sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Também o homem moderno deseja Deus, mas não se vê

Por Salvatore Abbruzzese

A Itália secularizada se esquece de Deus e, sem nenhum vínculo com a Igreja, é constantemente atravessada e perturbada por manifestações de sensibilidade religiosa que, mesmo não mudando o quadro complexo, não conseguem, de fato, reduzir o universo da crença e das práticas religiosa a uma simples persistência do passado, nem a confiná-lo a expressões superficiais e passageiras da cultura difusa.
Isso não é deduzido apenas da vivacidade dos movimentos e das associações católicas, nem apenas das manifestações de entusiasmo religioso às quais os dois últimos pontificados habituaram a opinião pública, tanto menos se deve ao simples respeito tributado pelas diversas representações políticas laicas ao magistério eclesial. Para entender o peso e a extensão da sensibilidade religiosa na sociedade secularizada contemporânea é necessário examinar variáveis ainda mais extensas.
Os lugares religiosos, como os santuários e as abadias, são meta de um fluxo contínuo de peregrinos e turistas. É notável como, na Itália pós-moderna, lugares como Pádua, Assis, Pietralcina (apenas para citar aqueles mais conhecidos) não cessam de mobilizar cotidianamente massas consistentes de peregrinos. A Itália é também, e talvez mais do que tenha sido há vinte ou trinta anos atrás, o país onde os “lugares do espírito” têm lugar nos guias turísticos, enquanto abadias e mosteiros se revelam sempre mais disponíveis para hospedar fiéis em suas buscas espirituais, admitindo-os nos momentos de oração e de refeição.
O mesmo pode ser dito para os tempos das solenidades religiosas: as celebrações de Natal e de Páscoa acolhem ainda dois terços dos italianos, enquanto que nos dias dos Santos padroeiros de cada um dos vilarejos do país continuam, ainda, frequentemente de modo mais solene do que acontecia no passado, a mobilizar energias e recursos, suscitando uma participação que está bem longe de diminuir.
A grande maioria dos pais (mais de 80%) continua – hoje, como há quarenta anos atrás – a enviar os próprios filhos para as paróquias, para a formação religiosa de base e para a catequese ligada à primeira comunhão. Como se não bastasse, vem aumentando o percentual daqueles que declaram necessário celebrar com um rito religioso os principais ritos de passagem, inclusive o matrimônio: entre 1990 e 2000 esse número subiu de 79 para 82% dos italianos.
Existe, em outros termos, uma proximidade com a mensagem de salvação da religião católica que revela a persistência de um vínculo e de um diálogo pessoal e privado que se exprime através das frequências nos lugares e a atenção aos tempos e, sem o qual, tanto as primeiras quanto a segunda seriam inexplicáveis em um contexto secularizado. Uma semelhante atenção aos lugares e aos tempos é tanto mais importante quanto mais é acompanhada do não desaparecimento da mesma prática religiosa.  
Se o percentual daqueles que declaram freqüentar regularmente os ritos religiosos supera os 30%, é preciso não esquecer como, no meio disso, exista pelo menos 50% de italianos que declara freqüentar os ritos com frequência alternada. É como se se dissesse que o núcleo sólido dos praticantes é apoiado por um contexto de reconhecimento generalizado que, com a própria prática esporádica e episódica, acaba, de alguma maneira, legitimando aqueles que vão regularmente à igreja.
A verdadeira novidade é constituída não apenas pelo desaparecimento dos praticantes (como toda boa teoria da secularização sustenta), mas pela dos não praticantes: o percentual daqueles que declaram nunca colocar os pés na igreja para assistir aos ritos religiosos (independentemente dos eventos privados) está em constante diminuição desde 1981 até hoje: em 2005 passa um pouco dos 10% do total dos italianos, quando no início dos anos 1980 chegava a 21%. Tais frequentações do sagrado não são sem consequências. Confiança institucional, trabalho, vida de casal e educação dos filhos se revelam profundamente influenciados pela dimensão da prática religiosa.
Toda essa série de elementos – muitos dos quais  já bastante conhecidos, mas sempre teimosamente ignorados – desloca completamente o eixo do problema. Não se trata de interrogar-se sobre o desaparecimento da dimensão religiosa, mas sobre sua invisibilidade e a sua transparência com relação ao quadro no qual se situa. O ponto fulcral da análise é constituído não tanto da ausência de Deus, mas de um desejo que não se transforma automaticamente em pertença, não leva a um vínculo constante e significativo com a comunidade dos crentes seja lá como ela for entendida, mas continua situado no plano afetivo, pessoal e privado.
A dimensão religiosa continua sendo como um rio cársico [o autor se vale de uma imagem utilizada por Ladislao Mittner para se referir ao pietismo protestante. Mittner (1964) diz que "é quase impossível distinguir o pietismo das muitas outras seitas religiosas da época. Filões singulares do movimento apresentam fenômenos cársicos: aparecem, desaparecem, e, de repente, reaparecem mais além, sem que a identidade do filão possa ser propriamente demostrada" (p. 40). No Carso, região de solo calcáreo da ex-Iugoslávia, há rios que desaparecem no solo permeável e passam a correr no subterrâneo, voltando a aparecer na superfície muitos quilômetros à frente. Rio cársico, portanto, é aquele que aparece e desaparece, tornando-se ora visível ora oculto em seu percurso (cf. Mittner, L., Storia della Letteratura Tedesca - Dall Pietismo al Romanticismo, Einandi, Milão, 1964); ndt], pronto para terminar seu fluxo apenas quando algo ou alguém a solicita, apresentando propostas concretas de existência, revelando uma verdadeira e própria companhia, capaz de formar vínculos sociais. Isso permite entender por que foi a religiosidade dos movimentos, ou seja aquela capaz de transmutar-se em relações significativas, em companhia, a ter sucesso e a manter em pé as redes associativas mesmo nos períodos de secularização mais profunda, revelando-se capazes mesmo de interpretar uma tal pergunta.
Mas isso permite entender também o quanto, sob a superfície de uma sociedade “sem Deus e sem profetas” – como recordava Max Weber no início do século passado –, prossiga o rio de uma sensibilidade religiosa latente, estendida e difundida, esperando uma resposta às interrogações de fundo da vida e ao desejo que as alimenta. Entre o cenário de uma sociedade esquecida de Deus e uma que cultiva sua busca no secreto da consciência de cada um a diferença, evidentemente, é radical. Volta-se, assim, à intuição de Bento XVI segundo a qual o quaerere Deum, a busca de Deus, e não a secularização, é que forma a figura da modernidade contemporânea. 
Abrem-se, assim, perguntas inéditas sobre como se articule um tal desejo submerso e por que valores pode ser orientado. É preciso se dirigir para a compreensão de uma tal religiosidade submersa, das esperanças que traz em si, assim como dos limites que a caracterizam e a ferem, limitando-a ao foro interior das consciências dos indivíduos. É preciso se perguntar como uma tal proximidade com o anúncio de salvação dialogue com os lugares religiosos, os tempos do sagrado, as imagens e as representações que o ilustram. Assim como é preciso interrogar-se sobre as perguntas que vêm da sociedade laica pós-secular, os desejos aos quais se abre e por causa dos quais está em busca. Nisso, e não a partir de outros lugares, é que convém situar-se, se se quer interpretar o sentido último da época na qual nos encontramos vivendo.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 27 de agosto de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Ulisses: herói do coração e não apenas do cérebro

Por Alessandro Banfi

Ulisses desembarcou também em Rímini. Aconteceu ontem entre os jovens do Meeting, confirmando a sua fama de grande viajante, renovando seu fascínio que, mais uma vez, pode ser definido como verdadeiramente mítico.
Nos pavilhões da feira tomou corpo, graças às palavras de Simone Invernizzi e di Carmine Di Martino, e graças a alguns grandes escritores. O mito e o gênio, de fato, são destinados a se encontrarem. Partindo de Primo Levi, que dedicou um capítulo inteiro do seu diário de Auschwitz – Se questo è un uomo (traduzido para o português como Os afogados e os sobreviventes, pela editora Paz e Terra) – exatamente ao Canto dantesco de Ulisses. Foi Invernizzi quem introduziu a versão dantesca do mito mais fascinante da nossa cultura ocidental.
Ulisses sempre foi, para nós, como que uma pessoa ainda viva, a encarnação mesma da astúcia, da inteligência, do desejo de sair do mundinho particular para descobrir o mundo inteiro. Mas, em Rímini, quem chegou foi o Ulisses dantesco que, sem perder nada do caráter do primeiro Ulisses, o clássico, o “polutropos” [πολυτρόπως, em grego, quer dizer “de diversas maneiras”; ndt] o herói dos muitos rostos, se torna o emblema mesmo da humanidade, o pretexto para cantar “a estatura do homem”.
E a mostra dedicada a este tema, no Meeting (é preciso dizer, entre parênteses, que as mostras, em Rímini, são sempre muito atraentes e os catálogos da Itaca Libri são preciosos e muito adequados para levar para casa algo mais do que uma simples emoção), aberta por Invernizzi e Martino, num encontro emocionante e muito aplaudido realizado no Auditório da feira, foi em si um pequeno evento com leituras poéticas e muito envolvimento. Ulisses, em Rímini, foi resgatado, revelou-se também como um herói do coração, não apenas do cérebro.
O que há nesse mito clássico revistado por Dante que é capaz de tornar a questão assim viva e presente? O já citado Levi e uma outra vítima da violência estatal e ideológica do século XX, o poeta russo dissidente, Osip Mandelstam, refletiram exatamente sobre o XXVI Canto do Inferno. Ambos, quando eram prisioneiros, se refugiaram na recordação daquele terceto: “Considerate la vostra semenza /  Fatti non foste a viver come bruti / ma per seguir virtute e conoscenza” ("Considerai a vossa origem / Não fostes feitos para viver como os animais / Mas para seguir virtude e conhecimento").
Que hino à humanidade, que sintética e magistral descrição da estatura do humano, do seu desejo! Sem se conhecerem, distantes no tempo por alguns anos, duas vítimas do campo de concentração, um de Hitler e outro de Stálin, pensavam em Dante, no seu Ulisses. Agarraram-se a ele. O Pikolo do romance de Levi, Jean Samuel, ainda está vivo e, anos mais tarde, falou a respeito daquela recitação de Dante em voz alta que Levi fez numa manhã fria de Auschwitz: “Era o protesto extremo do prisioneiro de um campo de concentração”.
Invernizzi e Di Martino explicaram bem que a interpretação que, por anos, se fez de Dante não é uma questão secundária. É como se tivessem existido três grandes correntes de leitura desse mito dantesco. A primeira vai de Croce a De Sanctis e vê uma contradição entre o Dante poeta e o Dante cristão-teólogo. O poeta parece amar Ulisses, mas o teólogo, como Di Martino disse de forma muito eficaz, o “castra”. Depois, tem uma leitura religiosa que vê no desejo de Ulisses um exagero mesmo em relação a Deus, o “voo louco” seria uma culpa, também cristã. Enquanto que será a leitura que Dom Luigi Giussani propõe, n’O senso religioso, a única que fará justiça a este mito.
Certamente, o desejo de Ulisses não é uma culpa, mas é o meio, o como, que o leva ao fracasso. Não é uma questão pequena, porque na negação, ou melhor na limitação do desejo, se joga o que há de mais fundamental. “Resecare spem longam”, já recomendava o poeta romano Horácio, inspirando-se em Epicuro. Literalmente cortar a própria aspiração pelo Infinito para não sofrer. Frase que, se tinha um valor antes da Encarnação, se torna uma censura estridente no mundo depois de Cristo.
Não é por acaso que a interpretação que Giussani faz é a mais próxima da de Eliot, de Auerbach, de Singleton e da estudiosa italiana da obra de Dante, Anna Maria Chiavacci, citada ontem em Rímini.
Se tem algo de sedutor no Meeting é isso: propor as grandes questões da vida e da cultura a um público frequentemente jovem, muito vasto. Por isso, Ulisses passou de muito bom grado também por Rímini.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 24 de agosto de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Rezar é aprender a desejar

Mensagem do Secretário de Estado Cardeal  Tarcisio Bertone,
em nome do Santo Padre Bento XVI,
por ocasião da 31ª edição do Meeting pela Amizade entre os Povos
(Rímini, 22 a 28 de agosto de 2010)

A Sua Excelência Reverendíssima
Dom Francesco Lambiasi
Bispo de Rímini

Excelência Reverendíssima,
com alegria tenho o prazer de transmitir a saudação cordial do Santo Padre a Vossa Excelência, aos organizadores e a todos os participantes do Meeting pela Amizade entre os Povos, que acontece em Rímini.
Este ano, o título da vossa importante manifestação – “Aquela natureza que nos impulsiona a desejar coisas grandes é o coração” – nos recorda que, no fundo da natureza de todo homem, se encontra uma irreprimível inquietude que o impulsiona na busca de algo que satisfaça esse seu desejo. Todo homem intui que é exatamente na realização dos desejos mais profundos do seu coração que se pode encontrar a possibilidade de realização de si, de cumprimento de si, de se tornar verdadeiramente si mesmo.
O homem sabe que não pode responder sozinho às próprias necessidades. Por mais que se iluda de ser autossuficiente, ele experimenta que não é capaz de bastar a si mesmo. Tem necessidade de se abrir ao outro, a algo ou a alguém, que possa doar-lhe aquilo que lhe falta. Deve, por assim dizer, sair de si mesmo em direção daquilo que seja capaz de preencher a amplidão do seu desejo.
Como o título do Meeting sublinha, a meta última do coração do homem não é qualquer coisa, mas apenas as “coisas grandes”. O homem é frequentemente tentado a parar nas coisas pequenas, naquelas que dão uma satisfação e um prazer “baratos”, naquelas que gratificam por apenas um momento, coisas tão fáceis de se obter, quanto ilusórias em última instância. No relato evangélico das tentações de Jesus (cf. Mt 4, 1-4), o diabo insinua que seja “o pão”, ou seja, a satisfação material, aquilo que será capaz de saciar o homem. Esta é uma mentira perigosa, porque contém apenas uma parte de verdade. O homem, de fato, vive também de pão, mas não só de pão. A resposta de Jesus revela a falsidade última dessa posição: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4, 4). Somente Deus basta. Somente Ele sacia a fome profunda do homem. Quem encontrou a Deus, encontrou tudo. As coisas finitas podem dar vislumbres de satisfação ou de alegria, mas somente o Infinito pode preencher o coração do homem: “inquietum est cor nostrum, donec requiescat in te – o nosso coração permanece inquieto enquanto não repousa em Ti” (Santo Agostinho, Confissões, I, 1). O homem, no fundo, tem necessidade de uma única coisa que contenha tudo, mas antes deve aprender a reconhecer, mesmo que seja através de seus desejos e anseios superficiais, aquilo de que realmente precisa, aquilo que quer verdadeiramente, aquilo que é capaz de satisfazer a capacidade do próprio coração. 
Deus veio ao mundo para despertar em nós a sede pelas “coisas grandes”. É possível ver isso muito bem naquela página do Evangelho, de riqueza inesgotável, que narra o encontro de Jesus com a mulher samaritana (cf Jo 4, 5-42), da qual Santo Agostinho deixou um comentário luminoso. A samaritana vivia a insatisfação existencial de quem não encontrara ainda aquilo que procurava:  tinha tido “cinco maridos” e, naquele momento, convivia com outro homem. Aquela mulher, como fazia habitualmente, tinha ido buscar água no poço de Jacó e encontrou Jesus, sentado, “cansado da viagem”, no calor do meio-dia. Depois de lhe ter pedido água, é Jesus mesmo quem lhe oferece água, e não uma água qualquer, mas uma “água viva”, capaz de extinguir a sua sede. E assim ele abria espaço, “pouco a pouco [...] no coração dela” (Santo Agostinho, Comentário ao Evangelho de João, XV, 12), fazendo emergir o desejo de algo de mais profundo do que a simples necessidade de satisfazer a sede material. Santo Agostinho comenta: “Aquele que pedia de beber, tinha sede da fé daquela mulher” (Ibid., XV, 11). Deus tem sede da nossa sede dEle. O Espírito Santo, simbolizado pela “água viva” de que falava Jesus, é exatamente aquele poder vital que aplaca a sede mais profunda do homem e lhe doa a vida total, aquela vida que ele busca e espera sem conhecer. A samaritana deixou, então, por terra o jarro “que, a partir de então, não lhe servia mais, e se havia tornado um peso: estava ávida, desde então, por saciar sua sede apenas com aquela água” (Ibid., XV, 30).
Mesmo os discípulos de Emaús, diante de Jesus, vivem a mesma experiência. É ainda o Senhor que faz “arder o coração” dos dois, enquanto caminhavam “com o rosto triste” (cf. Lc 24, 13-35). Mesmo sem reconhecerem Jesus ressuscitado, durante o trajeto seguido junto com Ele, eles sentiam o coração “arder no peito”, retomar a vida, tanto que, chegados em casa, “insistiram” para que Ele permanecesse com eles. “Fica conosco, Senhor”: é a expressão do desejo que palpita no coração de todo ser humano. Este desejo de “coisas grandes” deve se transformar em oração. Os Padres sustentavam que rezar não é outra coisa senão a conversão de si em desejo insistente do Senhor. Num belíssimo texto, Santo Agostinho define a oração como a expressão do desejo, e afirma que Deus responde alargando nosso coração para Ele: “Deus [...], suscitando o desejo em nós, estende o nosso ânimo; e estendendo-o, o torna capaz de acolhê-Lo” (Comentário à Primeira Carta de João, IV, 6). De nossa parte, devemos purificar os nossos desejos e as nossas esperanças para poder acolher a doçura de Deus. “Esta – continua Santo Agostinho – é a nossa vida: exercitarmo-nos no desejo” (Ibid.). Rezar diante de Deus é um caminho, uma escalada: é um processo de purificação dos nossos pensamentos, dos nossos desejos. Podemos pedir tudo a Deus. Tudo o que há de bom. A bondade e a potência de Deus não conhecem um limite entre coisas grandes e pequenas, entre coisas materiais e espirituais, entre coisas terrenas e celestiais. No diálogo com Ele, levando toda nossa vida diante de Seus olhos, aprendemos a desejar coisas boas, a desejar, no fundo, a Deus mesmo. Narra-se que, em um de seus momentos de oração, Santo Tomás de Aquino ouviu o Senhor Crucificado lhe dizer: “Escreveste bem de mim, Tomás; o que desejas?”. “Nada além de Ti”, foi a resposta do Santo doutor. “Nada além de Ti”. Aprender a rezar é aprender a desejar e, assim, aprender a viver.
Cinco anos depois da morte de Mons. Luigi Giussani, o Sumo Pontífice se une espiritualmente aos membros de Comunhão e Libertação. Como recordou na Audiência do dia 24 de março de 2007, na Praça São Pedro, “Dom Giussani se empenhou [...] em despertar nos jovens o amor por Cristo, ‘Caminho, Verdade e Vida’, repetindo que apenas Ele é o caminho para a realização dos desejos mais profundos do coração do homem”.
Ao confiar aos participantes do Meeting essas reflexões, desejando que sejam de ajuda para conhecer, encontrar e amar sempre mais ao Senhor, e testemunhar no nosso tempo que as “grandes coisas” a que o coração humano anseia se encontram em Deus, Sua Santidade Bento XVI assegura a sua oração e, de muito bom grado, envia a Vossa Excelência, aos responsáveis e organizadores e a todos os presentes, a Benção Apostólica.
Uno, cordialmente, também o meu desejo e me valho dessa circunstância para confirmar-me, com sentimentos de especial obséquio, como, de Vossa Excelência Reverendíssima, devotíssimo no Senhor.
Tarcisio Cardeal Bertone
Secretário de Estado

Do Vaticano, 10 de agosto de 2010.

* Extraído do site do Vaticano, no dia 23 de agosto de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

O nome disso é fé?

Soube, por ouvir dizer,
da graça de experimentar tudo fazer
como que de nada depender,
sabendo que depender
é a condição do humano viver.

domingo, 22 de agosto de 2010

Comentário ao evangelho do dia

1ª Leitura - Is 66,18-21
Assim diz o Senhor: Eu que conheço suas obras e seus pensamentos, virei para reunir todos os povos e línguas; eles virão e verão minha glória. Porei no meio deles um sinal, e enviarei, dentre os que foram salvos, mensageiros para os povos de Tarsis, Fut, Lud, Mosoc, Ros, Tubal e Javã, para as terras distantes, e, para aquelas que ainda não ouviram falar em mim e não viram minha glória. Esses enviados anunciarão às nações minha glória, e reconduzirão, de toda parte, até meu santo monte em Jerusalém, como oferenda ao Senhor, irmãos vossos, a cavalo, em carros e liteiras, montados em mulas e dromedários - diz o Senhor -, e como os filhos de Israel, levarão sua oferenda em vasos purificados para a casa do Senhor. Escolherei dentre eles alguns para serem sacerdotes e levitas, diz o Senhor.

2ª Leitura - Hb 12,5-7.11-13
Irmãos: Já esquecestes as palavras de encorajamento que vos foram dirigidas como a filhos: "Meu filho, não desprezes a educação do Senhor, não te desanimes quando ele te repreende; pois o Senhor corrige a quem ele ama e castiga a quem aceita como filho". É para a vossa educação que sofreis, e é como filhos que Deus vos trata. Pois qual é o filho a quem o pai não corrige? No momento mesmo, nenhuma correção parece alegrar, mas causa dor. Depois, porém, produz um fruto de paz e de justiça para aqueles que nela foram exercitados. Portanto, "firmai as mãos cansadas e os joelhos enfraquecidos; acertai os passos dos vossos pés", para que não se extravie o que é manco, mas antes seja curado.

Evangelho - Lc 13,22-30
Naquele tempo: Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém. Alguém lhe perguntou: "Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?". Jesus respondeu: "Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão. Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vós, do lado de fora, começareis a bater, dizendo: 'Senhor, abre-nos a porta!'. Ele responderá: 'Não sei de onde sois'. Então começareis a dizer: 'Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças!'. Ele, porém, responderá: 'Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça!'. Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac e Jacó, junto com todos os profetas no Reino de Deus, e vós, porém, sendo lançados fora. Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos".

Comentário feito por Santo Anselmo (1033-1109)
monge, bispo, Doutor da Igreja 

Que grande felicidade é possuir o Reino de Deus! Que grande alegria para ti, coração humano, pobre coração habituado ao sofrimento e esmagado pela dor, quando usufruíres de uma felicidade tal. [...] E contudo, se outra pessoa, alguém que amasses como a ti mesmo, participasse de felicidade idêntica, a tua alegria redobraria, porque te alegrarias tanto por ti como por ele. E se dois ou três, ou muitos mais, possuíssem essa mesma felicidade, sentirias por cada um deles a mesma alegria que sentes por ti próprio, porque amarias cada um deles como a ti mesmo. Assim, pois, nesta plenitude de amor que unirá os numerosos bem-aventurados, em que ninguém amará os outros menos que a si mesmo, cada um usufruirá da felicidade dos outros como da própria. E o coração do homem, incapaz de conter a própria alegria, será imerso no oceano de tão grandes e numerosas beatitudes. Ora, como sabeis, cada um se alegra com a felicidade dos outros na medida em que os ama; assim, nesta beatitude perfeita em que cada um amará a Deus incomparavelmente mais do que a si mesmo e a todos os outros, a felicidade infinita de Deus será para todos uma fonte de incomparável alegria. 

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Comentário ao evangelho do dia

São Bernardo de Claraval

Evangelho - Mt 22,34-40
Naquele tempo, os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus. Então eles se reuniram em grupo, e um deles perguntou a Jesus, para experimentá-lo: "Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?". Jesus respondeu: "'Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento!'. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: 'Amarás ao teu próximo como a ti mesmo'. Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos".

Comentário feito por Papa Bento XVI 
Encíclica Deus caritas est

A necessária interação entre o amor a Deus e o amor ao próximo [...]. Se na minha vida falta totalmente o contato com Deus, posso ver no outro sempre e apenas o outro, e não consigo reconhecer nele a imagem divina. Mas, se na minha vida negligencio completamente a atenção ao outro, importando-me apenas ser "piedoso" e cumprir os meus "deveres religiosos", então definha também a relação com Deus. Neste caso, trata-se duma relação "correta", mas sem amor. Só a minha disponibilidade para ir ao encontro do próximo e demonstrar-lhe amor me torna sensível também diante de Deus. Só o serviço ao próximo abre os meus olhos para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele me ama. Os Santos — pensemos, por exemplo, na Beata Teresa de Calcutá — hauriram a sua capacidade de amar o próximo, de modo sempre renovado, do seu encontro com o Senhor eucarístico, e vice-versa, este encontro ganhou o seu realismo e profundidade precisamente no serviço deles aos outros. Amor a Deus e amor ao próximo são inseparáveis, constituem um único mandamento. Mas, ambos vivem do amor preveniente com que Deus nos amou primeiro. Deste modo, já não se trata de um "mandamento" que do exterior nos impõe o impossível, mas de uma experiência do amor proporcionada do interior, um amor que, por sua natureza, deve ser ulteriormente comunicado aos outros. O amor cresce através do amor. O amor é "divino", porque vem de Deus e nos une a Deus, e, através deste processo unificador, nos transforma em um Nós, que supera as nossas divisões e nos faz ser um só, até que, no fim, Deus seja "tudo em todos" (1 Cor 15, 28). 

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Na disputa pelo terceiro mandato

Editorial d'O Estado de São Paulo

Muito do que se vê no horário gratuito não é o que parece - a começar da expressão, que esconde o fato de que, no fim, a conta sobra para o contribuinte. Mas nada do que se mostra nos programas de propaganda eleitoral se parece tanto com conversa de vendedor de fitas piratas como o que o presidente Lula diz da candidata que escolheu solitariamente para ser a sua sucessora. A tal ponto ele se derrama em superlativos sobre as suas imbatíveis qualidades, que pode levar o espectador mais cético, ao modo do santo e da esmola, a desconfiar até dos atributos que ela haverá de ter.
O presidente que inventou o bordão do "nunca antes na história deste país" para se vangloriar dos seus presumíveis feitos sem precedentes usa agora na promoção de sua afilhada a mesma retórica da louvação sem limites. No primeiro programa em que roubou a cena como puxador de votos para Dilma, na terça-feira à noite, Lula mostrou como sabe ser excessivo. Numa fala gravada no Palácio da Alvorada, a residência oficial dos presidentes brasileiros - a lei, ora a lei -, ele jorrou: "Tem pessoas a quem a gente confia um trabalho, e elas fazem tudo certo. Estes são os bons. E há pessoas a quem a gente dá uma missão, e elas se superam. Estes são os especiais. Dilma é assim."
E Lula é assim, para surpresa de ninguém. Antes ainda de começar a campanha, ele já se gabava de que lhe bastara apenas uma primeira reunião com Dilma para ter a certeza, como tornou a repetir anteontem, de que havia encontrado "a pessoa certa para o lugar certo" - no caso, o Ministério de Minas e Energia. Mas ele não ficará propriamente zangado se o eleitor desprevenido entender que se trata do Palácio do Planalto. Até o final da maratona, em 30 de setembro, haverá muito mais do mesmo espetáculo em que tocará ao presidente o papel de fiador das virtudes de quem jamais disputou um voto e que só graças a ele lidera as pesquisas eleitorais.
Só que Lula é um artista tão consumado que consegue exercer esse papel de mais de uma maneira e em mais de uma circunstância. Há o Lula que prega o voto em Dilma como o seu avalista, e há o Lula que prega o voto em Dilma como vigia de seu eventual governo. Uma coisa e outra, naturalmente, para neutralizar as acusações da oposição. No dia da estreia da temporada na TV, em visita a Petrolina e Salgueiro, em Pernambuco, o presidente falou, primeiro, como se candidato fosse e, depois, como o "presidente-sombra" de Dilma que pretenderia vir a ser.
"A palavra não é governar. A palavra é cuidar. Eu quero ganhar as eleições para cuidar do meu povo", discursou para uma plateia de operários em um canteiro de obras da Ferrovia Transnordestina, em Salgueiro, "como uma mãe cuida do seu filho", numa alusão oblíqua a Dilma, cujo nome não pronunciou, para ela ficar sabendo que a mãe é ele e não ela. Logo adiante, citando o slogan de Obama "nós podemos", reiterou sua disposição de continuar: "Não apenas podemos, como gostamos e queremos continuar governando este país." Como fará isso explicou em Petrolina, onde visitou a Universidade Federal do Vale do São Francisco.
O mesmo Lula que mais de uma vez prometera "ir para casa" quando terminar o mandato e "não dar palpite na vida de quem está governando", agora avisa que está disputando seu terceiro mandato. Transformar-se-á numa "casca de ferida" para fazer a reforma política, além de se empenhar pela criação do marco regulatório do meio ambiente. Isso, de um lado. De outro, continuará a percorrer o País para ver no que deu o seu governo. "E, se tiver alguma coisa errada", advertiu, "vou pegar o telefone e ligar para minha presidenta e dizer "pode fazer, minha filha (sic), porque eu não consegui.""
Nada lisonjeiro para ela, sem dúvida. Mas isso pouco importa para o seu criador. O que importa, acima de tudo, é vender a criatura, ora argumentando, com lábia de ambulante, que "não há ninguém mais preparado do que ela para governar o Brasil", ora, contraditoriamente, deixando claro que ele estará nos bastidores do poder pronto para suprir as falhas que poderão acontecer pela inexperiência da "filha".
Nós nunca duvidamos dessa disposição de Lula. Resta saber qual será a reação de sua criatura quando - e se - estiver no poder. 

* Extraído da versão online d'O Estado de São Paulo, do dia 19 de agosto de 2010.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 20, 1-16a
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos esta parábola: "O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. És nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, e lhes disse: 'Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo'. E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: 'Por que estais aí o dia inteiro desocupados?'. Eles responderam: 'Porque ninguém nos contratou'. O patrão lhes disse: 'Ide vós também para a minha vinha'. Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: 'Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!'. Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde  e cada um recebeu uma moeda de prata. Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata. Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 'Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro'. Então o patrão disse a um deles: 'Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?'. Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos".

Comentário feito por São Cirilo de Jerusalém (313-350)
Bispo de Jerusalém e Doutor da Igreja. 

Um dos ladrões que tinham sido crucificados com Jesus exclamou: "Senhor, lembra-Te de mim! Agora, é para Ti que me volto. [...] Não te declaro as minhas obras, porque me fazem tremer. Todos os homens têm boas disposições relativamente aos companheiros de jornada, e eis que eu sou Teu companheiro na jornada para a morte. Lembra-Te de mim, Teu companheiro de jornada, não agora, mas quando chegares ao Teu Reino" (cf. Lc 23, 42). Que poder foi esse que te iluminou, bom ladrão? Quem te ensinou a adorar assim Aquele que fora desprezado e crucificado contigo? Ó luz eterna, que iluminas os que se encontram nas trevas (cf. Lc 1, 79)! "Tem coragem! Em verdade te digo, hoje mesmo estarás Comigo no Paraíso, porque hoje ouviste a Minha voz e não endureceste o coração" (cf. Sl 94, 8). Por ter desobedecido, Adão foi expulso do Paraíso. [...] Mas tu, que hoje obedeceste à fé, serás salvo. Para Adão, a árvore foi ocasião de queda; a ti, a árvore far-te-á entrar no Paraíso. Ó graça imensa e inexprimível! Abraão, o fiel por excelência, ainda não tinha entrado, e o ladrão entra. Maravilhado, Paulo observa: "Onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Rom 5, 20). Aqueles que tinham trabalhado todo o dia ainda não tinham entrado no Reino, e este, o homem da última hora, entra sem tardar. Que ninguém murmure contra o senhor: "Em nada te prejudico, meu amigo. [...] Ou não me será permitido dispor dos meus bens como entender?". O ladrão quer ser justo [...], por mim, contento-me com a fé de que ele deu provas. [...] Eu, o pastor, encontrei a ovelha perdida e a coloquei nos ombros (cf. Lc 15, 5), porque ela me disse: "Errei, mas lembra-te de mim, Senhor, quando chegares ao Teu Reino".

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Edith Stein: santa e filósofa para o Século XXI

Entrevista com o filósofo Rodrigo Guerra
Por Jaime Septién

Querétaro, segunda-feira, 16 de agosto de 2010 - No dia 19 de agosto de 1942, Edith Stein - Santa Benedita da Cruz - morreu na câmara de gás do campo de concentração de Auschwitz. Em 11 de outubro de 1998, foi canonizada por João Paulo II no Vaticano. ZENIT e El Observador entrevistaram Rodrigo Guerra López, doutor em Filosofia pela Academia Internacional de Liechtenstein, membro da Academia Pontifícia para a Vida, diretor do CISAV, e especialista em fenomenologia e personalismo, sobre a atualidade do testemunho e do pensamento desta importante filósofa, mística, carmelita e mártir.

ZENIT: Que importância tem uma figura como a de Edith Stein no momento atual?
Rodrigo Guerra: Edith Stein é relevante para a nossa época principalmente porque é uma santa. Com sua vida e sua morte, ela mostrou que é possível viver com radicalidade a adesão a Jesus Cristo e o amor aos seus irmãos em meio a um mundo que parece cair no absurdo, na irracionalidade e na violência.

ZENIT: Edith Stein é santa, mas também foi uma grande intelectual...
Rodrigo Guerra: O itinerário de Edith Stein rumo à santidade não se encontra à margem do seu perfil intelectual. Ao contrário, toda a sua imensa contribuição filosófica é parte de sua vida e de uma maneira misteriosa também é parte de sua preparação para o martírio. Mártir significa testemunha. Edith Stein buscou ser testemunha da verdade ao amar apaixonadamente o trabalho intelectual que exerceu em parte acompanhada por seu professor Edmund Husserl e por outros brilhantes filósofos, como Adolf Reinach, Roman Ingarden e Hedwig Conrad-Martius. Da mesma forma, ela procurou ser testemunha da verdade no momento de aderir afetiva e efetivamente a Jesus Cristo crucificado, ao ser chamada ao Carmelo e, finalmente, ao morrer em Auschwitz nas mãos dos nazistas. Todo este caminho parece indicar que a vocação mais profunda do filósofo cristão não termina ao escrever livros e fazer carreira acadêmica, mas principalmente educando o coração em uma disponibilidade particular para seguir a verdade até a cruz.

ZENIT: O pensamento de Edith Stein é pertinente para os que vivem na primeira década do século 21?
Rodrigo Guerra: Suas contribuições na metafísica, na antropologia da mulher, na teoria da pessoa humana, na teoria do Estado e nas relações filosofia-cristianismo são sumamente lúcidas e adiantadas para a sua época. Sou da opinião de que seu pensamento será valorizado com maior amplitude e profundidade no século 21, após a queda do racionalismo ilustrado e das rupturas pós-modernas. Em Edith Stein, é possível encontrar importantes intuições que colaboram para superar tanto o racionalismo como a desconfiança da razão. Penso, por exemplo, na forma como utiliza o método fenomenológico: sempre fiel ao dado da experiência e sempre aberta a reconhecer que o que aparece revela o ser. Edith Stein, com sua fenomenologia realista, contribui de maneira sumamente relevante para realizar o que Bento XVI chama de "ampliar os horizontes da razão".

ZENIT: As opiniões de Edith Stein sobre a mulher também foram adiantadas com relação à sua época. No entanto, talvez hoje se necessitasse ir além delas para construir um "novo feminismo". O que você acha disso?
Rodrigo Guerra: De fato, o pensamento cristão deve ser concebido como um caminho que é preciso continuar em cada geração. Edith Stein conseguiu desenvolver com grande valentia intelectual uma teoria sobre a pessoa feminina fortemente associada ao modo como ela compreendia a natureza da alma humana e o princípio de individuação. Na atualidade, temos de aprofundar justamente em aspectos como este para mostrar que a diferenciação sexual não é um mero acidente do corpo, mas sim que tem sua raiz mais profunda naquilo que constitui a pessoa humana como pessoa. O magistério de João Paulo II recolheu justamente estas intuições que é necessário prosseguir através de um trabalho interdisciplinar. Da mesma forma, Stein apreciou a originalidade da feminilidade sem desconhecer os condicionamentos culturais nos quais a sexualidade se encontra submersa em cada época. Por isso, na antropologia do feminino desenvolvida por Stein se encontra a semente de uma teoria personalista sobre a sexualidade e sobre que o hoje se costuma denominar "gênero". Em momentos como o atual, em que se afirma que a consistência da pessoa é principalmente uma construção cultural, é necessário voltar a autores como Stein para encontrar uma adequada articulação entre natureza e cultura que não negue nenhum desses aspectos, mas que os reconheça em sua unidade e diferença.

ZENIT: Figuras como a de Edith Stein - Santa Benedita da Cruz - são importantes, mas não se encontram facilmente como referências religiosas e culturais na sociedade atual. A que se deve esta situação? É possível corrigi-la?
Rodrigo Guerra: Por um lado, o irracionalismo pós-moderno gerou que certos ambientes acadêmicos, muitos ambientes políticos e inúmeros meios de comunicação banalizassem ao máximo o tema da verdade. O esforço por voltar às coisas em si e encontrar nelas a verdade - como queria Edith Stein - é sumamente árduo na atualidade. Por isso, é preciso criar novos espaços que deixem que os jovens possam viver uma experiência educativa alegre, que permita a assimilação racional e criativa do pensamento de Edith Stein e de outros autores que fazem parte do legado antigo e contemporâneo do pensamento cristão. Um dos meus professores - John Crosby - costumava dizer que a communio é o método educativo para fazer uma filosofia que ame a verdade em qualquer lugar onde esta se encontrar. Amar a verdade e manter-se fiel a ela é mais fácil quando isso é feito em comunidade. Por outro lado, é preciso reconhecer que nos falta, como cristãos, uma nova paixão pessoal e comunitária pela verdade. A insistência de Bento XVI com relação a uma nova racionalidade, mais aberta e comprometida, parece-me que se encontra justamente nesta direção. Acho que por isso é preciso trabalhar para criar comunidades científicas que, nutridas pela experiência cristã, permitam ser ajuda para a nossa frágil razão e para a nossa enfraquecida vontade.

ZENIT: Edith Stein viveu uma amizade desse tipo com Husserl, com Ingarden e com alguns dos seus amigos: é possível hoje encontrar pessoas e comunidades assim?
Rodrigo Guerra: Durante longos anos, filósofos como Angela Ales Bello, Anna Maria Pezzella, Alasdair MacIntyre, Josef Seifert, Walter Redmond, Urbano Ferrer, Juan Caballero Bono, Francisco Javier Sancho, Eduardo González di Pierro, Diego Rosales e outros promoveram o estudo do pensamento de Edith Stein com grande sacrifício e remando contra a maré. Seu testemunho e exemplo motivaram a criação de círculos de estudo, instituições, congressos e, no fundo, um verdadeiro movimento que reconhece que Edith Stein é um marco intelectual e espiritual para o mundo de hoje. Na Academia Internacional de Filosofia de Liechtenstein e do Chile, na Universidade Lateranense, no Instituto Edith Stein de Granada e no CISAV do México também encontramos este movimento vivo de diversas formas.

ZENIT: Edith Stein fez uma filosofia cristã e deu testemunho cristão de amor à verdade até o sacrifício de sua própria vida. Que lição ela nos dá para o momento atual?
Rodrigo Guerra: Acho que Stein, entre outras coisas, nos ensina que a vida cristã não está separada da vida intelectual e que a atividade intelectual realiza melhor sua vocação quando se deixa provocar pelo acontecimento cristão. Assim como Balthasar dizia que é preciso voltar a fazer "teologia de joelhos", parece-me que os filósofos cristãos também deveriam recuperar a consciência da necessidade de unir a vida espiritual ao trabalho filosófico. Stein também mostra que a adesão à verdade e a Cristo, quando levada a sério, não pode estar associada à cômoda vida burguesa, mas deve se projetar em compromisso real pelas pessoas, em especial pelas mais vulneráveis e perseguidas. Um personalismo que não passe por um compromisso militante e solidário a favor da dignidade humana e da justiça desaba por falta de congruência.

ZENIT: É possível que o pensamento cristão volte a ter um lugar na cultura contemporânea? Tanto na Europa como na América Latina, as sociedades parecem cada vez mais configurar-se como se Deus não existisse...
Rodrigo Guerra: Quando Husserl morreu, Edith Stein escreveu uma breve reflexão a uma de suas amigas: "Não tenho preocupação alguma pelo meu querido professor (Edmund Husserl). Estive sempre muito longe de pensar que a misericórdia de Deus se reduzisse às fronteiras da Igreja visível. Deus é a verdade. Quem busca a verdade, busca Deus, seja ou não consciente disso". Este breve texto reflete uma atitude de honesta simpatia por tudo o que é humano, por todas as buscas sinceras da verdade, ainda quando estejam repletas de fragilidade. Da mesma forma, mostra uma confiança grande na graça, que age de maneira misteriosa, mas real em todos. O pensamento cristão, em particular a filosofia cristã, ressurgirá como uma proposta culturalmente relevante para a Europa e para a América Latina não tanto à base de planos estratégicos, mas quando formemos novas gerações de jovens capazes de reconhecer no seio da modernidade e de sua crise a voz das exigências fundamentais que brotam do coração humano. Estas exigências sempre estão marcadas pela fome de verdade, bondade e beleza. No final, estas exigências são desejo de que um Deus vivo e encarnado se torne presente e reconstrua a vida, dando sentido a tudo. Todo ser humano busca Cristo, ainda que não o saiba. Toda busca honesta da verdade contribui para que uma nova cultura emirja, uma cultura na qual o cristianismo possa viver com liberdade e, a partir dessa experiência, ofereça o incentivo necessário para pensar a verdade com novos olhos.

* Extraído do Zenit, do dia 16 de agosto de 2010.

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 19, 23-30
Naquele tempo, Jesus disse aos discípulos: "Em verdade vos digo, dificilmente um rico entrará no Reino dos Céus. E digo ainda: é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus". Ouvindo isso, os discípulos ficaram muito espantados, e perguntaram: "Então, quem pode ser salvo?". Jesus olhou para eles e disse: "Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível". Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: "Vê! Nós deixamos tudo e te seguimos. O que haveremos de receber?". Jesus respondeu: "Em verdade vos digo, quando o mundo for renovado e o Filho do Homem se sentar no trono de sua glória, também vós, que me seguistes, havereis de sentar-vos em doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos, campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna. Muitos que agora são os primeiros, serão os últimos. E muitos que agora são os últimos, serão os primeiros".

Comentário feito por São Pedro Damião (1007-1072)
eremita e depois bispo, Doutor da Igreja 

Na verdade, é uma grande coisa "deixar tudo", mas ainda é ainda mais importante "seguir a Cristo" porque, como aprendemos através dos livros, muitos deixaram tudo mas não seguiram a Cristo. Seguir a Cristo é a nossa tarefa, o nosso trabalho, e nisso consiste o essencial da salvação do homem, mas não podemos seguir a Cristo se não abandonarmos tudo o que nos bloqueia. Porque "Ele sai, percorrendo alegremente o seu caminho, como um herói" [Sl 19 (18), 6] e ninguém pode segui-Lo carregado com um fardo. "Nós deixámos tudo e seguimos-Te", diz Pedro, não apenas os bens deste mundo mas também os desejos da nossa alma. Porque quem continua apegado, nem que seja a si mesmo, não abandonou tudo. Mais ainda, não serve de nada deixar tudo à exceção de si mesmo, porque não há para o homem fardo mais pesado que o seu eu. Que tirano será mais cruel, que senhor será mais impiedoso para o homem do que a sua própria vontade? [...] Por consequência, é necessário que deixemos os nossos bens e a nossa vontade própria se que queremos seguir Aquele que não tinha sequer "onde reclinar a cabeça" (Lc 9, 58) e que veio "não para fazer a [Sua] vontade, mas a vontade dAquele que [O] enviou" (Jo 6, 38). 

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Cartas do P.e Aldo 159

Asunción, 16 de agosto de 2010.

Um verdadeiro Karai
Em um mundo de canalhas que se prostituem pelo poder, pelo dinheiro e pela luxúria, é difícil encontrar um “Karai”, particularmente no mundo da política onde o poder faz com que os homens percam a cabeça, fazendo-se de escravos, vítimas de suas ambições.
O canalha é o homem que perdeu a consciência da dignidade de homem, conformando a sua identidade ao papel que o define. É a marionete do poder, aquele que, por dinheiro, ou por aquilo que vem do dinheiro, está disposto a vender mesmo a própria mãe, além da sua própria dignidade. Ao contrário, o “Karai” é o pecador, é o homem que olha para o destino último da vida. É a pssoa que não tem medo de se sujar as mãos, mesmo na política, mas não está disposto a vender a sua dignidade humana. É o homem pecador “spe erectus”, quer dizer dominado pela esperança, pela certeza de que a sua salvação e a da sociedade não depende dele, mas vem de fora, de um OUTRO. 
O “Karai” é o mendicante do Infinito, é o homem “viator”, é aquele que tem claro que a própria consistência coincide com o relacionamento com o Mistério: “Eu sou TU que me fazes”. Por isso, vive pedindo, suplicando, reconhecendo que, sem Cristo, a vida é “uma folha de árvore no outono”, diria o poeta. Repito, o “Karai” é o pecador, enquanto que o canalha é o ser humano prostituído pela demência do poder, orgulhoso, cheio de si mesmo.
Um exemplo claro de “Karai”, nesses últimos anos, foi, para mim, o do Vice-Presidente da República do Paraguai, o Doutor Federico Franco. Alguns dias atrás, foi à Colômbia para presenciar a cerimônia de tomada de posse da Presidência daquele país pelo Doutor Juan Manuel Santos, democratiamente eleito pelo povo. Segunda-feira, dia 9 de agosto, eu e Padre Paolino estávamos no Brasil e voltamos para casa na terça-feira à uma da manhã. Há quase dois anos, toda segunda-feira, às 5h30 da manhã, nos encontramos com o Vice-Presidente da República para rezar as Laudes. Um gesto surpreendente e mais único que raro no mundo da política mundial atual.
Grande foi a minha surpresa quando, na terça-feira, às 6h30 da manhã, o Vice-Presidente nos liga para nos dizer que “em alguns minutos estarei aí para rezar”. Mas, como – nos perguntamos – se ele acabou de chegar da Colômbia, às 3h da manhã e já tem o desejo de começar o dia, rápido, rezando? Não podia acreditar naquilo, porque nem mesmo os Bispos ou os Padres fazem algo parecido: chegar de uma viagem longuíssima, às 3h da manhã, e três horas depois sair de casa para recitar as “Laudes”. Não obstante tudo, o Doutor Franco estava aqui às 6h30, mesmo com os olhos visivelmente cansados.
Rezemos pelo Presidente da República – ele nos disse – para que se cure rápido, por isso eu vim para cá mesmo sem dormir”. Um homem, somente um homem, isto é, um pecador, um mendicante do Infinito, do Absoluto pode viver assim. A Deus não interesse a coerência do homem, que é pura graça Sua e que é dada quando, como e a quem quer, mas que o homem viva consciente da sua condição de pecador, que viva suplicando, pedindo. O homem é um “Karai” apenas quando tem essa posição.
Por isso, não me surpreendi quando, com muita discrição, ao saudar o Senhor Presidente que partia para o Brasil para tratar de sua doença, lhe deu um Santo Rosário. Algo que somente os Pontífices fazem quando recebem um Chefe de Estado com a Esposa. Um homem pode perder politicamente, mas é um homem e no tempo se impõe, porque mesmo as pedras se dão conta que, para existir, precisam desse tipo de pessoas. Ao contrário, os vergonhosos podem ganhar o mundo inteiro, mas não obstante isso, a sua vida é como a erva que de manhã é verde e à noite está seca e é queimada.
Feliz o homem que confia no Senhor”, será como uma árvore de manga plantada na beira de um rio: carregado de frutas. Enquanto que o homem que vive cheio de si mesmo, que confia nas suas capacidades, vive na maldição, como afirma o profeta Jeremias. E os seus sucessos momentâneos se transformarão em escombros. A história é cheia desses escombros. Quero sublinhar este aspecto da vida de um amigo, não de um político. De um amigo, de um homem empenhado com a política, de um homem que não tem medo de sujar as mãos na política, porque o mundo tem necessidade desses homens, de homens que partem de Cristo, que vivem mendicando Cristo para poder viver com dignidade no ambiente onde não existe a amizade, porque o poder não tem amigos mas cúmplices e puxa-sacos, “cuña’i” anões na vida cotidiana.
Que o Paraguai tenha um Vice-Presidente para quem Cristo é tudo e é apaixonado pela Virgem Maria, é o melhor e, diria, única garantia para recuperar a dignidade histórica e cultural. A grandeza do homem está na súplica, no viver de joelhos e no começar cada semana de joelhos diante do Santíssimo Sacramento às 5h30 da manhã dizendo: “Vinde, ó Deus, em meu auxílio! Socorrei-me sem demora”. Um grito que é seguido pelo Salmo 62 que, nas suas primeiras estrofes, afirma: “Ó Deus, vós sois o meu Deus, com ardor vos procuro. Minha alma está sedenta de vós, e minha carne por vós anela como a terra árida e sequiosa, sem água. Quero vos contemplar no santuário, para ver vosso poder e vossa glória. Porque vossa graça me é mais preciosa do que a vida, meus lábios entoarão vossos louvores. Assim vos bendirei em toda a minha vida, com minhas mãos erguidas vosso nome adorarei. Minha alma saciada como de fino manjar, com exultante alegria meus lábios vos louvarão”.
Santo Afonso Maria de Ligório afirmava: “quem reza se salva, quem não reza se condena”. Toda a grandeza do homem está aqui. A oração porém não são fórmulas ou gritaria de alguns grupos “carismáticos” que estão convencidos de que Deus é surdo e não sabe daquilo de que temos necessidade e, por isso, fazemos com que Ele perca seu tempo com a nossa lista de exigências. “Nem todo o que diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos Céus, mas aqueles que fazem a vontade do meu Pai que está nos Céus”, nos diz Jesus.
Padre Aldo.

P.S.: Karai é um palavra em guarani que significa “um verdadeiro senhor”.

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 19, 16-22
Alguém aproximou-se de Jesus e disse: "Mestre, o que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?". Jesus respondeu: "Por que tu me perguntas sobre o que é bom? Um só é o Bom. Se tu queres entrar na vida, observa os mandamentos". O homem perguntou: "Quais mandamentos?". Jesus respondeu: "Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, e ama teu próximo como a ti mesmo". O jovem disse a Jesus: "Tenho observado todas essas coisas. O que ainda me falta?". Jesus respondeu: "Se tu queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me". Quando ouviu isso, o jovem foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico. 

Comentário feito por São João da Cruz (1542-1591)
carmelita, Doutor da Igreja 

Quanto mais te separares das coisas terrenas mais te aproximarás das coisas do céu e mais riquezas em Deus encontrarás. Aquele que souber morrer para tudo encontrará vida em tudo. Separa-te do mal, faz o bem, procura a paz (Sl 33, 15). Aquele que se queixa ou que murmura não é perfeito e nem sequer é bom cristão. Aquele que se esconde no seu próprio vazio e sabe abandonar-se a Deus é humilde. Aquele que sabe suportar o próximo e suportar-se a si mesmo é doce. Se queres ser perfeito, vende a tua vontade e dá-a aos pobres de espírito. Em seguida vira-te para Cristo para obteres dEle a doçura e a humildade e segue-O até ao calvário e ao sepulcro.

domingo, 15 de agosto de 2010

Cartas do P.e Aldo 158





Asunción, 15 de agosto de 2010.

Caros amigos,
não posso não compartilhar com vocês a comoção do milagre que aconteceu hoje na clínica.
Os dois jovens que vocês veem nas fotos se casaram. Ele, 28 anos, é doente de AIDS e tem câncer. Ela, infectada por ele, tem AIDS. O que nós teríamos feito? Não apenas não nos teríamos casado, como, se fôssemos ela, o teríamos odiado, visto que ele a contagiou.
Vocês entendem, agora, o que quer dizer - como ela me dizia hoje - levar a sério o próprio coração, critério infalível e objetivo para viver moralmente bem, como sempre nos recorda Carrón?! Vocês entendem o que quer dizer encontrar Cristo, dizer "TU" a Cristo?! Dá para entender o absurdo do divórcio, quando se vê essa bela garota dizer sim para sempre para o rapaz que a contagiou, porque ele é Cristo, mas antes de mais porque, como ela me disse, "eu o amo". Agora, se casam apenas para se ajudarem, enquanto a doença o permitir, a amar a Cristo! Amigos casados, chega de falação: este é um fato, este é o matrimônio, esta é a virgindade.
Boas férias
Padre Aldo

Santa Missa na Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria

Homilia do Santo Padre Bento XVI

Paróquia de São Tomás de Villanova, Castel Gandolfo
Domingo, 15 de agosto de 2010

Eminência, Excelência, Autoridades,
Caros irmãos e irmãs,

Hoje, a Igreja celebra uma das mais importantes festas do ano litúrgico dedicadas a Maria Santíssima: a Assunção. No final de sua vida terrena, Maria foi levada em alma e corpo para o Céu, ou seja, para a glória da vida eterna, para a plena e perfeita comunhão com Deus.
Esse ano é o sexagésimo aniversário da definição desse dogma, pelo Venerável Papa Pio XII – 1º de novembro de 1950 – e gostaria de ler a forma da dogmatização, ainda que seja um pouco complicada. Diz o Papa: “deste modo, a augustíssima Mãe de Deus, associada a Jesus Cristo de modo insondável desde toda a eternidade com um único decreto de predestinação, imaculada na sua concepção, sempre virgem, na sua maternidade divina, generosa companheira do divino Redentor que obteve triunfo completo sobre o pecado e suas consequências, alcançou por fim, como suprema coroa dos seus privilégios, que fosse preservada da corrupção do sepulcro, e que, à semelhança do seu divino Filho, vencida a morte, fosse levada em corpo e alma ao céu, onde refulge como Rainha à direita do seu Filho, Rei imortal dos séculos” (Cost. Ap. Munificentissimus Deus, AAS 42, 1950, pp. 768-769).
Este, portanto, é o núcleo da nossa fé na Assunção: acreditamos que Maria, como Cristo seu Filho, já venceu a morte e triunfa na glória celeste na totalidade do seu ser, “em alma e corpo”.
São Paulo, na segunda Leitura de hoje, nos ajuda a esclarecer um pouco esse mistério, partindo do fato central da história humana e da nossa fé: o fato da ressurreição de Cristo, que é “a primícia daqueles que morreram”. Imersos no Seu Mistério pascal, tornamo-nos partícipes da sua vitória sobre o pecado e sobre a morte. Aqui está o segredo surpreendente e a realidade chave de todo o acontecimento humano. São Paulo nos diz que todos somos “incorporados” em Adão, o primeiro e velho homem, todos temos a mesma herança humana da qual ele pertence: o sofrimento, a morte, o pecado. Mas ele acrescenta algo novo a essa realidade que todos nós podemos ver e viver todos os dias: não apenas participamos dessa herança do único ser humano, começado com Adão, como também somos “incorporados” também ao novo homem, em Cristo ressuscitado, e assim a vida da Ressurreição é já presente em nós. Portanto, essa primeira “incorporação” biológica é incorporação na morte, incorporação que gera a morte. A segunda, a nova, que nos é dada no Batismo, é “incorporação” que dá a vida. Cito ainda a segunda Leitura de hoje; diz São Paulo: “Com efeito, por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão. Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda” (I Cor 15, 21-24).
Ora, o que São Paulo afirma de todos os homens, a Igreja, no seu Magistério infalível, o diz de Maria, de um modo e sentido precisos: a Mãe de Deus é de tal forma inserida no Mistério de Cristo que participa da Ressurreição de seu Filho com tudo de si mesma desde o final de sua vida terrena; vive aquilo que nós esperamos para o fim dos tempos quando o “último inimigo” será destruído, a morte (cf. I Cor 15, 26); já vive aquilo que proclamamos no Credo, “Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”.
Então, podemos nos perguntar: quais são as raízes dessa vitória sobre a morte prodigiosamente antecipada em Maria? As raízes estão na fé da Virgem de Nazaré, como testemunha o trecho do Evangelho que escutamos (Lc 1, 39-56): uma fé que é obediência à Palavra de Deus e abandono total à iniciativa e à ação divina, segundo aquilo que lhe anuncia o Arcanjo. A fé, portanto, é a grandeza de Maria, como Isabel proclama alegremente: Maria é “bendita entre as mulheres”, “bendito é o fruto do seu ventre” porque é “a mãe do Senhor”, porque crê e vive de maneira única a “primeira” das bem-aventuranças, a bem-aventurança da fé. Isabel o confessa na sua alegria e da criança que pulou no seu ventre: “E bendita aquela que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu” (v. 45). Caros amigos! Não nos limitemos a admirar Maria no seu destino de glória, como se fosse uma pessoa muito distante de nós: não! Somos chamados a olhar o que o Senhor, no seu amor, quis também para nós, para o nosso destino final: viver através da fé na comunhão perfeita de amor com Ele e assim viver verdadeiramente.
A esse respeito, gostaria de me fixar sobre um aspecto da afirmação dogmática, lá onde se fala de assunção à glória celeste. Hoje, todos nós somos bem conscientes que como termo “céu” não nos referimos a um lugar qualquer do universo, a uma estrela ou a algo de semelhante: não. referimo-nos a algo de muito maior e difícil de definir com os nossos limitados conceitos humanos. Com esse termo “céu” queremos afirmar que Deus, o Deus que se fez próximo de nós não nos abandona nem mesmo na e além da morte, mas tem um lugar para nós e nos dá a eternidade; queremos afirmar que em Deus há um lugar para nós. Para compreender um pouco mais dessa realidade olhemos para nossa vida mesma: todos nós experimentamos que uma pessoa, quando morre, continua a subsistir de algum modo na memória e no coração daqueles que a conheceram e amaram. Poderíamos dizer que nessas pessoas continua vivendo uma parte daquela outra, mas é como uma “sombra”, porque mesmo essa sobrevivência no coração dos entes queridos é destinada a acabar. Deus, porém, nunca passa e todos nós existimos a graças a Seu amor. Existimos porque Ele nos ama, porque Ele pensou em nós e nos chamou à vida. Existimos nos pensamentos e no amor de Deus. Existimos em toda a nossa realidade, não apenas na nossa “sombra”. A nossa serenidade, a nossa esperança, a nossa paz se fundam exatamente nisso: em Deus, no Seu pensamento e no Seu amor, não sobrevive apenas uma “sombra” de nós mesmos, mas nEle, no Seu amor criador, somos custodiados e introduzidos com toda a nossa vida, com todo o nosso ser na eternidade.
É o Seu Amor que vence a morte e nos doa a eternidade, e é esse amor que chamamos “céu”: Deus é tão grande que tem um lugar também para nós. E o homem Jesus, que ao mesmo tempo é Deus, é, para nós, a garantia de que ser-homem e ser-Deus podem existir e viver eternamente um no outro. Isso quer dizer que, de cada um de nós, não continuará a existir apenas uma parte que nos é, por assim dizer, arrancada, enquanto que as demais serão arruinadas; quer dizer mesmo é que Deus conhece e ama todo o homem, o que nós somos. E Deus acolhe na Sua eternidade aquilo que agora, na nossa vida feita de sofrimento e amor, de esperança, de alegria e de tristeza, cresce e vem a ser. Todo o homem, toda a sua vida é tomada por Deus e é nEle purificada e recebe a eternidade. Caros amigos! Penso que essa seja uma verdade que nos deve encher de uma profunda alegria. O Cristianismo não anuncia apenas uma salvação qualquer da alma num além impreciso, no qual todo aquilo que, nesse mundo, nos foi precioso e caro seria cancelado, mas promete a vida eterna, “a vida do mundo que há de vir”: nada daquilo que nos é precioso e caro será arruinado, mas encontrará plenitude em Deus. Todos os cabelos da nossa cabeça estão contados, disse, um dia, Jesus (cf. Mt 10, 30). O mundo definitivo será a realização também dessa terra, como afirma São Paulo: “a criação mesma será libertada da escravidão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8, 21). Assim, compreende-se como o Cristianismo conceda uma esperança forte num futuro luminoso e abra o caminho em direçaõ da realização desse mesmo futuro. Somos chamados, exatamente como cristãos, a edificar esse mundo novo, a trabalhar para que se torne, um dia, o “mundo de Deus”, um mundo que ultrapassará tudo aquilo que nós mesmos somos capazes de construir. Em Maria Assunta ao céu, plenamente partícipe da Ressurreição do Filho, contemplamos a realização da criatura humana segundo o “mundo de Deus”.
Peçamos ao Senhor que nos faça compreender o quão preciosa é, a Seus olhos, toda a nossa vida; reforce a nossa fé na vida eterna; nos torne homens da esperança, que agem para construir um mundo aberto a Deus, homens cheios de alegria, que sabem vislumbrar a beleza do mundo futuro em meio às fadigas da vida cotidiana e, nessa certeza, vivem, creem e esperam.
Amém!

* Extraído do site do Vaticano, do dia 15 de agosto de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Comentário ao evangelho do dia

Assunção de Nossa Senhora

1ª Leitura - Ap 11,19a; 12,1-6a.10ab
Abriu-se o Templo de Deus que está no céu e apareceu no Templo a arca da Aliança. Então apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava em dores de parto, atormentada para dar à luz. Então apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão, cor de fogo. Tinha sete cabeças e dez chifres e, sobre as cabeças, sete coroas.Com a cauda, varria a terça parte das estrelas do céu, atirando-as sobre a terra. O Dragão parou diante da Mulher que estava para dar à luz, pronto para devorar o seu Filho, logo que nascesse. E ela deu à luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro. Mas o Filho foi levado para junto de Deus e do seu trono. A mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar. Ouvi então uma voz forte no céu, proclamando: "Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza do nosso Deus, e o poder do seu Cristo".

2ª Leitura - 1Cor 15,20-26.28
Irmãos: Na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. Com efeito, por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão. Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. A seguir, será o fim, quando ele entregar a realeza a Deus-Pai, depois de destruir todo principado e todo poder e força. Pois é preciso que ele reine até que todos os seus inimigos estejam debaixo de seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte. E, quando todas as coisas estiverem submetidas a ele, então o próprio Filho se submeterá àquele que lhe submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos.

Evangelho - Lc 1,39-56
Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judéia. Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu". Maria disse: "A minha alma engrandece o Senhor, e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador, pois, ele viu a pequenez de sua serva, eis que agora as gerações hão de chamar-me de bendita. O Poderoso fez por mim maravilhas e Santo é o seu nome! Seu amor, de geração em geração, chega a todos que o respeitam. Demonstrou o poder de seu braço, dispersou os orgulhosos. Derrubou os poderosos de seus tronos e os humildes exaltou. De bens saciou os famintos despediu, sem nada, os ricos. Acolheu Israel, seu servidor, fiel ao seu amor, como havia prometido aos nossos pais, em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre". Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.

Comentário feito por São Bernardo (1091-1153)
monge cistercense e Doutor da Igreja 

Hoje a Virgem Maria sobe, gloriosa, ao céu. É o cúmulo de alegria dos anjos e dos santos. Com efeito, se uma simples palavra sua de saudação fez exultar o menino que ainda estava no seio materno (Lc 1, 44), qual não terá sido sido o regozijo dos anjos e dos santos, quando puderam ouvir a sua voz, ver o seu rosto, e gozar da sua presença abençoada! E para nós, irmãos bem-amados, que festa a da sua assunção gloriosa, que motivo de alegria e que fonte de júbilo temos hoje! A presença de Maria ilumina o mundo inteiro, a tal ponto resplandece o céu, irradiado pelo brilho desta Virgem plenamente santa. Por conseguinte, é justificadamente que ecoa nos céus a ação de graças e o louvor. Ora [...], na medida em que o céu exulta da presença de Maria, não seria razoável que o nosso mundo chorasse a sua ausência? Mas não, não nos lastimemos, porque não temos aqui cidade permanente (Heb 13, 14), antes procuramos aquela aonde a Virgem Maria chegou hoje. Se já estamos inscritos no número de habitantes dessa cidade, convém que hoje nos lembremos dela [...], compartilhemos a sua alegria, participemos nesta alegria que hoje deleita a cidade de Deus; uma alegria que depois se espalha como o orvalho sobre a nossa terra. Sim, Ela nos precedeu, a nossa Rainha, precedeu-nos e foi recebida com tanta glória que nós, seus humildes servos, podemos seguir a nossa Rainha com toda confiança gritando [com a Esposa do Cântico dos Cânticos]: "Arrasta-me atrás de ti. Corramos ao odor dos teus perfumes!" (Ct 1, 3-4) Viajantes sobre a terra, enviamos à frente a nossa advogada [...], a Mãe de misericórdia, para defender eficazmente a nossa salvação. 

sábado, 14 de agosto de 2010

Cartas do P.e Aldo 157

Asunción, 14 de agosto de 2010.

Caros amigos,
Estas semanas foram bonitas porque particularmente difíceis, de forma que Paolino me disse: “Vamos a São Paulo para encontrar Marcos e Cleuza”. “Era exatamente isso que eu estava pensando”, lhe respondi. É muito bonito que também ele sinta essa exigência, que é apenas de quem é verdadeira com a própria humanidade. E assim pegamos o avião. Praticamente, nesses dois últimos meses, nos vimos quase toda semana. Quando chegamos, Cleuza nos disse: “Se vocês não tivessem vindo, mesmo Marcos e eu empenhados com a campanha eleitoral, teríamos ido até vocês”.
Por quê? Quando se vive intensamente a realidade, quando não se brinca com a própria humanidade, quando não se tira férias do próprio eu, a pessoa começa a sentir a urgência de estar com quem está empenhado na mesma aventura. O mundo de dor no qual eu vivo (somente no último sábado, morreram cinco pacientes), crianças vítimas de violência, que chegam continuamente, ou o empenho intenso de Marcos e Cleuza nesse momento no qual estão enfrentando a campanha eleitoral, sustentados apenas por amigos, porque não têm o poder econômico dos outros, com todas as dificuldades que estão em jogo, sim ou sim, faz com que a pessoa sinta a urgência de ver o rosto de quem mais recorda Cristo, ou melhor de quem é a Presença de Cristo.
Por isso, foi comovente o tempo que passamos juntos. Poderia sintetizar assim o que aconteceu, porque, para nós, o vermo-nos é sempre e somente um acontecimento.
1. Essa companhia é cheia de serenidade, porque somos unidos, somos parte de uma grande amizade. O empenho político de Marcos é um instrumento privilegiado para anunciar a Cristo, fazer conhecer o Movimento e um meio para ajudar a Associação da qual são responsáveis. É bonito ver no jornalzinho (são 2 milhões de cópias) o programa de Marcos e a nosso foto – seus amigos. Quem, na Itália, faria algo assim? Além do mais, em plena campanha eleitoral, entre um comício e outro, veio nos pegar e depois nos levou ao aeroporto. E, mais ainda, não existe empenho político que o impeça de ir à Escola de Comunidade ou aos encontros da Fraternidade, toda segunda-feira. Cleuza dizia: “Cristo se mostra através de uma Presença. Não me manda sinais, mas amigos, ou seja, uma Presença”. A maior dor de Cristo não foi física, mas moral: a solidão, o abandono, a traição. A presença de Cristo é uma amizade.
2. Não temos necessidade dessa companhia; de outra forma, como conseguiríamos enfrentar o oceano de dor que nos circunda, como por exemplo, as milhares de crianças violentadas e os seus violentadores? Que, por sua vez, são vítimas de abusos sofridos quando crianças?
3. “Eu não posso amar a Cristo se, antes, não experimento o amor que Ele tem por mim. E é uma alegria experimentar essa Presença dentro da luta (mesmo política) de todos os dias”.
4. “A peregrinação a Aparecida indicou o limite das nossas capacidades e, por isso, mendicamos caminhando até o Santuário. Agora, a campanha política é a continuidade daquela peregrinação. Não importa se Marcos vai vencer ou não, o que importa é que tudo isso é para a glória de Cristo. O resultado não importa como não importam as traições ou o abandono de alguns amigos. Aconteceu também a Jesus”.
Amigos, bom feriado [no dia 15 de agosto, na Itália, se comemora um feriado chamado Ferragosto, que coincide com o meio do verão, data na qual se celebra a Assunção da Virgem Maria; ndt], com esses pensamentos dos meus amigos. Estar com eles é, de verdade, uma “conversatio in coelis”. Por isso, recorremos uns aos outros muito frequentemente, porque é muito grande a sede que temos de Cristo.
Padre Aldo

Comentário ao evangelho do dia

São Maximiliano Maria Kolbe

Evangelho - Mt 19, 13-15
Naquele tempo, levaram crianças a Jesus, para que impusesse as mãos sobre elas e fizesse uma oração. Os discípulos, porém, as repreendiam. Então Jesus disse: "Deixai as crianças, e não as proibais de virem a mim, porque delas é o Reino dos Céus". E depois de impôr as mãos sobre elas, Jesus partiu dali. 

Comentário feito por Cardeal Joseph Ratzinger [Papa Bento XVI] 
Retiro pregado no Vaticano, 1983

Temos de recordar que o atributo essencial de Jesus, aquele que exprime a Sua dignidade, é o atributo de "Filho" [...] A orientação da Sua vida, a motivação originária e o objetivo que O modelaram exprimem-se numa só palavra: "Abba, Pai bem-amado". Jesus sabia que nunca estaria só e, até ao último grito na cruz, obedeceu Àquele a quem chamava Pai, virando-Se totalmente para Ele. Só isso permite explicar que Se tenha recusado até ao fim a ser chamado rei, ou senhor, ou a permitir que lhe atribuíssem qualquer outro título de poder, antes recorrendo a um termo que também poderíamos traduzir por "criancinha". Pode-se, por conseguinte, dizer o seguinte: se, na pregação de Jesus, a infância tem um lugar tão extraordinário, é porque corresponde ao mais profundo do Seu mistério mais pessoal, à Sua filiação. Afinal a Sua maior dignidade, que remete para a Sua divindade, não consiste no poder de que poderia dispor; funda-se no Seu ser orientado para o outro: para Deus, para o Pai. O exegeta alemão Joachim Jeremias diz precisamente que ser criança no sentido de Jesus significa aprender a dizer "Pai". 

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Querem eliminar o Big Bang, mas não nos explicam aquilo que vemos

Por Mario Gargantini
(Entrevista com Marco Bersanelli)

De vez em quando, alguém nos prova. A ideia de poder abater as teorias dominantes é muito estimulante para os cientistas e, sobretudo, para os físicos teóricos. Imagine-se quando se trata de teorias que dizem respeito ao universo inteiro, à sua origem e à sua evolução

Agora é a vez do físico chinês Wun-Yi Shu, do Departamento de Estatística da National Tsing Hua University de Taiwan, que publicou no site arXiv.org, o serviço de publicações on line da Cornell University, um artigo com um título peremptório: “Cosmological Models with No Big Bang”, ou seja, Modelos cosmológicos sem Big Bang.
Wun-Yi Shu se diferencia de outros opositores do Big Bang, como o astrofísico americano Halton Arp, célebre pelas suas interpretações alternativas do deslocamento em direção ao vermelho (red shift) do espectro das galáxias. Arp tinha chegado a negado a mesma expansão do universo, vendo o red shift como puro indicador da idade das galáxias e dos quasar e desenvolvendo uma cosmologia que não precisa da grande explosão inicial. Mas os dados experimentais fizeram essa hipótese se esconder.
O físico taiwanês não considera os trabalhos de Arp (que não é nem mesmo citado na bibliografia do artigo), mas constrói a sua argumentação exatamente a partir dos grandes resultados observacionais do final dos anos 1990, quando se pôde medir a taxa de expansão do universo e se descobriu não apenas que a expansão está em andamento, mas também que está se acelerando.
Para explicar um fenômeno semelhante os físicos tiveram que recorrer à hipótese da existência de uma “energia escura”, que constituiria mesmo 73% do universo e cuja natureza permanece ainda “escura”. Abriu-se, então, a temporada de caça a essa energia e a sua descoberta é um dos objetivos de muitas pesquisas não apenas em cosmologia, mas também na física fundamental (LHC [Large Hadron Collider – Grande Colisor de Hádrons; ndt] não poderá dizer nada sobre a Dark Energy [Energia Escura; ndt], apenas sobre a Dark Matter [Matéria Escura; ndt]!).
Pois bem, Wun-Yi Shu não quer ouvir falar de energia escura e recomeça a partir das clássicas equações do campo gravitacional de Einstein sem, porém, introduzir a chamada constante cosmológica; assume, além do mais, a hipótese de que a velocidade da luz e a constante de gravitação universal de Newton não são constantes mas mudam de valor com a expansão. Esta última, portanto, seria variável, alternando fases de aceleração e de desaceleração. Consequentemente, não existiria nenhuma explosão inicial e nenhum estágio final, enquanto tempo e espaço continuariam a se converter um no outro.
Mas, como os cientistas que estãao estudando o universo exatamente em seus instantes iniciais – perto do Big Bang – reagiram a essa visão? Segundo Marco Bersanelli, astrofísico da Università degli Studi de Milão, “trata-se de uma nova versão de uma velha ideia, que remonta a Paul Dirac, nos idos de 1930, acerca da variação das constantes de natureza com o tempo cósmico: particularmente da velocidade da luz e da constante de gravidade. Esta versão, que eliminaria do ponto de vista dinâmico a necessidade de uma fase inicial quente do universo, está porém particularmente em dificuldade, em face dos numerosos dados que provêm das observações cosmológicas e astrofísicas”. 
Bersanelli indica, portanto, a série de desencontros derivados das observações, que nos últimos tempos se tornaram sempre mais potentes e precisas. “É, de fato, consolidada a observação da abundância dos elementos leves primordiais (hélio e deutério em particular) de pleno acordo com as previsões de uma fase primordial quente do universo, quando nos primeiros minutos depois do Big Bang a temperatura devia ser em qualquer lugar equivalente àquela que hoje se encontra no centro das estrelas”.
Em seguida, faz referência às medidas que ele mesmo está elaborando a partir dos dados recolhidos pela sonda espacial Planck, a missão da ESA [European Space Agency – Agência Espacial Europeia; ndt] que está em curso nesse momento e da qual o físico milanês é um dos líderes: “São ainda mais contundentes, do ponto de vista da observação, as características e a existência mesma do fundo cósmico de microondas, a luz primordial deixada no universo há 14 milhões de anos atrás. Hoje, podemos mensurar com grande precisão as propriedades finas dessa luz fóssil (espectro, anisotropia e polarização), que foram previstas antes da sua observação, exatamente hipotetizando a existência da fase inicial quente do universo”. É com esses dados que cada nova teoria tem que lidar, sem chegar a conclusões precipitdas sobre os efeitos. 
Bersanelli além do mais não está unilateralmente emparedado na defesa da teoria do Big Bang e está aberto a avaliar outros possíveis modelos; na condição de que esses modelos venham acompanhados de dados e de medidas e consigam explicar os fenômenos observados: “Seria interessante se hoje existisse uma teoria cosmológica credível alternativa àquela do Big Bang quente. Todavia, até que os cenários propostos nao sejam capazes de dar as razões dessas observações fundamentais e bem consolidadas não poderão ser cientificamente competitivas”.
Um decisivo chamado de atenção, portanto, a um critério fundamental que guia a explicação científica dos fenômenos naturais, ou seja, a exigência de fazer passar cada hipótese e modelo explicativo pelo severo tribunal da observação e pelo crivo do suporte experimental. Mantendo bem firme a convicção de que a ciência tem muito a nos dizer sobre como este mundo existe, mas nada pode afirmar sobre a pergunta mais crucial do porquê existe, sobre o mistério da sua existência mesma.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 13 de agosto de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Felicidade

"Quem se contenta com o que tem e aceita o fato incontornável de que sempre lhe faltará algo, é muitíssimo mais feliz do que aquele que tem mais, porém se preocupa com o que lhe falta. Isto porque não podemos aproveitar ao máximo o que somos se o nosso coração está sempre dividido entre o que somos e o que não somos."
Thomas Merton

Comentário ao evangelho do dia

Santa Clara de Assis

Evangelho - Mt 18,15-20
Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos: "Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, à sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público. Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu. De novo, eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isto vos será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles".

Comentário feito por Tertuliano (c. 155-c. 220)
teólogo 

Vivendo entre irmãos, servos do mesmo amo e para quem tudo é comum, a esperança, o receio, a alegria, o desgosto, o sofrimento (pois têm uma mesma alma, vinda do mesmo Senhor e Pai), por que crês que eles são diferentes de ti? Por que receias que aqueles que conheceram as mesmas quedas se regozijem com as tuas? O corpo não pode regozijar-se com o mal que acontece a um dos seus membros; aflige-se por inteiro e por inteiro se esforça por curá-lo. Onde dois fiéis estiverem unidos, aí está a Igreja, mas a Igreja é Cristo. Portanto, quando beijas os joelhos dos teus irmãos, é Cristo que tocas, é a Cristo que imploras. E quando, por seu lado, os teus irmãos choram por ti, é Cristo que sofre, é Cristo que suplica ao Seu Pai. Aquilo que o Filho pede é rapidamente concedido. 

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Comentário ao evangelho do dia

São Lourenço

Evangelho - Jo 12,24-26
Naquele tempo, disse Jesus a seus discipulos: Em verdade, em verdade vos digo: "Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me quer servir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará".

Comentário feito por Santo Agostinho (354-430)
Bispo de Hipona (Norte de África) e Doutor da Igreja 

A vossa fé reconhece, meus irmãos, este grão lançado à terra, este grão que a morte multiplicou. A vossa fé reconhece-O porque Ele habita nos vossos corações. Nenhum cristão hesita em crer no que Cristo disse acerca de Si próprio. Mas, uma vez que este grão morreu e se multiplicou, muitos outros grãos foram lançados à terra. São Lourenço é um deles, e celebramos hoje o dia em que ele foi semeado. Vemos que colheita imensa despontou de todos estes grãos espalhados por toda a terra, e este espectáculo enche-nos de alegria, pelo menos a nós os que, pela graça de Deus, pertencemos ao seu celeiro. Porque nem toda a colheita entra no celeiro: a mesma chuva, útil e fértil, faz crescer o bom grão e a palha, mas não se armazenam os dois no celeiro. Para nós, agora é o tempo de escolher. [...] Portanto, ouvi, grãos consagrados, porque não duvido de que estejais aqui em grande número. [...] Ouvi-me, ou antes, ouvi em mim Aquele a Quem primeiro se chamou bom grão. Não ameis a vossa vida neste mundo. Se amais realmente a vossa vida, não ameis a vida deste mundo, e então salvareis a vossa vida [...] "O que ama a sua vida neste mundo perdê-la-á". É o bom grão que o diz, o grão que foi lançado à terra e que morreu para dar muito fruto. Ouvi-O, porque Ele faz o que diz. Ele nos instrui e mostra-nos o caminho através do Seu exemplo. Cristo não Se prendeu à vida deste mundo; Ele veio ao mundo para Se despojar de Si próprio, para dar a Sua vida e a retomar quando quisesse. [...] Ele é o verdadeiro Deus, este homem verdadeiro, homem sem pecado que veio tirar o pecado do mundo, revestido de um poder tão grande, que pôde dizer verdadeiramente sobre a Sua vida: "Ninguém Ma tira, mas sou Eu que a ofereço livremente. Tenho poder de a oferecer e poder de a retomar. Tal é o encargo que recebi de Meu Pai" (Jo 10, 18).