terça-feira, 31 de maio de 2011

Comentário ao evangelho do dia

Visitação de Nossa Senhora

1ª Leitura - Sf 3,14-18
Canta de alegria, cidade de Sião; rejubila, povo de Israel! Alegra-te e exulta de todo o coração, cidade de Jerusalém! O Senhor revogou a sentença contra ti, afastou teus inimigos; o rei de Israel é o Senhor, ele está no meio de ti, nunca mais temerás o mal. Naquele dia, se dirá a Jerusalém: "Não temas, Sião, não te deixes levar pelo desânimo! O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, o valente guerreiro que te salva; ele exultará de alegria por ti, movido por amor; exultará por ti, entre louvores, como nos dias de festa. Afastarei de ti a desgraça, para que nunca mais te cause humilhação".

Evangelho - Lc 1,39-56
Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu". Maria disse: "A minha alma engrandece o Senhor, e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador, pois, ele viu a pequenez de sua serva, eis que agora as gerações hão de chamar-me de bendita. O Poderoso fez por mim maravilhas e Santo é o seu nome! Seu amor, de geração em geração, chega a todos que o respeitam. Demonstrou o poder de seu braço, dispersou os orgulhosos. Derrubou os poderosos de seus tronos e os humildes exaltou. De bens saciou os famintos despediu, sem nada, os ricos. Acolheu Israel, seu servidor, fiel ao seu amor, como havia prometido aos nossos pais, em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre". Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.

Comentário feito por Beata Isabel da Ssma. Trindade (1880-1906)
carmelita

Parece-me que a atitude da Virgem durante os meses que decorreram entre a Anunciação e a Natividade é o modelo das almas interiores, dos seres que Deus escolheu para viverem no Seu íntimo, no fundo do abismo sem fundo. Em que paz, em que recolhimento Maria se terá entregado a todas as coisas, divinizando as mais banais! Pois a Virgem adorava o dom de Deus através de tudo, o que não a impedia de se entregar aos outros sempre que se tratava de exercer a caridade. O Evangelho diz-nos que "Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se à pressa para a montanha, a uma cidade da Judeia. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel". Nunca a visão inefável que contemplava em si própria diminuiu a sua caridade porque, diz um piedoso autor [Ruusbroeck], se a contemplação "a leva ao louvor, e à eternidade do seu Senhor, ela possui a unidade e não a perderá. Quando lhe chega uma disposição do céu, volta-se para os homens, compadece-se de todas as suas necessidades, inclina-se sobre todas as misérias; é necessário que chore e que fecunde. Ela ilumina como o fogo; como ele, queima, absorve e devora, elevando para o céu o que consumiu. E, depois de realizar a sua ação aqui embaixo, levanta-se e retoma, escaldante com o seu fogo, o caminho das alturas".

segunda-feira, 30 de maio de 2011

MEC não quer ensinar

Por Carlos Alberto Di Franco *

Acabo de ler duas instigantes obras de Zygmunt Bauman: Amor Líquido e Modernidade Líquida. Bauman, um dos mais originais e perspicazes sociólogos da atualidade, vai fundo nos paradoxos da modernidade líquida. Vivemos um tempo de incertezas, de sinais confusos, de ausência de vínculos duradouros. Mas, ao mesmo tempo, o comportamento fluido e relativista acaba, frequentemente, em arrebatos de dogmatismo ideológico. O relativismo, facilmente, transforma-se em autoritarismo.
Recentemente, a imprensa noticiou que, para evitar discriminações, o Ministério da Educação (MEC) quer renunciar ao dever de ensinar. Por exemplo, entende que pode promover o preconceito a explicação em sala de aula de que a concordância entre artigo e substantivo é uma norma da língua portuguesa. Dessa forma, o MEC aconselha a relativizar. Segundo o Ministério, a expressão "os carro" também seria correta. A sociedade, quando se deu conta do que o MEC estava propondo, foi unânime na sua indignação. Afinal, a oportunidade de aprender bem a sua língua deve ser um direito de todos.
Nesse caso, no entanto, penso que está em jogo mais do que a norma culta da língua portuguesa. Implicitamente, o MEC nos diz: na busca por um "mundo mais justo" (sem preconceitos) pode ser aconselhável dizer algumas mentiras. Na lógica ministerial, o conhecimento é munição para a discriminação.
Vislumbra-se aí uma visão de mundo na qual o critério político prevaleceria sobre a realidade das coisas, sobre a verdade. E aqui reside o ponto central, cuja discussão é incômoda para uma sociedade que não deseja utilizar o conceito "verdade". Este seria apropriado apenas para uma agenda conservadora; os contemporâneos não deveriam utilizá-lo mais.
Mas por que será que a "verdade" é tão incômoda? Porque ainda estamos imersos no sofisma moderno que confunde "ter um conhecimento certo sobre algo" com "ser dono da verdade". O engano está em equiparar "conhecimento limitado" - que é onde sempre estaremos - com "todo conhecimento é inválido".
Outro influente motivo para evitar o uso do conceito "verdade" é a aspiração por liberdade. As "verdades" tolheriam a nossa autonomia, imporiam uns limites indesejáveis; no mínimo, acabariam diminuindo a nossa liberdade de pensamento. O MEC - de fato - entende assim: numa sociedade plural, não se poderia ter apenas uma única norma culta para a língua portuguesa. Deixemos os nossos alunos "livres" para escolherem as diversas versões.
Não será que ocorre exatamente o contrário? Quem conhece bem a língua portuguesa tem a liberdade de escolher qual forma - num texto literário, por exemplo - expressa melhor a sua ideia. E pode até abrir mão da norma culta, num determinado momento. Só terá a segurança dessa escolha quem conhecer a norma culta, caso contrário, serão tiros no escuro.
Entre liberdade e verdade não vige uma relação dialética. Elas andam juntas. O que pode provocar um antagonismo com a liberdade é uma versão absolutista de verdade, encarnada pelo sujeito que entende ser o "dono da verdade". Mas a verdade não é um objeto que se possui. A verdade é o mundo, é a realidade, são os outros. É uma porta que se abre para fora, não para dentro, e por isso pode ser contemplada por todos. Ela é democrática: está acessível a todos.
Já não será hora de superarmos a disjuntiva moderna e estabelecermos uma relação amigável com a "verdade"? Não significa fazer um pacto "espiritual" com o universo ou assinar uma espécie de declaração de alienação, abdicando do uso da inteligência e da crítica. A proposta que aqui se faz nada mais é do que buscar uma relação de honestidade intelectual com a realidade e com os outros.
Penso que essa relação de honestidade intelectual está na origem da cultura ocidental, ainda lá com os gregos. É um processo de aprendizagem, que leva a reconhecer os próprios erros, a revisar as condutas e, ainda que não seja retilíneo, trouxe indubitáveis bens (ainda não plenamente alcançados, mas que indicam a meta): o reconhecimento da dignidade da pessoa humana, o respeito e a valorização da mulher, a rejeição da escravidão, a democracia como expressão dessa dignidade, a tolerância, a compreensão, etc.
Aquilo de que mais nos orgulhamos não foi alcançado brigando com a "verdade", dizendo que tudo era relativo, que dava na mesma A ou B. Nesta lógica aparentemente ampla - mas que no fundo é estreita (porque não está aberta à realidade e aos outros, impera o subjetivo) -, quem ganha é o mais forte, aquele que grita mais alto. Já não existe um referencial adequado para o diálogo. Ficam as versões. Ficam os discursos. E ficamos à mercê dos Sarneys... E agora também dos Paloccis.
Só mais um último aspecto, agora do ponto de vista pedagógico. A visão do MEC sobre a educação corrobora a constatação feita pela pediatra norte-americana Meg Meeker. Ela considera que as principais dificuldades da educação dos jovens de hoje não são causadas por eles. Na visão dela, o problema não são os jovens - como muitas vezes os moralistas de plantão ou os saudosistas de outros tempos querem culpá-los.
A dra. Meg Meeker, com a experiência de mais de 20 anos atendendo adolescentes e pais no seu consultório, diz que a causa está nos próprios adultos, que diminuíram as expectativas da educação em relação às novas gerações. "Eles não conseguirão fazer isso..." Ou: "É impossível que ajam dessa forma..." Os próprios educadores nivelam por baixo - como se o comportamento ético fosse hoje em dia irrealizável - e depois se dizem decepcionados com os jovens.
Ministério da Educação: os alunos saberão fazer bom uso das regras de português. Não lhes impeça o acesso ao conhecimento e, principalmente, não lhes negue um dos principais motores para o crescimento pessoal: a confiança.

* Carlos Alberto Di Franco é doutor em comunicação, é professor de Ética e diretor do Master em Jornalismo. Texto extraído d'O Estado de São Paulo (versão online), do dia 30 de maio de 2011.

E houve grande alegria...

Bento XVI

Regina Coeli

Praça São Pedro
Domingo, 29 de maio de 2011.

Caros irmãos e irmãs!
O livro dos Atos dos Apóstolos diz que, depois de uma primeira perseguição violenta, a comunidade cristã de Jerusalém, excetuados os apóstolos, se dispersou nas regiões vizinhas e Felipe, um dos diáconos, chegou a uma cidade da Samaria. Ali, pregou Cristo ressuscitado, e o seu anúncio foi acompanhado de numerosas curas, de forma que a conclusão do episódio é muito significativa: “E houve grande alegria naquela cidade” (At 8, 8). A cada vez, ficamos tocados por esta expressão que, na sua essencialidade, nos comunica um senso de esperança; como se dissesse: é possível! É possível que a humanidade conheça a verdadeira alegria, porque aonde chega o Evangelho floresce a vida; como um terreno árido que, irrigado pela chuva, de repete se torna verde outra vez. Felipe e os outros discípulos, com a força do Espírito Santo, fizeram nos vilarejos da Palestina aquilo que Jesus havia feito: pregaram a Boa Nova e operaram sinais prodigiosos. Era o Senhor que agia por meio deles. Como Jesus anunciava a vinda do Reino de Deus, assim os discípulos anunciaram Jesus ressuscitado, professando que Ele é o Cristo, o Filho de Deus, batizando no seu nome e expulsando toda doença do corpo e do espírito.
“E houve grande alegria naquela cidade.” Lendo este trecho, é espontâneo que se pense na força curadora do Evangelho, que no curso dos séculos “irrigou”, como rio benéfico, tantas populações. Alguns grandes santos e santas levaram esperança e paz a cidades inteiras – pensemos em São Carlos Borromeu em Milão, no tempo da peste; na beata Madre Teresa em Calcutá; e em tantos missionários, cujos nomes são conhecidos por Deus, que deram a vida para levar o anúncio de Cristo e fazer florescer entre os homens a alegria profunda. Enquanto que os poderosos deste mundo buscavam conquistar novos territórios por interesses políticos e econômicos, os mensageiros de Cristo iam a todos os lugares com o objetivo de levar Cristo aos homens e os homens a Cristo, sabendo que somente Ele pode dar a verdadeira liberdade e a vida eterna. Ainda hoje a vocação da Igreja é a evangelização: seja das populações que não foram ainda “irrigadas” pela água viva do Evangelho, seja daquelas que, mesmo tendo antigas raízes cristãs, têm necessidade de nova seiva para fazer brotar novos frutos, e redescobrir a beleza e a alegria da fé.
Caros amigos, o Beato João Paulo II foi um grande missionário, como está documentado pela mostra que, durante esses dias, está montada em Roma. Ele lançou a missão ad gentes outra vez e, ao mesmo tempo, promoveu a nova evangelização. Confiemos uma e outra à intercessão de Maria Santíssima. A Mãe de Cristo acompanhe sempre e em todos os lugares o anúncio do Evangelho, para que se multipliquem e se alarguem no mundo os espaços nos quais os homens reencontrem a alegria de viver como filhos de Deus.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 29 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Cartas do P.e Aldo 194

Asunción, 27 de maio de 2011.

Caros amigos,
De volta da Itália, agradeço de coração a todas as pessoas que encontrei e, particularmente, os tantos, tantíssimos testemunhos da Ressurreição de Cristo, tanto de doentes como de pessoas em outras condições difíceis. De fato, como nos lembrava Carrón, citando São Paulo, “nenhum dom de Graça nos falta mais”.
A alegria de ver pessoas mudadas, seguindo Carrón, me enche o coração de esperança e de energia. Uma vez mais se confirmou que o problema não é ir para o Paraguai, para o Brasil ou para a África, mas seguir aquela companhia na qual Deus o colocou e na qual é evidente a experiência do carisma, com o mundo do coração.
Não há condição privilegiada, é a realidade nas circunstâncias na qual Deus nos colocou e nos coloca. Eu vim para o Paraguai porque Giussani me mandou, mas não para o mal do Paraguai ou da América Latina como tantos têm.
Uma pessoa que viva aí o carisma, seguindo Carrón, não sente saudade do Paraguai. Vi coisas do outro mundo e frequentemente me perguntei: mas, quantos veem isso? Vi os sinais da vitória de Cristo em todos os lugares por onde passei e uma pessoa estaria ali sempre, olhando para esses sinais, desejando pertencer àqueles lugares. De verdade, me senti em casa, porque se a pessoa olha para onde Carrón olha, identificando-se com a sua experiência, a vida floresce, as obras se tornam a presença dos “vivos” num mundo de mortos.
Obrigado de coração, porque vi um movimento de pessoas vivas que me marcaram. E quem vive assim aí na Itália, vive aqui comigo mesmo se nunca vier me ver. E vice-versa: ninguém escapa daquilo que não existe. Agradeço também àqueles que, com seu sacrifício, continuam ajudando a Providência, para poder terminar o hospital e a escola, particularmente às crianças das escolas que visitei.
Em nome dos meus doentes e de todos, agradeço a vocês de coração. Para mim, mendigar é mendigar Cristo, mendigar o Seu amor, porque o objetivo da vida é ser dada.
Rezamos por todos vocês, caros amigos e benfeitores que nos ajudam. Obrigado.
Padre Aldo

Santa Joana d'Arc

30 de maio


Santa Joana d'Arc
roga por nós!


Ó Santa Joana d’Arc, tu que, cumprindo a vontade de Deus, de espada em punho, te lançaste à luta, por Deus e pela Pátria, ajuda-me a perceber, no meu íntimo, as inspirações de Deus. Com o auxílio da tua espada, faze recuar os meus inimigos que atentam contra a minha fé e contra as pessoas mais pobres e desvalidas que habitam nossa Pátria. Santa Joana d’Arc, ajuda-me a vencer as dificuldades no lar, no emprego, no estudo e na vida diária. Ó Santa Joana d’Arc atende ao meu pedido. E que nada me obrigue a recuar, quando estou com a razão e a verdade, nem opressões, nem ameaças, nem processos, nem mesmo a fogueira. Santa Joana d’Arc, ilumina-me, guia-me, fortalece-me, defende-me.
Amém.

Uma defesa positiva da natureza humana

Por Dom Filippo Santoro
Bispo de Petrópolis - RJ

Toco um tema de grande relevância na sociedade e na Igreja nesses dias, que é a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a união de pessoas do mesmo sexo. A nossa fé dá um juízo também sobre este fato. Retomo a nota que saiu da última Assembleia Geral da CNBB que afirma:
“A diferença sexual é originária e não mero produto de uma opção cultural. O matrimônio natural entre o homem e a mulher bem como a família monogâmica constituem um princípio fundamental do Direito Natural. (...) A família é o âmbito adequado para a plena realização humana, o desenvolvimento das diversas gerações e constitui o maior bem das pessoas”. Esses são os pontos de referência para um juízo correto sobre a questão atualmente debatida. Continua a nota da CNBB: “As pessoas que sentem atração sexual exclusiva ou predominante pelo mesmo sexo são merecedoras de respeito e consideração. Repudiamos todo tipo de discriminação e de violência . (...) [Porém] equiparar as uniões entre pessoas do mesmo sexo à família descaracteriza a sua identidade e ameaça a estabilidade da mesma”.
Uma coisa é o respeito, a não discriminação, outra coisa é a riqueza da vida familiar, da identidade sexual que dá origem ao matrimônio, que dá origem à família. A família segundo o plano de Deus que tem o direito de ser protegida pelo Estado. “É atribuição do Congresso Nacional propor e votar leis, cabendo ao governo garanti-las. Preocupa-nos ver os poderes constituídos ultrapassarem os limites de sua competência, como aconteceu com a recente decisão do Supremo Tribunal Federal. [Isso] compromete a ética na política”, que uma decisão do Supremo Tribunal se substitua àquele que é o trabalho do Legislativo, do Congresso legitimamente eleito pelo povo.
Mas aquilo que nos interessa neste momento é o juízo dado sobre essa decisão do Supremo. A motivação usada pelos juízes nesse caso – daqueles que sustentam a união estável e a reconheceram equiparando-a a uma entidade familiar – é que nós vivemos em uma sociedade fragmentada. Existem tantos fragmentos, e um desses fragmentos é a Igreja Católica. O Supremo Tribunal decide quando um fragmento quer prevalecer sobre o outro e intervém para colocar ordem. O Supremo Tribunal tem a presunção de representar o uso da razão quando os direitos de um fragmento são invadidos pelo outro ou não são respeitados. Onze pessoas representam a razão num clima de fragmentação total, de confusão do eu; e aí que domina o poder. Não pode ser um grupo de pessoas que decide o que é justo e o que não é justo quando se trata de definir o que é segundo a razão. E se não é um grupo de pessoas quem é? É somente algo que está na natureza humana, que a razão reconhece, e que se chama lei natural. Existe uma lei natural que junta todos os fragmentos, todas as pessoas.
A fé católica, escuta a voz da razão, e nós somos os primeiros a defender esse laço que une todos os fragmentos da sociedade que sem um fundamento comum seriam incomunicáveis. Diz São Tomás de Aquino: “A lei natural não é outra coisa que a luz da inteligência infundida por Deus em nós. Graças a ela conhecemos o que se deve cumprir e o que se deve evitar. Esta luz e esta lei Deus a concedeu na criação”, (Collationes in decem praeceptis, 1); cit. in: João Paulo II, Veritatis Splendor, 40. Que a sociedade seja fragmentada é um fato, mas que não haja um fundamento comum é toda uma outra questão. Se não tivesse comunicação entre um fragmento e outro não poderia existir encontro entre as pessoas, não poderia existir comunicação, não poderia existir diálogo. O fundamento comum, que é a lei natural, deve ser reconhecido e respeitado. Nesse caso em que 11 pessoas têm todo poder de decidir o que é justo e segundo a razão se manifesta uma prevaricação do poder. Nenhuma lei humana pode-se substituir às leis não escritas que se encontram na natureza humana, como já dizia Sófocles na Antígona. E São Paulo afirma: “A lei está escrita em seus corações” (Rom 2, 15). A nossa posição é a defesa da racionalidade, é a defesa da unidade, é a defesa da natureza.
A partir do encontro com o Senhor, nós temos uma experiência humana diferente. Ele transforma a nossa vida. E nós damos este juízo não como uma posição contra uma outra, não acanhados porque atacados ou reivindicando espaços para a Igreja. Não é isso. É por uma experiência positiva, que não tem medo dos necessários sacrifícios, iluminada pelo encontro com o Senhor que podemos afirmar e defender a natureza humana. E somos agradecidos porque Ele abre os nossos olhos. Por isso, a nossa batalha não é uma batalha de defesa, uma batalha de pessoas colocadas no escanteio. Podemos perder – Jesus morreu na Cruz –, mas o importante é afirmar a verdade da experiência humana, aquilo que torna o humano grande e vibrante, que torna o humano extraordinário, porque capaz de infinito.
Nós fazemos uma batalha positiva, que nos permite encontrar qualquer pessoa, ter contato com qualquer um, porque dialogamos com a humanidade das pessoas, não de uma forma reduzida, mas com uma atenção profunda. Como fizeram os apóstolos e os primeiros cristãos. Naquele tempo estas coisas, no mundo da Grécia, eram aceitas, mas não era a forma humana mais digna. São Paulo em Corinto não está diante de uma sociedade patriarcal, mas pretensamente liberal e manifesta um outro ponto de vista radicalmente diferente. Pensemos como eram tratadas as mulheres, sem falar dos escravos. O Cristianismo revolucionou tudo isso. E nós através do testemunho de uma beleza extraordinária encontrada, podemos comunicar como é positivo para todos defender o bem da família, defender o bem da vida, a partir não de uma teoria, mas da experiência. Por isso, agradeçamos ao Senhor porque nos fez encontrar Aquele que é a fonte da nossa humanidade verdadeira, Aquele do qual a nossa alma tem sede, que o nosso coração deseja, e que não ficou distante e que nos encontrou e nos iluminou sobre a verdadeira consistência da nossa humanidade. E este é um bem para todos; é um aspecto da boa nova que ilumina a vida de qualquer pessoa. O eunuco e o apóstolo são abraçados pela mesma misericórdia, que indica um novo rumo para a vida e para as relações entre as pessoas.

* Extraído do site da CNBB, do dia 27 de maio de 2011.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Nossa vida é como uma longa noite de luta e de oração

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 25 de maio de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Hoje, gostaria de refletir convosco sobre um texto do Livro do Gênesis que narra um episódio bastante particular da história do Patriarca Jacó. É um trecho não muito fácil de interpretar, mas importante para a nossa vida de fé e de oração; trata-se do relato da luta com Deus nas margens do Yabboq, do qual escutamos um trecho.
Como vos recordais, Jacó havia subtraído do seu irmão gêmeo, Esaú, a primogenitura em troca de um prato de lentilhas e, em seguida, conseguiu, através do engano, a bênção do pai Isaac, já muito velho, aproveitando-se da sua cegueira. Fugindo da ira de Esaú, refugiou-se em casa de um parente, Labano; casou-se, enriqueceu e, então, estava voltando para a terra natal, pronto para enfrentar o irmão depois de ter colocado em ação alguns dispositivos de prudência. Mas, quando estava tudo pronto para o encontro, depois de ter feito aqueles que estavam consigo atravessarem a torrente que delimitava o território de Esaú, Jacó, sozinho, é agredido de repente por um desconhecido com quem luta por toda uma noite. Exatamente este combate corpo a corpo – que encontramos no capítulo 32 do Livro de Gênesis – se torna, para ele, uma experiência singular de Deus.
A noite é o tempo favorável para agir às escondidas, o tempo, portanto, melhor para Jacó, para entrar no território do irmão sem ser visto e, talvez, com a ilusão de pegar Esaú de surpresa. Mas, pelo contrário, é ele que é surpreso por um ataque repentino, para o qual não estava preparado. Tinha usado de sua astúcia para tentar escapar de uma situação perigosa, pensava conseguir manter tudo sob controle e, porém, encontra-se, então, tendo que enfrentar uma luta misteriosa que o pega na solidão e sem lhe dar a possibilidade de organizar uma defesa adequada. Desamparado, na noite, o Patriarca Jacó combate com alguém. O texto não especifica a identidade do agressor; usa um termo hebraico que indica “um homem” de modo genérico, “alguém”; trata-se, portanto, de uma definição vaga, indeterminada, que deliberadamente mantém o agressor no mistério. Está escuro, Jacó não consegue ver com distinção o seu contendor e mesmo para o leitor, para nós, ele permanece desconhecido; alguém está se opondo ao Patriarca, este é o único dado certo fornecido pelo narrador. Somente no final, quando a luta já havia terminado e aquela “alguém” havia desaparecido, somente então Jacó o nomeará e poderá dizer que lutou com Deus.
O episódio acontece, portanto, na obscuridade e é difícil perceber não apenas a identidade do agressor de Jaco, mas também qual é o andamento da luta. Lendo o trecho, fica difícil estabelecer qual dos dois contendores consegue se sair melhor; os verbos utilizados são frequentemente sem sujeito explícito, e as ações se desenrolam de modo quase contraditório, de modo que se pensa que um dos dois prevalece, a ação seguinte, de repente, desmente e apresenta o outro como vencedor. No início, de fato, Jacó parece ser o mais forte, e o adversário – diz o texto – “não conseguia vencê-lo” (v. 26); no entanto, atinge Jacó na articulação do fêmur, provocando uma luxação. Dever-se-ia pensar, então, que Jacó deveria sucumbir, mas pelo contrário é o outro que lhe pede para ir embora; e o Patriarca recusa, colocando uma condição: “Não te deixarei, se não me abençoares” (v. 27). Aquele que, com o engano, tinha defraudado o irmão da bênção do primogênito, agora pretende que ela lhe seja dada pelo desconhecido, de quem, ao que parece, começa a entrever os aspectos divinos, mas sem poder reconhecê-lo ainda verdadeiramente.
O rival, que parece capturado e portanto vencido por Jacó, ao invés de se dobrar ao pedido do Patriarca, lhe pergunto o nome: “Como te chamas?”. E o Patriarca responde: “Jacó” (v. 28). Aqui, a luta sofre uma reviravolta importante. Conhecer o nome de alguém, de fato, implica uma espécie de poder sobre a pessoa, porque o nome, na mentalidade bíblica, contém a realidade mais profunda do indivíduo, revela seu segredo e seu destino. Conhecer o nome quer dizer, então, conhecer a verdade do outro e isto permite poder dominá-lo. Quando portanto, a pedido do desconhecido, Jacó revela o próprio nome, ele se coloca nas mãos do seu opositor, é uma forma de rendição, de entrega total de si ao outro.
Mas, neste gesto de rendição também Jacó, paradoxalmente, se torna vencedor, porque recebe um novo nome, junto ao reconhecimento de vitória por parte do adversário, que lhe diz: “Não te chamarei mais Jacó, mas Israel, porque combateste com Deus e com os homens, e venceste” (v. 29). “Jacó” era um nome que remetia à origem problemática do Patriarca; em hebraico, de fato, recorda o termo “calcanhar”, e remete o leitor ao momento do nascimento de Jacó, quando, saindo do seio materno, segurava com a mão o calcanhar do irmão gêmeo (cf. Gen 25, 26), quase como que prefigurando o momento em que, em idade adulta, passou o irmão para trás; mas o nome Jacó remete também ao verbo “enganar, usurpar”. Pois bem, agora, na luta, o Patriarca revela ao seu opositor, num gesto de entrega e de rendição, a própria realidade de enganador, de usurpador; mas o outro, que é Deus, transforma esta realidade negativa em positiva: Jacó o enganador se torna Israel, lhe é dado um nome novo que marca uma nova identidade. Mas também aqui, o relato mantém a sua deliberada duplicidade, porqe o significado mais provável do nome Israel é “Deus é forte, Deus vence”.
Portanto, Jacó prevaleceu, venceu – é o adversário mesmo quem afirma isso –, mas a sua nova identidade, recebida pelo mesmo adversário, afirma e testemunha a vitória de Deus. E quando Jacó pede, por sua vez, o nome do seu contendor, ele se recusará a dizê-lo, mas se revelará num gesto inequívoco, dando a bênção. Aquela bênção que o Patriarca tinha pedido no início da luta lhe é concedida então. E não é a benção conquistada com o engano, mas a gratuitamente dada por Deus, que Jacó pode receber porque sozinho, sem proteção, sem astúcias e golpes, se entrega desamparado, aceita render-se e confessa a verdade sobre si mesmo. Assim, ao final da luta, recebida a bênção, o Patriarca pode, finalmente, reconhecer o outro, o Deus da bênção: “De fato – disse – vi Deus face a face, e no entanto a minha vida permaneceu salva” (v. 31), e pode, então, atravessar o rio, portando um nome novo, mas “vencido” por Deus e marcado para sempre, mancando pela ferida recebida.
As explicações que a exegese bíblica pode dar com respeito a este trecho são múltiplas; particularmente, os estúdios reconhecem nele intenções e componentes literários de variados gêneros, como também referências a alguns relatos populares. Mas, quando estes elementos são assumidos pelos autores sacros e englobados no relato bíblico, eles mudam de significado e o texto se abre a dimensões mais amplas. O episódio da luta no Yabboq se oferece assim ao crente como texto paradigmático no qual o povo de Israel fala da própria origem e delineia os traços de uma relação particular entre Deus e o homem. Por isto, como é afirmado também no Catecismo da Igreja Católica, “a tradição espiritual da Igreja viu neste relato o símbolo da oração como combate da fé e vitória da perseverança” (n. 2573). O texto bíblico nos fala da longa noite da busca por Deus, da luta para conhecer o seu nome e ver o seu rosto; é a noite da oração que, com tenacidade e perseverança, pede a Deus a bênção e um nome novo, uma nova realidade que seja fruto de conversão e de perdão.
A noite de Jacó nas margens do Yabboq se torna, assim, para o crente, um ponto de referência para entender a relação com Deus que, na oração, encontra a sua máxima expressão. A oração pede confiança, proximidade, quase num corpo a corpo simbólico não com um Deus inimigo, adversário, mas com um Senhor que dá a bênção que sempre permanece misterioso, que parece inatingível. Por isto, o autor sacro utiliza o símbolo da luta, que implica força de ânimo, perseverança, tenacidade no atingir aquilo que se deseja. E se o objeto do desejo é o relacionamento com Deus, a sua bênção e o seu amor, então a luta só poderá culminar no dom de si mesmo a Deus, no reconhecimento da própria fraqueza, que vence exatamente quando chega a se entregar nas mãos misericordiosas de Deus.
Caros irmãos e irmãs, toda a nossa vida é como esta longa noite de luta e de oração, a ser consumada no desejo e no pedido de uma bênção de Deus que não pode ser arrancada ou vencida contando apenas com nossas forças, mas deve ser recebida com humildade dEle, como dom gratuito que permite, finalmente, reconhecer o rosto do Senhor. E quando isto acontece, toda a nossa realidade muda, recebemos um nome novo e a bênção de Deus. E ainda mais: Jacó, que recebe um nome novo, se torna Israel, dá m nome novo  também ao lugar no qual lutou com Deus, rezo a Ele; o renomeia Penuel, que significa “Rosto de Deus”. Com este nome reconhece aquele lugar como cheio da presença do Senhor, torna sagrada aquela terra, quase imprimindo ali a memória daquele misterioso encontro com Deus. Aquele que se deixa abençoar por Deus, se abandona a Ele, se deixa transformar por Ele, torna abençoado o mundo. Que o Senhor nos ajude a combater o bom combate da fé (cf. 1Tm 6, 12; 2Tm 4, 7) e a pedir, na nossa oração, a sua bênção, para que nos renove na espera de ver o se Rosto. Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 25 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Nossa Senhora da Estrada

24 de maio


Nossa Senhora da Estrada
Rogai por nós!


Maria, Madonna della strada,
hai camminato sui monti della Giudea,
portando, sollecita, Gesù e la sua gioia;
hai camminato da Nazareth a Betlemme
dove è nato il tuo bambino, il Signore nostro;
hai camminato sulle strade dell'esilio
per salvare il Figlio dell'Altissimo;
hai camminato sulla via del Calvario
per diventare nostra Madre.
Continua a camminare
accanto ai missionari del tuo Figlio
che sulle strade del mondo vogliono,
come te, Arca di Alleanza,
portare a tutte le genti Gesù,
il suo vangelo, la sua salvezza.


Maria, Nossa Senhora da Estrada,
caminhaste pelos montes da Judeia,
levando, com solicitude, Jesus e a Sua alegria;
caminhaste de Nazaré a Belém
onde nasceu o Teu menino, nosso Senhor;
caminhaste nas estradas do exílio
para salvar o Filho do Altíssimo;
caminhaste pelos caminhos do Calvário
para Te tornares nossa Mãe.
Continua caminhando
ao lado dos missionários do Teu Filho
que, nas estradas do mundo, querem,
como Tu, Arca de Aliança,
levar Jesus a todos os povos,
o Seu Evangelho, a Sua salvação.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O Novo Testamento deu fim à invisibilidade do Pai

Bento XVI

Regina Coeli

Praça São Pedro
Domingo, 22 de maio de 2011

Caros irmãos e irmãs!
O Evangelho deste domingo, o Quinto da Páscoa, propõe um duplo mandamento sobre a fé: crer em Deus e crer em Jesus. O Senhor, de fato, disse ao seus discípulos: “Tenhais fé em Deus e tenhais fé também em mim” (Jo 14, 1). Não são dois atos separados, mas um único ato de fé, a plena adesão à salvação operada por Deus Pai através de seu Filho Unigênito. O Novo Testamento deu fim à invisibilidade do Pai. Deus mostrou o seu rosto, como confirma a resposta de Jesus ao apóstolo Felipe: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 9). O Filho de Deus, com a sua encarnação, morte e ressurreição, nos libertou da escravidão do pecado para nos dar a liberdade dos filhos de Deus e nos fez conhecer o rosto de Deus que é amor: Deus pode ser visto, é visível em Cristo. Santa Teresa d’Ávila escreve que “não devemos nos distanciar daquilo que constitui todo o nosso bem e o nosso remédio, ou seja, da santíssima humanidade de nosso Senhor Jesus Cristo” (Castelo interior, 7, 6). Portanto, apenas crendo em Cristo, permanecendo unidos a Ele, os discípulos, entre os quais estamos também nós, podem continuar a sua ação permanente na história: “Em verdade, em verdade, eu vos digo – disse o Senhor –, quem crê em mim, também ele realizará as obras que eu realizo” (Jo 14, 12).
A fé em Jesus comporta segui-Lo cotidianamente, nas ações simples que compõem o nosso dia-a-dia. “É próprio do mistério de Deus agir de modo submisso. Somente aos poucos Ele constrói na grande história da humanidade a sua história. Torna-se homem, mas de modo a poder ser ignorado pelos seus contemporâneos, pelas forças de poder da história. Padece e morre e, como Ressuscitado, quer chegar à humanidade apenas através da fé dos seus aos quais se manifesta. Continuamente, Ele bate submissamente às portas dos nossos corações e, se lhe abrimos, lentamente nos torna capazes de ‘ver’” (Jesus de Nazaré II, 2011, p. 206). Santo Agostinho afirma que “era necessário que Jesus dissesse: ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida’ (Jo 14, 6), para que uma vez conhecido o caminho, se conhecesse a meta” (Tractatus in Ioh., 69, 2: CCL 36, 500), e a meta é o Pai. Para os cristãos, para cada um de nós, portanto, o Caminho para o Pai é deixar-se guiar por Jesus, por sua palavra de Verdade, e acolher o dom da sua Vida. Façamos nosso o convite de São Boaventura: “Abre pois os olhos, dispõe o ouvido espiritual, abre os teus lábios e dispõe o teu coração, para que possas, em todas as criaturas, ver, escutar, louvar, amar, venerar, glorificar, honrar o teu Deus” (Itinerarium mentis in Deum, I, 15).
Caros amigos, o compromisso de anunciar Jesus Cristo, “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6), constitui a tarefa principal da Igreja. Invoquemos a Virgem Maria para que assista sempre os Pastores e aqueles que, nos diversos ministérios, anunciam a feliz Mensagem de salvação, para que a Palavra de Deus se difunda e o número dos discípulos se multiplique (cf. At 6, 7)

* Extraído do site do Vaticano, do dia 22 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Uma aventura fascinante


Colóquio do Santo Padre Bento XVI com os astronautas
da Estação Espacial Internacional

Sala dos Foconi
Sábado, 21 de maio de 2011

Introdução
Caros astronautas,
Fico muito feliz de ter esta extraordinária possibilidade de uma conversa convosco durante a vossa missão. Sou particularmente grato de poder me dirigir a tantos de vós, dada a presença, ao mesmo tempo, neste momento, de duas tripulações na Estação Espacial.
A humanidade vive um período de rapidíssimo progresso dos conhecimentos científicos e das aplicações técnicas. Neste sentido, sois os nossos representantes – a ponta de lança – da humanidade que explora novos espaços e novas possibilidades para o nosso futuro, indo além dos limites das nossas experiências cotidianas.
Todos admiram a vossa coragem, a disciplina e o empenho com o qual vos preparastes para esta missão. Estamos convencidos de que sois animados por ideais nobres e que quereis colocar os frutos de vossas pesquisas e de vossos empreendimentos à disposição de toda a humanidade e para o bem comum.
Esta conversa, portanto, me permite expressar também a minha admiração e apreciação por vós e por todos aqueles que colaboram para tornar possível o vosso empreendimento, além de encorajar-vos a levá-la a bom termo com segurança e sucesso.
Mas, esta deve ser uma conversa, por isso não devo ser eu apenas a falar. Pelo contrário, estou muito interessado em ouvir as vossas experiências e reflexões. Permiti-me, portanto, dirigir-vos algumas perguntas:

Perguntas
Primeira pergunta
Da Estação Espacial, podeis ver a nossa Terra de uma perspectiva muito diferente. Sobrevoais continentes e povos diversos, muitas vezes ao dia. Creio que, para vós, seja evidente que vivamos todos juntos numa única Terra e que é absurdo que combatamos e nos matemos uns aos outros. Sei que a mulher de Mark Kelly foi vítima de um grave atentado e espero que a sua saúde continue a melhorar. Contemplando do alto a Terra, quais as considerações que vós fazeis sobre o modo com o qual as nações e os povos vivem juntos aqui embaixo, ou sobre como a ciência pode contribuir para a causa da paz?
Resposta de Mark Kelly (EUA)
Obrigado, Santidade, pelas suas palavras gentis e obrigado por ter recordado minha mulher Gabby. Sua pergunta é interessante. De fato, voamos sobre o mundo e não vemos limites, mas ao mesmo tempo nos damos conta do fato que os povos se enfrentam, que há tanta violência neste mundo e isto é, verdadeiramente, uma desgraça. Geralmente, os povos se enfrentam por razões diversas. É visível, hoje em dia, no Oriente Médio: em parte é uma questão de democracia, mas normalmente os povos lutam pelos recursos. É interessante aquilo que acontece no espaço: na Terra, de fato, frequentemente, se luta por energia; no espaço, utilizamos a energia solar e, na Estação Espacial, temos reservas energéticas. Veja, a ciência e a tecnologia aplicadas à Estação Espacial para desenvolver o potencial de energia solar nos mantém, na realidade, quase que com uma quantidade ilimitada de energia. Eis então, se estas tecnologias fossem mais usadas na Terra, provavelmente a violência poderia ser reduzida.

Segunda pergunta
Um dos temas sobre os quais retorno mais frequentemente nos meus discursos é o da responsabilidade que todos temos pelo futuro do nosso planeta. Recordo que há sérios riscos para o ambiente e para a sobrevivência das futuras gerações. Os cientistas nos convidam à prudência e, do ponto de vista ético, devemos fazer com que cresçam nossas consciências. Do vosso ponto de vista extraordinário, como vedes a situação da Terra? Vedes sinais ou fenômenos para os quais devemos estar mais atentos?
Resposta de Ron Garan (EUA)
Santidade, é uma grande honra falar com o senhor. Tem razão: aquilo que temos daqui é um ponto de vista verdadeiramente extraordinário. De um lado, vemos o quão indescritivelmente belo é o planeta que nos foi dado; de outro, podemos ver o quão frágil é, na realidade. Peguemos, por exemplo, a atmosfera: vista do espaço, é fina como uma folha de papel, e pensar que este extrato fino como uma folha seja tudo aquilo que separa qualquer ser vivo do vazio do espaço, e que seja tudo aquilo que nos proteja, é um pensamento que faz refletir. Veja, a nós parece incrível ver a Terra pendurada no vazio do espaço e pensar que nos encontramos ali, todos juntos, na corrida desse frágil oásis através do universo... É isso, nos enche de grande esperança pensar que nos encontramos todos juntos a bordo desta incrível Estação Espacial que orbita a Terra, construída por tantos países numa colaboração internacional, para que se pudesse realizar este grandioso empreendimento... Veja, isto demonstra que, trabalhando juntos, colaborando, podemos superar muitos dos problemas que o planeta vem enfrentando, podemos resolver muitos dos desafios colocados aos habitantes do nosso planeta, que é verdadeiramente um lugar belíssimo para se viver e trabalhar, e este lugar no qual nos encontramos é incrível para admirar a nossa bela Terra!

Terceira pergunta
A experiência que estais fazendo agora é extraordinária e muito importante, mas depois voltareis para esta Terra como todos nós. Quando voltardes, sereis olhados com admiração, sereis tratados como heróis e falareis com grande autoridade. Convidar-vos-ão a falar das vossas experiências. Quais seriam as mensagens mais importantes que gostaríeis de dirigir sobretudo aos jovens, que viverão num mundo profundamente marcado pelas vossas experiências e descobertas?
Resposta de Mike Finchke (EUA)
Santidade, como disseram os meus colegas, podemos olhar para baixo e admirar este esplêndido planeta que Deus fez, que é o mais belo planeta de todo o Sistema Solar. Porém, se levantarmos o olhar, veremos o resto do Universo, e o Universo está ali para ser explorado por nós. E a Estação Espacial Internacional é apenas um símbolo, um exemplo daquilo que os seres humanos podem fazer quando trabalham juntos de forma construtiva. Portanto, a nossa mensagem – uma das nossas mensagens, mas acredito que a mais importante – é que devemos fazer os filhos e os jovens deste planeta saber que em torno de nós há todo um Universo a ser explorado. E que, se o fizermos juntos, não há nada que não possamos obter!

Quarta pergunta
A exploração do espaço é uma aventura científica fascinante. De fato, sei que, nestes dias, estais instalando novos instrumentos para a pesquisa científica e o estudo das radiações que chegam do espaço mais distante. Mas, acredito que seja também uma aventura do espírito humano, um estímulo poderoso para fazer refletir sobre a origem e o destino do universo e da humanidade. Os crentes olham frequentemente para os espaços sem fim, meditando sobre o Criador de tudo isto, e ficam tocados pelo mistério da sua grandeza. Por isso, a medalha que confiei a Roberto Vittori, como sinal da minha participação na vossa missão, representa a criação do homem, pintada por Michelangelo na abôbada da Capela Sistina. No vosso compromisso intenso de trabalho e de pesquisa, acontece de parardes para fazer semelhantes reflexões – ou mesmo de dirigirdes uma oração ao Criador? Ou é mais fácil para vós refletir sobre estas coisas quando estais de retorno à Terra?
Resposta de Roberto Vittori (Itália)
Santidade, viver a bordo da Estação Espacial Internacional, trabalhar como astronauta na nave Soyuz da Estação é uma experiência extremamente intensa. Mas, quando cai a noite, todos podemos olhar para baixo, para a Terra: o nosso planeta, o planeta azul, é belíssimo. Azul é a cor do nosso planeta, azul é a cor do céu, azul é também a cor da Aeronáutica militar italiana, a organização que me deu a oportunidade de entrar na Agência Espacial Europeia. Quando temos um momento de tempo para a beleza aí de baixo, que é o efeito tridimensional da beleza do nosso planeta, quem captura tudo é o nosso coração, quem captura tudo é o meu coração. E, então, eu rezo: rezo por mim, rezo pelas nossas famílias, pelo nosso futuro. Trouxe a medalha comigo, e a faço flutuar diante de mim, para demonstrar a falta de gravidade. Desejo agradecer ao senhor muitíssimo por esta oportunidade; quero que esta medalha flutue em direção ao meu amigo e colega Paolo: ele, de fato, voltará para a Terra no Soyuz. Eu a trouxe comigo para o espaço e ele a levará de volta para a Terra, a fim de restitui-la ao senhor.

Quinta pergunta
A minha última pergunta é para Paolo. Caro Paolo, sei que, nos últimos dias, tua mãe te deixou e quando, daqui a alguns dias, voltares à casa, não a encontrarás mais te esperando. Todos ficamos próximos de ti, e eu também rezei por ela... Como viveste este tempo de dor? Na vossa Estação, estais distantes e isolados, e sofreis de um sentido de separação, ou vos sentis ainda mais unidos entre vós e inseridos numa comunidade que vos acompanha com atenção e afeto?
Resposta de Paolo Nespoli (Itália)
Santo Padre, senti suas orações, as vossas orações chegarem até aqui em cima: é verdade, estamos fora deste mundo, orbitamos ao redor da Terra e temos um ponto de vantagem para olhar a Terra e para sentir tudo aquilo que está em torno dela. Os meus colegas aqui, a bordo da Estação – Dimitri, Kelly, Ron, Alexander e Andrei – ficaram muito próximos de mim neste momento importante para mim, muito intenso, assim como os meus irmãos, as minhas irmãs, as minhas tias, os meus primos, os meus parentes também estiveram próximos de minha mãe nos últimos momentos. Sou grato por tudo isto. Senti-me distante, mas também muito próximo, e seguramente pensar que todos vós estáveis perto de mim, unidos neste momento, foi de extremo alívio. Agradeço também à Agência Espacial Europeia e à Agência Espacial Americana, que colocaram à disposição os recursos para que eu tenha podido falar com ela nos últimos momentos.

Palavras conclusivas do Papa
Caros astronautas,
Agradeço-vos cordialmente por esta belíssima ocasião de encontro e de diálogo convosco. Vós me haveis ajudado e a tantas outras pessoas a refletirem juntos sobre temas importantes para o futuro da humanidade. Faço os melhores votos pelo vosso trabalho e pelo sucesso da vossa grande missão a serviço da ciência, da colaboração internacional, do progresso autêntico e da paz no mundo. Continuarei a vos seguir com o meu pensamento e a minha oração e, de muito bom grado, vos transmito a minha Bênção Apostólica.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 21 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Que na Universidade haja uma autêntica paixão pela Verdade...

Discurso do Santo Padre Bento XVI
aos dirigentes, docentes e estudantes
da Universidade Católico do Sagrado Coração

Aula Paulo VI
Sábado, 21 de maio de 2011

Senhores Cardeais,
Magnífico Reitor, ilustres Docentes,
Distintos representantes do pessoal,
Caros estudantes!
Estou muito feliz de poder ter este encontro com vós que formais a grande família da Universidade Católica do Sagrado Coração, nascida há noventa anos sob a iniciativa do Instituto Giuseppe Toniolo de Estudos Superiores, entidade fundadora e garantidora do Ateneu, pela feliz intuição de Padre Agostino Gemelli. Agradeço ao Cardeal Tettamanzi e ao Prof. Ornaghi, pelas calorosas palavras que me dirigiram em nome de todos.
O nosso tempo é um tempo de grandes e rápidas transformações, que se refletem também sobre a vida universitária: a cultura humanista parece atingida por um progressivo desgaste, enquanto se acentua o valor das disciplinas ditas “produtivas”, de âmbito tecnológico e econômico; esbarramos com a tendência a reduzir o horizonte humano ao nível daquilo que é mensurável, a eliminar do saber sistemático e crítico a questão fundamental sobre o sentido. A cultura contemporânea, por isso, tende a confinar a religião fora dos espaços da racionalidade: na medida em que as ciências empíricas monopolizam os territórios da razão, não parece haver mais espaço para as razões do crer, de forma que a dimensão religiosa é relegada à esfera da opinião e do privado. Neste contexto, as motivações e as características mesmas da instituição universitária são radicalmente questionadas.
Noventa anos depois de sua fundação, a Universidade Católica do Sagrado Coração se encontra vivendo esta virada histórica, na qual é importante consolidar e incrementar as razões pelas quais nasceu, levando àquela conotação eclesial que é evidenciada pelo adjetivo “católica”; a Igreja, de fato, “especialista em humanidade”, é promotora de humanismo autêntico. Emerge, nesta perspectiva, a vocação original da Universidade, nascida da busca pela verdade, de toda a verdade, de toda a verdade do nosso ser. E com a sua obediência à verdade e às exigências do seu conhecimento ela se torna escola de humanitas na qual se cultiva um saber vital, se forjam personalidades fortes e se transmitem conhecimentos e competências de valor. A perspectiva cristã, como quadro do trabalho intelectual da Universidade, não se contrapõe ao saber científico e às conquistas da engenhosidade humana, mas, pelo contrário, a fé alarga o horizonte do nosso pensamento, é caminho para a verdade plena, guia de autêntico desenvolvimento. Sem orientação para a verdade, sem uma postura de procura humilde e audaz, toda cultura se desfaz, decai no relativismo e se perde no efêmero. Tirada, pelo contrário, das garras de um reducionismo que a mortifica e a circunscreve, pode se abrir a uma interpretação verdadeiramente iluminada do real, desempenhando assim um autêntico serviço para a vida.
Caros amigos, fé e cultura são grandezas indissoluvelmente ligadas, manifestações daquele desiderium naturale videndi Deum que está presente em todo homem. Quando esta união se quebra, a humanidade tende a dobrar-se e fechar-se sobre suas próprias capacidades criativas. É necessário, então, que na Universidade haja uma autêntica paixão pela questão do Absoluto, a Verdade mesma, e portanto também pelo saber teológico, que no vosso Ateneu é parte integrante do currículo. Unindo em si a audácia da pesquisa e a paciência do amadurecimento, o horizonte teológico pode e deve valorizar todos os recursos da razão. A questão da Verdade e do Absoluto – a questão de Deus – não é uma investigação abstrata, separada da realidade do cotidiano, mas é a pergunta crucial, da qual depende radicalmente a descoberta de sentido do mundo e da vida. No Evangelho se funda uma concepção do mundo e do homem que não cessa de desencadear significados culturais, humanistas e éticos. O saber da fé, portanto, ilumina a pesquisa do homem, a interpreta humanizando-a, a integra em projetos de bem, arrancando-a da tentação do pensamento calculador, que instrumentaliza o saber e faz das descobertas científicas meios de poder e de escravização do homem.
O horizonte que anima o trabalho universitário pode e deve ser a paixão autêntica pelo homem. Somente no serviço ao homem a ciência se desenvolve como verdadeiro cultivo e custódia do universo. E servir ao homem é fazer a verdade na caridade, é amar a vida, respeitá-la sempre, a começar das situações nas quais ela é mais frágil e indefesa. É esta a nossa tarefa, especialmente nos tempos de crise: a história da cultura mostra como a dignidade do homem foi reconhecida verdadeiramente na sua integralidade à luz da fé cristã. A Universidade Católica é chamada a ser lugar no qual toma forma de excelência aquela abertura ao saber, aquela paixão pela verdade, aquele interesse pela história do homem caracterizam a autêntica espiritualidade cristã. De fato, colocar-se numa postura de fechamento ou de distanciamento diante da perspectiva da fé significa esquecer que ela foi ao longo da história, e o é ainda, fermento de cultura e luz para a inteligência, estímulo para que se desenvolvessem todas as suas potencialidades positivas para o bem autêntico do homem. Como afirma o Concílio Vaticano II, a fé é capaz de dar luz à existência. Diz o Concílio que a fé “vê todas as coisas sob um luz nova, e revela as intenções de Deus sobre a vocação integral do homem, e por isso guia a inteligência para soluções plenamente humanas” (Gaudium et spes, 11).
A Universidade Católica é lugar no qual isto deve acontecer com eficácia singular, sob o perfil seja científico, seja didático. Este peculiar serviço para a Verdade é dom de graça e expressão qualificante de caridade evangélica. A atestação da fé e o testemunho da caridade são incindíveis (cf. 1Jo 3, 23). O núcleo profundo da verdade de Deus, de fato, é o amor com o qual Ele se inclinou sobre o homem e, em Cristo, lhe ofereceu dons infinitos de graça. Em Jesus, descobrimos que Deus é amor e que somente no amor podemos conhecê-Lo: “todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus (...), porque Deus é amor” (1Jo 4, 7.8), diz São João. E Santo Agostinho afirma: “Non intratur in veritatem nisi per caritatem” (Contra Faustum, 32). O vértice do conhecimento de Deus se atinge no amor; aquela amor que sabe ir até à raiz, que não se contenta com ocasionais expressões filantrópicas, mas ilumina o sentido da vida com a Verdade de Cristo, que transforma o coração do homem e o arranca dos egoísmos que geram miséria e morte. O homem precisa de amor, homem precisa de verdade, para não desperdiçar o frágil tesouro da liberdade e ser exposto à violência das paixões e aos condicionamentos abertos e ocultos (cf. João Paulo II, Enc. Centesimus annus, 46). A fé cristã não faz da caridade um sentimento vago e piedoso, mas uma força capaz de iluminar os caminhos da vida em todas as suas expressões. Sem esta visão, sem esta dimensão teologal originária e profunda, a caridade se contenta com a ajuda ocasional e renuncia à tarefa profética, que lhe é própria, de transformar a vida da pessoa e as estruturas mesmas da sociedade. Este é um compromisso específico que a missão na Universidade vos chama a realizar como protagonistas apaixonados, convictos de que a força do Evangelho é capaz de renovar as relações humanas e penetrar no coração da realidade.
Caros jovens universitários da “Católica”, sois a demonstração viva daquele caráter da fé que muda a vida e salva o mundo, com os problemas e as esperanças, com as interrogações e as certezas, com as aspirações e os compromissos que o desejo de uma vida melhor gera e a oração alimenta. Caros representantes do pessoal técnico-administrativo sede orgulhosos das tarefas que vos são confiadas no contexto da grande família universitária no suporte da multiforme atividade formativa e profissional. E a vós, caros Docentes, é confiado um papel decisivo: mostrar como a fé cristã é fermento de cultura e luz para a inteligência, estímulo para que se desenvolva todas as suas potencialidades positivas, para o bem autêntico do homem. Aquilo que razão vê, a fé ilumina e manifesta. A contemplação da obra de Deus abre o saber à exigência da investigação racional, sistemática e crítica; a busca por Deus reforça o amor pelas letras e pelas ciências profanas: “Fides ratione adiuvatur et ratio fide perficitur”, aifrma Hugo de São Victor (De sacramentis, I, III, 30: PL 176, 232). Nesta perspectiva, a Capela é o coração pulsante e o alimento constante da vida universitária, à qual se une o Centro Pastoral onde os Assistentes Espirituais das diversas sedes são chamados a desenvolverem sua preciosa missão sacerdotal que é imprescindível para a identidade da Universidade Católica. Como ensina o Beato João Paulo II, a Capela “é lugar do espírito, onde pausam em oração e encontram alimento, orientação e sustento os crentes em Cristo, que vivem com modalidades diversas a vida intensa da Universidade; é academia de virtudes cristãs, onde cresce e se desenvolve a vida batismal, e se expressa com ardor apostólico; é casa acolhedora e aberta, para todos aqueles que, escutando o Mestre interior, se fazem buscadores de verdade e servem o homem na dedicação diuturna a um saber não satisfeito com horizontes estreitos e pragmáticos. No contexto da modernidade em declínio, ela se torna, com forte ênfase, centro vivo e propulsor de animação cristã da cultura: no diálogo respeitoso e franco, na proposta clara e motivada (cf. 1Pd 3, 15), no testemunho que interroga e convence” (Discurso aos Capelães europeus, 1 de maio de 1998). Assim dizia o Papa João Paulo II, em 1998.
Caros amigos, espero que a Universidade Católica do Sagrado Coração, em sintonia com as intenções do Instituto Toniolo, prossiga com renovada confiança o seu caminho, mostrando de forma eficaz que a luz do Evangelho é fonte de verdadeira cultura capaz de desencadear energias de um humanismo novo, integral, transcendente. Confio-vos a Maria Sedes Sapientiae e, com afeto, vos transmito de coração minha Bênção Apostólica

* Extraído do site do Vaticano, do dia 21 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Oração


Oração
A banda mais bonita da cidade


Meu amor, essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na dispensa
Cabe o meu amor!
Cabe em três vidas inteiras
Cabe em uma penteadeira
Cabe nós dois
Cabe até o meu amor
Essa é a última oração pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na dispensa
Cabe o meu amor!
Cabe em três vidas inteiras
Cabe em uma penteadeira
Cabe essa oração

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Que nas nossas cidades se encontre um germe de bem...

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 18 de maio de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Nas duas últimas catequeses, refletimos sobre a oração como fenômeno universal, que – mesmo em formas diversas – se encontra presente nas culturas de todos os tempos. Hoje, pelo contrário, gostaria de começar um percurso bíblico sobre este ema, que nos guiará rumo ao aprofundamento do diálogo de aliança entre Deus e o homem que anima a história da salvação, até ao cume, à palavra definitiva que é Jesus Cristo. Este caminho nos levará a parar sobre alguns importantes textos e figuras paradigmáticas do Antigo e do Novo Testamentos. Será Abraão, o grande Patriarca, pai de todos os crentes (cf. Rm 4, 11-12.16-17), que nos oferecerá um primeiro exemplo de oração, no episódio da intercessão pelas cidades de Sodoma e Gomorra. E gostaria também de vos convidar a aproveitar o percurso que faremos nas próximas catequeses para aprender a conhecer mais a Bíblia, que espero tenhais em vossas casas, e, durante a semana, dediqueis um tempo para lê-la e meditá-la na oração, para conhecer a maravilhosa história do relacionamento entre Deus e o homem, entre Deus que se comunica a nós e o homem que responde, que reza.
O primeiro texto sobre o qual queremos refletir se encontra no capítulo 18 do Livro do Gênesis; narra-se que a maldade dos habitantes de Sodoma e Gomorra tinha chegado ao ápice, a ponto de ser necessária uma intervenção de Deus a fim de realizar um ato de justiça e parar o mal, destruindo aquelas cidades. É nesse ponto que aparece Abraão com a sua oração de intercessão. Deus decide revelar a ele aquilo que está para acontecer e lhe faz conhecer a gravidade do mal e suas terríveis consequências, porque Abraão é o seu eleito, escolhido para se tornar um grande povo e fazer chegar a bênção divina a todo o mundo. A sua missão é de salvação, e deve responder ao pecado que invadiu a realidade do homem; através dele o Senhor quer trazer a humanidade de volta para a fé, para a obediência, para a justiça. E agora, este amigo de Deus se abre para a realidade e para necessidade do mundo, reza por aqueles que estão para ser punidos e pede que sejam salvos.
Abraão assume imediatamente o problema em toda a sua gravidade, e diz ao Senhor: “Fareis o justo perecer com o ímpio? Talvez haja cinqüenta justos na cidade: fá-los-eis perecer? Não perdoaríeis antes a cidade, em atenção aos cinqüenta justos que nela se poderiam encontrar? Não, vós não poderíeis agir assim, matando o justo com o ímpio, e tratando o justo como ímpio! Longe de vós tal pensamento! Não exerceria o juiz de toda a terra a justiça?” (Gn 18, 23-25). Com estas palavras, com grande coragem, Abraão coloca diante de Deus a necessidade de evitar uma justiça sumária: se a cidade é culpada, é justo condenar o seu crime e infligir a pena, mas – afirma o grande Patriarca – seria injusto punir de modo indiscriminado todos os habitantes. Se na cidade há inocentes, estes não podem ser tratados como os culpados. Deus, que é um justo juiz, não pode agir assim, diz Abraão muito justamente a Deus.
Se lemos, porém, mais atentamente o texto, nos daremos conta de que a solicitação de Abraão é ainda mais séria e profunda, porque não se limita a pedir a salvação para os inocentes. Abraão pede o perdão para toda a cidade e o faz apelando à justiça de Deus; de fato, ele diz ao Senhor: “Não perdoaríeis antes a cidade, em atenção aos cinqüenta justos que nela se poderiam encontrar?” (v. 24b). Fazendo assim, coloca em jogo uma nova ideia de justiça: não aquela que se limita a punir os culpados, como fazem os homens, mas uma justiça diferente, divina, que busca o bem e o cria através do perdão que transforma o pecador, o converte e o salva. Com a sua oração, portanto, Abraão não invoca uma justiça meramente retributiva, mas uma intervenção de salvação que, levando em conta os inocentes, livre da culpa também os ímpios, perdoando-os. O pensamento de Abraão, que parece quase paradoxal, poderia ser sintetizado assim: obviamente não se pode tratar os inocentes como os culpados, isto seria injusto, é preciso, pelo contrário, tratar os culpados como os inocentes, colocando em ação uma justiça “superior”, oferecendo a eles uma possibilidade de salvação, porque se os malfeitores aceitam o perdão de Deus e confessam a culpa, deixando-se salvar, não continuarão mais a fazer o mal, se tornarão também eles justos, sem mais necessidade de serem punidos.
É este o pedido de justiça que Abraão expressa na sua intercessão, um pedido que se funda sobre a certeza de que o Senhor é misericordioso. Abraão não pede a Deus uma coisa contrária à Sua essência, bate à porta do coração de Deus conhecendo Sua verdadeira vontade. É certo que Sodoma é uma cidade grande, de forma que cinquenta justos parecem poucos, mas a justiça de Deus e o Seu perdão não são, talvez, a manifestação da força do bem, mesmo que pareça menor e mais frágil do que o mal? A destruição de Sodoma deveria fazer parar o mal presente na cidade, mas Abraão sabe que Deus tem outros modos e outros meios para impedir a difusão do mal. É o perdão que interrompe a espiral do pecado, e Abraão, no seu diálogo com Deus, apela justamente a isto. E quando o Senhor aceita perdoar a cidade se encontrar nela os cinquenta justos, a sua oração de intercessão começa a descer em direção aos abismos da misericórdia divina. Abraão – como recordamos – diminui progressivamente o número de inocentes necessários para a salvação: se não existirem cinquenta, poderia bastar quarenta e cinco? Depois, desce sempre mais até chegar a dez, continuando a sua súplica, que se torna quase audaciosa na insistência: “Talvez só haja aí quarenta... trinta... vinte... dez” (cf. vv. 29.30.31.32). E quanto menor é o número, maior se revela e se manifesta a misericórdia de Deus, que escuta com paciência a oração, a acolhe e repete a cada súplica: “Perdoarei... não destruirei...não farei” (cf. vv. 26.28.29.30.31.32).
Assim, por intercessão de Abraão, Sodoma poderá ser salva, se nela se encontrarem apenas dez inocentes. É esta a potência da oração. Porque, através da intercessão, a oração a Deus pela salvação dos outros, se manifesta e se expressa o desejo de salvação que Deus nutre sempre pelo homem pecador. O mal, de fato, não pode ser aceito, deve ser assinalado e destruído através da punição: a destruição de Sodoma tinha exatamente esta função. Mas, o Senhor não quer a morte do malvado, mas que ele se converta e viva (cf. Ez 18, 23; 33, 11); o Seu desejo é sempre o de perdoar, salvar, dar vida, transformar o mal em bem. Pois bem, é exatamente este desejo divino que, na oração, se torna desejo do homem e se expressa através das palavras de intercessão. Com a sua súplica, Abraão está dando a própria voz, mas também o próprio coração, à vontade divina: o desejo de Deus é misericórdia, amor e vontade de salvação, e este desejo de Deus encontrou em Abraão e na sua oração a possibilidade de se manifestar de modo concreto no meio da história dos homens, para estar presente onde há necessidade de graça. Com a voz da sua oração, Abraão está dando voz ao desejo de Deus, que não é o de destruir, mas o de salvar Sodoma, de dar vida ao pecadores convertidos. 
É isto que o Senhor quer, e o Seu diálogo com Abraão é uma prolongada e inequívoca manifestação do seu amor misericordioso. A necessidade de encontrar homens justos no meio da cidade se torna cada vez menos exigente e, no fim, bastariam dez para salvar a totalidade da população. Por qual motivo Abraão para em dez, não é dito no texto. Talvez seja um número que indica um núcleo comunitário mínimo (ainda hoje, dez pessoas é o quórum necessário para a oração pública judaica). Seja como for, trata-se de um número exíguo, uma pequena partícula de bem de onde partir para salvar um grande mal. Mas, nem mesmo dez justos são encontrados em Sodoma e Gomorra, e as cidades são destruídas. Uma destruição paradoxalmente testemunhada como necessária exatamente pela oração de intercessão de Abraão. Porque exatamente aquela oração revelou a vontade salvífica de Deus: o Senhor estava disposto a perdoar, desejava fazê-lo, mas as cidades estavam fechadas num mal totalizante e paralisante, sem nem mesmo alguns poucos inocentes de onde partir para transformar o mal em bem. Porque é exatamente este o caminho da salvação que Abraão também pedia: sermos salvos não quer dizer simplesmente escaparmos da punição, mas sermos livres do mal que nos habita. Não é o castigo que deve ser eliminado, mas o pecado, aquela recusa de Deus e do amor que já traz em si o castigo. O profeta Jeremias dirá ao povo rebelde: “Valeu-te este castigo tua malícia, e tuas infidelidades atraíram sobre ti a punição. Sabe, portanto, e vê quanto te foi funesto e amargo abandonar o Senhor teu Deus” (Jr 2, 19). É desta tristeza e amargura que o Senhor quer salvar o homem, livrando-o do pecado. É necessária, porém, uma transformação a partir de dentro, um certo pretexto de bem, um início de onde partir para transmutar o mal em bem, o ódio em amor, a vingança em perdão. Por isto, os justos devem estar dentro da cidade, e Abraão continuamente repete: “talvez encontremos lá...”. “Lá”: é dentro da realidade doente que deve existir algum germe de bem que pode recuperar a saúde e dar a vida outra vez. É uma palavra dirigida também a nós: que nas nossas cidades se encontre o germe de bem; que façamos de tudo para que existam não apenas dez justos, para fazer com que vivam e sobrevivam realmente as nossas cidades e para que sejamos salvos desta amargura interior que é a ausência de Deus. E na realidade doente de Sodoma e Gomorra aquele germe de bem não se encontrava.
Mas, a misericórdia de Deus na história do seu povo se alarga depois. Se, para salvar Sodoma eram necessários dez justos, o profeta Jeremias dirá, em nome do Onipotente, que basta um só justo para salvar Jerusalém: “Percorrei as ruas de Jerusalém, olhai, perguntai; procurai nas praças, vede se nelas encontrais um homem, um só homem que pratique a justiça e que seja leal; então eu perdoarei a cidade” (Jr 5, 1). O número desceu mais, a bondade de Deus se mostra ainda maior. E no entanto isto ainda não basta, a superabundante misericórdia de Deus não encontra a resposta de bem que busca, e Jerusalém cai sob o assédio do inimigo. Será preciso que Deus mesmo se torne aquele justo. E este é o mistério da Encarnação: para garantir um justo, Ele mesmo se faz homem. O justo sempre existirá, porque é Ele: é preciso, porém, que Deus mesmo se torne aquele justo. O infinito e surpreendente amor divino será plenamente manifesto quando o Filho de Deus se fizer homem, o Justo definitivo, o perfeito Inocente, que levará a salvação ao mundo inteiro, morrendo na cruz, perdoando e intercedendo por aqueles que “não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Então, a oração de todo homem encontrará a sua resposta, então todas as nossas intercessões serão plenamente respondidas.
Caros irmãos e irmãs, a súplica de Abraão, nosso pai na fé, nos ensine a abrir sempre mais o coração para a misericórdia superabundante de Deus, para que, na oração cotidiana, saibamos desejar a salvação da humanidade e pedi-la com perseverança e com confiança ao Senhor que é grande no amor. Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 18 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Os homens sempre têm necessidade de Deus, mesmo neste nosso mundo tecnológico...

Bento XVI

Regina Coeli

Praça São Pedro
Domingo, 15 de maio de 2011

Caros irmãos e irmãs!
A liturgia do IV Domingo de Páscoa nos apresenta um dos ícones mais belos que, desde os primeiros séculos da Igreja, representaram o Senhor Jesus: o do Bom Pastor. O Evangelho de São João, no capítulo décimo, nos descreve os traços peculiares do relacionamento entre Cristo Pastor e o seu rebanho, um relacionamento de tal forma estreito que ninguém nunca conseguirá tirar as ovelhas de sua mão. Elas, de fato, são unidas a Ele por um vínculo de amor e de recíproco conhecimento, que garante a eles o dom incomensurável da vida eterna. Ao mesmo tempo, a postura do rebanho para com o Bom Pastor, Cristo, é apresentado pelo Evangelista com dois verbos específicos: escutar e seguir. Estes termos designam as características fundamentais daqueles que vivem o seguimento do Senhor. Antes de tudo, a escuta da sua Palavra, da qual nasce e se alimenta a fé. Somente quem é atento à voz do Senhor é capaz de avaliar na própria consciência as justas decisões para agir segundo Deus. Da escuta deriva, portanto, o seguimento a Jesus: age-se como discípulos depois de ter escutado e acolhido interiormente os ensinamentos do Mestre, para vivê-los cotidianamente.
Neste domingo, portanto, é espontâneo recomendar a Deus os Pastores da Igreja, e aqueles que estão se formando para se tornarem Pastores. Convido-vos, por isso, a uma oração especial pelos Bispos – inclusive o Bispo de Roma! –, pelos párocos, por todos aqueles que têm responsabilidades como guias do rebanho de Cristo, para que sejam fiéis e sábios no cumprimento de seu ministério. Particularmente, rezemos pelas vocações sacerdotais nesta Jornada Mundial de Oração pelas Vocações, para que nunca faltem operários capazes na messe do Senhor. Há setenta anos, o Venerável Pio XII instituiu a Pontifícia Obra pelas Vocações Sacerdotais. A feliz intuição do meu Predecessor se fundava sobre a convicção de que as vocações crescem e amadurecem nas Igrejas particulares, se facilitadas por contextos familiares saudáveis e robustecidos pelo espírito de fé, de caridade e de piedade. Na mensagem enviada para esta Jornada Mundial, chamei a atenção para o fato de que uma vocação se realiza quando sai “da própria vontade fechada e da própria ideia de autorrealização, para imergir numa outra vontade, a de Deus, deixando-se guiar por ela”. Mesmo neste tempo, no qual a voz do Senhor parece submergir em meio a tantas outras vozes, toda comunidade eclesial é chamada a promover e cuidar das vocações ao sacerdócio e à vida consagrada. Os homens, de fato, sempre têm necessidade de Deus, mesmo neste nosso mundo tecnológico, e sempre será necessário Pastores que anunciem a sua Palavra e façam com que Senhor seja encontrado nos Sacramentos.
Caros irmãos e irmãs, revigorados pela alegria pascal e pela fé no Ressuscitado, confiemos os nossos propósitos e as nossas intenções à Virgem Maria, mãe de toda vocação, para que, com a sua intercessão, suscite e sustente numerosas e santas vocações para o serviço da Igreja e do mundo.

Apelo
Continuo acompanhando com grande apreensão o dramático conflito armado que, na Líbia, causou um elevado número de vítimas e de sofrimentos, sobretudo entre a população civil. Renovo um urgente apelo para que o caminho da negociação e do diálogo prevaleça sobre o da violência, com a ajuda dos organismos internacionais que se empenham na busca de uma solução para a crise. Asseguro, além do mais, a minha orante e comovida participação no compromisso com o qual a Igreja local assiste a população, particularmente através de pessoas consagradas presentes nos hospitais.
O meu pensamento se dirige também à Síria, onde é urgente restaurar uma convivência orientada para a concórdia e para a unidade. Peço a Deus que não haja mais derramamento de sangue naquela pátria de grandes religiosos e de grande civilização, e convido as autoridades e todos os cidadãos a não pouparem esforços na busca do bem comum e na acolhida das legítimas aspirações por um futuro de paz e de estabilidade.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 15 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O homem carrega em si o desejo de Deus

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 11 de maio de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Hoje, gostaria de continuar a refletir sobre como a oração e o senso religioso fazem parte do homem ao longo de toda a sua história.
Vivemos numa época na qual são evidentes os sinais do secularismo. Deus parece ter desaparecido do horizonte de várias pessoas, ou parece ter se tornado uma realidade para a qual permanecemos indiferentes. Vemos, porém, ao mesmo tempo, muitos sinais que nos indicam um despertar do senso religioso, uma redescoberta da importância de Deus para a vida do homem, uma exigência de espiritualidade, de superação de uma visão puramente horizontal, material da vida humana. Olhando para a história recente, percebe-se que falhou a previsão de quem, desde o Iluminismo, prenunciava o desaparecimento das religiões e exaltava uma razão absoluta, separada da fé, uma razão que teria acabado com as trevas dos dogmatismos religiosos e teria dissolvido o “mundo do sagrado”, restituindo ao homem a sua liberdade, a sua dignidade e a sua autonomia. A experiência do século passado, com suas duas trágicas Guerras Mundiais colocou em crise aquele progresso que a razão autônoma, o homem sem Deus, parecia poder garantir.
O Catecismo da Igreja Católica afirma: “Mediante a criação, Deus chama todo ser do nada à existência... Mesmo depois de ter perdido a semelhança com Deus por causa do pecado, o homem permanece imagem do seu Criador. Ele conserva o desejo daquele que o chama à existência. Todas as religiões testemunham esta busca essencial por parte dos homens” (n. 2566). Poderíamos dizer – como mostrei na última catequese [traduzida para o português aqui] – que nunca houve civilização, desde os tempos mais distantes até aos nossos dias, que não tenha sido religiosa.
O homem é, por sua natureza, religioso, é homo religiosus, assim como é homo sapiens e homo faber: “o desejo de Deus – afirma ainda o Catecismo – está inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus” (n. 27). A imagem do Criador está impressa no seu ser e ele sente a necessidade de encontrar uma luz para dar resposta às perguntas que dizem respeito ao sentido profundo da realidade; resposta que ele não pode encontrar por si mesmo, no progresso, na ciência empírica. O homo religiosus não emerge apenas dos mundos antigos, ele atravessa toda a história da humanidade. A este propósito, o rico terreno da experiência humana viu surgir variadas formas de religiosidade, na tentativa de responder ao desejo de plenitude e de felicidade, à necessidade de salvação, à busca de sentido. O homem “digital” ou mesmo aquele das cavernas busca na experiência religiosa os caminhos para superar a sua finitude e para assegurar a sua precária aventura terrena. De resto, a vida sem um horizonte transcendental não faria sentido algum e a felicidade, à qual todos tendemos, seria projetada espontaneamente para o futuro, num amanhã ainda a se realizar. O Concílio Vaticano II, na Declaração Nostra aetate, chamou a atenção sinteticamente assim: “Os homens esperam das várias religiões a resposta aos recônditos enigmas da condição humana, que ontem como hoje turbam profundamente o coração do homem: a natureza do homem [quem sou eu?], o sentido e o fim da nossa vida, o bem e o pecado, a origem e o objetivo da dor, o caminho para chegar à felicidade, a morte, o juízo e a pena depois da morte, finalmente o último e inefável mistério que circunda a nossa existência, de onde tiramos a nossa origem e em direção ao qual tendemos” (n. 1). O homem sabe que não pode responder sozinho à própria necessidade fundamental de entender. Ainda que tenha se iludido e se iluda ainda agora de ser autossuficiente, ele faz a experiência de não bastar a si mesmo. Tem necessidade de se abrir a um outro, a algo ou a alguém, que possa dar-lhe aquilo que lhe falta, deve sair de si mesmo e caminhar em direção dAquele que seja capaz de preencher a amplitude e a profundidade do seu desejo.
O homem carrega em si uma sede de infinito, uma nostalgia de eternidade, uma busca de beleza, um desejo de amor, uma necessidade de luz e de verdade, que o impulsionam em direção ao Absoluto; o homem carrega em si o desejo de Deus. E o homem sabe, de algum modo, que pode se voltar a Deus, sabe que pode rezar a Ele. Santo Tomás de Aquino, um dos maiores teólogos da história, define a oração “expressão do desejo que o homem tem de Deus”. Esta atração por Deus, que Deus mesmo colocou no homem, é a alma da oração, que depois se reveste de tantas formas e modalidades segundo a história, o tempo, o momento, a graça e mesmo o pecado de cada homem em oração. A história do homem conheceu, com efeito, variadas formas de oração, porque ele desenvolveu diversas modalidades de abertura ao Outro e ao Além, tanto que podemos reconhecer a oração como uma experiência presente em toda religião e cultura.
De fato, caros irmãos e irmãs, como vimos na quarta-feira passada, a oração não está ligada a um contexto particular, mas se encontra inscrita no coração de toda pessoa e de toda civilização. Naturalmente, quando falamos da oração como experiência do homem como tal, do homo orans, é necessário ter presente que ela é uma postura interior, antes que uma série de práticas e fórmulas, um modo de ser diante de Deus antes que a realização de atos de culto ou da pronunciação de palavras. A oração tem o seu centro e afunda suas raízes no mais profundo da pessoa; por isso, não é facilmente decifrável e, pelo mesmo motivo, pode ser sujeita a mal-entendidos e mistificações. Mesmo nesse sentido podemos compreender a expressão: rezar é difícil. De fato, a oração é o lugar por excelência da gratuidade, da tensão em direção ao Invisível, ao Inesperado e ao Inefável. Assim, a experiência da oração é, para todos, um desafio, uma “graça” a ser invocada, um dom dAquele para quem nos voltamos.
Na oração, em todas as épocas da história, o homem considera a si mesmo e a sua situação diante de Deus, a partir de Deus e em relação a Deus, e experimenta ser criatura necessitada de ajuda, incapaz de conquistar para si mesmo o cumprimento da própria existência e da própria esperança. O filósofo Ludwig Wittgenstein recordava que “rezar significa sentir que o sentido do mundo está fora do mundo”. Na dinâmica deste relacionamento com quem dá sentido à existência, com Deus, a oração tem uma das suas típicas expressões no gesto de se colocar de joelhos. É um gesto que carrega consigo uma ambivalência radical: de fato, posso ser obrigado a colocar-me de joelhos – condição de indigência e de escravidão –, mas posso também me ajoelhar espontaneamente, declarando o meu limite e, portanto, o meu ter necessidade de um Outro. A Ele declaro ser frágil, necessitado, “pecador”. Na experiência da oração, a criatura humana expressa toda a consciência de si, tudo aquilo que consegue saber da própria existência e, ao mesmo tempo, volta-se toda para o Ser diante do qual está, orienta a própria alma para aquele Mistério de quem espera a realização dos desejos mais profundos e a ajuda para superar a indigência da própria vida. Neste olhar para um Outro, neste dirigir-se “além”, está a essência da oração, como experiência de uma realidade que supera o sensível e o contingente.
Todavia, somente no Deus que se revela a busca do homem encontra plena realização. A oração que é abertura e elevação do coração a Deus, assim, se torna relacionamento pessoal com Ele. E mesmo se o homem se esquece do seu Criador, o Deus vivo e verdadeiro não cessa de chamar, por primeiro, o homem ao misterioso encontro da oração. Como afirma o Catecismo: “Este passo de amor do Deus fiel sempre vem antes na oração; o passo do homem é sempre uma resposta. Na medida em que Deus se revela e revela o homem a si mesmo, a oração se vai tornando um apelo recíproco, um evento de aliança. Através de palavras e atos, este evento compromete o coração. Revela-se ao longo de toda a história da salvação” (n. 2567).
Caros irmãos e irmãs, aprendamos a ficar mais diante de Deus, do Deus que se revelou em Jesus Cristo; aprendamos a reconhecer no silêncio, no íntimo de nós mesmos, a Sua voz que nos chama e nos conduz à profundidade da nossa existência, à fonte da vida, à fonte da salvação, para fazer-nos ir para além do limite da nossa vida e nos abrirmos à medida de Deus, ao relacionamento com Ele, que é Infinito Amor. Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 11 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Em Maria reflete-se o rosto luminoso de Cristo


Bento XVI

Regina Coeli

Parque San Giuliano – Mestre
Domingo, 8 de maio de 2011.

Caros irmãos e irmãs!
Ao final desta solene Celebração Eucarística, voltamos o olhar a Maria, Regina Coeli. Na aurora da Páscoa, Ela se torna a Mãe do Ressuscitado e a sua união com Ele se torna tão profunda que, onde o Filho estiver presente não poderá faltar a Mãe. Nestes vossos esplêndidos lugares, dom e sinal da beleza de Deus, quantos Santuários, igrejas e capelas são dedicados a Maria! NEla reflete-se o rosto luminoso de Cristo. Se a seguirmos docilmente, a Virgem nos conduzirá a Ele. Nestes dias do Tempo Pascal, deixemo-nos conquistar por Cristo ressuscitado. NEle tem início o mundo novo de amor e de paz que constitui a profunda aspiração de cada coração humano. O Senhor conceda a vós, habitantes destas ricas terras, de uma longa tradição cristã, viver o Evangelho como se vivia na Igreja nascente, na qual “a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. ” (At 4, 32). Invoquemos Maria Santíssima, que sustentou as primeiras testemunhas de Seu Filho na pregação da Boa Nova, para que sustente também hoje as fadigas apostólicas dos Sacerdotes; torne fecundo o testemunho dos Religiosos e das Religiosas; anime a obra cotidiana dos pais na primeira transmissão da fé aos seus filhos; ilumine a estrada dos jovens para que caminhem confiantes sobre a via traçada pela fé dos pais; encha de firme esperança os corações dos anciãos; conforte com sua proximidade os doentes e todos os sofredores; reforce a obra dos numerosos leigos que colaboram ativamente com a nova evangelização, nas Paróquias, nas Associações, como os escoteiros e a Ação Católica, tão enraizada e presente nestas terras, nos Movimentos, que, com a variedade de seus carismas e de suas ações, são um sinal da riqueza do tecido eclesial – penso em realidades como o Movimento dos Focolares, Comunhão e Libertação ou no Caminho Neocatecumenal, para citar apenas algumas. Encorajo a todos a trabalharem com verdadeiro espírito de comunhão nesta grande vinha para a qual o Senhor nos chamou a agir. Maria, Mãe do Ressuscitado e da Igreja, ora por nós!

* Extraído do site do Vaticano, do dia 8 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.