domingo, 31 de julho de 2011

Comentário ao evangelho do dia

18º Domingo Tempo Comum

1ª Leitura - Is 55,1-3
Assim diz o Senhor: "vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga. Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-me com atenção, e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento do vosso corpo. Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida; farei convosco um pacto eterno, manterei fielmente as graças concedidas a Davi".

2ª Leitura - Rm 8,35.37-39
Irmãos, quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? Em tudo isso, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou! Tenho a certeza que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os poderes celestiais, nem o presente nem o futuro, nem as forças cósmicas, nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer, será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Evangelho - Mt 14,13-21
Naquele tempo, quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado. Mas quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé. Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes. Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: "Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!". Jesus porém lhes disse: "Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!". Os discípulos responderam: "Só temos aqui cinco pães e dois peixes". Jesus disse: "Trazei-os aqui". Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuiram às multidões. Todos comeram e ficaram satisfeitos, e dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios. E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.

Comentário feito por Papa Bento XVI
Exortação apostólica "Sacramento da Caridade"

"O pão que Eu hei-de dar é a Minha carne que Eu darei pela vida do mundo" (Jo 6,51). Com estas palavras, o Senhor revela o verdadeiro significado do dom da Sua vida por todos os homens; as mesmas mostram-nos também a compaixão íntima que Ele sente por cada pessoa. Na realidade, os Evangelhos transmitem-nos muitas vezes os sentimentos de Jesus para com as pessoas, especialmente doentes e pecadores (Mt 20,34; Mc 6,34; Lc 19,41). Ele exprime, através de um sentimento profundamente humano, a intenção salvífica de Deus, que deseja que todo o homem alcance a verdadeira vida. Cada celebração eucarística atualiza sacramentalmente a doação que Jesus fez da Sua própria vida na cruz, por nós e pelo mundo inteiro. Ao mesmo tempo, na Eucaristia, Jesus faz de nós testemunhas da compaixão de Deus por cada irmão e irmã; nasce assim, em torno do mistério eucarístico, o serviço da caridade para com o próximo, que "consiste precisamente no fato de eu amar, em Deus e com Deus, a pessoa que não me agrada ou que nem conheço sequer. Isto só é possível realizar-se a partir do encontro íntimo com Deus, um encontro que se tornou comunhão de vontade, chegando mesmo a tocar o sentimento. Então aprendo a ver aquela pessoa já não somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspectiva de Jesus Cristo" [Bento XVI, Encíclica Deus Caritas est, 18]. Desta forma, nas pessoas que encontro, reconheço irmãs e irmãos, pelos quais o Senhor deu a Sua vida amando-os "até ao fim" (Jo 13,1). Por conseguinte, as nossas comunidades, quando celebram a Eucaristia, devem consciencializar-se cada vez mais de que o sacrifício de Jesus é por todos; e, assim, a Eucaristia impele todo o que acredita nEle a fazer-se "pão repartido" para os outros e, consequentemente, a empenhar-se por um mundo mais justo e fraterno. Como sucedeu na multiplicação dos pães e dos peixes, temos de reconhecer que Cristo continua, ainda hoje, exortando os Seus discípulos a empenharem-se pessoalmente: "Dai-lhes vós de comer" (Mt 14,16). Na verdade, a vocação de cada um de nós consiste em ser, unido a Jesus, pão repartido para a vida do mundo.

Santo Inácio de Loyola

31 de julho


Santo Inácio,
rogai por nós!

Tomai, Senhor, e recebei
Toda a minha liberdade, a minha memória também.
O meu entendimento e toda a minha vontade
Tudo o que tenho e possuo, vós me destes com amor.
Todos os dons que me destes, com gratidão vos devolvo
Disponde deles, Senhor, segundo a vossa vontade.
Dai-me somente, o vosso amor, vossa graça
Isto me basta, nada mais quero pedir.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Cartas do P.e Aldo 202

Asunción, 26 de julho de 2011.

Caros amigos,
Tão logo terminaram os encontros com milhares de jovens, Marcos e Cleuza pegaram o avião, à meia-noite do domingo passado, e chegaram a Asunción. Dois dias passados juntos para poder dizer outra vez o nosso “sim” a Cristo. Encontramo-nos apenas para que reconfirmemos este sim. De outra forma, que sentido teria qualquer relação, ou tanta dificuldade num mundo que, para a grande maioria, as relações vividas são virtuais ou formais?
O nosso sim a Cristo não pode passar através do “mundo virtual”, porque Deus se fez companhia para o homem, fez-se carne. E sem a carne não existe nem Cristo nem o homem.
No dia seguinte, nos encontramos na nossa fazenda – toda a nossa Fraternidade. Depois de retomar o que havíamos dito um mês atrás e que Cleuza havia resumido com uma expressão belíssima em forma de pergunta: “somos cristãos ‘coca-cola’ ou homens apaixonados por Cristo?”. O Movimento, para nós, é uma coca-cola ou um dinamismo no qual a razão e o sentimento caminham juntos? Por que esta imagem da coca-cola? Porque quando tiramos a tampinha, faz pssssss e, em seguida, tudo acaba. Podemos usar também a imagem dos fogos de artifício.
Logo depois, começaram as intervenções. Uma pessoa em particular sublinhava seu drama pessoal, um drama que havia levado a sua pessoa à exaustão. “Tudo funcionava bem na minha vida, vivia a minha responsabilidade, jogando-me inteira até ao ponto de ser definida pelo meu trabalho. E fazendo assim eu pensava estar servindo bem a Deus. Mas, com o tempo, cedi... porque essa maneira de trabalhar para Deus me colocou em nocaute”.
Cleuza aproveita a deixa e, depois de ter descrito como também ela, antes de encontrar Carrón e o Movimento, passou anos determinada pela depressão, fruto de seu constante empenho em favor de Deus e dos pobres, disse: “Olha só, eu também vivi uma vida cheia de tormento e de amargura, convencida de estar servindo a Cristo. Tomei antidepressivos por anos, até ao dia em que encontrei o Movimento. Encontrando o Movimento, encontrei o valor da minha vida. Valor que percebi claramente no fato de que Deus não me criou para ser empregada doméstica, Sua empregada, mas por um ato de amor, me fez para Ele. Dentro do Movimento, entendi que eu não sou a serva de Deus, mas o objeto do Seu amor e, nesta perspectiva, os outros se tornam a minha alegria. Porque apenas se eu vibrar do amor de Cristo poderia ajudar os outros. Assim, os outros se tornam um presente para mim. Muitos me perguntam ‘por que vocês ainda vão ao Paraguai?’. Porque preciso escrever o meu sim a Cristo com vocês e vocês me foram dados. As coisas são guiadas por Ele e Ele conhece o número dos meus cabelos. (...) É preciso que tiremos nossas máscaras [e aqui ela conta a história de uma mulher humanamente destruída que ela havia tirado da rua e levado para sua casa, e do longo diálogo que teve com ela], para que Cristo se revele para nossa humanidade do jeito como Ele é. E é isto o que acontece na clínica para os doentes, que despojados de tudo pela doença pedem com urgência o próprio Cristo. Somente se arrancarmos as máscaras é que Cristo se revelará a cada um”.
O diálogo continuou por dois dias, compartilhando tudo. Mas, acredito que só isto já seja suficiente por agora, caros amigos. Seja como for, ou uma amizade tem este horizonte ali onde estamos, ou é uma cumplicidade mesmo se usarmos continuamente a palavra “Cristo”.
“Encontramo-nos para escrever o nosso sim a Cristo”. Que bonito!
Boas férias
Padre Aldo

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mt 13,44-46
Naquele tempo, disse Jesus à multidão: "O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola".

Comentário feito por Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897)
carmelita, doutora da Igreja

A esposa [do Cântico] dos Cânticos diz [...] que se levantou do leito para procurar o seu Bem-Amado na cidade, mas em vão; depois de ter saído da cidade, encontrou Aquele que o seu coração amava (cf. Ct 3, 1-4). Jesus não quer que encontremos a Sua adorável presença no repouso: Ele Se esconde. [...] Oh! Que melodia para o meu coração é esse silêncio de Jesus. Ele Se faz pobre para que possamos usar de caridade para com Ele; estende-nos a mão como um mendigo para que, no dia radioso do julgamento, quando Ele aparecer na Sua glória, possamos escutar as Suas doces palavras: "Vinde, benditos de Meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e Me destes de comer, tive sede e Me destes de beber, era peregrino e Me recolhestes, estava nu e Me destes de vestir, adoeci e Me visitastes, estive na prisão e fostes ter comigo" (Mt 25, 34-36). Foi o próprio Jesus que pronunciou estas palavras, é Ele que quer o nosso amor, que o mendiga. Põe-Se, por assim dizer, à nossa mercê, não quer tomar nada sem que Lho demos. [...] Jesus é um tesouro escondido, um bem inestimável que poucas almas sabem encontrar, porque Ele está escondido e o mundo ama aquilo que brilha. Ah! Se Jesus tivesse querido Se mostrar a todas as almas com os Seus dons inefáveis, certamente não haveria nenhuma que O desdenhasse; mas Ele não quer que O amemos pelos Seus dons: Ele próprio é que deve ser a nossa recompensa. Para encontrarmos uma coisa escondida, temos de nos esconder; a nossa vida deve, portanto, ser um mistério; é preciso assemelharmo-nos a Jesus, a Jesus diante de Quem se tapa o rosto (cf. Is 53,3). [...] Jesus ama-te com um amor tão grande que, se o visses, entrarias num êxtase de felicidade [...], mas não o vês e sofres com isso. Muito em breve Jesus "Se levantará para o julgamento, para salvar os humildes da terra" [Sl 76 (75),10].

terça-feira, 26 de julho de 2011

O homem é feito para voar... do contrário, enlouquece

Por Aldo Trento

Enquanto todos estão de férias, sonhando vencer o estresse de uma vida cada vez menos vida, até mesmo o desejo, como dizia alguns meses atrás uma estatística da CENSIS, parece ter se apagado do coração dos italianos, e nos chega, da Noruega, a terrível notícia de dois atentados com uma centena de mortos. Que tapa na cara! Da Noruega? Um dos países mais “perfeitos” do mundo, onde a honestidade e a organização social são apontadas como exemplo. Justo ali foi acontecer um fato que mexeu com todos. O desalento é grande, assim como a dor pelas vítimas e suas famílias, e no entanto não podemos ficar parados nisso, não podemos deixar de lado a necessidade de entender o que foi que ficou travado nesta máquina “perfeita”.
O que foi que travou? O homem. O coração do homem está cada vez mais cansado das contínuas trapaças a que é submetido por um poder dominante que, tendo eliminado Deus (ou tendo-O reduzido a uma ideologia), conseguiu anestesiar o homem fazendo-o acreditar que a sua vida depende do poder mesmo. Mas, esta operação, que Luigi Giussani definia como “efeito Chernobil”, não poderia durar e não durará por muito tempo, porque nunca existirá um poder no mundo capaz de fazer adormecer, até matá-lo, o coração do homem. Mesmo que na Noruega, assim como em todos os lugares do mundo, o poder seja capaz de fazer seus cidadãos acreditarem que, se vivem, é graças a ele, e ainda que estes mesmos cidadãos fiquem gratos a isso. Uma vez anestesiados, esta operação que pretende mudar a genética humana não conseguirá durar muito tempo, porque dentro de cada um de nós existe um Ícaro que não suporta ficar preso numa gaiola que o impeça de voar. 
O homem, o coração do homem, é feito para voar. Por isso, ou esta exigência encontra a sua liberdade ou se transformará numa loucura. Não é possível conter esta sede e fome de felicidade, de amor, de beleza, de verdade, de justiça que constituem o tecido do coração humano. Uma pessoa pode até maldizer estas batidas, mas não poderá deixar de prestar contas disto. E se o poder se esquece desta verdade, por mais perfeitos que sejam seus sistemas, e mesmo se o homem se esquecer, inevitavelmente chegará o momento da loucura e as consequências ficaram visíveis em Oslo. Uma loucura que pode ter como origem mesmo um cristianismo reduzido a ideologia. Quando uma pessoa não encontrou a presença de Cristo como um fato que responde plenamente às exigências da razão e do coração humano, mas uma ideia ou uma inspiração que se vale de Cristo, é inevitável que se censure a razão, o que dá origem a fanatismo e a violência. Quantos horrores se fizeram em nome de Cristo, com os quais Cristo não tem nada que ver! O cristianismo é um acontecimento verificável na sua profunda razoabilidade apenas a partir de dentro de uma realidade vivida inteiramente. Cristo precisa do homem na sua inteireza, e o homem precisa de Cristo.
Então, diante desta tragédia é preciso – para que estes irmãos não tenham morrido em vão – levar a sério o nosso coração com os seus desejos bem expressos pelo Salmo 63: “Ó Deus, Tu és o meu Deus, por Ti madrugo. A minha alma tem sede de Ti, a minha carne deseja-Te com ardor, como terra seca, esgotada e sem água” (Sl 63, 2). Ou, como nos recorda Giuseppe Ungaretti: “Trancado entre coisas mortais (mesmo o céu cheio de estrelas acabará), porque grito Deus?”. O homem é relação com o eterno, é relação com o Infinito, e se o meu coração não encontrar este Tu para o qual é feito, não haverá sistema social, por mais perfeito que seja, que será capaz de impedir que enlouqueça. Se Deus não existe, ou se for reduzido a um ídolo, a ideologia, tudo é possível. Mas, é o coração que diz que Deus existe! É o coração que grita: quero o Infinito. O poder moderno nasce prescindindo de Deus, nasce pretendendo ser Deus, ser ele aquilo de que o coração precisa, e então é inevitável que aconteçam estes tsunamis que nos fazem tremer. Os valores não são suficientes para viver, e ainda menos a pretensão de ser honestos, como há décadas, na Igreja, nos dizemos. É preciso um passo a mais, é preciso encontrar alguém cujo coração é feito, para pegar nas próprias mãos, outra vez, a própria vida. É preciso que reaconteça agora – no meio do verão, enquanto todos estão esparramados, feito frangos depenados, nas praias ou estão, feito corças, caminhando pelas montanhas – o que aconteceu a João e André, a Zaqueu, a Maria Madalena. É preciso o encontro com aquele olhar no qual o Mistério, aquilo de que é feito o coração, se fez carne. É preciso que o olhar de Cristo cruze com o nosso. Aquele olhar que nos torna conscientes de que, antes da loucura, existe o perdão, existe a misericórdia.
Foi isto que me aconteceu quando a ilusão do poder, na sua expressão ideológica, estava mastigando meu cérebro, convencido que eu era de que Cristo não fosse suficiente para livrar o homem da sua loucura, e que continua me acontecendo, enchendo-me de letícia todos os dias. A tragédia que aconteceu na Noruega interpela a responsabilidade que temos, como cristãos, dentro do mundo. A nossa experiência de Cristo é o reacontecer daquilo que aconteceu a João e André, ou é apenas um conjunto de valores, uma moral, incapaz de resistir aos desafios que o mundo moderno nos coloca? Que nos olha nestes dias, observando o nosso rosto, fica fascinado pela beleza de um olhar no qual é evidente a ternura de Cristo? É possível responder ao fanatismo religioso apenas se se mostrar, na vida cotidiana, a razoabilidade da nossa fé. Não existe nada de mais blasfemo do que definir o cristianismo como de esquerda ou de direita. O cristianismo é apenas Cristo, ou seja, o homem. Ser cristão não é acrescentar um adjetivo à palavra “homem”, mas é o nome próprio do homem, diria Giussani, daquele nível da natureza no qual a natureza toma consciência de si.
(do Il Foglio, de 26 de julho de 2011)

* Extraído da Tracce.it, do dia 26 de julho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A consciência moral pressupõe a capacidade de escutar a voz da verdade

Bento XVI

Angelus

Palácio Apostólico de Castel Gandolfo
Domingo, 24 de julho de 2011

Caros irmãos e irmãs!
Hoje, na Liturgia, a Leitura do Antigo Testamento nos apresenta a figura do rei Salomão, filho e sucessor de Davi. É apresentado quando do início de seu reino, quando ainda era muito jovem. Salomão herdou uma tarefa muito difícil, e a responsabilidade que carregava nas suas costas era grande demais para um jovem soberano. Logo no início, ele ofereceu a Deus um sacrifício solene – “mil holocaustos”, diz a Bíblia. Então, o Senhor lhe apareceu numa visão noturna e prometeu conceder-lhe aquilo que havia pedido em sua oração. E aqui se vê a grandeza de espírito de Salomão: ele não pede uma vida longa, nem riquezas, nem a eliminação dos inimigos; diz, ao invés, ao Senhor: “Dai, pois, ao vosso servo um coração sábio, capaz de julgar o vosso povo e discernir entre o bem e o mal” (1Re 3, 9). E o Senhor respondeu à sua oração, de forma que Salomão se tornou célebre em todo o mundo pela sua sabedoria e pelos seus julgamentos retos.
Ele, portanto, rezou a Deus pedindo “um coração sábio”. O que significa esta expressão? Sabemos que, na Bíblia, o “coração” indica não só uma parte do corpo, mas o centro da pessoa, a sede das suas intenções e dos seus juízos. Podemos dizer: a consciência. “Coração sábio”, então, significa uma consciência que sabe escutar, que é sensível à voz da verdade, e por isto é capaz de discernir o bem do mal. No caso de Salomão, o pedido é motivado pela responsabilidade de guiar uma nação, Israel, o povo que Deus escolheu para manifestar ao mundo o seu desígnio de salvação. O rei de Israel, por isso, deve buscar sempre estar em sintonia com Deus, escutando a sua Palavra, para guiar o povo pelos caminhos do Senhor, pelo caminho da justiça e da paz. Mas, o exemplo de Salomão vale para todo homem. Cada um de nós tem uma consciência para ser, em certo sentido, um “rei”, ou seja, para exercer a grande dignidade humana de agir segundo a consciência reta, colocando o bem em ação e evitando o mal. A consciência moral pressupõe a capacidade de escutar a voz da verdade, de ser dóceis às suas indicações. As pessoas chamadas a tarefas de governo naturalmente têm uma responsabilidade a mais e, portanto – como ensina Salomão –, têm ainda mais necessidade da ajuda de Deus. Mas, cada um tem a sua parte na concreta situação em que se encontra. Uma mentalidade errada nos sugere que peçamos a Deus coisas ou condições favoráveis; na realidade, a verdadeira qualidade da nossa vida e da vida social depende da consciência reta de cada um, da capacidade de cada um e de todos reconhecerem o bem, separando-o do mal, e de buscarem pacientemente colocá-lo em ação e, dessa forma, contribuir para a justiça e para a paz. 
Peçamos, para isto, a ajuda da Virgem Maria, Sede de Sabedoria. O seu “coração” é perfeitamente “dócil” à vontade do Senhor. Mesmo sendo uma pessoa humilde e simples, Maria é uma rainha aos olhos de Deus, e como tal nós a veneramos. A Virgem Santa nos ajude também a formarmos, com a graça de Deus, uma consciência sempre aberta à verdade e sensível à justiça, para servir ao Reino de Deus.

Depois do Angelus

Caros irmãos e irmãs,
Uma vez mais, infelizmente, chegam notícias de morte e de violência. Todos experimentamos uma profunda dor pelos graves atos terroristas que aconteceram na última sexta-feira na Noruega. Rezemos pelas vítimas, pelos feridos e por seus entes queridos. Quero repetir a todos o premente apelo a abandonar, para sempre, o caminho do ódio e fugir às lógicas do mal. 

* Extraído do site do Vaticano, do dia 24 de julho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

domingo, 24 de julho de 2011

Segredo e bandalheira

Por Roberto Romano*

O Brasil é o país da corrupção e do segredo, lados da vida nacional que impedem qualquer confiança nas instituições. Os operadores do Estado, sobretudo com o "privilégio de foro", desobedecem às regras basilares da fé pública. O roubo dos recursos coletivos é respondido, entre nós, com perseguição à imprensa, compra de movimentos sociais, sigilo no financiamento de obras. Sem consciência histórica, os nossos políticos e partidos retomam séculos de tirania. A prudência mínima aconselha ligar a censura (o caso do jornal O Estado de S. Paulo é prova) e o segredo que encobre as piores ilicitudes cometidas à sombra do poder. Como disse alguém, "o dia pertence à opinião pública. Nele, os segredos são espancados e os governantes não podem usar o beleguim que realiza o serviço sujo "sob ordem superior". A noite aninha o segredo, covarde razão de Estado".
Os séculos 19 e 20 reuniram censura e hábitos políticos corrompidos, a começar pelo Império de Napoleão I, que espalhou o terror e a guerra com base nas imunidades do Poder Executivo. O fascismo, o nazismo e o stalinismo exibiram o exato contrário da transparência e do respeito à cidadania. Hannah Arendt afirma que a vida totalitária significa a reunião de "sociedades secretas estabelecidas publicamente". Hitler assumiu, para a sua quadrilha, os princípios das sociedades secretas. Ele promulgou algumas regras simples em 1939:
  • Ninguém, sem necessidade de ser informado, deve receber informação;
  • ninguém deve saber mais do que o necessário;
  • e ninguém deve saber algo anteriormente ao necessário.

Segundo Norberto Bobbio, não lido no Congresso Nacional e nos demais palácios de Brasília, "o governo democrático (...) desenvolve a sua própria atividade sob os olhos de todos porque todos os cidadãos devem formar uma opinião livre sobre as decisões tomadas em seu nome. De outro modo, qual razão os levaria periodicamente às urnas e em quais bases poderiam expressar o seu voto de consentimento ou recusa? (...) O poder oculto não transforma a democracia, perverte-a. Não a golpeia com maior ou menor gravidade em um de seus órgãos essenciais, mas a assassina" (O Poder Mascarado).
Quem abre os jornais brasileiros "antigos" percebe o caminho dos que hoje defendem mistérios nas contas públicas e não têm coragem de abrir arquivos ditatoriais. A luta pela transparência, que muitos fingiam conduzir, não passou mesmo de "bravata". O segredo embaralha interesses de grupos privados e assuntos de governo, como no caso Antônio Palocci e no recente episódio no Ministério dos Transportes. Ele ameaça as formas democráticas: nele, os administradores governamentais exasperam aspectos ilegítimos das políticas no setor público. Entramos no paradoxo: o público é definido fora do público e se torna opaco. O segredo, de fato, manifesta-se em todos os coletivos humanos, das igrejas às seitas, dos Estados aos partidos, dos advogados aos juízes, das corporações aos clubes esportivos, da imprensa aos gabinetes da censura, dos laboratórios e bibliotecas universitários às fábricas, dos bancos às obras de caridade. Mas vale repetir a suspeita de Adam Smith: "Como é possível determinar, segundo regras, o ponto exato a partir do qual um delicado sentido de justiça ruma para o escrúpulo fraco e frívolo da consciência? Quando o segredo e a reserva começam a caminhar para a dissimulação?" (Teoria dos Sentimentos Morais, 1759.)
A prudência define a passagem da prática correta do sigilo para uma outra, em que o poder abusivo e tirânico se manifesta. O pensamento ético sempre se opõe ao sigilo, salvo em situações de guerra. Segundo Bentham, a publicidade é "a lei mais apropriada para garantir a confiança pública". O segredo, pensa ele, "é instrumento de conspiração; ele não deve, portanto, ser o sistema de um governo normal. (...) Toda democracia considera desejável a publicidade, seguindo a premissa fundamental de que todas as pessoas deveriam conhecer os eventos e circunstâncias que lhes interessam, visto que esta é a condição sem a qual elas não podem contribuir nas decisões sobre elas mesmas".
Os democratas ou republicanos autênticos devem se acautelar contra o segredo, pois ele se instala na raiz do poder ditatorial e dos golpes de Estado. Não admira que os nossos políticos, herdeiros de costumes definidos nos porões de duas ditaduras, considerem "normais" (com bênçãos de alguns magistrados) tanto o disfarce no manejo das contas públicas quanto a censura à imprensa. Oligarcas manhosos de partidos fisiológicos estão bem no retrato do controle oficial secreto e corrupto. Eles se acostumaram a dobrar a espinha diante dos poderosos porque tal hábito lhes permite corroer as franquias dos "cidadãos comuns". Presos aos favores, vendem a preço vil a dignidade pública na bacia das almas dos Ministérios. Mas cobram caro, das pessoas livres, a crítica aos seus desmandos. A sua técnica de aliciamento usa os laços do "é dando que se recebe", que lhes propicia o controle das informações. Só pode chegar ao público o que eles autorizam. Os coronéis estão mais vivos do que nunca, na pretensa República brasileira.
Já os que, antes de chegar aos postos de autoridade, sempre criticaram os donos do poder, embora queiram exibir uma face polida e bela, escondem (nas paredes escuras dos corredores palacianos) uma repulsiva adesão à bandalheira. A sua figura efetiva? A carantonha de Dorian Gray ou a estátua de Glauco, imagem divina que, por causa das muitas trapaças do tempo, se transformou em bestial. Nada mais desprezível do que o paladino da ética que, por "realismo", age como secretário de práticas contrárias à transparência no manejo dos recursos públicos.

* Texto extraído d'O Estado de São Paulo (versão online), do dia 24 de julho de 2011. Roberto Romano é filósofo, professor de Ética e Filosofia na UNICAMP, é autor, entre outros, de "O caldeirão de Medeia" (Perspectiva)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Comentário ao evangelho do dia

Santa Maria Madalena

1ª Leitura - Ct 3,1-4a
Eis o que diz a noiva: "Em meu leito, durante a noite, busquei o amor de minha vida. Procurei-o, e não o encontrei. Vou levantar-me e percorrer a cidade, procurando pelas ruas e praças, o amor de minha vida. Procurei-o, e não o encontrei. Encontraram-me os guardas que faziam a ronda pela cidade. 'Vistes por ventura o amor de minha vida?'. E logo que passei por eles, encontrei o amor de minha vida".

Evangelho - Jo 20,1-2.11-18
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: "Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram". Maria estava do lado de fora do túmulo, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se e olhou para dentro do túmulo. Viu, então, dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Os anjos perguntaram: "Mulher, por que choras?". Ela respondeu: "Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram". Tendo dito isto, Maria voltou-se para trás e viu Jesus, de pé. Mas não sabia que era Jesus. Jesus perguntou-lhe: "Mulher, por que choras? A quem procuras?". Pensando que era o jardineiro, Maria disse: "Senhor, se foste tu que o levaste dize-me onde o colocaste, e eu o irei buscar". Então Jesus disse: "Maria!". Ela voltou-se e exclamou, em hebraico: "Rabunni" (que quer dizer: Mestre). Jesus disse: "Não me segures. Ainda não subi para junto do Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus". Então Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: "Eu vi o Senhor!", e contou o que Jesus lhe tinha dito. 

Comentário feito por São Gregório Palamas (1296-1359)
monge, bispo e teólogo

Entre as que trouxeram perfumes ao túmulo de Cristo, Maria Madalena é a única de cuja memória celebramos. Cristo tinha expulsado dela sete espíritos (Lc 8,2), para dar lugar às sete operações da graça do Espírito. A sua perseverança em ficar perto do túmulo valeu-lhe a visão dos anjos e a conversa com eles; depois, após ter visto o Senhor, tornou-se Sua apóstola junto dos apóstolos. Instruída e plenamente assegurada pela boca de Deus, vai anunciar-lhes que viu o Senhor e repetir-lhes o que Ele lhe disse. Consideremos, meus irmãos, quanto Maria Madalena cedia em dignidade a Pedro, o chefe dos Apóstolos, a João, o teólogo bem-amado por Cristo, e quanto ela foi, no entanto, mais favorecida que eles. Eles, quando acorreram ao sepulcro, apenas viram as ligaduras e o sudário; mas ela, que permanecera com firme perseverança até ao fim à porta do túmulo, viu, antes dos apóstolos, não só os anjos, mas o próprio Senhor dos Anjos, ressuscitado na carne. Ela ouviu a Sua voz e assim Deus, pela Sua própria palavra, a pôs ao Seu serviço.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Cartas do P.e Aldo 201

Asunción, 13 de julho de 2011.

Caros amigos,
A desproporção entre o meu nada e o Mistério de que é feito o meu coração aumenta na medida em que vejo a minha impotência diante da minha necessidade e a de tantos que, sofrendo, desamparados, batem à minha porta. Que dor, que grito, dentro de mim, dirigido ao Mistério para que mostre o Seu terno rosto diante de três jovens mães internadas com câncer em estado terminal. Maria tem 29 anos e 5 filhos, Josefina tem 32 anos e 6 filhos, Cíntia tem 42 anos e 3 filhos. Três mulheres solitárias, sem maridos, que as abandonaram sozinhas com os 14 filhos. Enquanto eu celebrava a missa, achava que Josefina estava morrendo. Um câncer no pulmão parecia sufocá-la. Eu via a sua respiração difícil e olhava para a hóstia entre as minhas mãos. Sentia toda a sua dor e pedia a Jesus para olhá-la nos olhos, e pedia para dividir com ela a sua dor. Num certo momento, me aproximei dela e a acariciei e, depois de lhe ter dado a unção dos enfermos, logo depois de comungar, repousou. Quem sou eu, Senhor? Perguntava Santa Catarina. Nada. E quem és Tu? Tudo.
Ver a cada dia quem é o humano é dramático, e no entanto aquele homem que, num certo momento, para de viver é Cristo e, olhando para ele assim, não é possível não se ajoelhar. Porque, se aquilo de mais caro que você tem é Cristo, é verdade que aquele homem é aquilo de mais caro que você tem naquele momento. E ele é aquilo de mais caro que você tem porque ele, como eu, é aquilo de mais caro que existe para Cristo. E eu vi isto pela enésima vez neste sábado à noite, quando uma família, para se desfazer de uma parente idoso, com uma perna cheia de vermes numa grande ferida, passando de uma mentira para outra para nos enganar, conseguiu largar este pobre homem na frente da Clínica. Tinham nos procurado, enganando-nos, com o velhinho na carroceria aberta da camionete, enquanto eles estavam bem protegidos do frio na cabine. O motivo? Fede.
Nós o pegamos e eu vi naquele rosto triste a Presença do Mistério e, sem esperar nenhum médico e muito menos a assistente social (vocês sabem bem como, muito frequentemente, estes profissionais, antes de qualquer coisa, olham para a ficha clínica: se tem um diagnóstico e tudo preenchido corretamente). Jesus, que era um médico, caminhando pelas estradas e encontrando milhares de pacientes, olhava para quê? Para o diagnóstico? Para a ficha clínica? Ou escutava a dor dessas pessoas, olhava para sua fé e as curava imediatamente? Quanto a isto, sou um grosso: mando todos à merda muito facilmente. Eu olhava para ele e pensava: Deus se serviu também do engano dos parentes – que, há um tempo, o haviam abandonado num galinheiro – para mostrar a eles, para me mostrar que Ele não havia se esquecido daquele homem, daquele pobrezinho cuja realeza é objetiva, porque é relação com o Mistério.
Eu o beijei, levei para a Clínica. Os enfermeiros o transformaram. Porém, não havia leito livre e já era noite. Então, o Espírito Santo, sabendo que sou fraco de memória, me lembrou que, na Capela onde o Santíssimo fica exposto, onde já tem um mendigo doente, ainda havia um lugar. Assim, nós o levamos para ali e acho que Jesus gostou disso, porque agora Ele tem dois coroinhas cuidando dEle.
Enquanto isso, os parentes fugiram. Outra vez vi acontecer aquilo que o Salmo de Laudes do sábado diz: “pode uma mãe abandonar o seu filho?”, “Porém, eu não te abandonarei nunca”.
Experimentei isto na segunda-feira, quando uma adolescente que matou o seu companheiro quis renunciar ao seu filho, nascido aos 7 meses e que, agora, tem já 3 meses de vida. Ela vive na nossa casa de acolhida para meninas e adolescentes grávidas. Tive que ir ao juizado de menores com ela e com a advogada. Que dor ouvir a menina dizer ao juiz que me cedia o seu filho para poder voltar para a prisão de menores. Falava com uma frieza terrível e, comovido, eu olhava para o bebê entre os meus braços. O menino era como um lixo, e era maltratado por ela.
Terminada a aventura da adoção, voltamos para casa. Agora, Deus me fez, pela enésima vez, pai deste pequeno. E ela, esta pobre garota, voltará para a prisão para terminar a pena que poderia ter sido descontada aqui, conosco, na companhia do seu filho. Padre Paolino, depois do que aconteceu, me disse, pensando no que perde e ganha: “Nem mesmo a beleza sem Cristo consegue mover o coração de uma pessoa”. Você pode oferecer a ela o lugar mais bonito do mundo, mais limpo, mas sem o encontro com Cristo até mesmo uma campo de concentração é mais atraente.
Finalmente, uma notícia interessante no dia de São Bento: apresentou-se um jovem de 24 anos, rico, deserdado pela família e expulso de casa porque queria se tornar padre. Graduado em filosofia e com outros títulos. Chegou aqui graças ao semanário que publicamos e que ele lê (como é importante ter um espaço nos jornais laicos com um semanário “leigo”, ou seja, católico). Quer ser sacerdote porque está fascinado com a experiência que vibra no jornalzinho que publicamos.
Olhei para ele com muito distanciamento, mesmo porque, nestes anos, muitos chegaram aqui com este desejo, mas depois, diante da minha proposta, não voltaram mais. Eu o escutei e, em seguida, lhe perguntei: “Você gosta das garotas?”. Ele olhou para mim surpreso. E eu lhe disse: “Nesses tempos, esta é uma pergunta importante porque a condição, como dizia Giussani, para ser padre é ser homem”. “Padre, é claro que sim”, ele me respondeu. Bem, então eu lhe propus: “Por três meses... não apenas porque você é formado em filosofia e gosta de estudar e de cantar (ele cantava na ópera de Asunción), falar italiano etc. (um monte de dons que eu nunca tive, já que eu era um burro na escola), mas para que você possa aprender a prestar contas com o ‘morder a pedra’, como dizia o frei a Miguel Mañara. Hoje, você virá conosco – Padre Paolino e eu – à fazenda onde estão os doentes de AIDS, recusados por todos. Por três meses, você vai viver com eles: vai dormir num de seus quartos, numa beliche, comerá com eles, trabalhará a terra e, obviamente, terá o espaço necessário para a oração, a leitura, o silêncio etc. Depois, terminados os três meses, vai ficar com os ‘ex-mendigo’ da casa de São Joaquim e Sant’Anna, para dar banho e limpar estes filhos prediletos de Deus, vivendo com eles. E, então, finalmente, mais alguns meses na Clínica... Amigo, para ser padre, é preciso ter culhões, porque, de outra forma, amanhã, bastará que uma garota olhe para você, para que você desapareça, ou então você acabará vivendo no orgulho, nas lamentações e no burguesismo de tantos padres novos e nem tão novos assim que eu conheço. ‘É preciso sofrer para que a verdade não se cristalize numa doutrina’, dizia Mounier”. Ele olhou para mim e, com um sorriso, me disse: “Padre, obrigado. É isto que eu quero, aceito o desafio”. Subimos no carro, fomos para a fazenda e, desde o dia de São Bento, com o seu “ora et labora”, ele está ali, dando início a uma aventura que, se Deus quiser – quem sabe – será aquele que me substituirá, porque a vida passa e eu sempre pedi ao Senhor um substituto, mas que fosse alguém com culhões e que ame Cristo e os pobres muito mais do que um apaixonado ama a mulher com quem se casou, muito mais do que um apaixonado ama a sua namorada. 
Rezem, portanto, amigos, para que, se Jesus quiser, seja, para esse rapaz, de verdade, a possibilidade de viver a graça que me foi dada para viver. A regra é sempre a mesma: “calos nos joelhos, calos nas mãos, calos na mente”. Padres, ou seja, homens viris!
Ciao,
Padre Aldo

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Nenhuma teoria (e laboratório) nos faz nascer outra vez...


Por Salvatore Abbruzzese

Para o homem contemporâneo, ou seja, aquele que frui – pelo menos potencialmente – do capital informativo e cultural que caracteriza a atual sociedade global, a lista das escolhas possíveis só se tem alongado, estendendo-se dia após dia para além de todo confim tradicionalmente herdado. E possível escolher aquilo que até ontem parecia imutável, pensando que, assim, seja possível, razoavelmente, modificar não apenas as condições materiais de vida e os modelos de expressão, mas também as próprias características físicas e o mesmo o próprio gênero.
O problema encontra-se, portanto, aberto, mas as suas raízes não são, de fato, inéditas. A extensão ilimitada das oportunidades e o consequente aumento das potencialidades de escolha do indivíduo não datam de hoje, mas estão no centro da modernidade como projeto cultural. Nos fatos é a modernidade na qual nascemos que alimenta constantemente a esperança de uma extensão crescente e potencialmente ilimitada das opções, ou seja, das escolhas à disposição. Estender ao máximo as ocasiões de escolha – como recordava Dahrendorf, em 1979 – é um objetivo que se situa no coração do projeto moderno, e constitui o seu verdadeiro motor motivacional, o que alimenta incessantemente sua dimensão projetual. Para um mundo fundado sobre a liberdade, esta última tem tanto sentido quanto mais o sujeito puder escolher entre uma série crescente e potencialmente ilimitada de oportunidades de vida.
O dado inédito, que é alimentado pelos recentes desenvolvimentos da ciência contemporânea, constitui-se da possibilidade de deixar entrar na rede das opções à disposição também os dados da bagagem natural que, até ontem, eram entendidos como o mais incontroverso dos dados de fato. Uma tal possibilidade de escolha também das características vinculadas à própria natureza psíquica e física não tem apenas problemas no plano ético e político, mas transforma também completamente os termos mesmos do confronto entre modernidade e tradição.
A primeira, de fato, vê transitar a própria dimensão projetual do plano social e político para o das características físicas e psíquicas. Tendo emergido a partir da afirmação de um projeto de emancipação no plano social, a sociedade moderna declina, apresentando um programa de transformação genética. Nascida como direito coletivo à palavra, a modernidade vê o seu declínio no direito do sujeito à redefinição de si mesmo. Estabelecida no laboratório político, descobre a resolução no acomodar-se no laboratório genético.
Mas, também a tradição, de modo quase automático, muda decididamente o seu perfil, passando da subscrição de um código ético e normativo já dado, para a definição de um novo modelo de realização. O sujeito, mais do que tender à multiplicação das oportunidades, se volta aqui para a recuperação e para  a reconstrução dos vínculos e das relações significativas. A dinâmica da tradição se desenrola passando da simples subscrição do statu quo para a busca dos pertencimentos vinculantes. Contra a reversibilidade das escolhas propostas pela modernidade, a tradição replica com a irreversibilidade das relações significativas. Não se trata, aqui, apenas das escolhas do vínculo paterno e materno que se revelam, uma vez efetuadas, completamente não modificáveis, mas todas as escolhas afetivas e vocacionais revelam a mesma dinâmica de irreversibilidade: prova disso é a ferida que continua aberta para sempre, todas as vezes em que tais “escolhas de vínculo” são anuladas por uma renúncia pessoal. Não há escolha de vida verdadeiramente autêntica que não envolva a radicalidade do ser e, nesse mesmo caminho, se preste a ser pensada e vivida como implicitamente irreversível.
O deslocamento da modernidade do plano das reivindicações sociais para o da autodeterminação pessoal provoca, assim, uma transformação radical da forma como enfrenta a tradição.
No passado, o confronto entre tradição e modernidade se realizava ao redor da questão ética socialmente dada e juridicamente codificada. A distinção se desenvolvia entre duas leituras da realidade: a primeira, que tendia a uma adesão incondicional à autoridade do “eterno ontem” que, dessa forma, se constitui na premissa legitimadora, a segunda dirigida à busca também incondicional da mudança e à consequente exaltação do novo entendido como senso normativo da história.
Na presente linha de separação entre modernidade e tradição, e portanto o elemento estrutural de diferenciação, desenvolve-se, pelo contrário, na lacuna crescente entre quem persegue um extensão ilimitada das escolhas à disposição e quem, por outro lado, tem como objetivo também uma busca estendida de relações significativas. 
Desenvolve-se assim uma diferenciação cada vez mais clara entre duas antropologias distintas: uma, própria da modernidade, que vê o sujeito tendido a se libertar de todo vínculo e a se voltar para uma busca de uma cada vez maior e mais completa afirmação de si mesmo; a outra, própria da tradição, onde o sujeito, pelo contrário, está sempre mais atento a uma plena e bem definida afirmação das relações significativas, a partir das quais ele se situa e se define. A uma emancipação do sujeito, consequente ao reconhecimento do “direito aos direitos” e, portanto, tendido à autodeterminação radical daquilo que escolhe ser, se contrapõe uma realização da pessoa voltada ao reconhecimento dos vínculos e das redes de relações às quais escolhe se ligar. Na primeira, o sujeito coroa o próprio sucesso na medida em que tem acesso a uma rede cada vez mais vasta de opções, na segunda ele vê a própria realização na localização e no reconhecimento dos vínculos que o definem. Nestes vínculos, o sujeito descobre seu próprio rosto, aquele que, de fato, ele não quer modificar e para o qual toda potencial transformação genética é simples loucura.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 14 de julho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Beatos Louis Martin e Zélie Guérin

12 de julho


Beatos Louis e Zélie,
rogai por nós!

Os pais de Santa Terezinha do Menino Jesus foram beatificados pelo Papa Bento XVI no dia 19 de outubro de 2006, numa cerimônia presidida pelo Cardeal José Saraiva Martins.

"Entre as vocações para as quais os homens são chamados pela Providência, o casameno é uma das mais nobres e das mais elevadas. Louis e Zélie compreenderam que podiam se santificar não apesar do casamento, mas através, no e pelo casamento. (...) O amor conjugal de Louis e Zélie é um puro reflexo do amor de Cristo por sua Igreja; é também um puro reflexo do amor com o qual a Igreja ama seu Esposo: o Cristo. O Pai nos escolheu antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irreprimíveis sob Seu olhar, no amor. (...) Qual é o segredo do sucesso de sua vida cristã? (...) Eles amavam a vontade do Senhor. Eles se conformaram à vontade do Senhor, sem recriminações. Para estarem seguros de caminhar na verdadeira vontade do Senhor, eles se voltaram para a Igreja, especialista em humanidade, colocando todos os aspectos de suas vidas em harmonia com os ensinamentos da Igreja. Louis e Zélie são um dom para os esposos de todas as idades, por causa da estima, do respeito e da harmonia com os quais eles se amaram durante 19 anos. Zélie escrevia a Louis: 'Eu não poderia viver sem ti, meu querido Louis'. E ele respondia: 'Sou teu marido e amigo que te ama para sempre'. Eles viveram as promessas do casamento: o compromisso de fidelidade, a indissolubilidade do vínculo, a fecundidade do amor, nas alegrias e nas provações, na saúde e na doença. Louis e Zélie são um dom para os pais. Ministros do amor e da vida, eles geraram numerosos filhos para o Senhor..." (Dom José Cardeal Saraiva Martins).

segunda-feira, 11 de julho de 2011

São Bento

11 de julho

*

São Bento
rogai por nós!

Crux Sacra Sit Mihi Lux
Non Draco Sit Mihi Dux
Vade Retro Satana
Nunquam Suade Mihi Vana
Sunt Mala Quae Libas
Ipse Venena Bibas

(A Cruz sagrada seja minha Luz
Não seja o Dragão meu guia
Retira-te Satanas
Nunca me aconselhes coisas vãs
É mal o que tu me ofereces
Bebe tu mesmo do teu veneno)

 * São Bento (azulejo), de Claudio Pastro

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Cartas do P.e Aldo 200

Asunción, 6 de julho de 2011.

Caros amigos,
É impressionante como a Presença do Mistério se impõe na minha vida, na medida em que olho e vivo a realidade como sinal! Não existe coisa, circunstância, fato que não seja a evidência da desproporção entre o meu nada e o Mistério que a realidade me revela continuamente. Viver suspensos na certeza de sermos queridos agora, agora que posso estar mal ou estar bem, estar emocionalmente no alto ou embaixo, ser simpático ou não. Ser querido por um Outro, assim como sou, e olhar com ironia para os meus limites. Dar-me conta e me surpreender, a cada dia, com o imprevisto que desfaz os meus projetos, as minhas programações, fazendo-me ver como é a realidade de fato e descobrir como a Providência Divina me faz vibrar pelo cêntuplo evidente em cada instante da vida. Um cêntuplo que não apenas é um a mais de vida, de humanidade, mas também é um a mais econômico e também de ação.
Hoje, por exemplo, chegaram-me dois emails: um de Barcelona, e outro de Reggio Emilia.
O primeiro me comunicava a feliz notícia de que Jordi (o arquiteto-chefe da “Sagrada Família” de Barcelona) e  Sotoo – que alguns dias faz, num fim de semana, havia se retirado para rezar, meditar, estudar o projeto, na belíssima Basílica de Nossa Senhora de Montserrat – terminaram tanto os cálculos estruturais, como odesejo do conjunto de imagens esculpidas em pedra e que estarão na fachada da nova clínica. Trata-se de comentar, na pedra, a frase de São Paulo aos Romanos: “A natureza mesma geme as dores de parto, esperando a ressurreição do Filho de Deus”. Assim, a nova clínica terá como base a Capela toda incrustada em madeira revestida com o “pão de ouro” do Santíssimo Sacramento e, no ponto mais alto, a imagem de Cristo saindo da terra, como num parto, traz consigo (“arrastra”: em espanhol é mais profundo) toda a realidade na plenitude da vida, no paraíso que será a realidade na sua perfeição máxima. Por isso, em breve o braço direito de Sotoo, Manolo, virá para dar início à obra.
Hoje, Francisco morreu de AIDS, um jovem abandonado por todos, mas que morreu entre os nossos braços. Tudo isto só é possível porque, quando o eu é agarrado pelo Mistério, gera uma cadeia de relações, como me escreve de modo comovente esta minha amiga de Reggio Emilia:
Caro Padre Aldo,
Quando as suas cartas nos chegam, fico me perguntando como é que chegam exatamente quando precisamos! Obrigada.
Assim, queríamos que você soubesse que, entre as tantas, aquela do “testamento da viúva” (de 27 de março de 2011) nos comoveu tanto que nos sentimos cobrados e organizamos uma venda extraordinária de “cappelletti” (você sabe, somos de Reggio Emilia, e aqui, eles são bem quistos!) feitos em casa. Apresentamos a proposta aos nossos amigos e algumas mulheres nos encontramos (de todas as idades!) para fazê-los. Aquilo que foi arrecado foi enviado para você nesses dias, num depósito de 500 euros.
Não é muito, uma gota no mar de necessidade, mas nasce de uma comoção depois de outro, porque foi assim aquilo que vimos brotar deste nosso pequeno “movimento”, nascido de forma impetuosa, porque ficamos tocados pela simplicidade da pertença daquela mulher que, tendo encontrado “a verdade da sua vida”, quis deixar tudo o que tinha.
Obrigada! Em anexo vão algumas fotos do nosso trabalho e, abraçando-o, pedimos-lhe que se lembre de nós na sua oração, junto de todos aqueles que trabalharam conosco.
Maura Bezzecchi
Maura Caprari
P.S.: Da próxima vez que vier à Itália, será nosso convidado para comer “cappelletti” conosco.
Como podem ver, não se trata de dotes particulares ou de capacidades, mas tão somente de deixar-se tomar pelo Mistério que, numa das leituras da semana passada, na Missa, dizia, através de Moisés, ao povo judeu: “Tu és a minha propriedade”, “eu me apaixonei por ti, por ti que és o menor de todos os povos”.
Amigos, espero que vocês vivam juntos este tempo, comovidos, rezando, como dizia a oração da coleta do último domingo, “Deus, que por meio da humilhação do Teu Filho, levantou a humanidade decaída, concedei-nos a VERDADEIRA ALEGRIA, para que, libertos da escravidão do pecado, possamos atingir a plenitude da felicidade” (em espanhol, “a felicidade sem fim”), como que dizendo de plenitude em plenitude.
Padre Aldo.

Cartas do P.e Aldo 199

Asunción, 30 de junho de 2011.

Caros amigos,
Nestes dias, tive a graça de completar 40 anos de sacerdócio. Uma vida na qual é evidente o manifestar-se de que se realiza uma grande certeza: “Antes que te formasses no seio de tua mãe, eu pronunciei o teu nome”, “amei-te de um amor eterno, tendo piedade do teu nada”.
Por isto, desejei que todos os amigos, unidos a mim nestes dias, cantassem “cantarei eternamente a Sua Misericórdia”, porque esta experiência de Misericórdia que encontrou o seu ápice naquele abraço do Gius está na origem, não apenas do renascimento do meu eu, mas também na origem daquilo que a Infinita Misericórdia de Deus está realizando em meio a este meu povo. Agradeço a todos que, com a oração e também com a ajuda econômica em favor dos meus filhos – que crescem cada vez mais, apesar de serem vítimas de tanta violência- me acompanham.
Obrigado e boas férias... mas não se esqueçam de quem precisa até mesmo de apenas um pedaço de pão. “De que vale a vida se não for para ser dada?”, nos lembra Claudel.
E isto é a minha grande alegria... que tem como origem “eu sou Tu que me fazes”, o viver com o olhar fixo no Mistério.
Com afeto,
Padre Aldo

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Artistas, fazei resplandecer a verdade nas vossas obras

Inauguração da Mostra
“O esplendor da verdade, a beleza da caridade
Homenagem  dos artistas a Bento XVI pelos seus 60 anos de sacerdócio

Discurso do Santo Padre Bento XVI

Átrio da Sala Paulo VI
Segunda-feira, 4 de julho de 2011

Senhores Cardeais,
Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Caros amigos,
Para mim, é uma grande alegria encontrar-vos e receber a vossa criativa e multiforme homenagem por ocasião do 60º aniversário da minha Ordenação Sacerdotal. Sou sinceramente grato a vós pela vossa proximidade nesta ocasião tão significativa e importante para mim. Na Celebração Eucarística do dia 29 de junho passado, Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, agradeci ao Senhor pelo dom da vocação sacerdotal. Hoje, agradeço-vos pela amizade e pela gentileza que me manifestais. Saúdo cordialmente o Cardeal Angelo Sodano, decano do Sacro Collegio, e o Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Pontifício Conselho da Cultura, que, junto a seus colaboradores, organizou esta manifestação artística particular, e agradeço também por suas palavras corteses a mim dirigidas. Dirijo também a minha saudação a todos os presentes, de modo particular a vós, caros artistas, que acolhestes o convite para apresentar uma criação vossa nesta Mostra.
O presente encontro, no qual tenho a alegria e a curiosidade de admirar as vossas obras, quer ser uma nova etapa daquele percurso de amizade e de diálogo que empreendemos no dia 21 de novembro de 2009, na Capela Sistina, um evento que ainda trago impresso no espírito. A Igreja e os artistas voltam a se encontrar, a conversar, a sustentar a necessidade de um colóquio que quer e deve se tornar cada vez mais intenso e articulado, também para oferecer à cultura, ou melhor às culturas do nosso tempo, um exemplo eloquente de diálogo fecundo e eficaz, orientado para tornar este nosso mundo mais humano e mais belo. Hoje, vós me apresentais o fruto da vossa criatividade, da vossa reflexão, do vosso talento, expressões dos vários âmbitos artísticos que aqui representais: pintura, escultura, arquitetura, ourivesaria, fotografia, cinema, música, literatura e poesia. Antes de admirá-las convosco, permiti-me dedicar algum momento para refletir convosco acerca do sugestivo título desta Exposição: “O esplendor da verdade, a beleza da caridade”. Na Homilia da Missa pro eligendo pontifice, comentando a bela expressão de São Paulo da Carta aos Efésios “veritatem facientes in caritate” (Ef 4, 15) – eu definia o “fazer a verdade na caridade” como uma fórmula fundamental da existência cristã. E acrescentava: “Em Cristo, verdade e caridade coincidem. Na medida em que nos aproximamos de Cristo, também na nossa vida, verdade e caridade se fundem. A caridade sem verdade seria cega; a verdade sem caridade seria como ‘um címbalo que retine’ (1Cor 13, 1)”. É próprio da união, ou melhor, da sinfonia, da perfeita harmonia de verdade e caridade, que emana a autêntica beleza, capaz de suscitar admiração, maravilhamento e alegria verdadeira no coração dos homens. O mundo no qual vivemos precisa que a verdade resplandeça e não seja ofuscada pela mentira ou pela banalidade; precisa que a caridade inflame e não seja oprimida pelo orgulho e pelo egoísmo. Precisamos que a beleza da verdade e da caridade toque o íntimo do nosso coração e o torne mais humano.
Caros amigos, gostaria de renovar a vós e a todos os artistas um apelo amigável e apaixonado: nunca separai a criatividade artística da verdade e da caridade, nunca buscai a beleza longe da verdade e da caridade, mas com a riqueza da vossa genialidade, do vosso ímpeto criativo, sejais sempre, com coragem, buscadores da verdade e testemunhas da caridade; fazei resplandecer a verdade nas vossas obras e fazei que a sua beleza suscite no olhar e no coração de quem as admira o desejo e a necessidade de tornar bela e verdadeira a existência, cada existência, enriquecendo-a com aquele tesouro que nunca diminui, que faz da vida uma obra de arte e de cada homem um extraordinário artista: a caridade, o amor. O Espírito Santo, artífice de toda beleza que há no mundo, vos ilumine sempre e vos guie em direção à Beleza última e definitiva, aquela que aquece a nossa mente e o nosso coração e que esperamos poder contemplar, um dia, em todo o seu esplendor.
Uma vez mais, obrigado pela vossa amizade, pela vossa presença e porque levais ao mundo um raio desta Beleza, que é Deus. De coração, transmito a todos vós, aos vossos entes queridos e a todo o mundo da arte, a minha Bênção Apostólica.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 4 de julho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

domingo, 3 de julho de 2011

Comentário ao evangelho do dia

São Pedro e São Paulo

1ª Leitura - At 12,1-11
Naqueles dias, o rei Herodes prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João. E, vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender a Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos. Depois de prender Pedro, Herodes colocou-o na prisão, guardado por quatro grupos de soldados, com quatro soldados cada um. Herodes tinha a intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa. Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele. Herodes estava para apresentá-lo. Naquela mesma noite, Pedro dormia entre dois soldados, preso com duas correntes; e os guardas vigiavam a porta da prisão. Eis que apareceu o anjo do Senhor e uma luz iluminou a cela. O anjo tocou o ombro de Pedro, acordou-o e disse: "Levanta-te depressa!". As corrrentes caíram-lhe das mãos. O anjo continuou: "Coloca o cinto e calça tuas sandálias!". Pedro obedeceu e o anjo lhe disse: "Põe tua capa e vem comigo!". Pedro acompanhou-o, e não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão. Depois de passarem pela primeira e segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade. O portão abriu-se sozinho. Eles saíram, caminharam por uma rua e logo depois o anjo o deixou. Então Pedro caiu em si e disse: "Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava!".

2ª Leitura - 2Tm 4,6-8.17-18
Caríssimo, quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos que esperam com amor a sua manifestação gloriosa. Mas o Senhor esteve a meu lado e me deu forças; ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e eu fui libertado da boca do leão. O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste. A ele a glória, pelos séculos dos séculos! Amém.

Evangelho - Mt 16,13-19
Naquele tempo, Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: "Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?". Eles responderam: "Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; Outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas". Então Jesus lhes perguntou: "E vós, quem dizeis que eu sou?". Simão Pedro respondeu: "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo". Respondendo, Jesus lhe disse: "Feliz es tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus".

Comentário feito por São Bernardo (1091-1153)
monge cisterciense e doutor da Igreja

É com razão, irmãos, que a Igreja aplica aos santos apóstolos Pedro e Paulo estas palavras do Sábio: "Aqueles foram homens de misericórdia, cujas obras de piedade não foram esquecidas. Na sua descendência permanecem os seus bens, e a sua herança passa à sua posteridade" (Eclo 44, 10-11). Sim, podemos, com propriedade, chamar-lhes homens de misericórdia; porque eles obtiveram misericórdia para eles próprios, porque estão cheios de misericórdia, e porque foi na Sua misericórdia que Deus no-los deu. Vede, com efeito, que misericórdia eles obtiveram. Se interrogardes o apóstolo São Paulo sobre este assunto [...], ele vos dirá estas palavras acerca de si mesmo: "Antes fora blasfemo, perseguidor e violento. Mas alcancei misericórdia, porque agi por ignorância, sem ter fé ainda" (1 Tm 1,13). De fato, não sabemos nós o mal que ele fez aos cristãos de Jerusalém [...] e até aos de toda a Judeia? [...] Quanto ao bem-aventurado Pedro, tenho outra coisa a dizer-vos, e coisa sublime quanto única. Com efeito, se Paulo pecou, fê-lo sem o saber, porque não tinha fé; Pedro, pelo contrário, tinha os olhos bem abertos no momento da queda (Mt 26,69ss). Mas "onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Rm 5,20). [...] Se São Pedro pôde elevar-se a um tal grau de santidade depois de uma queda tão pesada, quem poderá desesperar a partir de então, por pouco que persevere em sair de seus pecados? Atentai no que diz o Evangelho: "E Pedro [...], saindo para fora, chorou amargamente" (v. 75) [...]. Ouvistes que misericórdia obtiveram os apóstolos, e daí em diante ninguém dentre vós será esmagado pelas faltas passadas mais do que for preciso [...]. Se pecaste, não pecou Paulo ainda mais? Se caíste, não caiu Pedro de maneira bem mais grave do que tu? Ora, um e outro, pela penitência, não só obtiveram a salvação como se tornaram grandes santos, e tornaram-se mesmo ministros da salvação, mestres da santidade. Faz portanto o mesmo, irmão, pois é por ti que a Escritura lhes chama "homens de misericórdia".