quarta-feira, 29 de junho de 2011

Entendi, com meus alunos, o que é a escola...


Por Mario Caponnetto

Depois de seis anos ensinando no Centro de Formação Profissional In-presa, neste ano me perguntei qual a incidência que os adultos têm no percurso dos jovens e, sobretudo, qual a incidência que os professores têm entre os alunos, visto que, frequentemente, o professor é uma figura a ser suportada mais do que alguém de quem se aprende algo. Buscando responder a estas perguntas, li com atenção as redações de fim de ano, das quais consegui uma ajuda para julgar, de modo realista, o meu percurso como professor.
Dei-me conta de que aconteceu uma experiência verdadeiramente educativa, porque foram respeitadas certas condições.
Antes de mais, nada daquilo que aconteceu foi censurado, porque tudo foi acolhido e julgado. “Durante o estágio, tive alguns desentendimentos com Marco e Mathias e, às vezes, a vontade de ir trabalhar ia embora”, diz Simone, aluno do I Elétrico; da mesma forma, Mirco, seu colega de sala, que na carta final na qual faz um resumo de como o ano passou, escreve: “Cara Emilia, eu me chamo Mirco e estou na escola há um ano. Gostei muito, mesmo tendo tido alguns desentendimentos com os professores por causa dos meus modos de estar em sala”. Os desentendimentos acontecem, mas não são tudo, se forem julgados: podem representar um passo verdadeiro em direção a uma conquista maior.
O primeiro modo de julgar os limites é aceitá-los, como diz Luigi acerca de seu tutor na empresa: “Cara Emilia, sou Luigi... os meus pontos de referência mais importantes foram os tutores na empresa, particularmente Rossano. Ele foi muito mais do que alguém que me deu um trabalho, porque, mesmo sendo consciente das minhas escassas capacidades, me aceitou e elogiou por aquilo que fiz”.
É apenas assim que se descobre que alguém pode lhe dar uma mão, que você não está sozinho com o seu limite, mas que pode olhá-lo de frente. “No início, eu me sentia sem lugar, a minha situação era parecida com a de um peixe fora d’água, eu tinha sido colocado na cozinha sem ao menos saber as técnicas básicas, eu me sentia inútil... Esta situação melhorou mês após mês, até atingir a autonomia nas tarefas mais elementares e superar problemas que, no início, me pareciam intransponíveis. Giacomo me deu uma mão e tanto”, disse Riccardo do I Auxiliar de Cozinha. Gabriele, um aspirante a eletricista, diz algo parecido: “No laboratório, não sou muito prático, mas os professores me dizem que é normal, de fato aprendi muitas coisas que eu não sabia, e para im isto quer dizer que tenho satisfações”.
Eis outra grande descoberta: posso estar diante dos meus limites apenas se tem alguém que me ajuda a olhar para eles, alguém que vê mais, que vê na frente. O adulto se encontra ali para me ajudar a olhá-los, não para censurá-los; por isto, é alguém que me deixa mais livre, como disse Cristian: “O tutor na empresa sempre me fez sentir em casa, me fez sentir livre para aprender e errar! Teve muita paciência, visto que, no início, eu era como uma criança que engatinha, não sabia caminhar”. É um adulto que ajuda a ver a realidade, que introduz na realidade, até dentro dos aspectos mais difíceis, aqueles a que é necessário se habituar: “Durante o primeiro mês de estágio, eu não estava satisfeita com meu trabalho. Quando comecei a me habituar com os horários e os tempos do restaurante, comecei a me sentir satisfeita com o meu trabalho”, disse Giulia.
O adulto, de um lado, faz entender o valor da fadiga que deve realizar, mas, de outro, oferece a possibilidde de se apaixonar por um pedaço da realidade, como nos testemunha Carlos: “A minha matéria preferida é Cidadania, uma matéria muito importante, porque nos mantém sempre informados de coisas interessantes”. Também Michael se interessou por uma matéria: “A minha matéria preferida é Inglês; tendo uma garota tão bonita como professora, é possível fazer as tarefas melhor e com mais vontade”. É uma paixão que tem que ver com a descoberta do belo, às vezes através do rosto de uma bela professora, mas tem que ver também com uma gratificação, como disse Stefano: “Por hora, o prato que mais gostei de fazer foi a crostata. Mais do que um prato, é um doce e digo que me dei muito bem porque o professor me disse isso, ele havia dito também que era melhor do que a que ele havia feito”.
Depois de ter descoberto uma paixão, um professor, um tutor, Alessandro, um aluno do segundo ano, chegou a dizer: “Para mim, o estágio é como uma partida de futebol: é bonito, mas cansa”. E Niccolò chegou a falar da escola em termos quase poéticos: “para definir a escola eu usaria a metáfora da neblina, porque a neblina, depois de um tempo, se dissolve. Quando cheguei aqui, não sabia nada, mas agora estou começando a entender esta profissão, exatamente como a neblina que se dissolve”.
Pode acontecer que um aluno entenda mais o que quer fazer e decida mudar o percurso: “Cara Emilia, me chamo Simone, sou do II B Elétrico e tenho 16 anos. Este ano foi bom. Consegui encontrar minha pérola! No início do ano, tive a oportunidade de ver se o eletricista era o meu caminho e, de fato, não era; assim, experimentei o curso de arquivista, mas também este não era o meu caminho. Assim, escolhi seguir a minha paixão, ou seja, estar em contato com os animais e fiquei bem. [...] Quem sabe, quando eu estiver grande, poderei me especializar como adestrador”. Pode acontecer também que se abra algo que estava fechado há tempos ou que, talvez, nunca se tenha aberto: “Sempre fui uma garota daquelas que odeia estudar, mas esta escola conseguiu me fazer abrir a vontade de estudar, de conhecer e aprender a história das paixões que tenho dentro de mim, daquilo que escolhi como o trabalho do meu grande futuro”, disse Yuney, aluna do I Auxiliar de Cozinha.
Por isto, Mattia, depois de ter descoberto que pode enfrentar os seus limites sem censurá-los, depois de ter descoberta que também ele pode ter uma paixão, que tem alguém pronto a acolhê-lo e a ensinar-lhe uma profissão, pode dizer: “Para mim, este ano voou, sem que eu nem me desse conta”.
Portanto, o que é a escola? Marco é quem explica muito bem: “Cara Emilia, estou freqüentando a sua escola porque quero ter um futuro, ser alguém, mesmo porque ser garçon é o que eu sempre quis fazer, e esta escola, a sua escola, me permite realizar este meu sonho”.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 28 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

O que memória e beleza têm que ver com a lógica?


Por Giovanni Maddalena

O que memória e beleza têm que ver com a lógica? É verdade que a lógica expressa apenas verdades necessárias de forma que de certas premissas advêm inevitavelmente certas conclusões? “Inevitavelmente” significa “mecanicamente”?
Comecemos da segunda pergunta, esperando que ela, depois, ilumine as outras duas. Certamente, há tipo de raciocínio que são necessários, o que significa que é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão seja falsa. Os silogismos clássicos estudados noa escola são deste tipo. Se todos os homens são mortais e Sócrates é um homem, inevitavelmente Sócrates será mortal.
Apóiam-se sobre a necessidade também as audaciosas formalizações da lógica do século XIX que se estuda ainda nas universidades. De Frege a Gödel, esta lógica garantiu uma compreensão muito mais precisa da lógica das proposições (“se chove, pego o guarda-chuava”), da predicativa (“alguns professores são sábios”) e da modal (“é necessário que os torcedores do Torino sofram”). Como se sabe, o projeto de uma compreensão de toda a lógica através deste caráter necessarista encontrou nos teoremas da incompletude de Gödel um limite, no sentido que o grande lógico mostrou que a formalização, se coerente, nunca pode ser completa.
Por mais útil qe seja esta lógica necessária (e o é, não obstante os seus detratores), dela escapam alguns processos racionais, que foram classificados normalmente como “ampliativos”, no sentido que alargam o nosso conhecimento mesmo se perdem em termos de necessidade. A indução clássica é o mais notável destes tipos de raciocínio: um certo número de amostras exemplificativas me conduz a identificar uma lei geral. Se as amostras foram escolhidas adequadamente (por acaso etc.) e a hipótese é limitada, a indução tem boas probabilidades de ser útil para a pesquisa.
Todavia, permanecem fora também deste tipo de raciocínio processos lógicos como: certas descobertas científicas particularmente significativas (a anedota da maçã de Newton é uma boa metáfora disso), o diagnóstico médico, o raciocínio indiciário (o caso de Cogne), as certezas morais em situações novas (confio ou não confio?). Aqui, a necessidade parece totalmente perdida. Mas, se perde também o uso da razão?
C. S. Peirce, célebre lógico norte-americano do fim do século XIX, havia elaborado um procsso para todos estes casos. Chama-se abdução ou retrodução e é a passagem do consequente ao antecedente: no caso anterior seria “pego o guarda-chuva, portanto chove”. Na lógica clássica, trata-se de um erro (falácia), mas se sairmos de uma lógica necessária, isso pode ser justificado. Como?
Se nos encontramos diante de um fenômeno surpreendente, que não tivesse sido catalogado pela nossa experiência passada (do contrário, se trataria de uma indução), podemos formular uma condicional (se a explicação fosse X, então o fenômeno surpreendente se explicaria) que o introduza numa explicação nova e convincente, que podemos, depois, verificar dedutivamente (se fosse assim, as consequências seriam...) e indutivamente (com uma verificação a partir das amostras). Mas, como fazemos para encontrar a explicação na qual o caso surpreendente possa ser lido? Aqui, Peirce tinha as ideias pouco claras, mas deixou indicações que podem ser sistematizadas da seguinte forma.
Encontramos uma explicação lendo os sinais que se encontram por trás do limiar simbólico, ou seja, lendo sinais que não são palavras ou símbolos – que recordam o objeto através de uma interpretação –, mas lendo sinais mais elementares, ícones e índices, que recordam o seu objeto por similaridades e conexões (a maçã que cai como sinal de uma ordem – que deveria ser uma força – e a sua conexão com o resto dos fenômenos de “queda”). Desde modo, lemos os sinais segundo a sua beleza e a sua plausibilidade no contexto. Dois modos diversos para compreender estética e ética em sentido gnosiológico: o ideal aspirado pelo raciocínio e a concordância entre o ideal e o raciocínio em curso. Os melhores romances policiais adotam esta estratégia (por exemplo, Os assassinos da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe), bem como as grandes descobertas científicas e as certezas morais decisivas.
Mas, como fazemos para conhecer esta beleza? Com qual critério a julgamos? Como fazemos para saber que existe e o que é? Existe em nós um critério, frequentemente vago (que quer dizer “não determinado”), mas muito eficaz: Peirce o chamava “instinto racional”, a Bíblia o chama “coração”. Parece-me que seja o mesmo “instrumento” que Agostinho indicava com o termo “memória” no livro X das Confissões. Uma pessoa quer ser soldado para ser feliz e outra não quer ser soldado para ser feliz. Onde conheceu a felicidade para usá-la como critério? Ela se encontra inscrita no fundo da nossa razão e permanece como critério insuperável, mesmo que frequentemente só indeterminado, mais propenso a não ser satisfeito do que a se contentar, a dizer não mais do que sim (como dizia Sócrates do seu daimon), mas sinal inequívoco de que, no fundo dos nossos raciocínios, a nossa razão é feita para uma beleza sem fim.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 28 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 28 de junho de 2011

De Galileu a Einstein, para alargar a razão


Entrevista com Paolo Musso, feita por Mario Gargantini

O cientificismo? Foram os filósofos que o inventaram. O racionalismo? Não é o nosso destino inevitável. Descartes? Um gigante da filosofia e da matemática, mas com a ciência moderna não tem nada que ver. A fé? Não apenas não é irracional, como o seu método tem muito de comum com o método científico. Pico Dela Mirandola, Pascal, Rosmini, Newman? Fiquem no sótão: a verdadeira alternativa para a modernidade é Galileu. São apenas algumas das teses, certamente “fortes” e destinadas a causar alguma discussão, contidas no último livro de Paolo Musso, La scienza e l’idea di ragione [A ciência e a ideia de razão, em tradução livre; ndt], que acabou de ser publicado pela  editora Mimesis, com um lisonjeiro prefácio de Evandro Agazzi: uma obra desafiadora que se propõe, como diz o subtítulo, a traçar um quadro crítico da evolução de “ciência, filosofia e religião, de Galileu aos buracos negros e além”. Conversamos sobre o livro com o seu autor, docente da Universidade da Insubria de Varese e da Universidade Católica Sedes Sapientiae de Lima (Peru).

A primeira coisa que impressiona no livro é a vastidão: não tanto como tamanho da obra, mas pela amplidão e, ao mesmo tempo, profundidade dos assuntos tratados.
Sem dúvida. Com efeito, trata-se de um empreendimento ambicioso, talvez até demais. De outro lado, numa época na qual a filosofia está se transformando cada vez mais em filologia, é preciso mesmo que alguém tenha a coragem (ou a inconsciência, se se preferir) de tentar grandes sínteses. Mas, o senhor disse bem quando se refere ao fato de que a amplidão não significa menor profundidade e, eu acrescentaria, ou precisão. Digo-o sem presunção, consciente de que o mérito não é meu, mas do verdadeiro exército de amigos que, frequentemente comum a disponibilidade extraordinária, me ajudou a ir a fundo das questões que, sozinho, nunca teria conseguido entender nem superficialmente. Hoje, o conhecimento científico está em tão rápida evolução que não é possível fazer filosofia da ciência de forma séria a não ser que seja através de um relacionamento constante com os cientistas no trabalho. Não se trata, porém, de um livro para especialistas: pelo contrário, foi pensado para permitir diversos níveis de leitura, desde o leitor comum, passando pelas pesquisas escolares ou monografias de final de curso, até chegar à pesquisa de nível universitário.

Quanto da sua atividade de ensino influiu sobre o texto?
Foi fundamental. Antes, gostaria de aproveitar para agradecer publicamente aos meus alunos de Varese e de Lima. Sem eles este livro nunca teria nascido. Não foi à toa que o dediquei a eles.

Quais são as principais ideias-chave?
Tudo partiu de uma constatação paradoxal e inegável: a visão de mundo que, hoje, é largamente dominante e que é chamada de “modernidade”, se mostra como filha da ciência, sempre vista como indissoluvelmente ligada ao racionalismo no plano filosófico e ao mecanicismo no plano físico; e visto que a ciência é, para nós, um horizonte intranscendível, a “modernidade” se mostra também como intranscendível, uma espécie de destino fatal a que seremos definitivamente entregues. O paradoxo está no fato que tudo isso não tem nada que ver com a ciência real, mas muito mais com aquela sua caricatura que é o cientificismo, nascido dos filósofos e que somente, depois, contagiou também os cientistas. Que, além do mais, quando estão trabalhando, não podem fazer menos do que ser anticientistas nos fatos: porque o autêntico método científico experimental, codificado de maneira insuperável por Galileu, baseia-se numa ideia de razão estruturalmente aberta para a realidade, para a experiência, para o imprevisto e para o mistério; enquanto que o cientificismo baseia-se numa ideia fechada de “razão-medida-de-todas-as-coisas”, que, se colocada em prática, destruiria em primeiro lugar a própria ciência. Por isto, grande parte do livro é dedicada a fornecer uma informação correta sobre como a ciência nasceu e se desenvolveu, superando gradualmente o mecanicismo das origens, através da análise de algumas das grandes etapas paradigmáticas (Galileu, Newton, a termodinâmica, a relatividade, a mecânica quântica, a cosmologia, o caos e a complexidade).

Uma das passagens cruciais é feita de um confronto entre Galileu e Descartes. Por quê?
Porque existe um mito muito difundido segundo o qual Descartes seria o verdadeiro cofundador da ciência moderna, ao lado (e, às vezes até, acima) de Galileu.

E porém?
Porém, isso não é verdade. Descartes nunca entendeu nada do método galileiano, que, pelo contrário, foi criticado abertamente, e durante toda a sua vida continuou fazendo ciência (ou melhor, pseudo-ciência) a priori, isto é, segundo o método dedutivo típico dos filósofos aristotélicos que, nas suas palavras, eram tão desprezados. A verdade é que Descartes foi o primeiro dos modernos na filosofia e na matemática, onde foi um verdadeiro gigante (a ponto de podermos dizer que, sem ele, nunca teria sido possível as geometrias não euclidianas), mas do ponto de vista das ciências naturais foi, pelo contrário, o último dos antigos.

Então, por que se criou este mito?
Foi uma ação intencional, desejada. E o motivo me parece evidente: tal mito, de fato, permite fazer circular injustamente como fatores constitutivos da ciência o racionalismo e o mecanicismo, que são cosubstanciais ao método cartesiano, mas que não têm nada que ver com o método galileiano.

Ou seja, Descartes não lhe é muito simpático...
Não é uma questão de simpatia. Certamente Descartes era insuportavelmente presunçoso, mas também Galileu o era. Da mesma forma, Descartes não foi certamente menos “crente sincero” do que ele, e do ponto de vista da coerência moral tinha mais pontos do que Galileu. Mas o que lhe faltava completamente (e que Galileu tinha no mais alto grau) era o sentido do mistério, ou seja, a capacidade de se maravilhar diante da realidade: que, como dizia Einstein, “é a semente de toda a arte e de toda verdadeira ciência”.

O outro grande protagonista do livro é exatamente Einstein.
Era suficientemente óbvio, dado o tema. Mas não era óbvia a descoberta que fiz do quão profundamente ele e Galileu eram ligados. Einstein tinha em casa os retratos de Newton, Faraday e Maxwell, mas se lermos atentamente os seus escritos vamos descobrir que o seu verdadeiro norte foi Galileu. Esta é também a explicação para muitos mal-entendidos: não é possível entender, de verdade, Galileu sem entender Einstein, mas são bem poucos os filósofos e os historiadores da ciência renascentista que conhecem a teoria da relatividade.

O senhor gosta muito de Galileu, e julga de forma muita negativa as teses de alguns dos mais importantes críticos da modernidade, como Del Noce, Guardini, De Lubac...
Não os julgo negativamente! Antes, as suas ideias, particularmente as de Del Noce, têm um papel central na minha análise. Aquilo que não me convence é a sua pars construens, porque é uma veleidade esperar opor a um gigante como Descartes pensadores certamente grandes mas que não estão à sua altura, e sobretudo que são irremediavelmente marcados pela sensibilidade moderna, como Pico Della Mirandola, Pascal, Rosmini ou mesmo Newman, de quem gosto muito.

Galileu, pelo contrário, tem certamante a physique du rôle... mas, ele também não tinha os seus defeitos?
Os seus defeitos não me interessam! O que deve interessar a todos é aquilo que nos deixou como herança: nada menos do que um novo (e formidável) modo de usar a razão. Que, se bem entendido, é o exato oposto do reducionismo. E que, ao mesmo tempo, representa um dos últimos pontos de resistência contra o relativismo e o irracionalismo que se têm difundido.

A propósito do relativismo, o senhor é muito severo também com a epistemologia contemporânea.
Em boa parte dela, se não em toda ela, há várias décadas, prevalece uma postura relativista e antirealista absurda que nega que a ciência possa conhecer o mundo assim como é verdadeiramente. Para sustentar isso, é preciso ou não conhecê-la ou fingir que não a conhece. É interessante notar que o relativismo cultural moderno se desenvolveu em grande parte exatamente a partir destas teses epistemológicas: mostrar sua insustentabilidade tem, portanto, implicações que vão muito além do âmbito científico.

Muitos autores católicos, porém, veem com favor esta epistemologia “fraca”, porque pensam que ajude a defender a fé das excessivas pretensões da ciência.
É só porque não a conhecem. Do contrário, entenderiam que não apenas a ciência não é inimiga da fé, como também, pelo contrário, é, pelo menos potencialmente, a sua melhor aliada, dado que é, de qualquer forma, o único setor da cultura que defende ainda a ideia segundo a qual a experiência pode conduzir à verdade, cuja negação apriorística e imotivada constitui, ao invés, o verdadeiro “dogma central” da modernidade. E, seja como for, como repete continuamente Bento XVI, a fé não se defende restringindo o alcance da razão, mas alargando-o, ou seja, abrindo a razão a um horizonte maior.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 28 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cartas do P.e Aldo 198


Asunción, 21 de junho de 2011.

Caríssimos,
Eis a foto de recordação das 11 crianças da Casinha de Belém batizadas neste domingo. A maioria delas não tem ninguém, mas agora podem dizer “Pai” para o Mistério. Que responsabilidade, para mim e os amigos, nos foi presenteada com o batismo delas! Uma responsabilidade possível de viver apenas se o meu eu é definido, momento após momento, pela certeza “eu sou Tu que me fazes”. Desta certeza depende todo o caminho educativo e a sua maturidade.
Olho-os e vejo a grandeza e a beleza do Mistério que permitiu que nascessem em condições desumanas e violentas para, depois, retomá-los e levá-los para onde Sua Presença é evidente.
Olho-os e, comovido, penso naquilo que o profeta disse: “antes de te formares no ventre de tua mãe, pronunciei o teu nome”.
Que bonito: eu, como os meus pequenos, fomos pensados, desde sempre, por Deus! Que bonito: eu, como as minhas crianças, fomos chamados pelo nome, ou seja, somos Seus, pertencemos-Lhe desde sempre. Então, o modo com o qual fomos concebidos é secundário (não porque não seja importante... pelo contrário), porque a nossa identidade vem antes, vem da eternidade. Então, mesmo se concebido na violência, isto não define mais a minha personalidade. 
O aborto é terrível porque elimina um nome que Deus pronunciou desde sempre. Então, entendem porque as meninas grávidas são, para mim, tesouros, mesmo que tenham 12 anos de idade. Elas moram conosco, salvas daquelas diabólicas ONGs que fazem de tudo para que abortem.
Uma garotinha da favela, vítima do crack desde os 9 anos de idade, não queria a criança de que estava grávida e chegou aqui em condições indescritíveis. Deu à luz uma menina lindíssima (hoje, a mãe tem 15 anos) e, no início não a queria. Três meses se passaram e ela, a mãe, é outra pessoa, é uma verdadeira mulher, uma verdadeira mãe. Mesmo o seu aspecto físico mudou: está bonita, bem vestida, limpa, orgulhosa da sua feminilidade. Vê-la amamentando a sua menina é de uma ternura enorme.
Não mais o passado como “piranha” (é como são chamadas essas crianças), mas um início de consciência de ser fruto do SER, daquele “Tu que me fazes”. Mas, dentro de uma companhia de 24 horas por dia. Porém, é assim que o Mistério nos faz companhia. Lucilla, a filha do meu amigo Luigi Amiconi, dizia: “Tudo o que eu faço é dizer ‘sim’ a Liz (uma menina com gravíssimos problemas psíquicos, físicos e de mobilidade), e este ‘SIM’ mudou Liz e me mudou. E dizer ‘SIM’ quer dizer responder às suas necessidades, quer dizer estar sempre com ela. E este ‘SIM’ que digo a ela, eu o digo a todas as crianças. Mas, posso dizê-lo porque um outro o diz para mim”.
E é mesmo bonito ver esta garota de 12 anos, que parece ter a metade, e que não fala, é mesmo bonito vê-la feliz e fazendo de tudo para responder às provocações de Lucilla. E Lucilla que a olha, a olha para perceber o que quer, o que a realidade lhe pede para poder responder “SIM”. Educar é apenas dizer “SIM” à realidade.
Padre Aldo

sábado, 25 de junho de 2011

Da Eucaristia deriva o sentido profundo da presença social da Igreja

Santa Missa na Solenidade do Corpus Christi

Homilia do Santo Padre Bento XVI

Basílica de São João de Latrão
Quinta-feira, 23 de junho de 2011

Caros irmãos e irmãs,
A festa do Corpus Christi é inseparável da Quinta-feira Santa, da Missa de Lava-pés, na qual se celebra solenemente a instituição da Eucaristia. Enquanto que na noite de Quinta-feira Santa se revive o mistério de Cristo que se oferece a nós no pão partido e no vinho derramado, hoje, na festa do Corpus Christi, este mesmo mistérios é proposta para a adoração e para a meditação do Povo de Deus, e o Santíssimo Sacramento é levado em procissão pelas ruas das cidades e dos vilarejos, para manifestar que Cristo ressuscitado caminha em meio a nós e nos guia para o Reino dos céus. Aquilo que Jesus nos deu na intimidade do Cenáculo, hoje é manifestado abertamente, porque o amor de Cristo não é reservado a alguns, mas é destinado a todos. Na Missa do Lava-pés da última Quinta-feira Santa sublinhei que, na Eucaristia, acontece a transformação dos dons desta terra – o pão e o vinho – com a finalidade de transformar a nossa vida e inaugurar assim a transformação do mundo. Nesta noite, gostaria de retomar esta perspectiva.
Tudo parte, se poderia dizer, do coração de Cristo, que, na Última Ceia, na vigília da Sua paixão, agradeceu e louvou a Deus e, fazendo assim, com a potência do Seu amor, transformou o sentido da morte para a qual se encaminhava. O fato de o Sacramento do Altar ter assumido o nome “Eucaristia” – “ação de graças” – exprime exatamente isto: que a mudança da substância do pão e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo é fruto do dom que Cristo fez de si mesmo, dom de um Amor mais forte do que a morte, Amor divino que o fez ressuscitar dos mortos. Eis porque a Eucaristia é alimento de vida eterna, Pão da vida. Do coração de cristo, da sua “oração eucarística” até a vigília da paixão, brota aquele dinamismo que transforma a realidade nas suas dimensões cósmica, humana e histórica. Tudo procede de Deus, da onipotência do Seu Amor Uno e Trino, encarnado em Jesus. Neste Amor está imerso o coração de Cristo; por isso, Ele sabe agradecer e louvar a Deus mesmo diante da traição e da violência, e deste modo muda as coisas, as pessoas e o mundo.
Esta transformação é possível graças a uma comunhão mais forte do que a divisão, a comunhão de Deus mesmo. A palavra “comunhão”, que usamos também para designar a Eucaristia, resume em si a dimensão vertical e a horizontal do dom de Cristo. É bela e muito eloquente a expressão “receber a comunhão” referida no ato de comer o Pão eucarístico. Com efeito, quando realizamos este ato, entramos em comunhão com a vida mesma de Jesus, no dinamismo desta vida que se doa a nós e para nós. De Deus, através de Jesus, até a nós: uma única comunhão se transmite na Santa Eucaristia. Escutamos isto há pouco, na segunda Leitura, das palavras do apóstolo Paulo dirigidas aos cristãos de Corinto: “O cálice de bênção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão” (1Cor 10, 16-17).
Santo Agostinho nos ajuda a compreender a dinâmica da comunhão eucarística quando faz referência a uma espécie de visão que teve, na qual Jesus lhe disse: “Eu sou o alimento dos fortes. Cresce e me terás. Tu não me transformarás em ti, como o alimento do corpo, mas serás tu que serás transformado em mim” (Conf. VII, 10, 18). Enquanto, portanto, o alimento corporal é assimilado pelo nosso organismo e contribui para o nosso sustento, no caso da Eucaristia trata-se de um Pão diferente: não somos nós a assimilá-lo, mas ele nos assimila a si, de forma que nos tornamos conformes a Jesus Cristo, membro do seu corpo, uma coisa só com Ele. Esta passagem é decisiva. De fato, exatamente porque é Cristo que, na comunhão eucarística, nos transforma em Si, a nossa individualidade, neste encontro, é aberta, liberada do seu egocentrismo e inserida na Pessoa de Jesus, que, por sua vez, é imersa na comunhão trinitária. Assim, a Eucaristia, na medida em que nos une a Cristo, nos abre também aos outros, nos torna membros uns dos outros: não somos mais divididos, mas uma única coisa nEle. A comunhão eucarística me une à pessoa que tenho ao meu lado, e com a qual talvez não tenho nem mesmo um bom relacionamento, mas também aos irmãos distantes, em todas as partes do mundo. Disto, da Eucaristia, deriva portanto o sentido profundo da presença social da Igreja, como testemunham os grandes Santos sociais, que foram sempre grandes almas eucarísticas. Quem reconhece Jesus na Hóstia Santa, O reconhece no irmão que sofre, que tem fome e sede, que é estrangeiro, que está nu, doente, preso; e fica atento a toda pessoa, se compromete, de modo concreto, com todos aqueles que estão em necessidade. Do dom de amor de Cristo provém portanto a nossa especial responsabilidade de cristãos na construção de uma sociedade solidária, justa, fraterna. Especialmente no nosso tempo, no qual a globalização nos torna cada vez mais dependentes uns dos outros, o Cristianismo pode e deve agir de modo que esta unidade não se construa sem Deus, ou seja, sem o verdadeiro Amor, o que daria espaço para confusão, para o individualismo, para o abuso de todos contra todos. O Evangelho mira, desde sempre, para a unidade da família humana, uma unidade não imposta de fora, nem por interesses ideológicos ou econômicos, mas a partir do sentido de responsabilidade de uns pelos outros, porque nos reconhecemos membros de um mesmo corpo, do corpo de Cristo, porque aprendemos e continuamos a aprender constantemente do Sacramento do Altar que a partilha, o amor é a vida da verdadeira justiça.
Voltemos, agora, ao ato de Jesus na Última Ceia. O que aconteceu naquele momento? Quando Ele disse: Este é o meu corpo que é dado por vós, este é o meu sangue derramado por vós e por todos, o que acontece? Jesus, neste gesto, antecipa o evento do Calvário. Ele aceita, por amor, toda a paixão, com o sofrimento e a violência que ela carrega, até à morte de cruz; aceitando-a deste modo a transforma num ato de doação. Esta é a transformação de que o mundo mais precisa, porque o redime por dentro, o abre às dimensões do Reino dos céus. Mas esta renovação do mundo Deus quer realizar sempre através do mesmo caminho seguido por Cristo, aquele caminho, antes, que é Ele mesmo. Não há nada de mágico no Cristianismo. Não há atalhos, mas tudo passa através da lógica humilde e paciente do grão de trigo que morre para dar vida, a lógica da fé que transporta montanhas com a força suave de Deus. Por isto, Deus quer continuar a renovar a humanidade, a história e o cosmo através desta cadeia de transformações, de que a Eucaristia é o sacramento. Mediante o pão e o vinho consagrados, nos quais está realmente presente o Seu Corpo e Sangue, Cristo nos transforma, assimilando-nos a Ele: nos envolve na Sua obra de redenção, tornando-nos capazes, pela graça do Espírito Santo, de viver segundo a mesma lógica de doação, como grãos de trigo unidos a Ele e nEle. Assim, semeia-se e amadurecem nos sulcos da história a unidade e a paz, que são o fim para o qual tendemos, segundo o desígnio de Deus.
Sem ilusões, sem utopias ideológicas, caminhamos pelas estradas do mundo, carregando dentro de nós o Corpo do Senhor, como a Virgem Maria no mistério da Visitação. Com a humildade de nos sabermos simples grãos de trigo, custodiemos a firme certeza de que o amor de Deus, encarnado em Cristo, é mais forte do que o mal, do que a violência e do que a morte. Saibamos que Deus prepara para todos os homens céus novos e terra nova, nos quais reinam a paz e a justiça – e na fé entrevemos o mundo novo, que é a nossa verdadeira pátria. Também nesta noite, enquanto o sol se põe nesta nossa amada cidade de Roma, coloquemo-nos em caminho: conosco está Jesus Eucaristia, o Ressuscitado, que disse “Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28, 20). Obrigado, Senhor Jesus! Obrigado pela Tua fidelidade, que sustenta a nossa esperança. Fica conosco, porque a noite já está caindo. “Bom Pastor, verdadeiro Pão, ó Jesus, piedade de nós; nutre-nos, defende-nos, leva-nos aos bens eternos, na terra dos viventes!”. Amém.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 23 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Os Salmos ensinam a rezar

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 22 de junho de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Nas últimas catequeses, nos detivemos sobre algumas figuras do Antigo Testamento particularmente significativas para a nossa reflexão sobre a oração. Falei sobre Abraão que intercede pelas cidades estrangeiras, sobre Jacó que na luta noturna recebe a bênção, sobre Moisés que invoca o perdão para o seu povo, e sobre Elias que reza pela conversão de Isarel. Com a catequese de hoje, gostaria de começar um novo trecho do percurso: ao invés de comentar episódios particulares de personagens em oração, entraremos no “livro de oração” por excelência, o Livro dos Salmos. Nas próximas catequeses leremos e meditaremos alguns dos mais belos e caros Salmos da tradição orante da Igreja. Hoje, gostaria de introduzi-los falando do Livro dos Salmos na sua complexidade.
O Saltério se apresenta como um “formulário” de orações, uma coletânea de cento e cinquenta Salmos que a tradição bíblica dá ao povo dos crentes para que se tornem a sua, a nossa oração, o nosso modo de nos dirigir a Deus e de nos relacionar com Ele. Neste livro, encontra expressão toda a experiência humana com as suas múltiplas facetas, e toda a gama dos sentimentos que acompanham a existência do homem. Nos Salmos, se entrelaçam e se exprimem alegria e sofrimento, desejo de Deus e percepção da própria indignidade, felicidade e senso de abandono, confiança em Deus e dolorosa solidão, plenitude de vida e medo de morrer. Toda a realidade do crente conflui naquelas orações, que o povo de Israel antes e a Igreja depois assumiram como mediação privilegiada do relacionamento com o único Deus e resposta adequada para o seu revelar-se na história. Na medida em que são orações, os Salmos são manifestações do espírito e da fé, em que todos podem se reconhecer e nos quais se comunica aquela experiência de particular proximidade a Deus a que todo homem é chamado. E é toda a complexidade do existir humano que se concentra na complexidade das diversas formas literárias dos vários Salmos: hinos, lamentações, súplicas individuais e coletivas, cantos de agradecimento, salmos penitenciais, salmos sapienciais, e outros gêneros que podem ser encontrados nestas composições poéticas.
Não obstante esta multiplicidade expressiva, podem ser identificados dois grandes âmbitos que sintetizam a oração do Saltério: a súplica, ligada ao lamento, e o louvor, duas dimensões correlatas e quase incindíveis. Porque a súplica é animada pela certeza de que Deus responderá, e isto abre ao louvor e à ação de graças; e o louvor e o agradecimento brotam da experiência de uma salvação recebida, que supõe uma necessidade de ajuda que a súplica expressa.
Na súplica, o orante se lamenta e descreve a sua situação de angústia, de perigo, de desolação, ou então, como nos Salmos penitenciais, confessa a culpa, o pecado, pedindo para ser perdoado. Ele expõe ao Senhor o seu estado de necessidade na confiança de ser escutado, e isto implica um reconhecimento de Deus como bom, desejoso de bem e “amante da vida” (cf. Sab 11, 26), pronto a ajudar, salvar, perdoar. Assim, por exemplo, reza o Salmista no Salmo 31: “Junto de vós, Senhor, me refugio. Não seja eu confundido para sempre [...].Vós me livrareis das ciladas que me armaram, porque sois minha defesa” (Sal 30, 2.5). Já no lamento, portanto, pode emergir algo de louvor, que se prenuncia na esperança da intervenção divina e se faz, em seguida, explícita quando a salvação divina se torna realidade. De modo análogo, nos Salmos de agradecimento e de louvor, fazendo memória do dom recebido ou contemplando a grandeza da misericórdia de Deus, se reconhece também a própria pequenez e a necessidade de ser salvos, que está na base da súplica. Confessa-se, assim, a Deus a própria condição de criatura inevitavelmente marcada pela morte, ou então portadora de um desejo radical de vida. Por isso, o Salmista exclama, no Salmo 86: “De todo o coração eu vos louvarei, ó Senhor, meu Deus, e glorificarei o vosso nome eternamente. Porque vossa misericórdia foi grande para comigo, arrancastes minha alma das profundezas da região dos mortos” (Sal 85, 12-13). Desse modo, na oração dos Salmos, súplica e louvor se entrelaçam e se fundem num único canto que celebra a graça eterna do Senhor que se inclina sobre a nossa fragilidade.
Exatamente para permitir que o povo dos crentes se unam a este canto, o livro do Saltério foi dado a Israel e à Igreja. Os Salmos, de fato, ensinam a rezar. Neles, a Palavra de Deus se torna palavra de oração – e são as palavras do Salmista inspirado – que se torna também palavra do orante que reza os Salmos. É esta a beleza e a particularidade deste livro bíblico: as orações nele contidas, diferentemente de outras orações que encontramos na Sagrada Escritura, não são inseridas numa trama narrativa que especifica o seu sentido e função. Os Salmos são dados ao crente exatamente como texto de oração, que tem como único fim se tornar a oração de quem os assume e com eles se dirige a Deus. Visto que são a Palavra de Deus, quem reza os Salmos fala a Deus com as palavras mesmas que Deus nos deu, se dirige a Ele com as palavras que Ele mesmo nos dá. Assim, rezando os Salmos se aprende a rezar. São uma escola da oração.
Algo de análogo acontece quando a criança começa a falar, aprende a expressar as próprias sensações, emoções, necessidades com palavras que não lhe pertencem de modo inato, mas que ele aprende dos seus pais e daqueles que vivem ao seu redor. Aquilo que a criança quer expressar é o seu próprio vivido, mas o meio expressivo é de outros; e ele, aos poucos, se apropria disso, as palavras recebidas dos pais se tornam as suas palavras e através daquelas palavras aprende também um modo de pensar e de sentir, tem acesso a um mundo inteiro de conceitos, e nisso cresce, se relaciona com a realidade, com os homens e com Deus. A língua dos seus pais, finalmente, se torna a sua língua, ele fala com palavras recebidas de outros, que, a partir de então, se tornaram suas palavras. Assim, acontece com a oração dos Salmos. Eles nos foram dados para que nós aprendamos a nos dirigir a Deus, a nos comunicar com Ele, a falar-Lhe de nós com as Suas palavras, a encontrar uma linguagem para o encontro com Deus. E, através daquelas palavras, será possível também conhecer e acolher os critérios do seu agir, aproximarmo-nos do mistério dos seus pensamentos e das suas vidas (cf. Is 55, 8-9), de forma a crescer sempre mais na fé e no amor. Como as nossas palavras não são apenas palavras, mas nos ensinam um mundo real e conceitual, assim também estas orações nos ensinam o coração de Deus, de forma que não somente possamos falar com Deus, mas possamos aprender quem é Deus e, aprendendo como falar com Ele, aprendamos o ser homem, o ser nós mesmos.
A este propósito, mostra-se significativo o título que a tradição judaica deu ao Saltério. Ele se chama tehillîm, um termo hebraico que quer dizer “louvores”, daquela raiz verbal que encontramos na expressão “halleluyah”, ou seja, literalmente: “louvai o Senhor”. Este livro de orações, portanto, mesmo se assim multiforme e complexo, com os seus diversos gêneros literários e com a sua articulação entre louvor e súplica, é, em última instância, um livro de louvores, que ensina a agradecer, a celebrar a grandeza do dom de Deus, a reconhecer a beleza das suas obras e a glorificar o Seu Nome Santo. É esta a resposta mais adequada diante do manifestar-Se do Senhor e da experiência da Sua bondade. Ensinando-nos a rezar, os Salmos nos ensinam que também na desolação, mesmo na dor, a presença de Deus permanece, é fonte de maravilhamento e de consolação; é possível chorar, suplicar, interceder, lamentar-se, mas na consciência de que estamos caminhando em direção da luz, onde o louvor poderá ser definitivo. Como nos ensina o Salmo 36: “em vós está a fonte da vida, e é na vossa luz que vemos a luz” (Sal 35, 10).
Mas, além deste título geral do livro, a tradição judaica colocou em muitos Salmos títulos específicos, atribuindo-os, na sua grande maioria, ao Rei Davi. Figura de notável profundidade humana e teológica, Davi é um personagem complexo, que atravessou as mais variadas experiências fundamentais do viver. Jovem pastor do rebanho paterno, passando por alternados e às vezes dramáticos eventos, se torna rei de Israel, pastor do povo de Deus. Homem de paz, combateu muitas guerras; incansável e tenaz na busca de Deus, traiu o Seu amor, e isto é característico: permaneceu sempre em busca de Deus, mesmo se muitas vezes pecou gravemente; humilde penitente, acolheu o perdão divino, também a pena divina, e aceitou um destino marcado pela dor. Davi, assim, foi um rei, com todas a suas fraquezas, “segundo o coração de Deus” (cf. 1Sam 13, 14), ou seja, um orante apaixonado, um homem que sabia o que quer dizer suplicar e louvar. A vinculação dos Salmos com este insigne rei de Israel é, portanto, importante, porque ele é figura messiânica, Ungido do Senhor, em quem é, de algum modo, prenunciado o mistério de Cristo.
Também importantes e significativos são o modo e a frequência com a qual as palavras dos Salmos são retomadas pelo Novo Testamento, assumindo e sublinhando aquele valor profético sugerido pela vinculação do Saltério com a figura messiânica de Davi. No Senhor Jesus, que na sua vida terrena rezou com os Salmos, eles encontram o seu cumprimento definitivo e revelam o seu sentido mais pleno e profundo. As orações do Saltério, com as quais se fala a Deus, nos falam dEle, nos falam do Filho, imagem do Deus invisível (Col 1, 15), que nos revela totalmente o Rosto do Pai. O cristão, portanto, rezando os Salmos, reza ao Pai em Cristo e com Cristo, assumindo aqueles cantos numa perspectiva nova, que tem no mistério pascal a sua última chave de interpretação. O horizonte do orante se abre assim a realidades inesperadas, cada Salmo adquire uma luz nova em Cristo e o Saltério pode brilhar em toda a sua infinita riqueza. 
Irmãos e irmãs caríssimos, tomemos, portanto, nas mãos este livro santo, deixemo-nos ensinar por Deus a nos dirigirmos a Ele, façamos do Saltério um guia que nos ajude e nos acompanhe cotidianamente no caminho da oração. E peçamos, também nós, como os discípulos de Jesus, “Senhor, ensina-nos a rezar” (Lc 11, 1), abrindo o coração para acolher a oração do Mestre, em quem todas as orações chegam à realização. Assim, tornados filhos no Filho, poderemos falar a Deus chamando-O “Pai Nosso”. Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 22 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Sinceridade, uma questão de amor

"Ser perfeitamente simples com os outros exige muito mais coragem do que se pensa. A nossa franqueza muitas vezes é estragada por uma oculta barbárie, nascida do medo.
A falsa sinceridade tem muito a falar, porque tem medo. Só a verdadeira sinceridade pode dar-se ao luxo de ser silenciosa.  Não tem de enfrentar ataques que imagina.  Tudo o que possa ter a defender pode ser defendido com perfeita simplicidade." (T. Merton) 

"Afinal, o problema da sinceridade é um problema de amor. Sincero não é tanto o homem que vê a verdade e a manifesta tal como a vê, mas o que lhe tem puro amor." (T. Merton)

* Extraído da Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton, do dia 20 de junho de 2011.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Cartas do P.e Aldo 197

Asuncíon, 17 de junho de 2011.

Caros amigos,
Cedo ou tarde, teremos que morrer, mesmo se, frequentemente, nos esquecemos disto. Então, como vocês gostariam de morrer? Aldo, um homem de 36 anos, paciente terminal da clínica, me disse: "vim para cá porque quero me preparar bem para o encontro definitivo com Jesus. Quero morrer com dignidade, ou seja, com o Santo Rosário na mão e Jesus Eucarístico. O Rosário é a minha arma para vencer esta batalha final. Padre, me acompanhe nesta luta, porque eu quero ver Jesus".
Deus conceda a todos nós esta liberdade.
Padre Aldo

O homem não pode viver sem esta busca pela verdade sobre si mesmo

Visita Pastoral à Diocese de San Marino-Montefeltro

Encontro com os jovens da diocese de San Marino-Montefeltro

Discurso do Santo Padre Bento XVI

Praça Vittorio Emanuele – Pennabilli
Domingo, 19 de junho de 2011

Caros jovens,
Estou muito contente de estar, hoje, em vosso meio e convosco! Sinto toda a vossa alegria e o entusiasmo que caracterizam a vossa idade. Saúdo e agradeço o vosso Bispo, D. Luigi Negri, pelas cordiais palavras de acolhida, e o vosso amigo que se fez intérprete dos pensamentos e dos sentimentos de todos, e formulou algumas questões muito sérias e importantes. Espero que, durante esta minha exposição, se encontrem também os elementos para encontrar as respostas a estas perguntas. Saúdo com afeto os Sacerdotes, as Irmãs, os animadores que compartilham convosco o caminho da fé e da amizade; e naturalmente também os vossos pais, que se alegram ao ver-vos crescendo fortes no bem.
O nosso encontro aqui, em Pennabilli, diante desta Catedral, coração da Diocese, e nesta Praça, nos remete, com o pensamento, aos numerosos e diversos encontros de Jesus, que nos são contados pelos Evangelhos. Hoje, gostaria de chamar a atenção para o célebre episódio no qual o Senhor estava no caminho e um tal – um jovem – correu ao seu encontro e, se ajoelhando, lhe fez esta pergunta: “Bom Mestre, o que devo fazer para ter por herança a vida eterna” (Mc 10, 17). Talvez, nós, hoje, não diríamos assim, mas o sentido da pergunta é o mesmo: o que devo fazer, como devo viver para viver realmente, para encontrar a vida? Portanto, dentro desta interrogação podemos ver encerrada a ampla e variada experiência humana que se abre à busca do significado, do sentido profundo da vida: como viver, por que viver. A “vida eterna”, de fato, à qual se refere aquele jovem do Evangelho, não indica apenas a vida depois da morte, não quer saber apenas como se chega ao céu. Quer saber: como devo viver, agora, para ter já a vida que pode ser também, depois, a eterna. Portanto, nesta pergunta, este jovem manifesta a exigência de que a existência cotidiana encontre sentido, encontre plenitude, encontre verdade. O homem não pode viver sem esta busca pela verdade sobre si mesmo – o que sou eu, para que devo viver –, verdade que impulsione a abrir o horizonte e a ir além daquilo que é material, não para fugir da realidade, mas para vivê-la de modo ainda mais verdadeiro, mais rico de sentido e de esperança, e não apenas na superficialidade. E acredito que esta – e eu o vi e ouvi nas palavras do vosso amigo – seja também a vossa experiência. As grandes interrogações que carregamos dentro de nós permanecem sempre, renascem sempre: quem somos?, de onde viemos?, para quem vivemos? E estas questões são o sinal maior da transcendência do ser humano e da capacidade que temos de não parar na superfície das coisas. E é exatamente olhando para nós mesmos com verdade, com sinceridade e com coragem que intuímos a beleza, mas também a precariedade da vida e sentimos uma insatisfação, uma inquietude que nada de concreto consegue preencher. No fim, todas as promessas se demonstram frequentemente insuficientes.
Caros amigos, convido-vos a tomar consciência desta saudável e positiva inquietude, a não ter medo de vos colocar perguntas fundamentais sobre o sentido e sobre o valor da vida. Não parai nas respostas parciais, imediatas, certamente mais fáceis no momento e mais cômodas, que podem dar algum momento de felicidade, de exaltação, de embriaguez, mas que não vos levam à verdadeira alegria de viver, aquela que nasce de quem constrói – como disse Jesus – não sobre a areia, mas sobre a rocha sólida. Aprendei, então, a refletir, a ler de modo não superficial, mas em profundidade, a vossa experiência humana: descobrireis, com maravilhamento e com alegria, que o vosso coração é uma janela aberta para o infinito! Esta é a grandeza do homem e também a sua dificuldade. Uma das ilusões produzidas no curso da história foi a de pensar que o progresso técnico-científico, de modo absoluto, poderia dar respostas e soluções a todos os problemas da humanidade. E vemos que não é assim. Na realidade, mesmo se tivesse sido possível, nada e ninguém poderia ter cancelado as perguntas mais profundas sobre o significado da vida e da morte, sobre o significado do sofrimento, de tudo, porque estas perguntas estão inscritas no espírito humano, no nosso coração, e ultrapassam a esfera das necessidades. O homem, mesmo na era do progresso científico e tecnológico – que nos deu tanto – permanece um ser que deseja mais, mais do que a comodidade e o bem-estar, continua aberto à verdade inteira de sua existência, que não pode parar nas coisas materiais, mas se abre a um horizonte muito mais amplo. Tudo isto vós experimentais continuamente, cada vez que vos perguntais “mas, por quê?”. Quando contemplais um pôr do sol, ou uma música, movem-se em vós o coração e a mente; quando experimentais o que quer dizer amar verdadeiramente; quando sentis com força o sentido da justiça e da verdade, e quando sentis também a falta de justiça, de verdade e de felicidade.
Caros jovens, a experiência humana é uma realidade que nos acomuna a todos, mas a elas se podem dar diversos níveis de significado. E é aqui que se decide a forma como orientar a própria vida e se escolhe a quem confiá-la, a quem se confiar. O risco é sempre o de permanecer aprisionado ao mundo das coisas, do imediato, do relativo, do útil, perdendo a sensibilidade por aquilo que se refere à nossa dimensão espiritual. Não se trata, de fato, de desprezar o uso da razão ou de rejeitar o progresso científico, mas exatamente o contrário; trata-se muito mais de entender que cada um de nós não é feito somente de uma dimensão “horizontal”, mas compreende também aquela dimensão “vertical”. Os dados científicos e os instrumentos tecnológicos não podem substituir-se ao mundo da vida, aos horizontes de significado e de liberdade, à riqueza das relações de amizade e de amor.
Caros jovens, é exatamente na abertura para a verdade inteira de nós, de nós mesmos e do mundo, que vemos a iniciativa de Deus para conosco. Ele vem ao encontro de cada homem e lhe faz conhecer o mistério do Seu amor. No Senhor Jesus, que morreu e ressuscitou por nós e nos deu o Espírito Santo, somos mesmos tornados partícipes da vida de Deus, pertencemos à família de Deus. NEle, em Cristo, podeis encontrar a resposta para as perguntas que acompanham o vosso caminho, não de modo superficial, fácil, mas caminhando com Jesus, vivendo com Jesus. O encontro com Cristo não se resolve na adesão a uma doutrina, a uma filosofia, mas aquilo que Ele vos propõe é compartilhar a Sua mesma vida e, assim, aprender a viver, aprender o que é o homem, o que sou eu. Para aquele jovem, que Lhe havia perguntado o que fazer para entrar na vida eterna, ou seja, para viver verdadeiramente, Jesus responde, convidando-o a largar os seus bens e acrescenta: “Vem! Segue-me!” (Mc 10, 21). A palavra de Cristo mostra que a vossa vida encontra significado no mistério de Deus, que é Amor: um Amor exigente, profundo, que vai além da superficialidade! O que seria da vossa vida sem este amor? Deus cuida do homem desde a criação até ao final dos tempos, quando levará à realização o seu projeto de salvação. No Senhor Ressuscitado a certeza da nossa esperança! Cristo mesmo, que foi até às profundezas da morte e ressuscitou, é a esperança em pessoa, é a Palavra definitiva pronunciada sobre a nossa história, é uma palavra positiva.
Não temeis enfrentar as situações difíceis, os momentos de crise, as provações da vida, porque o Senhor vos acompanha, está convosco! Encorajo-vos a crescer na amizade com Ele, através da leitura frequente do Evangelho e de toda a Sagrada Escritura, da participação fiel à Eucaristia como encontro pessoal com Cristo, do compromisso no interior da comunidade eclesial, do caminho com uma orientação espiritual válida. Transformados pelo Espírito Santo, podereis experimentar a autêntica liberdade, que é tal quando é orientada para o bem. Deste modo, a vossa vida, animada por uma contínua busca do rosto do Senhor e da vontade sincera de dar vós mesmos, será, para tantos de vossos coetâneos, um sinal, um chamado de atenção eloquente a viver de forma tal que o desejo de plenitude que está em todos nós se realize finalmente no encontro com o Senhor Jesus. Deixai que o mistério de Cristo ilumine toda a vossa pessoa! Então, podereis levar aos diversos ambientes aquela novidade que pode mudar as relações, as instituições, as estruturas, para construir um mundo mais justo e solidário, animado pela busca do bem comum. Não cedei à lógica individualista e egoísta! Conforte-vos o testemunho de tantos jovens que atingiram a meta da santidade: pensai em Santa Teresinha do Menino Jesus, em São Domingos Sávio, em Santa Maria Gorete, no Beato Pier Giorgio Frassati, no Beato Alberto Marvelli – que é desta terra! – e em tantos outros, desconhecidos de nós, mas que viveram o seu tempo na luz e na força do Evangelho, e encontraram a resposta: como viver, o que fazer para viver.
Como conclusão deste encontro, quero confiar cada um de vós à Virgem Maria, Mãe da Igreja. Como Ela, possais pronunciar e renovar o vosso “sim” e glorificar sempre o Senhor com a vossa vida, porque Ele vos dá palavras de vida eterna! Coragem, então, caros jovens e caras jovens, no vosso caminho de fé e de vida cristã também eu estarei próximo de vós e vos acompanharei com minha Bênção. Obrigado pela vossa atenção!

* Extraído do site do Vaticano, do dia 19 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

E este é o Rosto de Deus: seu amor misericordioso

Visita Pastoral à Diocese de San Marino-Montefeltro

Concelebração Eucarística

Homilia do Santo Padre Bento XVI

Estádio de Serravalle – República de San Marino
Domingo, 19 de junho de 2011
Solenidade da Santíssima Trindade

Caros irmãos e irmãs,
É grande a minha alegria ao poder partir convosco o pão da Palavra de Deus e da Eucaristia e poder dirigir a vós, caros san-marinenses, a minha mais cordial saudação. Dirijo um pensamento especial aos Capitães Regentes e às outras autoridades políticas e civis presentes nesta celebração eucarística; saúdo com afeto o vosso Bispo, Dom Luigi Negri, que agradeço pelas cordiais palavras a mim dirigidas, e, com ele, todos os sacerdotes e fiéis da diocese de San Marino-Montefeltro; saúdo a cada um de vós e vos expresso o meu vivo reconhecimento pela cordialidade e o afeto com o qual me acolhestes. Vim para compartilhar convosco alegrias e esperanças, fadigas e compromissos, ideais e aspirações desta Comunidade diocesana. Sei que também aqui não faltam dificuldades, problemas e preocupações. A todos quero assegurar a minha proximidade e a minha recordação na oração, à qual uno o encorajamento para perseverarem no testemunho dos valores humanos e cristãos, tão profundamente radicados na fé e na história deste território e da sua população, com a sua fé resistente como pedra da qual falou Sua Excelência.
Hoje, celebramos a festa da Santíssima Trindade: Deus Pai e Filho e Espírito Santo, festa de Deus, do centro da nossa fé. Quando se pensa na Trindade, quase sempre vem em mente o aspecto do mistério: são Três e são Um, um só Deus em três Pessoas. Na realidade, Deus não pode ser outra coisa senão um mistério para nós, na sua grandeza, e todavia Ele se revelou: podemos conhecê-Lo no seu Filho, e assim também conhecer o Pai e o Espírito Santo. A liturgia de hoje, pelo contrário, chama a nossa atenção não tanto para o mistério, mas para a realidade de amor que está contida neste primeiro e supremo mistério da nossa fé. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são um, porque amor e amor é a força vivificante absoluta, a unidade criada pelo amor é mais unidade do que uma unidade puramente física. O Pai dá tudo ao Filho; o Filho recebe tudo do Pai com reconhecimento; e o Espírito Santo é como que o fruto deste amor recíproco do Pai e do Filho. Os textos da Santa Missa de hoje falam de Deus e, por isso, falam de amor; não se dedicam tanto ao mistério das três Pessoas, mas sobre o amor que constitui a sua substância e a unidade e trindade ao mesmo tempo.
O primeiro trecho que escutamos é tirado do Livro do Êxodo – sobre ele eu me dediquei numa recente Catequese da quarta-feira – e é surpreendente que a revelação do amor de Deus aconteça depois de um gravíssimo pecado do povo. Acabou de ser concluído o pacto de aliança junto ao monte Sinai, e o povo já peca contra a fidelidade. A ausência de Moisés se prolonga e o povo diz: “Mas, onde está Moisés, onde está o seu Deus?”, e pede a Aarão que lhe faça um deus que seja visível, acessível, manobrável, ao alcance do homem, ao invés daquele misterioso Deus invisível, distante. Aarão consente e prepara um bezerro de ouro. Descendo do Sinai, Moisés vê aquilo que aconteceu e quebra as tábuas da aliança, que já era partida, quebrada, duas pedras sobre as quais estavam escritas “Dez Palavras”, o conteúdo concreto do pacto com Deus. Tudo parece perdido, a amizade, de repente, desde o início, já partida. E no entanto, não obstante este gravíssimo pecado do povo, Deus, por intercessão de Moisés, decide perdoar e convida Moisés a subir outra vez ao monte para receber de novo a sua lei, os dez Mandamentos e renovar o pacto. Moisés pede, então, a Deus que se revele, que lhe permitisse ver o seu rosto. Mas Deus não mostra o rosto, revela sim o seu ser pleno de bondade com estas palavras: “Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, lento na ira e rico de amor e de fidelidade” (Ex 34, 6). E este é o Rosto de Deus. Esta autodefinição de Deus manifesta o seu amor misericordioso: um amor que vence o pecado, o cobre, o elimina. E podemos estar seguros desta bondade que não nos deixa. Não pode haver revelação mais clara. Temos um Deus que renuncia a destruir o pecador e que quer manifestar o seu amor de maneira ainda mais profunda e surpreendente exatamente diante do pecador, para oferecer a possibilidade da conversão e do perdão.
O Evangelho completa esta revelação, que escutamos na primeira leitura, porque indica até que ponto Deus mostrou a sua misericórdia. O evangelista João faz referência a esta expressão de Jesus: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). No mundo há o mal, o egoísmo, a maldade e Deus poderia vir para julgar este mundo, para destruir o mal, para castigar aqueles que agem nas trevas. Ao contrário, Ele demonstra amar o mundo, amar o homem, não obstante o seu pecado, e envia aquilo que tem de mais precioso: o seu Filho unigênito. E não só O envia, mas o doa ao mundo. Jesus é o Filho de Deus que é nascido para nós, que viveu para nós, que curou os doentes, perdoou os pecados, acolheu a todos. Respondendo ao amor que vem do Pai, o Filho deu a sua vida por nós: na cruz, o amor misericordioso de Deus atinge o seu ápice. E é na cruz que o Filho de Deus nos obtém a participação na vida eterna, que nos é comunicada com o dom do Espírito Santo. Assim, no mistério da cruz, estão presentes as três Pessoas divinas: o Pai, que dá o seu Filho unigênito para a salvação do mundo; o Filho, que realize até ao fim o desígnio do Pai; o Espírito Santo – derramado por Jesus no momento da morte – que vem para nos tornar partícipes da vida divina, para transformar a nossa existência, para que seja animada pelo amor divino.
Caros irmãos e irmãs, a fé no Deus trinitário caracterizou também esta Igreja de San Marino-Montefeltro, no curso da sua história antiga e gloriosa. A evangelização desta terra é atribuída aos Santos pedreiros Marino e Leão, os quais, na metade do século III depois de Cristo, teriam desembarcado em Rímini, vindos da Dalmácia. Por causa de sua santidade de vida foram consagrados um como sacerdote e outro como diácono do Bispo Gaudêncio e foram por ele enviados ao interior, um ao monte Feretro, que depois assumiu o nome de San Leo, e outro ao monte Titano, que depois tomou o nome de San Marino. Para além das questões históricas – que não é nossa tarefa aprofundar – interessa afirmar como Marino e Leão trouxeram ao contexto desta realidade local, com a fé no Deus revelado em Jesus Cristo, perspectivas e valores novos, determinando o nascimento de uma cultura e de uma civilização centrada na pessoa humana, imagem de Deus e, por isso, portadora de direitos precedentes a toda legislação humana. A variedade das diversas etnias – romanos, godos e depois lombardos – que entravam em contato entre si, algumas vezes até de modo conflituoso, encontraram na referência comum à fé um fator poderoso de edificação ética, cultural, social e, de algum modo, política. Era evidente a seus olhos que não era possível ter como realizado um projeto de civilização enquanto todos os componentes do povo não se tivesse tornado uma comunidade cristã viva e bem estruturada e edificada sobre a fé no Deus Trinitário. Com razão, portanto, se pode dizer que a riqueza deste povo, a vossa riqueza, caros san-marinenses, foi e é a fé, e que esta fé criou uma civilização verdadeiramente única. Ao lado da fé, é preciso também recordar, a absoluta fidelidade ao Bispo de Roma, ao qual esta Igreja sempre olhou com devoção e afeto; como mesmo a atenção demonstrada pela grande tradição da Igreja oriental e a profunda devoção pela Virgem Maria.
Vós sois justamente orgulhosos e gratos pelo que o Espírito Santo operou através dos séculos na vossa Igreja. Mas, vós sabeis também que o melhor modo para apreciar uma herança é cultivá-la e enriquecê-la. Na realidade, vós sois chamados a desenvolver este precioso depósito num momento entre os mais decisivos da história. Hoje, a vossa missão se encontra no confrontar-se com profundas e rápidas transformações culturais, sociais, econômicas, políticas, que determinaram novas orientações e modificaram mentalidades, costumes e sensibilidades. Também aqui, de fato, como em outros lugares, não faltam dificuldades e obstáculos, devidos sobretudo a modelos hedonistas que obscurecem a mente e arriscam anular toda moralidade. Insinuou-se a tentação de achar que a riqueza do homem não seja a fé, mas o seu poder pessoal e social, a sua inteligência, a sua cultura e a sua capacidade de manipulação científica, tecnológica e social da realidade. Assim, mesmo nestas terras, começou-se a substituir a fé e os valores cristãos com presumidas riquezas, que se revelam, no fim, inconsistentes e incapazes de manter a grande promessa do verdadeiro, do bom, do belo e do justo que, por séculos, os vossos antepassados identificaram com a experiência da fé. Não são, pois, esquecidas a crise de não poucas famílias, agravada pela difusa fragilidade psicológica e espiritual dos cônjuges, como também a dificuldade experimentada por muitos educadores na obtenção da continuidade formativa dos jovens, condicionados por múltiplas precariedades, a primeira das quais pode ser apontada como a do papel social e da possibilidade de trabalho.
Caros amigos! Conheço bem o compromisso de cada componente desta Igreja particular na promoção da vida cristã nos seus vários aspectos. Exorto a todos os fiéis a serem como fermento no mundo, mostrando-vos, tanto em Montefeltro como em San Marino, cristãos presentes, empreendedores e coerentes. Que os Sacerdotes, os Religiosos e as Religiosas vivam sempre na mais cordial e ativa comunhão eclesial, ajudando e escutando o Pastor diocesano. Também junto de vós se percebe a urgência de uma retomada das vocações sacerdotais e de consagração especial: apelo às famílias e aos jovens, para que abram o espírito para uma resposta pronta ao chamado do Senhor. Nunca nos arrependemos de ser generosos com Deus! A vós leigos, recomendo que vos empenheis ativamente na comunidade, de forma que, ao lado de vossas peculiares tarefas civis, políticas, sociais e culturais, possais encontrar tempo e disponibilidade para a vida da fé, a vida pastoral. Caros san-marinenses, permanecei fortemente fiéis ao patrimônio construído nos séculos sob o impulso dos vossos grandes Padroeiros, Marino e Leão. Invoco a bênção de Deus sobre vosso caminho de hoje e de amanhã e recomendo todos “à graça do Senhor Jesus Cristo, ao amor de Deus e à comunhão do Espírito Santo” (2Cor 13, 11). Amém!

* Extraído do site do Vaticano, do dia 19 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

domingo, 19 de junho de 2011

Comentário ao evangelho do dia

Solenidade da Santíssima Trindade

1ª Leitura - Ex 34,4b-6.8-9
Naqueles dias, Moisés levantou-se, quando ainda fazia noite, e subiu ao monte Sinai, como o Senhor lhe havia mandado, levando consigo as duas tábuas de pedra. O Senhor desceu na nuvem e permaneceu com Moisés, e este invocou o nome do Senhor. Enquanto o Senhor passava diante dele Moisés gritou: "Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel". Imediatamente, Moisés curvou-se até o chão e, prostrado por terra, disse: "Senhor, se é verdade que gozo de teu favor, peço-te, caminha conosco; embora este seja um povo de cabeça dura, perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua".

2ª Leitura - 2Cor 13,11-13
Irmãos, alegrai-vos, trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco. Saudai-vos uns aos outros com o beijo santo. Todos os santos vos saúdam. A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós.

Evangelho - Jo 3,16-18
Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito. 

Comentário feito por Santo Atanásio (295-373)
Bispo de Alexandria, Doutor da Igreja

Insensatos, que não cessais de revelar-vos indiscretos na procura da Trindade, sem vos contentardes em acreditar tão somente que Ela existe, tal como vos orienta o Apóstolo, que diz: “quem se aproxima de Deus tem de acreditar que Ele existe e recompensa aqueles que O procuram” (Heb 11,6). Que ninguém se ocupe de questões supérfluas, mas se contente em apreender o conteúdo das Escrituras, [...] que dizem que o Pai é fonte — “o Meu povo abandonou-Me, a Mim, nascente de águas vivas” (Jr 2,13); “Abandonaste a fonte da sabedoria!” (Br 3,12) — e luz, segundo João: “Deus é luz” (1Jo 1,5). O Filho, com efeito, em relação a essa fonte, é rio, de acordo com o salmo: “Enches, a transbordar, o rio caudaloso” (Sl 65 /64,10), e em relação à luz é resplendor, quando Paulo diz que “é resplendor da Sua glória e imagem fiel da Sua substância” (Heb 1,3). Assim sendo, o Pai é luz, e o Filho o Seu resplendor. [...] E é no Filho que somos iluminados pelo Espírito, como diz também Paulo: “que o Pai vos dê o Espírito de sabedoria e vo-Lo revele, para o conhecerdes, e sejam iluminados os olhos do vosso coração” (Ef 1,17-18). É, porém, Cristo quem nos ilumina nEle quando somos iluminados pelo Espírito, pois a Escritura diz: “O Verbo era a Luz verdadeira que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina” (Jo 1,9). Para além disso, sendo o Pai fonte e Cristo rio, é dito igualmente que bebemos do Espírito: “e todos bebemos de um só Espírito” (1Cor 12,13). Dessedentados, pois, pelo Espírito, é de Cristo que bebemos, porquanto bebemos “de um rochedo espiritual que os seguia, e esse rochedo era Cristo” (1Cor 10,4).  Ora, sendo o Pai o “único Deus sábio” (Rm 16,27), o Filho é a Sua sabedoria, porque “Cristo é poder e sabedoria de Deus” (1 Cor 1,24). Por conseguinte, ao recebermos o Espírito de sabedoria, recebemos o Filho e adquirimos assim a Sua sabedoria. [...] O Filho é a vida, pois Ele disse: “Eu sou a Vida” (Jo 14,6). Mas também se diz na Escritura que somos vivificados pelo Espírito quando Paulo nos diz que “o Pai, que ressuscitou Cristo de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, por meio do Seu Espírito que habita em vós” (Rm 8,11). Mas ao sermos vivificados pelo Espírito, é Cristo que Se faz vida em nós: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Existindo, assim, no seio da Trindade uma tal correspondência e uma tal unidade, quem poderá separar o Filho do Pai, e o Espírito do Filho, ou do Pai? [...] O Mistério de Deus não é concedido ao nosso ser com discursos eloquentes, mas pela fé e por preces respeitosas.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 6,7-15
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: "Quando orardes, não useis muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras. Não sejais como eles, pois vosso Pai sabe do que precisais, muito antes que vós o peçais. Vós deveis rezar assim: Pai Nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus. O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. Perdoa as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal. De fato, se vós perdoardes aos homens as faltas que eles cometeram, vosso Pai que está nos céus também vos perdoará. Mas, se vós não perdoardes aos homens, vosso Pai também não perdoará as faltas que vós cometestes.

Comentário feito por Santa Teresa de Ávila (1515-1582)
carmelita, doutora da Igreja

"Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu". Porque todos os avisos que vos tenho dado neste livro vão dirigidos a este ponto de nos darmos de todo ao Criador e pormos a nossa vontade na Sua, de nos desapegarmos das criaturas, e já tereis entendido o muito que isto importa, nada mais digo; somente direi o motivo porque o nosso bom Mestre põe aqui estas sobreditas palavras, como Quem sabe quanto ganharemos em prestar este serviço a Seu eterno Pai, a fim de nos dispormos para, com muita brevidade, nos vermos com o caminho acabado de andar e bebendo da água viva da fonte que fica dita. Porque, sem darmos totalmente a nossa vontade ao Senhor para que, em tudo o que nos toca, Ele faça conforme a Sua vontade, nunca nos deixará beber dela. Isto é contemplação, de que me dissestes que escrevesse. E nisto [...] nenhuma coisa fazemos da nossa parte: nem trabalhamos, nem negociamos, nada mais é preciso; porque tudo o mais estorva e impede de dizer "fiat voluntas tua": cumpra-se em mim, Senhor, a Vossa vontade. Com efeito, tudo o que quiséssemos fazer pelo nosso trabalho e pela nossa competência, tendo em vista alcançar para nós a quietude, não nos serviria senão de obstáculo e de impedimento. Cumpra-se em mim, Senhor, a Vossa vontade de todos os modos e maneiras que Vós, Senhor meu, quiserdes. Se quereis com trabalhos, dai-me esforço e venham; se com perseguições e enfermidades e desonras e necessidade, aqui estou, não voltarei o rosto, Pai meu, nem é razão para voltar as costas. Seria indigno de mim recuar. Pois Vosso filho Vos deu esta minha vontade dando-Vos a vontade de todos, não é razoável que falhe por minha parte; mas sim me façais Vós mercê de me dar o Vosso Reino para que eu possa fazê-lo, pois Ele mo pediu, e disponde em mim como de coisa Vossa, conforme a Vossa vontade.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O objetivo primeiro da oração é a conversão

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 15 de junho de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Na história religiosa do antigo Israel, os profetas com seu ensinamento e sua pregação tiveram grande relevância. Entre eles, emerge a figura de Elias, suscitado por Deus para levar o povo à conversão. O seu nome significa “o Senhor é meu Deus” e é de acordo com este nome que se desenrola a sua vida, toda consagrada a provocar no povo o reconhecimento do Senhor como único Deus. Acerca de Elias, o Livro do Eclesiástico diz: “Elias, o profeta, levantou-se em breve como um fogo. Suas palavras queimavam como uma tocha ardente” (Eclo 48, 1). Com esta tocha Israel reencontrou o seu caminho em direção a Deus. No seu ministério, Elias reza: invoca o Senhor para que traga à vida o filho de uma viúva que o tinha hospedado (cf. 1Re 17, 17-24), grita a Deus o seu cansaço e a sua angústia enquanto foge para o deserto procurado pela rainha Jezabel (cf. 1Re 19, 1-4), mas é sobretudo no Monte Carmelo que se mostra em toda a sua potência de intercessor quando, diante de todo Israel, reza ao Senhor para que se manifeste e converta o coração do povo. É o episódio narrado no capítulo 18 do Primeiro Livro de Reis, sobre o qual, hoje, nos deteremos.
Encontramo-nos no reino do norte, no século IX a.C., no tempo do Rei Acab, num momento no qual em Israel se havia criado uma situação de aberto sincretismo. Ao lado do Senhor, o povo adorava Baal, o ídolo tranquilizador do qual se acreditava que viesse o dom da chuva e a quem, por isso mesmo, se atribuía o poder de dar fertilidade aos campos e vida aos homens e animais. Mesmo pretendendo seguir o Senhor, Deus invisível e misterioso, o povo procurava segurança também num deus compreensível e previsível, de quem pensava poder obter fecundidade e prosperidade em troca de sacrifícios. Israel estava cedendo à sedução da idolatria, a contínua tentação do crente, iludindo-se de poder “servir a dois senhores” (cf. Mt 6, 24; Lc 16, 13), e de facilitar os caminhos impenetráveis da fé no Onipotente, colocando sua fidelidade também num deus impotente feito pelos homens.
É exatamente para desmascarar a estupidez enganadora desta postura que Elias manda o povo de Israel se reunir no Monte Carmelo e o coloca diante da necessidade de fazer uma escolha: “Se o Senhor é Deus, segui-o, mas se é Baal, segui a Baal!” (1Re 18, 21). E o profeta, portador do amor de Deus, não deixa sozinho o povo diante desta escolha, mas o ajuda indicando o sinal que revelará a verdade: tanto ele quanto os profetas de Baal prepararão um sacrifício e rezaram, e o verdadeiro Deus se manifestará respondendo com o fogo que consumirá a oferta. Começa assim o confronto entre o profeta Elias e os seguidores de Baal, que na realidade é entre o Senhor de Israel, Deus de salvação e de vida, e o ídolo mudo e sem consistência, que não pode fazer nada, nem o bem nem o mal (cf. Jer 10, 5). E começa também o confronto entre dois modos completamente diversos de se dirigir a Deus e de rezar.
Os profetas de Baal, de fato, gritam, se agitam, dançam saltando, entram num estado de exaltação chegando mesmo a fazer cortes no corpo, “com espadas e lanças, até se cubrirem de sangue” (1Re 18, 28). Eles recorrem a si mesmos para interpelar o seu deus, confiando nas próprias capacidades a fim de provocar nele a resposta. Revela-se assim a realidade enganadora do ídolo: ele é pensado pelo homem como algo de que se possa dispor, que é possível gerir com as próprias forças, a quem se pode chegar a partir de si mesmos e da própria força vital. A adoração do ídolo ao invés de abrir o coração humano para a Alteridade, para uma relação libertadora que permita sair do espaço fechado do próprio egoísmo para chegar a dimensões de amor e de dom recíproco, fecha a pessoa no círculo exclusivo e desesperante da busca de si. E o engano é tal que, adorando o ídolo, o homem se descobre obrigado a ações extremas, na ilusória tentativa de submetê-lo à própria vontade. Por isso, os profetas de Baal chegam até ao ponto de se fazerem mal, de infligir a si mesmos feridas nos corpos, num gesto dramaticamente irônico: para ter uma resposta, um sinal de vida do seu deus, eles se recobrem de sangue, recobrindo-se simbolicamente de morte.
Postura de oração bem diferente é, pelo contrário, a de Elias. Ele pede ao povo que se aproxime, envolvendo-o assim na sua ação e na sua súplica. O objetivo do desafio que ele dirige aos profetas de Baal era levar o povo que se havia perdido seguindo os ídolos de volta para Deus; por isso, ele quer que Israel se uma a ele, se tornando partícipe e protagonista da sua oração e daquilo que está acontecendo. Em seguida, o profeta erige um altar, utilizando, como diz o texto, “doze pedras, segundo o número das doze tribos saídas dos filhos de Jacó, a quem o Senhor dissera: Tu te chamarás Israel” (1Re 18, 31). Aquelas pedras representam toda Israel e são a memória tangível da história de eleição, de predileção e de salvação de que o povo foi objeto. O gesto litúrgico de Elias tem um alcance decisivo; o altar é lugar sagrado que indica a presença do Senhor, mas aquelas pedras que o compõem representam o povo, que agora, pela mediação do profeta, está simbolicamente colocado diante de Deus, se torna “altar”, lugar de oferta e de sacrifício.
Mas, é necessário que o símbolo se torne realidade, que Israel reconheça o verdadeiro Deus e reencontre a própria identidade de povo do Senhor. Por isso, Elias pede a Deus que se manifeste, e aquelas doze pedras que deveriam recordar a Israel a sua verdade servem também para recordar ao Senhor a sua fidelidade, à qual o profeta apela na sua oração. As palavras da sua invocação são densas de significado e de fé: “Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, saibam todos hoje que sois o Deus de Israel, que eu sou vosso servo e que por vossa ordem fiz todas estas coisas. Ouvi-me, Senhor, ouvi-me: que este povo reconheça que vós, Senhor, sois Deus, e que sois vós que converteis os seus corações!” (1Re 18, 36-37; cf. Gen 32, 36-37). Elias se dirige ao Senhor chamando-o Deus dos Pais, fazendo assim memória implícita das promessas divinas e da história de eleição e de aliança que uniu indissoluvelmente o Senhor ao seu povo. O envolvimento de Deus na história dos homens é tal que, desde então, o seu Nome é inseparavelmente unido ao dos Patriarcas e o profeta pronuncia aquele Nome santo para que Deus se recorde e se mostre fiel, mas também para que Israel se sinta chamado pelo nome e reencontre a sua fidelidade. O título divino pronunciado por Elias, de fato, parece um pouco surpreendente. Ao invés de usar a fórmula habitual, “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”, ele utiliza um apelativo menos comum: “Deus de Abraão, de Isaac e de Israel”. A substituição do nome “Jacó” por “Israel” evoca a luta de Jacó nas margens do Yabboq, com a mudança de nome a que o narrador se refere explicitamente (cf. Gen 32, 31) e sobre a qual falei numa das últimas catequeses. Tal substituição adquire um significado pungente na invocação de Elias. O profeta esá rezando pelo povo do reino do norte, que se chamava Israel, diferente de Judá, que indicava o reino do sul. E agora, este povo, que parece ter esquecido a própria origem e o próprio relacionamento privilegiado com o Senhor, se sente chamar pelo nome enquanto e pronunciado o Nome de Deus, Deus do Patriarca e Deus do povo: “Senhor, Deus [...] de Israel, saibam todos hoje que sois o Deus de Israel”.
O povo para o qual Elias reza é recolocado diante da própria verdade, e o profeta pede que também a verdade do Senhor se manifeste e que Ele intervenha para converter Israel, retirando-o do engano da idolatria e levando-o assim à salvação. O seu pedido é para que o povo saiba, conheça em plenitude quem, de verdade, é o  seu Deus, e faça a escolha decisiva de seguir somente a Ele, o verdadeiro Deus. Porque somente assim Deus é reconhecido por aquilo que é, Absoluto e Transcendente, sem a possibilidade de colocá-Lo ao lado de outros deuses, que O renegariam como absoluto, relativizando-O. É esta a fé que faz de Israel o povo de Deus; é a fé proclamada no conhecido texto do Shemà Israel: “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 4-5). Ao absoluto de Deus, o crente deve responder com um amor absoluto, total, que comprometa toda a sua vida, as suas forças, o seu coração. E é exatamente para o coração do seu povo que o profeta, com sua oração, está implorando conversão: “que este povo reconheça que vós, Senhor, sois Deus, e que sois vós que converteis os seus corações!” (1Re 18, 37). Elias, com a sua intercessão, pede a Deus aquilo que Deus mesmo deseja fazer, manifestar-se em toda a sua misericórdia, fiel à própria realidade de Senhor da vida que perdoa, converte, transforma.
E é o que acontece: “Então, subitamente, o fogo do Senhor baixou do céu e consumiu o holocausto, a lenha, as pedras, a poeira e até mesmo a água da valeta. Vendo isso, o povo prostrou-se com o rosto por terra, e exclamou: O Senhor é Deus! O Senhor é Deus!” (1Re 18, 38-39). O fogo, este elemento ao mesmo tempo necessário e terrível, ligado às manifestações divinas da sarça ardente e do Sinai, agora serve para assinalar o amor de Deus que responde à oração e se revela ao seu povo. Baal, o deu mudo e impotente, não tinha respondido às invocações dos seus profetas; o Senhor, pelo contrário, responde, e de modo inequívoco, não apenas queimando o holocausto, mas até mesmo secando a água que tinha sido derramada ao redor do altar. Israel não pode mais ter dúvidas; a misericórdia divina veio ao encontro da sua fraqueza, de suas dúvidas, de sua falta de fé. Agora, Baao, o ídolo vão, é vencido, e o povo, que parecia perdido, reencontrou o caminho da verdade e reencontrou-se a si mesmo.
Caros irmãos e irmãs, o que esta história do passado diz para nós? Qual é o presente desta história? Em primeiro lugar está em questão a prioridade do primeiro mandamento: adorar apenas a Deus. Onde Deus desaparece, o homem cai na escravidão das idolatrias, como mostraram, no nosso tempo, os regimes totalitários e como mostram também diversas formas de niilismo, que tornam o homem dependente de ídolos, da idolatria; o escravizam. Segundo. O objetivo primeiro da oração é a conversão: o fogo de Deus que transforma o nosso coração e nos faz capazes de ver a Deus e, assim, de viver segundo Deus e de viver para o outro. E o terceiro ponto. Os Padres nos dizem que mesmo esta história de um profeta é profética, se – dizem – é sombra do futuro, do futuro Cristo; é um passo no caminho em direção a Cristo. E nos dizem que aqui vemos o verdadeiro fogo de Deus: o amor que guia o Senhor até à cruz, até ao dom total de si. A verdadeira adoração de Deus, então, é dar a si mesmo a Deus e aos homens, a verdadeira adoração é o amor. E a verdadeira adoração de Deus não destrói, mas renova, transforma. Certamente o fogo de Deus, o fogo do amor, queima, transforma, purifica, mas exatamente por isso não destrói, mas cria a verdade do nosso ser, recria o nosso coração. E assim, realmente vivos pela graça do fogo do Espírito Santo, do amor de Deus, somos adoradores em espírito e verdade. Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 15 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 5,43-48
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: "Vós ouvistes o que foi dito: 'Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!'. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos. Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? E se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito".

Comentário feito por São Francisco de Assis (1182-1226)
fundador dos Irmãos menores

Nós, todos os irmãos, acatamos atentamente o que diz o Senhor: "Amai os vossos inimigos, fazei o bem a quem vos odeia". Nosso Senhor Jesus Cristo, cujos passos devemos seguir (1Pe 2,21), deu o nome de amigo a quem O traía (Mt 26,50), e ofereceu-Se voluntariamente aos que O iam crucificar. Por conseguinte são nossos amigos todos aqueles que nos infligem injustamente adversidades e angústias, afrontas e ofensas, dores e tormentos, o martírio e a morte. Devemos amá-los muito, porque os ferimentos que nos causam proporcionar-nos-ão a vida eterna.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Dá-nos o dom da Tua presença, e teremos o mais belo dos dons: a Tua alegria

Capela Papal na Solenidade de Pentecostes

Homilia do Santo Padre Bento XVI

Basílica Vaticana
Domingo, 12 de junho de 2011.

Caros irmãos e irmãs,
Celebramos hoje a grande solenidade do Pentecostes. Se, em certo sentido, todas as solenidades litúrgicas da Igreja são grandes, esta do Pentecostes o é de maneira ainda mais especial, porque marca, chegado o quinquagésimo dia, a realização do evento da Páscoa, da morte e ressurreição do Senhor Jesus, através do dom do Espírito do Ressuscitado. Para o Pentecostes, a Igreja nos preparou nos dias passados com a sua oração, com a invocação repetida e intensa a Deus para obter uma renovada efusão do Espírito Santo sobre nós. A Igreja reviveu assim aquilo que aconteceu nas suas origens, quando os Apóstolos, reunidos no Cenáculo de Jerusalém, “perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele” (At 1, 14). Estavam unidos em humilde e confiante espera de que se realizasse a promessa do Pai comunicada a eles por Jesus: “vós sereis batizados no Espírito Santo daqui há poucos dias. [...], descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força” (At 1, 5.8).
Na liturgia de Pentecostes, ao relato dos Atos dos Apóstolos sobre o nascimento da Igreja (cf. At 2, 1-11) corresponde o Salmo 103 que escutamos: um louvor de toda a criação, que exalta o Espírito Criador que tudo fez com sabedoria: “Ó Senhor, quão variadas são as vossas obras! Feitas, todas, com sabedoria, a terra está cheia das coisas que criastes. [...] Ao Senhor, glória eterna; alegre-se o Senhor em suas obras!” (Sl 103, 24.31). O que a Igreja nos quer dizer é isto: o Espírito criador de todas as coisas, e o Espírito Santo que Cristo fez descer do Pai sobre a comunidade dos discípulos, são um só e o mesmo. Criação e redenção se pertencem reciprocamente e constituem, em profundidade, um único mistério de amor e de salvação. O Espírito Santo é antes de tudo Espírito Criador e, portanto, o Pentecostes é também festa da criação. Para nós cristãos, o mundo é fruto de um ato de amor de Deus, que fez todas as coisas e do que Ele se alegra porque é “bom”, “muito bom” como diz o relagto da criação (cf. Gn 1, 1-31). Deus, por isso, não é o totalmente Outro, inominável e obscuro. Deus se revela, tem um rosto, Deus é razão, Deus é vontade, Deus é amor, Deus é beleza. A fé no Espírito Criador e a fé no Espírito que o Cristo Ressuscitado deu aos Apóstolos e dá a cada um de nós, são então inseparavelmente ligadas.
A Segunda Leitura e o Evangelho de hoje nos mostram esta conexão. O Espírito Santo é Aquele que nos faz reconhecer em Cristo o Senhor, e nos faz pronunciar a profissão de fé da Igreja: “Jesus é Senhor” (cf. 1Cor 12, 3b). Senhor é o título atribuído a Deus no Antigo Testamento, título que, na leitura da Bíblica, assumia o lugar do seu impronunciável nome. O Credo da Igreja é nada mais do que o desenvolvimento daquilo que se diz com esta simples afirmação: “Jesus é Senhor”. Desta profissão de fé São Paulo nos diz que se trata exatamente da palavra e da obra do Espírito. Se quisermos estar no Espírito Santo, devemos aderir a este Credo. Fazendo-o nosso, aceitando-o como nossa palavra, temos acesso à obra do Espírito Santo. A expressão “Jesus é Senhor” pode ser lida em dois sentidos. Significa: Jesus é Deus e, ao mesmo tempo, Deus é Jesus. O Espírito Santo ilumina esta reciprocidade: Jesus tem dignidade divina, e Deus tem o rosto humano de Jesus. Deus se mostra em Jesus e, com isso, nos dá a verdade sobre nós mesmos. Deixar-se iluminar profundamente por esta palavra é o evento do Pentecostes. Recitando o Credo, nós entramos no mistério do primeiro Pentecostes: da desordem de Babel, daquelas vozes que se chocam umas às outras, advém uma radical transformação: a multiplicidade se faz multiforme unidade, do poder unificador da Verdade cresce a compreensão. No Credo que nos une de todos os cantos da Terra, que, mediante o Espírito Santo, faz com que nos compreendamos mesmo na diversidade de línguas, através da fé, da esperança e do amor, se forma a nova comunidade da Igreja de Deus.
O trecho do Evangelho nos oferece, em seguida, uma maravilhosa imagem para esclarecer a conexão entre Jesus, o Espírito Santo e o Pai: o Espírito Santo é representado como o sopro de Jesus Cristo ressuscitado (cf. Jo 20, 22). O evangelista João retoma aqui uma imagem do relato da criação, onde se diz que Deus soprou nas narinas do homem um sopro de vida (cf. Gn 2, 7). O sopro de Deus é vida. Agora, o Senhor sopra na nossa alma o novo sopro de vida, o Espírito Santo, a sua mais íntima essência, e deste modo nos acolhe na família de Deus. Com o Batismo e a Crisma, nos é dado este dom de modo específico, e com os sacramentos da Eucaristia e da Penitência isso e repete continuamente: o Senhor sopra na nossa alma um sopro de vida. Todos os Sacramentos, cada um de maneira própria, comunicam ao homem a vida divina, graças ao Espírito Santo que opera neles.
Na liturgia de hoje percebemos também uma outra conexão. O Espírito Santo é Criador, é ao mesmo tempo Espírito de Jesus Cristo, de modo porém que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só e único Deus. E à luz da primeira leitura podemos acrescentar: o Espírito Santo anima a Igreja. Ela não deriva da vontade humana, da reflexão, da habilidade do homem ou da sua capacidade organizativa, pois se fosse assim já teria se extinguido há muito tempo, assim como cada coisa humana passa. A Igreja, pelo contrário, é o Corpo de Cristo, animado pelo Espírito Santo. As imagens do vento e do fogo, usadas por São Lucas para representar a vinda do Espírito Santo (cf. At 2, 2-3) recordam o Sinai, onde Deus se revelou ao povo de Israel e lhe concedeu a sua aliança; “Todo o monte Sinai fumegava – lê-se no Livro do Êxodo –, porque o Senhor tinha descido sobre ele no meio de chamas” (Ex 19, 18). De fato, Israel festejou o quinquagésimo dia depois da Páscoa, depois da comemoração da fuga do Egito, como a festa do Sinai, a festa do Pacto. Quando São Lucas fala de línguas de fogo para representar o Espírito Santo, se remete àquele antigo Pacto, estabelecido sobre os fundamentos da Lei recebida por Israel no Sinai. Assim, o evento do Pentecostes é representado como um novo Sinai, como o dom de um novo Pacto no qual a aliança com Israel é estendida a todos os povos da Terra, em que caem todas as barreiras da velha Lei e fica evidente o seu coração mais santo e imutável, ou seja, o amor, que exatamente o Espírito Santo comunica e difunde, o amor que abraça cada coisa. Ao mesmo tempo, a Lei se dilata, se abre, se tornando até mesmo mais simples: é o Novo Pacto, que o Espírito “escreve” nos corações daqueles que creem em Cristo. A extensão do Pacto a todos os povos da Terra é representada por São Lucas através de uma lista dos povos consideráveis para aquela época (cf. At 2, 9-11). Com isto nos é dita uma coisa muito importante: que a Igreja é católica desde o primeiro momento, que a sua universalidade não é o fruto da inclusão sucessiva de diversas comunidades. Desde o primeiro instante, de fato, o Espírito Santo a criou como a Igreja de todos os povos; ela abraça o mundo inteiro, supera todas as fronteiras de raça, classe, nação; abate todas as barreiras e une os homens na profissão do Deus uno e trino. Desde o início, a Igreja é uma, católica e apostólica: esta é a sua verdadeira natureza e, como tal, deve ser reconhecida. Ela é santa, não graças à capacidade dos seus membros, mas porque Deus mesmo, com o seu Espírito, a cria, a purifica e a santifica sempre.
Finalmente, o Evangelho de hoje nos consigna esta belíssima expressão: “Os discípulos se alegraram ao ver o Senhor” (Jo 20, 20). Estas palavras são profundamente humanas. O Amigo perdido está presente de novo, e quem antes estava chateado se alegra. Mas, ela diz muito mais do que isso. Porque o Amigo perdido não vem de um lugar qualquer, mas da noite da morte; e Ele a atravessou! Ele não é um qualquer, mas é o Amigo e ao mesmo tempo Aquele que é a Verdade que faz os homens viverem; e aquilo que dá não é uma alegria qualquer, mas a alegria mesma, dom do Espírito Santo. Sim, é belo viver porque sou amado, e é a Verdade que me ama. Alegraram-se os discípulos, vendo o Senhor. Hoje, no Pentecostes, esta expressão é destinada também a nós, porque na fé podemos vê-Lo; na fé Ele vem entre nós e também a nós mostra as mãos e o lado, e nós nos alegramos. Por isso, queremos rezar: Senhor, mostra-Te! Dá-nos o dom da Tua presença, e teremos o mais belo dos dons: a Tua alegria. Amém!

* Extraído do site do Vaticano, do dia 12 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.