prodigioso, ao qual dificilmente se pode dar outra resposta razoável, a não ser a do encontro dos Apóstolos com o Senhor ressuscitado.
Comentando o artigo do Símbolo sobre a encarnação do Verbo divino, Santo Tomás faz algumas considerações. Afirma que a fé cristã, considerando o mistério da Encarnação, chega a reforçar-se; a esperança se eleva mais confiada ao pensamento de que o Filho de Deus veio entre nós, como um de nós, para comunicar aos homens sua própria divindade; a caridade se reaviva, porque não existe sinal mais evidente do amor de Deus por nós que ver o Criador do universo tornar-se criatura, um de nós. Finalmente, considerando o mistério da Encarnação de Deus, sentimos inflamar-se nosso desejo de alcançar Cristo na glória. Dando um simples, mas eficaz exemplo, Santo Tomás observa: "Se o irmão de um rei estivesse longe, certamente ansiaria poder viver perto dele. Pois bem, Cristo é nosso irmão: devemos, portanto, desejar sua companhia, ser um só coração com Ele" (Opúsculos teológico-espirituais, Roma 1976, p. 64).
Apresentando a oração do Pai-Nosso, Santo Tomás mostra que esta é em si perfeita, tendo as cinco características que uma oração bem feita deveria ter: abandono confiado e tranquilo; conveniência do seu conteúdo, porque - observa Santo Tomás - "é muito difícil saber exatamente o que é oportuno pedir ou não, desde o momento em que temos dificuldade frente à seleção dos desejos" (ibid., p. 120); e, depois, ordem apropriada das petições, fervor de caridade e sinceridade da humildade.
Santo Tomás foi, como todos os santos, um grande devoto de Nossa Senhora. Ele a definiu com um apelativo estupendo: Triclinium totius Trinitatis, triclínio, isto é, lugar onde a Trindade encontra seu repouso, porque, pela Encarnação, em nenhuma criatura, como nEla, as três divinas pessoas inabitam e encontram delícia e alegria em viver em sua alma cheia de graça. Por sua intercessão, podemos obter toda ajuda.
Com uma oração, que tradicionalmente se atribui a Santo Tomás e que, em todo caso, reflete os elementos da sua profunda devoção mariana, também nós dizemos: "Ó beatíssima e dulcíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, (...) confio ao vosso coração misericordioso toda a minha vida (...). Alcançai, dulcíssima Senhora minha, caridade verdadeira, com a que possa amar com todo o coração vosso santíssimo Filho e a vós, depois dEle, sobre todas as coisas, e ao próximo em Deus e por Deus".

* Extraído do Site do Vaticano.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Cartas do P.e Aldo 150



Asunción, 20 de junho de 2010.

Caros amigos,
Hoje, completam-se 39 anos em que sou sacerdote e feliz. Feliz não por ser sacerdote, mas por ser totalmente de Cristo, por poder dizer todos os dias “Tu, meu Cristo”.
Nunca poderia ter imaginado o que Deus fez desse pouco de lama, no qual infundiu o sopro divino e, depois, fez reconhecer no batismo. Um nada que Deus usa para mostrar a Sua misericórdia a todos e, em particular, aos diversos “nadas” que estão pelo mundo, excluídos de tudo e perto da morte ou vítimas das piores violências.
Hoje, dois dos meus filhos (que são tantos) me fizeram festa... os meus filhinhos me comoveram com a sua ternura (hoje, aqui no Paraguai, celebra-se a festa de uma figura que não existe. Nós, porém, celebramos a festa da família)... particularmente Maria, a menina de 14 anos que, há três meses atrás, vivia e dormia na rua. Sozinha e abusada, chegou na parte da manhã, depois de ter sido surrada por jovens como ela. Suja, com uma mochilinha nas costas... Agora, é feliz. 
O pequeno Alberto, por sua vez, (vejam a foto), tem um ano e meio, pesa 7 kg, e é doente terminal, porque nasceu com dos rins sem funcionar, foi abandonado pela mãe... e, no entanto, vejam como é contente, como brinca. Somente um transplante poderia salvá-lo... Mas, como fazer isso aqui, onde a pobreza é grande...
Depois, veio Celeste... e depois, aquela mulher que toca violão e que tem um câncer que lhe comeu a parte direita da boca... e, no entanto, como cantava, hoje, para mim!
Amigos, esta é a virgindade: uma plenitude de paternidade, uma plenitude que se realiza enchendo de alegria os meus pacientes terminais e as minhas crianças.
Feliciano – que perdeu uma perna e tem uma ferida na outra que fede terrivelmente –, à minha pergunta, “Como está, Feliciano?”, respondeu: “Padre, o meu nome já diz tudo: estou felicíssimo”. “E a perna que lhe falta?” “Foi para junto do Senhor, e eu disse a ela: feliz viagem!” “E como está hoje, Feliciano?” “Padre, tranquilíssimo”. E, no entanto, tem os dias contados.
Amigos, “pode um homem velho renascer?”. Tudo aquilo que o Carrón nos diz eu vejo, instante depois de instante, em mim e em todos aqueles que sofrem e vivem comigo.
Confio-me às orações de vocês, para que eu seja capaz de levar a bom termo a minha missão. 39 anos de sacerdócio é muito e é uma graça única.
Padre Aldo
P.S.: nas fotos, o pequeno Alberto com uma enfermeira da clínica e a festa que fizeram para mim.

Como ler livros


Mais um lançamento imperdível da É Realizações: "Como ler livros", um clássico de Mortimer Adler. O lançamento será no próximo dia 25 de junho de 2010, a partir das 19h, no espaço cultural da É Realizações - a propósito, um lugar que precisa ser conhecido e frequentado -, que fica à Rua França Pinto, 498, na Vila Mariana. Na ocasião, o professor José Monir Nasser vai proferir uma palestra. Vale a pena!

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 7, 15-20
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: "Cuidado com os falsos profetas: Eles vêm até vós vestidos com peles de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes. Vós os conhecereis pelos seus frutos. Por acaso se colhem uvas de espinheiros ou figos de urtigas? Assim, toda árvore boa produz frutos bons, e toda árvore má, produz frutos maus. Uma árvore boa não pode dar frutos maus, nem uma árvore má pode produzir frutos bons. Toda árvore que não dá bons frutos é cortada e jogada no fogo. Portanto, pelos seus frutos vós os conhecereis".

Comentário feito por Santo Inácio de Antioquia (? - c. 110)
bispo e mártir 

Esforçai-vos por vos reunirdes com maior frequência para dar graças e louvar a Deus. Pois, quando vos reunis frequentemente, as forças de Satanás são derrubadas e os seus malefícios destruídos pela unanimidade da vossa fé. Nada supera a paz, que triunfa sobre todos os assaltos das potências celestes ou terrenas. Nada disto vos será desconhecido se tiverdes em Jesus Cristo uma fé e um amor perfeitos, que são o começo e o fim da vida: o começo é a fé, e o fim a caridade. As duas reunidas são Deus. Todas as outras virtudes que conduzem à perfeição procedem destas duas primeiras. Ninguém peca enquanto professa a fé; ninguém odeia enquanto possui a caridade. "A árvore conhece-se pelos seus frutos"; do mesmo modo, reconhece-se quem professa ser de Cristo pelas suas obras. Porque a obra que nos é pedida hoje não é uma simples profissão de fé, consiste em praticá-la até ao fim. Vale mais calar e ser, que falar sem ser. É bom ensinar, quando se faz o que se diz. Temos apenas um mestre, aquele que "disse e tudo foi feito" (Sl 32, 9); mesmo as obras que fez em silêncio são dignas de Seu Pai. Quem compreende verdadeiramente a palavra de Jesus pode entender também o Seu silêncio; será perfeito se agir conforme o que diz e será reconhecido pelo seu silêncio. Nada se oculta ao Senhor; até os nossos segredos Lhe são familiares. Por conseguinte façamos tudo pensando que Ele habita em nós; seremos assim templos Seus e Ele será em nós o nosso Deus. 

terça-feira, 22 de junho de 2010

De Arte Voluntatis


O "De Arte Voluntatis" também está de cara nova, pessoal! Depois de um mês sem atualização, retomei a tradução da obra do sacerdote jesuíta Juan Eusebio Nieremberg. Postei o Capítulo II do IV Prelúdio (do primeiro livro), hoje no final da manhã. Ajudem a divulgar!

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 7,6.12-14
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: "Não deis aos cães as coisas santas, nem atireis vossas pérolas aos porcos; para que eles não as pisem com os pés e, voltando-se contra vós, vos despedacem. Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. Nisto consiste a Lei e os Profetas. Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele! Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida! E são poucos os que o encontram! "

Comentário feito por São Vicente de Paulo (1581-1660)
presbítero, fundador de comunidades religiosas 

Qual é o primeiro ato do caridade? Que obras produz um coração por ela animado? Que sai de um coração assim, comparando com o de um homem desprovido de tal virtude? Há que fazer o bem a cada um, como com razoabilidade queríamos que assim nos fosse feito; nisto consiste o sumo da caridade. Faço verdadeiramente ao meu próximo aquilo que desejo que ele me faça? Ah, eis um grande exame a fazer. [...] Olhemos para o Filho de Deus: que coração de caridade, que chama de amor! Jesus, dizei-nos, por favor, o que Vos tirou do céu para virdes sofrer a maldição da Terra, as muitas perseguições e tormentos que aqui recebestes? Ó Salvador, ó fonte de amor, humilhado que fostes até à nossa condição, até um suplício infame! Quem mais amou o próximo, senão Vós? Viestes expor-Vos a todas estas nossas misérias, tomando a forma de pecador, levar um vida de sofrimento, e sofrer uma morte vergonhosa por nós. Haverá amor igual? [...] Só Nosso Senhor leva assim a tal ponto o Seu amor pelas criaturas, deixando o trono de Seu Pai para encarnar num corpo sujeito às enfermidades. E por quê? Para estabelecer entre nós, com o Seu exemplo e a Sua palavra, a caridade pelo próximo [...]. Ó meus amigos, se tivéssemos um pouco deste amor, deixar-nos-íamos ficar de braços cruzados? Oh, não! A caridade não é ociosa; ela incita-nos a lutar pela salvação e pela consolação dos outros. 

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 7, 1-5
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: "Não julgueis, e não sereis julgados. Pois, vós sereis julgados com o mesmo julgamento com que julgardes; e sereis medidos, com a mesma medida com que medirdes. Por que observas o cisco no olho do teu irmão, e não prestas atenção à trave que está no teu próprio olho? Ou, como podes dizer ao teu irmão: 'deixa-me tirar o cisco do teu olho', quando tu mesmo tens uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu próprio olho, e então enxergarás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão".

Comentário feito por Bem-aventurada Teresa de Calcutá (1910-1997)
fundadora das Irmãs Missionárias da Caridade 

Para cada doença existem vários medicamentos e tratamentos. Mas enquanto não se oferecer uma mão doce pronta a servir e um coração generoso pronto a acarinhar, não creio que se possa alguma vez curar esta terrível doença que é a falta de amor. Nenhum de nós tem o direito de condenar quem quer que seja. Nem quando vemos pessoas soçobrarem sem compreender porquê. Não nos convida Jesus a não julgar? Talvez tenhamos contribuído para tornar as pessoas como elas são. Devemos compreender que são nossos irmãos e nossas irmãs. Este leproso, este bêbado, este doente são nossos irmãos, também eles foram criados para um amor maior. Nunca deveríamos esquecê-lo. O próprio Jesus Cristo Se identifica com eles quando diz: "Aquilo que fizestes aos Meus irmãos mais humildes foi a Mim que fizestes" (Mt 25, 40). E pode acontecer que essas pessoas vivam na rua, desprovidas de qualquer amor e quaisquer cuidados, porque lhes recusamos a nossa solicitude, a nossa afeição. Sede doces, infinitamente doces para com o pobre que sofre. Compreendemos tão mal aquilo por que ele passa! O mais difícil é não ser aceito. 

sábado, 19 de junho de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 6,24-34
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: "Ninguém pode servir a dois senhores: pois, ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro. Por isso eu vos digo: não vos preocupeis com a vossa vida, com o que havereis de comer ou beber; nem com o vosso corpo, com o que havereis de vestir. Afinal, a vida não vale mais do que o alimento, e o corpo, mais do que a roupa? Olhai os pássaros dos céus: eles não semeiam, não colhem, nem ajuntam em armazéns. No entanto, vosso Pai que está nos céus os alimenta. Vós não valeis mais do que os pássaros? Quem de vós pode prolongar a duração da própria vida, só pelo fato de se preocupar com isso? E por que ficais preocupados com a roupa? Olhai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. Porém, eu vos digo: nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada no forno, não fará ele muito mais por vós, gente de pouca fé? Portanto, não vos preocupeis, dizendo: O que vamos comer? O que vamos beber? Como vamos nos vestir? Os pagãos é que procuram essas coisas. Vosso Pai, que está nos céus, sabe que precisais de tudo isso. Pelo contrário, buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações! Para cada dia, bastam seus próprios problemas."

Comentário extraído do Catecismo da Igreja Católica
§§ 302-305 

A criação tem a sua bondade e a sua perfeição próprias, mas não saiu totalmente acabada das mãos do Criador. Foi criada "em estado de caminho" (in statu viae) para uma perfeição última ainda a atingir e a que Deus a destinou. Chamamos divina Providência às disposições pelas quais Deus conduz a sua criação em ordem a essa perfeição. [...]:É unânime, a este respeito, o testemunho da Escritura: a solicitude da divina Providência é concreta e imediata, cuida de tudo, desde os mais insignificantes pormenores até aos grandes acontecimentos do mundo e da história. Os livros santos afirmam com veemência a soberania absoluta de Deus no decurso dos acontecimentos: "Tudo quanto Lhe aprouve, o nosso Deus o fez, no céu e na terra" (Sl 115, 3); e de Cristo se diz "que abre e ninguém fecha, e fecha e ninguém abre" (Ap 3, 7); e "há muitos projetos no coração do homem, mas é a vontade do Senhor que prevalece" (Pr 19, 21). [...] Jesus reclama um abandono filial à Providência do Pai celeste, que cuida das menores necessidades dos seus filhos: "Não vos preocupeis, dizendo: 'Que comeremos, que beberemos?' [...] O vosso Pai celeste bem sabe que tendes necessidade de tudo isso. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo" (Mt 6, 31-33).