quinta-feira, 31 de março de 2011

Família: viveiro de virtudes, escola de convivência, instrumento de concórdia...

Mensagem do Santo Padre Bento XVI
Por ocasião do Encontro dos Bispos responsáveis
pelas Comissões Episcopais de Família e Vida
da América Latina e Caribe
Bogotá, 28 de março a 1º de abril de 2011

Ao venerado irmão Cardeal Ennio Antonelli
Fico feliz de saudá-lo cordialmente, Eminência, e aos outros cardeais, bispos e sacerdotes que participam do encontro de responsáveis pelas Comissões Episcopais de Família e Vida da América Latina e do Caribe, que acontece em Bogotá.
Como disse na V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, a família é o valor mais caro aos povos dessas nobres terras. Por esse motivo, a pastoral familiar tem um lugar de relevo na ação evangelizadora de cada um das diversas igrejas particulares, promovendo a cultura da vida e trabalhando para que os direitos das famílias sejam reconhecidos e respeitados.
Constata-se, porém, com dor, como os lares domésticos vêm sofrendo cada vez mais com situações adversas provocadas pelas rápidas mudanças culturais, pela instabilidade social, pelos fluxos migratórios, pela pobreza, pelos programas de educação que banalizam a sexualidade e pelas falsas ideologias. Não podemos ficar indiferentes diante destes desafios. No Evangelho encontramos a luz necessária para responder a eles sem que percamos o ânimo. Cristo, com a Sua graça, nos impulsiona a trabalhar com diligência e entusiasmo para acompanhar cada um dos membros das famílias na descoberta do projeto de amor que Deus tem para a pessoa humana. Nenhum esforço será, por isso, inútil para a promoção de tudo aquilo que poderá contribuir para permitir que cada família, fundada na união indissolúvel entre um homem e uma mulher, leve a bom termo a sua missão de ser célula viva da sociedade, viveiro de virtudes, escola de convivência construtiva e pacífica, instrumento de concórdia e âmbito privilegiado no qual, de modo feliz e responsável, a vida humana é acolhida e protegida, desde o seu início até ao seu fim natural. Vale também a pena continuar a encorajar os pais em seu direito e obrigação fundamental de educar as novas gerações na fé e nos valores que dignificam a existência humana.
Não duvido que a missão continental promovida em Aparecida, e que está despertando tantas esperanças em tantos lugares, sirva para reacender nos amados países latinoamericanos e do Caribe a pastoral matrimonial e familiar. A Igreja pode contar com as famílias cristãs, chamando-as para serem um verdadeiro sujeito de evangelização e de apostolado, e convidando-as a tomar consciência de sua preciosa missão no mundo.
Encorajo, portanto, a todos os participantes desta significativa reunião a desenvolverem, em suas reflexões, as grandes linhas pastorais traçadas pelos episcopados reunidos em Aparecida, permitindo, de tal maneira, à família que viva um profundo encontro com Cristo, através da escuta da Sua Palavra, da oração, da vida sacramental e do exercício da caridade. Dessa forma, ela será ajudada a colocar em prática uma forte espiritualidade que favoreça, em todos os seus membros, uma decidida aspiração à santidade, sem temor de mostrar a beleza dos altos ideais e as exigências éticas e morais da vida em Cristo. Para promover isto, é preciso incrementar a formação de todos aqueles que, de um modo ou de outro, se dedicam à evangelização das famílias. Ao mesmo tempo, é importante empreender percursos de colaboração com todos os homens e mulheres de boa vontade, a fim de continuar a tutelar intensamente a vida humana, o matrimônio e a família em toda a região.
Concluo, exprimindo o meu afeto e a minha solidariedade a todas as famílias da América Latina e do Caribe, particularmente por aquelas que se encontram em situações difíceis. Enquanto confio à poderosa proteção da Santíssima Virgem Maria os frutos desta louvável iniciativa, concedo-lhes, de coração, a Bênção Apostólica, que estendo com prazer a todos os que se empenham na evangelização e na promoção do bem das famílias.

Vaticano, 28 de março de 2011.
Bento XVI

* Extraído do site do Vaticano, do dia 28 de março de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

A santidade é acessível a todo cristão

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 30 de março de 2011

Santo Afonso Maria de Ligório

Caros irmãos e irmãs,
Hoje, gostaria de vos apresentar a figura de um Santo Doutor da Igreja a quem devemos muito, porque foi um insigne teólogo moralista e um mestre de vida espiritual para todos, sobretudo para as pessoas simples. É o autor das palavras e da música de um dos cantos de Natal mais populares na Itália e no mundo: Tu scendi dalle stelle.
Pertencendo a uma família napolitana nobre e rica, Afonso Maria de Ligório nasceu em 1696. Dotado de grandes qualidades intelectuais, aos 16 anos obteve a graduação em direito civil e canônico. Era o advogado mais brilhante de Nápoles: por oito anos venceu todas as causas que defendeu. Todavia, na sua alma sedenta de Deus e desejosa de perfeição, o Senhor o conduzia a compreender que outra era a vocação para a qual o chamava. De fato, em 1723, indignado com a corrupção e a injustiça que viciavam o ambiente forense, abandonou a sua profissão – e, junto com ela, a riqueza e o sucesso – e decidiu se tornar sacerdote, não obstante a oposição de seu pai. Teve ótimos mestres, que o introduziram no estudo da Sagrada Escritura, da História da Igreja e da mística. Adquiriu uma vasta cultura teológica, que foi empregada quando, anos depois, deu início à sua obra de escritor. Foi ordenado sacerdote em 1726 e se ligou, para o exercício do ministério, à Congregação Diocesana das Missões Apostólicas. Afonso começou uma ação de evangelização e de catequese entre os meios mais humildes da sociedade napolitana, para quem gostava de pregar, e que instruía sobre verdades basilares da fé. Muitas dessas pessoas, pobres e modestas, a quem ele se dirigia, frequentemente eram viciadas e criminosas. Com paciência, as ensinava a rezar, encorajando-as a melhorar o seu modo de vida. Afonso obteve ótimos resultados: nos bairros mais miseráveis da cidade multiplicavam-se grupos de pessoas que, à noite, se reuniam nas casas e nas lojas, para rezar e para meditar a Palavra de Deus, guiados por alguns catequistas formados por Afonso e por outros sacerdotes, que visitavam regularmente estes grupos de fiéis. Quando, por desejo do arcebispo de Nápoles, estas reuniões começaram a acontecer nas capelas da cidade, assumiram o nome de “capelas noturnas”. Elas foram uma verdadeira fonte de educação moral, de reabilitação social, de ajuda recíproca entre os pobres: furtos, duelos, prostituição acabaram quase por desaparecer.
Mesmo se o contexto social e religioso da época de Santo Afonso era bem diverso do nosso, as “capelas noturnas” são ainda um modelo de ação missionária em que devemos nos inspirar hoje, para uma “nova evangelização”, particularmente dos mais pobres, e para construir uma convivência humana mais justa, fraterna e solidária. Aos sacerdotes é confiada uma tarefa de ministério espiritual, enquanto que os leigos bem formados podem ser eficazes animadores cristãos, autêntico fermento evangélico no meio da sociedade.
Depois de ter pensado em partir para evangelizar os povos pagãos, Afonso, aos 35 anos, entrou em contato com os agricultores e pastores do interior do Reino de Nápoles e, tocado com sua ignorância religiosa e com o estado de abandono em que viviam, decidiu deixar a capital e se dedicar a estas pessoas, que eram pobres espiritual e materialmente. Em 1732 fundou a Congregação do Santíssimo Redentor, que colocou sob a tutela do bispo Tommaso Falcoia, tornando-se, pouco depois, ele mesmo superior da ordem. Estes religiosos, guiados por Afonso, foram autênticos missionários itinerantes, que iam aos vilarejos mais remotos, exortando à conversão e à perseverança na vida cristã, sobretudo por meio da oração. Ainda hoje os Redentoristas, espalhados por tantos países do mundo, com novas formas de apostolado, continuam esta missão de evangelização. Penso neles com reconhecimento, exortando-os a serem sempre fiéis ao exemplo de seu santo Fundador.
Estimado por sua bondade e por seu zelo pastoral, em 1762, Afonso foi nomeado Bispo de Santa Águeda dos Godos, ministério que, devido à doença que o afetou, deixou em 1775, por concessão do Papa Pio VI. O mesmo Pontífice, em 1787, sabendo da notícia de sua morte, advinda depois de muito sofrimento, exclamou: “Era um santo!”. E não se enganava: Afonso foi canonizado em 1839, e em 1871 foi declarado Doutor da Igreja. Este título lhe foi concedido por muitas razões. Antes de mais, porque ele propôs um ensinamento de teologia moral muito rico, que expressa de forma adequada a doutrina católica, a ponto de ter sido proclamado pelo Papa Pio XII “Patrono de todos os confessores e moralistas”. No seu tempo, era difusa uma interpretação muito rigorista da vida moral, graças à mentalidade jansenista que, mais do que alimentar a confiança e a esperança na misericórdia de Deus, fomentava o medo e apresentava um Deus de rosto ranzinza e severo, muito distante daquele revelado por Jesus. Santo Afonso, sobretudo em sua obra mais importante, intitulada Teologia Moral, propôs uma síntese equilibrada e convincente entre as exigências da lei de Deus, esculpida em nossos corações, revelada plenamente por Cristo e interpretada com autoridade pela Igreja, e os dinamismos da consciência e da liberdade do homem, que exatamente na adesão à verdade e ao bem permitem o amadurecimento e a realização da pessoa. Aos pastores das almas e aos confessores, Afonso recomendava que fossem fiéis à doutrina moral católica, assumindo, ao mesmo tempo, uma postura caridosa, compreensiva, doce, a fim de que os penitentes pudessem se sentir acompanhados, sustentados, encorajados em seu caminho de fé e de vida cristã. Santo Afonso não se cansava de repetir que os sacerdotes são um sinal visível da infinita misericórdia de Deus, que perdoa e ilumina a mente e o coração do pecador para que ele se converta e mude de vida. Na nossa época, em que existem claros sinais de perda da consciência moral e – é preciso reconhecer isso – de uma certa falta de estima pelo Sacramento da Confissão, o ensinamento de Santo Afonso é ainda de grande atualidade.
Junto com suas obras de teologia, Santo Afonso compôs muitos outros escritos, destinados à formação religiosa do povo. O estilo é simples e agradável. Lidas e traduzidas para numerosas línguas, as obras de Santo Afonso contribuíram para plasmar a espiritualidade popular dos últimos dois séculos. Algumas delas são textos que podem ser lidos com grande proveito ainda hoje, com As Máximas Eternas, As Glórias de Maria, A Prática do Amor a Jesus Cristo, obra – esta última – que representa a síntese do seu pensamento e se trata de sua obra-prima. Ele insiste muito na necessidade da oração, que permite que nos abramos à Graça Divina, para realizar cotidianamente a vontade de Deus e conseguir a própria santificação. Quanto à oração, ele escreve: “Deus não nega a ninguém a graça da oração, com a qual se obtém a ajuda para vencer toda concupiscência e toda tentação. E digo, e repito e repetirei sempre, enquanto tiver vida, que toda a nossa salvação está na oração”. Daqui advém o seu famoso axioma: “Quem reza se salva” (Del gran mezzo della preghiera e opuscoli affini. Opere ascetiche II, Roma 1962, p. 171). Volta-me à mente, a propósito disto, a exortação do meu predecessor, o Venerável Servo de Deus João Paulo II: “As nossas comunidades cristãs devem se tornar ‘escolas de oração’... É preciso, então, a educação à oração se torne um ponto de qualificação de toda programação pastoral” (Lett. ap. Novo Millennio ineunte, 33,34).
Entre as formas de oração fervorosamente aconselhadas por Santo Afonso sobressai a visita ao Santíssimo Sacramento ou, como diríamos hoje, a adoração, breve ou prolongada, pessoal ou comunitária, diante da Eucaristia. “Certamente – escreve Afonso –, entre todas as devoções, a de adorar Jesus sacramentado é a primeira depois dos sacramentos, a mais cara a Deus e a mais útil para nós... Oh, que bela delícia estar diante de um altar com fé... e apresentar-lhe as próprias necessidades, como um amigo faz a outro amigo com quem tenha toda a confiança!” (Visite al SS. Sacramento ed a Maria SS. per ciascun giorno del mese. Introduzione). A espiritualidade afonsiana é, de fato, eminentemente cristológica, centrada em Cristo e em Seu Evangelho. A meditação do mistério da Encarnação e da Paixão do Senhor são frequentemente objeto da sua pregação. Nestes eventos, de fato, a Redenção é oferecida a todos os outros “copiosamente”. E exatamente porque é cristológica, a piedade afonsiana é também mariana. Devotíssimo de Maria, ele ilustra seu papel na história da salvação: sócia da Redenção e Mediadora da graça, Mãe, Advogada e Rainha. Além do mais, Santo Afonso afirma que a devoção a Maria nos será de grande conforto na hora de nossa morte. Ele era convencido de que a meditação sobre o nosso destino eterno, sobre o nosso chamado a participar, para sempre, da bem-aventurança de Deus, como também sobre a trágica possibilidade da danação, contribui para viver com serenidade e empenho, e para enfrentar a realidade da morte, conservando sempre plena confiança na bondade de Deus.
Santo Afonso Maria de Ligório é um exemplo de pastor zeloso, que conquistou as almas pregando o Evangelho e administrando os Sacramentos, unido a um modo de agir baseado numa humilde e suave bondade, que nascia do intenso relacionamento com Deus, que é a Bondade Infinita. Teve uma visão realisticamente otimista dos recursos de bem que o Senhor dá a cada homem e deu importância aos afetos e aos sentimentos do coração, além dos da mente, para poder amar a Deus e ao próximo.
Concluindo, gostaria de recordar que o nosso Santo, semelhante a São Francisco de Sales – de quem falei algumas semanas atrás –, insistiu em dizer que a santidade é acessível a todo cristão: “O religioso como religioso, o secular como secular, o sacerdote como sacerdote, o casado como casado, o mercador como mercador, o soldado como soldado, e assim falando de todos os outros estados de vida” (Pratica di amare Gesù Cristo. Opere ascetiche I, Roma 1933, p. 79). Agradeçamos ao Senhor que, com a Sua Providência, suscita santos e doutores em lugares e em tempos diversos, que falam a mesma linguagem para nos convidar a crescer na fé e a viver com amor e com alegria o nosso ser cristãos nas ações simples de todo dia, para caminhar na estrada da santidade, na estrada que leva a Deus e à verdadeira alegria. Obrigado.

Apelo
Há muito tempo meu pensamento, frequentemente, se volta às populações da Costa do Marfim, traumatizadas pelas dolorosas lutas internas e pelas graves tensções sociais e políticas.
Agora que exprimo minha proximidade a todos aqueles que perderam um ente querido e sofrem com a violência, lanço um apelo para que tenha início, o mais brevemente possível, um processo de diálogo construtivo para o bem comum. A oposição dramática torna ainda mais urgente o restabelecimento do respeito e da coabitação pacífica. Nenhum esforço deve ser poupado nesse sentido.
Com estes sentimentos, decidi enviar a este nobre país, o Cardeal Peter Kodwo Turkson, Presidente do Conselho Pontifício “Justiça e Paz”, para que ele manifeste minha solidariedade e a da Igreja universal para com as vítimas do conflito, e encoraje à reconciliação e à paz.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 30 de março de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Comentário ao evangelho do dia

5ª-feira da 3ª Semana Quaresma

1ª Leitura - Jr 7,23-28
Assim fala o Senhor: "Dei esta ordem ao povo dizendo: Ouvi a minha voz, assim serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; e segui adiante por todo o caminho que eu vos indicar para serdes felizes. Mas eles não ouviram e não prestaram atenção; ao contrário, seguindo as más inclinações do coração, andaram para trás e não para a frente, desde o dia em que seus pais saíram do Egito até ao dia de hoje. A todos enviei meus servos, os profetas, e enviei-os cada dia, começando bem cedo; mas não ouviram e não prestaram atenção; ao contrário, obstinaram-se no erro, procedendo ainda pior que seus pais. Se falares todas essas coisas, eles não te escutarão, e, se os chamares, não te darão resposta. Dirás, então: Esta é a nação que não escutou a voz do Senhor, seu Deus, e não aceitou correção. Sua fé morreu, foi arrancada de sua boca".

Evangelho - Lc 11,14-23
Naquele tempo, Jesus estava expulsando um demônio que era mudo. Quando o demônio saiu, o mudo começou a falar, e as multidões ficaram admiradas. Mas alguns disseram: "É por Belzebu, o príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios". Outros, para tentar Jesus, pediam-lhe um sinal do céu. Mas, conhecendo seus pensamentos, Jesus disse-lhes: "Todo reino dividido contra si mesmo será destruído; e cairá uma casa por cima da outra. Ora, se até Satanás está dividido contra si mesmo, como poderá sobreviver o seu reino? Vós dizeis que é por Belzebu que eu expulso os demônios. Se é por meio de Belzebu que eu expulso demônios, vossos filhos os expulsam por meio de quem? Por isso, eles mesmos serão vossos juízes. Mas, se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus. Quando um homem forte e bem armado guarda a própria casa, seus bens estão seguros. Mas, quando chega um homem mais forte do que ele, vence-o, arranca-lhe a armadura na qual ele confiava, e reparte o que roubou. Quem não está comigo, está contra mim. E quem não recolhe comigo, dispersa".

Comentário feito por Bento XVI
Encíclica "Spe Salvi" §§ 30-31

A época moderna desenvolveu a esperança da instauração de um mundo perfeito que, graças aos conhecimentos da ciência e a uma política cientificamente fundada, parecia tornar-se realizável. Assim, a esperança bíblica do reino de Deus foi substituída pela esperança do reino do homem, pela esperança de um mundo melhor que seria o verdadeiro "reino de Deus". Esta parecia finalmente a esperança grande e realista de que o homem necessita. Estava em condições de mobilizar – por um certo tempo – todas as energias do homem. [...] Mas, com o passar do tempo tornou-se claro que esta esperança escapava sempre para mais longe. Primeiro, compreendemos que esta era talvez uma esperança para os homens de amanhã, mas não uma esperança para mim. E, embora o elemento "para todos" faça parte da grande esperança – com efeito, não posso ser feliz contra e sem os demais –, o certo é que uma esperança que não diga respeito a mim pessoalmente não é sequer uma verdadeira esperança. E tornou-se evidente que esta era uma esperança contra a liberdade. [...] Precisamos das esperanças – menores ou maiores – que, dia após dia, nos mantêm a caminho. Mas, sem a grande esperança que deve superar todo o resto, aquelas não bastam. Esta grande esperança só pode ser Deus, que abraça o universo e nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos, não podemos conseguir. Precisamente o ser gratificado com um dom faz parte da esperança. Deus é o fundamento da esperança – não um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até ao fim: a cada indivíduo e à humanidade no seu conjunto. O Seu reino não é um além imaginário, colocado num futuro que nunca mais chega; o Seu reino está presente onde Ele é amado e onde o Seu amor nos alcança. 

Quaresma XXIII


"Quando rimos com eles, quando celebramos, quando tornamos nossas vidas bonitas, quando damos alegria uns aos outros por meio do amor, da partilha, manifestamos um poder que não podem tocar. Podemos ser artesãos de uma alegria que eles nunca imaginaram." (T. Merton).

Vinde, exultemos de alegria no Senhor, aclamemos o Rochedo que nos salva!
Sl 94(95), 1

* Extraído da Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Cartas do P.e Aldo 184



Asunción, 29 de março de 2011.

Caros amigos,
Carrón nos fala sempre da contemporaneidade de Cristo. Mas, o que isso quer dizer? Ver com os próprios olhos, tocar com as próprias mãos a vitória de Cristo ressuscitado como documentam as duas fotos da crisma de Alma e Carol, celebrada domingo passado na clínica.
Ambas gravemente doentes de câncer chegaram à clínica com o desespero no coração, com seus 17 anos de idade; aqui, encontraram, no abraço terno de Jesus, graças a quem vive com a certeza do “eu sou Tu que me fazes”, a alegria de viver. Alma era mórmon e quis se tornar católica e, no domingo, com sua companheira de quarto, recebeu o Espírito Santo, no Sacramento da Crisma. Olhem para o sinal da vitória de Cristo, da Sua contemporaneidade: a letícia que se vê em seus rostos.
Amigos, não existe circunstância – nem mesmo o câncer aos 17 anos – que seja mais forte do que Jesus. Uma confirmação belíssima disso é que o problema é apenas um: quem é Cristo, para mim? Que experiência faço dEle? Estou atento para recolher os sinais contínuos da Sua Presença? Li uma poesia de Rebora, quando estive recentemente em Stresa, que dizia assim: “Vigiar o instante”. Eis o que nos querem dizer os rostos de Alma e Carol, conscientes daquilo que têm aos 17 anos. “Vigiar o instante”, ou seja, “eu sou Tu que me fazes” como consciência do instante que me é dado.
Padre Aldo

Comentário ao evangelho do dia

4ª-feira da 3ª Semana Quaresma

1ª Leitura - Dt 4,1.5-9
Moisés falou ao povo, dizendo: "Agora, Israel, ouve as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir, para que, fazendo-o, vivais e entreis na posse da terra prometida que o Senhor Deus de vossos pais vos vai dar. Eis que vos ensinei leis e decretos conforme o Senhor meu Deus me ordenou, para que os pratiqueis na terra em que ides entrar e da qual tomareis posse. Vós os guardareis, pois, e os poreis em prática, porque neles está vossa sabedoria e inteligência perante os povos, para que, ouvindo todas estas leis, digam: 'Na verdade, é sábia e inteligente esta grande nação! Pois, qual é a grande nação cujos deuses lhe são tão próximos como o Senhor nosso Deus, sempre que o invocamos? E que nação haverá tão grande que tenha leis e decretos tão justos, como esta lei que hoje vos ponho diante dos olhos?'. Mas toma cuidado! Procura com grande zelo não te esqueceres de tudo o que viste com os próprios olhos, e nada deixes escapar do teu coração por todos os dias de tua vida; antes, ensina-o a teus filhos e netos".

Evangelho - Mt 5,17-19
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: "Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento. Em verdade, eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra. Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus".

Comentário feito por São Cirilo de Alexandria (380-444)
bispo e Doutor da Igreja

Vimos Cristo obedecer às leis de Moisés, o quer dizer que Deus, o legislador, se submetia, como um homem, às Suas próprias leis. É o que nos ensina São Paulo [...]: "Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei, para resgatar os que se encontravam sob o jugo da Lei" (Gal 4, 4-5). Por conseguinte, Cristo resgatou da maldição da Lei os que a ela estavam sujeitos, mas que não a observavam. De que modo os resgatou? Aperfeiçoando esta Lei; dito de outro modo, a fim de apagar a transgressão da qual Adão se tornou culpado, Ele mostrou-Se obediente e dócil para com Deus Pai em nosso lugar. Porque está escrito: "Como pela desobediência de um só, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornaram justos" (Rom 5, 19). Conosco, Ele curvou a cabeça perante a Lei, e fê-lo segundo o plano divino da Encarnação. Com efeito, "convém que cumpramos assim toda a justiça" (Mt 3, 15). Depois de ter tomado completamente a condição de servo (Fil 2, 7), precisamente porque a Sua condição humana o agregava ao número dos que suportavam o jugo, pagou o montante do imposto aos cobradores como toda a gente, ainda que por natureza, e como Filho, estivesse dispensado disso. Por conseguinte, quando tu O vês observar a Lei, não fiques chocado, não ponhas no rol de servos Aquele que é livre, mas avalia pelo pensamento a profundidade de um tal desígnio.

Quaresma XXII


"O nascer do sol é um acontecimento que faz soar música solene no mais profundo da natureza humana, como se seu próprio ser tivesse que entrar em harmonia com o cosmos e louvar a Deus pelo novo dia, louvá-Lo em todas as criaturas que já existiram ou existirão." (T. Merton)

Glorifica o Senhor, Jerusalém! Ó Sião, canta louvores ao teu Deus! Pois reforçou com segurança as tuas portas, e os teus filhos em teu seio abençoou.
Sl 147(147B), 12-13

* Extraído da Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton.

terça-feira, 29 de março de 2011

Comentário ao evangelho do dia

3ª-feira da 3ª Semana Quaresma

1ª Leitura - Dn 3,25.34-43
Naqueles dias, Azarias, parou e, de pé, começou a rezar; abrindo a boca no meio do fogo, disse: "Oh! não nos desampares nunca, nós te pedimos, por teu nome, não desfaças tua aliança nem retires de nós tua benevolência, por Abraão, teu amigo, por Isaac, teu servo, e por Israel, teu Santo, aos quais prometeste multiplicar a descendência como estrelas do céu e como areia que está na beira do mar; Senhor, estamos hoje reduzidos ao menor de todos os povos, somos hoje o mais humilde em toda a terra, por causa de nossos pecados; neste tempo estamos sem chefes, sem profetas, sem guia, não há holocausto nem sacrifício, não há oblação nem incenso, não há um lugar para oferecermos em tua presença as primícias, e encontrarmos benevolência; mas, de alma contrita e em espírito de humildade, sejamos acolhidos, e como nos holocaustos de carneiros e touros e como nos sacrifícios de milhares de cordeiros gordos, assim se efetue hoje nosso sacrifício em tua presença, e tu faças que nós te sigamos até ao fim; não se sentirá frustrado quem põe em ti sua confiança. De agora em diante, queremos, de todo o coração, seguir-te, temer-te, buscar tua face; não nos deixes confundidos, mas trata-nos segundo a tua clemência e segundo a tua imensa misericórdia; liberta-nos com o poder de tuas maravilhas e torna teu nome glorificado, Senhor".

Evangelho - Mt 18,21-35
Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: "Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?". Jesus respondeu: "Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. Quando começou o acerto, trouxeram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. O empregado, porém, caíu aos pés do patrão, e, prostrado, suplicava: 'Dá-me um prazo! e eu te pagarei tudo'. Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida. Ao sair dali, aquele empregado encontrou um dos seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: 'Paga o que me deves'. O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: 'Dá-me um prazo! e eu te pagarei'. Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia. Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram  o patrão e lhe contaram tudo. Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: 'Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. Não devias tu também, ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?'. O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão".

Comentário extraído das liturgias bizantinas e orientais da Grande Quaresma 
Oração de Santo Efrém, o Sírio

Senhor e Mestre da minha vida, 
não me abandones ao espírito de preguiça, de desencorajamento 
de dominação e de vã tagarelice.

(Prostramo-nos)

Concede-me a graça de um espírito de castidade, de humildade, 
de paciência e de caridade, a mim, Teu servo.

(Prostramo-nos)

Sim, meu Senhor e meu Rei, que eu veja as minhas faltas 
e não condene o meu irmão. 
Tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amen. 

(Prostramo-nos e, seguidamente, inclinamo-nos até ao chão e dizemos três vezes)

Ó Deus, tem piedade de mim, pecador. 
Ó Deus, purifica-me que sou pecador. 
Ó Deus, meu Criador, salva-me. 
Perdoa-me os meus numerosos pecados!

Quaresma XXI


"A sabedoria é o conhecimento da Verdade em sua quase realidade, a experiência da Verdade, a que se chega por meio da retidão da alma. A sabedoria conhece Deus em nós mesmos e nós em Deus." (T. Merton)

Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação; em vós espero, ó Senhor, todos os dias!
Sl 24(25), 5

* Extraído da Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton.

segunda-feira, 28 de março de 2011

A onipotência do Amor respeita sempre a liberdade do homem...

Bento XVI

Angelus

Praça São Pedro
Domingo, 27 de março de 2011.

Caros irmãos e irmãs!
Este 3º Domingo da Quaresma é caracterizado pelo célebre diálogo de Jesus com a mulher Samaritana, contado pelo evangelista João. A mulher ia todos os dias buscar água num antigo poço, que remontava ao patriarca Jacó e, naquele dia, encontrou Jesus ali, sentado, “cansado da viagem” (Jo 4, 6). Santo Agostinho comenta: “Não é por nada que Jesus se cansa... A força de Cristo te criou, a fraqueza de Cristo te recriou... Com a sua força nos criou, com a sua fraqueza veio nos buscar” (In Ioh. Ev., 15, 2). O cansaço de Jesus, sinal da sua verdadeira humanidade, pode ser visto como um prelúdio da paixão, com a qual Ele levou à realização a obra da nossa redenção. Particularmente, no encontro com a Samaritana, no poço, emerge o tema da “sede” de Cristo, que culmina no grito sobre a cruz: “Tenho sede” (Jo 19, 28). Certamente, esta sede, como o cansaço, tem uma base física. Mas Jesus, como ainda uma vez nos diz Agostinho, “tinha sede da fé daquela mulher” (In Ioh. Ev. 15, 11), assim como tem da fé de todos nós. Deus Pai o mandou para saciar a nossa sede de vida eterna, dando-nos o seu amor, mas para conceder-nos este dom Jesus pede a nossa fé. A onipotência do Amor respeita sempre a liberdade do homem; bate à porta do seu coração e espera com paciência a sua resposta. 
No encontro com a Samaritana vem à tona, em primeiro lugar, o símbolo da água, que alude claramente ao sacramento do Batismo, fonte de vida nova pela fé na Graça de Deus. Este Evangelho, de fato – como lembrei na Catequese da Quarta-Feira de Cinzas – faz parte do antigo itinerário de preparação dos catecúmenos para a iniciação cristão, que acontecia na grande Vigília da noite de Páscoa. “Quem beber da água que eu lhe darei – disse Jesus – nunca mais terá sede” (Jo 4, 14). Esta água representa o Espírito Santo, o “dom” por excelência que Jesus veio trazer da parte de Deus Pai. Quem renasce da água e do Espírito Santo, isto é no Batismo, entra numa relação real com Deus, uma relação filial, e pode adorá-Lo “em espírito e verdade” (Jo 4, 23.24), como revela ainda Jesus à mulher Samaritana. Graças ao encontro com Jesus Cristo e ao dom do Espírito Santo, a fé do homem atinge sua realização, como resposta à plenitude da revelação de Deus.
Cada um de nós pode se identificar com a mulher Samaritana: Jesus nos espera, especialmente neste tempo de Quaresma, para falar ao nosso, ao meu coração. Fiquemos um momento em silêncio, no nosso quarto, ou numa igreja, ou num lugar à parte. Escutemos a sua voz que nos diz: “Se tu conhecesses o dom de Deus...”. A Virgem Maria nos ajude a não faltar a este encontro, do qual depende a nossa verdadeira felicidade.

Apelo
Caros irmãos e irmãs,
Diante das notícias, sempre mais dramáticas, que vêm da Líbia, cresce o meu tremor pela proteção e segurança da população civil, e minha apreensão pela evolução da situação, atualmente marcada pelo uso de armas. Nos momentos de maior tensão é ainda mais urgente a exigência de recorrer a todo meio de que dispõe a ação diplomática e de sustentar mesmo os mais frágeis sinais de abertura e de vontade de reconciliação entre todas as partes envolvidas, na busca de solução pacíficas e duradouras.
Nesta perspectiva, enquanto elevo ao Senhor a minha oração por um retorno à concórdia na Líbia e em toda a região do Norte da África, faço um apelo aos organismos internacionais e a todos os que têm alguma responsabilidade política e militar pelo imediato início de um diálogo, que suspenda o uso de armas.
O meu pensamento se dirige, finalmente, às Autoridades e aos cidadãos do Oriente Médio, onde, nos dias passados, verificaram-se diversos episódios de violência, para que também lá se privilegia a via do diálogo e da reconciliação na busca de uma convivência justa e fraterna.

* Extraído do site do Vaticano. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Comentário ao evangelho do dia

2ª-feira da 3ª Semana Quaresma

1ª Leitura - 2Rs 5,1-15a
Naqueles dias, Naamã, general do exército do rei da Síria, era um homem muito estimado e considerado pelo seu senhor, pois foi por meio dele que o Senhor concedeu a vitória aos arameus. Mas esse homem, valente guerreiro, era leproso. Ora, um bando de arameus que tinha saído da Síria, tinha levado cativa uma moça do país de Israel. Ela ficou ao serviço da mulher de Naamã. Disse ela à sua senhora: "Ah, se meu senhor se apresentasse ao profeta que reside em Samaria, sem dúvida, ele o livraria da lepra de que padece!". Naamã foi então informar o seu senhor: "Uma moça do país de Israel disse isto e isto". Disse-lhe o rei de Aram: "Vai, que eu enviarei uma carta ao rei de Israel". Naamã partiu, levando consigo dez talentos de prata, seis mil siclos de ouro e dez mudas de roupa. E entregou ao rei de Israel a carta, que dizia: "Quando receberes esta carta, saberás que eu te enviei Naamã, meu servo, para que o cures de sua lepra". O rei de Israel, tendo lido a carta, rasgou suas vestes e disse: "Sou Deus, porventura, que possa dar a morte e a vida, para que este me mande um homem para curá-lo de lepra? Vê-se bem que ele busca pretexto contra mim". Quando Eliseu, o homem de Deus, soube que o rei de Israel havia rasgado as vestes, mandou dizer-lhe: "Por que rasgaste tuas vestes? Que ele venha a mim, para que saibas que há um profeta em Israel". Então Naamã chegou com seus cavalos e carros, e parou à porta da casa de Eliseu. Eliseu mandou um mensageiro para lhe dizer: "Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e tua carne será curada e ficarás limpo". Naamã, irritado, foi-se embora, dizendo: "Eu pensava que ele sairia para me receber e que, de pé, invocaria o nome do Senhor, seu Deus, e que tocaria com sua mão o lugar da lepra e me curaria. Será que os rios de Damasco, o Abana e o Farfar, não são melhores do que todas as águas de Israel, para eu me banhar nelas e ficar limpo?". Deu meia-volta e partiu indignado. Mas seus servos aproximaram-se dele e disseram-lhe: "Senhor, se o profeta te mandasse fazer uma coisa difícil, não a terias feito? Quanto mais agora que ele te disse: 'Lava-te e ficarás limpo'". Então ele desceu e mergulhou sete vezes no Jordão, conforme o homem de Deus tinha mandado, e sua carne tornou-se semelhante à de uma criancinha, e ele ficou purificado. Em seguida, voltou com toda a sua comitiva para junto do homem de Deus. Ao chegar, apresentou-se diante dele e disse: "Agora estou convencido de que não há outro Deus em toda a terra, senão o que há em Israel!".

Evangelho - Lc 4,24-30
Jesus, vindo a Nazaré, disse ao povo na sinagoga: "Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia. E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio". Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.

Comentário feito por Santo Ambrósio (340 ?-397)
bispo de Milão e Doutor da Igreja

Naamã era sírio e estava leproso, sem que ninguém o pudesse curar. Então, uma jovem prisioneira disse-lhe que havia em Israel um profeta que podia curá-lo da lepra. [...] Já é tempo de descobrires quem era aquela jovem prisioneira. Era a figura da assembleia mais nova de entre as nações, isto é, da Igreja do Senhor. Antes, quando não possuía ainda a liberdade da graça, fora humilhada pelo cativeiro do pecado. Mas, a seu conselho, este povo que não era ainda um povo escutou a palavra dos profetas, da qual duvidara durante muito tempo. Em seguida, quando acreditou que devia segui-la, o povo foi purificado de todo o contágio do pecado. Naamã duvidara antes de ser curado; mas tu já foste curado e por isso não deves duvidar. Já antes te foi dito que não devias acreditar apenas no que vês ao te aproximares do batistério, para que digas: "É este o 'grande mistério que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais passou pelo pensamento do homem' (1Cor 2, 9)? Eu vejo as águas que via todos os dias. Vão purificar-me estas águas a que tantas vezes desci sem nunca ter sido purificado?". Deves reconhecer que a água não purifica sem o Espírito. Por isso, leste que no batismo as três testemunhas são uma só: a água, o sangue e o Espírito (1Jo 5, 7-8); porque, se prescindires de uma delas, já não há sacramento do batismo. Que é a água sem a cruz de Cristo? É um elemento comum, sem nenhuma eficácia sacramental. Mas também é verdade que sem a água não há mistério da regeneração: "quem não renascer da água e do Espírito não entrará no reino de Deus" (Jo 3, 5). Também o catecúmeno acredita na cruz do Senhor Jesus, com a qual é assinalado; mas, se não for batizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, não pode receber o perdão dos pecados nem obter o dom da graça espiritual. Por isso o sírio Naamã mergulhou sete vezes, segundo a Lei; tu, porém, foste batizado em nome da Trindade. [...] Proclamaste a tua fé no Pai e no Filho e no Espírito Santo. [...] Morreste para o mundo, ressuscitaste para Deus e, de certo modo sepultado naquele elemento do mundo, morto para o pecado, ressuscitaste para a vida eterna (Rom 6, 4).

Quaresma XX


"Em meu coração há uma grande sede de reconhecer totalmente o nada de tudo que não é Deus. Assim, minha oração é uma espécie de louvor que se ergue do centro do Nada e do Silêncio." (T. Merton)

Minha alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo. 
Sl 41(42), 3

* Extraído da Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton.

domingo, 27 de março de 2011

Cartas do P.e Aldo 183

Asunción, 27 de março de 2011.

De volta ao Paraguai, vindo da Itália e de Portugal, onde estive movido apenas por aquilo que São Paulo disse – “Caritas Cristo urget nos” – e pelo amor aos meus Jesus que sofrem, tive uma surpresa comovida que confirma aquilo que Jesus disse: “As prostitutas vos precederão no reino dos céus”, ou “se não vos tornares como crianças não entrareis no reino dos céus”.
Adolfina, uma mulher de 60 anos, mãe de 7 filhos e que viveu na rua catando latinhas de refrigerante etc., está consciente de que morrerá em breve. Nunca teve um marido. A sua longa internação entre nós foi muito feliz: se alegrava com tudo, comovia-se por poder tomar o café da manhã, o almoço, o lanche, o jantar... Coisas que nunca soube o que eram, já que sempre viveu na rua. Agora, com a serenidade de uma criança nos braços de sua mãe, está se preparando para morrer.
Por isso, quis redigir um testamento dizendo para quem deixava tudo aquilo que possui.
Diz o testamento: “Deixo meu barracão [porém, fique claro que, para nós, é algo de muito pior] ao meu filho mais novo; o dinheirinho conseguido no trabalho de bordado que fiz enquanto estive na clínica [deve ser pouco mais de 60 reais] será dividido: uma parte para o meu filho mais novo, outra para os meus amigos de doença e outra parte quero deixar para o Santíssimo Sacramento, o diretor geral da Clínica. E, finalmente, o único animal doméstico que tenho – um ganso – deixo ao Padre Aldo, porque no dia 25 de março será a Festa da Anunciação e será inaugurada a finalização dos trabalhos estruturais da clínica, de forma que ele possa fazer a festa em honra da Divina Providência com todos os amigos”.
Não apenas fiquei comovido até às lágrimas, mas também pensei em todos os meus milhares de amigos, famílias, crianças, jovens que, com tanta dificuldade, conseguem viver e que permitiram este milagre da nova clínica, e também naqueles que, vítimas do terrível e odioso poder do dinheiro (para quem pedi a colaboração), são insensíveis a Cristo que sofre e morre. Mas, não falo de gente estranha, falo de cristãos, ou seja, de pessoas que, pelo menos nominalmente, pertencem a Cristo, a quem me permiti – somente por Cristo e não por mim, que “nasci nu e morrerei nu” – pedir uma ajuda para que a longa fila que espera para morrer aqui diminuísse.
Por isso, esta pobre mulher que viveu na rua me deixou tudo o que tinha, deixou para Cristo: um ganso. Amigos, que tapa na minha cara, que tapa na cara de cada um! Faz-nos pensar na oferta da viúva. Graças a tantos que, com sua simplicidade e seu afeto, me sustentam junto com Padre Paolino, numa obra que eu, absolutamente, não quis, mas que floresceu como uma flor a partir daquele abraço de Giussani, no dia 25 de março, festa da Anunciação, na Rua Martinengo. Também o presente de Adolfina, o ganso, é fruto daquela ternura.
Com afeto
Padre Aldo

Comentário ao evangelho do dia

3º Domingo Quaresma 
     
1ª Leitura - Ex 17,3-7
Naqueles dias, o povo, sedento de água, murmurava contra Moisés e dizia: "Por que nos fizeste sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede, a nós, nossos filhos e nosso gado?". Moisés clamou ao Senhor, dizendo: "Que farei por este povo? Por pouco não me apedrejam!". O Senhor disse a Moisés: "Passa adiante do povo e leva contigo alguns anciãos de Israel. Toma a tua vara com que feriste o rio Nilo e vai. Eu estarei lá, diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb. Ferirás a pedra e dela sairá água para o povo beber". Moisés assim fez na presença dos anciãos de Israel. E deu àquele lugar o nome de Massa e Meriba, por causa da disputa dos filhos de Israel e porque tentaram o Senhor, dizendo: "O Senhor está no meio de nós, ou não?".

2ª Leitura - Rm 5,1-2.5-8
Irmãos, justificados pela fé, estamos em paz com Deus, pela mediação do Senhor nosso, Jesus Cristo. Por ele tivemos acesso, pela fé, a esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus. E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Com efeito, quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelo ímpios, no tempo marcado. Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa muito boa, talvez alguém se anime a morrer. Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.

Evangelho - Jo 4,5-42
Naquele tempo, Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. Era aí que ficava o poço de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta do meio-dia. Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: "Dá-me de beber". Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. A mulher samaritana disse então a Jesus: "Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?". De fato, os judeus não se dão com os samaritanos. Respondeu-lhe Jesus: "Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: 'Dá-me de beber', tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva". A mulher disse a Jesus: "Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar a água viva? Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?". Respondeu Jesus: "Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna". A mulher disse a Jesus: "Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la". Disse-lhe Jesus: "Vai chamar teu marido e volta aqui". A mulher respondeu: "Eu não tenho marido". Jesus disse: "Disseste bem, que não tens marido, pois tiveste cinco maridos, e o que tens agora não é o teu marido. Nisso falaste a verdade". A mulher disse a Jesus: "Senhor, vejo que és um profeta! Os nossos pais adoraram neste monte mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar". Disse-lhe Jesus: "Acredita-me, mulher: está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade". A mulher disse a Jesus: "Sei que o Messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas". Disse-lhe Jesus: "Sou eu, que estou falando contigo". Nesse momento, chegaram os discípulos e ficaram admirados de ver Jesus falando com a mulher. Mas ninguém perguntou: "Que desejas?" ou: "Por que falas com ela?". Então a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade, dizendo ao povo: "Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?". O povo saiu da cidade e foi ao encontro de Jesus. Enquanto isso, os discípulos insistiam com Jesus, dizendo: "Mestre, come". Jesus, porém disse-lhes: "Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis". Os discípulos comentavam entre si: "Será que alguém trouxe alguma coisa para ele comer?". Disse-lhes Jesus: "O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra. Não dizeis vós: 'Ainda quatro meses, e aí vem a colheita!'. Pois eu vos digo: Levantai os olhos e vede os campos: eles estão dourados para a colheita! O ceifeiro já está recebendo o salário, e recolhe fruto para a vida eterna. Assim, o que semeia se alegra junto com o que colhe. Pois é verdade o provérbio que diz: 'Um é o que semeia e outro o que colhe'. Eu vos enviei para colher aquilo que não trabalhastes. Outros trabalharam e vós entrastes no trabalho deles". Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhava: "Ele me disse tudo o que eu fiz". Por isso, os samaritanos vieram ao encontro de Jesus e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias. E muitos outros creram por causa da sua palavra. E disseram à mulher: "Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos, que este é verdadeiramente o salvador do mundo".

Comentário feito por São Tiago de Sarug (c. 449-521)
monge e bispo sírio 

A vista da beleza de Raquel tornou Jacó, de certo modo, mais forte: ele conseguiu levantar a enorme pedra de cima do poço e, assim, dar de beber ao rebanho (Gn 29, 10). [...] Em Raquel, com quem casou, viu o símbolo da Igreja. Foi por isso que, ao beijá-la, teve de chorar e de sofrer (v. 11), a fim de prefigurar, pelo seu casamento, os sofrimentos do Filho. [...] Quão mais belas são as núpcias do Esposo real do que as dos Seus embaixadores! Jacó chorou por Raquel, ao desposá-la; Nosso Senhor cobriu a Igreja com o Seu sangue, ao salvá-la. As lágrimas são o símbolo do sangue, porque não é sem dor que elas jorram dos olhos. O choro do justo Jacó é o símbolo do grande sofrimento do Filho, pelo qual a Igreja das nações foi salva. Vem, contempla o nosso Mestre: Ele veio do Seu Pai para o mundo, aniquilou-Se para fazer o Seu caminho na humildade (Fil 2, 7). [...] Ele viu as nações como rebanhos sedentos e a fonte da vida fechada pelo pecado, como que por uma pedra. Ele viu a Igreja semelhante a Raquel, então avançou e derrubou o pecado, que era pesado como uma rocha. Ele abriu o batistério para a sua Esposa, para que ela se banhasse nele; e foi aí buscar água para dar de beber às nações da terra, como aos Seus rebanhos. Com toda a Sua onipotência, levantou o pesado fardo dos pecados; pôs a descoberto a fonte de água doce para o mundo inteiro. [...] Sim, pela Igreja, Nosso Senhor deu-Se a grandes trabalhos. Por amor, o Filho de Deus vendeu os Seus sofrimentos para poder desposar, à custa das Suas chagas, a Igreja abandonada. Por ela, que adorava os ídolos, sofreu sobre a cruz. Por ela, quis entregar-Se, para que ela fosse para Ele completamente imaculada (Ef 5, 25-27). Ele consentiu em levar às pastagens o rebanho inteiro dos homens, com o grande cajado da cruz; Ele não rejeitou o sofrimento. Ele aceitou conduzir raças, nações, tribos, multidões e povos, para poder reaver a Igreja, sua única Esposa (Ct 6, 9).

Quaresma XIX


"Cada momento e cada acontecimento da vida de cada homem na Terra planta algo em sua alma. Pois assim como o vento carrega milhares de sementes aladas, cada momento traz consigo germes de vitalidade espiritual que vão repousar imperceptivelmente na mente e na vontade dos homens." (T. Merton)

Cantai ao Senhor Deus um canto novo, cantai ao Senhor Deus, ó terra inteira!
Sl 95(96), 1

* Extraído da Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton.

sábado, 26 de março de 2011

Comentário ao evangelho do dia

Sábado da 2ª Semana Quaresma 
     
1ª Leitura - Mq 7,14-15.18-20
Apascenta o teu povo com o cajado da autoridade, o rebanho de tua propriedade, os habitantes dispersos pela mata e pelos campos cultivados. E, como foi nos dias em que nos fizeste sair do Egito, faze-nos ver novos prodígios. Qual Deus existe, como tu, que apagas a iniquidade e esqueces o pecado daqueles que são resto de tua propriedade? Ele não guarda rancor para sempre, o que ama é a misericórdia. Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniquidades e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados. Tu manterás fidelidade a Jacó e terás compaixão de Abraão, como juraste a nossos pais, desde tempos remotos.

Evangelho - Lc 15,1-3.11-32
Naquele tempo, os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus. "Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles." Então Jesus contou-lhes esta parábola: "Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao pai: 'Pai, dá-me a parte da herança que me cabe'. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a passar necessidade. Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam. Então caiu em si e disse: 'Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados'. Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o, e cobriu-o de beijos. O filho, então, lhe disse: 'Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho'. Mas o pai disse aos empregados: 'Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado'. E começaram a festa. O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança. Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. O criado respondeu: 'É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde'. Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: 'Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado'. Então o pai lhe disse: 'Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado'".

Comentário feito por Isaac de l'Étoile (?-c. 1171)
monge cistercense 

"Felizes os que choram, porque serão consolados" (Mt 5, 4). Com estas palavras, o Senhor quer fazer-nos compreender que o caminho da alegria são as lágrimas. Pela desolação chega-se à consolação; é perdendo a vida que a encontramos, rejeitando-a que a possuímos, odiando-a que a amamos, desprezando-a que a salvamos (cf Lc 9, 23ss.). Se queres conhecer-te a ti mesmo e superar-te, entra dentro de ti e não te procures fora de ti. [...] Por conseguinte, cai em ti, pecador, cai onde existes verdadeiramente: no teu coração. Exteriormente, és um animal à imagem do mundo [...]; interiormente, és um homem, à imagem de Deus (Gn 1, 26), e por isso capaz de ser deificado. Será por isso, irmãos, que o homem que cai em si se sente distante, como o filho pródigo, numa região diferente, numa terra estrangeira, onde é maltratado, e chora ao lembrar-se de seu pai e da sua pátria? [...] "Adão, onde estás?" (Gn 3, 9) Talvez ainda na sombra para não te veres a ti mesmo: cosendo as folhas da vaidade umas às outras para cobrires a tua vergonha (Gn 3, 7), olhando o que está em teu redor e o que é teu, porque os teus olhos são grandes aberturas para tais coisas. Mas olha para dentro de ti, olha para ti: é aí que se encontra o teu maior motivo de vergonha. [...] É evidente, irmãos: em parte vivemos exteriormente a nós. [...] É por isso que a Sabedoria tem sempre no coração o convite para a casa do luto antes de o fazer para a casa do banquete (Ecl 7, 3), ou seja, chama para dentro de si mesmo o homem que estava fora de si próprio, dizendo: "Felizes os que choram" e em outra passagem: "Ai de vós, os que agora rides" (Lc 6, 25). [...] Meus irmãos, choremos na presença do Senhor: que a Sua bondade O leve a perdoar-nos. [...] Felizes os que choram, não porque choram, mas porque serão consolados. As lágrimas são o caminho; a consolação é a bem-aventurança.

Quaresma XVIII


"A profunda simplicidade e obviedade da luz infusa que a contemplação derrama em nossa alma desperta-nos subitamente para um novo nível de consciência. Entramos em uma região que nunca havíamos nem suspeitado existir, e, contudo, é este novo mundo que parece familiar e óbvio." (T. Merton)

Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e todo o meu ser, seu santo nome! Bendize, ó minha alma, ao Senhor, não te esqueças de nenhum de seus favores!
Sl 102(103), 1-2

* Extraído da Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Comentário ao evangelho do dia

Anunciação do Senhor Solenidade

1ª Leitura - Is 7,10-14; 8,10
Naqueles dias, o Senhor falou com Acaz, dizendo: "Pede ao Senhor teu Deus que te faça ver um sinal, quer provenha da profundeza da terra, quer venha das alturas do céu". Mas Acaz respondeu: "Não pedirei nem tentarei o Senhor". Disse o profeta: "Ouvi então, vós, casa de Davi; será que achais pouco incomodar os homens e passais a incomodar até o meu Deus? Pois bem, o próprio Senhor vos dará um sinal. Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel, porque Deus está conosco".

2ª Leitura - Hb 10,4-10
Irmãos, é impossível eliminar os pecados com o sangue de touros e bodes. Por isso, ao entrar no mundo, Cristo afirma: "Tu não quiseste vítima nem oferenda, mas formaste-me um corpo. Não foram do teu agrado holocaustos nem sacrifícios pelo pecado. Por isso eu disse: Eis que eu venho. No livro está escrito a meu respeito: Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade". Depois de dizer: "Tu não quiseste nem te agradaram vítimas, oferendas, holocaustos, sacrifícios pelo pecado", coisas oferecidas segundo a Lei - ele acrescenta: "Eu vim para fazer a tua vontade". Com isso, suprime o primeiro sacrifício, para estabelecer o segundo. É graças a esta vontade que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas

Evangelho - Lc 1,26-38
Naquele tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!". Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. O anjo, então, disse-lhe: "Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim". Maria perguntou ao anjo: "Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?"; O anjo respondeu: "O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altissimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, porque para Deus nada é impossível". Maria, então, disse: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!". E o anjo retirou-se.

Comentário feito por Tertuliano (c. 155-v. 220)
teólogo

Por que é que o Filho de Deus nasceu de uma Virgem? [...] Era necessário um modo totalmente novo de nascer para Aquele que ia consagrar uma nova ordem de nascimento. Isaías tinha profetizado que o Senhor anunciaria esta maravilha através de um sinal. Que sinal? "Eis que uma virgem vai conceber e dará à luz um filho." Sim, a Virgem concebeu e deu à luz o Emanuel, Deus conosco (Is 7, 14; Mt 1, 23). Eis a nova ordem de nascimento: o homem nasce em Deus porque Deus nasce no homem; Deus faz-Se carne, para regenerar a carne pela semente nova do Espírito e lavar todas as manchas passadas. Toda esta nova ordem foi prefigurada no Antigo Testamento, porque na intenção divina o primeiro homem nasceu para Deus através de uma virgem. Com efeito, a terra era ainda virgem, o trabalho do homem não a tinha tocado, a semente não tinha sido ainda lançada, quando Deus a tomou para dar forma ao homem e torná-lo "um ser vivo" (Gn 2, 5.7). Por conseguinte, se o primeiro Adão foi moldado de terra, é justo que o segundo, a quem o apóstolo Paulo chama "o novo Adão", seja retirado por Deus de uma terra virgem, ou seja, de uma carne cuja virgindade permanecia inviolada, para se tornar "Espírito que vivifica" (1Cor 15, 45). [...] Quando quis recuperar "a Sua imagem e a Sua semelhança" (Gn 1, 26) caída sob o poder do demônio, Deus agiu de forma igual à do momento em que o criou. Eva era ainda virgem quando acolheu a palavra que originaria a morte; por conseguinte, seria também de uma virgem que devia descer a Palavra de Deus que ergueria o edifício da Vida. [...] Eva confiou na serpente; Maria teve fé em Gabriel. O pecado que Eva, crendo, cometeu, foi Maria, crendo, que o apagou. [...] A palavra do diabo foi para Eva a semente da sua humilhação e das suas dores de parto (Gn 3, 16), e ela trouxe ao mundo o assassino do seu irmão (4, 8). Pelo contrário, Maria trouxe ao mundo um Filho que haveria de salvar Israel, Seu irmão.

Quaresma XVII


"A lei da nossa vida pode ser resumida no axioma 'seja o que você é'." (T. Merton)

Com prazer faço a vossa vontade, guardo em meu coração vossa lei! 
Sl 39(40), 8-9

* Extraído da Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Cartas do P.e Aldo 182





Asunción, 21 de março de 2011.

Caríssimos amigos,
ei-la, olhem para ela, é Mariana, nascida no dia 15 de março daquela minha filha, que ainda é uma criança de 15 anos. Um mês se passou desde que a Providência abriu e inaugurou aquela nova obra de misericórdia, para acolher as meninas, as adolescentes violentadas e grávidas. Mariana é o primeiro fruto desta misericórdia que atua continuamente. Ela, como eu, não é o fruto dos seus antecedentes, mas daquele “Tu que me fazes”. Estou, estamos comovidos por ver como Deus tem piedade da órfã, da viúva, do estrangeiro, como diz a Sagrada Escritura. Olhando para elas, não posso não ficar comovido por ver como tantas mães tão jovens foram salvas pela ternura de Deus que venceu a brutalidade, o cinismo de quem queria que elas abortassem.
Cristo vence sempre e, por isto, vence a vida. O primeiro problema não é a batalha pela vida, mas o anúncio de Cristo, para que você se apaixone por Cristo. Mesmo para vocês, que estavam preocupados justamente com a lei que se discute no parlamento, obedientes às indicações dos bispos, é assim: nunca se esqueçam de que o verdadeiro problema está apenas na nossa paixão por Cristo. Somos chamados, como São Paulo, a anunciar “apertis verbis” Cristo, porque o mundo tem necessidade apenas disso. Eu experimentei isso falando, em Bolonha, para a Confindustria. Também eles voltaram para casa tocados por terem escutado um asno que conhece tão pouco de teologia, mas que foi tomado por Cristo.
Mariana nasceu porque sua mãe encontrou alguém que a olha como Jesus olhou para Zaqueu e para a mulher adúltera ou para a samaritana.
Ver a alegria de Padre Paolino porque Mariana nasceu, quando eu estava na Itália, é mesmo comovente, porque vejo que tenho um amigo capaz de amor, capaz de olhar como Giussani me olhou, como Carrón nos olha, como Marcos, Cleuza e tantos outros nos olham.
Rezem para que Mariana seja feliz.
Com afeto,
Padre Aldo

Comentário ao evangelho do dia

5ª-feira da 2ª Semana Quaresma

1ª Leitura - Jr 17,5-10
Isto diz o Senhor: "Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor; como os cardos no deserto, ele não vê chegar a floração, prefere vegetar na secura do ermo, em região salobra e desabitada. Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor; é como a árvore plantada junto às águas, que estende as raízes em busca de umidade, por isso não teme a chegada do calor: sua folhagem mantém-se verde, não sofre míngua em tempo de seca e nunca deixa de dar frutos. Em tudo é enganador o coração, e isto é incurável; quem poderá conhecê-lo? Eu sou o Senhor, que perscruto o coração e provo os sentimentos, que dou a cada qual conforme o seu proceder e conforme o fruto de suas obras".

Evangelho - Lc 16,19-31
Naquele tempo, Jesus disse aos fariseus: "Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas. Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado. Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão, com Lázaro ao seu lado. Então gritou: 'Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas'. Mas Abraão respondeu: 'Filho, lembra-te que tu recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. E, além disso, há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós'. O rico insistiu: 'Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa do meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não venham também eles para este lugar de tormento'. Mas Abraão respondeu: 'Eles têm Moisés e os Profetas, que os escutem!'. O rico insistiu: 'Não, Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter'. Mas Abraão lhe disse: 'Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos'".

Comentário feito por Beata Teresa de Calcutá (1910-1997)
fundadora das Irmãs Missionárias da Caridade 

Cristo disse: "Tive fome e Me destes de comer" (Mt 25, 35). Teve fome não só de pão, mas também da estima acolhedora que nos permite sentirmo-nos amados, reconhecidos, sermos alguém aos olhos de outrem. Foi desprovido não só da Sua roupa, mas também da dignidade e do respeito humano pela grande injustiça cometida para com o pobre, que é precisamente o ser desprezado por ser pobre. Foi privado não só de um teto, mas também sofreu as privações por que passam os encarcerados, os rejeitados e os escorraçados, aqueles que vagueiam pelo mundo sem ter ninguém que se ocupe deles. Ao desceres a rua, sem outro propósito senão esse, talvez atentes naquele homem, ali na esquina, e vás ao seu encontro. Talvez ele fique de pé atrás, mas tu permaneces lá, diante dele, na sua frente. Tens de irradiar a presença que trazes dentro de ti com o amor e a atenção para com o homem a quem te diriges. E por quê? Porque, para ti, se trata de Jesus. Sim, é Jesus, mas não pode receber-te em Sua casa — eis porque tens de ser tu a dirigir-te a Ele. Ele está escondido ali, naquela pessoa. Jesus, oculto no mais pequenino dos irmãos (Mt 25, 40), não só cheio de fome por um bocado de pão, mas também por amor, por reconhecimento, por ser tido como alguém com valor. 

Quaresma XVI


"O sucesso da sua meditação não será medido pelas ideias brilhantes que você tiver, pelas resoluções que tomar nem pelos sentimentos e emoções que forem produzidas no seu interior. Você só medita realmente quando, em certa medida, percebe Deus. E ainda não é exatamente disto que se trata." (T. Merton)

(...) mas encontra seu prazer na lei de Deus e a medita, dia e noite, sem cessar.  
Sl 1, 2

quarta-feira, 23 de março de 2011

Por trás do abandono, a crise de um desejo “impotente”


Por Salvatore Abbruzzese

Os dados sobre o abandono escolar fazem refletir e preocupam, não apenas devido à sua extensão, mas também devido à sua capacidade de atravessar a Itália inteira, a ponto de não poder ser confinado apenas às áreas frágeis do país, nem podem ser remetidos aos contextos sociais mais desfavorecidos. Mesmo querendo levar em consideração aquela cota consistente dos que, trabalhando no escuro, aparecem como inativos (e, portanto, a cifra de 120 mil apresentada pela investigação de Tuttoscuola pode ser, consistentemente, reduzida), o dado não deixa de ser preocupante. Quando se abandonam as escolas, os institutos técnicos e os centros de formação profissional, quando se fecham os cadernos na metade de um percurso e se levam os livros para a garagem, se está diante de um juízo de inutilidade que diz respeito ao coração mesmo do percurso formativo e de inserção social. Não se percebe apenas a falta de eficácia do título de estudo, mas a inutilidade do processo cognoscitivo em si.
Tal problema não é, de fato, apenas de caráter escolar. Quando, a um semelhante juízo negativo sobre o próprio percurso formativa vem acompanhada uma falta de inserção no mundo do trabalho, então pelo menos uma parte do problema se refere a um contexto que vai para além das salas de aula escolar. Observando a partir do plano dos processos culturais de médio prazo, não há dúvida de como é exatamente a vontade de crescimento de toda uma sociedade, com as suas motivações e seus projetos, que está em vias de transformação. É notável como o impulso dos anos 1960 – aqueles que, na França, são chamados os “trinta gloriosos”, ou seja, os anos entre 1945 e 1975 – tenha se exaurido completamente no plano econômico; poucos parecem se dar conta de como, inclusive, tenha se exaurido também no plano cultural e moral.
O trabalho, assim com o mercado o oferece hoje, ligado a tarefas fragmentadas, genéricas e pouco qualificadas, mesmo quando fornece uma autonomia econômica pessoal, não funda a possibilidade de uma independência efetiva. No entanto, o problema da falta de inserção no mundo do trabalho não reside na insuficiência deste último na capacidade de garantir uma inserção adequada e permitir uma autonomia efetiva. Na realidade, é possível – e sempre foi – trabalhar, suportar o baixo salário do primeiro, segundo e terceiro trabalhos, dedicar-se a tarefas marginais e mal remuneradas (obviamente dentro de determinados limites). Foi o que aconteceu às gerações precedentes.
A diferença reside no fato de que aquelas gerações enfrentavam a precariedade em função de um projeto mais amplo de promoção profissional e de emancipação pessoal, um projeto do qual o trabalho era apenas um componente. Em outros termos, sempre foi possível trabalhar com poucos ganhos, desde que o trabalho constituísse apenas uma parte do próprio percurso de vida, e desde que este último coincidisse com um projeto pessoal, com um desejo elementar de realização, de promoção de si próprio e dos próprios objetivos: quer estes fossem a simples emancipação profissional e econômica, ou, pelo contrário, fossem a verdadeira e efetiva promoção pessoal, fundada sobre competências adquiridas ou adquiríveis.
Quando se está diante de um abandono tanto do estudo quanto do trabalho, a verdadeira emergência se torna a de uma crescente incapacidade de estruturar o próprio desejo de realização. O problema fundamental consiste exatamente no fato de que os objetivos mínimos, que desde sempre sustentaram as vontades de emancipação da família de origem e de inserção profissional, não são mais, hoje em dia, percebidos como eram no passado. Falta a formalização do desejo, a sua tradução no plano operativo: o realismo crítico degenera rapidamente na renúncia a toda dimensão realizadora, uma renúncia que, num contexto de escassa tensão moral, conduz rapidamente à inatividade.
É possível trabalhar mesmo num contexto de precariedade e de dependência, quando o trabalho consente que se adquiram competências percebidas como importantes, ou mesmo quando consente que se siga um percurso de formação paralelo, subjetivamente percebido como significativo (é o caso dos estudantes-trabalhadores). É possível suportar toda precariedade ou insatisfação quando se tem no bolso e no coração um projeto de vida para o qual aquele mesmo trabalho pode ser funcional, ou que, pelo menos, não seja um obstáculo.
Por trás das dezenas de milhares de abandonos escolares que não são resolvidos com uma inserção no mercado de trabalho substancial, há algo de mais grave do que a simples insatisfação escolar. Na realidade, há uma incapacidade (ou uma renúncia) dos sujeitos em definir o próprio desejo, está presente uma crise de projetualidade que transita, e este é o verdadeiro drama, em direção a um subdimensionamento da própria existência, onde o cotidiano basta a si e mesmo o pensar no futuro é tomado como um puro (e inútil) exercício de fantasia. A possibilidade de poder prolongar a própria permanência na família de origem permite uma semelhante atitude de prolongar-se ao infinito e de parar, em parte, somente diante do trabalho fixo, possivelmente numa estrutura pública, pronta para suportar e tolerar uma postura que, seja como for, continuará sendo substancialmente renunciadora.
Mas, se esta é a chave para compreender o tipo de problema que se está delineando, parece então importante mover a roda ruma a uma direção completamente nova. É preciso uma reviravolta antropológica, capaz de provocar uma recuperação da atenção pela dimensão projetual, onde por projeto se entende o simples e elementar desejo de realização pessoal, consequência direta de uma visão não redutiva de si próprio. É preciso que educadores e pais saibam restituir ao sujeito a paixão por uma realização que nunca é somente profissional, mas também pessoal e existencial.
O problema não tem, portanto, a sua própria solução em meio aos programas escolares, mesmo que a escola deva ser, de qualquer forma, consciente dele. Isso não se reduz à escola de dar ou não, na escola, uma formação imediatamente profissionalizante ou, pelo contrário, fornecer os elementos de uma tradição humanista comum. Ambos são inúteis se não concorrem para alimentar uma dignidade e uma consciência daquilo que o sujeito é chamado a ser, reconhecendo e perseguindo objetivos realizáveis que não podem ser suprimidos.
Uma escola orientada em sentido estritamente profissionalizante, pressupondo que o universo do trabalho tenha, em si, ainda hoje, as motivações para bastar a si mesmo e o sujeito não deva, portanto, dotar-se de um percurso de formação mais amplo, é de fato simplesmente ingênua (são exatamente os institutos profissionalizantes que registram as taxas mais altas de abandono). Por sua vez, uma formação humanista que não desenvolva capacidades concretas (saber redigir, refletir, expor e argumentar, conhecendo o que já foi dito, ou seja, uma específica tradição de pensamento) acaba por decair na pura erudição, se tornando assim não apenas inútil, como também enganosa e danosa, na medida em que olha para o dedo que indica a lua, mais do que para a lua mesma.
A recuperação da geração cinza, que abandonou a escola sem entrar no mundo do trabalho, passa pela recuperação do direito de cada um de construir e edificar. Implica considerar tal direito como um elemento fundamental e inalienável da existência humana, um aspecto não negociável de realização da pessoa, a sua constituição deve ser parte integrante do percurso educativo e de formação. Uma sociedade avançada como a Itália é profunda e intimamente ligada a uma cultura do crescimento e da formação permanentes; e essa cultura é indissociável da imagem de um sujeito que deseja, e desejando, constrói, põe a mão na massa, consciente da cultura e da memória das quais é herdeiro.
Uma sociedade que se esquece de tal objetivo, uma escola que não leva em consideração tal necessidade, devem se preparar para um embate com uma cota crescente de indiferentes, até chegar ao ponto das salas de aula vazias.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 22 de março de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.