sábado, 31 de julho de 2010

Cartas do P.e Aldo 154

Asunción, 29 de julho de 2010.

Caros amigos,
uma pessoa que era um mendigo, agora, desde que foi acolhido em nossa casa família (onde vivem aqueles que a polícia recolhe pelas calçadas), me disse: “Mediante a graça, encontrei Cristo e, assim, a desgraça se tornou uma graça”. Olhar para a realidade assim é experimentar a contemporaneidade de Cristo em cada pequena coisa. Como hoje, quando, saindo da redação do nosso semanário e olhando para o chão, vi um papel de bala e me dobrei dizendo: “Tu, ó meu Cristo”; o peguei e joguei no lixo. Dois passos mais à frente, se me apresenta a mesma cena, me dobro e ainda uma vez: “Tu, ó meu Cristo”; e o papel no lixo. E, como os papeizinhos são sempre frequentes no adro (por causa das crianças que estão aprendendo este método pouco a pouco), vocês podem imaginar o quanto tudo isso faz com que Cristo se torne familiar para mim. Mesmo o lixo, o arrumar bem o quarto, manter a casa em ordem, repetir até ao infinito para as minhas crianças sempre as mesmas coisas, tudo se torna Acontecimento.
Um abraço e boas férias,
Padre Aldo

Cícero ensina aos nossos políticos como aspirar à felicidade...

Por Laura Cioni

Num recente artigo publicado em Vita e Pensiero, Mary Ann Glendon expôs a concepção política de Cícero, exaltando a sua figura e redimensionando os juízos frequentemente maldosos sobre suas incoerências. A estudiosa evidencia, com seu artigo, a contribuição dada pelo orador romano para a manutenção da res publica em tempos em que esta se voltava perigosamente para a ditadura. A carreira de Cícero passou por frequentes e imprevistas mudanças de rota por prudência, segundo alguns, por oportunismo, segundo outros. Ele mesmo, em seu epistolário, reconhece ter falhado muitas vezes no viver à altura da sua visão política. Visão que é exposta com precisão bastante singular em uma obra que teve muito sucesso até a Idade Média e que se tornou o ponto alto da leitura em escolas: o Sonho de Scipião, última parte do vasto e em parte perdido Sobre a República. Trata-se de uma reflexão refinada sobre o homem, de uma imagem de indivíduo e de sociedade bastante empenhativa e atraente.
Cícero retoma a ideia platônica do corpo encarcerado na alma e com uma concretude bastante romana não desvaloriza o empenho na colaboração com uma vida o mais feliz possível na terra. Rejeita, por exemplo, o recurso ao suicídio como meio hipotético para alcançar a felicidade, por força do munus que cada homem recebe do deus que rege o universo: tal palavra, em latim, tem o duplo significado de dom e de tarefa a ser cumprida.
Ele afirma que não apenas os filósofos, uma vez que retornam ao deus que os gerou, podem viver felizes, mas todos aqueles que ajudaram, conservaram ou fizeram crescer a res publica também tem este privilégio. A sua obra é voltada para a classe dirigente de Roma, para as grandes famílias de senadores e de militares, num contexto que era, geralmente, incrédulo quanto a existência da vida ultraterrena. Cícero acrescenta que, para conquistar a imortalidade, é preciso cultivar a justiça e a piedade.
O romanos definem a justiça com expressões lapidares. Algumas podem ser lidas na fachada do tribunal de Milão: sumus ad iustitiam nati, neque opinione sed natura constitutum est ius (nascemos para a justiça e o direito foi estabelecido não pelo pensamento, mas pela natureza); iuris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribure (as normas do direito são estas: viver honestamente, não ultrajar o outro, dar a cada um o que é seu).
Por pietas o mundo latino entende o vínculo reconhecido que cada homem tem com a origem da vida, isto é, com os pais, com a pátria, com os deuses; ela gera atos que vão além do vínculo jurídico. Não cabe aqui se perguntar se e em que medida tais palavras foram honradas pelo mundo romano. É mais útil levar em consideração o fato de que elas foram cunhadas com um significado que, em sua grande parte, permaneceu o mesmo no nosso modo de pensar.
Outra palavra de Cícero muitas vezes repetida na obra, glória, induz a alguns esclarecimentos. Com essa palavra se indica certamente o sucesso pessoal, mas além disso a potência mesma da res publica de que os romanos são tão orgulhosos, porque de modo diverso todos contribuem para ela. E no entanto, no texto, o domínio romano que se estende por vastos territórios, visto da perspectiva do céu, é pequeno, risível quando se pensa na vastidão do universo e das terras ainda desconhecidas. Quanto à glória pessoal, Cícero escreve: “Diz-me sobre que valor se apoia a tua glória humana? Pode durar algo mais do que a pequena parte de um único ano? Se tu quiseres olhar mais para cima não deves te colocar sob a mercê das fofocas da massa nem deves medir teu destino a partir dos elogios que obténs dos homens. A bondade deve atingir, por si mesma, o próprio incentivo para a verdadeira glória”.
Uma concepção que, embora muitas vezes ignorada, produziu frutos duradouros. 

* Extraido do IlSussidiario.net, do dia 28 de julho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Para que o cérebro veja melhor basta tocar

Entrevista com Claudia Lunghi, feita por Daniele Banfi

Para ver é preciso também tocar? Ao que parece é exatamente assim. Alguns pesquisadores do Instituto de Neurociências do CNR (Consiglio Nazionale delle Ricerche - Conselho Nacional de Pesquisa) de Pisa e Milão (Istitute of Neuroscience - CNR) demonstraram como um sinal tátil é capaz de interagir com uma sinal visual tão logo as duas informações chegam ao cérebro. O estudo foi publicado na revista Current Biology. Para compreender os resultados da análise entrevistamos a doutora Claudia Lunghi, uma das autoras da pesquisa

Doutora Lunghi, no estudo que vocês fizeram, vocês declararam que a descoberta obtida sugere uma revisão dos modelos de base da fisiologia sensorial do cérebro. O que vocês descobriram que pode influenciar estes modelos de base?
No passado, sempre se pensou que os estímulos externos fossem antes elaborados nas áreas primárias do cérebro. Os sons na área auditiva, a vista na área do córtex visual primário e assim por diante. Na visão clássica, os sinais uma vez elaborados eram processados em áreas associativas para dar lugar àquilo a que chamávamos percepções multisensoriais. O que, pelo contrário, está vindo à tona nos recentes estudos é que estímulos visuais e táteis podem ser integrados mesmo sem ser percebidos conscientemente e que a integração pode acontecer já no nível dos primeiros estágios da elaboração visual, ou seja, no nível do córtex visual primário. O nosso estudo demonstra que a interação entre sinais multisensoriais pode acontecer já no nível das áreas primárias, isto é, tão logo as informações sensoriais chegam ao cérebro.

Como vocês realizaram os experimentos?
Para realizar a pesquisa, nos valemos do fenômeno da rivalidade binocular. Se duas imagens diversas são apresentadas ao mesmo tempo aos dois olhos, o cérebro entra em um estado de confusão. Ele não é capaz de combinar as duas imagens, como acontece normalmente quando vemos uma imagem apenas, mas as duas visões entram em competição alternando-se. Não obstante um olho veja uma imagem e o outro veja uma outra, a nossa percepção consciente é uma alternância das duas visões. No nosso estudo, provocamos este fenômeno fazendo com que as pessoas vissem uma grade horizontal com um olho e uma vertical com o outro. Neste ponto, obtida a rivalidade binocular, introduzimos um estímulo tátil. Este, se é congruente com o estímulo visual surpreendido durante a rivalidade binocular, é capaz de reforçar o sinal do estímulo visual a ponto de trazê-lo à consciência. Se o observador está vendo a grade horizontal mas toca uma grade vertical, na maior parte dos casos o domínio do horizontal será interrompido e o observador voltará a ver vertical. Portanto, um sinal tátil pode interagir com o visual mesmo quando este se encontra fora da consciência, demonstrando que a interação tem lugar já no nível do córtex visual primário.

Ter obtido estas informações, além de sugerir uma revisão dos modelos, pode levar a alguma aplicação prática?
A aplicação clínica não diz respeito estritamente à nossa pesquisa, mas o estudo que fizemos levou a novos conhecimentos sobre os mecanismos de plasticidade que se instauram depois de um dano sensorial como a cegueira. Nos cegos, de fato, o córtex visual primário é recrutado para a elaboração das informações táteis. Com a nossa pesquisa demonstramos que as conexões entre os córtex somatosensorial e visual não são criadas ex novo, mas são fornecidos naturalmente no sistema. Estas novas informações podem ser, no futuro, utilizadas por clínicos.

Como vocês pretendem dar prosseguimento aos estudos?
Agora, o objetivo principal é avaliar aquilo que acontece durante os experimentos com a ressonância magnética. Portanto, queremos ver se as medidas comportamentais que obtivemos correspondem a uma atividade aumentada no nível do córtex visual primário. Outro objetivo nosso é ver se o fenômeno de integração visual e tátil acontece também em crianças. Isto porque foi descoberto recentemente que até aos seis anos de idade a integração acontece de maneira diferente da dos adultos, até mesmo de maneira oposta.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 30 de julho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Comentário ao evangelho do dia

Santo Inácio de Loyola

Evangelho - Mt 14, 1-12
Naquele tempo, a fama de Jesus chegou aos ouvidos do governador Herodes. Ele disse a seus servidores: "É João Batista, que ressuscitou dos mortos; e, por isso, os poderes miraculosos atuam nele". De fato, Herodes tinha mandado prender João, amarrá-lo e colocá-lo na prisão, por causa de Herodíades, a mulher de seu irmão Filipe. Pois João tinha dito a Herodes: "Não te é permitido tê-la como esposa". Herodes queria matar João, mas tinha medo do povo, que o considerava como profeta. Por ocasião do aniversário de Herodes, a filha de Herodíades dançou diante de todos, e agradou tanto a Herodes que ele prometeu, com juramento, dar a ela tudo o que pedisse. Instigada pela mãe, ela disse: "Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João Batista". O rei ficou triste, mas, por causa do juramento diante dos convidados, ordenou que atendessem o pedido dela. E mandou cortar a cabeça de João, no cárcere. Depois a cabeça foi trazida num prato, entregue à moça e esta a levou para a sua mãe. Os discípulos de João foram buscar o corpo e o enterraram. Depois foram contar tudo a Jesus. 

Comentário feito por São Pedro Damião (1007-1072)
eremita e seguidamente bispo, Doutor da Igreja 

João foi Precursor de Cristo pelo nascimento, pela pregação, pelo batismo e pela morte. [...] Seremos capazes de descobrir uma única virtude, um só gênero de santidade que o Precursor não tenha possuído no mais alto grau? Entre os santos eremitas, nunca nenhum impôs a si mesmo esta regra de ter apenas por alimento mel silvestre, ao qual se junta essa coisa incomestível: gafanhotos! Alguns renunciam ao mundo e fogem dos homens para viver santamente, mas João era apenas uma criança [...] quando se adentrou no deserto e escolheu resolutamente viver em solidão. Renunciou a suceder a seu pai no cargo de sacerdote, a fim de poder anunciar com toda a liberdade o Pai verdadeiro e soberano. Os profetas predisseram antecipadamente a vinda do Salvador, os apóstolos e os outros mestres da Igreja atestam que essa vinda teve realmente lugar, mas João mostrou-O presente entre os homens. Muitos guardaram a virgindade e não sujaram a brancura das suas túnicas (cf. Ap 14, 4), mas João renunciou a toda a companhia humana, a fim de arrancar pela raiz os mais intensos desejos da carne e, cheio de fervor espiritual, viveu entre os animais selvagens. João preside ao próprio cerne do coração escarlate dos mártires, como mestre de todos eles: combateu valentemente pela verdade e morreu por ela. Tornou-se o chefe de todos aqueles que lutam por Cristo e, primeiro que todos eles, cravou no céu o estandarte triunfal do martírio.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Não será um "instante fugaz" que irá despertar nos jovens o interesse pelo verdadeiro

Por Luca Montecchi

A tradição dos estudos sobre a linguagem que se constituiu na Europa centro-ocidental desde o século XVII, com o seu racionalismo analítico aplicado ao estudo da gramática – conhecido como “logicismo” –, não prestou um grande serviço para a educação, especialmente a linguística, das crianças e dos jovens. A famosa, ou famigerada, “análise” gramatical, lógica, do período, imperou nas escolas francesas e, depois, nas alemãs e italianas, até há bem pouco tempo, impondo aos estudantes a ideia de que apenas depois da pontual decomposição dos elementos constituintes de uma frase, isto é apensa depois da análise cuidadosa, é que se pode dar a síntese – que equivale à compreensão lógica de um inteiro reconstruído depois da desconstrução.
Ninguém aqui quer duvidar do aspecto instrutivo e, até mesmo, formativo da prática analítica: ela induz ao discernimento, ao respeito (lógico) das diferenças, às gradações e às hierarquias dos planos; não é amiga, porém, da unidade sólida, do desenvolvimento de uma representação visual das coisas e das ideias, confinada ao restrito olimpo da mente culta não por causa da experiência sensível. Mas – e isso é o que mais conta –, a síntese nunca é o produto da análise, pelo contrário: esta é subordinada àquela, visto que o acontecimento do conhecimento, na medida em que é gradual, é sempre sintético, em virtude da natureza de sinal da realidade tanto física quanto imaterial.
Que a realidade seja sinal não é uma proposição abstrata ou um a priori da mente crédula: é razoável evidência que se atesta exatamente nos particulares. O particular, de fato, não exaure, por sua natureza, a necessidade de interesse e de significado que exprime, mas precisa de um significado ulterior a que, na verdade, se refere. É a mesma experiência que nos ensina a colocar as coisas em relação entre si, a estabelecer nexos, analogias, descobrir vínculos secretos (porém, nunca arbitrários ou mágicos) entre os objetos e as dimensões da vida, já que o homem não suporta a fragmentaridade como condição lógica e existencial permanente. E é sempre a experiência quem confirma que o detalhe, a especificidade, a analiticidade de tantos conteúdos didáticos é recebida tanto melhor quanto mais se mostra o nexo com tudo: a sua funcionalidade em relação ao todo e, ainda mais, a sua relevância e profundidade.
Uma longa premissa para declarar com quais olhos (e sem quais óculos) saboreei a lectio com a qual me comparei. O profundo, o imaginativo, o multiforme Pável Florenski é, como sempre, agudo ao empregar e calibrar os termos, mostrando a continuidade apenas parcial entre a lectio medieval e a “aula” [em italiano, se diz lezione, de forma que fica muito mais evidente a comparação que o autor quer fazer entre a "lectio" medieval, ou seja, a forma de se pensar a aula na Idade Média e a "lição" moderna, ou a forma como se pensa a aula contemporaneamente; ndt]. E sobretudo é genial quando declara, sem reticências ou rodeios que a aula – típica do gênero didático-literário – é um “ato de criação que se manifesta em todos os detalhes da... estrutura”. Com o que o linguista, cientista e teólogo ortodoxo declara precisamente que as palavras, que são parte mesmas do mundo real, têm um corpo (e uma alma) a descobrir, um peso semântico que nos constitui modificando a nossa autoconsciência e aprofundando a nossa capacidade de ação incidente (mas não subversiva) sobre o mundo.
Ao mesmo tempo, talvez em virtude da sua forma mentis de observador curioso e de mestre e, ainda mais, de crente que não encontra solução de continuidade entre fé e ciência, Florenski revela a grande distância que o separa do racionalismo linguístico francês ou do positivismo da filologia alemã, como também da nascente e afortunada teoria lingüística geral de Saussure, que olhava para a língua como se olha para um “sistema” puro de sinais impessoais, um código fechado que contém todos os potenciais significados das proposições humanas.
A posição assumida por Florenski é ao mesmo tempo antiga – clássica e medieval – e avançada: é a ideia de texto como lugar de possíveis significados que o autor executa numa relação ativa e interpretativa com a realidade. É a ideia de “ação lingüística”, que, movida por uma intenção amiga e curiosa ou problemática e interrogativa quanto ao outro de si, faz-se logos, discurso razoável que tem como objetivo dar-se conta e permitir dar-se conta da descoberta daquilo que existe. Se a realidade é criada, o texto é o ato – linguístico – que coopera com a criação, é invenção que revela o sentido das coisas, é, finalmente, participação para a comunidade dos homens da novidade entrevista.
Um texto é, porém, irredutível a “documento”, é muito mais um crisol de nós, de referências, de inferências, de imprevistos. É também o êxito documental de um processo lógico e afetivo e, ao mesmo tempo, o processo mesmo, no qual intervêm acontecimentos externos à mente do autor que interpelam a sua liberdade ou, se se quer, interpelam a sua capacidade hermenêutica. Não é por acaso que o relacionamento entre “o livro de texto e a aula” é exemplificado pela proporção análoga que se institui entre “o mecanismo e o organismo”: exato como um relógio ou um computador, o primeiro dos dois termos responde a um plano geral estabelecido pelo pensamento; a aula, pelo contrário, livre das fórmulas racionais fechadas, “como o ser vivo, desenvolve os próprios órgãos, respondendo, a cada vez, às exigências que se manifestam ao longo do tempo”.
O recurso insistente de Florenski a imagens representativas para restituir ao leitor a ideia o mais livre possível de aula – uma conversa, um passeio, livre da obsessão da meta programada – revela muitas coisas: 1) um genuíno e incansável desejo de indagar, de inspecionar o mundo com seu mistério incessante, sem outras restrições senão à negação da evidência ontológica e à manipulação da pessoa; 2) o seu (de Florenski) ser, de fato, além, bem além das barreiras epistemológicas que separam as “duas culturas”: um apenas, infinito e próximo, é o mistério da natureza, de tal forma que o olho do matemático e o olho do poeta se fundem num mesmo olhar; 3) uma vivacidade (enérgeia) do conhecer não apenas dentro do homem, mas compartilhada com todos aqueles que concorrem conosco na busca pela verdade ou, ainda melhor, no surpreendê-la nos detalhes que, continuamente, caem sob nossos sentidos, “como o vento que nunca para”.
Estamos nas antípodas do paradigma kantiano de ciência denunciado pelo filósofo francês Fabrice Hadjadj em A terra, estrada para o céu: “A ciência se reduz a uma fantasia, e a sua validade se mede através da coerência interna do seu discurso ou através da sua eficácia técnica. Não existe mais nenhuma verdade, já que é impossível se referir a uma realidade externa, mas apenas a uma multiplicidade de perspectivas, de solilóquios isolados, onde as palavras não desvelam e, pelo contrário, envolvem as coisas como um sudário nos carros fúnebres que são os nossos crânios”. Uma ciência assim não pode ser atraente para um jovem que deseja saber como as coisas são de verdade.
De minha parte, como professor e diretor já há bastante tempo, não posso não me identificar com a visão “larga” que Florenski dá acerca da aula, que eu definiria como “percurso da razão compartilhada”, atribuindo a “raciocinar” a acepção original de conversar, ou seja de se mover junto com outra pessoa para encontrar um acordo. Dito de outra forma, não existe pensamento puro, cindido da palavra comunicada, trocada, com meus semelhantes, para buscar encontrar o sentido das coisas que consistem, prescindindo da minha vontade: verum e verbum são parentes próximos. A aula entendida como um texto vivo, aliás aquilo que substancialmente “se faz texto”, também ilumina de sentido o asséptico  (permitam-me o trocadilho) livro de texto. Com dois esclarecimentos.
O primeiro: numa boa aula, cujo primeiro objetivo é fazer com que a audiência entenda do que se trata, não tem nada de aleatório nem de casual, nem mesmo quando o professor faz uma pausa e se prolonga ou retrocede ou abre digressões (e o fará com o devido tato), levado a incutir aquela energia cognoscitiva que o apaixona. Enfim, há, no docente, ou melhor, no mestre a diligência a afinar nos alunos aquilo a que eu chamaria de “inteligência do olhar”, que é o motor extraordinário da inteligência tout court – e tal moto perpetuo, na medida em que é esperado e solicitado, é a cada vez, para mim que ensino, um êxito surpreendente e um excedente às minhas expectativas. Sob esse ponto de vista, a aula é um texto mais rico do que um manual de escola – que, necessariamente, é depurado de todo elemento que desvie do rigoroso procedimento argumentativo –, porque realiza, através do corpo e da voz, a solda entre o intelecto e o afeto que chega ao coração, isto é, à pessoa inteira. Na educação, o sentido convencionado conferido ao célebre adágio verba volant, scripta manent, é virado pelo avesso.
Segundo esclarecimento. Nada de mais verdadeiro do que aquilo que Florenski disse acerca do efeito produzido por uma aula ou por um ciclo de aulas, ou seja o formar-se de uma autêntica mentalidade científica ou, como mais corretamente escreve o autor, “iniciar a audiência no processo do trabalho científico, introduzi-la à criação científica”. E tal resultado se obtém sem falta, quando o mestre, uma vez tendo conseguido fazer compreender a correspondência entre a coisa e o eu do aluno – o que se chama interesse –, pode, com a leveza e a liberdade contemplativa do viandante que caminha por bosques em busca de cogumelos, se debruçar sobre particulares e sobre os contornos dos objeto estudado, seja ela material (um mineral) ou invisível (um problema de direito público), confirmando-se a eficácia da sabedoria pedagógica que, desde a Idade Média, revelou: non multa (studere) sed multum – não tantas coisas, mas por muito tempo e intensamente.
Lembro-me bem de ter dado uma representação da aula unilateral ou unidirecional, a parte docentis. De repente, me corriji: a sala de aula não é um agregado de ovelhas desprovido e necessitado de um pastor que o conduza; ao contrário, é uma comunidade de pessoas únicas, originais e que não se encontra em outros lugares, com um traço distintivo que os acomuna: o desejo pelo verdadeiro que, uma vez aceso e imergido no misterioso dinamismo da descoberta e do encontro daquilo que existe mas não vemos ou ouvimos, literalmente se desencadeia numa enormidade impetuosa de perguntas, reflexões, avaliações, novas interrogações, apelos, que não dão trégua ao professor. Então, sim, a aula se transforma em um laboratório contínuo, em um work progress, que, de fato, não é possível encontrar na ficção cinematográfica, já que irreal, do mago professor Keating [o autor se refere ao professor protagonista do filme Sociedade dos Poetas Mortos; daí, inclusive, a referência a "instante fugaz" do título deste artigo, visto que a máxima que está sempre na boca do referido professor é "carpe diem"; ndt], mas se torna experiência factual, mesmo que secreta porque nunca chega à ribalta midiática, lá onde existem escolas cujos docentes aceitam sacrificar o próprio orgulho (frustrado, invariavelmente) para se disporem ao serviço do conhecimento e ao cuidado com a razão dos jovens.
Pelo caminho indicado, onde o mestre seja, de fato, alguém dedicado a compartilhar com os alunos um itinerário de studium, de amor atento e paciente pelas coisas, e tenha deixado crescer e amadurecer neles não apenas as técnicas e as astúcias dialéticas e calculadoras, mas a agudeza do olhar e as categorias de juízo, então assistiremos àquilo que os teóricos da lingüística e da semiótica chamam “efeito feedback”: a contribuição, real e não pro forma ou fictícia, que o discípulo fornece para a elaboração crítica e consciente de um saber disciplinar que super o limite escolar, faz-se ciência seriamente e, sobretudo, ajuda a construir o edifício do conhecimento, ajuda a viver com incansável confiança cada instante da vida (Que é belo ver como vai acabar...).

* Extraído do IlSussidiario.net, do di 28 de julho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Cartas do P.e Aldo 153

Asunción, 27 de julho de 2010.

Caros amigos,
como é belo e reconfortante ouvir um doente terminal que diz ao médico: "Doutor, diga-me o que eu tenho, porque é Deus que me deu a vida e será Deus quem decidirá a hora para eu voltar a Ele. Assim, me preparo bem e volto para a minha casinha, onde esperarei que o Senhor me leve".
Amigos, este milagre é possível para cada um de nós, desde que vivamos na certeza de que cada um é "eu sou Tu que me fazes".
Com afeto,
Padre Aldo

Nota: Toda quarta-feira, nós nos encontramos com todos os especialistas da clínica - ou seja, todos aqueles que têm alguma função junto aos pacientes - e vemos cada paciente na sua totalidade. É uma verdadeira Escola de Comunidade, da qual a pessoa volta para casa com a santa inquietude que faz estar diante do Mistério, comovido. O testemunho acima foi dado pelo médico responsável pela clínica durante o encontro de hoje.

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Jo 11, 19-27
Naquele tempo, muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão. Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. Então Marta disse a Jesus: "Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele to concederá". Respondeu-lhe Jesus: "Teu irmão ressuscitará". Disse Marta: "Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia". Então Jesus disse: "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?". Respondeu ela: "Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo".

Comentário feito por Santo Agostinho (354-430)
Bispo de Hipona (Norte de África) e Doutor da Igreja 

"Quem crê em Mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em Mim não morrerá para sempre". Que quer isto dizer? "Quem crê em Mim, mesmo que tenha morrido como Lázaro, viverá", porque Deus não é um Deus de mortos mas um Deus de vivos. Já a propósito de Abraão, de Isaac e de Jacob, os patriarcas há muito mortos, Jesus tinha dado aos judeus a mesma  resposta: "Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob; não um Deus dos mortos, mas dos vivos, porque para Ele todos estão vivos" (cf. Lc 20, 38). Por isso, crê e, mesmo que estejas morto, viverás! Mas se não crês, mesmo que estejas vivo, na verdade estás morto. [...] De onde vem a morte da alma? Vem do fato de a fé já lá não estar. De onde vem a morte do corpo? Vem do fato de a alma já lá não estar. A alma da tua alma é a fé. "Quem crê em Mim, mesmo que tenha morrido no seu corpo, terá a vida na sua alma até que o próprio corpo ressuscite para nunca mais morrer. E quem vive na sua carne e crê em Mim, embora tenha de morrer durante algum tempo no seu corpo, não morrerá para a eternidade, devido à vida do Espírito e à imortalidade da ressurreição". É isto que Jesus quer dizer na Sua resposta a Marta. [...] "Crês isto?" "Sim, ó Senhor, respondeu ela, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo. E, acreditando nisto, acreditei que és a ressurreição, acreditei que és a vida, acreditei que aquele que crê em Ti, mesmo que morra, viverá; acreditei que quem está vivo e crê em Ti não morrerá para a eternidade."

Dois artigos censurados de D. Bergonzini

Após ter seus textos censurados no site da CNBB por se opor às políticas pró-aborto do PT e de outros partidos, o MSM publica dois artigos de Dom Luiz Gonzaga Bergonzini.

Nota de William Murat, editor do blog Contra o Aborto: Como parece que a CNBB agora está com o péssimo hábito de retirar de seu site artigos que não se encaixam no ideário que por lá dá as cartas, achei por bem reproduzir abaixo um outro artigo de D. Luiz Gonzaga Bergonzini sobre o aborto e o PT, o partido do aborto, e que foi publicado originalmente na Folha Diocesana, jornal da Diocese de Guarulhos e que consta no site da CNBB Regional Sul I.
Dom Bergonzini, ao contrário de alguns de seus irmãos no episcopado nacional, não tem papas na língua para denunciar o abortismo do PT ou de outros candidatos. E nem adianta a CNBB retirar ou censurar artigos dos bispos, pois o que não vai faltar é blog para publicar artigos como o abaixo.

Nota do editor do Mídia Sem Máscara: O MSM também recebeu a denúncia de censura aos artigos de Dom Bergonzini, e publica, logo abaixo de 'O PT e o aborto', o artigo 'Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus'.


O PT e o aborto
Dom Luiz Gonzaga Bergonzini

No site do PT (http://www.pt.org.br/site/secretarias) pode-se ler a moção apresentada pela Secretaria Nacional de Mulheres e aprovada pela maioria dos delegados e delegadas do 13° Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores (08-05-06).
Se é justo que todos tenhamos um "posicionamento firme contra todas as injustiças e discriminações a que estão submetidas às mulheres na sociedade", o que corresponde também às exigências de justiça do Evangelho, fazer disso um pretexto para levantar a bandeira da descriminalização do aborto é absurdo, incoerente e não corresponde à realidade.
Absurdo, porque, em nome da defesa da vida das mulheres que morrem por causa do aborto clandestino, se esquece completamente que o feto e o embrião, sacrificados no aborto, são também indivíduos humanos merecedores de todo o nosso respeito a começar pelo respeito à vida. Todas as vidas têm igual valor. Não existem vidas mais dignas e menos dignas. Aceitar esta distinção seria aceitar uma tremenda discriminação, contra a qual justamente o movimento feminista se insurge.
Incoerente, por dois motivos. O primeiro: pelo fato que fetos e embriões são também homens e mulheres já sexualmente definidos e a metade dos fetos e embriões abortados são de mulheres. Daí a incoerência desta moção que em nome do feminismo vai contra as próprias mulheres, a não ser que segundo as feministas, mulher é só quem seja adulta e sexualmente ativa, introduzindo assim uma discriminação a mais, que elas dizem combater. Segundo motivo: em nome da liberdade de decisão da mulher prejudica-se as próprias mulheres que praticam o aborto. O aborto, mesmo em caso de violência sexual e praticado nas melhores condições de assistência médica, é sempre prejudicial para a saúde psíquica da mulher, constituindo-se numa derrota de sua auto-estima, e ela carregará este trauma pelo resto da vida. Estatísticas de atestados de óbito mostram como, dentro do prazo de um ano do parto ou do aborto provocado, o número de suicídios das mulheres que provocaram o aborto é sete vezes maior do que o número de suicídios de mulheres que deram à luz. Que ajuda é esta que as feministas querem dar às mulheres, quando a própria psiquiatria moderna, alemã e italiana, aconselha para o bem estar psíquico da mulher a não interromper a gravidez, mesmo em caso de violência sexual?
Não corresponde à verdade. De fato se fala de milhares de mulheres que morrem em conseqüência do aborto mal feito, quando o Ministério da Saúde registrou nos últimos anos uma diminuição constante destas mortes, de 198 em 1995 descendo para 115 em 2002 [Nota do Blog: Na verdade, este número é ainda menor, o que pode ser visto aqui]. Não é verdade que a descriminalização do aborto é causa direta da diminuição das mortes maternas. Causa direta desta diminuição é a assistência à gravidez ao parto e ao puerpério. De fato, Chile, Costa Rica e Uruguai, onde o aborto é proibido, tem uma mortalidade materna inferior à de Cuba, onde morrem 33 mulheres a cada 100.000 nascidos vivos e onde o aborto é legalizado há mais de trinta anos. Assim também Portugal, Irlanda e Polônia, onde o aborto é proibido, tem mortalidade materna inferior à dos EUA e da Inglaterra, onde o aborto é legalizado há muitos anos.
Mas a parte pior da moção em questão é que se exige que os parlamentares do PT (ao todo 14), que integram a Frente Parlamentar em Defesa da Vida - Contra o Aborto, retirem seu nome desse movimento. Aí aparece o rosto autoritário do PT, que respeita a liberdade de consciência quando esta não vai contra os planos do partido (pode-se votar contra o aborto quando o voto não muda os projetos do partido mas nunca quando este voto poderia prejudicar os planos partidários). De fato, nenhum membro do PT ousou apresentar, até hoje, um projeto de lei que proíba o aborto ou que fortaleça a família. Concluindo, fazemos nossas as considerações que apareceram num estudo publicado em 2002 no site do Providafamília de Brasília: abortistas encontramos em todos os partidos da direita e da esquerda... A diferença é que os demais partidos têm abortistas, enquanto o PT é abortista. Sendo esta a posição do PT, é bom lembrar a recomendação do Apocalipse aos cristãos que moravam em Babilônia (ou seja em Roma): "Saí dela (no nosso caso dele), ó meu povo, para que não sejais cúmplices dos seus pecados (no nosso caso do desrespeito à vida e aos direitos humanos fundamentais, entre os quais o respeito à liberdade de consciência)" (Ap 18,4).
Fazemos votos que, em se tratando de uma moção, a direção do partido corrija os absurdos nela contidos e, de qualquer forma, parabenizamos os 14 deputados petistas, que integram a Frente Parlamentar em Defesa da Vida e Contra o Aborto, pela sua coerência e coragem.

Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus
Dom Luiz Gonzaga Bergonzini
(Publicado na segunda-feira 19 de julho, no site da CNBB, mas retirado do ar).

Com esta frase Jesus definiu bem a autonomia e o respeito, que deve haver entre a política (César) e a religião (Deus). Por isto a Igreja não se posiciona nem faz campanha a favor de nenhum partido ou candidato, mas faz parte da sua missão zelar para que o que é de "Deus" não seja manipulado ou usurpado por "César" e vice-versa.
Quando acontece essa usurpação ou manipulação é dever da Igreja intervir convidando a não votar em partido ou candidato que torne perigosa a liberdade religiosa e de consciência ou desrespeito à vida humana e aos valores da família, pois tudo isso é de Deus e não de César. Vice-versa extrapola da missão da Igreja querer dominar ou substituir-se ao estado, pois neste caso ela estaria usurpando o que é de César e não de Deus.
Já na campanha eleitoral de 1996, denunciei um candidato que ofendeu pública e comprovadamente a Igreja, pois esta atitude foi uma usurpação por parte de César daquilo que é de Deus, ou seja o respeito à liberdade religiosa.
Na atual conjuntura política o Partido dos Trabalhadores (PT) através de seu IIIº e IVº Congressos Nacionais (2007 e 2010 respectivamente), ratificando o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3) através da punição dos deputados Luiz Bassuma e Henrique Afonso, por serem defensores da vida, se posicionou pública e abertamente a favor da legalização do aborto, contra os valores da família e contra a liberdade de consciência.
Na condição de Bispo Diocesano, como responsável pela defesa da fé, da moral e dos princípios fundamentais da lei natural que - por serem naturais procedem do próprio Deus e por isso atingem a todos os homens -, denunciamos e condenamos como contrárias às leis de Deus todas as formas de atentado contra a vida, dom de Deus,como o suicídio, o homicídio assim como o aborto pelo qual, criminosa e covardemente, tira-se a vida de um ser humano, completamente incapaz de se defender. A liberação do aborto que vem sendo discutida e aprovada por alguns políticos não pode ser aceita por quem se diz cristão ou católico. Já afirmamos muitas vezes e agora repetimos: não temos partido político, mas não podemos deixar de condenar a legalização do aborto. (confira-se Ex. 20,13; MT 5,21).
Isto posto, recomendamos a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a que não dêem seu voto à Senhora Dilma Rousseff e demais candidatos que aprovam tais "liberações", independentemente do partido a que pertençam.
Evangelizar é nossa responsabilidade, o que implica anunciar a verdade e denunciar o erro, procurando, dentro desses princípios, o melhor para o Brasil e nossos irmãos brasileiros e não é contrariando o Evangelho que podemos contar com as bênçãos de Deus e proteção de nossa Mãe e Padroeira, a Imaculada Conceição.

* Extraído do Mídia Sem Máscara, do dia 24 de julho de 2010.

O homem eterno

De toda a extensa obra de G. K. Chesterton, O homem eterno assinala sua criação mais surpreendente. A história da humanidade recontada de forma brilhante, a partir de duas particularidades que se complementam: a criatura chamada homem e o homem chamado Cristo.
Com sua prosa peculiar e seu humor britânico certeiro, Chesterton delicia o leitor com seu raciocínio envolvente e provocativo. Sua obra aponta para os críticos da religião e, em especial, para os críticos do cristianismo. Para ele a visão míope do ateísmo aliada a uma forte dose de conceitos preestabelecidos impedem que se compreenda a fascinante ação de Deus na história.
Dividido em duas partes, O homem eterno traça um esboço da principal aventura da humanidade e a real diferença que se instaurou quando ela se tornou cristã. Mensagem envolvente que impulsionou C.S.Lewis, autor de As Crônicas de Nárnia, a abandonar o ateísmo e aventurar-se na jornada proposta por Chesterton.

Onde comprar: Editora Mundo Cristão.
Valor: R$ 24,90.
ISBN: 978-85-7325-590-4
Páginas: 320 p.
Ano: 2010.

* Texto extraído do site da Editora Mundo Cristão.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 13, 44-46
Naquele tempo, disse Jesus à multidão: "O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola".

Comentário feito por São Boaventura (1221-1274)
franciscano, Doutor da Igreja 

Dentre os dons espirituais recebidos da generosidade de Deus, Francisco obteve em particular o de enriquecer constantemente o seu tesouro de simplicidade graças ao seu amor pela extrema pobreza. Vendo que aquela que tinha sido a companheira habitual do Filho de Deus se tornara, nessa altura, objeto de uma aversão universal, tomou a peito desposá-la e devotou-lhe um amor eterno. Não satisfeito em "deixar por ela pai e mãe" (cf. Gn 2, 24), distribuiu pelos pobres tudo o que pudesse ter (cf. Mt 19, 21). Nunca ninguém guardou tão ciosamente o seu dinheiro como Francisco guardou a sua pobreza; nunca ninguém vigiou o seu tesouro com maior cuidado do que o que ele colocou em guardar esta pérola de que fala o Evangelho. Nada o magoava mais do que encontrar junto dos seus irmãos qualquer coisa que não fosse perfeitamente conforme à pobreza dos religiosos. Pessoalmente, desde o princípio da sua vida como religioso até à morte, não teve senão uma túnica, uma corda a servir de cinto e umas bragas como única riqueza; não precisava de mais nada. Acontecia-lhe muitas vezes chorar ao pensar na pobreza de Cristo Jesus e na de Sua Mãe. Dizia ele: "Aqui está a razão pela qual a pobreza é a rainha das virtudes: pelo esplendor com que brilhou no 'Rei dos reis' (1Tm 6, 15) e na Rainha Sua Mãe". Quando os irmãos lhe perguntaram um dia qual era a virtude que nos torna mais amigos de Cristo ele respondeu abrindo-lhes, por assim dizer, o segredo do seu coração: "Sabei, irmãos, que a pobreza espiritual é o caminho privilegiado para a Salvação, visto que é a seiva da humildade e a raiz da perfeição; os seus frutos são incontáveis, embora escondidos. Ela é esse 'tesouro escondido num campo', do qual nos fala o Evangelho, pelo qual é necessário vender tudo o resto e cujo valor deve impelir-nos a desprezar todas as outras coisas".
Evangelho - Mt 13, 44-46
Naquele tempo, disse Jesus à multidão: "O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola".

Comentário feito por São Boaventura (1221-1274)
franciscano, Doutor da Igreja 

Dentre os dons espirituais recebidos da generosidade de Deus, Francisco obteve em particular o de enriquecer constantemente o seu tesouro de simplicidade graças ao seu amor pela extrema pobreza. Vendo que aquela que tinha sido a companheira habitual do Filho de Deus se tornara, nessa altura, objeto de uma aversão universal, tomou a peito desposá-la e devotou-lhe um amor eterno. Não satisfeito em "deixar por ela pai e mãe" (cf. Gn 2, 24), distribuiu pelos pobres tudo o que pudesse ter (cf. Mt 19, 21). Nunca ninguém guardou tão ciosamente o seu dinheiro como Francisco guardou a sua pobreza; nunca ninguém vigiou o seu tesouro com maior cuidado do que o que ele colocou em guardar esta pérola de que fala o Evangelho. Nada o magoava mais do que encontrar junto dos seus irmãos qualquer coisa que não fosse perfeitamente conforme à pobreza dos religiosos. Pessoalmente, desde o princípio da sua vida como religioso até à morte, não teve senão uma túnica, uma corda a servir de cinto e umas bragas como única riqueza; não precisava de mais nada. Acontecia-lhe muitas vezes chorar ao pensar na pobreza de Cristo Jesus e na de Sua Mãe. Dizia ele: "Aqui está a razão pela qual a pobreza é a rainha das virtudes: pelo esplendor com que brilhou no 'Rei dos reis' (1Tm 6, 15) e na Rainha Sua Mãe". Quando os irmãos lhe perguntaram um dia qual era a virtude que nos torna mais amigos de Cristo ele respondeu abrindo-lhes, por assim dizer, o segredo do seu coração: "Sabei, irmãos, que a pobreza espiritual é o caminho privilegiado para a Salvação, visto que é a seiva da humildade e a raiz da perfeição; os seus frutos são incontáveis, embora escondidos. Ela é esse 'tesouro escondido num campo', do qual nos fala o Evangelho, pelo qual é necessário vender tudo o resto e cujo valor deve impelir-nos a desprezar todas as outras coisas".

terça-feira, 27 de julho de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 13, 36-43
Naquele tempo: Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: "Explica-nos a parábola do joio!" Jesus respondeu: "Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifadores são os anjos. Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: o Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; e depois os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça".

Comentário feito por Bem-aventurada Teresa de Calcutá (1910-1997)
fundadora das Irmãs Missionárias da Caridade 

Não existem dois mundos, o mundo físico e o mundo espiritual; há apenas um: o Reino de Deus, "na Terra como no céu" (Mt 6, 10). Muitas pessoas dizem: "Pai Nosso que estais no céu", e pensam que Deus está lá em cima, o que reforça a ideia de uma separação entre os dois mundos. Os ocidentais gostam de distinguir a matéria do espírito. Mas a verdade é só uma, e o mesmo acontece com a realidade. Desde o momento em que admitimos a encarnação de Deus, que para os cristãos se realiza na pessoa de Jesus Cristo, começamos a levar as coisas a sério.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Cartas do P.e Aldo 152



Asunción, 23 de julho de 2010.

Caros amigos,
“Sião dizia: ‘O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-me!’. Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E MESMO QUE ELA O ESQUECESSE, EU NÃO TE ESQUECERIA NUNCA” (Is 49, 14-15).
Eis, amigos, a última filha que me foi dada. Abandonada pela mãe (acreditamos que seja uma menina) perto de um arbusto numa praça. Garotos que brincavam, vendo algo que se mexia dentro de um saco de lixo, com um pedaço de pau (pensando que dentro do saco tivesse algum animal) tocaram e moveram o saco... e tiveram esta surpresa. Já faz 10 dias que está conosco. Meu Deus: “Se não fóssemos TEUS seríamos criaturas finitas”; ou melhor: pedras.
E vejam que comoventes as palavras de Isaías que recitamos nas Laudes do sábado! De fato, a minha única alegria, toda a consistência da minha vida, toda a força necessária para não morrer com o “coração partido”, está nas palavras do profeta. Não posso viver um instante sem olhar no rosto estas palavras. De outra forma, não resistiria, não daria conta. Somos, de verdade, malvados sem Jesus.
“Eu sou Tu que me fazes”. Amigos, ou isto é o conteúdo do nosso eu, ou arriscamos nos tornar pedras – talvez na praia, nessa época do ano, para tomar sol... mas pedras. A pequena Maria Vitória Milagres (este é o nome programático que eu lhe coloquei) comove o nosso coração porque é a evidência do milagre, da vitória de Cristo sobre o mal. E, por isso, o primeiro nome é Maria, que, para mim, recorda toda a minha história e as três pessoas mais caras que são o coração desta grande história, na qual a paixão e a morte de Cristo convivem cada dia com a beleza da Ressurreição. Amigos... mas, que história é essa de “problemas”: Cristo ressuscitou e o meu bebê grita isso para todos. Olhem para ela, comovidos porque é o sinal potente da vitória de Cristo.
Boas férias,
mas com Maria Vitória Milagres nos olhos.
Padre Aldo

Comentário ao evangelho do dia

Santos Joaquim e Ana

Mateus 13, 31-35. 
Jesus propôs-lhes outra parábola: "O Reino do Céu é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. É a mais pequena de todas as sementes; mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto e transforma-se numa árvore, a ponto de virem as aves do céu abrigar-se nos seus ramos". Jesus disse-lhes outra parábola: "O Reino do Céu é semelhante ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até que tudo fique fermentado". Tudo isto disse Jesus, em parábolas, à multidão, e nada lhes dizia sem ser em parábolas. Deste modo cumpria-se o que fora anunciado pelo profeta: Abrirei a minha boca em parábolas e proclamarei coisas ocultas desde a criação do mundo.

Comentário feito por São João Crisóstomo (c. 345-407)
presbítero em Antioquia, depois Bispo de Constantinopla, Doutor da Igreja 

O Senhor apresenta a seguir a imagem do fermento: [...] da mesma forma que este fermento transmite a sua força à massa da farinha, também vós transformareis o mundo inteiro. [...] Não levanteis objeções, dizendo: Que podemos fazer, nós que somos apenas doze, no meio de tão grande multidão? Aquilo que demonstrará o brilho do vosso poder será precisamente o fato de enfrentardes a multidão sem recuar. [...] É Cristo que dá ao fermento o poder que ele tem: Ele misturou na multidão aqueles que tinham fé nEle, para que comuniquemos os nossos conhecimentos uns aos outros. Não Lhe censuremos, pois, o pequeno número dos Seus discípulos, pois o poder da mensagem é enorme; e, quando a massa tiver fermentado, tornar-se-á fermento para o resto. [...] Mas se doze homens fermentaram a terra inteira, que maus somos nós que, apesar de sermos em número considerável, não conseguimos converter os que nos rodeiam, quando tal número deveria ser suficiente para ser fermento de milhares de mundos! – Mas estes doze, dizeis vós, eram os Apóstolos! – E depois? Não estavam nas mesmas condições que nós? Não habitavam também nas cidades? Não partilhavam também o nosso destino? Não exerciam também uma profissão? Seriam anjos descidos do céu? Dizeis que eles fizeram milagres? Mas não é por isso que os admiramos. Até quando falaremos dos seus milagres para esconder a nossa preguiça? [...] – Então de onde vem a grandeza dos Apóstolos? – Do seu desprezo pelas riquezas, de seu desdém pela glória. [...] É a maneira de viver que dá o verdadeiro brilho e que faz descer a graça do Espírito Santo.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O Papa explica os apóstolos

Por Julián Carrón

As estradas da Galileia são o cenário de fundo das aventuras descritas no livro Os amigos de Jesus, texto que recolhe trechos tirados das catequeses de Bento XVI, nas audiências gerais das quartas-feiras, dedicadas aos apóstolos e a São Paulo. O livro, destinado principalmente ao público infanto-juvenil, é enriquecido com ilustrações de Franco Vignazia. Publicamos a introdução assinada pelo presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação e intitulada "Um encontro que muda a vida. 'Vinde e vede'"

Existe um pequeno grupo de homens que, um dia, dois mil anos atrás, encontrou um jovem que caminhava pelas estradas da Galileia, no Oriente Médio. Cada um tinha o seu próprio trabalho e a sua própria família, mas houve um instante em que toda a vida deles mudou. Chamavam-se André e João, Pedro, Mateus, Tomé... Eram doze e nós, hoje, os conhecemos como os "apóstolos". Um deles, depois, o traiu e no seu lugar foi escolhido Matias.
Naquela época, em Jerusalém, todos sabiam que eram os "amigos" de Jesus. Viam-nos indo de vilarejo em vilarejo, sempre seguindo o seu mestre, em tudo aquilo que Ele fazia.
A eles se juntou Paulo. O seu encontro aconteceu de um modo muito estranho: enquanto viajava para a cidade de Damasco, ouviu a voz de Jesus que lhe perguntava: "Por que me persegues?". Ficou tão chocado que caiu do cavalo; daquele momento em diante a sua vida mudou totalmente e, de perseguidor de cristãos, se tornou a maior testemunha de Jesus. Viajou muito para contar a todos aquilo que lhe havia acontecido.
Bento XVI é o sucessor de Pedro, para quem Jesus deu a tarefa de guiar a Igreja como primeiro Papa. Este livro ilustrado recolhe alguns trechos dos seus encontros de quarta-feira, em Roma, com os peregrinos, encontros que se chamam "Audiências Gerais", dedicadas aos doze apóstolos e a São Paulo.
O Papa nos pega pela mão e nos acompanha no rumo da descoberta de quem eram os primeiros companheiros de Cristo, como O encontraram e como foram conquistados por Ele até o ponto de decidirem não O abandonar nunca mais.
O Papa nos leva para dois mil anos atrás e nos faz testemunhar aquilo que Jesus disse e fez com aqueles homens: leva-nos às margens do rio Jordão, junto a João Batista que batizou Jesus, quando André e João Lhe perguntaram onde ele estava morando e escutaram a resposta: "Vinde e vede". Ou então, nos transporta até uma manhã de primavera, na beira do lago de Tiberíades, onde Jesus perguntou a Pedro "Tu me amas?", e nos faz escutar a sua resposta, repetida outras vezes: "Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que eu Te amo".
Bento XVI, falando de João, o discípulo mais novo e predileto, aquele que, na Última Ceia, apoiou a cabeça no peito de Jesus, diz: "O Senhor nos ajude a aprender com João, de tal forma que nos sintamos amados por Cristo 'até ao fim'  e gastemos a vida por Ele".

* Texto extraído do jornal L'Osservatore Romano, do dia 21 de julho de 2010 (p. 6). Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Comentário ao evangelho do dia

Santa Maria Madalena

Evangelho - Jo 20, 1-2.11-18
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: "Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram".  Maria estava do lado de fora do túmulo, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se e olhou para dentro do túmulo. Viu, então, dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Os anjos perguntaram: "Mulher, por que choras?". Ela respondeu: "Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram". Tendo dito isto, Maria voltou-se para trás e viu Jesus, de pé. Mas não sabia que era Jesus. Jesus perguntou-lhe: "Mulher, por que choras? A quem procuras?". Pensando que era o jardineiro, Maria disse: "Senhor, se foste tu que o levaste dize-me onde o colocaste, e eu o irei buscar". Então Jesus disse: "Maria!". Ela voltou-se e exclamou, em hebraico: "Rabunni" (que quer dizer: Mestre). Jesus disse: "Não me segures. Ainda não subi para junto do Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus". Então Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: "Eu vi o Senhor!", e contou o que Jesus lhe tinha dito. 

Comentário feito por Santo Agostinho (354-430)
Bispo de Hipona (Norte de África) e Doutor da Igreja 

"Jesus disse-lhe: Não Me detenhas, pois ainda não subi para o Pai." Estas palavras contêm uma verdade que devemos examinar com muita atenção. Jesus ensina a fé a esta mulher que O tinha reconhecido como mestre e Lhe dera esse título. O divino jardineiro semeou uma semente de mostarda no coração de Maria Madalena, como num jardim. [...] Que significa pois: "Não Me detenhas, pois ainda não subi para o Pai"? [...] Com estas palavras, Jesus quis que a fé que se tem Nele, fé pela qual Lhe tocamos espiritualmente, chegue a ponto de acreditarmos que Ele e o Pai são um (Jo 10, 30). Porque aquele que progride nEle até reconhecer que é igual ao Pai sobe de algum modo até ao Pai no segredo da sua alma. De outro modo, não se toca Cristo como Ele quer, quer dizer, não se tem nEle a fé que Ele pede. Maria podia acreditar nEle pensando que não era igual ao Pai; mas Ele proibe-lho com estas palavras: "Não Me detenhas", quer dizer: "Não acredites em Mim no entendimento em que te encontras ainda. Nem fiques a pensar no que Eu fiz por ti, sem pensares nAquele por Quem foste feita". Como podia ela deixar de acreditar ainda de modo totalmente humano nAquele por Quem chorava como por um homem? "Ainda não subi para o Pai." "Tocar-Me-ás quando acreditares que sou Deus, e que sou totalmente igual ao Pai."

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Giussani, Leopardi, Zambrano: a nossa razão “vive” de rostos e coisas

Por Laura Cioni

Todo ser humano tem necessidade de se ancorar concreta e afetivamente em alguém. Isso vale também para  faculdade da razão. A propósito, é famosa a expressão agostiniana: Nemo cognoscit nisi per amicitiam – ninguém conhece senão através da amizade, completada pela versão na voz passiva: Nemo cognoscitur nisi per amicitiam, ninguém é conhecido senão através da amizade.
Num romance de ficção política não muito influente ou famoso, Os fantoches de Deus de Morris West, há dois homens, o Papa francês obrigado a demitir-se da cúria depois de ter tido uma visão sobre o iminente fim do mundo, e o seu amigo mais caro, um teólogo alemão. O cenário no qual se passa é o mosteiro beneditino no qual o primeiro encontrou refúgio. No fim de uma conversa, ele diz ao amigo: “Aqui, vejo tudo em escala reduzida. Todo o amor e a nostalgia e o cuidado de que sou capaz estão concentrados no rosto humano que me é mais próximo. Neste momento, é o teu rosto, Carl: tu e tudo aquilo que és”.
O exemplo mais luminoso do fato que a razão funciona em estreita relação com uma situação que interessa pode ser encontrado nos escritos de Dom Giussani, não apenas porque eles nascem de ocasiões bem precisas, mas exatamente na medida em que entre as linhas podem ser reconhecidos rostos de pessoas, dificuldades, descobertas que permitiram as considerações mais gerais expostas nos seus livros. Nessa unidade de atenção ao particular e de visão metafísica está um dos aspectos mais reconhecíveis do seu pensamento e dos seus escritos.
Um único exemplo entre os tantos, extraído de Generare Tracce nella storia del mondo: “A decisão nasce como o instaurar-se de uma simpatia. Os apóstolos iam atrás de Jesus porque estavam ligados a Ele com um juízo que lhes tornava capazes de uma decisão perfeitamente racional: porque onde se gera um relacionamento que chega até a uma simpatia profunda, até à renovação de uma ligação nascida do maravilhamento incomparável, a racionalidade é um acontecimento”
De resto, um dos autores preferidos de Dom Giussani, Giacomo Leopardi, escreve os seus versos exatamente a partir de uma consonância afetiva com um elemento da natureza, a lua por exemplo, ou a sebe, ou a giesta [flor do deserto; ndt], que se torna ocasião para escrever um canto sem igual:
E tu, complacente giesta,
Que de bosques perfumados
Estes campos desataviados enfeitas,
Também tu logo à cruel pujança
Sucumbirás do subterrâneo fogo...
Também Martin Heidegger mostra que procede da mesma forma, em um pequeno livro publicado em 1965 e traduzido para o italiano em 1977, Pensamento e poesia.
Quando, no verão, os narcisos florescem e a rosa alpina resplende sob o bordo...
Suntuosidade do que é humilde.
Somente a imagem conserva um rosto.
Repousa portanto a imagem na poesia.
As mulheres são, frequentemente, mestras deste modo afetivo de pensar e se expressar. Maria Zambrano expõe esse sentimento da vida em muitas de suas páginas; em uma delas escreve: “A vida se nos aparece, no instante do despertar, como algo que já está ali e, nesse sentido, é independente de nós e, todavia, invoca a nossa presença. É algo que, acontecendo inicialmente fora de nós, nos invoca para que entremos em seu interior, já que nele há um vão que é apenas nosso, de cada um de nós”. 

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 21 de julho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 12, 46-50
Naquele tempo: Enquanto Jesus estava falando às multidões, sua mãe e seus irmãos ficaram do lado de fora, procurando falar com ele. Alguém disse a Jesus: "Olha! Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar contigo". Jesus perguntou àquele que tinha falado: "Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?". E, estendendo a mão para os discípulos, Jesus disse: "Eis minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe".

Comentário feito por São Pio de Pietrelcina (1887-1968)
capucinho 

Maria, a Mãe de Jesus, sabia bem que seria através da morte do seu Filho que a Redenção se deveria completar; e, no entanto, também ela chorou e sofreu, e quanto! Se o Senhor Se vos manifestar, dai-Lhe graças; e se Ele Se esconder, fazei o mesmo; tudo isso é um jogo de amor. Que a Virgem Maria, na sua bondade, continue a alcançar-vos, da parte do Senhor, a graça de suportar sem vacilar as numerosas provas de amor que Ele vos dá. Desejo que chegueis ao ponto de morrer com Ele na cruz e que, com Ele, possais gritar: "Tudo está consumado". Que Maria transforme em alegria todos os sofrimentos da tua vida.

domingo, 18 de julho de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Lc 10, 38-42
Naquele tempo: Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e escutava a sua palavra. Marta, porém, estava ocupada com muitos afazeres. Ela aproximou-se e disse: "Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!" O Senhor, porém, lhe respondeu: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada."

Comentário feito por Santa Teresa de Ávila (1515-1582)
Carmelita, Doutora da Igreja 

Santa era santa Marta, e não dizem que fosse contemplativa. Pois, que mais quereis do que chegar a ser como esta bem-aventurada, que mereceu ter a Cristo Nosso Senhor tantas vezes em sua casa e dar-Lhe de comer e servi-Lo e comer com Ele à sua mesa? Se se ficasse como a Madalena, embevecida, não teria havido quem desse de comer a este divino Hóspede. Pois pensai que esta Congregação é a casa de Santa Marta e que há de haver de tudo. As que forem levadas pela vida ativa não murmurem das que se embeberem na contemplação. [...] Tenham-se por ditosas de O servir como Marta. Olhem que a verdadeira humildade consiste, em grande parte, em estar muito pronto em se contentar com o que o Senhor quiser fazer de cada um de nós, achando-nos sempre indignos de nos chamarmos Seus servos. Pois se contemplar e ter oração mental e vocal, e cuidar dos enfermos, e servir nas coisas da casa e trabalhar – mesmo no mais humilde –, se tudo é servir o Hóspede que vem estar, comer e recrear-Se conosco, que mais nos dá que seja nisto ou naquilo? Não digo que falhe pela nossa parte, mas que vos exerciteis em tudo, porque não está isto no vosso escolher, senão no do Senhor; mas se, depois de muitos anos, quiser a cada uma para seu ofício, bonita humildade seria quererdes escolher! Deixai o Senhor da casa fazer o que quiser. 

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O exército secreto de Dilma

Editorial d'O Estado de São Paulo

Estranhamente, a Receita Federal levou quase um mês para reconhecer, na semana passada, que servidores do órgão abriram declarações de renda do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira, arquivadas nos computadores do Fisco. Cópias desses documentos, trechos dos quais foram publicados pela Folha de S.Paulo, fariam parte, segundo o jornal, de um dossiê antitucano em preparo por pessoas ligadas à campanha da candidata petista Dilma Rousseff. A Receita se gaba de ter sistemas dos mais avançados para saber praticamente de imediato quem, quando e onde acessou quais informações de quais contribuintes.
Agora, mais estranhamente ainda, o titular da Receita, Otacílio Cartaxo, convidado a depor no Senado, disse que os resultados da sindicância interna sobre o caso só serão divulgados no limite do período legal de até 120 dias - ou seja, depois do primeiro turno das eleições - para que o trabalho não corra o risco de ser impugnado. Não se sabe de onde ele tirou a ideia de que uma correição não possa terminar antes do prazo máximo. O que o bom senso permite presumir é que a Receita, com os meios de que dispõe, poderia, se quisesse, esclarecer numa fração do tempo autorizado o primeiro grande escândalo da temporada.
A investigação, com efeito, já apurou que as declarações de Eduardo Jorge referentes a 2008 e 2009 foram examinadas 5 ou 6 vezes por funcionários do Fisco lotados fora de Brasília, conforme Cartaxo. Mas ele se recusou a dar os nomes desses funcionários, invocando o imperativo do sigilo. Sob a proteção do sigilo estavam, isso sim, as declarações acessadas para fins escusos, a julgar pelo destino dado às suas cópias. O Estado noticiou ontem que a Receita desconfia que pelo menos um de seus auditores, devidamente identificado, bisbilhotou os dados fiscais do dirigente do PSDB "com motivação duvidosa".
O que o órgão conhece do episódio decerto supera o que afirma conhecer. E, quanto mais tempo levar para acabar com essa dualidade, mais fundadas serão as suspeitas de que a demora em pôr a questão em pratos limpos esconde a intenção de poupar a candidata do presidente Lula das consequências da verdade que emergir. Não há evidências, ao menos por ora, de que a Receita foi posta a trabalhar para Dilma.
Mas a instituição não está acima do bem e do mal - longe disso, considerando o retrospecto. Recentemente, para citar outro caso ainda por deslindar, vazaram informações sobre possíveis problemas fiscais da empresa Natura, de Guilherme Leal, companheiro de chapa da candidata Marina Silva, do PV.
O tucano Eduardo Jorge considerou "uma enrolação" o depoimento do secretário da Receita. Para ele, ao não dar os nomes dos envolvidos na operação, Cartaxo se comportou como um agente do governo e não como um servidor do Estado. Mas outro não é o sentido do aparelhamento do setor público federal na era Lula: fazer da administração um prolongamento do sistema formado pelo PT e os seus aliados no aparato sindical e nos chamados movimentos sociais, que se condensa no termo lulismo. Nada mais natural que os seus agentes sejam ativados para formar o exército secreto (ou nem tanto) da campanha de Dilma. Analogamente ao papel das forças especiais em conflitos armados, a eles incumbe o trabalho sujo contra o inimigo.
O essencial é que há uma linha de continuidade entre a conduta vexaminosa do presidente da República no processo eleitoral e, como diria ele, a do "mais humilde" daqueles trazidos para dentro da máquina estatal com a tarefa de perpetuar o lulismo no poder. Em última análise, o funcionário que espia as declarações de renda de um oposicionista, na expectativa de achar algo capaz de atingir o candidato a quem ele está ligado, e o chefe de governo que se vale despudoradamente do cargo para eleger a sua sucessora são coautores de um mesmo ilícito.
A diferença é que Lula delínque - e reincide - às claras, abandonando-se ao deboche. Tanto que, a pretexto de pedir desculpas pelo "erro político" (sic) de enaltecer a ex-ministra num evento oficial, reconhecendo que não deveria fazê-lo, já no dia seguinte ele tornou a louvar a "companheira Dilma". É uma lambança.

* Extraído do jornal O Estado de São Paulo, versão online, do dia 16 de julho de 2010. 

Não vês?

Tomo a liberdade de publicar uma poesia que meu irmão postou em seu blog - Dois Lobos - no último dia 13 de julho... Faço-o justificado pela dinâmica natural que acontece em quem, vendo algo de belo, o aponta para outra pessoa. Obrigado, Luiz!

Passastes por mim
Minha sede
Intempestiva
Agarrou-se às
Pernas de alguém
Próximo
Que eu não via

Quem é esse homem?
Diz logo, quem é?
É Jesus, o carpinteiro
Filho de Maria
E José
Filho de Israel
Não o vês?

Eu o vejo
Na noite dos
Meus olhos
Opacos
O seu nome
É Inesquecível
Príncipe do Amor

Jesus Cristo!
Jesus!
Homem de Deus!
Tem misericórdia!
Tem compaixão!
Eu sou cego
Não me vês?

Filho de Davi
Tu passastes
Ao largo
E não te
Compadecestes
Da escuridão
Dos meus olhos?

E o meu corpo
Sofrido
E o braço
Latejante
A vida que é
Sombra
Não percebes?

És cego também?
Ou és indiferente?
Tem amor
Por mim, Jesus!
Eu clamo
A tua luz
Não vês?

Cale a tua boca
Cego maldito
É Jesus
O Nazareno
Deixe
O Redentor
Em paz

Levanto
Caio
Tropeço
Saio diante
Dos que me
Desejam calado
Mas chego a ti

Jesus?
Jesus?!
Teu manto
O pé ferido
A sandália
A barba
O cabelo

Vês este que sou?
Quero ver-te!

Filho
Sou eu
Passei por ti
Vi a tua
Cegueira
E me compadeci
Queres ver?

Jesus...

Luiz Fernando de Andrada Pacheco
13/07/2010

A filosofia da mente que destrói a experiência religiosa

Por Andrea Staiti

No último dia 02 de julho, Giovanni Maddalena escreveu neste jornal que “a mentalidade filosófica de hoje é dominada pelo que se chama naturalismo”, e identificou seu traço fundamental na recusa da ideia de que a realidade possa ser sinal de alguma coisa diferente de si mesma.
Estou substancialmente de acordo com o diagnóstico acerca da mentalidade dominante, mas não estou de todo seguro que o traço distintivo do naturalismo contemporâneo, ou seja do naturalismo American Style, seja o que foi indicado por Maddalena. Ou, pelo menos, gostaria de sugerir uma leitura alternativa. Que a realidade não possa ser considerada sinal de outra coisa diferente de si mesma, de fato, é uma posição que poderia ser compartilhada plenamente também por um filósofo como Kant que além do mais era naturalista e admitia que não podem existir apenas processos físicos, mas também a liberdade humana!
A minha hipótese, derivada da leitura de alguns filósofos americanos contemporâneos, que têm atuado particularmente no âmbito da chamada “filosofia da mente”, é que o naturalismo American Style é, em primeiro lugar, um pressuposto de base que quer exprimir uma espécie de pudor intelectual do filósofo que o distinga da grande massa.
Os EUA são um grande país, povoado por fanáticos da Bíblia céticos quanto ao uso da razão e avessos à filosofia, em nome de um fideísmo emocional, muitas vezes até violentos. Recordamos que existem escolas nas quais é proibido ensinar a teoria da evolução e talk shows televisivos nos quais pretensos teólogos discutem incansavelmente na intenção de entender se os fósseis dos dinossauros foram arquitetados por Deus para colocar a fé de seus eleitos à prova, ou pelo Diabo para tentá-los. Existem seitas com milhões de fiéis que acreditam que, no além, cada um terá um planeta próprio para povoar inteiramente com os filhos gerados pelas próprias mulheres. A lista das extravagâncias poderia continuar.
Ora, diante dessa devastação de crenças bizarras e infundadas, o filósofo busca no naturalismo uma espécie de defesa mínima para “orientar-se no pensamento”. Não é um acaso que o naturalismo ou “fisicalismo” na maior parte dos casos não seja o êxito de uma análise filosófica, mas um ponto de partida, uma espécie de pacto estipulado entre os adeptos dos trabalhos que querem criar para si um espaço de pensamento imune às superstições.
Tudo aquilo que parece aludir a uma dimensão ulterior à material, compreendida, por exemplo, a dimensão da psique humana, é visto como um potencial flanco aberto para aquelas visões do mundo que, frequentemente, impugnam a Bíblia, desembocam na irracionalidade mais total. Nisso, por exemplo, é que se sustentam os rios de tinta que correram nas últimas décadas para articular de modo o mais sólido possível a tese de que os estados mentais são simplesmente idênticos aos estados físicos do cérebro (o que quer que isso queira dizer). Diante das superstições que dominam, o naturalismo aparece como um espaço de pensamento mesquinho, mas pelo menos seguro.
Há um só problema: o naturalismo, para bem dizer, não é menos irracional do que as doutrinas bizarras dos vários Bible Freaks [fanáticos da Bíblia; ndt]. Em ambos os casos estamos diante de um uso muito restrito e prejudicado da razão. Num caso se quer admitir apenas o que é compatível com superstições de fundo bíblico. No outro se quer restringir a razão a contar átomos e moléculas. Em ambos os casos o que é desejável é, como queria Husserl, um retorno às coisas mesmas, da forma como se dão na experiência. Porque a experiência não é nem supersticiosa nem naturalista.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 16 de julho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Comentário ao evangelho do dia

Nossa Senhora do Carmo

Evangelho - Mt 12, 46-50
Naquele tempo, enquanto Jesus estava falando às multidões, sua mãe e seus irmãos ficaram do lado de fora, procurando falar com ele. Alguém disse a Jesus: "Olha! Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar contigo." Jesus perguntou àquele que tinha falado: "Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?" E, estendendo a mão para os discípulos, Jesus disse: "Eis minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe." 

Comentário feito por Luigi Giussani (1922-2005)
fundado de Comunhão e Libertação 

"Quos redemisti, tu conserva, Christe": aqueles que redimiste - aqueles que quiseste, que projetaste para ti -, salva-os, conserva-os, ó Cristo. Salva-os seja qual for a circunstância em que os fizer permanecer. É com segurança que nós gritamos a Deus o nosso reconhecimento. "Aqueles que redimiste, conserva-os, ó Cristo". Aqueles que chamaste. Cada um de nós foi chamado, tocado pelo dedo do Senhor, invadido pela chama do coração. A resposta a essa eleição está toda ela na oração de que somos capazes. A nossa resposta é uma oração, não é uma capacidade particular; é tão-somente o ímpeto da oração. (...) O povo cristão, há séculos, foi abençoado e confirmado, na sua propensão para a salvação, creio eu, especialmente por uma coisa: o santo Rosário. O Rosário é como que a síntese de tudo o que o povo cristão é capaz de pensar e de dizer a Cristo. Síntese de todo o projeto da redenção do mundo, da dignidade que deve ser reconhecida, de uma caridade que deve ser vivida, na vitória sobre a morte na crucifixão; não, não na crucifixão, mas na ressurreição. Pois nós fomos salvos pela ressurreição. O uso do santo Rosário, a meditação do que ele nos impõe, o Mistério que se revela nele é a certeza do que a mãe de Jesus pode fazer pela nossa vida, faz pela nossa vida.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A transgressão consagrada

Editorial d'O Estado de S.Paulo

Luiz Inácio Lula da Silva entrará para a história das eleições presidenciais brasileiras sob o Estado Democrático de Direito pela desfaçatez sem paralelo com que se conduz. Ele não apenas colocou os recursos de poder próprios do cargo que exerce à disposição de sua candidata - escolhida, de resto, por um ato de vontade imperial -, como ainda assume ostensivamente o abuso e disso se jacta.
A demolição das leis e das instituições destinadas a separar Estado, governo e campanhas políticas não se fez em um dia. Lula começou a pensar no segundo mandato, e a se guiar rigorosamente por essa meta, mal tirou a faixa recebida do antecessor em 1.º de janeiro de 2003 - se não antes. E começou a pensar no nome do sucessor, e a subordinar a administração federal aos seus cálculos eleitorais, tão logo descartou definitivamente, decerto ao concluir que se tratava de uma aventura de desfecho incerto, a possibilidade de um terceiro período no Planalto.
Depois que os dois grandes escândalos do lulismo - o mensalão e a perseguição a um caseiro - excluíram da lista dos presidenciáveis do presidente os cabeças de seu governo, José Dirceu e Antonio Palocci, a solitária decisão de lançar a candidatura da ministra Dilma Rousseff, com experiência zero em competições pelo voto popular, embutia uma consequência que só o seu patrono poderia barrar. Desde que, bem entendido, tivesse ele um mínimo de apreço pelos valores republicanos dos quais fala de boca cheia.
A consequência, evidentemente, era a conversão do Estado e do governo em materiais de construção da campanha dilmista - numa escala e com uma intensidade que talvez fossem menos extremadas se o candidato se chamasse Dirceu ou Palocci. Diga-se o que se queira deles, um e outro têm bagagem partidária e milhagem na rota das urnas bastantes para não depender, tanto quanto Dilma, do sistemático abuso de poder do chefe (ou, no caso dela, chefe e criador). Em outras palavras, a fragilidade eleitoral intrínseca da ex-ministra clamava pelo vale-tudo para ser neutralizada - e não seria Lula quem deixaria de fazê-lo.
Assim que ele bateu o martelo em seu favor, aflorou no mundo político e na imprensa a questão da transferência de votos. Seria o mais popular dos presidentes brasileiros capaz de eleger a candidata tida como um poste? Seria o seu formidável carisma suficiente para impedir que ela naufragasse por seus próprios méritos, por assim dizer? Perguntas pertinentes - e enganadoras. Do modo como foram formuladas, tendem a fazer crer que os eventuais efeitos, em 3 de outubro, do poder de persuasão de Lula independem da sua gana de atrelar o comando do Executivo aos seus interesses eleitorais.
É bem verdade que Lula chegou lá da primeira vez (na quarta tentativa) concorrendo pela oposição. Mas, em 2002, o desejo de mudança que ele encarnava provavelmente prevaleceria ainda que o então presidente Fernando Henrique, com a mesma falta de escrúpulos que o sucessor exibiria, transformasse o seu gabinete em quartel-general da campanha do candidato José Serra. Agora, chega a ser intrigante, nas análises políticas, a dissociação entre o uso da popularidade de Lula e a sua desmesurada desenvoltura em entrelaçá-lo com o abuso de sua posição.
Não foi por falta de aviso. Já não bastassem as transgressões que cometia ao carregar Dilma nos ombros presidenciais para cima e para baixo, ele anunciou no congresso do PT, em maio passado, que a sua prioridade este ano - como presidente da República - era eleger a sua protegida. Para quem tem a caradura de escarnecer tão desbragadamente do decoro político elementar, nada mais natural do que proclamar que sabe que transgride a lei e nem por isso deixará de transgredi-la.
Foi o que fez anteontem em um evento oficial na sede temporária do governo, numa dependência do Banco do Brasil. "Eu nem poderia falar o nome dela (Dilma) porque tem um processo eleitoral", reconheceu, "mas a história (da alegada atuação da ministra no projeto do trem-bala) a gente também não pode esconder por causa de eleição." Sob medida para os telejornais e o horário de propaganda.
Perto disso, que diferença fará uma multa a mais? 

* Texto extraído do jornal O Estado de São Paulo, versão online, do dia 15 de julho de 2010.

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 11, 28-30
Naquele tempo, tomou Jesus a palavra e disse: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve".

Comentário feito por Santa Teresa do Menino Jesus (1873-1897)
carmelita, Doutora da Igreja 

Oh Jesus, quando fostes viajante neste mundo, dissestes: aprendei de Mim, que "sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito". Oh poderoso monarca dos céus, sim, a minha alma encontra descanso ao ver-Vos, revestido com a forma e a natureza do escravo (Fil 2, 7), abaixar-Vos a ponto de lavardes os pés aos apóstolos. Recordo-me então das palavras que proferistes para me ensinar a praticar a humildade: "Dei-vos o exemplo, para que façais como Eu fiz. Se compreenderdes isto, sereis felizes se o praticardes" (Jo 13, 15-17). Compreendo-as, Senhor, estas palavras saídas do Vosso coração manso e humilde, e desejo praticá-las, com o auxílio da Vossa graça. Desejo abaixar-me humildemente e submeter a minha vontade à das minhas irmãs, em nada as contrariando, sem verificar se têm o direito de mandar em mim. Ninguém tinha o direito de mandar em Vós, meu Bem-Amado, e contudo Vós obedecestes, não apenas à Santíssima Virgem e a São José, mas também aos Vossos carrascos. Agora, é na hóstia que Vos vejo assumir o cúmulo do Vosso aniquilamento. Que humildade a Vossa, oh Divino Rei da Glória! [...] Oh meu Bem-Amado, sob o véu da branca hóstia, que manso e humilde de coração Vos mostrais! [...] Oh Jesus, manso e humilde de coração, tornai o meu coração semelhante ao Vosso! 

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Chesterton desmente os relativistas: são os “dogmáticos” mais obtusos

Por Pigi Colognesi

Os especialistas na obra de Gilbert K. Chesterton consideram Heréticos (recentemente publicado pela Lindau) uma espécie de antecipação do livro mais célebre Ortodoxia. Trata-se de um texto de 1905 (enquanto que o ensaio mais famoso veio a público três anos depois), que pode ser lido muito com muito proveito tanto por estudiosos quanto por apaixonados pela literatura e pela cultura inglesa dos séculos XIX e XX. É composto, de fato, por um denso conjunto de retratos críticos de escritores e homens de cultura da época.
A maior parte desses, excetuando-se Kipling e Bernard Shaw, não são, hoje em dia, muito conhecidos do público italiano; e talvez nem mesmo do público inglês. No entanto, o volume de Chesterton sustenta ainda hoje um indubitável interesse pelo critério de abordagem que o criador do padre Brown utiliza – que pode, tranquilamente, ser aplicado para avaliar tanta literatura e não-ficção moderna – e pela vivacidade da escrita, rica de definições fulgurantes e de formidáveis paradoxos.
Portanto, sem nos preocuparmos muito em conhecer os detalhes do ambiente cultural mirado por Chesterton (no qual as notas, a cada capítulo, ajudam a penetrar), o livro pode ser lido com prazer e utilidade.
Falava-se, um pouco acima, do critério crítico utilizado por Chesterton. No fundo, poder-se-ia resumir no privilégio dado ao “dogma”. Com esta palavra, o autor pretende falar daquele pensamento “forte” que é o único que pode interessar ao homem que não queira perder tempo com frivolidades. Disso é que nasce a cortante crítica contra todos aqueles que idolatram a ausência de dogmas e a necessidade de superar toda posição “forte”. Não apenas: com implacável lógica, Chesterton coloca em evidência que mesmo o mais relativista dos céticos, aquele que por tomada de posição afirma não ter nenhuma convicção metafísica e, ainda por cima, zomba de todos aqueles que a têm e os acusa das piores perversidades, na realidade é ele mesmo portador de um “dogma”. Um dogma geralmente muito menos demonstrado e razoável do que aquele, por exemplo, professado pelo católico.
E por esta razão que Chesterton chama “heréticos” os autores que são bombardeados impiedosamente na sua obra: seja lá o que digam, são portadores de uma teoria “forte” bem precisa; ainda que desprezem as visões gerais e digam se ocupar apenas dos detalhes, são atacados em seu ponto de vista como o que há de pior entre os fanáticos; afirmam ceticamente e de maneira um pouco esnobe que “a vida não vale a pena ser vivida”, mas na realidade não chegam a acreditar nisso seriamente. Exatamente na medida em que os escritores analisados são portadores de um “dogma”, Chesterton os leva em consideração e os critica. Ele, de fato, define a si mesmo, desde as Observações Preliminares, como uma pessoa que pensa “que a coisa mais prática e importante de um homem seja a sua visão do mundo”. E, assim, parte para o ataque contra os “heréticos” que encontra tão abundantemente na literatura e na publicidade que lhe era contemporânea. E de modo politicamente muito incorreto define herético como “um homem cuja visão das coisas tem a ousadia de diferir da minha”.
Nesta última frase já se percebe o tom que irá ser mantido ao longo de todo o volume. Não é possível, aqui, nem mesmo elencar sumariamente os temas e as problemáticas que são tocadas. Bastam alguns exemplos para explicar o método do paradoxo com o qual Chesterton prende seus adversários. Oferecendo-nos definições que são pérolas de sabedoria e, ao mesmo tempo, de humor.
O seu primeiro alvo é o espírito negativo, aquele de quem afirma que não há nenhuma objetividade no campo moral, e no entanto se esforça por construir e propagandear uma ética própria. Mas, escreve Chesterton, “a moralidade moderna pode indicar apenas a imperfeição. Não tem nenhuma perfeição para indicar. O monge que medita sobre Cristo ou sobre Buda tem em mente uma imagem de saúde perfeita. O devoto [alvo polêmico dos moralistas modernos] consegue, apesar de tudo, concentrar os seus pensamentos em uma força e em uma felicidade colossais”. E nesse ponto dá a patada: “um jovem pode abster-se do vício pensando continuamente na doença. Ou pode abster-se dele pensando continuamente na Virgem Maria”.
Contra a superficialidade de um certo exotismo em voga naquele momento (e também agora; pensemos nas férias): “O homem em um navio de cruzeiro viu todas as raças humanas e pensa nas coisas que dividem os homens: alimentação, vestuário, decência, anéis no nariz como na África ou nas orelhas como na Europa. O homem no campo de couve não viu nada, mas pensa nas coisas que unem os homens: a fome, os filhos, a beleza das mulheres, a promessa ou a ameaça do céu”.
A propósito de Bernard Shaw: “A verdade é que é um grave erro supor que a ausência de convicções precisas torne a mente livre e ágil”. “O senhor Shaw – acrescenta – nunca viu as coisas como elas são realmente, porque em tal caso teria caído de joelhos diante delas”. De fato, “enquanto não compreendermos que as coisas poderiam não ser, não poderemos compreender que as coisas são” e, portanto, descobrir que “cada instante da vida consciente é um prodígio inimaginável”.
Sobre a humildade tão odiada pelos partidários do super-homem: “É uma virtude tão prática que os homens pensam que é um vício. A humildade é tão bem-sucedida que é confundida com o orgulho”. 
Sobre as teorias sanitaristas: “Um homem deve comer porque tem um bom apetite para satisfazer e não porque tenha um corpo para ser nutrido. Um homem deve fazer exercícios não porque é muito gordo, mas porque ama as folhas, os cavalos ou a montanha, e os ama em si e por si”.
Um comentário ácido ante litteram ao filme Sociedade dos Poetas Mortos: “a religião do carpe diem não é a religião das pessoas felizes, mas das muito infelizes. Nada antes desferiu um golpe tão fatal contra os amores genuínos e contra o riso dos homens como o carpe diem dos estetas. Para sermos realmente despreocupados temos que acreditar que exista uma certa alegria eterna na natureza das coisas”.
Poderíamos continuar longamente, mas chegamos às Observações Conclusivas sobre a importância da ortodoxia. Mesmo aqui bastam duas citações: “O cérebro humano é uma máquina para chegar a conclusões; se não consegue fazer isso se enferruja”. “O homem pode ser definido como um animal que cria dogmas. As árvores não têm dogmas. Os nabos são surpreendentemente tolerantes”. Ele, Chesterton, não era um nabo, não lhe interessava fazer-se passar como tolerante. É um artista e, como tal, “não se contenta com nada menos que o tudo”.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 14 de julho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.