quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A arte do engano em Boff...

Por Sávio Passafaro Peres

Após ler o texto de Leonardo Boff – A guerra da mídia comercial contra os pobres –, compreendi porque a Igreja foi muito obsequiosa em estipular para Boff o silêncio obsequioso. O que Boff merece são belas bofetadas.
Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), há mais de 2000 anos atrás, fez um levantamento das principais técnicas sofísticas usadas para se ganhar um debate sem precisar ter razão, usando “falsas lógicas” e “falsos argumentos”. Esta arte do engano foi denominada de erística. Exemplo: “Toda luz se apaga. Deus é luz. Logo, deus se apaga”. Coisas do tipo.
Arthur Schopenhauer (1788-1860), com o objetivo de vacinar as pessoas contra essas técnicas, escreveu um tratado, somando àquelas exposta por Aristóteles, novas técnicas. Tudo isso se encontra em Como vencer um debate sem precisar ter razão em 33 estratagemas. Lendo o texto de Boff, fiquei completamente impressionado pela densidade com que estas técnicas são empregadas. A argumentação de Boff é construída sobre o vácuo.
Conhecer a erística é fundamental, pois é a arte da patifaria intelectual, na qual o homem não está interessado na verdade, mas apenas em ganhar o debate por meio de ardilosas artimanhas retóricas, nas quais a falsidade não é facilmente detectada. Cito duas dessas técnicas, que, como veremos, Boff emprega com grande talento: o entimema, que é um silogismo do qual se suprimem as premissas ou as conclusões; e o argumentum ad hominem.
Nesse último tipo de argumento, ao invés de manter o debate no plano das idéias, recorre-se à vida do sujeito. Por exemplo, se vejo que estou perdendo um debate cujo tema é a definição de virtude, eu posso reverter esse quadro, mostrando para o público, fotos do adversário com sua amante. No fundo, eu sei que ele estava ganhando o debate e que ele tinha razão, mas uso da ignorância do público para reverter esse quadro. Podemos, no texto em questão, observar como entimema e argumentum ad hominem se fundem na patifaria intelectual. Se uma pessoa afirma que “São Paulo é uma cidade incômoda”,  respondo “Então, por que você não vai embora no primeiro avião?”. Ao dizer isso, eu coloco como premissa oculta que “nunca se deve permanecer em uma cidade incômoda”. Fica implícito que o único motivo para se permanecer numa cidade é que ela seja cômoda. Ora, existem muitos outros motivos para alguém permanecer numa cidade, mesmo sendo incômoda.
Contra o canalha intelectual, todavia, não há debate; pois seu objetivo é vencer. Tomo, portanto, como posição inicial que as pessoas que estão lendo este texto são “honestas intelectualmente” e que não possuem “paixão política”, pois discutir com um apaixonado é tão frutífero quanto discutir com um bêbado.
Boff inicia seu texto da seguinte maneira: 1. ele ajudou a publicar um livro denunciando as torturas. Esse livro ajudou a derrubar o regime totalitário. “Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o ‘Brasil Nunca Mais’, onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário”. 2. Em seguida: “Esta história de vida, me avaliza fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a mídia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade”.
Perceberam a falácia? O argumentum ad hominem usado indevidamente? Até onde sei, Serra foi líder estudantil, perseguido, ameaçado de tortura e refugiado. Logo, Serra está tão qualificado quanto Boff. Boff usa, portanto, sua história de vida de santo paladino contra o regime autoritário para revelar o quanto possui de “autoridade” para se exprimir contra a “mídia comercial”. Agora, passemos à segunda picaretagem boffeana. Será verdade que ele realmente foi contra qualquer regime autoritário? Usemos o argumentum ad homimem contra Boff. Vejamos sua opinião, em outro artigo, a respeito de sua viagem a Cuba, a convite de Fidel Castro, pouco tempo depois da Igreja lhe pedir o voto de silêncio:

Meses após fui surpreendido com um convite do Comandante Fidel Castro, pedindo-me passar 15 dias com ele na Ilha, durante o tempo de suas férias. Aceitei imediatamente, pois via a oportunidade de retomar diálogos críticos que, junto com Frei Betto, havíamos entabulado anteriormente e por várias vezes. (...) Alguns pontos daquele convívio me parecem relevantes. Primeiro, a pessoa de Fidel. Ela é maior que a Ilha. Seu marxismo é antes ético que político: como fazer justiça aos pobres? Em seguida, seu bom conhecimento da teologia da libertação.

Sua imagem de Fidel é realmente muito reveladora: “Ele é maior do que a Ilha”; “seu marxismo é antes ético do que político”. Antes ético do que político!! Foi isso que entendi?! Será que os presos políticos de Cuba concordam com isso? Guillermo Fariñas, metido no cárcere por defender a democracia, só conseguiu atrair um pouquinho da atenção da mídia, após mais de cem dias de grave de fome. Que horror, hein! Pois é. Lógico que Lula, um homem que lutou a favor da democracia ficou do lado de Fariñas, certo? Vejamos a declaração de Lula:

Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos. A greve de fome não pode ser um pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade (reportagem encontrada aqui).

Lula usa aqui outro artifício de retórica, cujo nome é “generalização indevida”. Preso político é compreendido dentro da classe dos “bandidos comuns”. O que jamais Lula explicitaria é o que está oculto: que ser a favor da democracia é crime comum. A declaração de Lula a respeito dos presos políticos de Cuba pode ser enquadrada naquilo que Chaïm Parelman (1912-1984), em seu clássico tratado de retórica – Tratado da Argumentação –, denominou de “argumento autofágico”: o mesmíssimo argumento poderia ser usado contra o próprio Lula, quando ele foi preso durante a ditadura militar. É interessante notar que ainda assim a diferença de proporção. Só a greve de fome de Jose Fariñas durou 135 dias, enquanto Lula esteve preso por 30 dias. Apesar dos Lulas e dos Boffs, o fato é que Fariñas conseguiu mobilizar a opinião pública internacional.
Muitos países e instituições exerceram pressão sob o governo de Cuba, dentre as quais a Igreja Católica, a mesma que havia pedido que Leonardo Boff se silenciasse. Àquele que afirmar que Lula tinha razão em sua declaração, duas opções são possíveis: ou é um patife, ou um possui um sério déficit intelectual. Lógico, todos erramos. E uma única fala não é prova cabal de que Lula seja um canalha. Ele pode ser apenas burro. Ou eventualmente canalha e eventualmente burro. Talvez um canalha ocasional, como todo mundo em alguma medida é. Meu objetivo central não é dizer se Lula é bom ou ruim, é apenas mostrar o nível do debate intelectual brasileiro, afinal muitos consideram Boff um grande intelectual (lembro-me de alguém que, certo dia, me recomendou um livro de “profundezas insondáveis”: A Águia e a Galinha. O destino foi bondoso comigo ao não colocar essa maravilha da literatura em minhas mãos).
A esquizofrenia implícita no discurso de Boff não termina aí. Observemos um pouco melhor “o marxismo ético de Fidel”:

Data de 1971 a infeliz resolução do Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura de Cuba onde se decretou que ‘os desvios homossexuais representam uma patologia anti-social, não admitindo de forma alguma suas manifestações, nem sua propagação, estabelecendo como medidas preventivas o afastamento de reconhecidos homossexuais artistas e intelectuais do convívio com a juventude, impedindo gays, lésbicas e travestis de representarem artisticamente Cuba em festivais no exterior’ Foram então estabelecidas penas severas para ‘depravados reincidentes e elementos anti-sociais incorrigíveis’. Em 1959, ao tomar o poder em Cuba, Fidel declarou que ‘um homossexual não pode ser um revolucionário’. Em 1965, Fidel e Che Guevara criaram as Unidades Militares de Ajuda à Produção, acampamentos de trabalho agrícola em regime militar, com cercas de 4 metros de arame farpado, onde os homossexuais e outros ‘marginais’ realizavam trabalho forçado nos canaviais, com até 16 horas de trabalho diárias, em condições desumanas muito semelhantes aos campos de concentração nazistas (quem quiser ler mais, tem aqui).

Então, o mesmo autor que elogia o “marxismo ético” de Fidel vai atacar “a mídia comercial”. O argumento é que ela defende o interesse econômico de “famílias”. Hugo Chávez e Fidel Castro já resolveram este problema, fechando todos os meios de imprensa que levantassem qualquer palavra que defendesse os interesses comerciais de qualquer família que não fosse a deles próprias.
De fato, Boff, esse paladino da verdade e da luz, defensor incondicional dos pobres, afirma que a mídia faz de tudo em sua guerra: “Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta”. A mídia, especialmente a Veja, revelou que Erenice Guerra e seus familiares estavam envolvidos em um escândalo de corrupção. Podemos imaginar a resposta de Boff: “Mentira”. O escândalo do mensalão, no qual o PT comprava os votos no congresso? “Mentira”. Ou talvez responda: “tudo bem, isso é verdade, mas o PT comprou o congresso por causas justas”. Não sei, sinceramente, o que Boff responderia. Mas de uma coisa eu sei, não tenho o menor interesse em saber. O que sei é o seguinte: os fins não justificam os meios. Stálin matou milhões de russos tendo como fim o paraíso na terra, a igualdade entre os homens. Eis a Revolução dos Bichos de George Orwell (1903-1950).
Continuemos as boffetadas. Boff usa outra estratégia retórica muito sutil. Expor seu texto em uma estrutura na qual qualquer contra-argumentação se torne a própria prova do que ele afirma.
Existem alguns tipos de teorias que contam com um sistema de proteção maravilhoso. Poderíamos chamá-las de “teorias fechadas que usam tudo aquilo que vai contra elas como provas delas mesmas”. Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) dizia que alguém se torna verdadeiramente seu discípulo quando o negar. Em outras palavras, se somos a favor de Nietzsche, somos discípulos, se o negarmos, também nos tornamos seus discípulos. Diante das duas opções, o melhor seria desprezá-lo. Alguns psicanalistas selvagens usam a mesma fórmula: “Você tem complexo de Édipo”. Se a pessoa nega, o psicanalista dá aquele clássico sorrizinho por dentro, dizendo para si mesmo: “eis aí o mecanismo da negação”. Se o paciente aceita, o psicanalista satisfeito agora “sabe” que seu paciente está na metade do caminho para a cura. Se um psicanalista lhe disser que você tem complexo de Édipo, saiba que você nunca, jamais, o convencerá do contrário, pois tanto sua negação quanto sua confirmação afirmará a sua teoria.
Os exemplos acima são banais. Mas servem para ilustrar o que quero dizer. Boff organiza o seu discurso de tal modo que se torna impossível falar mal de Lula. Quem se coloca dentro da perspectiva de Boff, passando a ver o mundo através desses maravilhosos óculos, está encrencado. Estará condenado a passar o resto de sua miserável vida dentro deste “esqueminha engenhoso”. Mas talvez, algum dia, tal pessoa tenha um insight e se livre das jaulas, como um macaco gestáltico. Explico o “esqueminha”. Pouco acima critiquei a posição de Lula sobre os presos políticos de Cuba. Entretanto, segundo o ilustríssimo Boff, todas as minhas críticas não possuem absolutamente nenhum valor, pois elas apenas confirmam que eu pertenço a uma classe dominante e que meus argumentos, no fundo, nada mais são do que reproduções de uma mentalidade de classe.
Mas e quem é pobre e não vota em Lula? Neste caso, é alienado. Está imbuído da ideologia de outra classe, pois não possui ferramentas marxistas para conhecer a verdade. E qual é a verdade? Não há verdade, o que há é uma guerra de classes. No fundo, a definição de alienado é a seguinte: “Alienado é alguém que não conhece o marxismo”. Esse modo de pensar ilustra o que Husserl, no final de sua vida, diagnosticou como crise do espírito Europeu. Para ele, o século vinte se caracteriza por uma crise da razão e da verdade, que foram sempre os dois conceitos que brilharam por milênios no horizonte da filosofia. No lugar disso, teremos os médicos e engenheiros sociais querendo imprimir os novos valores da sociedade.
Não há verdade, dizem eles, o que há são ideologias, guerras de classes, ou como Nietzsche afirma, a verdade é uma mentira persistente e algumas mentiras fortalecem a vitalidade mais do que outras. Vivemos em uma época de relativistas, engenheiros sociais, cientistas e alienistas, como bem observou Machado de Assis. Se alguém disser que procura a verdade, será alvo de riso. Portanto, por mais que eu tenha estudado toda minha vida sobre os discursos lógicos, sobre falácias, sobre as regras do pensamento correto, por mais que tudo isso me tenha custado e nos tenha custado muito suor, será válido somente se estiver de acordo com a teoria de Boff. Todo esforço em mostrar que Boff usa todo receituário que Aristóteles já desmascarou há mais de dois milênios, bom, isso é uma mera ideologia de classe. E eu sou alienado. Quem não tem inteligência e está dentro da prisão espiritual de Boff e de toda a sua corja, nunca mais conseguirá sair. Há nessa prisão até mesmo um apelo emotivo que embriaga. Querer o paraíso na terra! Salvar o pobre que pensa! Como se não bastasse, aderir e este estilo de pensamento faz com que nos sintamos pessoas boas, tão boas que nem precisamos mais fazer atos reais de caridades reais, como se esforçam os verdadeiros cristãos todos os dias.
Em minha vida, todas as vezes que busquei usar argumentos contra as pessoas que defendiam tais doutrinas, tive como respostas: “pelego”, “você só quer explorar os outros”, “alienado”, “manipulado pela mídia”. (eis aí outra técnica exposta por Schopenhauer, conhecida como “rótulo odioso”, enquadra-se a pessoa no rótulo e exime-se assim de qualquer pensamento). O fato é que o texto de Boff conta com tantas falácias, premissas ocultas, uso indevido de homonímia, que se poderia ministrar em cima de seu texto todo um curso de patifaria intelectual. Eu me limito apenas a registrar algumas delas.
Leiam bem. Para Boff, ser contra Lula nada mais é do que ser contra “os pobres que estão se libertando”. “Eles têm pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascendente como Lula.” Portanto, há uma equivalência semântica entre Lula e o pobre que pensa e fala. Agora desmascaremos mais uma falácia. Até onde sei Hitler também veio de classes populares e seu regime teve 21 milhões de vítimas. Ah, mas Hitler não usa as ideias de Marx. Então vejamos Stálin, que segue os requisitos propostos por Boff: era proletário, tomou o poder, e fez o que Boff parece sugerir, acabar com a mídia que não seja estatal. Tirou da mão das famílias poderosas toda mídia. Ah, mas não só. Stálin também assassinou mais de dez milhões de russos que eram contra o regime. Mas Stálin tinha razão, afinal, essas milhões de pessoas “eram apenas pessoas de ideologias contrárias”, contra o povo e contra a igualdade entre os homens. Mais que uma vez o raciocínio de Boff encaixa aqui como uma luva! Ora, quem era contra o regime, era contra Stalin e ser contra Stalin era ser contra “o pobre que pensa”.
O que o texto sugere é que quem é contra Lula, não quer o bem do pobre, mas sim explorá-lo, não quer que o pobre ascenda, mas sim que ele continue pobre. Boff é tão bondoso que nos oferece duas opções: ou somos a favor de Lula ou queremos que o pobre continue pobre e continue sendo explorado. Trata-se de mais uma falácia já desmascarada por Schopenhauer, “escolha forçada”, na qual colocamos as coisas de tal modo que parece que há apenas duas opções e forçamos o adversário a escolher entre elas e mais nenhuma. Em alguns casos, essas escolhas forçadas são reais, em outros são puras falácias. Se Lula é um bom governante, que o senhor Boff aponte motivos reais. Neste caso, seria possível uma discussão racional.
Sr. Boff, aprenda de uma vez por todas que se avalia um homem pelos seus atos, pelo seu caráter e não pela classe social de onde proveio. Vejam bem, não quero dizer que Lula seja como Stálin ou Hitler, quero apenas mostrar como é má construída a argumentação deste grande intelectual, o ilustríssimo Boff. Não quero tampouco dizer que todo pobre que chega ao poder é canalha. O ponto é que o argumento de Boff não se sustenta. Não é porque uma pessoa proveio de classes baixas que ela representa as classes baixas. Se assim fosse, Stálin as representaria, Sílvio Santos, Tiririca, Amin Dada, e tantos outros. Por outro lado, não é porque uma pessoa vem de classe superior que ela não presta. Uma pessoa presta ou não pelo seu caráter. E o caráter de uma pessoa é dado não pela sua visão política, mas pelos valores que ela segue em seu coração e que se realizam em seus atos. Lembremo-nos de São Francisco de Assis. Movido pelos valores cristãos abandonou a vida de riquezas para seguir Cristo. É difícil entender como ele, movido por interesses de classe, abandonou sua vida de riqueza, luxúria, e toda sorte de prazeres sensuais, para viver uma vida sofrida e piedosa. Benedita da Silva, negra, pobre, favelada, usou da política para se beneficiar.
Lula e o governo petista não são sinônimos de povo. Foram eleitos pelo povo e este é o fato. O fato positivo de terem promovido uma melhor distribuição de renda não os exime, nem a eles, nem a Fidel Castro, nem a qualquer outro governante, de seus erros éticos, de possuírem uma fome desmedida de poder e de odiarem quando a mídia os denuncia.
A função da mídia é ficar no calcanhar de todos os políticos, denunciando-os a todos, sem exceção. Do mesmo modo que a democracia é o menor dos males, a mídia privada é, do mesmo modo, o menor dos males. E já existem leis que impedem a calúnia e a mentira veiculada pela mídia. Por que razão, então, o sr. Boff, ao invés de atacar a mídia, não pede uma maior efetividade dos mecanismos já existentes para que os “distribuidores de mentiras” paguem pelos seus crimes? Creio que é porque algum instinto de autoconservação lhe diz na voz silenciosa de sua consciência que o primeiro a ir para o banco dos réus seria ele mesmo, o exímio sr. Boff.

domingo, 26 de setembro de 2010

Atenção! Urgente! Divulguem!

Pessoal de CL, uma informação importante: o Aloysio Nunes, que está sendo apoiado pelo Movimento - candidato ao senado por São Paulo -, fez uma declaração que faz dele um cara para não ser votado. Leiam a entrevista que ele concedeu ao Portal IG, clicando aqui. Entre outras coisas, ele se diz favorável à legalização do aborto e ao casamento gay.
Não bastasse o apoio ao Roberto Freire...

É indispensável o fundamento ético para a política

Viagem Apostólica de Sua Santidade Bento XVI
ao Reino Unido, por ocasião da beatificação do
Cardeal John Henry Newman
de 16 a 19 de setembro de 2010

Encontro com expoentes da sociedade civil, do mundo acadêmico, cultural e empresarial, com o corpo diplomático e com líderes religiosos, no Westminster Hall de Londres

17 de setembro de 2010

Onde pode ser encontrado o fundamento ético para as escolhas políticas? A tradição católica sustenta que as normas objetivas que governam o reto agir são acessíveis à razão, prescindindo do conteúdo da revelação. Segundo esta compreensão, o papel da religião no debate político [...] é ajudar na purificação e lançar luz sobre a aplicação da razão na descoberta dos princípios morais objetivos. [...] Só posso exprimir a minha preocupação diante da crescente marginalização da religião, particularmente do Cristianismo [...]. Existem alguns que sustentam que a voz da religião deveria ser calada, ou ao menos relegada à esfera puramente privada

Senhor Presidente,
Agradeço o senhor pelas palavras de boas-vindas que me dirigiu em nome de toda esta distinta assembleia. No dirigir-me a vós, sou consciente do privilégio que me é concedido de falar ao povo britânico e aos seus representantes no Westminster Hall, um edifício que tem um significado único na história civil e política dos habitantes destas Ilhas. Permiti-me manifestar a minha estima pelo Parlamento, que há séculos tem sede neste lugar e que teve uma influência tão profunda sobre o desenvolvimento de formas de governo participativas no mundo, especialmente no Commonwealth e mais em geral nos países de língua inglesa. A vossa tradição de “common law” constitui a base do sistema legal de muitas nações, e a vossa particular visão dos respectivos direitos e deveres do Estado e de cada cidadão, e da separação dos poderes, permanece como fonte de inspiração para muitos no mundo.
Enquanto falo a vós neste lugar histórico, penso nos inúmeros homens e mulheres que, ao longo dos séculos, fizeram a sua parte em importantes eventos que tiveram lugar entre essas paredes e marcaram a vida de muitas gerações de britânicos e de outros povos. Particularmente, gostaria de recordar a figura de Thomas More, o grande estudioso e estadista inglês, admirado por crentes e não crentes pela integridade com a qual foi capaz de seguir a própria consciência, mesmo que às custas de desagradar o soberano, de quem era um “bom servidor”, visto que tinha escolhido servir a Deus antes. O dilema com o qual Thomas More se confrontava, naqueles tempos difíceis, a perene questão da relação entre aquilo que é devido a César e aquilo que é devido a Deus, me oferece a oportunidade de refletir brevemente convosco sobre o justo lugar que o credo religioso mantém no processo político.
A tradição parlamentar deste país deve muito ao senso instintivo de moderação presente na nação, ao desejo de atingir um justo equilíbrio entre as legítimas exigências do poder do Estado e os direitos daqueles que lhe estão sujeitos. Se, de um lado, na vossa história, foram dados passos decisivos para colocar um limite ao exercício do poder, de outro lado, as instituições políticas da nação foram capazes de evoluir para um notável grau de estabilidade. Neste processo histórico, a Grã-Bretanha emergiu como uma democracia pluralista, que atribui um grande valor para a liberdade de expressão, para a liberdade e afiliação política e para o respeito do estado de direito, com um forte senso dos direitos e deveres dos indivíduos, e da igualdade de todos os cidadãos diante da lei. A doutrina social católica, mesmo que formulada em uma linguagem diferente, tem muito em comum com essa abordagem, se se considera a fundamental preocupação pela salvaguarda da dignidade de cada pessoa, criada a imagem e semelhança de Deus, e a sua ênfase sobre o dever das autoridades civis de promoverem o bem-comum.
E, na verdade, as questões de fundo que estavam em jogo no processo contra Thomas More continuam a se apresentar, em termos sempre novos, com o mudar das condições sociais. Cada geração, enquanto busca promover o bem-comum, deve se perguntar sempre de novo: quais são as exigências que os governos podem impor razoavelmente aos próprios cidadãos, e até onde eles podem se extender? A qual autoridade se pode apelar para resolver os dilemas morais? Estas questões nos levam diretamente aos fundamentos éticos do discurso civil. Se os princípios morais que sustentam o processo democrático não se fundam, por sua vez, sobre nada de mais sólido do que o consenso social, então a fragilidade do processo se mostra em toda a sua evidência. Aqui se encontra o desafio real para a democracia.
A inadequação de soluções pragmáticas, de curto prazo, para os complexos problemas sociais e éticos foi colocada em toda evidência da recente crise financeira global. Há um vasto consenso sobre o fato de que a falta de um fundamento ético sólido da atividade econômica tenha contribuído para criar a situação de grave dificuldade na qual se encontra, agora, milhões de pessoas no mundo. Assim como “cada decisão econômica tem uma consequência de caráter moral” (Caritas in Veritate, 37), analogamente, no campo política, a dimensão moral das políticas atuadas tem consequências de largo alcance, que nenhum governo pode se permitir ignorar. Um exemplo positivo disso pode ser encontrado numa das conquistas particularmente notáveis do Parlamento britânico: a abolição do comércio de escravos. A campanha que levou a esta legislação epocal baseou-se sobre princípios morais sólidos, fundados sobre leis naturais, e constituiu-se em contribuição para a civilização da qual esta nação pode ser, muito justamente, orgulhosa.
A questão central que está em jogo, portanto, é a seguinte: onde pode ser encontra o fundamento ético para as escolhas políticas? A tradição católica sustenta que as normas objetivas que governam o reto agir são acessíveis à razão, prescindindo do conteúdo da revelação. Segundo esta compreensão, o papel da religião no debate político não é tanto o de fornecer tais normas, como se essas não pudessem ser conhecidas pelos não crentes – ainda menos é o de propor soluções políticas concretas, o que é absolutamente fora das competências da religião –, mas é muito mais ajudar na purificação e lançar luz sobre a aplicação da razão na descoberta dos princípios morais objetivos. Este papel “corretivo” da religião na relação com a razão, todavia, não foi sempre bem acolhido, em parte porque formas distorcidas de religião, como o sectarismo e o fundamentalismo, podem se mostrar como causas de sérios problemas sociais. E, por sua vez, estas distorções da religião emergem quando é dada uma atenção insuficiente ao papel purificador e estruturante da razão dentro da religião. É um processo que funciona em via de mão dupla. Sem a correção fornecida pela religião, de fato, mesmo a razão pode cair com presa de distorções, como acontece quando ela é manipulada pela ideologia, ou aplicada de modo parcial, que não leva em conta plenamente a dignidade da pessoa humana. Foi este uso distorcido da razão, no fim das contas, que deu origem ao comércio de escravos e, depois, aos muitos outros males sociais, até mesmo às ideologias totalitárias do século XX. Por isto, gostaria de sugerir que o mundo da razão e o mundo da fé – o mundo da secularidade racional e o mundo do credo religioso – têm necessidade um do outro e não deveriam temer entrar num profundo e contínuo diálogo, pelo bem de nossa civilização.
A religião, em outras palavras, para os legisladores não é um problema que precisa ser resolvido, mas um fator que contribui de modo vital para o debate público na nação. Neste contexto, devo exprimir a minha preocupação diante da crescente marginalização da religião, particularmente do Cristianismo, que está tomando forma em alguns ambientes, mesmo em nações que atribuem à tolerância um grande valor. Existem alguns que sustentam que a voz da religião deveria ser calada, ou pelo menos relegada à esfera puramente privada. Existem alguns que sustentam que a celebração pública de festividades como o Natal deveria ser desencorajada, segundo a discutível convicção de que ela poderia, de algum modo, ofender aqueles que pertencem a outras religiões ou a nenhuma. E existem outros ainda que – paradoxalmente com o objetivo de eliminar as discriminações – sustentam que os cristãos que assumem cargos públicos deveriam, em determinados casos, agir contra a própria consciência. Estes são sinais preocupantes da incapacidade de levar em conta nã apenas os direitos dos crentes à liberdade de consciência e de religião, como também o papel legítimo da religião na esfera pública. Gostaria, portanto, de convidar a todos vós, cada um nas respectivas esferas de influência, a buscar vias para promover e encorajar o diálogo entre fé e razão em cada nível da vida nacional.
A vossa disponibilidade neste sentido já se manifestou no convite sem precedentes que me fizestes hoje, e encontra expressão nestes setores de interesse nos quais o vosso governo se empenhou junto à Santa Sé. No campo da paz, houve trocas sobre a elaboração de um tratado internacional sobre o comércio de armas; acerca dos direitos humanos, a Santa Sé e o Reino Unido viram positivamente a difusão da democracia, especialmente nos últimos 65 anos; no campo do desenvolvimento, houve uma colaboração no alívio da dívida, no comércio justo e no financiamento para o desenvolvimento, sobretudo através da “International Finance Facility”, a “International Immunization Bond” e o “Advanced Market Commitment”. A Santa Sé está, além do mais, desejosa de buscar, com o Reino Unido, novos caminhos para promover a responsabilidade ambiental, para o benefício de todos.
Noto, outrossim, que o atual governo se empenhou para aplicar, até 2013, 0,7% da renda nacional a favor das ajudas para o desenvolvimento. Foi encorajante, nos últimos anos, notar os sinais positivos de um crescimento da solidariedade para com os pobres, que diz respeito ao mundo inteiro. Mas, para traduzir esta solidariedade em ação efetiva, é preciso novas ideias, que melhorem as condições de vida em áreas importantes como a produção de alimento, a formação, a ajuda às famílias, especialmente de imigrantes, e os serviços sanitários básicos. Quando está em jogo a vida humana, o tempo se faz sempre breve: na verdade, o mundo foi testemunha dos vastos recursos que os governos são capazes de recolher para salvar instituições financeiras tidas como “muito grandes para falirem”. Certamente, o desenvolvimento integral dos povos da terra não é menos importante: é um tarefa digna de atenção por parte de todo o mundo, verdadeiramente “muito grande para falir”. 
Este olhar geral para a cooperação recente enter Reino Unido e Santa Sé mostra bem o quanto o progresso tenha acontecido nos anos que transcorreram desde o estabelecimento de relações diplomáticas bilaterais, em favor da promoção no mundo dos muitos valores de fundo que compartilhamos. Espero e rezo para que esta relação continue a frutificar e que se reflita numa crescente aceitação da necessidade de diálogo e respeito, a todos os níveis da sociedade, entre o mundo da razão e o mundo da fé. Estou certo de que também neste país existem muitos campos nos quais a Igreja e as autoridades públicas podem trabalhar juntas pelo bem dos cidadãos, em harmonia com a histórica prática deste Parlamento de invocar a orientação do Espírito sobre aqueles que buscam melhorar as condições de vida de todo o gênero humano. Para que esta cooperação seja possível, as instituições religiosas, compreendido nisso aquelas ligadas à Igreja católica, devem ser livres para agir de acordo com os próprios princípios e as convicções específicas que lhes são próprias também, fundamentadas sobre a fé e sobre o ensinamento oficial da Igreja. Deste modo, poderão ser garantidos aqueles direitos fundamentais, como a liberdade religiosa, a liberdade de consciência e a liberdade de associação. Os anjos que nos olham da magnífica abóbada desta antiga sala nos lembra a longa tradição de onde se desenvolveu o Parlamento britânico. Eles nos lembra que Deus vigia constantemente sobre nós, para nos guiar e nos proteger. E eles nos chamam a reconhecer o contributo vital que o credo religioso concedeu e pode continuar concedendo para a vida da nação.
Senhor Presidente, agradeço-lhe ainda por esta oportunidade de me dirigir brevemente a este distinto auditório. Permita-me assegurar ao senhor e ao senhor Presidente da Câmara dos Lords os meus votos e a minha constante oração por vós e pelo frutuoso trabalho de ambas as Câmaras deste antigo Parlamento.
Obrigado, e Deus vos abençoe a todos!

* Texto extraído de Totus Tuus, traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sábado, 25 de setembro de 2010

O mal a evitar

Editorial d'O Estado de São Paulo

A acusação do presidente da República de que a Imprensa "se comporta como um partido político" é obviamente extensiva a este jornal. Lula, que tem o mau hábito de perder a compostura quando é contrariado, tem também todo o direito de não estar gostando da cobertura que o Estado, como quase todos os órgãos de imprensa, tem dado à escandalosa deterioração moral do governo que preside. E muito menos lhe serão agradáveis as opiniões sobre esse assunto diariamente manifestadas nesta página editorial. Mas ele está enganado. Há uma enorme diferença entre "se comportar como um partido político" e tomar partido numa disputa eleitoral em que estão em jogo valores essenciais ao aprimoramento se não à própria sobrevivência da democracia neste país.
Com todo o peso da responsabilidade à qual nunca se subtraiu em 135 anos de lutas, o Estado apoia a candidatura de José Serra à Presidência da República, e não apenas pelos méritos do candidato, por seu currículo exemplar de homem público e pelo que ele pode representar para a recondução do País ao desenvolvimento econômico e social pautado por valores éticos. O apoio deve-se também à convicção de que o candidato Serra é o que tem melhor possibilidade de evitar um grande mal para o País.
Efetivamente, não bastasse o embuste do "nunca antes", agora o dono do PT passou a investir pesado na empulhação de que a Imprensa denuncia a corrupção que degrada seu governo por motivos partidários. O presidente Lula tem, como se vê, outro mau hábito: julgar os outros por si. Quem age em função de interesse partidário é quem se transformou de presidente de todos os brasileiros em chefe de uma facção que tanto mais sectária se torna quanto mais se apaixona pelo poder. É quem é o responsável pela invenção de uma candidata para representá-lo no pleito presidencial e, se eleita, segurar o lugar do chefão e garantir o bem-estar da companheirada. É sobre essa perspectiva tão grave e ameaçadora que os eleitores precisam refletir. O que estará em jogo, no dia 3 de outubro, não é apenas a continuidade de um projeto de crescimento econômico com a distribuição de dividendos sociais. Isso todos os candidatos prometem e têm condições de fazer. O que o eleitor decidirá de mais importante é se deixará a máquina do Estado nas mãos de quem trata o governo e o seu partido como se fossem uma coisa só, submetendo o interesse coletivo aos interesses de sua facção.
Não precisava ser assim. Luiz Inácio Lula da Silva está chegando ao final de seus dois mandatos com níveis de popularidade sem precedentes, alavancados por realizações das quais ele e todos os brasileiros podem se orgulhar, tanto no prosseguimento e aceleração da ingente tarefa - iniciada nos governos de Itamar Franco e Fernando Henrique - de promover o desenvolvimento econômico quanto na ampliação dos programas que têm permitido a incorporação de milhões de brasileiros a condições materiais de vida minimamente compatíveis com as exigências da dignidade humana. Sob esses aspectos o Brasil evoluiu e é hoje, sem sombra de dúvida, um país melhor. Mas essa é uma obra incompleta. Pior, uma construção que se desenvolveu paralelamente a tentativas quase sempre bem-sucedidas de desconstrução de um edifício institucional democrático historicamente frágil no Brasil, mas indispensável para a consolidação, em qualquer parte, de qualquer processo de desenvolvimento de que o homem seja sujeito e não mero objeto.
Se a política é a arte de aliar meios a fins, Lula e seu entorno primam pela escolha dos piores meios para atingir seu fim precípuo: manter-se no poder. Para isso vale tudo: alianças espúrias, corrupção dos agentes políticos, tráfico de influência, mistificação e, inclusive, o solapamento das instituições sobre as quais repousa a democracia - a começar pelo Congresso. E o que dizer da postura nada edificante de um chefe de Estado que despreza a liturgia que sua investidura exige e se entrega descontroladamente ao desmando e à autoglorificação? Este é o "cara". Esta é a mentalidade que hipnotiza os brasileiros. Este é o grande mau exemplo que permite a qualquer um se perguntar: "Se ele pode ignorar as instituições e atropelar as leis, por que não eu?" Este é o mal a evitar.

Texto publicado na seção "Notas e Informações" da edição de 26/09/2010. Extraído da versão online d'O Estado de São Paulo, do dia 25 de setembro de 2010 (publicado às 17h05).

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Assine o Manifesto em Defesa da Democracia

Mais cedo, publiquei aqui o texto do Manifesto em Defesa da Democracia que foi lido hoje, às 12h, no Largo do São Francisco, em São Paulo. Havia dito que o texto, mais tarde, estaria disponível para ser assinado por qualquer cidadão brasileiro.
Se você quiser assiná-lo também, basta clicar aqui.

Cartas do P.e Aldo 163

Asunción, 20 de setembro de 2010. 

Caros amigos,
desejo agradecer a todos os que nos sustentam naquilo que a Providência, todos os dias, tem operado entre nós, mesmo com a ajuda econômica.
Um dos milagres mais bonitos dos últimos meses está acontecendo com os doentes de AIDS. O médico responsável pelo setor de infectologia, que também trabalha no único hospital nacional em que há um programa anti-AIDS e interna os doentes, me dizia: “Padre, aqui, entre nós, os doentes chegam no fim da vida e, porém, ninguém morre. No hospital nacional, pelo contrário, onde trabalho, há uma ala que foi destinada somente para eles, já que normalmente todos morrem. Trata-se dos mesmos cuidados e de resultados tão diferentes. Para falar a verdade, são eles que nos fornecem os remédios necessários. Padre, a diferença está naquela ternura que nasce daquele ‘eu sou Tu que me fazes’ e que permite um relacionamento humano e totalizante”.
Por isso, agora, estamos pensando em uma casa onde possamos manter as garotas com AIDS, enquanto que os rapazes, há anos, têm a fazendo de quatorze hectares onde vivem. Tristemente, por serem doentes de AIDS, são como que amaldiçoados e não são mais acolhidos em suas casas. Além do mais, as garotas, por óbvias razões, querem estar perto de nós, de forma que estamos vendo como construir a casa.
O novo hospital – muito belo e essencial (porque a beleza é o vértice da caridade) – está 70% concluído. Depois, Sotoo será o responsável por dar a pincelada final. Todos os quartos terão o teto pintado como o belíssimo céu do Paraguai, para que todos morram olhando para cima, ou seja, para o Paraíso que, certamente, não é branco, mas é como o céu belíssimo dos trópicos. A ideia é de Sotoo.
Agradeço a todos os que continuam nos ajudando, particularmente levando em consideração o Outubro Missionário.
Lembro que Padre Paolino, meu grande amigo e companheiro de aventura, estará na Itália entre os dias 29 de novembro e 28 de dezembro. Quem quiser conversar com ele, me avise, por favor.
Com profunda gratidão
Padre Aldo

Cartas do P.e Aldo 162



Asunción, 19 de setembro de 2010.

Caros amigos,
os santos e os mártires estão entre nós. Olhem as fotos desse jovem casal. Ele tem 25 anos. Ela, 21. Casados na igreja há dois anos atrás. Ficou grávida quase imediatamente. Estava felicíssima. Chama-se Diana. Um controle médico, uma resposta terrível: “Temos que operar de um câncer que, se tivesse sido descoberto mais cedo, seria curável, mas nesse ponto teremos que arrancar também a criança que você está carregando”. “Ou você, ou a criança”. Deixo a cada um de vocês imaginar o drama. Mas, junto com seu jovem esposo, cheios de fé, não tiveram dúvida: “Salvem a criança e, uma vez nascido, pensem em mim”.
A criança nasceu prematuramente. Era bonito ver como eles o olhavam crescer na incubadora. Mas, um dia, chegou a notícia mais dramática: “morreu por causa de uma infecção hospitalar”. O cúmulo dos cúmulos. Mas, para os médicos (que, ou são santos, ou são como Hitler: pedras, assassinos), as coisas foram normais. Para Diana e o marido, foi um desespero que apenas aquele “Tu, meu Cristo”, ou aquele “Quem és Tu, ó Cristo?”, consegue transformar lentamente num abandono. Pouco a pouco, o filho deles foi se tornando o anjo deles. Diana finalmente voltou à serenidade... até quando os médicos lhe disseram: “Mas, não há nada a fazer também com você”. 
Diana chegou à clínica para morrer. Ela sabe que tipo de hospital é o nosso (nessas semanas, 12 mortos), mas ela sabe que existem os milagres e que nem tudo depende do médico (quanta raiva me provoca ou me suscita a apatia, a frieza da maior parte dos médicos!... mesmo os católicos, mesmo os do movimento... sabemos que, se o coração não vibra por Cristo, ele se torna de pedra), que eles não têm a última palavra. Assim, acolhida por todos (médicos, enfermeiras etc.), como Jesus que acolhe a cada um de nós, ele está vivendo com serenidade e com uma paz profunda o seu destino. Eu a olho com seus 21 anos, e me comovo. Demos a ela a vida de Santa Beretta para ler. Com 21 anos ela já é uma santa e uma mártir! Pode haver um comentário mais preciso para a Escola de Comunidade sobre a caridade?
Olhem as fotos: sentada, no nosso hospital, com um olhar cheio de ternura e com o coração cheio de dor, como o de Nossa Senhora, de quem celebramos a festa no último dia 15 de setembro [trata-se da festa de Nossa Senhora das Dores; ndt].
Peçamos a Giussani o milagre.
Diana tem apenas 21 anos e se casou há apenas dois anos.
Amigos, o céu semeia esta terra com os sinais que nos tornam Jesus contemporâneo.
Um abraço
Padre Aldo.

Cartas do P.e Aldo 161


Asunción, 18 de setembro de 2010

Caros amigos,
voltei de São Paulo, onde tive a graça de participar dos exercícios espirituais dos padres e do grupo adulto puxados por Carrón. Já o Encontro Internacional de La Thuile tinha sido uma graça excepcional, mas a semana que passei no Brasil foi um oceano de graça. O ponto de partida foi o Encontro Internacional, mas o trabalho pessoal de Carrón e um pouco também o nosso permitiu a Julián ir ainda mais fundo naquilo que se viveu no Vale d’Aosta. Assim também foi fantástico o encontro com os 1500 jovens de Marcos e Cleuza sobre o tema da vocação.
Tão logo cheguei em casa, a alegria dos meus filhos não tinha limite. Estavam ansiosos para me mostrar o boletim de notas do segundo semestre. A média geral era 4 (aqui, o máximo é 5). Não falo para vocês da minha surpresa. No ano passado, tinham passado de 0 a 1, de ninguém a alguém. Agora que são “alguém” acontecem estes milagres. Fizemos festa, lemos os boletins e, como pai, eu os assinei. Depois, uma vez colocados na cama, disse aos meus amigos: “vocês entendem o que quer dizer viver cada momento com a certeza de que ‘eu sou Tu que me fazes’? A maioria absoluta dessas crianças são vítimas das piores violências sexuais, abusados pelo pai ou pelo padrinho. Chegaram com os rostinhos transformados, carregados de violência. Muitas meninas violentadas, para se aproximarem de mim, um homem, precisaram de tempo e de paciência. Mas, aquele ‘eu sou Tu que me fazes’ que, por osmose se transmite a eles, muda, faz renascer o eu. E a alegria que os caracteriza é a evidência desse milagre”.
Pensem que o melhor de todos foi Gabriel, o menino sem nome e sobrenome que tirou 5 em todas as matérias e 1 em comportamento. Quando chegou, ele era única e exclusivamente violência. Fazia mesmo o impossível para nos provocar, para ver a nossa reação, e era suficiente um chamado de atenção para que ele se tornasse furioso. Olhava para todos com cinismo e com o rosto de quem quer desafiar. Não tinha regra: ele decidia tudo. Tem dez anos. Quantas vezes, diante da impotência, da raiva, do choro, da possível decisão de mandá-lo embora, com todas as perguntas dentro de mim, eu repeti “eu sou Tu que me fazes” certo (mesmo quando tudo parecia que iria desabar e tive a tentação de pensar que, para Gabriel, talvez não houvesse esperança) de que disso ele renasceria. E assim aconteceu. “Eu sou Tu que me fazes”. Dessa certeza, nasceram todas as tentativas, a escolha para chegar ao seu coração. E, sobretudo, olhar para ele como Deus me olha, como Giussani me olha na experiência que Carrón nos faz fazer. Não psicólogos etc. (mesmo que, conosco, haja uma psicopedagoga), não terapias, apenas o olhar. E desse estar diante dele, da sua violência, com esse olhar nasceram também as famílias para a acolhida, que a cada fim de semana levam para casa a maioria das crianças. E é bonito ver como as crianças ficam felizes e orgulhosas de estar com uma família. Toda a nossa pedagogia – desde o revisar todas as noites o armário para ver se está em ordem ou não, até a forma como tratamos cada detalhe – nasce apenas desse “eu sou Tu que me fazes”. E é estupendo, comovente, porque se “eu sou Tu que me fazes”, me faz agora, de forma que tudo é ordenado, harmônico, belo. Por isso, a Casinha de Belém é bonita, ordenada, cheia de flores. Todos lavam, limpam... Quem trabalha na cozinha ou lava os pratos (a partir dos cinco anos) tem o seu avental, o seu bonezinho correspondente etc.
Enfim algo bonito, fruto também dessa comoção – “eu sou Tu que me fazes”: um garoto, para mostrar seu despeito, jogou um bocado de pedras na piscina da Casinha. O que fazer? Puni-lo? Claro que sim! Mas como? E aqui a genialidade da resposta: “Giorgio, de hoje em diante você será o responsável da limpeza da piscina”. Bem, desde então as pedras estão no seu lugar e a piscina está bem limpinha e cuidada... e se vocês vissem com que responsabilidade ele vive a sua tarefa.
Com afeto
Padre Aldo


P.S.: A foto dos três bebês mostra aquelas crianças que foram encontradas - um num saco de lixo, outro no meio de folhas e outro numa praça, dentro de um saco também. Olhem o que o amor fez em 2, 4 e 7 meses!

Quanto mais Estado, mais corrupção

Por Carlos Alberto Sardenberg *

Pode procurar em qualquer lugar do Brasil de hoje, em qualquer setor da economia, e você vai encontrar empresários, executivos e administradores empenhados em alcançar ganhos de produtividade. É a resposta correta ao ambiente de estabilidade macroeconômica. Se o planejamento não será destruído pela inflação, se os lucros não serão devorados por uma moeda sem valor, então vale a pena - na verdade se torna obrigatório - buscar eficiência dentro do próprio negócio. Agora, imaginem a sensação dessa gente de bem, do lado moderno do País, ao verificar que uma boa conexão em Brasília vale mais do que a criatividade e o esforço físico das pessoas envolvidas nas empresas.
O "capitalismo de compadres" tem esse efeito destruidor sobre o espírito empreendedor, sem o qual nenhum país vai para a frente.
De que adianta ter uma boa ideia e preparar um bom projeto se, para levá-lo adiante, precisa-se de uma decisão ou de um favor de alguém do governo? A conexão para viabilizar o projeto acaba se tornando mais importante do que o próprio projeto.
Vamos logo fazer as ressalvas de praxe: é claro que o mercado não funciona sem o Estado, as leis, os controles e as garantias institucionais; é claro que é indispensável a atuação dos governos em educação, saúde, segurança, transporte; é claro que é razoável a presença do Estado estimulando, de algum modo, setores novos da economia ou setores mais complicados.
Mas é claro também que o Estado no Brasil vai muito além desses pontos. Isso se manifesta em vários níveis. Os dois primeiros separam a atuação do Estado como regulador e fiscalizador da ação direta na economia. No primeiro nível estão, por exemplo, as agências reguladoras. No segundo estão as estatais, os bancos e as empresas públicas, além do próprio governo quando atua como construtor de estradas, portos, hidrelétricas, etc.
Certamente, em todos esses níveis de intervenção estatal pode haver eficiência e espírito público. Imaginem, por exemplo - para ir ao limite -, que os diretores das agências e das estatais fossem contratados no mercado por competentes e reconhecidas consultorias privadas de gestão de recursos humanos.
Absurdo? De jeito nenhum. Isso é até bastante comum pelo mundo afora. O atual presidente do banco central de Israel, Stanley Fischer, um economista americano, foi contratado assim, numa espécie de concorrência global. Aliás, basta abrir as páginas de classificados da revista The Economist: toda semana aparecem editais oferecendo vagas de diretores e presidentes de companhias públicas em diversos países, sem restrição de nacionalidade para os candidatos.
O Brasil, e especialmente no governo Lula, está no lado exatamente oposto. As nomeações são politizadas, cargos repartidos na base de apoio. Isso escancara as portas do "compadrio" e da pura e simples corrupção.
Reparem, um diretor de estatal ou de agência, contratado pela competência, terá compromissos com os resultados fixados por ocasião da admissão. Por exemplo: a diretoria dos Correios terá como objetivo dobrar o faturamento em tantos anos e reduzir o prazo de entrega da correspondência em tantas horas. Cumpriu, recebe o prêmio; não cumpriu, está fora.
Um diretor nomeado pelo partido tem compromisso com o partido e com os companheiros em geral. Note-se que o presidente Lula consagrou como correta a tese de que é preciso colocar os companheiros e aliados, por critérios políticos, nos postos de governo, nas agências reguladoras e nas companhias públicas.
O compromisso com o partido ou com o presidente pode ser cumprido de maneira legal, mas mesmo assim causando danos. O governo pode impor programas e obras, sem roubalheira, mas que só se justificam política e eleitoralmente. Por exemplo, a Petrobrás, tempos atrás, apresentou ao presidente Lula um plano de investimentos mais modesto. O presidente mandou ampliar para os gigantescos programas atuais. É grande o risco de a empresa estar se metendo em projetos caros demais, de baixa rentabilidade.
Lula também está forçando os bancos públicos a aumentarem seus empréstimos, desde para grandes empresas escolhidas pelo governo até para famílias comprarem a casa própria. Os empréstimos podem ser ruins e o dinheiro pode não voltar.
Por que dizemos "pode"? Porque isso só se saberá mais à frente. Mas o precedente é este: estatais e bancos (incluindo o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal) quebraram exatamente com esse tipo de política econômica. Já vimos esse filme. E notem. Os dirigentes, nomeados politicamente, nem pensam em contestar as ordens vindas do governo.
Neste caso, temos erros de política. Mas esse sistema inevitavelmente acrescenta a corrupção. Para dizer francamente, quanto mais Estado na economia, mais corrupção. Exemplo? Os países socialistas, de economia inteiramente estatal, bateram todos os recordes de corrupção e ineficiência.
O governo FHC havia saneado estatais e bancos e introduzido regras técnicas e de mercado para seu funcionamento. O governo Lula repolitizou tudo. Com as consequências que já vemos por aí. Se conseguiram estragar os Correios - com ineficiência e corrupção -, por que não conseguiriam estragar a Petrobrás ou a Caixa Econômica Federal?
É isso aí: nessas atividades econômicas, quanto menos Estado, melhor. Deixem nas mãos dos empreendedores privados. São mais eficientes do que os amigos do rei. E não roubam.

* Carlos Alberto Sardenberg é jornalista. O texto foi extraído da versão online d'O Estado de São Paulo, o dia 22 de setembro de 2010.

Manifesto em Defesa da Democracia

Eis a cópia do Manifesto que será lido, hoje, às 12h, no Largo São Francisco, em São Paulo. Em seguida, a lista dos 59 signatários que deram início a esse movimento que pretende ser uma oposição inteligente ao estado de coisas que se instalou no país. Em breve, o Manifesto estará disponível também na internet para que outros brasileiros o assinem (tão logo esteja disponível, prometo colocar um link aqui). Divulguem!

Em uma democracia, nenhum dos Poderes é soberano.
Soberana é a Constituição, pois é ela quem dá corpo e alma à soberania do povo.
Acima dos políticos estão as instituições, pilares do regime democrático. Hoje, no Brasil, os inconformados com a democracia representativa se organizam no governo para solapar o regime democrático.
É intolerável assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político, máquina de violação de sigilos e de agressão a direitos individuais.
É inaceitável que a militância partidária tenha convertido os órgãos da administração direta, empresas estatais e fundos de pensão em centros de produção de dossiês contra adversários políticos.
É lamentável que o Presidente esconda no governo que vemos o governo que não vemos, no qual as relações de compadrio e da fisiologia, quando não escandalosamente familiares, arbitram os altos interesses do país, negando-se a qualquer controle.
É inconcebível que uma das mais importantes democracias do mundo seja assombrada por uma forma de autoritarismo hipócrita, que, na certeza da impunidade, já não se preocupa mais nem mesmo em fingir honestidade.
É constrangedor que o Presidente da República não entenda que o seu cargo deve ser exercido em sua plenitude nas vinte e quatro horas do dia. Não há “depois do expediente” para um Chefe de Estado. É constrangedor também que ele não tenha a compostura de separar o homem de Estado do homem de partido, pondo-se a aviltar os seus adversários políticos com linguagem inaceitável, incompatível com o decoro do cargo, numa manifestação escancarada de abuso de poder político e de uso da máquina oficial em favor de uma candidatura. Ele não vê no “outro” um adversário que deve ser vencido segundo regras da Democracia , mas um inimigo que tem de ser eliminado.
É aviltante que o governo estimule e financie a ação de grupos que pedem abertamente restrições à liberdade de imprensa, propondo mecanismos autoritários de submissão de jornalistas e empresas de comunicação às determinações de um partido político e de seus interesses.
É repugnante que essa mesma máquina oficial de publicidade tenha sido mobilizada para reescrever a História, procurando desmerecer o trabalho de brasileiros e brasileiras que construíram as bases da estabilidade econômica e política, com o fim da inflação, a democratização do crédito, a expansão da telefonia e outras transformações que tantos benefícios trouxeram ao nosso povo.
É um insulto à República que o Poder Legislativo seja tratado como mera extensão do Executivo, explicitando o intento de encabrestar o Senado. É um escárnio que o mesmo Presidente lamente publicamente o fato de ter de se submeter às decisões do Poder Judiciário.
Cumpre-nos, pois, combater essa visão regressiva do processo político, que supõe que o poder conquistado nas urnas ou a popularidade de um líder lhe conferem licença para rasgar a Constituição e as leis. Propomos uma firme mobilização em favor de sua preservação, repudiando a ação daqueles que hoje usam de subterfúgios para solapá-las. É preciso brecar essa marcha para o autoritarismo.
Brasileiros erguem sua voz em defesa da Constituição, das instituições e da legalidade.
Não precisamos de soberanos com pretensões paternas, mas de democratas convictos.

01. Hélio Bicudo
02. D. Paulo Evaristo Arns
03. Carlos Velloso
04. René Ariel Dotti
05. Therezinha de Jesus Zerbini
06. Celso Lafer
07. Adilson Dallari
08. Miguel Reali Jr.
09. Ricardo Dalla
10. José Carlos Dias
11. Maílson da Nóbrega
12. Ferreira Gullar
13. Carlos Vereza
14. Zelito Viana
15. Everardo Maciel
16. Marco Antonio Villa
17. Haroldo Costa
18. Terezinha Sodré
19. Mauro Mendonça
20. Rosamaria Murtinho
21. Marta Grostein
22. Marcelo Cerqueira
23. Boris Fausto
24. José Alvaro Moisés
25. Leôncio Martins Rodrigues
26. José A. Gianotti
27. Lurdes Solla
28. Gilda Portugal Gouvea
29. Regina Meyer
30. Jorge Hilário Gouvea Vieira
31. Omar Carneiro da Cunha
32. Rodrigo Paulo de Pádua Lopes
33. Leonel Kaz
34. Jacob Kligerman
35. Ana Maria Tornaghi
36. Alice Tamborindeguy
37. Tereza Mascarenhas
38. Carlos Leal
39. Maristela Kubitschek
40. Verônica Nieckele
41. Cláudio Botelho
42. Jorge Ramos
43. Fábio Cuiabano
44. Luiz Alberto Py
45. Gabriela Camarão
46. Romeu Cortes
47. Maria Amélia de Andrade Pinto
48. Geraldo Guimarães
49. Martha Maria Kubitschek
50. Gilza Maria Villela
51. Mary Costa
52. Silvia Maria Melo Franco Cristóvão
53. Glória de Castro
54. Risoleta Medrado Cruz
55. Gracinda Garcez
56. Josier Vilar
57. Jussarah Kubitschek
58. Luiz Eduardo da Costa Carvalho
59. Tereza Maria de Britto Pereira

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O eu renasce em um encontro



Rímini, 28 de agosto de 2010.

Fabrice Hadjadj nasceu em 1971, em Nanterre. É filósofo e intelectual francês, de cultura judaica, converteu-se ao cristianismo em 1988. Colabora com Figaro Littéraire e Art Press, ensina filosofia e literatura na escola católica Sainte-Jeanne-D'Arc de Brignoles. Autor de diversos livros, venceu, em 2006, o Grand Prix Catholique de literatura. O texto abaixo é a transcrição da conferência proferida pelo filósofo no âmbito do Meeting pela Amizade entre os Povos, edição de 2010, no dia 28 de agosto de 2010. A conferência pode ser assistida aqui.

Por Fabrice Hadjadj
Obrigado. Fico muito feliz de estar aqui com vocês. Retorno este ano, depois de minha participação no ano passado, tendo tido, por isso mesmo, a oportunidade de reencontrar amigos. Gostaria de agradecer especialmente ao Padre Carrón que me convidou, e também ao meu amigo Ugo Moschella que tinha traduzido para o italiano essa minha conferência, porque eu havia pensado em proferi-la em italiano, mas me dei conta de que era um exercício de ventríloquo muito difícil e que, fazendo esse exercício, não conseguiria entender quem seria o ventríloquo e quem seria a marionete. Por isso, escolhi lê-la em francês.
Seja como for, meu embaraço é grande: tenho que falar com vocês sobre um livro cujo título é L’io rinasce in un incontro [O eu renasce em um encontro, ainda não traduzido para o português; ndt], que me coloca numa situação extremamente difícil porque, se este título diz a verdade, se esta conferência neste meeting é um momento do Meeting, e portanto se esta conferência é um encontro, então devo falar de modo tal que possamos renascer, devo experimentar, de alguma maneira, fazer um exercício de ressurreição e é exatamente isso que, no fundo, todos nós estamos esperando. Por que estamos aqui? Por que tantos e de tantos lugares distantes? Será que para receber informações suplementares e encher nossa cabeça como se enche uma enciclopédia? Mas, por maior que seja a nossa cabeça, um dia, deverá cair; e não fará outra coisa melhor do que cair com o peso de todo este saber morto, que já era mortal em si mesmo desde o momento em que não nos fez nos darmos conta da esperança de uma ressurreição. Mas, uma vez dito isto, eis que um peso insustentável pesa sobre mim, ou melhor, uma insustentável leveza pesa sobre nós, porque, como fazer para ressuscitar, como fazer para que o nosso encontro seja um renascimento? Mas, pode acontecer que a pergunta tenha sido mal colocada, porque talvez não se trate tanto de fazer, pois se se tratasse de fazer a partir do meu projeto, a partir do meu discurso, um discurso brilhante, um discurso que seduz a plateia, não haveria nenhum encontro, nenhum acontecimento, porque tudo seria o efeito de um programa e perderia, portanto, o frescor exuberante de um nascimento. Então, como fazer para que não seja apenas um fazer? Como se dispor ao encontro, como permitir que o encontro aconteça de tal forma que fiquemos prontos a nos deixarmos transformar por aquilo que acontece? E como ser transformado pelo outro de tal modo que a mudança não seja uma alienação, mas uma realização, uma ressurreição? A dificuldade não é apenas a de se dispor a um renascimento, mas também é a de reconhecer aquilo que pressupõe este renascimento. Com efeito, alguém poderia objetar: “Por que renascer? Já não nasci? Já não sou eu mesmo? Por que teria necessidade de um encontro para que o meu eu possa renascer?”. De fato, para desejar renascer, é preciso, em primeiro lugar, reconhecer que se está morto. Isso, frequentemente, é esquecido, mas apenas com um bom morto é que se pode fazer um bom ressuscitado. A boa notícia, a boa nova da misericórdia infinita pressupõe a má notícia da nossa miséria infinita, e o meu embaraço – embaraço especial, vocês vão entender – é o de ter que fazer esta constatação diante de vocês: “cada um de nós está morto”. Eu estou morto, talvez não biologicamente, mas espiritualmente, lá onde não entro no encontro, não me abro ao outro, ignoro a existência do meu coração.
Usei a palavra coração. Esta mesma palavra que se encontra no centro deste Meeting. Mas, o que é o coração? Um músculo, mas um músculo estranho porque é um músculo oco, que acolhe em si outro diferente de suas próprias fibras. E também porque, diferentemente dos outros músculos, não depende diretamente da minha decisão. Os 17 músculos da minha língua se ativam em seguida à minha vontade de falar, e se escolho mover a mão é graças a músculos que obedecem ao meu querer; mas o meu coração bate sem que eu lhe ordene. Começou a bater antes mesmo que eu tivesse começado a exercitar a minha vontade, e bate numa velocidade que não fui eu que decidi. É assustador: o centro de mim mesmo não está em meu poder. Aquilo que eu tenho de mais fisicamente íntimo me escapa e, pior, o meu coração bate o seu tum-tum sem me consultar e, portanto, pode parecer para mim como uma espécie de hóspede selvagem, um membro de uma tribo primitiva que bate o ritmo de uma dança canibal. Porque eu sei que, da mesma forma que começou a bater sem que eu o quisesse, pode muito bem parar de bater daqui a pouco sem que, ao menos, nesse caso, eu o queira, e será o fim da dança, será o momento no qual a vítima deverá ser consumida. Assim, o coração é o sinal do ser recebido, mas também do ser oferecido. O sinal de que não me dei a vida, mas também de que devo oferecer a minha vida se não quero apenas perdê-la, porque, seja como for, todo o sangue que escorre deverá ser derramado, mas para quê? Para qual ressurreição? Dom Giussani escreve: “a verdade da vida é o seu relacionamento com o mistério de onde nasce, de que nasceu”. Nasce porque ninguém se dá o instante que vive. Trata-se de uma verdade muito concreta – que as batidas do nosso coração se repetem continuamente, no nosso pescoço, nas nossas têmporas, nas nossas orelhas – uma verdade que não paramos de cobrir com uma manta de ruídos para acreditar que somos os artífices da nossa existência.
O sinal de que a vida é, em cada momento, recebida para ser oferecida pode ser observado também em outro lugar, por exemplo, no nosso umbigo. Costuma-se dizer “olhar para o próprio umbigo”, para falar do egoísta, do vaidoso, também para falar daquele que se toma como o centro do universo; mas se você olha de verdade para o próprio umbigo o que descobre? Uma cicatriz, a sua primeira cicatriz que é o testemunho inefável do seu relacionamento com um outro, da sua relação com sua mãe que foi, para você, a primeira morada, e se você não a tivesse encontrado, nunca teria nascido. Assim, o nosso umbigo nos recorda a nossa dependência original de um outro, nos recorda que não somos feitos por nós mesmos e que, no meio de nós mesmos, tem esta ferida que é o sinal de um dom, esta ferida que nos chama a dar, a não temer as feridas se forem para dar a vida.
Outro sinal semelhante ao coração e ao umbigo, mas que nos remete do corporal ao espiritual e que, portanto, nos é apenas um sinal, mas é a prova de que toda a nossa pessoa, corpo e alma, vive apenas por causa do encontro e de dentro do encontro, este outro sinal é a nossa palavra. Assim como se fala em “olhar para o próprio umbigo”, em francês se diz também “escutar-se falar”; mas, ainda uma vez, se você se escutasse de verdade, o que ouviria? Entonações que você herdou do seu pai ou da sua mãe, do seu irmão, ou de um professor admirado, mas sobretudo escutaria as palavras e uma gramática, toda uma língua que você não criou, que você recebeu das vozes dos seus pais como um dom encantado das fadas que sobrevoavam o seu berço; e se você começa a dizer “não quero a comunhão com vocês”, se você diz algo assim, você se contradiz duas vezes. Contradiz-se uma primeira vez porque você se volta ainda aos outros e tem necessidade de voltar-se aos outros para afirmar a sua posição e, portanto, você demonstra, dessa forma, uma necessidade, ainda que negativa, de comunhão. E você se contradiz  uma segunda vez porque as suas palavras provêm já de uma comunhão, de uma comunidade linguística, e mesmo que você fale sozinho sempre será escuta e direção, resposta e pergunta essencialmente ao outro. Assim, a sua língua é como o seu coração: está em você, na sua boca e testemunha que você não se deu a sua vida sozinho e que a vida não é uma propriedade sua. Ela testemunha, apesar de você, um encontro; testemunha, apesar de você, uma esperança. Por exemplo, antes você disse “bom dia” e, por trás disso, havia, apesar de você, o chamado de atenção para um dia verdadeira, inteira e absolutamente bom, a invocação da glória. Ou ainda: você disse “até logo”, e isso significa que, com a sua boca, você anunciou o desejo de rever o outro e, ainda e sempre, mesmo que com o seu tu superficial você tenha achado esse outro antipático ou tenha exclamado “que vida de merda”, ainda assim, como poderia dizer isso se não tivesse em você, apesar de você, o pressentimento de uma vida melhor, mais viva, eterna e alegre? Sem este pressentimento, sem esta esperança, tal exclamação não estaria na sua boca e você encontraria a merda de que mais gostasse. É possível entender, portanto, a verdade profunda desse versículo do Deuteronômio: “Este mandamento, que hoje te ordeno, não te é encoberto, e tampouco está longe de ti (...). Esta palavra está mui perto de ti, na tua boca, e no teu coração, para a cumprires”.
Sei que muitos dos que estão aqui conheceram um renascimento através do encontro com Dom Giussani. Talvez porque Dom Giussani era um orador mais brilhante do que os outros? Não, mas porque era mais pobre, mais pobre de espírito do que muitos outros e, por isso, não conduzia simplesmente os homens a si, mas através de si os conduzia à fonte, à origem, à luz, chamando a atenção dos homens assim para eles mesmos, para a sua própria originalidade. Era suficientemente pobre para ser transparente, suficientemente pobre para não ser brilhante, mas luminoso, não capturando a luz para si mesmo mas deixando-a passar através de si. Também o fruto desse encontro – como de todo encontro verdadeiro – não é o fornecimento de novas informações, como uma reportagem sobre um país estrangeiro, mas muito mais a renovação daquilo que existe já desde sempre, o reviver de uma Presença. Isso é incomparavelmente mais importante, porque está em jogo não o saber algo a mais, sempre a mais, sem fim, para divertir-se melhor, para se distrair melhor, mas para retornar, retornar para o fato de nossa existência e descobri-lo como um fato mais fadado que fatal. Algo existe, eu sou, eu existo, eu dou testemunho. É este o primeiro fato, é este fato que é a verdadeira atualidade, o verdadeiro acontecimento, princípio de todos os outros com a sua pergunta própria: “Por que estou aqui?”. O desafio é, portanto, não o de se fabricar uma resposta imaginária e artificial, mas tomar consciência daquilo que somos, daquilo que se joga na nossa língua e no nosso coração, escutar esta palavra que está muito próxima de você, na sua boca e no seu coração para que você a viva finalmente.
Como Giussani escreve no livro L’io rinasce in un incontro, vivemos numa fragilidade de consciência maior, uma fragilidade que não é ética, mas de energia da consciência. A fragilidade não é nem ética nem científica. As soluções científicas não nos faltam, pelo contrário temos tantas que podemos vendê-la, temos até mesmo soluções finais; porém nos faltam terrivelmente não soluções, mas perguntas, chamados de atenção, um drama que nos envolva e nos dê não uma solução mas um sentido e, ainda mais, não um meio de nos protegermos mas um objetivo pelo qual nos doarmos. Também não estamos aquém dos padrões moralizantes, pelo contrário, somos incessantemente atacados por ordens e regulamentos, a publicidade, por exemplo, não para um só instante de nos dar ordens: compre isto, pegue aquilo, com a nova BMW você conhecerá a alegria, com o salame Neuroni você vai encontrar o gosto do verdadeiro, com Tiscali o caminho é aberto. A publicidade nos fala como os pregadores da Idade Média, nos propõe o céu, mas graças a um salame, a uma lava-louças ou a uma conexão com a internet. No fundo, o mundo, para seduzir, não pode fazer outra coisa senão parodiar a Igreja – Satanás é o macaco de Deus, dizia São Jerônimo – e é por isso que o mundo deve se fazer mais moralizador do que a Igreja. Mesmo quando o mundo declara que você deve gozar, é ainda um “você deve”. Porque o objetivo fundamental por trás dessa ordem de gozar imediata e cegamente – e digamos ainda mais tristemente –, a intenção que se esconde atrás dessa ordem de gozar e de fazer gozar, que antes de mais nada é uma ordem de dominação e de performance, e não uma ordem de encontro e de comunhão, a ordem de tristeza profunda que se dissimula atrás desta ordem de gozo superficial, como que um porco engorde, é o esforço para sufocar o desejo. Dom Giussani o diz muito claramente: o poder, de fato, ou a exaltação da mentira como instrumento, o que faz? Tende a reduzir o desejo, o poder tende a reduzir o desejo. A redução dos desejos ou a censura de alguma das exigências, a redução dos desejos e das exigências é a arma do poder. Eis a arma do poder; e esta redução do desejo, afirma Giussani, não é outra coisa senão a tentativa de abolir a humanidade.
Há, hoje em dia, todo um movimento extremista, bastante característico do nosso tempo, que se chama trans-humanismo. Ele admite claramente as próprias intenções, trata-se de realizar, através da chamada Paradise engineering, um super-homem: graças à biogenética, à neuroquímica, às nanotecnologias deve-se sair do humano para seguir em direção do pós-humano ou, como dizem, do trans-humano, para fabricar um super-homem livre de todo sofrimento, absolutamente competitivo, adaptado às necessidades do mercado e sempre seguro de si e do próprio bem-estar. Mas, se pensarmos sobre isso por um instante que seja, nos daremos conta de que estes super-homens são superados desde o princípio, cada progresso tecnológico sempre dará um jeito para que cada nova geração de super-homens torne obsoleta a precedente, boa apenas para ser jogada no lixo como aqueles velhos computadores que parecem tão distantes de nós como se fossem uma descoberta arqueológica. Como o homem terá sido reduzido no seu desejo e terá sido reconduzido a algo de funcional, será tão deteriorável quanto um bem de consumo, a sua perenidade será pensada em função do progresso técnico e será, portanto, frágil e fugaz como um telefone celular de última geração. Eis porque os super-homens são os dinossauros do futuro.
Vocês que são italianos na maior parte devem estar impressionados com esta palavra – trans-humanismo. De fato, o primeiro a empregar este termo como verbo, o primeiro a formar este neologismo foi Dante. Vocês conhecem aqueles versos do primeiro canto do Paraíso: “Transumanar significar per verba non sia poria”, não se pode dizer trans-humanar através das palavras, “però l’esempio basti”, mas o exemplo deve bastar, “a cui esperenzia grazie serva”, a quem, àquele ao qual a Graça conservou a experiência. Aqui, Dante é profeta, nos fala que trans-humanar é a maior coisa que o coração deseja, mas esta grande coisa se torna pequena tão logo pensamos em poder chegar até ela através de nossas próprias palavras, através de nosso poder. Para chegar até lá é preciso a onipotência de uma Graça, é preciso o encontro com um Outro. Este é o exemplo que nos dá o poeta, mas o exemplo não foi suficiente porque perdemos o senso da experiência, a graça da experiência, em benefício do orgulho e do planejamento.
Nesse ponto, podemos entender que o poder não teria nenhum poder se não existisse em nós o desejo de coisas grandes, se só existisse aquele desejo em que tão logo nos baseamos nele nos desvia, como acontece com o Calígula de Camus – ele petrifica a sua magnanimidade, pulveriza a sua grandeza em distração e, finalmente, retorce aquele desejo contra si mesmo para sufocá-lo, porque tão logo o homem pretende divinizar-se de si mesmo para além de todo encontro, para além de toda graça, se torna pesado e se asfixia como aquele que gostaria de um coração que fizesse circular o sangue num circuito fechado sem oxigená-lo, sem precisar respirar o ar que vem de fora e, portanto, recusando aquele poema da respiração como disse Rilke – “Visto que o murmúrio da nossa respiração nos canta, em cada instante, que, para viver, é preciso, em cada instante, receber e oferecer a própria respiração”. A vontade de potência não pode impedir o encontro, porque o encontro é um acontecimento, uma fratura que frustra os nossos planos. O Senhor anula os desígnios das nações, diz o Salmo. Mas a vontade de potência pode abortar o encontro, pode nos fazer acreditar que ele foi apenas uma ilusão, destruindo assim, imediatamente, a incrível aventura, a incrível fecundidade que queria nascer.
Dom Giussani escreve: o poder não pode impedir o despertar do encontro, mas busca impedir que se torne história. O poder busca impedir que o encontro se torne uma história. De qual encontro estamos falando? Daquele com Cristo certamente, mas também daquele com uma paisagem, com um concerto de Mozart, ou com uma garota. Eis, por exemplo: você se encontra com Beatriz ou com Aspásia. O que acontece no instante desse encontro? Você fica tocado com a sua beleza. Certo. A sua beleza é experimentada por você através do seu rosto, do seu corpo, mas o que lhe é oferecido através do seu rosto e do seu corpo é uma música, uma harmonia, uma dança do ser. Porque aquela beleza é como se, no fundo do ser, remontasse até à superfície e mostrasse a sua dança e a sua alegria essencial. E é, nesse momento, que a vontade de potência, o poder, nos sussurra ao ouvido: esta música é apenas uma ilusão, produzida pela sua testosterona. Pegue um preservativo, leve Aspásia para a cama, escolha um quarto e transe com Beatriz. Você verá que a miragem se dissipará. Mas, fazendo assim, você estupra Beatriz, mesmo se ela tenha aceitado, sobretudo se ela aceitou. Você a estupra porque você comete uma violência contra aquilo que entreviu, porque você cospe na música, porque você pisa na dança do ser que lhe foi manifestada no encontro. Enfim, porque você não quis reconhecer a ferida da beleza, aquela ferida que não é diminuição do seu ser, mas oferta de um ser que é maior do que o seu poder, e que levanta você humilhando-o, diviniza você destruindo o seu orgulho. Giussani chama atenção para isso. Isso é importante para o mundo: impedir ao homem alcançar a própria ferida, impedir ao homem alcançar a si mesmo. É uma frase espantosa. Como pode ser que alcançar a si mesmo coincida com o alcançar a própria ferida? É porque isso sempre acontece em um encontro, no impacto e na felicidade de uma hemorragia contínua de sangue recebido e dado. O encontro é ferida, porque é o aparecer de algo que desperta o meu desejo e, ao mesmo tempo, escapa do meu poder. Algo que, ao mesmo tempo, me exalta e me humilha. E pergunta se torna: como abraçar, de verdade, Beatriz? Como entrar em contato com a fonte inacessível da sua beleza? Atenção, não se trata de se servir de Beatriz para ir até a Deus. Isto é o que acreditaram alguns falsos cristãos. Disseram “sigam em direção a Deus e, para fazer isso, desprezem as suas criaturas”. Mas, é como dizer “vá até Dante e diga-lhe que sua Comédia não vale nada”. Não vale nada. O Criador ama a sua criatura. Por isso, ir em direção a Ele é ir em direção dela mais profundamente. Vocês conhecem aquele versículo da carta aos Colossenses que Giussani repetia muito frequentemente, e que exprime sem dúvida a intuição fundamental de todo o seu percurso. Ele, antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem nEle. Tudo subsiste em Cristo, e portanto ir em direção a Cristo não exclui nada. Pelo contrário, deve-se ir em direção a Cristo para ir em direção de Beatriz, porque é nEle que ela subsiste, é através dEle que ela é salva, é com Ele que a música da sua beleza pode se desdobrar numa inefável sinfonia.
Então, eis a ressurreição que se aproxima. Mas, é preciso que lutemos contra a mentira de uma autenticidade fabricada pelo nosso próprio poder, que arrisquemos a nossa vida pela beleza, a verdade do encontro e do desejo. Dom Giussani disse isso de modo claro. A luta contra essa mentira pode justamente nos levar a dizer que, talvez, fosse melhor para o homem ser assassinado que perder a própria humanidade. Este é o exercício da nossa ressurreição: preferir mais ser assassinados do que perder o próprio coração. Tal é o testemunho em favor da beleza: preferir mais ser esmagado, desfigurado, cortado em pedaços do que renegar a glória à qual todos somos chamados, mesmo os mais pequenos, mesmo os mais inimigos, mesmo aquele que me faz em pedaços. Como Giussani disse, Cristo não é apenas para os cristãos, não é para os cristãos, é para todos os homens. É o salvador do marxista, do berlusconiano e mesmo do aderente à democracia-cristã. Assim, o cristianismo não é apenas para a paróquia, mas para tudo aquilo que nos circunda, porque tudo subsiste nEle. E é também esta a ressurreição. Não apenas preferir ser morto do que renegar o nosso desejo mais profundo, mas também não acreditar que a ressurreição seja para amanhã e apenas para os fiéis da nossa paróquia, mas que ela começa já hoje e para todos. O nosso trabalho não tem sentido, a não ser que seja voltado para o trabalho de ressuscitar, como diz a poesia de Norwich citada por João Paulo II e por Dom Giussani. Este trabalho de ressurreição não consiste em uma nova aquisição. A ressurreição se encontra numa energia de consciência maior. Ela não é o mesmo que ter algo de outro, mas, finalmente, ser si mesmos, o que não quer dizer fechar-se em si mesmo, mas aceitar as próprias feridas e entrar numa comunhão. Uma maior energia de consciência quer dizer viver amorosamente aquilo que nos é dado. Que você não atravesse a vida como se fosse um vídeo-game, uma cena de fantasmas sem profundidade, mas que você tome consciência daquilo que é agora, e que você esteja presente à presença que funda tudo aquilo que é. Para que você possa dizer, como Nietzsche dizia, melhor do que como Nietzsche dizia, eu sou um destino. Porque você respondeu ao chamado que lhe foi feito de viver até ao fundo a única aventura da sua vida, escutando aquilo que já está na sua boca e no seu coração. Está aqui o coração do mistério cristão. Devemos fazer memória disso. Deus é Trindade, eternamente o Pai gera o Filho na unidade do Espírito. De tal forma que Deus é, em si mesmo, sempre nascimento e encontro, é, em si mesmo, comunhão de pessoas. E cada uma das pessoas divinas tem o seu eu que nasce de um encontro infinito. Portanto, oferecer-se a Deus não é ser absorvido como uma gota d’água no oceano imenso. É encontrar a própria origem e, portanto, a própria originalidade. E, portanto, o próprio nome e o próprio rosto, porque Deus quer que nós O conheçamos face a face, quer que a face de cada um de nós não se perca, mas que seja radiante singularmente, de modo divino e, então, começaremos a ressuscitar, começaremos a ressuscitar quando começarmos a crer que Beatriz ou Aspásia, mas também o Fulano de Tal, ou seja, vocês, eu, o seu vizinho de cadeira, quando começarmos a acreditar que cada um é tal que, como disse Dante, “Dio parea nel suo volto gioire”, que “Deus pareça, no seu rosto, se alegrar”.


* Conferência proferida por Fabrice Hadjadj, no âmbito do Meeting 2010. A tradução - realizada por Paulo R. A. Pacheco - foi feita a partir da transcrição, não revisada pelo autor, da tradução simultânea para o italiano. A conferência foi proferida originalmente em francês.