segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Carta do P.e Carrón

Milão, 31 de janeiro de 2011.

Queridos amigos,
imagino a comoção e o entusiasmo com que cada um de vocês – como sucedeu comigo – acolheu o anúncio da Beatificação de João Paulo II, fixada por Bento XVI para o próximo dia 1° de maio, festa da Divina Misericórdia. E também nós, com o Papa, exclamámos: "Estamos felizes!" (Angelus de 16 de janeiro de 2011).
Unimo-nos à alegria de toda a Igreja no agradecimento a Deus pelo bem que foi a sua pessoa, com o seu testemunho e a sua paixão missionária. Qual de nós não recebeu tanto da sua vida? Quantos reencontraram a alegria de ser cristãos, vendo a sua paixão por Cristo, o tipo de humanidade que nascia da sua fé, o seu entusiasmo contagiante! Nele reconhecemos imediatamente um homem – com um temperamento e um modo investidos pela fé – em cujos discursos e gestos se evidenciava o método escolhido por Deus para Se comunicar: um encontro humano que torna a fé fascinante e persuasiva.
Todos nós estamos bem cientes da importância do seu pontificado para a vida da Igreja e da humanidade. Num momento particularmente difícil de novo propôs diante de todos, com uma audácia que só pode ter Deus como origem, o que significa ser cristão hoje, oferecendo a todos as razões da fé e promovendo incansavelmente as sementes de renovação do corpo eclesial postas em prática pelo Concílio Vaticano II, sem ceder a nenhuma das interpretações parciais que pretendiam reduzir o seu alcance num sentido ou  em outro. O seu contributo para a paz no mundo e para a convivência entre os homens mostra a que ponto é decisiva para o bem comum uma fé integralmente vivida em todas as suas dimensões.
Sabemos como, desde o início do pontificado, eram estreitos os laços de João Paulo II, Padre Giussani e CL, fundados numa consonância do olhar de fé a toda a realidade, na paixão por Cristo “centro do cosmos e da história” (Redemptor hominis). Ele nos ofereceu um ensinamento precioso para compreender e aprofundar o nosso carisma nas diversas e múltiplas ocasiões em que falou a todos os movimentos, por ele designados como “primavera do Espírito”, na medida em que na Igreja a dimensão carismática é “coessencial” à institucional. Dirigiu-se também diretamente a nós várias vezes, até às comovedoras cartas endereçadas a Padre Giussani nos últimos anos de suas vidas, unidas também pela provação da doença.
No discurso pelo trigésimo aniversário do movimento, em 1984, disse-nos: “Jesus, o Cristo, Aquele no qual tudo é feito e consiste, é, pois, o princípio interpretativo do homem e da sua história. Afirmar humildemente, mas também com tenacidade, Cristo princípio e motivo inspirador do viver e do agir, da consciência e da ação, significa aderir a Ele, para tornar adequadamente presente a Sua vitória no mundo. Agir para que o conteúdo da fé se torne inteligência e pedagogia da vida é tarefa cotidiana do crente, que deve ser realizada em todas as situações e ambientes nos quais somos chamados a viver. Está nisto a riqueza da vossa participação na vida eclesial: um método de educação à fé, a fim de que incida na vida do homem e da história. [...] A experiência cristã compreendida e vivida desse modo gera uma presença que põe em todas as circunstâncias humanas a Igreja como lugar onde o acontecimento de Cristo [...] vive como horizonte pleno de verdade para o homem. Nós cremos em Cristo, morto e ressuscitado, em Cristo presente aqui e agora, o único que pode mudar e muda, transfigurando-os, o homem e o mundo” (Roma, 29 de setembro de 1984). São palavras de uma atualidade impressionante!
Com uma paternidade surpreendente e única, João Paulo II abraçou a nossa jovem história reconhecendo canonicamente a Fraternidade de Comunhão e Libertação, os Memores Domini, a Fraternidade Sacerdotal dos Missionários de São Carlos Borromeu, as Irmãs da Caridade da Assunção, como frutos diversos nascidos do carisma de Padre Giussani para o bem de toda a Igreja. O próprio Papa nos fez compreender a dimensão de tal gesto: “Quando um movimento é reconhecido pela Igreja, este se torna instrumento privilegiado para uma pessoal e sempre renovada adesão ao mistério de Cristo” (Castelgandolfo, 12 de setembro de 1985).
Por isso, se alguém tem uma enorme dívida de reconhecimento com João Paulo II, somos precisamente nós.
E não podemos encontrar um meio mais adequado de mostrar este nosso reconhecimento a não ser continuando a seguir a sua exortação cheia de autoridade: “Não permitais jamais que na vossa participação se aloje o verme do costume, da ‘rotina’, da velhice! Renovai continuamente a descoberta do carisma que vos fascinou e ele vos levará de forma mais potente a vos tornardes servidores daquela única potestade que é Cristo Senhor! (Castelgandolfo, 12 de setembro de 1985).
Por estas razões participaremos todos do encontro do próximo dia 1° de maio. Portanto, os Exercícios Espirituais da Fraternidade, que tínhamos programado de 29 de abril a 1° de maio, terminarão na noite de sábado, 30 de abril, de maneira que, com todos os outros amigos do Movimento – os colegiais, os universitários e os adultos não presentes em Rímini – dirijamo-nos em peregrinação a Roma para nos unirmos ao Papa e à Igreja no agradecimento a Deus, que nos concedeu uma tão autêntica testemunha de Cristo.
Desejamos estar junto de Bento XVI, que na sua clarividência decidiu indicar ao mundo inteiro o beato João Paulo II como exemplo do que pode fazer Cristo de um homem que se deixa tomar por Ele.
Pedindo a Padre Giussani e ao novo beato João Paulo II que, do Céu acompanhem, a nossa fidelidade a Pedro – amparo seguro para a nossa vida de fé −, e a Nossa Senhora que realize em cada um de nós o desejo de santidade para a qual existe a nossa Fraternidade, saúdo-vos de todo o coração.
Padre Julián Carrón

* Texto revisado por Paulo R. A. Pacheco.

1978-2005: aspectos menos conhecidos dos 25 anos de Pontificado de João Paulo II - 5


A obra do Santo Padre
para a custódia do Depósito da Fé
e a preservação da Disciplina Eclesiástica

1998
- A Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) reabre, mais uma vez, a verificação sobre a teoloia do peruano Gustavo Gutiérrez, que suscita problemas na Igreja latino-americano desde 1983, pelo menos.
- A CDF coloca sob observação o livro do teólogo australiano Paul Collins “Il potere papale. Una proposta di cambiamento per il cattolicesimo del Terzo millenio” (O poder papal: uma proposta de mudança para o catolicismo do Terceiro Milênio; ndt). Collins, infelizmente, deixará o sacerdócio em 2001, fazendo declarações coerentes com as heresias contidas em suas obras.
- A Congregação para o Clero, presidida pelo cardeal Darío Castrillón Hoyos, sugere ao bispo inglês D. Peter Smith a retirada de um texto de religião para as escolas secundárias, porque neles se sustenta a Teologia da Libertação.
- Com uma Notificação (24 de junho), a CDF declara que o jesuíta indiano Anthony de Mello sustentou, em suas obras, “posições incompatíveis com a fé católica”. As obras de Mello, ainda que falecido há um tempo, ocupam as prateleiras de numerosas livrarias, mesmo católicas.
- João Paulo II, com o Motu proprio Ad tuendam fidem torna ainda mais clara a aplicação da profissão de fé de 1989. A carta é acompanhada por uma densa “Nota doutrinal ilustrativa” feita pela CDF, que ilustra como cada teólogo deve empenhar-se explicitamente na acolhida “firme” das verdades proclamadas “de modo definitivo” pelo Magistério, sem que seja necessária uma explícita “definição dogmática”. O texto precisa ainda que, em tal categoria, está presente o ensinamento papal sobre a ordenação sacerdotal reservada apenas apara os homens.
- Com o Motu proprio Apostolos suos (21 de maio), o Papa esclarece a natureza e os poderes das Conferências Episcopais. O documento encontra razão de ser nos casos de deturpação da natureza pastoral e não precipuamente doutrinal das mesmas conferências.
- A CDF solicita e consegue o afastamento do ensino junto à Pontifícia Universidade Gregoriana do teólogo jesuíta Jacques Dupuis, por seu livro “Verso una teologia cristiana del pluralismo religioso” (Para uma teologia cristã do pluralismo religioso; ndt). A condenação é publicada em 2001 com uma Notificação (24 de janeiro) na qual se afirma que, no livro do jesuíta, existem “notáveis ambiguidades e dificuldades sobre pontos doutrinais de alcance relevante, que podem conduzir o leitor a opiniões errôneas ou perigosas”.
- A Congregação para a Educação Cristã, presidida pelo cardeal Pio Laghi, afasta da cátedra de Filosofia do Direito da Universidade Católica do Sagrado Coração de Milão, o professor Luigi Lombardi Vallauri, que havia difundido, em larga escala, imprudentemente bizarras teses sobre o inferno, sobre o pecado original, sobre a autoridade do magistério e sobre a moral sexual.
- No Peru, para substituir o cardeal jesuíta Augusto Vargas Alzamora, então primaz da Igreja católica de Lima há nove anos, é chamado (não obstante uma violenta pressão midiática realizada por alguns eclesiásticos) um membro da Opus Dei, D. Luis Cipriani. O Prelado, nos dez anos que passou como guia da arquidiocese de Ayacucho, se havia notabilizado pela firme caridade pastoral para com os seguidores da Teologia da libertação de tipo marxista e pela decisiva condenação do terrorismo de matriz socialista.

1999
- Em 6 de abril, a CDF corrige numerosas “propostas de mudança” formalizadas por uma espécie de Sínodo denominado “Diálogo para a Áustria”, particularmente sobre a contracepção, a comunhão de divorciados recasados, o clero casado.
- Em 18 de setembro, a Secretaria de Estado e a CDF dispõem a retirada dos aconselhadores católicos alemães do sistema estatal de clínica dos quais, por lei, toda mulher que queira abortar deve obter o certificado de aconselhamento.
- No domingo, dia 27 de junho, a Sacra Rota – assim se refere a imprensa nacional – ordena a apreensão e proibe a tradução de um calunioso libelo de título “Via con vento in Vaticano” (E o vento levou, no Vaticano; ndt). O porta-voz e co-autor confesso do panfleto, D. Luigi Marinelli, foi convocado pelo dicastério; segundo fontes jornalísticas teve início um processo de “suspensão a divinis.
- Á irmã Jeannine Gramick e ao P.e Robert Nugent – religiosos norte-americanos – a CDF veta “permanentemente toda atividades pastoral em favor das pessoas homossexuais”, porque os dois, desde o início de sua atividade, em 1977, não condenam a “malícia intrínseca dos atos homossexuais”, colocando, além do mais, “repetidamente em discussão elementos centrais do ensinamento da Igreja” na matéria.
- No dia 12 de março de 1999, a presidente da Ação Católica italiana Paola Bignardi retifica, numa entrevista ao jornal Avvenire, algumas declarações sobre os chamados “casais de fato” feitas ao jornal social-comunista “Unità”.

2000
- Em 14 de janeiro, numa carta ao presidente da Comissão Internacional pela Língua Inglesa na Liturgia (ICEL), D. Maurice Taylor, o secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, D. Francesco Pio Tamburrino, pede que se retirem todas as cópias do Livro Litúrgico dos Salmos traduzido para o inglês, porque contêm erros doutrinais suscetíveis de causar dano significativo à fé. 
- Durante o ano, a Conferência Episcopal dos Estados Unidos aprova – com 223 “sim” e 31 “não” – um decreto de aplicação da Constituição Apostólica Ex corde ecclesiae de João Paulo II (de 15 de agosto de 1990), na qual o Santo Padre pedia que se tomassem medidas no sentido de reforçar a identidade das universidades católicas e pedia aos docentes das mesmas que obtivessem, para ensinar, “referências” do próprio bispo. Os bispos americanos dispõem assim que “os estatutos das universidades católicas instituídos por autoridade hierárquica, por institutos religiosos ou outras pessoas jurídicas, devem ser aprovados pela autoridade eclesiástica competente” (art. 3, 3); no Consellho de administração a maioria “deveria ser composta por católicos comprometidos com a Igreja” (art. 4, 2b); o presidente deveria ser um católico (art. 4, 3a); a universidade deveria buscar recrutar e nomear como docentes católicos, de modo que “aqueles que estão comprometidos com o testemunho da fé constituam a maioria do corpo docente” (art. 4, 4a); e, sobretudo, “os católicos que ensinam disciplinas teológicas numa universidade católica dever ter um mandatum da parte da autoridade eclesiástica competente” (art. 4, 4e, 1), ou seja do bispo da diocese na qual se encontra a universidade. Este mandato, que deve ser escrito, é “um reconhecimento da parte da autoridade da Igreja sobre o fato de que um docente católico de uma disciplina teológica ensina em plena comunhão com a Igreja católica”, e reconhece o empenho de tal docente com o “abster-se de propor como doutrina católica tudo o que seja contrário ao magistério da Igreja”. Uma vez obtido, este mandato permanece em vigor enquanto o professor estiver encarregado da matéria e “a menos que não lhe seja retirado pela autoridade eclesiástica competente” (art. 4, 4e, 4b). Estes temas haviam sido eficazmente propostos por S. Eminência o cardeal Ratzinger durante um ciclo de conferências e encontros havidos no ano anterior, durante os quais o Prefeito da CDF havia alertado os católicos comprometidos nas universidades locais quanto à modernidade.
- No México, a Sé Apostólica transfere para a diocese de Saltillo D. Raúl Vera López, que já havia sido enviado para a diocese de San Cristóbal de las Casas (Chiapas) como coadjutor com direito de sucessão de D. Samuel Ruiz. D. Vera López havia sido enviado a Chiapas em 1995 devido a algumas dificuldades acerca da chamada “teologia índia” de D. Ruiz.
- Em junho de 2000, durante um encontro em São Paulo sobre a AIDS e sobre os desafios da Igreja no Brasil, a imprensa atribui ao bispo de Goiás, Eugène Rixen, uma frase segundo a qual “entre a camisinha e a expansão da AIDS, somos obrigados a escolher o mal menor”. O presidente do Pontifício Conselho para os Sanitaristas, D. Lozano Barragán, sugere e obtém da Conferência Episcopal brasileira a difusão de uma Nota de Esclarecimento, na qual se reafirma que o uso do preservativo, em qualquer circunstância, é contrário à doutrina de Cristo.
- A Santa Sé protesta vivamente junto ao governo italiano para que impeça a celebração da Parada Gay em Roma e, particularmente, para que as autoridades impeçam a grande manifestação dos ativistas homossexuais, que maldosamente difundem ideias que provocam confusão e sofrimento junto à categoria de pessoas que falsamente pretendem representar. No dia seguinte, no Angelus, o Papa exprime “amargura pelo insulto ao grande Jubileu do Ano Dois Mil e pela ofensa aos valores cristãos de uma cidade que é tão querida pelos católicos do mundo inteiro”.
- Com a Declaração Dominus Iesus (6 de agosto), a CDF reafirma a unicidade salvífica de Cristo, chamado a atenção implicitamente para a ortodoxia uma certa teologia “asiática” (veja-se, por exemplo, as providências tomadas anteriormente quanto ao sacerdotes do Sri Lanka P.e T. Balasuriya).
- Para a sucessão do controvertido cardeal brasileiro Paulo Evaristo Arns, expoente de uma certa Teologia da libertação, que havia solidarizado com o tirano socialista cubano Fidel Castro, é chamado D. Claudio Hummes. A nomeação do prelado (próximo ao movimento carismático e nomeado há apenas dois anos como arcebispo de Fortaleza, onde reordenou a ex-diocese do cardeal Aloísio Lorscheider segundo as indicações da Santa Sé) acontece não obstante as pressões da mídia, feitas também por eclesiásticos, que “exige” a nomeação de um dos bispos auxiliares de Arns ou o arcebispo de Mariana e ex-presidente da CNBB, D. Luciano Mendes de Almeida.
- A Congregação para o Culto Divino, no dia 28 de julho, publica uma “Instrução Geral sobre o Missal Romano”, que serve como uma introdução para a nova versão do Missal Romano. Nela se recorda, diante de alguns casos de abusos, que os leigos não podem se aproximar do altar antes que o celebrante tenha comungado; não podem colocar na patena as hóstias consagradas; devem receber a patena das mãos do celebrante e não tomá-la do altar por conta própria; que o celebrante não pode dar o sinal da paz aos fieis deixando o altar.
- Em setembro de 2000 cessa a publicação do semanário da Ação Católica italiana “SegnoSette”, que em muitas ocasiões havia expressado posições divergentes do ensinamento católico sobre temas políticos, eclesiais e morais.
- A CDF, com uma Notificação de 30 de novembro, obtém a abjuração do teólogo austríaco Reinhard Messner que havia, entre outras coisas, sustentado que “em caso de conflito é sempre a tradição, ou ainda a teologia, que deve ser corrigida a partir da Escritura, e não a Escritura que deve ser interpretada à luz de uma tradição sucessiva (ou de uma decisão magistral)”.

* Extraído de Totus tuus network. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.
São João Bosco

Evangelho - Mc 5,1-20
Naquele tempo, Jesus e seus discípulos chegaram à outra margem do mar, na região dos gerasenos. Logo que saiu da barca, um homem possuído por um espírito impuro, saindo de um cemitério, foi ao seu encontro. Esse homem morava no meio dos túmulos e ninguém conseguia amarrá-lo, nem mesmo com correntes. Muitas vezes tinha sido amarrado com algemas e correntes, mas ele arrebentava as correntes e quebrava as algemas. E ninguém era capaz de dominá-lo. Dia e noite ele vagava entre os túmulos e pelos montes, gritando e ferindo-se com pedras. Vendo Jesus de longe, o endemoninhado correu, caiu de joelhos diante dele e gritou bem alto: "Que tens a ver comigo, Jesus, Filho do Deus altíssimo? Eu te conjuro por Deus, não me atormentes!". Com efeito, Jesus lhe dizia: "Espírito impuro, sai desse homem!". Então Jesus perguntou: "Qual é o teu nome?". O homem respondeu: "Meu nome é 'Legião', porque somos muitos". E pedia com insistência para que Jesus não o expulsasse da região. Havia aí perto uma grande manada de porcos, pastando na montanha. O espírito impuro suplicou, então: "Manda-nos para os porcos, para que entremos neles". Jesus permitiu. Os espíritos impuros saíram do homem e entraram nos porcos. E toda a manada - mais ou menos uns dois mil porcos - atirou-se monte abaixo para dentro do mar, onde se afogou. Os homens que guardavam os porcos saíram correndo e espalharam a notícia na cidade e nos campos. E as pessoas foram ver o que havia acontecido. Elas foram até Jesus e viram o endemoninhado sentado, vestido e no seu perfeito juízo, aquele mesmo que antes estava possuído pela Legião. E ficaram com medo. Os que tinham presenciado o fato explicaram-lhes o que havia acontecido com o endemoninhado e com os porcos. Então começaram a pedir que Jesus fosse embora da região deles. Enquanto Jesus entrava de novo na barca, o homem que tinha sido endemoninhado pediu-lhe que o deixasse ficar com ele. Jesus, porém, não permitiu. Entretanto, lhe disse: "Vai para casa, para junto dos teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor, em sua misericórdia, fez por ti". Então o homem foi embora e começou a pregar na Decápole tudo o que Jesus tinha feito por ele. E todos ficavam admirados.

Comentário feito por Bem-aventurada Teresa de Calcutá (1910-1997)
fundadora das Irmãs Missionárias da Caridade 

"O homem que fora possesso suplicou-Lhe que o deixasse andar com Ele. [...] Disse-lhe antes: 'Vai para tua casa, para junto dos teus, e conta-lhes tudo o que o Senhor fez por ti'". Somos chamados a amar o mundo. E Deus amou de tal forma o mundo que lhe deu Jesus (Jo 3, 16). Hoje, Ele ama de tal forma o mundo que nos dá ao mundo, a ti e a mim, para que sejamos o Seu amor, a Sua compaixão e a Sua presença através de uma vida de oração, de sacrifícios e de entrega. A resposta que Deus espera de ti é que te tornes contemplativo, que sejas contemplativo. Tomemos a palavra de Jesus a sério e sejamos contemplativos no coração do mundo porque, se temos fé, estamos perpetuamente na Sua presença. Pela contemplação a alma bebe diretamente do coração de Deus as graças que a vida ativa está encarregada de distribuir. As nossas vidas devem estar unidas a Cristo vivo que está em nós. Se não vivermos na presença de Deus, não podemos perseverar. O que é a contemplação? É viver a vida de Jesus. É assim que a compreendo. Amar Jesus, viver a Sua vida no âmago da nossa e viver a nossa no seio da Sua. [...] A contemplação não ocorre por nos fecharmos num quarto escuro, mas por permitirmos a Jesus que viva a Sua Paixão, o Seu amor, a Sua humildade em nós, que reze conosco, que esteja conosco e que santifique através de nós. A nossa vida e a nossa contemplação são unas. Não é uma questão de fazer, mas de ser. De fato, trata-se da plena fruição do nosso espírito pelo Espírito Santo, que derrama em nós a plenitude de Deus e nos envia a toda a Criação como mensagem Sua, pessoal, de amor (Mc 16, 15). 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

1978-2005: aspectos menos conhecidos dos 25 anos de Pontificado de João Paulo II - 4


A obra do Santo Padre
para a custódia do Depósito da Fé
e a preservação da Disciplina Eclesiástica

1993
- Em 22 de abril, a sala de imprensa vaticana publica a declaração final de um encontro organizado em março pelo Pontifício Conselho para a Família. O texto – assinado, entre outros, pelo cardeal Alfonso López Trujillo, presidente do Conselho, e por D. Dionigi Tettamanzi – reafirma que a contracepção “corrompe a intimidade conjugal” e que a comunidade cristã deve se opor à legalização do divórcio.
- Numa carta pastoral comum (10 de julho), três bispos alemães (entre eles D. Karl Lehmann, bispo de Magonza) se pergunta se um divorciado(a) que contraiu segundas núpcias, convencido(a) de que o matrimônio anterior tenha naufragado irremediavelmente, pode se aproximar da comunhão eucarística. A Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) esclarece numa carta aos bispos que isso não é lícito.
- No dia 22 de outubro, o Papa reafirma energicamente a lei do celibato sacerdotal para a Igreja latina e acrescenta, diante das contestações e das críticas, que “é preciso ousar (conservando o celibato), nunca se dobrar”.
- Em 28 de outubro, o núncio apostólico no Méximo, D. Girolamo Prigione, anuncia a possível remoção da diocese mexicana de San Cristóbal de las Casas de D. Samuel Ruiz.

1994
- Em janeiro de 1994, o jornal italiano “Avvenire” recebe um novo diretor, Dino Boffo. Órgãos de imprensa atribuem a designação diretamente ao cardeal Ruini, primaz da Itália.
- A CDF publica, no dia 20 de dezembro, a carta circular “Há dois anos”, destinadas aos presidentes das conferências episcopais, que tratava das “obras de síntese” do Catecismo da Igreja Católica. A razão dessa carta se deve a algumas traduções em inglês, caracterizadas por uma linguagem muito secularizada sobre a mulher.
- Com a carta apostólica Ordinatio sacerdotalis (22 de maio), o Santo Padre, “em virtude do [seu] ministério de confirmar os irmãos”, declara que “a Igreja não tem, de modo algum, a faculdade de conferir às mulheres a ordenação sacerdotal, e que esta sentaça deve ser mantida de modo definitivo por todos os fiéis”.
- A CDF, na “Carta aos bispos da Igreja Católica acerca do recebimento da comunhão eucarística por fiéis divorciados em segundas núpcias” (14 de setembro), reafirma a impossibilidade de dar comunhão aos católicos divorciados que se casaram outra vez.
- A CDF intervém acerca da nomeação da teóloga feminista Teresa Berger para a cátedra de Liturgia da Faculdade Teológica da Universidade de Bochum, na Alemanha.

1995
- Segundo o semanário inglês “The Tablet”, o prefeito da Congregação para a Educação Católica, cardeal Pio Laghi, sugeriu que fosse cancelada uma conferência que o teólogo da libertação Gustavo Gutiérrez deveria proferir em Roma, em novembro de 1994. Gutiérrez, em 1990, havia publicado uma edição revista do seu livro “Teologia da Libertação”, tendo eliminado algumas das dúvidas sobre a ortodoxia. 
- A Congregação para os Bispos demite D. Jacques Gaillot, bispo de Evreux (França), que com o seu ministério fortemente secularizado e a sua ação politicizada provoca graves desorientações entre os fiéis.
- Sob indicação do substituto da Secretaria de Estado vaticana, D. Giovanni Battita Re, e do prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, cardeal Jozef Tomko, o missionário comboniano P.e Renato Kizito Sesana é removido de seu encargo de diretor da revista queniana “New People”, que havia se tornado privada de toda finalidade missionária.
- Na encíclica Evangelium vitae (25 de março), o Santo Padre define como “democracias totalitárias” os parlamentos que aprovam leis que consentem na interrupção voluntária da gravidez.
- A CDF sugere e obtém da Superior da Congregação das “Irmãs de Nossa Senhora” que se mande a irmã brasileira Ivone Gebara, que se enredara em teorias feministas, estudar boa teologia, por dois anos, na Europa.
- D. Samuel Ruiz, então bispo de Chiapas, teórico de uma igreja indígena diferente da de Jesus Cristo, permanece no seu posto, mas passa a ser acompanhado por um bispo coadjutor com direito de sucessão, D. Raúl Vera Lopez.

1996
- Com um editorial no L’Osservatore Romano do dia 2 de fevereiro e assinado “***” (que, na prática, indica a autoridade máxima do autor), a Sé Apostólica condena as opiniões de 16 teólogos moralistas alemães que, num livro, contestaram a encíclica Veritatis splendor “sobre questões fundamentais da doutrina moral” (6 de agosto de 1993) e afirmaram que ela era uma tentativa de impor uma posição teológica. O editorial reafirma o papel do magistério papal e a obediêncai que se deve a ele.

1997
- A CDF excomunga, com uma “Notificação” datada de 2 de janeiro, o teólogo Tissa Balasuriya, visto que, com as suas teorias, “minava alguns pontos essenciais da fé cristã”. Será reabilitado, depois de um “mea culpa”, em 1998. Observações sobre um livro do P.e Balasuriya já haviam se difundido em 1994.
- Em 11 de fevereiro de 1997, S. Eminência o cardeal Ruini obtém do Papa um decreto no sentido de uma maior vigilância sobre a Sociedade São Paulo, a casa das Edições Paulinas: João Paulo II nomeia D. Antonio Buoncristiani delegado junto à Sociedade São Paulo, com a tarefa de “exercer todas as funções que dizem respeito tanto ao Superior Geral quanto ao Superior Provincial”. No decreto especifica-se, “para mais informação”, que a sua autoridade se estende sobre os Periódicos “Família Cristã”, “Jesus”, “Vita Pastorale” etc., e sobre as Edições São Paulo. Alguns religiosos paulinos tinha recusado a restituir à direção o P.e Stefano Andreatta, que havia sido submetido por indicação do Vigário de Cristo, mas havia sido injustamente destituído por eles. Depois de uma dolorosíssima troca de declarações e desmentidos por parte de alguns paulinos, em abril de 1998, P.e Leonardo Zega é removido da direção de “Família Cristã” e é definitivamente afastado do jornal em 12 de outubro de 1998.
- A Santa Sé, depois da visita apostólica feita, em 1995, por D. Xavier Lozano Barragân aos seminários dos jesuítas no México, e depois do interesse do prefeito da Congregação para a Educação Católica, cardeal Pio Laghi, ordena o fechamento do Instituto Interreligioso e do Centro de Estudos Católicos da Cidade do México, dependentes da Conferência dos Institutos Religiosos Mexicanos (CIRM), além do fechamento também do Instituto Teológico do Colégio Máximo de Cristo Rei com o anexo Centro de Reflexão Teológica dirigido pela Companhia de Jesus. S. Eminência o cardeal Laghi indica na opção a favor da Teologia da Libertação a causa principal da “confusão e controvérsia” defundida pelos institutos.
- A Conferência dos Religiosos Colombianos é responsabilizada, com um carta enviada por D. Tarcisio Bertone, segretário da CDF, pelos desvios encontrados no relatório do primeiro encontro nacional de teologia da vida religiosa, ocorrido em Bogotá, em abril de 1996, e publicado na revista “Vinculum” da Conferência dos Religiosos Colombianos. O relatório contém um estilo “reivindicativo, agressivo e crítico contra a mesma hierarquia eclesiástica” e pretende elaborar uma teologia da vida religiosa “prescindindo de um estudo sério das Escrituras, da Tradição e do Magistério”.
- Com uma Instrução Interdicasterial (assinada, no dia 15 de agosto, por responsáveis por oito dicastérios e ofícios da Cúria Romana), a Sé Apostólica restabelece os justos limites da colaboração dos leigos no ministério dos sacerdotes.
- Em 20 de setembro, D. Jorge Medina Estévez, proprefeito da Congregação para o Culto Divino, escreve a D. Anthony Pilla, presidente da Conferência Episcopal Norte-Americana, para comunicar-lhe que a tradução inglesa dos livros litúrgicos, realizada por bispos dos EUA, “não exprime acuradamente” os sentido do texto latino e “não é isenta de problemas doutrinais”. Sobre a questão, os oito cardeais norte-americanos já haviam se encontrado em Roma com os cardeais Medina Estévez e Ratzinger.
- Após uma carta enviada pelo prefeito da Congregação pela Evangelização dos Povos, cardeal Josef Tomko, a Conferência Episcopal da Coreia do Sul sanciona o veto de publicação para três sacerdotes – P.e John Sye Kong-seok, P.e Paul Cheong Yang-mo (ambos professores da Universidade Sogang de Seul, mantida por jesuítas) e P.e Edouard Ri Je-min (professor da Universidade Católica de Kwangiu e diretor da revista “Skinhak Chonmang”). Os três apoiavam ideias, “por nada conformes à doutrina católica”, particularmente sobre temas como o sacerdócio feminino, o celibato dos padres, a evangelização e a inculturação.

* Extraído de Totus tuus network. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Cartas do P.e Aldo 178








Asunción, 26 de janeiro de 2011.

Caros amigos,
Olhem como elas são felizes, e no entanto todos têm um passado de violência. Olhem para Vitória: que olhos belíssimos! E foi abandonada pela mãe tão logo nasceu... encontrada perto de uma tumba.
Por que são felizes? Porque o DNA delas é totalmente definido por “eu sou Tu que me fazes”. Têm um monte de problemas, mas são felizes porque amados. É a surpresa até mesmo para a psicóloga que caminha conosco.
Ela fala de contenção, acerca do comportamento delas, eu falo de comoção, de olhar como aquele que Zaqueu encontrou. Não sei se já lhes disse, mas as minhas crianças em idade escolar passaram todas de ano com média 4 (a nota máxima, aqui, é 5).
Amigos, a vida é uma pertença, e não uma preocupação ou uma estratégia.
Assim, quando pintam o sete e a paciência chega ao limite, explode aquela certeza – “eu sou Tu que me fazes” – e olhar se torna maravilhamento e retoma o caminho.
Padre Aldo

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

1978-2005: aspectos menos conhecidos dos 25 anos de Pontificado de João Paulo II - 3


A obra do Santo Padre
para a custódia do Depósito da Fé
e a preservação da Disciplina Eclesiástica

1988
- Com a proposta da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), os jesuítas José Maria Castillo e Juan Antonio Estrada são destituídos do ensino universitário, bem como o claretiano Benjamin Forcano da direção do periódico “Misión Abierta”.
- A Congregação pelo Culto Divino, no dia 2 de junho, reafirma que não é admitido, de forma alguma, oferecer o sacrifício eucarístico na ausência de um sacerdote validamente ordenado.
- Com a constituição apostólia Pastor bonus (28 de junho), o Santo Padre reordena a organização da Sé Apostólica Romana, dando a ela novo impulso na coordenação do episcopado e do Sínodo dos bispos.
- No dia 1º de julho, a CDF publica a “Profissão de Fé” e o “Juramento de fidelidade”, recordando, entre outras coisas, o dever de obediência em consciência a “todos os conteúdos transmitidos pelo Magistério ordinário e universal da Igreja” e às “verdades acerca da doutrina que respeita à fé e aos costumes” e aos “ensinamentos do Pontífice” e “do colégio episcopal” quando “exerce o seu Magistério autêntico”.
- O decreto Dominus Marcellus Lefebvre da Congregação para os Bispos, do dia 1º de julho de 1988, impõe a excomunhão por cisma ao arcebispo pseudo-tradicionalista Marcel Lefebvre e aos seus seguidores. O Santo Padre com o Motu proprio “Ecclesia Dei”, do dia 2 de julho, espera que “se ilumine a continuidade do Concílio com a Tradição”.
- Na carta apostólica Mulieris dignitatem (15 de agosto), o Santo Padre reafirma o dogma sobre a ordenação sacerdotal reservada às pessoas do sexo masculino.
- O Núncio apostólico do Brasil, D. Carlo Furno, entrega a D. Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, uma carta (Intimatio) na qual é advertido por causa de sua simpatia pela Teologia da Libertação, e lhe são impostos limites a suas tarefas pastorais. No entanto, o bispo – algumas vezes, inclusive, visto em roupas de guerrilheiro – recusa a carta.

1989
- No dia 6 de janeiro, 163 teólogos e teólogas de língua alemã assinam a “Declaração de Colônia”, na qual contestam o fato que se deva obediência  à Sé Apostólica, tanto naquilo que respeita a algumas verdades fundamentais da fé em Jesus Cristo, quanto em outras expostas pelo magistério ordinário universal (particularmente relativas à encíclica de Paulo VI, Humanae vitae). Eles, além do mais, reivindicam uma espécie de “votação popular” para a nomeação dos bispos. O Santo Padre, direta ou indiretamente, rejeitará, ponto por ponto, as solicitações dos rebeldes.
- A Santa Sé veta a publicação de um livro que deveria conter as atas de um congresso de moralistas católicos ocorrido em Roma, na Academia Alfonsiana, em abril de 1988. O volume traria uma conferência do P.e Bernhard Haering (que havia sido convocado pela CDF em 1979), na qual o teólogo criticava a antropologia e a teologia que subjazem à encíclica de Paulo VI, Humanae vitae, que, no pontificado de João Paulo II, assume o papel de baluarte pela defesa da sexualidade humana.
- Por intervenção direta da Congregação para a Educação Católica, a Pontifícia Universidade Lateranense retira o professor P.e Luigi Sartori – um dos teólogos italianos mais na moda, então – da cátedra de Ecumenismo. P.e Sartori é um dos promotores do manifesto dos teólogos italianos rebeldes apoiadores da “Declaração de Colônia”.
- Em março, P.e Eugenio Melandri deixa, depois de dez anos, a direção do periódico dos missionários saverianos “Missione Oggi”. Há um tempo o periódico suscitava a dor e a preocupação de S. Eminência o cardeal Josef Tomko, prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, por causa da linha editorial caracterizada por uma desavergonhada politização. Tal desordem tinha se manifestado, em particular, com um número todo dedicado ao regime socialista de Nicarágua, por ocasião de uma virada eleitoral, desviando-se abertamente com os partidos da esquerda.
- O jesuíta Paul Valadier, diretor da “Études” e um dos 157 teólogos francófonos a firmarem uma carta de solidariedade aos 163 rebeldes da “Declaração de Colônia”, se demite do cargo.
- A CDF, em novembro, na véspera da assembleia anual da Conferência Episcopal Norte-Americana, solicita a retirada da ordem do dia da discussão de um texto ambíguo sobre a relação paritária bispos-teólogos e sobre a “Responsabilidade eclesial do teólogo”.
- P.e Vittorio Cristelli, diretor do semanário diocesano “Vita trentina”, demite-se do cargo. O semanário tinha publicado o documento dos 63 teólogos italianos em apoio à “Declaração” dos rebeldes de Colônia.
- A Congregação para a Educação Católica decreta o fechamento, no Brasil, do seminário regional Nordeste 2 e do Instituto Teológico de Recife, ambos fundados por D. Hélder Câmara. A motivação encontra raiz na educação “não confiável” que ali se sustentava.
- A Secretaria de Estado (7 de agosto) reafirma que nem a JOC (Juventude Operária Cristã) nem a JOCI (Juventude Operária Cristã Internacional) podem ser reconhecidas como interlocutoras legítimas da Santa Sé. A decisão encontra razão na desavergonhada politização por parte dos dois organismos.
- A Congregação para os Religiosos institui uma coordenação para a CLAR (Conferência Latino-Americana dos Religiosos), a fim de preservá-la da influência de uma certa Teologia da Libertação.
- No dia 19 de setembro, a CDF publica a Instrução “Os fiéis chamados”, que renova a obrigação de pública profissão de fé para aqueles que são chamados a exercer um ofício em nome da Igreja. A última profissão desse tipo remonta ao pontificado de São Pio X.

1990
- Em 24 de maio, a CDF publica a Instrução “Donum veritatis” sobre a vocação eclesial do teólogo, que pretendia resolver, a raiz, os mal-entendidos e as ambiguidades difundidas nos meses anteriores, dentro da Igreja por vários “Manifestos” de teólogos rebeldes.
- A Congregação para a Educação Católica veta à Faculdade de Teologia da Universidade Suíça de Friburgo a possibilidade de conferir o título de “Doutor Honoris Causa” a D. Rembert Weakland, bispo de Milwaukee (EUA), conhecido por algumas interpretações do Concílio Vaticano II cheias de ambiguidades típicas do Pós-Concílio.

1991
- A Sé Apostólica remove o bispo mexicano de Oaxaca, D. Bartolomé Carrasco Briseno, que se havia comprometido com algumas questões extremistas da Teologia da Libertação.
- A Santa Sé fornece à Conferência Latino-Americana dos Religiosos um apoio de coordenação e de verificação pastoral, por causa da propagação de uma certa Teologia da Libertação.
- Início do exame da edição da Bíblia, publicada pelas Edições Paulinas do Brasil, realizada por alguns teólogos da libertação.
- Apoio e coordenação à "Vozes", a mais antiga editora católica brasileira, que tem como diretor da revista de mesmo nome o P.e Leonardo Boff. O religioso, coerente com suas próprias ideias, deixará a revista e a ordem franciscana um ano depois.
- Sob indicação da Congregação para a Educação Católica, o cardeal Aloisio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza, demite três sacerdotes casados que ensinavam no Instituto Teológico e Pastoral da cidade.
- A Sé Apostólica interdita o teólogo e psicanalista alemão Eugen Drewermann, impedindo-o de ensinar. Suas obras são viciadas por uma subordinação à psicanálise mais facciosa e anticientífica, além de exprimirem banais e injustificadas críticas à organização eclesiástica e ao celibato sacerdotal. Pouco depois, Drewermann é proibido de pregar. Infelizmente, coerente com seu pensamento secularizado, o teólogo rebelde, em março, abandona o sacerdócio.


1992
- Em 31 de janeiro, a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) condena uma obra do teólogo moralista canadense André Guindon, cujas teses sobre temas da sexualidade continham “graves dissonâncias não apenas com o ensinamento do Magistério mais recente, como também com a doutrina tradicional da Igreja”.
- A ordem dominicana afasta o teólogo Mattew Fox, que já havia sido chamado à atenção, em 1988, pela Sé Apostólica, porque se rebelara ao ensinamento moral sexual de Cristo.
- A Sé Apostólica declara “fora de lugar” – ou seja nada a discutir – a proposta do arcebispo de Milwaukee, D. Rembert Weakland, de ordenar sacerdotes, em situações de “extrema necessidade”, homens casados.
- Com a carta Communionis notio (de 28 de maio), a CDF repropõe a doutrina católica diante de alguns exageros acerca da colegialidade episcopal.
- A Santa Sé sugere que se repense o nihil obstat conferido à obra do dominicano P.e Philippe Denis da Faculdade de Teologia Católica de Estrasburgo, por causa de teses injustas e falsas sobre a Opus Dei.

* Extraído de Totus tuus network. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Por que não conseguimos ser chineses sem a China?


Por Giovanni Cominelli

A transliteração da primeira linha do Livro I da Metafísica de Aristóteles soa assim: Pàntes ànthropoi to eidénai orégontai fùsei.  Traduzido: “Todos os homens, por natureza, desejam saber”. É a frase que inaugura a civilização europeia. Mas, se levantarmos os olhos dos “textos sagrados” e os voltarmos para os jovens das nossas escolas, para aqueles que estão diante de nós cada manhã, aqueles cujos professores passam para frente em série, cada um com a sua mochila de noções que deverão ser descarregadas ali, na cátedra, entre os bancos, a afirmação aristotélica não parece, de fato, muito evidente. Os nossos jovens têm desejo de aprender?
As observações empíricas tiradas dos estudos da OCDE (Organização pela Cooperação e o Desenvolvimento Econômico; ndt) e outros órgãos semelhantes evideciam dois dados: os jovens dos países desenvolvidos têm cada vez menos desejo de estudar; os jovens dos países em vias de desenvolvimento têm um desejo de estudar maior do que os seus coetâneos “ricos”. Saiba-se que entre os países desenvolvidos se delineia uma hierarquia: a Finlândia está entre os primeiros lugares. Mas a observação “nasométrica” realizada pelas escolas de Milão e do entorno, onde a comparação foi possível por causa da presença crescente e múltipla de quase cem etnias, confirma nos jovens de fora um desejo de estudar maior do que o que há nos nativos italianos. Constatação análoga vale para os jovens parisienses, londrinos, berlinenses, nova-iorquinos... As políticas dos sistemas educativos na Europa, reformados há muito tempo ou nunca – como é o caso da Itália –, se degladiam há anos com este dado.
Este fato contém uma pergunta dramática colocada a ele: a queda do desejo de aprender significa a queda do desejo em geral? Visto que o desejo é sempre “desejo de...” – assim como o pensamento é sempre “pensamento de...” – e visto que o desejo humano é uma massa de logos e de libido, a queda do desejo de aprender marca uma queda de interesse e de amor pela realidade e um rodopio narcísico do Eu numa espiral de vontade de potência ou de depressão de impotência. Se generalizado, marca uma enorme transformação antropológica e de civilização.
Se fosse assim, seria necessário muito mais do que algum reforma dos sistemas educativos. É preciso não apenas uma ideia diferente do educar e, portanto, do ensinar, mas sobretudo é preciso construir uma nova civilização, já que esta – que foi construída nos últimos trezentos anos – parece ter exaurido a própria energia interior. Este é o último pensamento dos sociólogos das transições e dos filósofos da história, bem como dos roteiristas ocidentais. Marx, Nietzsche, Spengler, Teillhard de Chardin, Baumann – para citar alguns – representam os pólos teóricos destes diagnósticos-visões-previsões de civilização.
Há uma versão menos dramática da primeira questão. Sim, os homens, por natureza, desejam saber, mas o sistema educativo que os deveria acompanhar rumo ao saber é uma ponte arruinada. Construída em outras épocas, mais especificamente a partir do século XVIII, com materiais velhos e métodos ultrapassados, para sociedades que desapareceram ou que estavam em vias de... Podemos dizer, então, que o desejo está intacto, o sistema educativo, porém, o está impedindo de se erguer em direção à sua margem. A isto se acrescentem o novo homo sapiens que se está delineando, os digital natives, o cérebro digital etc.
Enquanto isso, aquilo que se vê é que os filhos jovens do velho mundo euro-russo-americano se cansam de se empenhar. O reino da abundância e da liberdade que Marx propunha na segunda metade do século XIX, como fim e destino inevitável do comunismo, chegou justamente pela estrada do capitalismo. Mesmo que as diferenças de classe e de renda continuem muito agudas, mesmo nos países desenvolvidos e entre os países desenvolvidos, é evidente a divergência  entre o mundo euro-russo-americano, de um lado, e o latino-americano ou asiático, de outro. É como se a superabundância dos bens cortasse na raiz o desejo de aprender, de fazer, de estudar, de lutar. Enquanto os “pobres” desejam, os “ricos” consomem. Deste ponto de vista, a relação China-EUA é paradigmática.
Quais conclusões práticas provisórias se podem tirar dessa relação, excluindo-se o fato de que na Europa seja possível adotar o modelo chinês fundado na repressão familiar e social, sobre um autoritarismo feroz e sobre a fome, e que já é praticado na Itália, desde os anos 1950? É preciso assumir como ligadas umas às outras todas as dimensões das políticas da educação e da instrução. É preciso realizar uma Kulturkampf nos fundamentos antropológicos da nossa civilização. Se os fundamentos estão podres, isto fica evidente, em primeiro lugar, no sistema educativo. É preciso fazer uma reforma radical do sistema educativo, de tal forma que seja capaz de construir os fundamentos de uma nova civilização.
Separar estes dois aspectos: a batalha antropolótica e a batalha tecnicamente educativa significava, respectivamente, reduzir a batalha pela civilização a uma pregação ideológica, na medida em que aceita passivamente culturas, programas, estruturas, administrações do sistema educativo vigente; ou então iludir-se de que as novas tecnologias didáticas, as novas estruturas institucionais, as novas formas de autonomia, avaliação, formação e recrutament de novos professores sejam capazes, por si, de ressuscitar o desejo de aprender. Na transição de civilização que estamos vivendo, em direção a estuários desconhecidos, a questão educativa se torna um empreendimento global.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 24 de janeiro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Comentário ao evangelho do dia

Conversão de São Paulo

1ª Leitura - At 22,3-16
Naqueles dias, Paulo disse ao povo: "Eu sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas fui criado aqui nesta cidade. Como discípulo de Gamaliel, fui instruído em todo o rigor da Lei de nossos antepassados, tornando-me zeloso da causa de Deus, como acontece hoje convosco. Persegui até à morte os que seguiam este Caminho, prendendo homens e mulheres e jogando-os na prisão. Disso são minhas testemunhas o Sumo Sacerdote e todo o conselho dos anciãos. Eles deram-me cartas de recomendação para os irmãos de Damasco. Fui para lá, a fim de prender todos os que encontrasse e trazê-los para Jerusalém, a fim de serem castigados. Ora, aconteceu que, na viagem, estando já perto de Damasco, pelo meio dia, de repente uma grande luz que vinha do céu brilhou ao redor de mim. Caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: 'Saulo, Saulo, por que me persegues?'. Eu perguntei: 'Quem és tu, Senhor?'. Ele me respondeu: 'Eu sou Jesus, o Nazareno, a quem tu estás perseguindo'. Meus companheiros viram a luz, mas não ouviram a voz que me falava. Então perguntei: 'Que devo fazer, Senhor?'. O Senhor me respondeu: 'Levanta-te e vai para Damasco. Ali te explicarão tudo o que deves fazer'. Como eu não podia enxergar, por causa do brilho daquela luz, cheguei a Damasco guiado pela mão dos meus companheiros. Um certo Ananias, homem piedoso e fiel à Lei, com boa reputação junto de todos os judeus que aí moravam, veio encontrar-me e disse: 'Saulo, meu irmão, recupera a vista!'. No mesmo instante, recuperei a vista e pude vê-lo. Ele, então, me disse: 'O Deus de nossos antepassados escolheu-te para conheceres a sua vontade, veres o Justo e ouvires a sua própria voz. Porque tu serás a sua testemunha diante de todos os homens, daquilo que viste e ouviste. E agora, o que estás esperando? Levanta-te, recebe o batismo e purifica-te dos teus pecados, invocando o nome dele!'."

Evangelho - Mc 16,15-18
Naquele tempo, Jesus se manifestou aos onze discípulos, e disse-lhes: "Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura! Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado. Os sinais que acompanharão aqueles que crerem serão estes: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas; se pegarem em serpentes ou beberem algum veneno mortal não lhes fará mal algum; quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados".

Comentário feito por São Cirilo de Jerusalém (313-350)
Bispo de Jerusalém e Doutor da Igreja 

"Não nos anunciamos a nós mesmos, mas anunciamos Jesus Cristo; somos vossos servos por causa de Jesus" (2Cor 4, 5). Quem é então esta testemunha que anuncia Cristo? É aquele que outrora O perseguia. Que maravilha! Eis que o perseguidor de antigamente anuncia Cristo. Por quê? Será que foi comprado? Mas ninguém poderia persuadi-lo desta maneira. Terá sido a visão de Cristo nesta terra que o cegou? Mas Jesus já tinha subido ao céu. Saulo saíra de Jerusalém para perseguir a Igreja de Cristo, e três dias depois, em Damasco, o perseguidor transformara-se em pregador. Sob que influência? Há quem cite como testemunhas a favor dos seus amigos pessoas do seu partido. Eu, ao invés, apresento como testemunha um antigo inimigo. Ainda duvidas? Grande é o testemunho de Pedro e João, mas [...] eles eram gente da casa. Quando a testemunha é um antigo inimigo, de um homem que mais tarde morrerá pela causa de Cristo, quem poderá duvidar do valor do seu testemunho? Admiro o plano do Espírito Santo [...]: Ele concede que Paulo, o antigo perseguidor, escreva as suas catorze epístolas. [...] Como não se podiam contestar os seus ensinamentos, permitiu que aquele que fora outrora o inimigo e o perseguidor escrevesse mais do que Pedro e João; é assim que a fé de todos nós pode ser fortalecida. Com efeito, todos ficaram estupefatos com Paulo: "Não é aquele que nos perseguia? Não terá vindo aqui para nos prender?" (At 9, 21). Não fiqueis surpreendidos, diz Paulo. Eu vos compreendo; para mim "é duro revoltar-me contra a espora" (At 26,14). "Não sou digno de ser chamado apóstolo porque persegui a Igreja de Deus" (1Cor 15, 9); "Ele foi misericordioso para comigo: o que eu fazia, fazia-o por ignorância." [...] "A graça de Deus superabundou em mim" (1Tim 1, 13-14). 

domingo, 23 de janeiro de 2011

Cícero: não somos frutos do acaso, mas feitos para olhar o Céu


Por Laura Cioni

Entre os inúmeros argumentos sobre os quais Cícero escreveu em suas obras, um diz respeito à natureza dos deuses, naturalmente polemizando com os epicuristas, tão detestados pela tradição romana de pensar e de agir, da qual ele é um crente convicto. A escola epicurista nega que os deuses, da tranquilidade de sua sua sede, se ocupem dos eventos humanos. Antes, eles nem mesmo contruiram o mundo, que nada mais é que fruto do casual aglomerar-se dos átomos. Contra tal doutrina perigosa para as estruturas culturais e políticas de Roma, Cícero responde com uma obra em três livros, o De natura deorum.
Na parte central do segundo livro, o autor fala da conformação física do homem, enumerando a sabedoria com a qual são distribuídos os órgãos que presidem os sentidos; particularmente, há uma passagem surpreendente que, junto a toda a argumentação a que dá lugar, poderia ter sido elaborada pelos defensores do princípio antrópico, a teoria segundo a qual o universo, na sua totalidade, teria sido construído em função da vida do homem sobre a terra. “Deus levantou o homem da terra e o colocou em posição ereta, de pé, de modo que, contemplando o céu, pudesse ter noção dos deuses. Os homens não são habitantes da terra mas, em certo sentido, são expectadores, a partira da terra, das realidades superiores e celestes, cuja contemplação não se vê em nenhuma outra espécie de seres vivos”.
A afirmação demonstra o quanto os antigos, mesmo os mais pragmáticos como os Romanos, soubessem cruzar o limiar da pura observação das coisas para chegar a seu objetivo: neste caso da posição ereta do homem, Cícero chega à conclusão que ela foi querida para favorecer a busca do princípio. Exatamente ele que dedicou a maior parte da sua atividade ao governo da res publica e que, nos períodos nos quais, por causa das contínuas mudanças políticas de Roma, foi obrigado a recuar para o otium, ou para a pura busca intelectual, ocupou-se, mesmo que em função política, de um tema especulativo de grande interesse para quem queira conhecer o pensamento dos antigos. Falando dos deuses, Cícero fala, na realidade, dos homens e reconhece na sua conformação física a marca dos únicos seres a quem foi dada a tarefa de indagar a realidade celeste: uma concepção alta do homem, que funda toda a atividade intelectual que Roma, depois, transmitiu ao ocidente com o nome de humanitas.
De modo mais poético, um profeta do Antigo Testamento, que viveu no século VIII antes de Cristo, usa expressões semelhantes. Oséias dá voz à repreensão de Javé contra Israel: O meu povo é duro para converter-se: / chamado a olhar para o alto / nenhum sabe levantar o olhar.
São vozes antigas, de milênios, mas o seu chamado de atenção é sempre atual, se se ler de dentro de nossos problemas de modernos. Há muitos séculos o céu é sim lugar da pesquisa, mas se tornou, de certa maneira, mais distante, não apenas porque instrumentos cada vez mais potentes dilataram o espaço da pesquisa; a beleza e a ordem do cosmo convidam raramente a ultrapassar aquilo que se vê, para fixar os olhos da mente sobre as coisas invisíveis. Por isso, frequentemente os modernos se concebem apenas como habitantes da terra e a usam a seu bel prazer, sem a atenção devida àquilo que dá a eles a hospitalidade temporária.
Mas, o homem comum sabe que olhar para o céu é um modo simples para não se sentir sozinho, mesmo que no deserto cheio de gente das metrópoles, é uma ocasião para refletir sobre a vastidão do conhecimento e mais ainda sobre tudo aquilo que existe. Não deveria ser difícil neste ponto formular a pergunta que torna verdadeiramente homens, e que Leopardi soube exprimir tão bem: Por que tanta candeia? / Por que estes ares infinitos, este / Infinito profundo, sereno, esta / Imensa solidão? E eu, que sou eu?
Mesmo se a pergunta ficasse sem resposta, ela já daria a dimensão adequada para a vida do homem. E caso acolhese a resposta – Pai nosso que estais nos céus – a sua dignidade de criatura razoável e livre encontraria o abraço.

* Texto extraído do IlSussidiario.net, do dia 22 de janeiro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mc 3,20-21
Naquele tempo, Jesus voltou para casa com os discípulos. E de novo se reuniu tanta gente que eles nem sequer podiam comer. Quando souberam disso, os parentes de Jesus saíram para agarrá-lo, porque diziam que estava fora de si.

Comentário feito por São Tomás de Aquino (1225-1274)
teólogo dominicano, Doutor da Igreja 

O Filho único de Deus, querendo fazer-nos participar da Sua divindade, tomou a nossa natureza a fim de divinizar os homens, Ele que Se fez homem. Por outro lado, o que tomou de nós, no-lo deu inteiramente para a nossa salvação. Com efeito, sobre o altar da cruz, ofereceu o Seu corpo em sacrifício a Deus Pai a fim de nos reconciliar com Ele, e derramou o Seu sangue para ser, ao mesmo tempo, nosso resgate e nosso batismo: resgatados de uma lamentável escravidão, seríamos assim purificados de todos os nossos pecados. E para que guardemos sempre a memória de um tão grande benefício, deixou aos fiéis o Seu corpo a comer e o Seu sangue a beber, sob o aspecto externo de pão e de vinho. [...] Haverá coisa mais preciosa do que este banquete, onde já não nos propõem, como na antiga Lei, que comamos a carne dos veados e dos cabritos, mas o Cristo que é verdadeiramente Deus? Haverá coisa mais admirável que este sacramento? [...] Ninguém é capaz de exprimir as delícias deste sacramento, dado que nele se prova a doçura espiritual na sua fonte; e nele se celebra a memória deste amor inultrapassável que Cristo mostrou na Sua Paixão. Ele queria que a imensidão deste amor se gravasse mais profundamente no coração dos fiéis. Foi por isso que na última Ceia, depois de ter celebrado a Páscoa com os Seus discípulos, quando ia passar deste mundo para o Pai, instituiu este sacramento como memorial perpétuo da Sua Paixão, cumprimento das antigas prefigurações, o maior de todos os Seus milagres; e àqueles a quem a Sua ausência enchia de tristeza, deixou este sacramento como conforto incomparável. 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

1978-2005: aspectos menos conhecidos dos 25 anos de Pontificado de João Paulo II - 2


A obra do Santo Padre
para a custódia do Depósito da Fé
e a preservação da Disciplina Eclesiástica

1984
- A Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) coloca sob verificação algumas obras do teólogo “da libertação” peruano Gustavo Gutierrez, porque nelas se teme “a influência do marxismo”.
- No dia 13 de junho, a CDF pede ainda uma vez que o P.e Schillebeeckx adira à doutrina católica sobre o sacerdócio, desta vez manifestando adesão à carta Sacerdotium ministeriale do ano anterior.
- Com a Instrução Libertatis nuntius de 6 de agosto, a CDF condene “uma certa Teologia da Libertação” de tipo socialista e marxista.
- Em 7 de setembro, o franciscano Leonardo Boff, teólogo brasileiro “da libertação”, é convocado a se apresentar em Roma.
- Encontro, em Roma, dos bispos peruanos, para esclarecimentos acerca de uma certa Teologia da Libertação.
- Em dezembro, o geral dos jesuítas, P.e Peter-Hans Kolvenbach, expulsa da ordem o P.e Fernando Cardenal (irmão de Ernesto), ministro da educação do governo socialista nicaragüense.
- Com a exortação apostólica pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia (2 de dezembro), o Papa recorda a correta prática do sacramento da confissão e condena os abusos acerca da “confissão comunitária” como meio ordinário para se confessar.

1985
- P.e Gyorgy Bulanyi, sacerdote húngaro das Comunidades “de base”, adepto da objeção de consciência ao serviço militar – que ele sustenta ser intrinsecamente mal – é chamado a Roma pela CDF para um colóquio. Os escritos de P.e Bulanyi já vinham sendo avaliados pela Congregação para o Clero.
- Com uma notificação de 11 de março, a CDF declara que “as opções de Leonardo Boff [contidas no livro Igreja, carisma e poder] são suficientes para colocar em perigo a sã doutrina da fé”.
- Algumas Congregações romanas, sob o título de congregações religiosas femininas fiéis à ortopraxia católica, bloqueiam alguns desvios das irmãs Carmelitas Descalças.
- O controvertido bispo brasileiro D. Hélder Câmara é substituído por D. José Cardoso Sobrinho, que se dedica à reorganização da diocese através de uma longa série de pedidos de esclarecimentos – e, diante de rebeliões, de afastamentos – de docentes, religiosos e sacerdotes próximos a uma certa Teologia da Libertação.
- Entre os dias 9 e 13 de abril, acontece em Loreto o II Encontro da Igreja italiana, com o título “Reconciliação cristão e comunidade dos homens”. A palestra do Papa nesse encontro marca o início de um renovado cuidado pastoral de João Paulo II com a Igreja da Itália. Um ano depois, no dia 26 de junho de 1986, João Paulo II nomeia D. Camillo Ruini como secretário da CEI (Conferência Episcopal Italiana; ndt). O prelado assumirá o delicado papel de adequação da cristandade italiana às necessidades da Nova Evangelização inspirada pelo Espírito Santo a João Paulo II. Para a Ação Católica, essa adequação será realizada por D. Antonio Bianchin que, a partir de 1987 se torna novo Assistente Geral, procedendo a uma renovação dos quadros diretivos nacionais, sobretudo na diocese ambrosiana.

1986
- Em 22 de março, é publicada a Instrução da CDF Libertatis conscientia sobre a liberdade cristã e a libertação, com uma nova atenção acerca da influência do socialismo e do marxismo na prática pastoral.
- Em uma Notificação de 15 de setembro, a CDF afirma que “a concepção do ministério assim como é exposta pelo professor Schillebeeckx permanece em desacordo com o ensinamento da Igreja em pontos importantes”.
- A CDF (no dia 25 de julho) declara “não idôneo para o ensino da teologia católica” o teólogo norte-americano Charles Curran, crítico do Magistério da encíclica de Paulo VI Humanae vitae, e confuso adepto de uma presumida “legitimidade do dissenso da autoridade”.
- O arcebispo norte-americano de Seattle, D. Raymond Hunthausen, através de uma carta, informa os seus sacerdotes de sua renúncia, sob indicação da Sé Apostólica, aos poderes pastorais nos seguintes campos: tribunal diocesano, liturgia, formação do clero, sacerdotes que deixaram o ministério, questões morais.
- Vem à luz a muito corajosa carta Homosexualitatis problema (de 1º de outubro) da CDF, que afirma que “a inclinação [homossexual] deve ser considerada como objetivamente desordenada”; e que, de modo algum, pode ser moralmente aceito o exercícios da sexualidade entre pessoas do mesmo sexo. As forças infernais organizam uma violenta campanha de difamação de Sua Eminência o cardeal Ratzinger.

1987
- O abade da basílica romana de São Paulo fora dos Muros, P.e Giuseppe Nardin, assina sua própria demissão e se retira em um lugar de oração, após observações sobre a sua colaboração com o abade anterior, Giovanni Franzoni, fundador da Comunidade “de base” de São Paulo e já adepto do Partido Comunista.
- A CDF aconselha D. Mattew Clark, da diocese norte-americana de Rochester, a retirar o imprimatur de um manual de sexualidade usado como auxílio a pais para a educação dos filhos, escrito por católicos.
- Em abril, o comboniano P.e Alex Zanotelli, com solicitação do prefeito do Dicastério para a Evangelização dos Povos (ex Propaganda Fide, da qual dependem as Congregações missionárias), cardeal Josef Tomko, se demite da direção (assumida em 1978) do periódico mensal “Nigrizia”. Zanotelli tinha dado uma marca fortemente socialista à revista, que há tempo não tinha mais nem traço de seu caráter missionário original.
- A Congregação para os Religiosos faz a correção de alguns desvios na interpretação do Concílio Vaticano II acerca de uma pretensa “igualdade de oportunidades” de religiosos leigos e religiosos sacerdotes na orientação das Ordens e Institutos religiosos. A Ordem dos Capuchinhos se notabiliza entre as primeiras a retificarem algumas disposições capitulares.

* Extraído de Totus tuus network. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

A Anatel ameaça o sigilo

E ainda há quem diga que essa história de projeto de controle estatal é pura paranoia de reacionário... A coisa que me impressiona é que ninguém se dê o trabalho de saber o que se passa nos porões do governo e das tais agências reguladoras que aí estão... ou que, quando sabem de alguma coisa, acham que tudo está dentro da normalidade e que não há nada a temer. Então, tá!
Abaixo, segue editorial do jornal O Estado de São Paulo do dia 21 de janeiro. Já há alguns dias tenho acompanhado essa história... entre estupefato e indignado.

Está em risco o direito de cada um ao sigilo telefônico e à privacidade. A ameaça parte da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), criada para regular um serviço de utilidade pública e para proteger o consumidor, não para bisbilhotar a vida dos clientes das telefônicas. A Anatel pretende instalar um sistema de fiscalização remoto, vinculado à estrutura das empresas, para ter acesso a informações sobre todas as chamadas. O objetivo, segundo a agência, é combater abusos contra o consumidor. Não haverá violação de sigilo, argumentam os defensores da proposta, porque o conteúdo das conversas será preservado. Esta alegação é insustentável.
É direito de cada um telefonar a quem quiser, quantas vezes quiser e por quanto tempo quiser sem ter de dar satisfações a qualquer agente público ou privado. O mesmo direito vigora no caso de cada ligação recebida. Sem ordem judicial, ninguém pode intrometer-se legalmente na vida de João ou de Antônio para verificar se foi feita alguma chamada para o número desta ou daquela pessoa. Mesmo para a autorização judicial há regras. O juiz tem de avaliar se há motivo razoável para a solicitação da quebra de sigilo. Além disso, ele deve limitar a autorização a propósitos bem definidos e por prazo determinado, para evitar a concessão de poderes excessivos à autoridade policial.
Dados como os pretendidos pela Anatel - números chamados, duração das conversas e frequência das ligações - têm sido usados em investigações policiais. Podem valer como indícios e até como provas. Autoridades policiais pedem autorização para a busca dessas informações precisamente porque o acesso aos dados configura quebra de sigilo. Essa é a interpretação aceita pelas Polícias e pela Justiça.
É também, e não por casualidade, a opinião de advogados atuantes no setor de telecomunicações. Bastará o acesso da agência ao número chamado, à data e à duração do contato para ser configurada a violação de sigilo, disse o especialista Pedro Dutra. "Isso é ilegal, desnecessário e ineficaz", acrescentou.
A Anatel já tentou incluir em contratos de concessão uma cláusula de acesso aos dados, mas as companhias se opuseram, lembrou o advogado Floriano de Azevedo Marques, também citado em reportagem publicada ontem no Estado. Se a agência insistir na tentativa, provavelmente haverá reação por via judicial, acrescentou o especialista.
A pretensão da Anatel é claramente contrária a um direito consagrado pela Constituição. Nenhuma esforço de justificação realizado até agora produziu mais que um arremedo de argumento. O simples acesso aos dados não envolve quebra de sigilo, disse uma fonte do governo mencionada na reportagem. A relação da Anatel com as informações sobre as chamadas seria análoga, segundo essa fonte, à relação da Receita com os dados fornecidos pelos contribuintes. A analogia é obviamente falsa.
As informações transmitidas pelo contribuinte ao Fisco são necessárias ao cumprimento das obrigações tributárias. O dever do Fisco em relação ao sigilo consiste em impedir o vazamento dos dados. Mesmo essa restrição, como se viu na última campanha eleitoral, foi violada mais de uma vez. A relação entre o usuário dos serviços de telecomunicações e a Anatel é muito diferente do vínculo entre o pagador de impostos e a Receita.
De fato, a relação é oposta: no caso das telecomunicações, o credor é o usuário da telefonia, enquanto a parte sujeita a obrigações é a Anatel. O cliente da operadora não tem obrigação de expor sua vida privada à agência, mas tem o direito de exigir proteção. Essa proteção não depende, obviamente, do acesso permanente àquelas informações. A desconfiança em relação aos dados fornecidos pela operadora, em caso de reclamação, é uma desculpa precária e uma confissão de incompetência técnica.
Se o acesso permanente às informações sobre telefonemas for considerado legalmente aceitável, o sigilo das comunicações estará correndo risco de extinção. Em nome da segurança dos cidadãos, a Polícia poderá reivindicar igual direito à bisbilhotice. Por enquanto, a maioria dos policiais e juízes continua levando a sério o preceito constitucional. A Anatel deveria imitá-los. 

* Editorial do jornal O Estado de São Paulo, do dia 21 de janeiro de 2011. Extraído da versão online do jornal.

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mc 3,13-19
Naquele tempo, Jesus subiu ao monte e chamou os que ele quis. E foram até ele. Então Jesus designou Doze, para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios. Designou, pois, os Doze: Simão, a quem deu o nome de Pedro; Tiago e João, filhos de Zebedeu, aos quais deu o nome de Boanerges, que quer dizer "filhos do trovão"; André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, aquele que depois o traiu.

Comentário feito por Santa Teresa do Menino Jesus (1873-1897)
Carmelita, Doutora da Igreja 

Não vou fazer outra coisa senão começar a cantar o que eternamente devo repetir – "As misericórdias do Senhor"!!! (Sl 88,1) [...] Abrindo [...] o santo Evangelho, os meus olhos caíram sobre estas palavras: "Tendo Jesus subido a um monte, chamou a Si aqueles que lhe aprouve; e vieram para Ele". Eis todo o mistério da minha vocação, da minha vida inteira e, sobretudo, o mistério dos privilégios de Jesus para com a minha alma... Não chama aqueles que são dignos, mas aqueles que Lhe apraz ou, como diz São Paulo: "Deus tem piedade de quem Ele quer e faz misericórdia a quem Ele quer fazer misericórdia. Não é portanto do que quer nem do que corre, mas de Deus que faz misericórdia" (Rom 9, 15-16). Durante muito tempo me perguntei por que Deus tinha preferências, por que nem todas as almas recebiam igual medida de graças; admirava-me ao vê-Lo prodigalizar favores extraordinários aos Santos que o tinham ofendido, como São Paulo, Santo Agostinho e que Ele forçava, por assim dizer, a receber as Suas graças; ou então, ao ler a vida dos santos que Nosso Senhor Se comprazia em acarinhar, deste o berço à sepultura, sem permitir no seu caminho qualquer obstáculo que os impedisse de se elevarem para Ele. [...] Jesus dignou-se instruir-me acerca deste mistério. Colocou diante de mim o livro da natureza e compreendi que todas as flores que Ele criou são belas. [...] Quis criar os grandes santos que podem ser comparados aos lírios e às rosas; mas criou também outras, menores e estas devem contentar-se com ser margaridas ou violetas, destinadas a deleitar os olhares de Deus quando as curva aos Seus pés. A perfeição consiste em fazer a Sua vontade, em ser o que Ele quer que sejamos... 

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Cartas do P.e Aldo 177

Asunción, 15 de janeiro de 2011.

Caros amigos,
Nestas semanas, estou com o pensamento fixo sobre dois fatos que encontramos no Evangelho: o nascimento e a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo na cruz e o olhar de Jesus a Zaqueu.
1. O nascimento e a morte de Nosso Senhor: os primeiros que foram encontrá-Lo em Belém eram pastores. Normalmente, quando pensamos nos pastores, temos deles uma imagem bucólica ou romântica. Mas, não acredito que esta imagem corresponda à realidade. Eram beduínos, deslocavam-se continuamente, vivem dias cheios, roubavam, assaltavam... uma vida certamente desordenada, vida de pecadores. Penso neles assim, porque me recordo dos pastores da minha terra, que eram “bandidos”, não tinham moradia fixa e tantas vezes nem tinham uma família. Deslocavam-se da montanha ao mar segundo as estações. Causavam danos em todos os lugares por onde passavam, roubando... concretamente, era uma vida desordenada, e a blasfêmia era a sua linguagem normal. Viviam com suas ovelhas, cavalos, jumentos e cães, se tornando, às vezes, como eles. Não quero pensar no filme dos irmãos Taviani – “Padre padrone” (Pai chefe; ndt) –, mas acredito que eles faziam parte, de alguma maneira, daquela categoria... em suma... eram pecadores. Como aqueles dois que estavam ao lado de Jesus, na cruz. Amigos! Tudo isso é desconcertante! No início, como no fim, Jesus se encontra entre pecadores, assim como durante a sua vida. E isto me enche de comoção, porque ressalta o fato que Jesus veio para nós, pobres filhos de Eva, veio graças à nossa pobre e frágil humanidade. Por isso, é espontâneo para mim me perguntar: aquilo que Carrón nos diz sobre a nossa humanidade como caminho para Cristo é o ponto sobre o qual trabalhamos seriamente? Penso nisso porque, sem uma grande simpatia pela nossa humanidade assim como ela é, o que quererá dizer que Cristo é contemporâneo? Para mim, o encontro com Cristo coincidiu e coincide com uma afeição grande pela minha humanidade: a alegria de ser homem, a liberdade de olhar com ironia os meus pecados, os meus limites. Não é mais o pecado, o limite, a me definirem, mas aquele olhar, assim como, para os pastores, uma vez que O viram, assim como para aquele ladrão, uma vez que, sobre a cruz, virou a cabeça e fixou Aquele Homem. Graças àquele Olhar, roubou dEle o paraíso. Um verdadeiro “ladrão” até ao fim! A simpatia pela nossa humanidade, semelhante àquela dos pastores ou dos dois ladrões na cruz com Jesus, cresceu ou permaneceu escondida num canto do nosso eu? Fico comovido por sentir-me abraçado por aquele menino, da mesma maneira que os pastores, ou aqueles dois bandidos, um dos quais entrou no paraíso no último instante da sua vida, quando reconheceu em Jesus o Filho de Deus. Amigos, será que nos damos conta de que Cristo precisa do nosso limite, do nosso temperamento?
Nestes dias, recebi na clínica, pela terceira vez, um rapaz doente de câncer. Um rapaz que vive na rua, com uma experiência terrível de amizades, tentativas de homicídio, de furtos, droga etc. Tem um câncer que parece uma pedra aguda na cabeça e outro na parte direita do pescoço que parece uma bola. Tantas vezes o recebemos e cuidamos dele, tantas vezes escapou, deixando-me o coração partido. Foi muitas vezes para a cadeia. Agora, voltou porque não dá mais conta, está acabado. Tem 18 anos. Ontem, me pediu a confissão. Foi, de fato, um reacontecer daquilo que aconteceu aos pastores ou aos dois na cruz, ou melhor, àquele que pediu perdão. Eu o olhava nos olhos pretos e lúcidos, enquanto pedia perdão. “Eu te absolvo...” e toda a sua história de miséria se tornou, de uma só vez, uma história de graça.
Amigos, pudéssemos nos deixar abraçar por aquele menino ou por aquele Homem que veio, vive e se faz presente todos os dias para nos dizer “amei-te de amor eterno, tendo piedade do teu nada”! Nestes dias, o calor chegou a 42º e, no entanto, mesmo isso é graça e me permite dizer, mesmo se todo molhado de suor e com a respiração ofegante, “Tu, oh meu Cristo”. E assim, tudo se torna uma graça, uma vibração apaixonada pela ternura de Jesus, que me faz olhar para os meus filhos tão belos com uma ternura única, um pouco como aquela de Jesus. Olhando-os, acho-os de uma beleza indescritível, sorridentes, vivos, certos daquele “eu sou Tu que me fazes”, ainda que tendo vivido violências terríveis, como as crianças que Herodes assassinou tentando eliminar também a Jesus.
2. O olhar de Zaqueu: impressiona-me e me conforta ver como Carrón nos provoca continuamente com este fato... e quanto mais assimilo aquele olhar, tanto mais sinto vibrar dentro de mim aquilo que Zaqueu experimentou no momento em que Jesus o chamou pelo nome. Aquele instante ficou pregado na minha mente, aquele átimo no qual se encontraram o olhar de Zaqueu e do Mestre. Tentem pensar, em meio aos problemas de todos os dias, no significado do sentir-se olhados, fixados daquele modo! Tudo se desfaz, se ilumina. Não desaparecem os problemas, os estados de ânimo, as doenças, a depressão, mas tudo se torna outra coisa, porque aquele olhar muda tudo, abraça tudo, domina tudo.
Florêncio é um rapaz de 20 anos, sozinho no mundo, foi recolhido por uma mulher com problemas psiquiátricos. Um drama dentro de outro drama. Miséria, fome, abandono. E, finalmente, um câncer “comeu” o rosto do rapaz, que, hoje, está terrivelmente desfigurado. A “mãe”, internada diversas vezes no manicômio. Conseguimos tirá-la deste lager e levá-la para junto do filho. Dia e noite, ela o assiste com uma amabilidade tão grande que nós, “sãos”, se não vibrássemos como Zaqueu por Jesus, não conseguiríamos entender, ou melhor, não seríamos nem mesmo capazes de nos dar conta. Olhando para aquele rapaz moribundo que, de vez em quando, retoma a consciência por um pouco, lhe pergunto “como está, Florêncio?”, e ele, levantando levemente o polegar da mão, me faz entender: “bem”. Outro dia, pensávamos que estivesse para morrer e a mãe me disse: “Padre, prefiro levá-lo para casa comigo vivo, porque se ele morrer aqui, eu não terei dinheiro para levá-lo até à casa, porque o traslado é muito caro (são 300 km daqui)”. Olho-a com ternura e lhe digo: “Estela, não se preocupe... a Providência cuidará de tudo”. E se tranquilizou. Algumas horas depois, passei perto dela e vi, com surpresa, que Florêncio estava sentado na cama e com uma canetinha estava desenhando uma figura feminina. Olho para o desenho e olho para ele comovido... da sua boca saía uma líquido podre... mas que ternura! Ele é literalmente consumido pelo câncer, todo inchado, com a carne já em decomposição, e no entanto com o olhar que me diz que a vida é bela! Eu o entendo, o invejo, porque ele é assim porque encontrou, alguns meses atrás, quando chegou aqui em condições desesperadas, o mesmo olhar que Zaqueu experimentou diante do olhar do Senhor. Não se pode explicar de outra forma como um rapaz naquelas condições, nos poucos momentos de lucidez e de consciência, diante da minha pergunta sobre como está, me responda OK levantando o polegar e me fixando com o seu olhar. O que posso fazer, além de beijá-lo e, ajoelhando-me diante dele, deixar-me olhar como Zaqueu por Jesus, presente em Florêncio, consciente de estar diante da morte. Porque ele sente o cheiro da sua pobre carne que só espera a ressurreição para se recompor, gloriosa e bela!
Amigos, quando Carrón nos lembra, em seu artigo de Natal, que Cristo está presente hoje, para mim, para vocês, instnate depois de instante, não posso não pensar no hino “Iesus dulcis memoria”. De verdade, é mesmo bonito viver com quem nos chama a atenção e nos remente em cada momento à doçura de Jesus.
Padre Aldo
P.S.: aos tão numerosos emails que vocês me enviam, responderei nos próximos dias, quando estarei, por alguns dias, no Brasil com meus amigos. Estar com eles é, para mim, repousar, na doce memória de Jesus.

700 mortos e 8 passaportes

Por Demétrio Magnoli*

Marco Aurélio Garcia qualificou como assunto "de uma irrelevância absoluta" a concessão de passaportes diplomáticos aos filhos e netos de Lula. Ele, certamente, considera relevante a tragédia que ceifou mais de 700 vidas e destruiu cidades inteiras na Região Serrana do Rio de Janeiro. Os dois eventos, cujos impactos sobre a vida nacional são incomparáveis, estão relacionados, ainda que indiretamente. Eles, além disso, têm igual relevância, pois procedem da mesma fonte: a delinquência atávica de uma elite política hostil ao interesse público.
A lei é cristalina ao listar os critérios que regulam a concessão de passaportes diplomáticos. O ex-ministro Celso Amorim violou a lei, a pedido de Lula, quando presenteou a prole estendida do ex-presidente com o privilégio reservado aos representantes do Estado. O gesto ilegal não é amenizado, mas agravado pelo recurso cínico à invocação do "interesse nacional". O que o Ministério Público precisa para acusar o ex-ministro e o ex-presidente de abuso de autoridade?
Certos grupos ambientalistas propensos à mistificação culpam as mudanças climáticas globais pela catástrofe no Rio de Janeiro. Mas as precipitações torrenciais e os deslizamentos em encostas de morros fazem parte da dinâmica climática e geomorfológica normal das serras do Sudeste brasileiro. A intensidade das chuvas não é explicação suficiente das causas de uma das maiores tragédias humanas da história do País. Uma urbanização descontrolada, com ocupação extensiva de encostas de morros e várzeas inundáveis, moldou o cenário do desastre. Os mortos, as famílias devastadas, os desabrigados são o produto de décadas de escolhas políticas baseadas numa racionalidade avessa ao interesse público e, muitas vezes, às próprias leis. O que o Congresso Nacional precisa para instalar uma CPI dedicada à investigação do enredo completo da tragédia anunciada?
O patrimonialismo "é a vida privada incrustada na vida pública", segundo a definição de Octavio Paz. Na sua trajetória rumo ao poder, o lulismo conectou-se com um anseio profundo da sociedade brasileira ao fazer a denúncia sistemática de uma elite política consagrada ao intercâmbio de privilégios oriundos do controle do aparelho de Estado. Lula tocou um nervo exposto com seus "300 picaretas do Congresso", tirada irresponsável que se converteu em canção popular e sintetizou a bandeira de mudança com a qual alcançaria o Planalto. De lá para cá, ele e seu partido traíram noite e dia o compromisso original. A emissão dos passaportes diplomáticos equivale a uma abjuração escrita: o presidente que sai transforma a corrupção em virtude, zombando da "lei das gentes".
Não há mais de 700 mortos no Rio de Janeiro porque Lula concedeu à sua descendência o privilégio ilegal, mas porque a elite política que hoje Lula personifica zomba da "lei das gentes". Cada uma das áreas de risco ocupadas na Região Serrana fluminense tem a sua história singular. Alguns bairros surgiram por incúria das autoridades públicas. Outros se estabeleceram sob o amparo de acordos espúrios entre loteadores e políticos em cargos de mando. Prefeitos e vereadores formaram clientelas eleitorais estimulando a ocupação de vertentes e várzeas, ou apenas condescendendo com a violação das normas. A catástrofe foi tecida com os fios de uma política que combina populismo, patrimonialismo e clientelismo. Na Austrália, inundações muito mais amplas deixaram um saldo de mortes que se conta na casa de poucas dezenas, não de várias centenas.
Lula e os seus não se limitaram a absorver os usos e costumes da elite política estabelecida, mas foram bem mais longe, produzindo uma espécie de elogio público do patrimonialismo. O ex-presidente proclamou a inimputabilidade de José Sarney (o "homem incomum"), mudou a lei para beneficiar a empresa financiadora do negócio de seu filho e, na hora da despedida, comportou-se como um potentado, oferecendo passaportes diplomáticos aos familiares com a desenvoltura de um pai que distribui ovos de Páscoa. Como exigir de autoridades estaduais e municipais o respeito à lei, a adesão à norma, quando a República se transfigura na fazenda dos Lula da Silva?
"Sempre tem a hora de fazer avaliação. Tem que se fazer uma autocrítica, por que se permitiu fazer tudo isso. Mas agora é resgatar corpos e ajudar famílias desabrigadas. Não vamos perder tempo nesse momento." O governador Sérgio Cabral não é mais responsável pela tragédia que seus predecessores ou que os prefeitos, vereadores e lideranças locais da Região Serrana do Rio de Janeiro. Contudo, ao fabricar uma acusação preventiva contra os críticos, ameaçando crismá-los como inimigos da ajuda às vítimas, revela-se mais inteligente - e muito mais nocivo ao interesse público. A sua operação de linguagem tem o objetivo de suspender o debate político enquanto perdurar a emergência humanitária. É a receita certa para proteger a elite política que parasita a sociedade.
Uma tristeza avassaladora começou a se espalhar pelo Brasil inteiro com as primeiras imagens da tragédia. A memória dos mais de 700 mortos merece um monumento que não seja feito de pedra nem se preste à demagogia das inaugurações políticas. O monumento só pode ser um programa plurianual ambicioso de reconstrução das cidades devastadas e remodelação estrutural dos padrões de ocupação do solo na Região Serrana fluminense e em inúmeras outras cidades e corredores urbanos do País. Os recursos para tanto existem, mas serão queimados na pira ardente das obras colossais da Copa do Mundo e da Olimpíada.
As chuvas de janeiro provocaram um trauma nacional duradouro. O verão não terminou. As águas da destruição ainda podem apagar o fogo do desperdício sem freios e das negociatas fabulosas promovidas em nome do orgulho nacional. É a única homenagem verdadeira que os vivos podem prestar aos mortos.

* Demétrio Magnoli é sociólogo e Doutor em Geografia Humana pela USP. O texto foi extraído da versão online d'O Estado de São Paulo, do dia 20 de janeiro de 2011.