terça-feira, 30 de novembro de 2010

Natal 2010


Para nós, Deus não é uma hipótese distante, não é um desconhecido que se retirou depois do “big-bang”. Deus mostrou-Se em Jesus Cristo. No rosto de Jesus Cristo, vemos o rosto de Deus. Nas suas palavras, ouvimos o próprio Deus falar conosco.
Bento XVI

                                                       
João e André tinham fé, porque tinham certeza de uma Presença experimentável: quando estavam lá […] sentados na sua casa, aquela noite, olhando-O falar, era uma certeza em uma Presença experimentável de uma coisa excepcional, do divino numa Presença experimentável. […] Em vez dEle com os cabelos ao vento, em vez de olhá-Lo falar com a boca que se abre e se fecha, Ele chega até você através das nossas presenças, que somos como […] a pele frágil, as máscaras frágeis de algo potente que é Ele e que está dentro.
Luigi Giussani

Comunhão e Libertação

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cartas do P.e Aldo 169

Asunción, 28 de novembro de 2010.

Caros amigos,
gostaria de comunicar a vocês alguns fatos que aconteceram e que testemunham com Cristo está presente na minha vida e, por isso, tudo é positivo, mesmo a dor que, de uma desgraça, se torna graça, como nos lembra a Escola de Comunidade.
1. Ontem (sexta-feira), tivemos a surpresa da visita de Marcos e Cleuza. Uma visita relâmpago, que foi, para eles, uma aventura única: 7 horas de viagem de avião para chegar aqui e 4 horas para voltar. Nunca aconteceu algo assim. Somente uma grande amizade, fruto da familiaridade com Cristo, permite este olhar entre nós. Marcos, ontem, tinha uma reunião importante na Assembléia Legislativa, mesmo porque lhe estão fazendo propostas interessantes. Mas, preferiu vir para festejar o aniversário de Padre Paolinio e encontrar os amigos da fundação, responsáveis pelas obras. O encontro foi muito bonito, as experiências contadas foram como um vibrar do eu diante de Cristo. A genialidade de Cleuza nos lembrou o que Carrón nos dizia comentando o Monologo di Giuda (Monólogo de Judas, canção de Claudio Chieffo; ndt) em La Thuile: “Judas era um apóstolo, eu não sou um apóstolo; Judas fazia parte dos grupinho de amigos de Jesus, e eu também faço parte dos amigos de Jesus, como Judas, como Pedro. Porém, Judas participava daquela amizade, mas diferentemente de Pedro e de mim, não pertencia àquela amizade. Uma coisa é participar, outra coisa é pertencer. Judas traiu Jesus, mas também Pedro, assim como também eu. Porém, uma coisa foi a traição de Judas, outra a de Pedro e a minha. Judas, diante do seu pecado, sendo apenas participante daquela amizade, e não pertencente, se suicidou. Pedro, porém, que pertencia àquela amizade, reconheceu o seu pecado e se deixou abraçar por aquele olhar. Assim é para mim e para Marcos. Nós não viemos porque participamos do que acontece aqui, desta obra, mas porque pertencemos a esta obra. Uma pessoa pode até fazer milagres, mas se a sua natureza não for a do Pai, tudo morrerá. O filho pródigo voltou não porque quisesse participar do banquete, ou porque estava cansado da miséria, mas porque, no meio de toda as misérias, ele pertencia ao Pai, era da sua mesma natureza. O nosso problema é apenas um: participamos ou pertencemos? Seguimos Carrón ou olhamos para onde Carrón olha? Uma coisa é participar do movimento, participar daquilo que Carrón nos diz, outra coisa é pertencer ao movimento, pertencer ao olhar com o qual Carrón nos guia e olha para a realidade. Eu venho aqui, do Brasil, porque decidi pertencer àquilo que vi, como Pedro. Eu venho do Brasil porque pertenço a vocês. Assim, vocês trabalham aqui porque pertencem a esta obra. E o sinal desta pertença é a alegria com a qual vocês trabalham e é o que marca a diferença com quem não pertence”
2. Tão logo chegaram, celebramos a missa para eles na clínica. Alguns doentes terminais, incapazes de se moverem, participaram também. Grande foi a surpresa quando um doente de câncer, com a parte direita do rosto toda vendada, porque literalmente estava “comida” pelo câncer, e o outro lado todo inchado, tomou o violão e, com uma alegria nos olhos que nos comover a todos, acompanhou os cantos. Cleuza, a um certo momento, disse: “como pode um doente naquelas condições, nas vésperas da morte, tocar com tanto ímpeto o violão? A resposta é apenas uma: porque, nele, é clara, é evidente a pertença ao Mistério... e era visível como ele estava identificado com Cristo eucarístico. Ele tocava assim e naquelas condições, porque olhava para Cristo, pertencia a Cristo. Desafio a qualquer prêmio Nobel de oncologia a dar a este doente aquilo que somente Cristo pode dar. Nenhum prêmio Nobel pode dar um doente terminal a força, naquelas condições, de tocar o violão. Quem lhe dá a força é apenas Cristo, que passa através de vocês, que estão próximos e veem nele Cristo. Eu venho de São Paulo porque preciso ver como também a vida que está morrendo refloresce na pertença. Não venho aqui para ver as pessoas morrendo e nem mesmo para ver o hospital, porque tudo isto posso ver também em São Paulo, mas para ver os milagres da pertença a Cristo, porque não é uma coisa deste mundo ver um moribundo tocando violão. Venho aqui para que a certeza que hoje me acompanha seja a certeza que me acompanhe também amanhã. Não me basta o passaporte para hoje, eu o quero também para amanhã. E sem vocês não tenho esta garantia. O passaporte para o amanhã eu não tenho, mas esta pertença o tem. Então, o problema é não ter uma reserva na pertença, reserva que é o caruncho que destrói tudo. Quanto mais pertenço, tanto mais cai a reserva. A outra face da reserva é a pretensão. Por que prevalece a pretensão? Porque nos esquecemos do destino do outro. Por este motivo, não estamos juntos para fazer obras, mas para que floresça o nosso eu e as pessoas conheçam a Cristo, encontrem a Cristo. E se o ponto não está claro, a obra já está morta. Quando alguém tem este olhar é livre. Não é definido pelos resultados, pelos êxitos. Pensem, por exemplo, nos pais: que respiro começam a viver quanto aos filhos, sobre os quais temos tantas pretensões. Eu posso abraçar, sustentá-los, mas não me posso substituir a eles, ao drama deles. O violeiro que escutamos é uma evidência. Eu não posso tirar-lhe o câncer, não me posso substituir a ele, o drama é todo seu, não posso fazer com que a proximidade da morte se afaste. Posso sim abraçá-lo, amá-lo, mas o drama é entre ele e Cristo, e se vê bem como a sua liberdade, que se deixa abraçar por Cristo, lhe permite até mesmo de ‘tirar sarro’ do câncer, aproveitando plenamente daquilo que está tocando”
Amigos, vocês entendem por que somos amigos e por que não conhecemos distância, e como mesmo os “problemas” provocados pelas companhias aéreas não nos distraem?
Para terminar e assim começar bem o Advento, um último fato que mostra como nada impede que a realidade, a doença, seja um dom. Outro dia, a doutora Cristina, infectologista, me descreveu as condições de um paciente de AIDS, encontrado num lixão. Ele é uma ferida só. Os vermes saem de uma orelha apodrecida e também dos genitais. Chamou-me para perto dele para que eu me desse conta de onde pode chegar a miséria humana e também do que seria do homem se não fosse de Cristo. Vi como ela, com tanto amor, com uma pequena pinça, tirava os vermes um a um – e isso todos os dias – e fiquei abalado e comovido. Perguntei-lhe: “Mas, Cristina... como consegue?”. E ela: “Mas, padre, é Jesus... este homem cheio de feridas é Jesus; e, por isso, faço este trabalho com alegria”. Fiquei sem palavras, maravilhado, comovido, enquanto ela, com as pinças, acompanhada por outra jovem médica e uma enfermeira, continuavam, com o sorriso nos lábios, a tirar aqueles vermes de cabeça preta e corpo branco.
Vocês entendem o que quer dizer “contemporaneidade de Cristo”? Se Cristo fosse um “ontem”, uma pessoa não seria capaz de estar diante de um homem que traz no corpo os sinais do apodrecimento.
Rezem por mim e por meus amigos sãos e doentes.
Padre Aldo

O homem pode ser reconhecido pelas suas esperas

Angelus

Bento XVI

Praça São Pedro
I Domingo do Advento, 28 de novembro de 2010

Caros irmãos e irmãs!
Hoje, primeiro domingo do Advento, a Igreja dá início ao novo Ano Litúrgico, um novo caminho de fé que, de um lado, faz memória do evento de Jesus Cristo e, de outro, abre-se à sua realização final. E exatamente desta dupla perspectiva é que o Tempo do Advento vive, olhando seja para a primeira vinda do Filho de Deus, quando nasceu da Virgem Maria, seja para o Seu retorno glorioso, quando virá “para julgar os vivos e os mortos”, como dizemos no Credo. Sobre este sugestivo tema da “espera” gostaria, agora, de me dedicar brevemente, porque se trata de um aspecto profundamente humano, no qual a fé se torna, por assim dizer, um todo unitário com a nossa carne e o nosso coração.
A espera, o esperar é uma dimensão que atravessa toda a nossa existência pessoal, familiar e social. A espera está presente em mil situações, desde as mais pequenas e banais até às mais importantes, que nos envolvem totalmente e no profundo de nós mesmos. Pensemos, entre estas, na espera de um filho da parte de dois esposos; ou na espera de um parente ou de um amigo que nos vem visitar de longe; pensemos, para um jovem, na espera do bom resultado numa prova decisiva, ou de uma entrevista de trabalho; nas relações afetivas, pensemos na espera do encontro com a pessoa amada, da resposta de uma carta, do acolhimento de um perdão... Poder-se-ia dizer que o homem é vivo na medida em que espera, na medida em que, no seu coração, permanece viva a esperança. E o homem pode ser reconhecido pelas suas esperas: a nossa “estatura” moral e espiritual pode ser medida por aquilo que esperamos, por aquilo no que esperamos.
Cada um de nós, portanto, especialmente neste Tempo que nos prepara para o Natal, pode se perguntar: eu, o que espero? A que, neste momento da minha vida, o meu coração está tendido? E esta mesma pergunta pode ser feito no nível da família, da comunidade, da nação. O que esperamos, juntos? O que une as nossas aspirações, o que as acomuna? No tempo que precedeu o nascimento de Jesus, era fortíssima, em Israel, a espera pelo Messias, ou seja, de um Consagrado, descendente do Rei Davi, que deveria, finalmente, libertar o povo de toda escravidão moral e política e instaurar o Reino de Deus. Mas, ninguém nunca teria imaginado que o Messias pudesse nascer de uma jovem humilde como Maria, prometida em casamento ao justo José. Nem mesmo ela nunca teria pensado nisso, e no entanto, no seu coração a espera pelo Salvador era tão grande, a sua fé e a sua esperança eram tão ardentes, que Ele pôde encontrar nEla uma mãe digna. De resto, Deus mesmo a tinha preparado, antes do início dos tempos. Há uma misteriosa correspondência entra a espera de Deus e a de Maria, a criatura “cheia de graça”, totalmente transparente ao desígnio de amor do Altíssimo. Aprendamos dEla, Senhora do Advento, a viver os gestos cotidianos com um espírito novo, com o sentimento de uma espera profunda, que somente a vinda de Deus pode realizar.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 28 de novembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

domingo, 28 de novembro de 2010

A arte será capaz de nos dar aquela “única felicidade possível” de Elsa Morante?


Por Uberto Motta 

Excessivo e totalizante: dois adjetivos bastariam para definir o mundo narrativo de Elsa Morante (1912-1985). Uma mulher para quem escrever era a coisa mais séria da vida, como forma de participação absoluta na energia e nas cores da realidade. 
A sua maior glória repousa em quatro títulos aos quais se doou inteira e se transfundiu: Menzogna e sortilegio (1948), L’isola de Arturo (1957), La Storia (1974) e Aracoeli (1982) [dos quatro títulos, apenas A ilha de Arturo foi traduzido para o português pela editora Berlendis & Vertecch; ndt]. Falou-se de “incessante metamorfose”. Cada livre, diferente do anterior, foi cuidado e amado como se fosse o último possível, o êxito de uma concentração firme e total. Os leitores, geralmente, ficam seduzidos ou desgostosos; enquanto que os críticos, por muito tempo, olharam-na com presunção ou antipatia. E, ainda hoje, há alguma dificuldade em, de certa maneira, reconhecer sua grandeza.
No centro da sua aventura, biográfica e literária, há uma ferida. A tragédia foi dupla e concomitante. Em 1962, Elsa perdeu primeiro o seu caríssimo amigo, o jovem pintor norte-americano Bill Morrow (que morreu de repente, pulando de um arranha-céu); depois, perdeu o marido, Alberto Moravia, que a abandonou. Numa página de diário, reconhece em si toda a extensão do drama do homem e, disso, consegue retirar a força de resgate, como tensão irreprimível para a fraternidade: “Dois anos depois daquele 30 de abril. E eu continuo vivendo como se estivesse viva. Em certos momentos, eu mesma me esqueço do horror. Uma consolação chega, como se eu te encontrasse em outras coisas. Mas, o choque é advertido de novo, de repente. [...] O único remédio para chegar ao fim humanamente é não ser eu, mas todos os outros, todo o resto. Não separar. Ser todos os outros passados presentes futuros vivos e mortos. Assim, posso ser também tu. [...] Única felicidade possível: não ser si mesmo, mas todos”.
A partir desse rasgo, Morante renasceu diferente. Amadureceu e cresceu. Despertou-se nela uma consciência adormecida, e descobriu o valor do empenho generoso, do testemunho benéfico.
No dia 19 de fevereiro de 1965, no Teatro Carignano de Turim, ela proferiu uma conferência – A favor ou contra a bomba atômica. O mesmo texto foi lido em Roma, no Teatro Eliseo, e em seguida foi editado no L’Europa Letteraria [revista de crítica literária fundada por Giancarlo Vigorelli, em 1960; ndt]. A afirmação que dá início ao texto é radical: “Dir-se-ia que a humanidade contemporânea experimenta a oculta tentação de se desintegrar”. E a proliferação ameaçadora das armas expressa a vontade inconsciente contra a qual a poesia se opõe.
“A arte é o contrário da desintegração. Porque a razão própria da arte, a sua justificação, é esta: impedir a desintegração da consciência humana, no seu cotidiano, e seu uso exaustivo e alienante na relação com o mundo; restituir-lhe continuamente, na confusão irreal e fragmentária dos relacionamentos externos, a integridade do real, ou em uma palavra, a realidade. [...] A pureza da arte não consiste em evitar aqueles motes da natureza que a lei social censura como perversos ou imundos; mas em reacolhê-los espontaneamente dentro da dimensão real, onde se reconhecem naturais e, portanto, inocentes. A qualidade da arte é libertadora, e portanto, nos seus efeitos, é sempre revolucionária. Qualquer momento da experiência real e transitória se torna, na atenção poética, um momento religioso”. Por trás de semelhantes palavras, que honram quem as pensou e pronunciou, é lícito, hoje, distinguir a herança mais sincera, a lição mais resistente de Elsa Morante.
Assim, em 1974, apareceu o romance La Storia: primeiro, acolhido com clamor (e sucesso, se se prescindir dos pronunciamentos, a favor ou contra, da crítica oficial), e depois caiu no silêncio. Morante abandonou o estilo alado, complexo e aristocrático dos exórdios, e começou a perseguir um ideal novo, de “narração democrática”. Elsa escreveu “como se os personagens tivessem a pena nas mãos” (C. Cases). Nele, ela se move livremente entre os dialetos, o italiano popular e a linguagem infantil (da inocência, da interioridade e do isolamento). Desce do sublime em direção ao humilde, para exprimir sua solidariedade com os pobres, com os necessitados. Explica-se, nesta ótica, a citação evangélica adotada como epígrafe do romance. Escondeste estas coisas aos doutos e aos sábios, e as revelaste aos pequenos... porque, assim, foi do teu agrado. Foi esta, para Elsa, a única (verdadeira) consolação possível.

* Texto extraído do IlSussidiario.net, do dia 25 de novembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Karl Marx na PUC-Minas

Recebi este email de meu irmão, que está cursando Letras na PUC de Minas Gerais (cada vez que penso nalgumas PUCs desse Brasil - pelo menos as que conheço -, não consigo deixar de pensar no trocadilho que o Bruno Tolentino fazia a respeito da sigla: Pontifícia Universidade Comunista), e achei-o tão provocativo que pedi a ele para publicá-lo por aqui. Segue a íntegra!

Belo Horizonte, 26/11/2010

Caríssimos,
Ontem, dia 25/11, ao passar pelo saguão do Prédio 6 da PUC-Minas (Coreu [Campus Coração Eucarístico; ndr]), vislumbrei no mural próximo ao “Atendimento ao Aluno” uma pérola do discurso esquerdista fanático.
Um cartaz raivoso (vermelho como os tais!) encimado pelos dizeres: “Morte ao Imperialismo!”.
A foto era significativa: dois rapazes arremessando pedras num grupo de policiais (uma “manifestação” na Europa, talvez).
O cartaz diz respeito a alguma coisa importante... hum... peraí... como dizer? Ah! Recordei-me! Apesar da violência, do tom fanático, do besteirol, versa sobre a educação - pasmem!
Os maoístas que o assinam (e o são mesmo! basta visitar o site do tal grupo fanático para conhecer as vertentes marxistas que eles seguem e divulgam) se reúnem num grupo chamado “Movimento Estudantil (!) Popular Revolucionário”. O site da galera rubra é: http://mepr.org.br (cuidado! eles são muito raivosos! o seu computador pode explodir!).
Últimos dias de aula na PUC-Minas e esse prêmio a completar as minhas reflexões sobre o lugar de fala da Universidade brasileira: a esquerda! de modo cabal, onipresente e irritante!
Pergunto aos senhores, colegas, amigos, professores e familiares: passeando por aí, na sua Universidade, você já viu algum cartaz convidando os alunos para uma palestra sobre o liberalismo econômico, sobre a educação clássica, o trivium, o quadrivium, a liberdade que o capitalismo trouxe às nações? Quiçá uma palestra de algum representante do grupo “Escola sem Partido”? Algum estudo sobre obra do Olavo de Carvalho? Não, ainda que se apresente como plural, a Academia brasileira é monopólio ideológico de uma única voz!
Sinto vergonha de me deparar com uma imagem desse teor em pleno ano de 2010. Em pleno século XXI o tal discurso marxista ainda prevalece mundo afora. Não bastou à humanidade ver o mal perpetrado pelos socialistas e comunistas em tantos países.
Para quem desejar conhecer melhor essa doutrinação ideológica esquerdista nas escolas e universidades indico o site do grupo supracitado: http://www.escolasempartido.org. No meu entender, é o must da vacina contra a propaganda raivosa e rubra.
P.S.: Desculpem-me, mas, eu não suportei o desgosto e logo abaixo do título do cartaz eu tive que escrever: “Morte ao marxismo!”.
Viva a Revolução!
Abraço do companheiro,
Luiz Fernando

A emergência educativa? De Turim, uma lição para o cristianismo “débil”


Por Stefano Zamagni

Caro diretor,
na segunda-feira, dia 22 de novembro, aconteceu a apresentação do livro L’io rinasce in un incontro de Luigi Giussani, fundador do movimento eclesial de Comunhão e Libertação. Michelle Rosboch, presidente do Centro Cultural Pier Giorgio Frassati e organizador do evento, e o diretor da Faculdade de Letras e Filosofia da Università degli Studi di Torino (Universidade dos Estudos de Turim; ndt), Lorenzo Massobrio, fizeram as honras da casa numa Aula Magna do Palazzo Nuovo repleta de estudantes universitários. Foi simples, depois, para o conferencista Giancarlo Cesana, docente de Higiene Geral e Aplicada na Università degli Studi Milano Bicocca (Universidade dos Estudos de Milano Bicocca; ndt) e presidenta da Fundação Policlínica de Milão, capturar a atenção de todos os participantes. Cesana introduziu-nos à leitura de um texto extraordinariamente atual, fruto das transcrições dos encontros que aconteceram entre 1986 e 1987 entre Dom Luigi Giussani e um grupo de universitários.
No final dos anos 1980, a Itália vivia um período de crise política e econômica não muito diferente da atual. Dom Giussani via diante de si estudantes aparentemente bem formados, mas percebia como eles eram, na realidade, “doentes por dentro, afetivamente sem energia”, não ligados a nada pelo que valesse a pena viver. Os jovens, de hoje em dia, como os de então, são completamente esvaziados pela moda e pelo poder, por uma sociedade que se interessa em privar o indivíduo daquela “energia afetiva”, de toda capacidade de afetar e de ser afetados. Por onde é possível recomeçar? Do que a pessoa pode partir outra vez?
Cesana respondeu com decisão, dizendo que “o verdadeiro fator que move a pessoa, que move a vida, que faz a pessoa se ligar, é o encontro”, e retomou as palavras de Dom Giussani, para quem o encontro é “uma presença na qual nos embatemos e que libera uma atração, uma presença que é provocação, uma presença que rompe e que supera a solidão”. O indivíduo precisa encontrar alguém que lhe solicite uma adesão a um relacionamento, que lhe solicite um empenho, que coloque em movimento a sua liberdade, exatamente como acontece quando nos apaixonamos. Para que o eu possa renascer, é necessário que seja provocado por uma proposta e que, portanto, tome uma decisão em relação a esta proposta. Ainda uma vez, depois dos encontros com o Papa Bento XVI, que aconteceram no mês de maio, e com o novo Bispo de Turim, Dom Cesare Nosiglia, os jovens torineses foram chamados a tomarem decisões definitivas e arriscadas das quais depende toda a vida.
A segunda palavra-chave do texto de Giussani é a “pertença”, exemplificada pelo Ícaro de Matisse. O tempo e o espaço são a “tumba” do homem, daquele Ícaro que, no mito grego, falha na sua tentativa de fuga e permanece prisioneiro do mundo. Na tela de Matisse, pelo contrário, o pontinho vermelho no peito representa a possibilidade de que Ícaro retome o voo, se liberte; Ícaro deseja alcançar o impossível com uma tal tensão existencial a ponto de ser inteiramente constituído por este mesmo desejo. Aquele pontinho vermelho o mantém ligado àquilo que deseja; nessa ânsia, Ícaro “tem a percepção de pertencer a algo que o sustenta”.
Cesana continuou sua conferência com força e vitalidade e, quase escandindo as palavras, precisou: “Somos feitos daquilo a que pertencemos, porque aquilo a que pertencemos define o nosso desejo” e, inevitavelmente, “todos pertencemos. Quem pensa ser independente, na realidade, não pensa com a própria cabeça, mas com os critérios da televisão, dos jornais, de quem comanda”, permanece preso na armadilha do tempo e do espaço, da sociedade, do mundo, como o Ícaro pagão. Não é por acaso, portanto, que exatamente nesse ponto do livro, Dom Giussani introduza o problema do cristianismo, ou melhor, “uma proposta que diz respeito a esta sensibilidade da vida”, que se coloca como ímpeto para o voo humano em direção ao impossível, em direção ao sentido da realidade, em direção a Cristo.
Por que, no entanto, o cristianismo de hoje é assim tão débil? O defeito reside no modo como é comunicado, que não é mais o encontro material e carnal que fizeram os apóstolos vendo e escutando Cristo falar. O cristianismo deve recuperar a concretude do encontro. Esta é a grande inovação introduzida por Giussani, a recuperação daquela experiência atual de encontro e de pertença que, desde sempre, constituiu o cristianismo. O homem tem um forte sentimento de Cristo, mas onde está Cristo? “Cristo está no Mistério da Igreja”, é possível pertencer a Ele apenas no encontro com outro, com um amigo ou um professor, no relacionamento concreto de amizade, na pertença a uma companhia que, ainda que efêmera, é onde Cristo habita, destino último da vida de toda pessoa. Cesana concluiu dizendo que “se a companhia nasce daquele encontro e é o lugar onde o Senhor se torna paz, onde a verdade se torna paz, o sentido último da vida se torna companhia presente, ou seja, se torna amigo”.
L’io rinasce in un incontro e o movimento eclesial gerados a partir da experiência extraordinária de Dom Giussani constituem um bem precioso para a Igreja e para a CEI (Conferência Episcopal Italiana; ndt), que entra no novo decênio colocando no centro das Orientações Pastorais a emergência educativa, mais de uma vez evidenciada por Bento XVI como algo para estar presente em todos os níveis da sociedade. Para educar, segundo Cesana, é preciso entusiasmo e uma energia potente que percebe e faz perceber a realidade de modo vivo, vibrante; esta vitalidade, porém, é um dom, não é possível criá-la, é o dom de um encontro concreto, de onde o homem recebe a coragem e a energia necessárias para vencer a emergência educativa.

* Texto extraído do IlSussidiario.net, do dia 26 de novembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Lançamento de Dicta&Contradicta 6

Esse lançamento eu não perco nem que caia canivete do céu... Vamos?
Clique na imagem para conseguir ler as informações.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

sábado, 20 de novembro de 2010

O que é ser estadista?

Por Mauro Chaves

"I have only two words to tell you: please go" ("só tenho duas palavras a lhe dizer: por favor, vá"). Foi dizendo só isso que Winston Churchill frustrou a expectativa de seus colegas no Parlamento inglês, que esperavam dele, então líder oposicionista, um longo, contundente e brilhante discurso contra o então primeiro-ministro do Reino Unido, Arthur Neville Chamberlain, que fora ao Legislativo para se explicar depois do desastrado Acordo de Munique, que fizera com Adolf Hitler, entregando-lhe de mão beijada a região dos Sudetos, em troca de promessa de paz - o que levou Hitler a ocupar o resto inteiro da Checoslováquia e depois quase toda a Europa. Mas com apenas aquelas duas palavras Churchill foi fulminante e pôs fim a um governo pusilânime, que sob o pretexto da conciliação só estimulou a ação do mais sanguinário dos ditadores da História do Ocidente. E o gordo lorde britânico, sempre na banheira e com seu indefectível charuto, conduziu seu povo na resistência titânica que mudou o curso de uma trágica história. Este era um estadista.
De Gaulle precisou de apenas oito minutos na televisão para debelar a grande crise de 1968, iniciada pelos estudantes em Nanterre, liderados pelo jovem anarquista Daniel Cohn-Bendit e seu megafone fanhoso, que acabou deixando Paris sob montanhas de lixo não recolhido e o país inteiro paralisado por uma rebelião sem reivindicações claras, a favor de ninguém e contra tudo. O herói que restituiu a "grandeza" da França, que iniciava seu discurso sempre com a invocação "francesas e franceses" (só nisso imitado no Brasil, com a abertura "brasileiros e brasileiras" ou o ridículo cumprimento "a todos e todas", que nem sequer respeita a etiqueta básica do "ladies first"), poderia ter um ar soberbo que fazia seus assessores contar e lhe dizer o número de degraus de toda escadaria que deveria descer em público, já que o general se recusava a baixar a fronte em quaisquer circunstâncias. Mas ele conseguiu, efetivamente, recuperar a velha grandeza de uma nação que ante o inimigo invasor se dividira entre colaboracionistas e heróis resistentes. Este era um estadista.
Muito antes, os Estados Unidos da América já haviam vivenciado a atuação de uma liderança extraordinária, a de Abraham Lincoln, que depois de uma guerra civil sangrenta, que dividira a nação, precisou de pouquíssimos minutos - dizem que apenas dois - para, em seu discurso aos soldados enterrados no Cemitério de Gettysburg (o Gettysburg Address), dizer que não havia vencedores nem vencidos, mas sim uma nação inteira vitoriosa, que conseguira conquistar uma nova natureza de liberdade - que ele consubstanciou na 13.ª Emenda à Constituição, abolindo a escravatura. Aliás, foi nesse curtíssimo discurso que ele definiu a República como o "governo do povo, pelo povo e para o povo", palavras literalmente copiadas na Constituição da Quinta República Francesa, em 1958. Este era um estadista.
Franklin Delano Roosevelt - depois de muito esforço de convencimento de Churchill - resolveu comandar as forças aliadas para salvar o mundo do nazismo, depois de ter feito seu país superar a terrível crise de 1929 e obter uma formidável multiplicação de emprego e renda que gerou a maior potência econômica, industrial, agrícola e militar do planeta. Com firmeza e paciência Konrad Adenauer recuperou uma Alemanha destroçada e a fez reposicionar-se como uma das grandes lideranças econômicas, científicas e tecnológicas do Ocidente. Roosevelt e Adenauer eram estadistas.
Que tinham eles em comum? Uns com nenhum carisma (Adenauer), outros com excesso (De Gaulle), uns de espírito mais democrático que outros, uns mais personalistas, outros menos, de qualquer forma todos eles colocavam a nação acima de quaisquer interesses políticos, grupais ou pessoais. Todos tinham seus partidos e seguiam ou não suas diretrizes partidárias. Mas os verdadeiros estadistas jamais foram sectários, prosélitos extremados de doutrinas ou ideologias, e muito menos lançaram mão de todo o seu poder de chefes de Estado e governo para interferir em favor de sucessores. Acima de tudo, estadistas sempre uniram suas nações, não as dividiram. Também os verdadeiros estadistas não são boquirrotos, falam com concisão, precisão e sem ambiguidades, em linguagem franca, mesmo que isso signifique a dolorosa promessa de "sangue, suor e lágrimas".
No Brasil tivemos apenas um simulacro de estadista, que sujou sua extraordinária biografia de ascensão ao fazer pouco das instituições e abusar de seu poder de mando, de modo a que prevalecessem, a qualquer custo, seus objetivos ou caprichos políticos. Talvez seu desprezo pelas leis, pela Justiça e pelas normas de comportamento elementares, a que se obriga um chefe de Estado e governo, se deva ao fato de seus amigos intelectuais, que lhe ensinaram tantas coisas, terem se esquecido de lhe ensinar alguns princípios básicos da República e da democracia, como, por exemplo: o governo para todos, independentemente de coloração partidária, regional ou grupal; um mínimo de majestática isenção em relação às forças políticas que disputam o poder, já que se tem o mais elevado posto público, propício à pacificação coletiva - e não à estimulação de conflitos; o respeito pleno à liberdade de expressão, a capacidade de absorver críticas e de chamar à responsabilidade os companheiros ou amigos que infringem as normas legais - em lugar de lhes fazer cafuné. Os que têm como lema "aos amigos tudo e aos inimigos a lei", decisivamente, não foram estadistas.
É verdade que em algumas raras vezes os estadistas podem surgir inesperadamente, da noite para o dia, atuando acima de suas notórias limitações, resolvendo problemas e crises que jamais se imaginaria serem capazes de debelar.
Por isso aqui, no Brasil, ainda podemos nutrir, no atual momento, remota esperança.

* Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e pintor. Texto extraído da versão online d'O Estado de São Paulo, do dia 20 de novembro de 2010.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O drama de Calogero: a poesia resolve o mistério da morte?


Por Laura Cioni

A vida de Lorenzo Calogero conclui-se em 1961, com o suicídio. O peso muito grande da luta, a forte desilusão por ter visto sua voz não ser escutada, permanecer desconhecida e quase sem ressonância, contribuíram para o desgaste psíquico e a queda de um poeta possuidor de profundo conhecimento literário e consciente do valor da própria arte, mas dotado de um equilíbrio interior frágil.
Ele nasceu em 1910, na província de Reggio Calábria, numa família abastada, terceiro de seis filhos. Em 1922, transfere-se para a capital, onde frequenta as escolas de nível médio. Em seguida, em 1929, vai para Nápoles, onde começa os estudos universitários, inscrevendo-se primeiro em Engenharia, depois em Medicina. Naqueles anos, começou a escrever versos e a entrar em contato com Piero Bargellini (1897-1980) e Carlo Betocchi (1899-1986), para quem enviou algumas poesias na esperança de que fossem publicadas. Revelam-se, nesse mesmo período, os primeiros sintomas das fobias que tornaram sua saúde sempre muito precária. graduou-se em 1937 e, dois anos depois, começou a exercer a profissão em diversos centros da Calábria. Eis uma lírica que remonta a esses anos de atividade poética:
Molti fiori, molte cose odorose
furono concesse a me
da montagne non mie,
pur quando era passato il tempo per riceverle.
Ora mi siedo in una valle ombrosa
presso una fonte
dell’amorosa campagna
e guardo con quale passo
intrattenibile, oscurando i rami
degli alberi, passa il tempo.
(Muitas flores, muitas coisas perfumadas /  foram concedidas a mim / por montanhas que não são minhas, / mesmo quando já havia passado o tempo de recebê-las. / Agora, sento-me num vale sombreado / perto de uma fonte / do amoroso campo / e olho com que ritmo / incontinente, obscurecendo os ramos / das árvores, o tempo passa; ndt).
Em 1949, concluiu-se amargamente a sua primeira história de amor. Mas ele continuou a mandar os seus manuscritos a homens de cultura, sempre obtendo êxito negativo. Em 1954, recebeu o cargo de médico, na província de Siena, onde permaneceu por apenas um ano, porque uma deliberação do conselho municipal o demitiu do cargo. Voltou, então, definitivamente para a sua cidade, permanecendo em completa solidão, até mesmo por causa da vileza das pessoas que o tratavam com aberta desconfiança.
Os últimos anos de vida foram marcados por diversas internações em clínicas psiquiátricas, por um novo amor infeliz, por um irreprimível trabalho de escrita. Publicou, por conta própria, algumas coletâneas de versos e gozou da amizade de Leonardo Sinisgalli (1908-1981), com quem manteve um denso relacionamento epistolar. Em 1957, venceu um prêmio literário. Mas, a sua saúde declinou; não se nutria, mantinha-se com soníferos, cigarros e café; consagrava-se somente à poesia, cortejando a morte. O seu corpo sem vida foi encontrado no dia 25 de março de 1961. Ao seu lado havia um bilhete: “Peço-lhes não ser enterrado vivo”.
Só então a crítica parece tê-lo descoberto; falava-se dele como do “novo Rimbaud italiano”. Após a aclamação que durou quase ininterrupta até o ano de 1966, o silêncio de novo caiu sobre Calogero e a maior parte da sua produção, ainda hoje, permanece inédita.
Muitas líricas não parecem deixar pressagiar o trágico fim do poeta, abertas como são à esperança, dispersa em paisagens evanescentes.  Ele aparece nessas poesias como um mendicante do amor, absorto num silêncio que é fome de vida, pedido por uma revelação:
Angelo della mattina
risvegliami ancora
per la nuova fulgente aurora
che s'arrossa sull'orizzonte o s'incrina.
Io sono uno strano mendicante
che chiede amore e parole,
sono un solitario emigrante
verso le terre della luce e del sole.
Vienimi coi tuoi fulgori,
angelo che non ristai,
coi tuoi infiniti fulgori
colle movenze che tu sai,
e crescimi delle meraviglie,
di quanto raccogli negli occhi neri,
degli infiniti misteri
che tu celi dentro l'arco dei cigli.
(Anjo da manhã / desperta-me de novo / para a nova aurora fulgente / que se avermelha no horizonte ou chora. / Eu sou um estranho mendicante / que pede amor e palavras, / sou um solitário emigrante / que segue em direção às terras da luz e do sol. / Vem a mim com teus fulgores, / anjo que não paras, / com teus infinitos fulgores / com os movimentos que tu conheces, / e faz-me crescer em maravilhas, / naquilo que colhes nos olhos negros, / dos infinitos mistérios / que tu escondes dentro do arco dos cílios; ndt)
De forma mais breve, ele retorna ao tema do desvelar-se das coisas:
Di tanto rovinoso mare
poco suono giunge
al mio orecchio assorto
in ascoltazione dell’Eterno
che come un angelo passa.
(De tão ruidoso mar / pouco som chega / ao meu ouvido absorto / na escuta do Eterno / que como um anjo passa; ndt).
Uma última lírica parece conter toda a tentativa do poeta, destinado à falência, mas não por isso dominado pelo rancor. O repouso no vento é ainda, mesmo que paradoxal, desejo de viver:
Mandai lettere d’amore
ai cieli, ai venti, ai mari,
a tutte le dilagate
forme dell’universo.
Essi mi risposero
in una rugiadosa
lentezza d’amore
per cui riposai
su le arse cime frastagliate loro
come su una selva di vento.
(Enviei cartas de amor / aos céus, aos ventos, aos mares, / a todas as fluentes / formas do universo. / Que me responderam / numa orvalhosa / lentidão de amor / e eu repousei / em seus cimos incendiados / como que sobre uma selva de vento; ndt)

* Texto extraído do IlSussidiario.net, do dia 17 de novembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

David Foster Wallace: a outra face das coisas


Por Linda Stroppa

No último dia 15 de novembro, um encontro do ciclo “Ex Cathedra” enfrentou um dos maiores escritores americanos. Que nunca deu nada por óbvio. Fazendo emergir, de uma partida de tênis ou de uma fila de carros na estrada, a grandeza do homem

Aquilo que faz de Foster Wallace um grande escritor não é a inteligência ou o estilo. Mas, “num certo sentido, poderíamos falar de piedade. Por si, antes de tudo”. Quem disse foi Luca Doninelli, jornalista e escritor, leitor apaixonado de David Foster Wallace, “um dos maiores autores que a América deu ao mundo”. Originário de meio-oeste, nascido no ano de 1962, morreu em 2008. “Professor de literatura e tenista sem sucesso”: basta isso para apresentá-lo. O resto emerge dos seus contos.
E foi assim o dia 15 de novembro, quando, no ciclo de encontros “Ex Cathedra”, promovido pela Fundação Vita e pela Associação Testori, Luca Doninelli e a atriz Danielle Sassoon deram voz às palavras de This is water (conto não traduzido em língua portuguesa; ndt): a saudação – e o convite – dirigido pelo escrito norteamericano aos formandos do Kenyon College, em Ohio.
Era o ano de 2005. Foster Wallace subiu ao palco. Parabenizou apressadamente os estudantes. E, em seguida, começou. “Há dois jovens peixes que nadam”, assim deu início ao discurso, “e, num certo ponto, encontram um peixe ancião que está nadando na direção oposta, acena saudando-os e diz: ‘Salve, rapazes. Como está a água?’. Os dois jovens peixes nadam um pouco mais, depois um olha para o outro e diz: ‘Mas, que diabos é a água?’”. Dez segundos de silêncio. Onde estava o tom acadêmico? Não estava citando nenhum grande mestre. Surgiram perguntas.
Foi o autor mesmo quem esclareceu as ideias: “As realidades mais óbvias, onipresentes, são frequentemente as mais difíceis de entender”. Uma banalidade, mas apenas aparentemente. Não há nada de óbvio. Foster Wallace nos pega pela mão e nos mostra isso. Seguem-se páginas comoventes: são uma advertência aos seus estudantes, que ainda não sabem o que é que está em jogo. Quanto à vida. “A educação que se deveria receber na universidade”, diz, “não diz tanto respeito à capacidade de pensar, mas muito mais à faculdade de escolher o que pensar”. Segundo obviedade aparente. Mas que, graças à pena irônica, Foster Wallace declina. Até levar o leitor a uma alternativa. Clara. Diante da rotina congelante do “dia após dia”, feita de “intermináveis filas no supermercado e intermináveis filas nas estradas”, podemos escolher. Eis a grandeza do homem.
Podemos escolher ficar perenemente aborrecidos nas “bobagens frustrantes do cotidiano”, ou então... Há um “ou então”. A outra face das coisas. Segunda pausa de silêncio. Em seguida, a conclusão: “Depende do que vocês querem levar em consideração”. Ou seja, dependa do que vocês desejam: do que vocês escolhem venerar. “Porque, para bem dizer – continua o escritor – no mundo dos adultos o ateísmo não existe”. E as alternativas, às vezes, não são possíveis, mas sagradas. Tudo depende do fato de vencer ou não a “modalidade predefinida”, a inconsciência do deixar-se viver. Se é assim, estamos ferrados. Porque “o aspecto traiçoeiro de algumas escolhas não é que sejam malvadas ou pecaminosas. É que sejam inconscientes, e ponto final”.
Foster Wallace é categórico. Como no romance Infinite Jest (também sem tradução para o português; ndt) e nos outros contos que ele escreveu. Ele só dá aquilo que pode oferecer: a si mesmo. “Para ele, a literatura é um modo de entregar-se inteiro aos outros”, explica Doninelli. “E não pergunta qual deve ser a resposta, mas exige que se responda”. O que implica numa escolha. É este o augúrio que dirige a seus estudantes. Para que aprendam a julgar. Se esta é a água.

* Texto extraído de Tracce.it, do dia 18 de novembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Para ser “pai” é preciso um deus: a lição dos antigos

Por Giulia Regoliosi

Lendo as obras dos grandes autores gregos – poetas e dramaturgos, narradores e oradores – um dos aspectos que aparecem de forma mais evidente é o interesse pela fecundidade. A apaidìa, a ausência de filhos por causa da esterilidade ou da perda, é uma das maiores dores. Não é por acaso que Sólon, no discurso sobre a felicidade transmitido a nós por Heródoto, coloca entre os elementos essenciais o ter filhos, e filhos de filhos, fortes, belos e devotos. Numa cultura que vê de modo nebuloso a sobrevivência depois da morte, a certeza de que algo de si sobreviva é confiada à prole, bem como a esperança de cuidados na velhice, ou de herdeiros para os próprios bens ou, se pensarmos no âmbito mitológico, para a própria dinastia. É um desejo atormentador em todas as culturas antigas, como no caso da cultura bíblica também: “Eis que sou apenas uma árvore seca”, diz Isaías, o eunuco, a quem o Senhor responde prometendo “um lugar e um nome melhor do que filhos e filhas, um nome eterno que não perecerá”; mas a Sara e Abrãao, a Ana e Elcana, a Isabel e Zacarias lhes são dados os filhos esperados.
Diante de um desejo tão amplamente testemunhado, como os personagens do mundo poético grego vivem o relacionamento pai-filho? É importante que nos perguntemos isso, porque o escritor, sobretudo o poeta épico e trágico, escreve para ser testemunha ou, mais explicitamente, para ser mestre: as suas histórias, na maior parte tiradas do patrimônio mitológico, são paradigmáticas para o público, tanto o ocasional, quanto aquele que se reunia no teatro ateniense. O quadro que nos é oferecido por eles é muito amplo, comprovando uma profunda experiência da realidade. Encontramos jovens crescidos sem pai, porque este partiu para grandes aventuras e nunca mais voltou, ou porque é esperado há muito tempo; jovens que passaram por uma difícil adolescência, divididos entre nostalgia, desejo de imitação e solidão penosa. Há pais e mães capazes de comunicar confiança, propor reconciliação, sugerir grandes ideais, sacrificar-se pelos filhos, mas também pais fechados na própria realização, ou divididos entre si, até ao ponto de utilizarem os filhos como instrumentos de vingança recíproca. Encontramos filhos desiludidos nas expectativas, incompreendidos nas escolhas, mas também devotos, dispostos ao perdão (uma exceção extraordinária no paganismo), portadores de novidades.
E se a apaidìa é um sofrimento, frequentemente não impede, porém, a fecundidade do coração. De Homero aos trágicos, encontramos uma extraordinária série de figuras parentais substitutivas: o mestre de Aquiles, condenado à esterilidades mas rico de uma grande capacidade educativa; Filocteto, o exilado amargurado que sabe penetrar no coração de um jovem ambicioso; a virgem sacerdotisa de Apolo que faz o papel de mãe, até quando o deus quer, de uma criança abandonada; e outros mestres, amigos, servos, companheiros mais velhos. Ou os avós que, tendo ficado sem filhos, permanecem firmes na educação e defesa dos netos que ficaram sós.
Qual é o papel dos deuses nesses relacionamentos? Frequentemente é ambíguo e decepcionante. Porque, quase sempre, os deuses mesmos costumam ser pais ausentes: é o caso de Zeus na relação com Hércules e seus outros filhos; ou  ainda de Zeus na relação com o pequeno filho de Dânae; ou outros casos. As mulheres amadas por um breve momento, às vezes somente para educar um filho que não é seu, têm palavras duras para “os deuses que se fazem chamar de pais e, depois, ficam apenas olhando tais desventuras”, como disse um personagem de Sófocles. E se algumas vezes os deuses intervêm,  o fazem de modo desajeitado e tardio. No entanto, onde os deuses são mais presentes, mais companheiros, mesmo o relacionamento educativo é mais fácil, como aquele entre Ulisses e Telêmaco sob a sombra de Atena.
Que interesse tudo isso pode ter para nós? Sabemos – vemos na experiência da escola e também o Papa nos lembra continuamente disso – que estamos vivendo uma emergência educativa. Parece importante, portanto, voltar-se para um mundo distante mas sempre próximo por causa da continuidade do coração humano. O desejo de fecundidade, a necessidade de figuras adultas de referência, pais e mestres, nos acomuna aos antigos: só que eles ainda estavam na espera da revelação do Pai.

REGOLIOSI, Giulia. In attesa del padre: storie di genitori e figli nella letteratura greca. Roma: Aracne Editrice, 2010

* Texto extraído do IlSussidiario.net, do dia 19 de novembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Cleuza, os meus alunos e aquele folheto


O encontro entre a comunidade de Bogotá e alguns amigos brasileiros. A carta de um professor fala de um fim de semana “para conhecê-los. Mas tinha muito mais...”

Marcos, Cleuza e Padre Julián de la Morena vieram encontrar a comunidade de Bogotá. Vieram para nos acompanhar durante o fim de semana, junto com Carras. No primeiro dia, nos encontramos com a diaconia, para um diálogo sobre o que nos interessava conhecer: eles. Mas, não era só isso! Também eu estava ali para conhecê-los. Mas tinha muito mais.
Vieram para a Colômbia por causa da amizade com Padre Marco e Juan Carlos, Patrizia, Iano e outros de nós, conhecidos em La Thuile e, depois, no Brasil, por ocasião da ARAL (Assembleia de Responsáveis da América Latina; ndt). Uma amizade que, depois de três dias juntos, já se alargou para tantos outros rostos.
A primeira coisa que me chamou atenção foi um gesto de Cleuza, durante o jantar, aparentemente banal. Marcos estava falando e, enquanto falava, mantinha na mão o convite que tínhamos preparado para o encontro público do dia seguinte, no Museu Nacional de Bogotá. Sem se dar conta, estava amassando o convite, e o dobrava quase sem se dar conta. Cleuza o pegou de sua mão, mas gentilmente, e o colocou diante de si na mesa e, com as mãos, começou a desdobrá-lo e desmassá-lo. Fiquei comovida: lembrei-me da intervenção de Dom Giussani, via vídeo, anos atrás, num dos Exercícios da Fraternidade, no qual, ao final, recolheu todas as folhas e os livros usados e foi embora. O mesmo gesto e a mesma gentileza, o mesmo cuidado.
E o fim de semana foi este: o drama da minha liberdade em ato, diante de todos eles. Constamente em luta entre o permanecer presa ao sentimento de mim negativo, ou olhar e pedir a caridade de poder estar, ficar ali, assim, ainda que fosse com este sentimento de mim, sem ter que eliminá-lo
E não podia agir de forma diferente: eles vivem uma memória contínua, ou seja, para eles, Cristo é o tesouro da vida. Perguntamos a Marcos: “Como você faz para ser fiel, para reconhecer Cristo em tudo aquilo que acontece?”. Ele nos disse: “Não me preocupo com isto, o que me interessa mais é ver como Ele me alcança, como Ele me procura continuamente e nunca se dá por vencido”. É, em suma, a vida real, não um discurso ou uma tensão à perfeição, a ser eu, mas que Tu sejas.
Na quinta-feira, pela manhã, vieram à escola “A. Volta”, onde eu dou aulas, e encontraram os jovens do ensino fundamental e do ensino médio. Os professores não havíamos contado muito, ou dito alguma coisa, mas os meus alunos – que estão sempre distraídos, no seu mundinho – olharam para estes três amigos que falavam com uma atenção e com um silência incrível, e fizeram perguntas inteligentes, ou seja, verdadeiras.
Cleuza começou falando para os jovens: “Quando eu tinha 15 anos, vivia num lugar muito pobre da minha cidade, éramos muito pobres e tínhamos que trabalhar para que a família pudesse comer, não pudemos estudar. Eu era muito ligada à paróquia, porque queria fazer algo, fazer o possível para que os homens fossem felizes. Desejava isso, desde sempre eu desejei isso. Quando se tem 15 anos, se tem grandes ideais, como vocês, certamente...”. E tudo aquilo que fizeram foi marcado pelo desejo profundo do coração, até chegar a ver que é Cristo que chega ali, na raiz do desejo.
Eles dizem coisas que não são palavras, são aquilo que veem e vivem. Sempre. É possível esta memória contínua? Parece o Paraíso, ou a Sua presença sempre, desvelada definitivamente.
Chiara
Bogotá

* Texto extraído de Tracce.it, do dia 17 de novembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

21 de novembro: Oração pelos cristãos no Iraque

Comunhão e Libertação adere ao apelo dos Bispos italianos para rezar, no domingo, 21 de novembro, pelos cristãos do Iraque, “que sofrem a difícil provação do testemunho cruento da fé” (Comunicado final da Assembleia da Conferência Episcopal Italiana, 11 de novembro de 2010).

O Movimento Comunhão e Libertação convida a todos os seus membros a participar das missas segundo as intenções de Bento XVI, que, no dia seguinte ao gravíssimo atentado na catedral sírio-católica de Bagdá, que causou dezenas de mortos e feridos, disse: “Rezo pelas vítimas desta absurda violência, que é ainda mais cruel na medida em que atingiu pessoas indefesas, recolhidas na casa de Deus, que é casa de amor e de reconciliação. Exprimo, além do mais, a minha afetuosa proximidade à comunidade cristã, novamente atingida, e encorajo a todos pastores e fiéis a serem fortes e firmes na esperança. Diante dos brutais episódios de violência que vêm mutilando as populações do Oriente Médio, gostaria finalmente de renovar o meu sincero apelo pela paz, que é dom de Deus, mas também é o resultado dos esforços dos homens de boa vontade, das instituições nacionais e internacionais. Que todos unem suas forças para que tenha fim toda violência!” (Angelus, 1º de novembro de 2010).
Dirigindo-se a todos os membros de Comunhão e Libertação, Padre Julián Carrón disse que “a participação nas missas dominicais segundo as intenções do Papa e dos Bispos é um gesto de comunhão real e de caridade, para que sintamos como nossos amigos os cristãos do Iraque, ainda que não os conheçamos diretamente”.
Como disse Dom Giussani, “se o sacrifício é aceitar as circunstâncias da vida, da forma como acontecem – porque nos tornam correspondentes, participantes da morte de Cristo – então o sacrifício se torna o ponto-chae de toda a vida [...], mas é também o ponto-chave para entender toda a história do homem. Toda a história do homem depende daquele homem morto na cruz, e eu posso influir sobre a história do homem (posso influir sobre as pessoas que vivem no Japão, agora; sobre as pessoas que estão em perigo no mar, agora; posso intervir para ajudar a dor das mulheres que perdem os filhos, agora, neste momento) se aceito o sacrifício que este momento me impõe” (GIUSSANI, L. É possível viver assim? São Paulo: Companhia Ilimitada, 2008, p. 324). 
Por esta razão, Carrón acrescentou, “se um gesto de oração pode influir sobre a mudança das pessoas no Japão, pode mudar algo também no Iraque. O sacrifício que fazemos pelos cristãos iraquianos e a oração desse domingo sejam um gesto com o qual invocamos, imploramos a Deus a proteção para eles”.

Comunhão e Libertação
Milão, 18 de novembro de 2010

Cartas do P.e Aldo 168





Asunción, 17 de novembro de 2010.

Caros amigos,
olhem para as minhas crianças no dia da sua Primeira Comunhão, no domingo dia 7 de novembro. São belas, muito belas, agora que, finalmente, Jesus entrou em seus corações, se tornando uma única realidade com Jesus.
A semente da graça batismal está se tornando uma árvore.
A história delas é conhecida de vocês. A violência marcou a sua concepção, o seu nascimento... os abusos sexuais. Traumas terríveis, suficientes para destruir uma vida. No entanto, o encontro conosco, o encontro com rostos definidos pelo “eu sou Tu que me fazes”, pela certeza de “amei-te com amor eterno, tendo piedade do teu nada”, não apenas lhe deu a vida outra vez, a alegria de viver, como também lhes deu a liberdade de perdoar aqueles que os colocaram no mundo e abusaram deles.
“Padre, não queremos ver e nem mesmo voltar para casa onde sofremos tanto; perdoamos nossa ‘mãe’ e o concubino que nos fez tanto mal”. Amigos, no dia em que me disseram esta frase, senti toda a potência daquilo que Carrón continuamente nos repete: “O homem não é e nunca será fruto do seus antecedente, por mais feios que sejam, porque ele é relação com o Mistério”. Porém, esta certeza, na qual consiste toda a proposta educativa de Giussani, pode chegar até a nós, aos meus filhos, somente na medida em que é a consistituição consciente do meu eu, somente na medida em que a minha familiaridade com Cristo é vibrante em mim, somente na medida em que acolho, a cada instante, aquilo que Giussani chama o “monstro” do sacrifício como condição para que a minha liberdade coincida com o “Tu, meu Cristo”. Como vocês podem ver, não se trata de medicar as feridas, por mais horríveis que sejam, mas se trata de permitir que Cristo tome posse do próprio eu. A batalha é dura, como diz a Escola de Comunidade sobre o sacrifício, mas o êxito é uma plenitude de vida, aquela plenitude que vocês podem ver no rosto das minhas crianças.
Amigos, tudo é importante e bom. Mas, sem Cristo, tudo é inútil, todo esforço é destinado a falhar!
Somente “eu sou Tu que me fazes” como consciência comovida de si sara a totalidade do humano. Deus e Nossa Senhora nos deem a alegria de vibrar ao pronunciar esta certeza, pelo menos da mesma forma como vibramos por causa de um amor repentino que esperamos chegar, da mesma forma que São Paulo, quando diz: “para mim, viver é Cristo”.
Ciao,
Padre Aldo

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Lc 19,11-28
Naquele tempo, Jesus acrescentou uma parábola, porque estava perto de Jerusalém e eles pensavam que o Reino de Deus ia chegar logo. Então Jesus disse: "Um homem nobre partiu para um país distante, a fim de ser coroado rei e depois voltar. Chamou então dez dos seus empregados, entregou cem moedas de prata a cada um, e disse: 'Procurai negociar até que eu volte'. Seus concidadãos, porém, o odiavam, e enviaram uma embaixada atrás dele, dizendo: 'Nós não queremos que esse homem reine sobre nós'. Mas o homem foi coroado rei e voltou. Mandou chamar os empregados, aos quais havia dado o dinheiro, a fim de saber quanto cada um havia lucrado. O primeiro chegou e disse: 'Senhor, as cem moedas renderam dez vezes mais'. O homem disse: 'Muito bem, servo bom. Como foste fiel em coisas pequenas, recebe o governo de dez cidades'. O segundo chegou e disse: 'Senhor, as cem moedas renderam cinco vezes mais'. O homem disse também a este: 'Recebe tu também o governo de cinco cidades'. Chegou o outro empregado e disse: 'Senhor, aqui estão as tuas cem moedas que guardei num lenço, pois eu tinha medo de ti, porque és um homem severo. Recebes o que não deste e colhes o que não semeaste'. O homem disse: 'Servo mau, eu te julgo pela tua própria boca. Tu sabias que eu sou um homem severo, que recebo o que não dei e colho o que não semeei. Então, porque tu não depositaste meu dinheiro no banco? Ao chegar, eu o retiraria com juros'. Depois disse aos que estavam aí presentes: 'Tirai dele as cem moedas e dai-as àquele que tem mil'. Os presentes disseram: 'Senhor, esse já tem mil moedas!'. Ele respondeu: 'Eu vos digo: a todo aquele que já possui, será dado mais ainda; mas àquele que nada tem, será tirado até mesmo o que tem. E quanto a esses inimigos, que não queriam que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha frente'". Jesus caminhava à frente dos discípulos, subindo para Jerusalém. 

Comentário feito por Orígenes (c. 185-253)
presbítero e teólogo 

Tem o homem alguma coisa para oferecer a Deus? Tem, sim: a sua fé e o seu amor. É isto o que Deus pede ao homem, e assim está escrito: "E agora, Israel, o que o Senhor, teu Deus, exige de ti é que temas o Senhor, teu Deus, para seguires todos os Seus caminhos, para O amares, para servires o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma". (Dt 10,12). Eis os presentes, os dons que devemos oferecer ao Senhor. E para Lhe oferecermos estes dons com o coração, temos primeiro de O conhecer; temos de ter bebido o conhecimento da Sua bondade nas águas profundas do seu poço. [...] Corarão, ao ouvirem estas palavras, os que negam que a salvação do homem está no poder da sua liberdade! Pediria Deus o que quer que fosse ao homem, se este não fosse capaz de responder ao pedido de Deus e de Lhe oferecer o que Lhe deve? Porque há o dom de Deus mas há também a contribuição do homem. Por exemplo, está no poder do homem fazer que uma moeda de ouro renda outras dez ou só cinco; mas pertence a Deus que o homem possua essa moeda de ouro com que pôde produzir outras dez. Quando apresentou a Deus essas dez moedas de ouro ganhas por si, o homem recebeu um novo dom, já não em dinheiro, mas o poder e a realeza sobre dez cidades. Da mesma maneira, pediu Deus a Abraão que Lhe oferecesse o seu filho Isaac, num dos montes que haveria de lhe indicar. E Abraão, sem hesitar, ofereceu  o seu filho único: pô-lo sobre o altar e pegou no cutelo para o degolar; mas logo uma voz o reteve e foi-lhe dado um carneiro para imolar em substituição do seu filho (Gn 22). Vê bem: o que oferecemos a Deus mantém-se nosso; mas essa oferenda é-nos pedida para que, ao oferecê-la, testemunhemos o nosso amor a Deus e a fé que nEle temos. 

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Leopardi: alma inquieta prisioneira de um desejo impossível


Entrevista com Pietro Citati

Pietro Citati fala com IlSussidiario sobre o seu livro Leopardi (A obra Leopardi, de Pietro Citati, foi lançada recentemente pela editora Mondadori, pelo preço de € 22,00; ndt). No silêncio da sua casa, em Roma, sentado no seu escritório, o crítico responde pacientemente a algumas das tantas possíveis perguntas que a sua última obra é capaz de suscitar. Acontece, assim, a possibilidade de redescobrir, sob nova luz, aquilo que se acreditava já saber sobre um dos maiores poetas que já houve, que Citati, seguindo Nietzsche, coloca ao lado de Pindaro e Hölderlin. O universo leopardiano é difícil de decifrar: “cheio de centros, porque, em Leopardi, não há um único centro”. É assim que Citati nos restitui um Leopardi visto através de sua vida: como se o único modo para adentrar o seu mundo fosse repercorrendo sua complicada, fascinante e controversa existência.

O senhor afirma, citando Pietro Giordani, que Leopardi dá “medo”. Por quê?
Dá medo por causa de sua grandeza. Nietzsche dizia que, na história do mundo, existem três grandes poetas líricos: Pindaro, Hölderlin e Leopardi. Dá medo por causa de sua multiplicidade: nunca se sabe qual é o seu eu. Há tantos. Para se aproximar de Leopardi, é preciso compreender esta pluralidade de “eus” em relação uns com os outros. E dá medo por causa da sua beleza: para mim, não chegamos ainda a compreender plenamente qual é a beleza de muitas líricas dos Canti (Cantos; ndt) e de muitas das Operette morali (Operetas Morais; ndt).

Por que a lua, como o senhor observa no seu livro, não responde a Leopardi?
Não sabemos o motivo, podemos apenas dizer que a lua não responde. A lua é a encarnação das ilusões, tema essencial da poesia de Leopardi. É a figura que ele mais ama. O pastor se pergunta – ou pergunta em nome de Leopardi – qual é a verdade sobre as coisas, mas a resposta não é dada. Isto significa que nem mesmo Leopardi dá uma resposta às nossas perguntas.

O senhor define Leopardi como “um materialista que odei a matéria”. Pode explicar melhor este juízo?
A partir de 1823, todo o Zibaldone reconduz cada aspecto da realidade, da vida e da psicologia humana, à matéria. O materialismo do século XVIII é uma exaltação da matéria. Também ele remete tudo à matéria, mas a odeia. Tudo o que é, ele diz num certo ponto, de modo eloqüente, é mal. As coisas boas são apenas as coisas que não são. Se todo o universo é matéria, contra a matéria Leopardi exalta a irrealidade: as quimeras, as hipóteses.

Se Leopardi “detesta a realidade”, como o senhor disse também numa entrevista sobre seu último trabalho dada ao jornal La Repubblica, quer dizer que nele prevalece mais o niilismo ou a ênfase no desejo humano insatisfeito e necessitado de infinito?
Não há niilismo em Leopardi. Há muito desejo de infinito, mas este desejo é reconhecido como impossível: o homem não pode alcançar o infinito. Já na poesia O Infinito há uma derrota, porque Leopardi cria na mente espaços intermináveis, mas depois nasce o medo, e dele o retorno ao mundo real, ao sopro do vento, e assim por diante. Aquilo que há de mais sólido em Leopardi, de mais positivo, não é o infinito, mas o indefinido.

Entre os autores que mais influenciaram Leopardi o senhor enumera Epícteto e Rousseau. Em que medida?
Epícteto explica não todo Leopardi, mas um momento preciso de seu pensamento: o da renúncia, da discrição, da abolição total da mente do pensamento sobre o infinito. Quanto a Rousseau, é muito mais complicado, porque nunca saberemos exatamente o que Leopardi leu dele. Mas, tanto Giacomo quanto o seu irmão Carlo citam um trecho da Nouvelle Héloïse, que exalta as quimeras contra as coisas que existem. Portanto, o quimérico em Leopardi tem um fundamento em Rousseau, mas há uma diferença profunda, porque em Rousseau o infinito é uma dilatação em direção ao externo, em direção ao céu, enquanto que em Leopardi ele nasce quando algo impede o olhar. Para criar o infinito, na única poesia em que ele o cria, Leopardi precisa fechar-se, limitar-se, valer-se da “sebe que de tanta parte / Do último horizonte, o olhar exclui”. Somente através da limitação é que se chega ao ilimitado.

O dileto é um topos em Leopardi. É muito diferente da forma como nós o entendemos?
Não diria. Para Leopardi, o dileto é o prazer, mesmo que seja um prazer cotidiano e limitado. A alegria que nos dá a poesia, em primeiro lugar: uma alegria limitada e, ao mesmo tempo, suprema. 

Na escola, se estuda que não houve sintonia entre Leopardi e Manzoni, mas o senhor pensa diferente. Por quê?
Há alguns trechos nas cartas de Leopardi que falam de Manzoni. Primeiro, alguém lhe diz que Os Noivos é um texto feio, e ele registra esse parecer como se fosse seu. Depois, no Gabinete Viesseux (Gabinetto Scientifico Letterario G. P. Viesseux, foi fundado por Giovan Pietro Viesseux e era um ponto de encontro importante, na Itália, onde se reuniam representantes da cultura italiana e europeia; ndt), encontra Manzoni. Então, Leopardi não havia lido ainda Os Noivos, mas mostra grande simpatia por Manzoni. Numa carta, alguns meses mais tarde, escreve que Os Noivos é uma obra muito bonita, mas que contém “defeitos”. Não sabemos quais eram os defeitos daquela obras, segundo Leopardi.

Giulio Augusto Levi coloca “Alla sua donna” no centro da produção leopardiana. O que o senhor pensa sobre isso?
É uma poesia extraordinária, mas eu não diria que seja o centro, mesmo porque a poesia de Leopardi não tem um, mas muitos centros. Um é O Infinito, outro é Alla sua donna, outro é O ressurgimento, outro é A Sílvia, outro As recordações, outro O pensamento dominante, outro ainda Il tramonto della luna. A sua visão do mundo muda de “centro” continuamente.

Há 150 anos a Itália foi unificada. Há um sentimento italiano em Leopardi?
Nele, não há sentimento político de unidade da Itália, mas há um grandíssimo amor pela cultura, pela literatura, pela língua italiana, que ele adora como algo absolutamente superior. Múltipla, móvel, flexível é, para ele, a língua ideal. As duas línguas que ele amava mais eram o grego e o italiano, mas, no fundo, ele amava mais o italiano que o grego.

E ele tinha razão ao identificar no italiano o fator de maior ligação e individualidade do nosso povo?
Acredito que sim, mesmo que isso não tenha muita importância. A língua italiana é maravilhosa, é uma língua que vive, morre, renasce e nós ainda hoje não a entendemos até ao fundo. Na realidade, o único autor de nossa literatura que conseguiu compreender de verdade a nossa língua foi o próprio Leopardi. E a sua interpretação da nossa língua nos está escapando. Estamos esquecendo essa interpretação.

Num artigo seu em La Repubblica, falando de outro assunto, o senhor cita Leopardi. Como é possível manter vivo, na decadência de hoje, “o primeiro homem” de Leopardi, a nossa “alma infantil”, capaz de maravilhamento?
É a mesma coisa que Göethe chama de “natureza original”. Ela pode ser mantida viva apenas com a força da nossa inteligência e das nossas sensações... É, seja como for, um trabalho muito difícil. Felizmente, a beleza pode ajudar nessa busca contínua.

* Texto extraído do IlSussidiario.net, do dia 16 de novembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Massacre de cristãos no Iraque


Missa, no último domingo, pelos mortos no massacre


Por Alessandra Stoppa

Entrevista com Padre Robert Jarjis, amigo dos padres assassinados em Bagdá. Enquanto que, uma semana depois dos ataques da Al-Qaeda, dois outros fiéis foram mortos. “É um holocausto que ninguém quer olhar”.
Padre Thaer Abdal era o seu companheiro de banco no seminário, o seu amigo. Pouco mais de uma semana atrás, foi morto enquanto rezava a missa. Tinha trinta e dois anos. “Estava celebrando a Eucaristia. O seu sangue se misturou com o de Cristo no altar”, disse Padre Robert Jarjis. Depois da ordenação sacerdotal, ele prosseguiu os estudos em Roma, enquanto Thaer permaneceu em Bagdá. Soube da sua morte pelo telefone, antes que as agências de notícia propagassem pelo mundo o massacre da Al-Qaeda na igreja sírio-católica de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Depois, a notícia chegou. Falou-se disso por alguns dias, nas primeiras páginas dos jornais. “Mas, já se havia feito silêncio. Este é um holocausto que ninguém quer olhar”.

Padre Thaer tinha medo de viver e de servir a Igreja em Bagdá?
Nos últimos meses, parecia tranquilo. Chegou a me dizer: “Finalmente, Robert, aqui se pode respirar. Talvez, algo esteja mundando”. Depois, de repente, acontece isso. Um ataque cruel, parece uma nova fase de perseguição.

Por quê?
É o primeiro caso desse gênero, não tem precedentes. As igrejas sempre foram atacadas, mas do lado de fora. Estes homens, pelo contrário, entraram, durante a missa. Mataram as pessoas cara a cara. Mesmo as mulheres e as crianças (nove crianças, entre as quais um de três anos e duas de poucos meses; ndr). Para um homem islâmico é uma desonra inconcebível. Porém, eles não fizeram distinção. Como se estivessem movidos por uma vontade de extermínio. Mesmo quem ficou ferido, nesses dias, está morrendo.

Os dois sacerdotes, Padre Thaer Abdal e Padre Sabih Waseem, foram os primeiros a serem mortos.
Os terroristas fecharam as portas. Thaer fez as pessoa subirem para o altar, para levá-las à sacristia, onde poderiam se refugiar, e as fechou ali dentro. Pediu àqueles homens que deixassem em paz os fiéis e que pegassem apenas ele. Eles o encheram de balas. Padre Waseem estava no confessionário, correu para fora e lhes suplicou a rezarem juntos pela paz no Iraque, cada um a seu modo e cada um a seu Deus, deixando os inocentes fora. Eles o levaram para o altar e o mataram. Tinha vinte e seis anos. Na igreja, estava também o irmão de Thaer, que morreu também. E também estava a sua mãe, que viu e viveu tudo.

E as pessoas que estavam na sacristia?
Alguns se salvaram, outros foram atingidos pelos tiros de metralhadora disparados contra a porta. Uma mãe salvou seu filho de cinco meses fechando-o numa gaveta. Outra mulher, grávida, foi pega por um terrorista que se explodiu junto com ela. Sem piedade, não apenas pelos vivos, mas também por quem devia ainda nascer.

E a intervenção da polícia?
Parece que não houve nenhuma negociação com o comando dos extremistas. E os militares não intervieram, exceto quando muitos já estavam mortos. O governo, agora, está tentando apenas salvar a si mesmo. 

O senhor, daqui a alguns dias, voltará para o Iraque?
Muito provavelmente sim. Vou para onde me quer a Igreja. Para mim, a minha vida não conta, a minha vida é a Igreja e eu quero razer todo o possível pelo meu povo.

Não tem medo?
Sou um ser humano. Talvez, também eu seja morto e eu tenho medo disso. Mas, Cristo sempre estará ao meu lado. E se eu morrer, outros homens continuarão a minha tarefa. Agora, há apenas a dor pelas pessoas que morreram. Naquele domingo, o sangue de Cristo se tornou o sangue deles. E isso ninguém diz. Aquele diz deve ser lembrado para sempre. Em todas as igrejas do Iraque, no domingo passado, celebrou-se uma missa pelas vítimas e as pessoas foram. Graças a Deus, nada aconteceu. Mas, o silêncio do mundo já é contra nós: parece que fomos abandonados ao nosso destino. Porque não se fala mais nada, e se fica esperando o próximo massacre. Que o Senhor tenha piedade de todos nós.

* Extraído de Tracce.it, do dia 9 de novembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sábado, 13 de novembro de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Lc 18,1-8
Naquele tempo, Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir, dizendo: "Numa cidade havia um juiz que não temia a Deus, e não respeitava homem algum. Na mesma cidade havia uma viúva, que vinha à procura do juiz, pedindo: 'Faze-me justiça contra o meu adversário!'. Durante muito tempo, o juiz se recusou. Por fim, ele pensou: 'Eu não temo a Deus, e não respeito homem algum. Mas esta viúva já me está aborrecendo. Vou fazer-lhe justiça, para que ela não venha a agredir-me!'". E o Senhor acrescentou: "Escutai o que diz este juiz injusto. E Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar? Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa. Mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?".

Comentário feito por Santo Agostinho (354-430)
Bispo de Hipona (Norte de África) e Doutor da Igreja

Haverá método mais eficaz para nos encorajar à oração do que a parábola do juiz iníquo que o Senhor nos contou? Evidentemente, o juiz iníquo nem temia a Deus nem respeitava os homens. Não experimentava qualquer benevolência pela viúva que a ele recorria e, no entanto, vencido pelo aborrecimento, acabou por a escutar. Se, portanto, ele atendeu esta mulher que o importunava com as suas súplicas, como não seremos nós atendidos por Aquele que nos encoraja a apresentar-Lhe as nossas? Foi por isso que o Senhor nos propôs esta comparação, conseguida por contraste, para nos dar a perceber que é preciso "orar sempre, sem desfalecer". E depois acrescentou: "Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?". Se a fé desaparecer, a oração extingue-se. Com efeito, quem poderia rezar para pedir aquilo em que não crê? Eis pois o que o Apóstolo Paulo diz, exortando-nos à oração: "Todo o que invocar o nome do Senhor será salvo". Depois, para mostrar que a fé é a fonte da oração e que o ribeiro não pode correr se a fonte estiver seca, acrescenta: "Ora, como hão-de invocar Aquele em Quem não acreditaram?" (Rom 10,13-14). Acreditemos, pois, para podermos orar e oremos para que a fé, que é o princípio da nossa oração, nunca nos venha a faltar. A fé expande a oração e a oração, ao expandir-se, obtém por seu turno o fortalecimento da fé. 

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Lc 17,11-19
Aconteceu que, caminhando para Jerusalém, Jesus passava entre a Samaria e a Galiléia. Quando estava para entrar num povoado, dez leprosos vieram ao seu encontro. Pararam à distância, e gritaram: "Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!". Ao vê-los, Jesus disse: "Ide apresentar-vos aos sacerdotes". Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. Então Jesus lhe perguntou: "Não foram dez os curados? E os outro nove, onde estão? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?". E disse-lhe: "Levanta-te e vai! Tua fé te salvou".

Comentário feito por São Francisco de Assis (1182-1226)
fundador dos  Frades Menores 

Todo-poderoso, santíssimo, altíssimo e soberano Deus, Pai santo e justo, Senhor, Rei do céu e da terra, por Ti a Ti damos graças, pois que, por Tua santa vontade, e por Teu Filho unigênito, com o Espírito Santo, criaste todas as coisas espirituais e corporais. À Tua imagem e semelhança nos fizeste, o paraíso por morada nos deste, donde, por nossa culpa, caímos. 
A Ti damos graças pois que, como por Teu Filho nos criaste, assim também, pelo santo amor com que nos amaste, fizeste que Teu Filho, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nascesse da gloriosa Virgem Santa Maria, e, pela Sua cruz, Seu sangue e Sua morte, quiseste resgatar-nos a nós, os cativos. 
E a Ti damos graças porque esse mesmo Teu Filho de novo há de vir na glória da Sua majestade para lançar ao fogo eterno os malditos que recusaram converter-se e conhecer-Te e para dizer a todos quantos Te conheceram, Te adoraram e Te serviram em penitência: "Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo" (Mt 25, 34). 
E porque somos, nós todos, indigentes e pecadores, dignos não somos de pronunciar o Teu nome; aceita pois, Te suplicamos, que Nosso Senhor Jesus Cristo, Teu Filho muito amado, em Quem puseste todo o Teu agrado, com o Santo Espírito Paráclito Te dê graças por tudo, como a Ti e a Ele agradar, Ele, que é Quem sempre em tudo Te basta, Ele, por Quem tanto fizeste por nós. Aleluia! 

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Dedicação da Basílica do Latrão

Evangelho - Jo 2,13-22
Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados. Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. E disse aos que vendiam pombas: "Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!". Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: "O zelo por tua casa me consumirá". Então os judeus perguntaram a Jesus: "Que sinal nos mostras para agir assim?". Ele respondeu: "Destruí, este Templo, e em três dias o levantarei". Os judeus disseram: "Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?". Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo. Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra dele.

Comentário feito por Bem-aventurado John Henry Newman (1801-1890)
presbítero, fundador de comunidade religiosa, teólogo 

Uma catedral é fruto de um desejo momentâneo ou é algo que se pode realizar  pela vontade? [...] Com toda a certeza, as igrejas que herdamos não resultam apenas da gestão de capitais, nem são uma pura criação do gênio; são fruto do martírio, de grandes feitos e de sofrimentos. As suas fundações são muito profundas; elas assentam sobre a pregação dos apóstolos, sobre a confissão da fé dos santos, e sobre as primeiras conquistas do Evangelho no nosso país. Tudo o que é nobre na sua arquitetura, que cativa os olhos e chega ao coração, não é um puro resultado da imaginação dos homens, é um dom de Deus, é uma obra espiritual. A cruz assenta sempre no risco e no sofrimento, é sempre regada com lágrimas e sangue. Em parte alguma cria raízes e dá fruto se a pregação não for acompanhada de renúncia. Os detentores do poder podem fazer um decreto, favorecer uma religião, mas não a podem estabelecer, podem apenas impô-la. Só a Igreja pode estabelecer a Igreja. Só os santos, os homens mortificados, os pregadores da rectidão, os confessores da verdade, podem criar uma verdadeira casa para a verdade. É por isso que os templos de Deus são também os monumentos dos Seus santos. [...] A sua simplicidade, a sua grandeza, a sua solidez, a sua graça e a sua beleza não fazem senão recordar a paciência e a pureza, a coragem e a doçura, a caridade e a fé daqueles que não adoraram a Deus apenas nas montanhas e nos desertos; eles sofreram, mas não em vão, porque outros herdaram os frutos do seu sofrimento (cf. Jo 4, 38). Efetivamente, a longo prazo, a sua palavra deu fruto; fez-se Igreja, esta catedral onde a Palavra vive desde há muito tempo. [...] Felizes os que entram nesta relação de comunhão com os santos do passado e com a Igreja universal. [...] Felizes os que, entrando nesta igreja, penetram de coração no céu. 

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A beleza é a grande necessidade do homem...



Viagem Apostólica a Santiago de Compostela e a Barcelona
(6 e 7 de novembro de 2010)

Santa Missa com Dedicação
Da Igreja da Sagrada Família e do Altar

Homilia do Santo Padre Bento XVI

Barcelona, 7 de novembro de 2010

Amados irmãos e irmãs no Senhor
“Este dia é consagrado ao Senhor vosso Deus, então não vos lamenteis, nem choreis... a alegria do Senhor é a vossa força” (Ne 8, 9-10). Com estas palavras da primeira leitura que proclamamos desejo saudar todos vós que estais aqui presentes para participara desta celebração. Saúdo afetuosamente às Suas Majestades o Rei e a Rainha da Espanha, que quiseram, muito cordialmente, unir-se a nós. A minha grata saudação ao Senhor Cardeal Lluís Martínez Sistach, Arcebispo de Barcelona, pelas palavras de boas-vindas e pelo convite que dirigiu a mim para a dedicação desta igreja da Sagrada Família, maravilhosa síntese de técnica, arte e fé. Saúdo também o Cardeal Ricardo María Carles Gordó, Arcebispo emérito de Barcelona, os outros Senhores Cardeais e Irmãos no Episcopado, especialmente o Bispo auxiliar desta Igreja particular, bem como os numerosos sacerdotes, diáconos, seminaristas, religiosos e fiéis que participam desta solene celebração. Ao mesmo tempo, saúdo deferentemente as Autoridades Nacionais, Regionais e Locais, assim como os membros de outras comunidades cristãos, que se unem à nossa alegria e louvor grato a Deus.
Este dia é um ponto significativa de uma longa história de aspirações, de trabalho e de generosidade, que dura há mais de um século. Nestes momentos, gostaria de recordar algumas das pessoas que tornaram possível a alegria que hoje nós invade a todos: dos promotores até aos executores desta obra; dos arquitetos e pedreiros a todos aqueles que ofereceram, de um modo ou de outro, a sua insubstituível contribuição para tornar possível a progressiva construção deste edifício. E lembremo-nos, sobretudo, daquele que foi a alma e o artífice deste projeto: Antoni Gaudì, arquiteto genial e cristão coerente, cuja chama da fé ardeu até o fim de sua vida, vivida com dignidade e austeridade absoluta. Este evento é também, de algum modo, o ponto culminante e a desembocadura de uma história desta terra catalã que, sobretudo a partir do final do século XIX, ofereceu ao mundo uma multidão de santos e de fundadores, de mártires e de poetas cristãos. História de santidade, de criações artísticas e poéticas, nascidas da fé, que hoje acolhemos e apresentamos como oferta a Deus nesta Eucaristia.
A alegria que experimento no poder presidir esta celebração cresceu quando soube que este edifício sagrado, desde suas origens, é extremamente ligado à figura de São José. Comoveu-me, especialmente, a segurança com a qual Gaudì, diante das inúmeras dificuldades que teve que enfrentar, exclamava cheio de confiança na divinia Providência: “São José completará o templo”. Por isso, agora, não é sem significado o fato de que seja um Papa cujo nome de batismo é José a dedicá-lo.
O que significa dedicar esta igreja? No coração do mundo, diante do olhar de Deus e dos homens, num humilde e alegre ato de fé, erguemos uma imensa quantidade de matéria, fruto da natureza e de um incalculável esforço da inteligência humana, construtora desta obra de arte. Ela é um sinal visível do Deus invisível, cuja glória é celebrada pela elevação das torres, e pelas flechas que indicam o absoluto da luz e dAquele que é a Luz, a Altura e a Beleza mesmas.
Neste ambiente, Gaudì quis unir a inspiração que lhe vinha dos três grandes livros dos quais se nutria como homem, como crente e como arquiteto: o livro da natureza, o livro da Sagrada Escritura e o livro da Liturgia. Assim, uniu a realidade do mundo e a história da salvação, como nos é narrada na Bíblia e torna presente na Liturgia. Introduziu dentro do edifício sagrado pedras, árvores e vida humana, para que toda a criação convergisse no louvor divino, mas, ao mesmo tempo, levou para fora os “retábulos”, para colocar diante dos homens o mistério de Deus revelado no nascimento, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Deste modo, colaborou de maneira genial para a edificação de uma consciência humana ancorada no mundo, aberta a Deus, iluminada e santificada por Cristo. E realizou aquilo que, hoje, é uma das tarefas mais importantes: superar a cisão entre consciência humana e consciência cristã, entre existência neste mundo temporal e abertura à vida eterna, entre a beleza das coisas e Deus como Beleza. Antoni Gaudì não realizou tudo isto com palavras, mas com pedras, linhas, superfícies e vértices. Na realidade, a beleza é a grande necessidade do homem; é a raiz da qual surgem o tronco da nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convida à liberdade e arranca do egoísmo.
Dedicamos este espaço sagrado a Deus, que se revelou e se deu a nós em Cristo, para ser definitivamente Deus como os homens. A Palavra revelada, a humanidade de Cristo e a sua Igreja são as três expressões máximas da sua manifestação e do seu dom aos homens. “Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (ICor 3, 10-11), diz São Paulo na segunda leitura. O Senhor Jesus é a pedra que sustenta o peso do mundo, que mantém a coesão da Igreja e que mantém numa unidade última todas as conquistas da humanidade. NEle temos a Palavra e a Presença de Deus, e dEle a Igreja recebe a própria vida, a própria doutrina e a própria missão. A Igreja não tem consistência por si mesma; é chamada a ser sinal e instrumento de Cristo, em pura docilidade à sua autoridade e em total serviço ao seu mandato. O único Cristo funda a única Igreja; Ele é a rocha sobre a qual se funda a nossa fé. Fundados nesta fé, buscamos juntos mostrar ao mundo o rosto de Deus, que é amor e é o único que pode responder ao desejo de plenitude do homem. Esta é a grande tarefa, mostrar a todos que Deus é Deus de paz e não de violência, de liberdade e não de opressão, de concórdia  e não de discórdia. Neste sentido, creio que a dedicação desta igreja da Sagrada Família, numa época na qual o homem pretende edificar a sua vida por trás de Deus, como senão tivesse mais nada a dizer-lhe, é um acontecimento de grande significado. Gaudì, com a sua obra, nos mostra que Deus é a verdadeira medida do homem, que o segredo da verdadeira originalidade consiste, como ele dizia, no voltar à origem que é Deus. Ele mesmo, abrindo deste modo o seu espírito a Deus, foi capaz de criar nesta cidade um espaço de beleza, de fé e de esperança, que conduz o homem ao encontro com Aquele que é a verdade e a beleza mesma. Assim, o arquiteto expressava  os seus sentimentos: “Uma igreja [é] a única coisa digna de representar o sentir de um povo, visto que a religião é a coisa mais elevada no homem”.
Esta afirmação de Deus traz consigo a suprema afirmação e tutela da dignidade de cada homem e de todos os homens: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus (...)? O templo de Deus, que sois vós, é santo” (ICor 3, 16-17). Eis aqui unidas a verdade e a dignidade de Deus com a verdade e a dignidade do homem. Ao consagrar o altar desta igreja, tendo presente que Cristo é o seu fundamento, apresentamos ao mundo Deus que é amigo dos homens, e convidamos os homens a ser amigos de Deus. Como ensina o episódio de Zaqueu, de que fala o Evangelho de hoje (Lc 19, 1-10), se o homem deixa Deus entrar na sua vida e no seu mundo, se deixa que Cristo viva no seu coração, no se arrependerá, mas, pelo contrário, experimentará a alegria de compartilhar a sua mesma vida, sendo destinatário do seu amor infinito.
A iniciativa da construção desta igreja se deve à Associação dos Amigos e São José, que quis dedicá-la à Sagrada Família de Nazaré. Desde sempre, o núcleo familiar formado por Jesus, Maria e José é considerado uma escola de amor, oração e trabalho. Os patrocinadores desta igreja queriam mostrar ao mundo o amor, o trabalho e o serviço vividos diante de Deus, assim como foram vividos pela Sagrada Família de Narazé. As condições de vida mudaram profundamente e, com elas, progrediu-se enormemente nos âmbitos técnicos, sociais e culturais. Não podemos nos contentar com estes progressos. Com eles, devem estar sempre presentes os progressos morais, como a atenção, a proteção e a ajuda à família, já que o amor generoso e indissolúvel entre um homem e uma mulher é o quadro eficaz e o fundamento da vida humana na sua gestação, no seu nascimento, no seu crescimento e no seu término natural. Somente onde existem o amor e a fidelidade nasce e perdura a verdadeira liberdade. Por isso, a Igreja invoca medidas econômicas  e sociais adequadas para que a mulher possa encontrar a sua plena realização em casa e no trabalho, para que o homem e a mulher que se unem em matrimônio e formam uma família sejam sustentados definitivamente pelo Estado, para que se defenda como sagrada e inviolável a vida dos filhos desde o momento de sua concepção, para que a natalidade seja estimada, valorizada e sustentada no plano jurídico, social e legislativo. Por isso, a Igreja se opõe a qualquer forma de negação da vida humana e sustenta aquilo que promove a ordem natural no âmbito da instituição familiar.
Contemplando, admirado, este ambiente santo de beleza encantadora, com tanta história de fé, peço a Deus que, nesta terra catalã, se multipliquem e se consolidem novos testemunhos de santidade, que ofereçam ao mundo o grande serviço que a Igreja pode e deve prestar à humanidade: ser ícone da beleza divina, chama ardente de caridade, canal para  que o mundo creia nAquele que Deus enviou (Jo 6, 29).
Caros irmãos, ao dedicar esta esplêndida igreja, suplico, ao mesmo tempo, ao Senhor de nossas vidas que, deste altar – que será, agora, ungido com óleo santo e sobre o qual se consumará o sacrifício de amor de Cristo –, faça correr um rio contínuo de graça e de caridade sobre esta cidade de Barcelona e sobre seus habitantes, e sobre o mundo inteiro. Que essas águas fecundas encham de fé e de vitalidade apostólica esta Igreja arquidiocesana, os seus Pastores e fiéis.
Desejo, finalmente, confiar à amorosa proteção da Mãe de Deus, Maria Santíssima, “Rosa de Abril”, “Mãe da Mercê”, todos vós aqui presentes e todos aqueles que, com palavras e obras, com o silêncio ou a oração, tornaram possível este milagre arquitetônico. Que Ela apresente ao seu divino Filho também as alegrias e os sofrimentos daqueles que virão, no futuro, a este lugar sagrado, para que, como reza a Liturgia da dedicação das igrejas, os pobres possam encontrar misericórdia, os oprimidos conseguir a verdadeira liberdade e todos os homens sejam revestidos da dignidade de filhos de Deus. Amém.

* Texto publicado no site do Vaticano, no dia 7 de novembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.