Por Sávio Passafaro Peres
Após ler o texto de Leonardo Boff – A guerra da mídia comercial contra os pobres –, compreendi porque a Igreja foi muito obsequiosa em estipular para Boff o silêncio obsequioso. O que Boff merece são belas bofetadas.
Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), há mais de 2000 anos atrás, fez um levantamento das principais técnicas sofísticas usadas para se ganhar um debate sem precisar ter razão, usando “falsas lógicas” e “falsos argumentos”. Esta arte do engano foi denominada de erística. Exemplo: “Toda luz se apaga. Deus é luz. Logo, deus se apaga”. Coisas do tipo.
Arthur Schopenhauer (1788-1860), com o objetivo de vacinar as pessoas contra essas técnicas, escreveu um tratado, somando àquelas exposta por Aristóteles, novas técnicas. Tudo isso se encontra em Como vencer um debate sem precisar ter razão em 33 estratagemas. Lendo o texto de Boff, fiquei completamente impressionado pela densidade com que estas técnicas são empregadas. A argumentação de Boff é construída sobre o vácuo.
Conhecer a erística é fundamental, pois é a arte da patifaria intelectual, na qual o homem não está interessado na verdade, mas apenas em ganhar o debate por meio de ardilosas artimanhas retóricas, nas quais a falsidade não é facilmente detectada. Cito duas dessas técnicas, que, como veremos, Boff emprega com grande talento: o entimema, que é um silogismo do qual se suprimem as premissas ou as conclusões; e o argumentum ad hominem.
Nesse último tipo de argumento, ao invés de manter o debate no plano das idéias, recorre-se à vida do sujeito. Por exemplo, se vejo que estou perdendo um debate cujo tema é a definição de virtude, eu posso reverter esse quadro, mostrando para o público, fotos do adversário com sua amante. No fundo, eu sei que ele estava ganhando o debate e que ele tinha razão, mas uso da ignorância do público para reverter esse quadro. Podemos, no texto em questão, observar como entimema e argumentum ad hominem se fundem na patifaria intelectual. Se uma pessoa afirma que “São Paulo é uma cidade incômoda”, respondo “Então, por que você não vai embora no primeiro avião?”. Ao dizer isso, eu coloco como premissa oculta que “nunca se deve permanecer em uma cidade incômoda”. Fica implícito que o único motivo para se permanecer numa cidade é que ela seja cômoda. Ora, existem muitos outros motivos para alguém permanecer numa cidade, mesmo sendo incômoda.
Contra o canalha intelectual, todavia, não há debate; pois seu objetivo é vencer. Tomo, portanto, como posição inicial que as pessoas que estão lendo este texto são “honestas intelectualmente” e que não possuem “paixão política”, pois discutir com um apaixonado é tão frutífero quanto discutir com um bêbado.
Boff inicia seu texto da seguinte maneira: 1. ele ajudou a publicar um livro denunciando as torturas. Esse livro ajudou a derrubar o regime totalitário. “Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o ‘Brasil Nunca Mais’, onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário”. 2. Em seguida: “Esta história de vida, me avaliza fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a mídia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade”.
Perceberam a falácia? O argumentum ad hominem usado indevidamente? Até onde sei, Serra foi líder estudantil, perseguido, ameaçado de tortura e refugiado. Logo, Serra está tão qualificado quanto Boff. Boff usa, portanto, sua história de vida de santo paladino contra o regime autoritário para revelar o quanto possui de “autoridade” para se exprimir contra a “mídia comercial”. Agora, passemos à segunda picaretagem boffeana. Será verdade que ele realmente foi contra qualquer regime autoritário? Usemos o argumentum ad homimem contra Boff. Vejamos sua opinião, em outro artigo, a respeito de sua viagem a Cuba, a convite de Fidel Castro, pouco tempo depois da Igreja lhe pedir o voto de silêncio:
Meses após fui surpreendido com um convite do Comandante Fidel Castro, pedindo-me passar 15 dias com ele na Ilha, durante o tempo de suas férias. Aceitei imediatamente, pois via a oportunidade de retomar diálogos críticos que, junto com Frei Betto, havíamos entabulado anteriormente e por várias vezes. (...) Alguns pontos daquele convívio me parecem relevantes. Primeiro, a pessoa de Fidel. Ela é maior que a Ilha. Seu marxismo é antes ético que político: como fazer justiça aos pobres? Em seguida, seu bom conhecimento da teologia da libertação.
Sua imagem de Fidel é realmente muito reveladora: “Ele é maior do que a Ilha”; “seu marxismo é antes ético do que político”. Antes ético do que político!! Foi isso que entendi?! Será que os presos políticos de Cuba concordam com isso? Guillermo Fariñas, metido no cárcere por defender a democracia, só conseguiu atrair um pouquinho da atenção da mídia, após mais de cem dias de grave de fome. Que horror, hein! Pois é. Lógico que Lula, um homem que lutou a favor da democracia ficou do lado de Fariñas, certo? Vejamos a declaração de Lula:
Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos. A greve de fome não pode ser um pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade (reportagem encontrada aqui).
Lula usa aqui outro artifício de retórica, cujo nome é “generalização indevida”. Preso político é compreendido dentro da classe dos “bandidos comuns”. O que jamais Lula explicitaria é o que está oculto: que ser a favor da democracia é crime comum. A declaração de Lula a respeito dos presos políticos de Cuba pode ser enquadrada naquilo que Chaïm Parelman (1912-1984), em seu clássico tratado de retórica – Tratado da Argumentação –, denominou de “argumento autofágico”: o mesmíssimo argumento poderia ser usado contra o próprio Lula, quando ele foi preso durante a ditadura militar. É interessante notar que ainda assim a diferença de proporção. Só a greve de fome de Jose Fariñas durou 135 dias, enquanto Lula esteve preso por 30 dias. Apesar dos Lulas e dos Boffs, o fato é que Fariñas conseguiu mobilizar a opinião pública internacional.
Muitos países e instituições exerceram pressão sob o governo de Cuba, dentre as quais a Igreja Católica, a mesma que havia pedido que Leonardo Boff se silenciasse. Àquele que afirmar que Lula tinha razão em sua declaração, duas opções são possíveis: ou é um patife, ou um possui um sério déficit intelectual. Lógico, todos erramos. E uma única fala não é prova cabal de que Lula seja um canalha. Ele pode ser apenas burro. Ou eventualmente canalha e eventualmente burro. Talvez um canalha ocasional, como todo mundo em alguma medida é. Meu objetivo central não é dizer se Lula é bom ou ruim, é apenas mostrar o nível do debate intelectual brasileiro, afinal muitos consideram Boff um grande intelectual (lembro-me de alguém que, certo dia, me recomendou um livro de “profundezas insondáveis”: A Águia e a Galinha. O destino foi bondoso comigo ao não colocar essa maravilha da literatura em minhas mãos).
A esquizofrenia implícita no discurso de Boff não termina aí. Observemos um pouco melhor “o marxismo ético de Fidel”:
Data de 1971 a infeliz resolução do Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura de Cuba onde se decretou que ‘os desvios homossexuais representam uma patologia anti-social, não admitindo de forma alguma suas manifestações, nem sua propagação, estabelecendo como medidas preventivas o afastamento de reconhecidos homossexuais artistas e intelectuais do convívio com a juventude, impedindo gays, lésbicas e travestis de representarem artisticamente Cuba em festivais no exterior’ Foram então estabelecidas penas severas para ‘depravados reincidentes e elementos anti-sociais incorrigíveis’. Em 1959, ao tomar o poder em Cuba, Fidel declarou que ‘um homossexual não pode ser um revolucionário’. Em 1965, Fidel e Che Guevara criaram as Unidades Militares de Ajuda à Produção, acampamentos de trabalho agrícola em regime militar, com cercas de 4 metros de arame farpado, onde os homossexuais e outros ‘marginais’ realizavam trabalho forçado nos canaviais, com até 16 horas de trabalho diárias, em condições desumanas muito semelhantes aos campos de concentração nazistas (quem quiser ler mais, tem aqui).
Então, o mesmo autor que elogia o “marxismo ético” de Fidel vai atacar “a mídia comercial”. O argumento é que ela defende o interesse econômico de “famílias”. Hugo Chávez e Fidel Castro já resolveram este problema, fechando todos os meios de imprensa que levantassem qualquer palavra que defendesse os interesses comerciais de qualquer família que não fosse a deles próprias.
De fato, Boff, esse paladino da verdade e da luz, defensor incondicional dos pobres, afirma que a mídia faz de tudo em sua guerra: “Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta”. A mídia, especialmente a Veja, revelou que Erenice Guerra e seus familiares estavam envolvidos em um escândalo de corrupção. Podemos imaginar a resposta de Boff: “Mentira”. O escândalo do mensalão, no qual o PT comprava os votos no congresso? “Mentira”. Ou talvez responda: “tudo bem, isso é verdade, mas o PT comprou o congresso por causas justas”. Não sei, sinceramente, o que Boff responderia. Mas de uma coisa eu sei, não tenho o menor interesse em saber. O que sei é o seguinte: os fins não justificam os meios. Stálin matou milhões de russos tendo como fim o paraíso na terra, a igualdade entre os homens. Eis a Revolução dos Bichos de George Orwell (1903-1950).
Continuemos as boffetadas. Boff usa outra estratégia retórica muito sutil. Expor seu texto em uma estrutura na qual qualquer contra-argumentação se torne a própria prova do que ele afirma.
Existem alguns tipos de teorias que contam com um sistema de proteção maravilhoso. Poderíamos chamá-las de “teorias fechadas que usam tudo aquilo que vai contra elas como provas delas mesmas”. Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) dizia que alguém se torna verdadeiramente seu discípulo quando o negar. Em outras palavras, se somos a favor de Nietzsche, somos discípulos, se o negarmos, também nos tornamos seus discípulos. Diante das duas opções, o melhor seria desprezá-lo. Alguns psicanalistas selvagens usam a mesma fórmula: “Você tem complexo de Édipo”. Se a pessoa nega, o psicanalista dá aquele clássico sorrizinho por dentro, dizendo para si mesmo: “eis aí o mecanismo da negação”. Se o paciente aceita, o psicanalista satisfeito agora “sabe” que seu paciente está na metade do caminho para a cura. Se um psicanalista lhe disser que você tem complexo de Édipo, saiba que você nunca, jamais, o convencerá do contrário, pois tanto sua negação quanto sua confirmação afirmará a sua teoria.
Os exemplos acima são banais. Mas servem para ilustrar o que quero dizer. Boff organiza o seu discurso de tal modo que se torna impossível falar mal de Lula. Quem se coloca dentro da perspectiva de Boff, passando a ver o mundo através desses maravilhosos óculos, está encrencado. Estará condenado a passar o resto de sua miserável vida dentro deste “esqueminha engenhoso”. Mas talvez, algum dia, tal pessoa tenha um insight e se livre das jaulas, como um macaco gestáltico. Explico o “esqueminha”. Pouco acima critiquei a posição de Lula sobre os presos políticos de Cuba. Entretanto, segundo o ilustríssimo Boff, todas as minhas críticas não possuem absolutamente nenhum valor, pois elas apenas confirmam que eu pertenço a uma classe dominante e que meus argumentos, no fundo, nada mais são do que reproduções de uma mentalidade de classe.
Mas e quem é pobre e não vota em Lula? Neste caso, é alienado. Está imbuído da ideologia de outra classe, pois não possui ferramentas marxistas para conhecer a verdade. E qual é a verdade? Não há verdade, o que há é uma guerra de classes. No fundo, a definição de alienado é a seguinte: “Alienado é alguém que não conhece o marxismo”. Esse modo de pensar ilustra o que Husserl, no final de sua vida, diagnosticou como crise do espírito Europeu. Para ele, o século vinte se caracteriza por uma crise da razão e da verdade, que foram sempre os dois conceitos que brilharam por milênios no horizonte da filosofia. No lugar disso, teremos os médicos e engenheiros sociais querendo imprimir os novos valores da sociedade.
Não há verdade, dizem eles, o que há são ideologias, guerras de classes, ou como Nietzsche afirma, a verdade é uma mentira persistente e algumas mentiras fortalecem a vitalidade mais do que outras. Vivemos em uma época de relativistas, engenheiros sociais, cientistas e alienistas, como bem observou Machado de Assis. Se alguém disser que procura a verdade, será alvo de riso. Portanto, por mais que eu tenha estudado toda minha vida sobre os discursos lógicos, sobre falácias, sobre as regras do pensamento correto, por mais que tudo isso me tenha custado e nos tenha custado muito suor, será válido somente se estiver de acordo com a teoria de Boff. Todo esforço em mostrar que Boff usa todo receituário que Aristóteles já desmascarou há mais de dois milênios, bom, isso é uma mera ideologia de classe. E eu sou alienado. Quem não tem inteligência e está dentro da prisão espiritual de Boff e de toda a sua corja, nunca mais conseguirá sair. Há nessa prisão até mesmo um apelo emotivo que embriaga. Querer o paraíso na terra! Salvar o pobre que pensa! Como se não bastasse, aderir e este estilo de pensamento faz com que nos sintamos pessoas boas, tão boas que nem precisamos mais fazer atos reais de caridades reais, como se esforçam os verdadeiros cristãos todos os dias.
Em minha vida, todas as vezes que busquei usar argumentos contra as pessoas que defendiam tais doutrinas, tive como respostas: “pelego”, “você só quer explorar os outros”, “alienado”, “manipulado pela mídia”. (eis aí outra técnica exposta por Schopenhauer, conhecida como “rótulo odioso”, enquadra-se a pessoa no rótulo e exime-se assim de qualquer pensamento). O fato é que o texto de Boff conta com tantas falácias, premissas ocultas, uso indevido de homonímia, que se poderia ministrar em cima de seu texto todo um curso de patifaria intelectual. Eu me limito apenas a registrar algumas delas.
Leiam bem. Para Boff, ser contra Lula nada mais é do que ser contra “os pobres que estão se libertando”. “Eles têm pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascendente como Lula.” Portanto, há uma equivalência semântica entre Lula e o pobre que pensa e fala. Agora desmascaremos mais uma falácia. Até onde sei Hitler também veio de classes populares e seu regime teve 21 milhões de vítimas. Ah, mas Hitler não usa as ideias de Marx. Então vejamos Stálin, que segue os requisitos propostos por Boff: era proletário, tomou o poder, e fez o que Boff parece sugerir, acabar com a mídia que não seja estatal. Tirou da mão das famílias poderosas toda mídia. Ah, mas não só. Stálin também assassinou mais de dez milhões de russos que eram contra o regime. Mas Stálin tinha razão, afinal, essas milhões de pessoas “eram apenas pessoas de ideologias contrárias”, contra o povo e contra a igualdade entre os homens. Mais que uma vez o raciocínio de Boff encaixa aqui como uma luva! Ora, quem era contra o regime, era contra Stalin e ser contra Stalin era ser contra “o pobre que pensa”.
O que o texto sugere é que quem é contra Lula, não quer o bem do pobre, mas sim explorá-lo, não quer que o pobre ascenda, mas sim que ele continue pobre. Boff é tão bondoso que nos oferece duas opções: ou somos a favor de Lula ou queremos que o pobre continue pobre e continue sendo explorado. Trata-se de mais uma falácia já desmascarada por Schopenhauer, “escolha forçada”, na qual colocamos as coisas de tal modo que parece que há apenas duas opções e forçamos o adversário a escolher entre elas e mais nenhuma. Em alguns casos, essas escolhas forçadas são reais, em outros são puras falácias. Se Lula é um bom governante, que o senhor Boff aponte motivos reais. Neste caso, seria possível uma discussão racional.
Sr. Boff, aprenda de uma vez por todas que se avalia um homem pelos seus atos, pelo seu caráter e não pela classe social de onde proveio. Vejam bem, não quero dizer que Lula seja como Stálin ou Hitler, quero apenas mostrar como é má construída a argumentação deste grande intelectual, o ilustríssimo Boff. Não quero tampouco dizer que todo pobre que chega ao poder é canalha. O ponto é que o argumento de Boff não se sustenta. Não é porque uma pessoa proveio de classes baixas que ela representa as classes baixas. Se assim fosse, Stálin as representaria, Sílvio Santos, Tiririca, Amin Dada, e tantos outros. Por outro lado, não é porque uma pessoa vem de classe superior que ela não presta. Uma pessoa presta ou não pelo seu caráter. E o caráter de uma pessoa é dado não pela sua visão política, mas pelos valores que ela segue em seu coração e que se realizam em seus atos. Lembremo-nos de São Francisco de Assis. Movido pelos valores cristãos abandonou a vida de riquezas para seguir Cristo. É difícil entender como ele, movido por interesses de classe, abandonou sua vida de riqueza, luxúria, e toda sorte de prazeres sensuais, para viver uma vida sofrida e piedosa. Benedita da Silva, negra, pobre, favelada, usou da política para se beneficiar.
Lula e o governo petista não são sinônimos de povo. Foram eleitos pelo povo e este é o fato. O fato positivo de terem promovido uma melhor distribuição de renda não os exime, nem a eles, nem a Fidel Castro, nem a qualquer outro governante, de seus erros éticos, de possuírem uma fome desmedida de poder e de odiarem quando a mídia os denuncia.
A função da mídia é ficar no calcanhar de todos os políticos, denunciando-os a todos, sem exceção. Do mesmo modo que a democracia é o menor dos males, a mídia privada é, do mesmo modo, o menor dos males. E já existem leis que impedem a calúnia e a mentira veiculada pela mídia. Por que razão, então, o sr. Boff, ao invés de atacar a mídia, não pede uma maior efetividade dos mecanismos já existentes para que os “distribuidores de mentiras” paguem pelos seus crimes? Creio que é porque algum instinto de autoconservação lhe diz na voz silenciosa de sua consciência que o primeiro a ir para o banco dos réus seria ele mesmo, o exímio sr. Boff.

