quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Feridos pela beleza, subamos a Deus...


Bento XVI

Audiência Geral

Praça da Liberdade, Castel Gandolfo
Quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Neste período, chamei a atenção várias vezes sobre a necessidade de todo cristão encontrar tempo para Deus, para a oração, em meio às tantas ocupações dos nossos dias. O Senhor mesmo nos oferece muitas ocasiões para que nos recordemos dEle. Hoje, gostaria de me dedicar brevemente sobre um destes canais que podem nos conduzir a Deus e que pode também ser de ajuda no encontro com Ele: é o caminho das expressões artísticas, parte daquela “via pulchritudinis” – “caminho da beleza” – de que falei algumas vezes e que o homem de hoje deveria recuperar no seu significado mais profundo.
Talvez já vos tenha acontecido algumas vezes, diante de uma escultura, de um quadro, de alguns versos de uma poesia, ou de um trecho de uma música, experimentar uma emoção íntima, um sentido de alegria, ou seja, perceber claramente que, diante de vós, não havia somente matéria, um pedaço de mármore ou de bronze, uma tela pintada, um conjunto de letras ou um acúmulo de sons, mas algo de maior, algo que “fala”, capaz de tocar o coração, de comunicar uma mensagem, de elevar o espírito. Uma obra de arte é fruto da capacidade criativa do ser humano, que se interroga diante da realidade visível, tenta descobrir o seu sentido profundo e comunicá-lo através da linguagem das formas, das cores, dos sons. A arte é capaz de exprimir e tornar visível a necessidade do homem de ir além daquilo que se vê, manifesta a sede e a busca do infinito. Mais, é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e uma verdade que vão além do cotidiano. E uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, levando-nos para o alto. 
Mas, há expressões artísticas que são verdadeiras estradas para Deus, a Beleza suprema, ou melhor, são uma ajuda para crescer no relacionamento com Ele, na oração. Trata-se das obras que nascem da fé e que expressam a fé. Um exemplo pode ser visto quando visitamos uma catedral gótica: somos levados pelas linhas verticais que nos amparam rumo ao céu e atraem para o alto o nosso olhar e o nosso espírito, enquanto que, ao mesmo tempo, nos sentimos pequenos, mesmo que desejosos de plenitude... Ou quando entramos numa igreja românica: somos convidados, de modo espontâneo, ao recolhimento e à oração. Percebemos que, nestes esplêndidos edifícios, a fé de gerações está como que incluída. Ou então, quando escutamos um trecho de música sacra que faz vibrar as cordas do nosso coração, o nosso espírito é como que dilatado e ajudado a se dirigir a Deus. Vem-me à mente um concerto de músicas de Johann Sebastian Bach, em Mônaco da Baviera, regido por Leonard Bernstein. Ao final do último trecho, uma das Cantatas, senti, não por raciocínio, mas no profundo do coração, que aquilo que eu havia escutado me havia transmitido verdade, verdade do sumo compositor, e me impulsionava a agradecer a Deus. Ao meu lado estava o bispo luterano de Mônaco e, espontaneamente, lhe disse: “Ouvindo isto se entende: é verdade; é verdadeira a fé assim forte, e a beleza que exprime irresistivelmente a presença da verdade de Deus”. Mas, quantas vezes quadros ou afrescos, frutos da fé do artista, nas suas formas, nas suas cores, na sua luz, nos impulsionam a dirigir o pensamento a Deus e fazem crescer em nós o desejo de chegar à fonte de toda beleza! Continua sendo profundamente verdadeiro aquilo que escreveu um grande artista – Marc Chagall: os pintores, por séculos, mergulharam seus pincéis naquele alfabeto colorido que é a Bíblia. Quantas vezes, então, as expressões artísticas podem ser ocasiões para nos lembrarmos de Deus, para ajudar a nossa oração ou mesmo a conversão do nosso coração! Paul Claudel, famoso poeta, dramaturgo e diplomata francês, na Basílica de Notre Dame de Paris, em 1886, exatamente escutando o canto do Magnificat durante a Missa de Natal, percebeu a presença de Deus. Não havia entrado na igreja por motivos de fé, tinha entrado para procurar argumentos contra os cristãos, e, pelo contrário, a graça de Deus agiu no se coração.
Caros amigos, convido-vos a redescobrir a importância deste caminho também para a nossa oração, para nossa relação viva com Deus. As cidades e os países do mundo inteiro guardam tesouros de arte que expressam a fé e nos remetem ao relacionamento com Deus. A visita aos lugares de arte, então, não seja apenas ocasião de enriquecimento cultural – isto também – mas sobretudo possa se tornar um momento de graça, de estímulo para reforçar o nosso vínculo e o nosso diálogo com o Senhor, para parar e contemplar – na passagem da realidade exterior simples para  a realidade mais profunda que exprime – o raio de beleza que nos toca, que quase nos “fere” no nosso íntimo e nos convida a subir em direção a Deus. Termino com uma oração de um Salmo – o Salmo 27: “Uma só coisa peço ao Senhor e a peço incessantemente: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para admirar aí a beleza do Senhor e contemplar o seu santuário” (Sl 26, 4). Esperamos que o Senhor nos ajude a contemplar a Sua beleza, seja na natureza, seja nas obras de arte, de forma que sejamos tocados pela luz do Seu rosto, para que também nós sejamos luz para o nosso próximo. Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 31 de agosto de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Comentário ao evangelho do dia

Martírio de São João Batista

1ª Leitura - Jr 1,17-19
Naqueles dias a Palavra do Senhor foi-me dirigida: "Vamos, põe a roupa e o cinto, levanta-te e comunica-lhes tudo que eu te mandar dizer: não tenhas medo, senão, eu te farei tremer na presença deles. Com efeito, eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze contra todo o mundo, frente aos reis de Judá e seus príncipes, aos sacerdotes e ao povo da terra; eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para defender-te", diz o Senhor.

Evangelho - Mc 6,17-29
Naquele tempo, Herodes tinha mandado prender João, e colocá-lo acorrentado na prisão. Fez isso por causa de Herodíades, mulher do seu irmão Filipe, com quem se tinha casado. João dizia a Herodes: "Não te é permitido ficar com a mulher do teu irmão". Por isso Herodíades o odiava e queria matá-lo, mas não podia. Com efeito, Herodes tinha medo de João, pois sabia que ele era justo e santo, e por isso o protegia. Gostava de ouvi-lo, embora ficasse embaraçado quando o escutava. Finalmente, chegou o dia oportuno. Era o aniversário de Herodes, e ele fez um grande banquete para os grandes da corte, os oficiais e os cidadãos importantes da Galileia. A filha de Herodíades entrou e dançou, agradando a Herodes e seus convidados. Então o rei disse à moça: "Pede-me o que quiseres e eu to darei". E lhe jurou dizendo: "Eu te darei qualquer coisa que me pedires, ainda que seja a metade do meu reino". Ela saiu e perguntou à mãe: "O que vou pedir?". A mãe respondeu: "A cabeça de João Batista". E, voltando depressa para junto do rei, pediu: "Quero que me dês agora, num prato, a cabeça de João Batista". O rei ficou muito triste, mas não pôde recusar. Ele tinha feito o juramento diante dos convidados. Imediatamente, o rei mandou que um soldado fosse buscar a cabeça de João. O soldado saiu, degolou-o na prisão, trouxe a cabeça num prato e a deu à moça. Ela a entregou à sua mãe. Ao saberem disso, os discípulos de João foram lá, levaram o cadáver e o sepultaram.

Comentário feito por Lansperge, o Cartuxo (1489-1539)
religioso e teólogo

João não viveu para si próprio nem morreu para si próprio. A quantos homens carregados de pecados a sua vida dura e austera não terá levado à conversão? A quantos homens a sua morte não merecida não terá encorajado a suportar as provas? E a nós, de onde nos vem hoje a ocasião para darmos fielmente graças a Deus, senão da lembrança de São João Batista, assassinado pela justiça, ou seja por Cristo? [...] Sim, João Batista sacrificou de todo o coração a sua vida terrena por amor de Cristo; preferiu menosprezar as ordens do tirano que as de Deus. Este exemplo  ensina-nos que nada nos deve ser mais querido que a vontade de Deus. Agradar aos homens não serve de grande coisa; em geral, até prejudica grandemente. [...] Por esta razão, com todos os amigos de Deus, morramos para os nossos pecados e as nossas preocupações, pisemos o nosso amor próprio desviado e deixemos crescer em nós o amor fervoroso a Cristo.

domingo, 21 de agosto de 2011

A grandeza da humanidade determina-se pela relação com quem sofre...



Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Visita à Fundação Instituto São José

Saudação do Papa Bento XVI

Madri, sábado, 20 de agosto de 2011

Senhor Cardeal Arcebispo de Madri,
Queridos Irmãos no Episcopado,
Queridos sacerdotes e religiosos 
da Ordem Hospitaleira de São João de Deus,
Distintas Autoridades,
Queridos jovens, familiares e
voluntários aqui presentes!
De coração vos agradeço a amável saudação e o cordial acolhimento que me dispensastes.
Nesta noite, antes da Vigília de oração com os jovens de todo o mundo que vieram a Madri para participar nesta Jornada Mundial d Juventude, temos a ocasião de passar alguns momentos juntos e poder-vos assim manifestar a solidariedade e o apreço do Papa por cada um de vós, pelas vossas famílias e por todas as pessoas que vos acompanham e cuidam nesta Fundação do Instituto São José.
A juventude, como recordei outras vezes, é a idade em que a vida se revela à pessoa em toda a riqueza e plenitude das suas potencialidades, incitando à busca de metas mais altas que dêem sentido à mesma. Por isso, quando o sofrimento assoma ao horizonte de uma vida jovem, ficamos desconcertados e talvez nos interroguemos: Poderá a vida continuar a ser grande, quando irrompe nela o sofrimento? A este respeito, escrevi na minha encíclica sobre a esperança cristã: “A grandeza da humanidade determina-se essencialmente na relação com o sofrimento e com quem sofre. (…) Uma sociedade que não consegue aceitar os que sofrem e não é capaz de contribuir, mediante a compaixão, para fazer com que o sofrimento seja compartilhado e assumido mesmo interiormente é uma sociedade cruel e desumana” (Spe salvi, 38). Estas palavras refletem uma larga tradição de humanidade que brota da oferta que Cristo faz de Si mesmo na Cruz por nós e pela nossa redenção. Jesus e, seguindo os seus passos, a sua Mãe Dolorosa e os santos são as testemunhas que nos ensinam a viver o drama do sofrimento para o nosso bem e a salvação do mundo.
Estas testemunhas falam-nos, antes de tudo, da dignidade de cada vida humana, criada à imagem de Deus. Nenhuma aflição é capaz de apagar esta marca divina gravada no mais fundo do homem. E não só: desde que o Filho de Deus quis abraçar livremente a dor e a morte, a imagem de Deus é-nos oferecida também no rosto de quem padece. Esta predileção especial do Senhor por quem sofre leva-nos a contemplar o outro com olhos puros, para lhe dar, além das coisas exteriores que precisa, aquele olhar de amor que necessita. Mas isso, só é possível realizá-lo como fruto de um encontro pessoal com Cristo. Bem conscientes disto sois vós, religiosos, familiares, profissionais da saúde e voluntários que viveis e trabalhais diariamente com estes jovens. A vossa vida e dedicação proclamam a grandeza a que é chamado o homem: compadecer-se e acompanhar quem sofre, como o fez o próprio Deus. E, no vosso maravilhoso trabalho, ressoam também estas palavras evangélicas: “Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes” (Mt 25, 40).
Por outro lado, vós sois também testemunhas do bem imenso que constitui a vida destes jovens para quem está ao seu lado e para a humanidade inteira. De maneira misteriosa mas muito real, a sua presença suscita em nossos corações, frequentemente endurecidos, uma ternura que nos abre à salvação. Sem dúvida, a vida destes jovens muda o coração dos homens e, por isso, damos graças ao Senhor por tê-los conhecido.
Queridos amigos, a nossa sociedade – onde demasiadas vezes se põe em dúvida a dignidade inestimável da vida, de cada vida – precisa de vós: vós contribuís decididamente para edificar a civilização do amor. Mais ainda, sois protagonistas desta civilização. E, como filhos da Igreja, ofereceis ao Senhor as vossas vidas, com as suas penas e as suas alegrias, colaborando com Ele e entrando, de algum modo, “a fazer parte do tesouro de compaixão de que o gênero humano necessita” (Spe salvi, 40).
Com íntimo afeto e por intercessão de São José, de São João de Deus e de São Bento Menni, confio-vos de todo o coração a Deus nosso Senhor: Seja Ele a vossa força e o vosso prêmio. Como sinal do seu amor, concedo-vos, a vós e a todos os vossos familiares e amigos, a Bênção Apostólica. Muito obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 20 de agosto de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

Configurar-se a Cristo...


Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Santa Missa com os Seminaristas

Homilia do Papa Bento XVI

Catedral de Santa Maria la Real de la Almudena de Madri
Sábado, 20 de agosto de 2011

Senhor Cardeal Arcebispo de Madri,
Queridos Irmãos no Episcopado,
Queridos sacerdotes e religiosos,
Queridos reitores e formadores,
Queridos seminaristas,
Meus amigos!
Sinto uma profunda alegria ao celebrar a Santa Missa para todos vós, que aspirais a ser sacerdotes de Cristo para o serviço da Igreja e dos homens, e agradeço as amáveis palavras de saudação com que me acolhestes. Hoje esta Catedral de Santa Maria a Real da Almudena lembra um imenso cenáculo onde o Senhor desejou ardentemente celebrar a Sua Páscoa com todos vós que um dia desejais presidir em seu nome os mistérios da salvação. Vendo-vos, comprovo de novo como Cristo continua chamando jovens discípulos para fazer deles seus apóstolos, permanecendo assim viva a missão da Igreja e a oferta do evangelho ao mundo. Como seminaristas, estais a caminho para uma meta santa: ser continuadores da missão que Cristo recebeu do Pai. Chamados por Ele, seguistes a sua voz; e, atraídos pelo seu olhar amoroso, avançais para o ministério sagrado. Ponde os vossos olhos nEle, que, pela sua encarnação, é o revelador supremo de Deus ao mundo e, pela sua ressurreição, é a fiel realização da sua promessa. Dai-Lhe graças por este sinal de predileção que reserva para cada um de vós.
A primeira leitura que escutamos mostra-nos Cristo como o novo e definitivo sacerdote, que fez uma oferta total da sua existência. A antífona do salmo aplica-se perfeitamente a Ele, quando, ao entrar no mundo, Se dirigiu a seu Pai dizendo: “Eis-me aqui para fazer a tua vontade” (cf. Sl 39, 8-9). Procurava agradar-Lhe em tudo: ao falar e ao agir, percorrendo os caminhos ou acolhendo os pecadores. A sua vida foi um serviço, e a sua dedicação abnegada uma intercessão perene, colocando-Se em nome de todos diante do Pai com Primogênito de muitos irmãos. O autor da Carta aos Hebreus afirma que, através desta entrega, nos tornou perfeitos para sempre, a nós que estávamos chamados a participar da sua filiação (cf. Hb 10, 14).
A Eucaristia, de cuja instituição nos fala o evangelho proclamado (cf. Lc 22, 14-20), é a expressão real dessa entrega incondicional de Jesus por todos, incluindo aqueles que O entregavam: entrega do seu corpo e sangue para a vida dos homens e para a remissão dos pecados. O sangue, sinal da vida, foi-nos dado por Deus como aliança, a fim de podermos inserir a força da sua vida onde reina a morte por causa do nosso pecado, e assim destruí-lo. O corpo rasgado e o sangue derramado de Cristo, isto é, a sua liberdade sacrificada, converteram-se, através dos sinais eucarísticos, na nova fonte da liberdade redimida dos homens. NEle temos a promessa de uma redenção definitiva e a esperança segura dos bens futuros. Por Cristo, sabemos que não estamos caminhando para o abismo, para o silêncio do nada ou da morte, mas seguindo para a terra prometida, para Ele que é nossa meta e também nosso princípio.
Queridos amigos, vos preparais para ser apóstolos com Cristo e como Cristo, para serdes companheiros de viagem e servidores dos homens.
Como haveis de viver estes anos de preparação? Em primeiro lugar, devem ser anos de silêncio interior, de oração permanente, de estudo constante e de progressiva inserção nas atividades e estruturas pastorais da Igreja. Igreja, que é comunidade e instituição, família e missão, criação de Cristo pelo seu Espírito Santo e simultaneamente resultado de quanto a configuramos com a nossa santidade e com os nossos pecados. Assim o quis Deus, que não se incomoda de tomar pobres e pecadores para fazer deles seus amigos e instrumentos para redenção do gênero humano. A santidade da Igreja é, antes de tudo, a santidade objetiva da própria pessoa de Cristo, do seu evangelho e dos seus sacramentos, a santidade daquela força do alto que a anima e impele. Nós devemos ser santos para não gerar uma contradição entre o sinal que somos e a realidade que queremos significar.
Meditai bem este mistério da Igreja, vivendo os anos da vossa formação com profunda alegria, em atitude de docilidade, de lucidez e de radical fidelidade evangélica, bem como numa amorosa relação com o tempo e as pessoas no meio de quem viveis. É que ninguém escolhe o contexto nem os destinatários da sua missão. Cada época tem os seus problemas, mas Deus dá em cada tempo a graça oportuna para assumi-los e superar com amor e realismo. Por isso, em toda e qualquer circunstância em que se encontre e por mais dura que esta seja, o sacerdote tem de frutificar em toda a espécie de boas obras, conservando sempre vivas no seu íntimo aquelas palavras do dia da sua Ordenação com que se lhe exortava a configurar a sua vida com o mistério da cruz do Senhor.
Configurar-se a Cristo implica, queridos seminaristas, identificar-se sempre mais com Aquele que por nós Se fez servo, sacerdote e vítima. Na realidade, configurar-se com Ele é a tarefa em que o sacerdote há de gastar toda a sua vida. Já sabemos que nos ultrapassa e não a conseguiremos cumprir plenamente, mas, como diz São Paulo, corremos para a meta esperando alcançá-la (cf. Fp 3, 12-14).
Mas Cristo, Sumo Sacerdote, é igualmente o Bom Pastor, que cuida das suas ovelhas até ao ponto de dar a vida por elas (cf. Jo 10, 11). Para imitar nisto também o Senhor, os vossos corações têm de ir amadurecendo no Seminário, colocando-se totalmente à disposição do Mestre. Dom do Espírito Santo, esta disponibilidade é que inspira a decisão de viver o celibato pelo Reino dos céus, o desprendimento dos bens da terra, a austeridade de vida e a obediência sincera e sem dissimulação.
Pedi-Lhe, pois, que vos conceda imitá-Lo na sua caridade até ao fim para com todos, sem excluir os afastados e pecadores, de tal forma que, com a vossa ajuda, se convertam e voltem ao bom caminho. Pedi-Lhe que vos ensine a aproximar-vos dos enfermos e dos pobres, com simplicidade e generosidade. Afrontai este desafio sem complexos nem mediocridade, mas antes como uma forma estupenda de realizar a vida humana na gratuidade e no serviço, sendo testemunhas de Deus feito homem, mensageiros da dignidade altíssima da pessoa humana e, consequentemente, seus defensores incondicionais. Apoiados no seu amor, não vos deixeis amedrontar por um ambiente onde se pretende excluir Deus e no qual os principais critérios por que se rege a existência são, frequentemente, o poder, o ter ou o prazer. Pode acontecer que vos desprezem, como se costuma fazer com quem aponta metas mais altas ou desmascara os ídolos diante dos quais muito se prostram hoje. Será então que uma vida profundamente radicada em Cristo se revele realmente como uma novidade, atraindo com vigor a quantos verdadeiramente procuram Deus, a verdade e a justiça.
Animados pelos vossos formadores, abri a vossa alma à luz do Senhor para ver se este caminho, que requer coragem e autenticidade, é o vosso, avançando para o sacerdócio só se estiverdes firmemente persuadidos de que Deus vos chama para serdes seus ministros e plenamente decididos a exercê-lo obedecendo às disposições da Igreja.
Com esta confiança, aprendei dAquele que Se definiu a Si mesmo como manso e humilde de coração, despojando-vos para isso de todo o desejo mundano, de modo que não busqueis o vosso próprio interesse, mas edifiqueis, com a vossa conduta, aos vossos irmãos, como fez o santo padroeiro do clero secular espanhol São João de Ávila. Animados pelo seu exemplo, olhai sobretudo para a Virgem Maria, Mãe dos sacerdotes. Ela saberá forjar a vossa alma segundo o modelo de Cristo, seu divino Filho, e vos ensinará incessantemente a guardar os bens que Ele adquiriu no Calvário para a salvação do mundo. Amém.

Anúncio da próxima declaração de São João de Ávila, 
presbítero, Padroeiro do Clero secular espanhol, como Doutor da Igreja Universal

Queridos amigos,
Com grande alegria, no marco da santa igreja Catedral de Santa Maria a Real da Almudena, quero anunciar agora ao povo de Deus que, acolhendo os pedidos do Senhor Presidente da Conferência Episcopal Espanhola, o Eminentíssimo Cardeal António Maria Rouco Varela, Arcebispo de Madri, dos outros Irmãos no Episcopado da Espanha, bem como de um grande número de Arcebispos e Bispos de outras partes do mundo, e de muitos fiéis, declararei, proximamente, São João de Ávila, presbítero, Doutor da Igreja Universal.
Ao fazer pública aqui esta notícia, desejo que a palavra e o exemplo deste exímio pastor possa iluminar os sacerdotes e aqueles que se preparam, com alegria e esperança, para receber um dia a Sagrada Ordenação.
Convido todos a dirigirem o olhar para ele, e confio à sua intercessão os Bispos da Espanha e de todo o mundo, bem como os presbíteros e seminaristas para que, perseverando na mesma fé que ele ensinou, possam modelar seu coração conforme os sentimentos de Jesus Cristo, o Bom Pastor, a quem seja dada toda glória e honra por todos os séculos dos séculos. Amém.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 19 de agosto de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

Diante de um amor desinteressado...



Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Via Sacra com os Jovens

Alocução do Papa Bento XVI

Praça de Cibeles, Madri
Sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Queridos jovens!
Com piedade e fervor, celebramos esta Via Sacra, acompanhando Cristo na sua Paixão e Morte. As reflexões das Irmãzinhas da Cruz, que servem aos mais pobres e desvalidos, facilitaram-nos a entrada nos mistérios da gloriosa Cruz de Cristo, que encerra a verdadeira sabedoria de Deus, aquela que julga o mundo e todos os que se creem sábios (cf. 1Cor 1, 17-19). Neste itinerário para o Calvário, ajudou-nos também a contemplação destas imagens extraordinárias do patrimônio religioso das dioceses espanholas. São imagens onde se harmonizam a fé e a arte para chegar ao coração do homem e convidá-lo à conversão. Quando é límpido e autêntico o olhar da fé, a beleza coloca-se ao seu serviço e é capaz de representar os mistérios da nossa salvação a ponto de nos tocar profundamente e transformar o nosso coração, como sucedeu a Santa Teresa de Ávila ao contemplar uma imagem de Cristo coberto de chagas (cf. Livro da Vida, 9, 1).
À medida que íamos avançando com Jesus até chegar ao cimo da sua entrega no Calvário, vinham-nos à mente as palavras de São Paulo: “Cristo amou-me e Se entregou por mim” (Gal 2, 20). Diante de um amor assim desinteressado, cheios de admiração e reconhecimento perguntamo-nos agora: Que temos que fazer por Ele? Que resposta Lhe daremos? São João no-lo diz claramente: “Foi com isto que conhecemos o amor: Ele, Jesus, deu a sua vida por nós; assim também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos” (1Jo 3, 16). A paixão de Cristo incita-nos a carregar sobre os nossos ombros o sofrimento do mundo, com a certeza de que Deus não é alguém distante ou alheio ao homem e às suas vicissitudes; pelo contrário, fez-Se um de nós “para poder padecer com o homem, de modo muito real, na carne e no sangue (…). A partir de lá entrou em todo o sofrimento humano alguém que partilha o sofrimento e a sua tolerância; a partir de lá se propaga em todo o sofrimento a consolatio, a consolação do amor solidário de Deus, surgindo assim a estrela da esperança” (Spe salvi, 39).
Queridos jovens, que o amor de Cristo por nós aumente a vossa alegria e vos anime a permanecer junto dos menos favorecidos. Vós que sois tão sensíveis à ideia de partilhar a vida com os outros, não passeis ao largo quando virdes o sofrimento humano, pois é aí que Deus vos espera para dardes o melhor de vós mesmos: a vossa capacidade de amar e de vos compadecerdes. As diversas formas de sofrimento, que foram desfilando diante dos nossos olhos ao longo da Via Sacra, são apelos do Senhor para edificarmos as nossas vidas seguindo os seus passos e para nos tornarmos sinais do seu conforto e salvação. “Sofrer com o outro, pelos outros; sofrer por amor da verdade e da justiça; sofrer por causa do amor e para se tornar uma pessoa que ama verdadeiramente: estes são elementos fundamentais de humanidade, o seu abandono destruiria o mesmo homem” (Ibid., 39).
Espero que saibamos acolher estas lições e pô-las em prática. Com tal finalidade, olhemos para Cristo, suspenso no duro madeiro, e peçamos-Lhe que nos ensine esta misteriosa sabedoria da cruz, graças à qual vive o homem. A cruz não foi o desfecho de um fracasso, mas o modo de exprimir a entrega amorosa que vai até à doação máxima da própria vida. O Pai quis amar os homens no abraço do seu Filho crucificado por amor. Na sua forma e significado, a cruz representa esse amor do Pai e de Cristo pelos homens. Nela reconhecemos o ícone do amor supremo, onde aprendemos a amar o que Deus ama e como Ele o faz: esta é a Boa Nova que devolve a esperança ao mundo.
Voltemos agora os nossos olhos para a Virgem Maria, que nos foi entregue por Mãe no Calvário, e supliquemos-Lhe que nos apoie com a sua amorosa proteção no caminho da vida, particularmente quando passarmos pela noite da dor, para conseguirmos permanecer como Ela firmes ao pé da cruz. Muito obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 19 de agosto de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Universidade: casa onde se busca a verdade da pessoa humana



Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Encontro com Jovens Professores Universitários

Discurso do Papa Bento XVI

Basílica do Mosteiro de São Lourenço do Escorial
Sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Senhor Cardeal Arcebispo de Madri,
Queridos Irmãos no Episcopado,
Queridos Padres Agostinianos,
Queridos Professores e Professoras,
Distintas Autoridades,
Meus amigos!
Com regozijo esperava este encontro convosco, jovens professores das universidades espanholas, que prestais uma colaboração esplêndida para a difusão da verdade em circunstâncias nem sempre fáceis. Saúdo-vos cordialmente e agradeço as amáveis palavras de boas-vindas e também a música executada que ressoou maravilhosamente neste mosteiro de grande beleza artística, testemunho eloquente, durante séculos, de uma vida de oração e estudo. Neste lugar emblemático, razão e fé fundiram-se harmoniosamente na pedra austera para modelar um dos monumentos mais renomados de Espanha.
Saúdo também com particular afeto a todos os que participaram, nestes dias, do Congresso Mundial das Universidades Católicas, em Ávila, sob o lema: “Identidade e missão da Universidade Católica”.
Encontrar-me aqui no vosso meio faz-me recordar os meus primeiros passos como professor na Universidade de Bonn. Quando ainda se sentiam as feridas da guerra e eram muitas as carências materiais, a tudo supria o encanto de uma atividade apaixonante, o trato com colegas das diversas disciplinas e o desejo de dar resposta às inquietações últimas e fundamentais dos alunos. Esta universitas, que então vivi, de professores e estudantes que procuram, juntos, a verdade em todos os saberes ou – como diria Afonso X, o Sábio – esse “ajuntamento de mestres e escolares com vontade e capacidade para aprender os saberes” (Sete Partidas, partida II, título XXXI), clarifica o sentido e mesmo a definição da Universidade.
No lema da presente Jornada Mundial da Juventude – “Enraizados e edificados em Cristo, firmes na fé” (cf. Col 2, 7) –, podeis também encontrar luz para compreender melhor o vosso ser e ocupação. Neste sentido, como escrevi aos jovens na Mensagem preparatória para estes dias, os termos “enraizados, edificados e firmes” falam de alicerces seguros para a vida (cf. n. 2).
Mas onde os jovens poderão encontrar estes pontos de referência numa sociedade vacilante e instável? Às vezes pensa-se que a missão de um professor universitário seja hoje, exclusivamente, a de formar profissionais competentes e eficientes que satisfaçam as exigências laborais de cada período concreto. Diz-se também que a única coisa que se deve privilegiar, na presente conjuntura, é a capacitação meramente técnica. Sem dúvida, prospera na atualidade esta visão utilitarista da educação mesmo universitária, difundida especialmente a partir de âmbitos extra-universitários. Contudo vós que vivestes como eu a Universidade e que a viveis agora como docentes, sentis certamente o anseio de algo mais elevado que corresponda a todas as dimensões que constituem o homem. Como se sabe, quando a mera utilidade e o pragmatismo imediato se erigem como critério principal, os danos podem ser dramáticos: desde os abusos de uma ciência que não reconhece limites para além de si mesma, até ao totalitarismo político que se reanima facilmente quando é eliminada toda a referência superior ao mero cálculo de poder. Ao invés, a genuína ideia de universidade é que nos preserva precisamente desta visão reducionista e distorcida do humano.
Com efeito, a universidade foi, e deve continuar sendo, a casa onde se busca a verdade própria da pessoa humana. Por isso, não é uma casualidade que tenha sido precisamente a Igreja quem promoveu a instituição universitária; é que a fé cristã nos fala de Cristo como o Logos por Quem tudo foi feito (cf. Jo 1, 3) e do ser humano criado à imagem e semelhança de Deus. Esta boa nova divisa uma racionalidade em toda a criação e contempla o homem como uma criatura que compartilha e pode chegar a reconhecer esta racionalidade. Deste modo, a universidade encarna um ideal que não deve ser desvirtuado por ideologias fechadas ao diálogo racional, nem por servilismos a uma lógica utilitarista de simples mercado, que olha para o homem como mero consumidor.
Aqui está a vossa importante e vital missão. Sois vós que tendes a honra e a responsabilidade de transmitir este ideal universitário: um ideal que recebestes dos vossos mais velhos, muitos deles humildes seguidores do Evangelho e que, como tais, se converteram em gigantes do espírito. Devemos nos sentir seus continuadores, numa história muito diferente da deles mas cujas questões essenciais do ser humano continuam a exigir a nossa atenção convidando-nos a ir mais longe. Sentimo-nos unidos a eles, nesta cadeia de homens e mulheres que se devotaram a propor e a valorizar a fé perante a inteligência dos homens. E, para fazê-lo, não basta ensiná-lo, é preciso vivê-lo, encarná-lo, à semelhança do Logos que também se encarnou para estabelecer a sua morada entre nós. Neste sentido, os jovens precisam de mestres autênticos: pessoas abertas à verdade total nos diversos ramos do saber, capazes de escutar e viver dentro de si mesmos este diálogo interdisciplinar; pessoas convencidas sobretudo da capacidade humana de avançar a caminho da verdade. A juventude é tempo privilegiado para a busca e o encontro com a verdade. Como já disse Platão: “Busca a verdade enquanto és jovem, porque, se o não fizeres, depois escapar-te-á das mãos” (Parmênides, 135d). Esta sublime aspiração é o que de mais valioso podeis transmitir, pessoal e vitalmente, aos vossos estudantes, e não simplesmente algumas técnicas instrumentais e anônimas nem alguns dados frios e utilizáveis apenas funcionalmente.
Por isso, encarecidamente vos exorto a não perderdes jamais tal sensibilidade e encanto pela verdade, a não esquecerdes que o ensino não é uma simples transmissão de conteúdos, mas uma formação de jovens a quem deveis compreender e amar, em quem deveis suscitar aquela sede de verdade que possuem no mais fundo de si mesmos e aquele anseio de superação. Sede para eles estímulo e fortaleza.
Para isso, é preciso ter em conta, em primeiro lugar, que o caminho para a verdade completa compromete o ser humano na sua integralidade: é um caminho da inteligência e do amor, da razão e da fé. Não podemos avançar no conhecimento de algo, se não nos mover o amor; nem tampouco amar uma coisa em que não vemos racionalidade; porque “não aparece a inteligência e depois o amor: há o amor rico de inteligência e a inteligência cheia de amor” (Caritas in veritate, 30). Se estão unidos a verdade e o bem, o estão igualmente o conhecimento e o amor. Desta unidade deriva a coerência de vida e pensamento, a exemplaridade que se exige de todo o bom educador.
Em segundo lugar, temos que considerar que a verdade em si mesma está para além do nosso alcance. Podemos procurá-la e aproximar-nos dela, mas não possui-la totalmente; antes, é ela que nos possui e estimula. Na atividade intelectual e docente, a humildade é também uma virtude indispensável, pois protege da vaidade que fecha o acesso à verdade. Não devemos atrair os estudantes para nós mesmos, mas encaminhá-los para essa verdade que todos procuramos. Nisto vos ajudará o Senhor, que vos propõe ser simples e eficazes como o sal, ou como a lâmpada que dá luz sem fazer ruído (cf. Mt 5, 13).
Tudo isto nos convida a voltar incessantemente o olhar para Cristo, em cujo rosto resplandece a Verdade que nos ilumina; mas que é também o Caminho que leva à plenitude sem fim, fazendo-Se caminhante conosco e sustentando-nos com o seu amor. Radicados nEle, sereis bons guias dos nossos jovens. Com esta esperança, coloco-vos sob o amparo da Virgem Maria, Sede da Sabedoria, para que Ela vos faça colaboradores do seu Filho com uma vida repleta de sentido para vós mesmos, e fecunda de frutos, tanto de conhecimento como de fé, para vossos alunos. Muito obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 19 de agosto de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

Jovens, a Igreja precisa da vossa fidelidade


Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Encontro com Jovens Religiosas

Saudação do Papa Bento XVI

Pátio de los Reyes de El Escorial
Sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Queridas jovens religiosas!
No âmbito da Jornada Mundial da Juventude que estamos celebrando, sinto uma grande alegria por poder encontrar-me convosco, que consagrastes a vossa juventude ao Senhor, e agradeço-vos a amável saudação que me dirigistes. Agradeço ao Senhor Cardeal Arcebispo de Madri por ter previsto este encontro num ambiente tão evocativo como é o do Mosteiro de São Lourenço do Escorial. Se a sua famosa Biblioteca guarda importantes edições da Sagrada Escritura e de Regras Monásticas de várias Famílias Religiosas, a vossa vida de fidelidade à vocação recebida é também uma maneira preciosa de guardar a Palavra do Senhor, que ressoa nas vossas formas de espiritualidade.
Queridas irmãs, cada carisma é uma palavra evangélica que o Espírito Santo recorda à sua Igreja (cf. Jo 14, 26). Não é em vão que a vida consagrada “nasce da escuta da Palavra de Deus e acolhe o Evangelho como sua norma de vida. Deste modo, viver no seguimento de Cristo casto, pobre e obediente é uma ‘exegese’ viva da Palavra de Deus. (…) Dela brotou cada um dos carismas e dela cada regra quer ser expressão, dando origem a itinerários de vida cristã marcados pela radicalidade evangélica” (Exort. apostólica Verbum Domini, 83).
A radicalidade evangélica é estar “enraizados e edificados em Cristo, e firmes na fé” (cf. Col 2, 7), que, na vida consagrada, significa ir à raiz do amor a Jesus Cristo com um coração sem divisão, sem nada antepor a esse amor (cf. São Bento, Regra, IV, 21), com uma doação esponsal como viveram os santos, vivida segundo o estilo de Rosa de Lima e Rafael Arnáiz, jovens patronos desta Jornada Mundial da Juventude. O encontro pessoal com Cristo que alimenta a vossa consagração deve se revelar, com toda a sua força transformadora, nas vossas vidas; e adquire uma especial relevância hoje, quando se “constata uma espécie de ‘eclipse de Deus’, uma certa amnésia, senão mesmo uma verdadeira rejeição do cristianismo e uma negação do tesouro da fé recebida, com o risco de se perder a própria identidade profunda” (Mensagem para a XXVI Jornada Mundial da Juventude de 2011, 1). Face ao relativismo e à mediocridade, surge a necessidade desta radicalidade que testemunha a consagração como uma pertença a Deus sumamente amado.
A referida radicalidade evangélica da vida consagrada exprime-se na comunhão filial com a Igreja, casa dos filhos de Deus que Cristo edificou: a comunhão com os Pastores, que propõem, em nome do Senhor, o depósito da fé recebido através dos Apóstolos, do Magistério da Igreja e da tradição cristã; a comunhão com a vossa Família Religiosa, conservando agradecidas o seu genuíno patrimônio espiritual e apreciando também os outros carismas; a comunhão com outros membros da Igreja como os leigos, chamados a testemunharem a partir da sua específica vocação o mesmo evangelho do Senhor.
Finalmente a radicalidade evangélica exprime-se na missão que Deus vos quis confiar. Desde a vida contemplativa que, na própria clausura, acolhe a Palavra de Deus em silêncio eloquente e adora a Sua beleza na solidão por Ele habitada, até aos mais diversos caminhos de vida apostólica, em cujos sulcos germina a semente evangélica na educação das crianças e jovens, no cuidado dos doentes e idosos, no acompanhamento das famílias, no compromisso em favor da vida, no testemunho da verdade, no anúncio da paz e da caridade, no trabalho missionário e na nova evangelização, e em muitos outros campos do apostolado eclesial.
Queridas irmãs, este é o testemunho da santidade a que Deus vos chama, seguindo de perto e incondicionalmente Jesus Cristo na consagração, na comunhão e na missão. A Igreja precisa da vossa fidelidade jovem, arraigada e edificada em Cristo. Obrigado pelo vosso “sim” generoso, total e perpétuo ao chamado do Amado. Que a Virgem Maria sustente e acompanhe a vossa juventude consagrada, com o ardente desejo de que interpele, encoraje e ilumine todos os jovens.
Com estes sentimentos, peço a Deus que recompense abundantemente a generosa contribuição da vida consagrada para esta Jornada Mundial da Juventude, e em seu nome vos abençoo de todo o coração. Muito obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 19 de agosto de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

JMJ: a silenciosa semeadura do Senhor na contemporaneidade



Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Entrevista concedida pelo Santo Padre Bento XVI
aos jornalistas durante o voo para Madri

Voo Papal
Quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Padre Lombardi: Santidade, bem-vindo entre nós, muito obrigado por nos conceder, como é comum, este breve encontro durante o voo de ida. A “comunidade volante” dos jornalistas, aqui, é composta por 56 pessoas de vários países, mas os jornalistas que o esperam em Madri são mais de 4 mil. É um recorde para a Espanha e também se considerarmos os eventos mundiais. Todos nos comprometemos, naturalmente, a ecoar adequadamente suas palavras neste belíssimo acontecimento. Como é comum, proponho algumas perguntas que me foram dadas, há alguns dias, pelos jornalistas aqui presentes.

Santo Padre, estamos na 26ª Jornada Mundial da Juventude, a 12ª celebrada com um grande encontro mundial. João Paulo II, que as inventou, agora é Beato, e é o Protetor Oficial desta JMJ de Madri. No início do seu Pontificado, nos perguntávamos se o senhor iria continuar a linha do seu Predecessor. Agora, o senhor já está na sua terceira Jornada Mundial, depois de Colônia e de Sydney. Como o senhor vê o significado destes eventos na “estratégia” pastoral da Igreja universal no Terceiro Milênio?

Santo Padre: Caros amigos, bom dia! Fico contente de ir convosco para a Espanha por ocasião deste grande acontecimento. Depois de duas JMJ vividas também pessoalmente, posso apenas dizer que foi realmente uma inspiração a que foi dada ao Papa João Paulo II, quando criou esta realidade de um grande encontro dos jovens e do mundo com o Senhor. Eu diria que estas JMJ são um sinal, uma cascata de luz; dão visibilidade para a fé, visibilidade para a presença de Deus no mundo e criam, assim, a coragem de ser crente. Frequentemente os crentes se sentem isolados neste mundo, quase perdidos. Aqui, veem que não estão sozinhos, que há uma grande rede de fé, uma grande comunidade de crentes no mundo, que é belo viver nesta amizade universal. E, assim, me parece, nascem amizades, amizades que ultrapassam os confins das diversas culturas, dos diversos países. E este nascimento de uma rede universal de amizade, que liga o mundo e Deus, é uma importante realidade para o futuro da humanidade, para a vida da humanidade de hoje. Naturalmente, a JMJ não pode ser um acontecimento isolado: faz parte de um caminho maior, é preparado por este caminho da Cruz que passa por diversos países e já une jovens sob o sinal da Cruz e do maravilhoso sinal de Nossa Senhora. E assim a preparação da JMJ é muito mais que preparação técnica de um acontecimento com tantos problemas técnicos, naturalmente; é uma preparação interior, um colocar-se em caminho em direção aos outros, juntos rumo a Deus. E também, na sequência, após o estabelecimento de grupos de amizade, manter este contato universal que abre as fronteiras das culturas, dos contrastes humanos, religiosos, e assim é um caminho contínuo que guia a um novo vértice, a uma nova JMJ. Parece-me, neste sentido, que é preciso ver a JMJ como sinal, parte de um grande caminho; cria amizades, abre fronteiras e torna visível o fato de que é bonito estar com Deus, que Deus está conosco. Neste sentido, queremos dar continuidade a esta grande ideia do Beato Papa João Paulo II.

Padre Lombardi: Santidade, os tempos mudam. A Europa e o mundo ocidental em geral vivem uma crise econômica profunda, mas que também manifesta dimensões de grave inquietação social e moral e de grande incerteza pelo futuro, que se tornam particularmente dolorosas para os jovens. Nos dias passados vimos, por exemplo, os fatos acontecidos na Grã Bretanha, com desencadeamento de rebeliões ou de agressões. Ao mesmo tempo, há sinais de comprometimento generoso e entusiasmado, de voluntariado e de solidariedade, de jovens crentes e não crentes. Em Madri, encontraremos muitos jovens maravilhosos. Quais mensagens a Igreja pode dar para a esperança e o encorajamento dos jovens do mundo, sobretudo aqueles que, hoje, são tentados pelo desânimo e pela rebelião?

Santo Padre: Sim. Confirma-se, na atual crise econômica, aquilo que já havia aparecido na grande crise anterior, ou seja, que a dimensão ética não é algo exterior aos problemas econômicos, mas uma dimensão interior e fundamental. A economia não funciona apenas como uma autoregulamentação de mercado, mas precisa de uma razão ética para funcionar para o homem. E aparece outra vez aquilo que João Paulo II já havia dito na sua primeira encíclica social, isto é, que o homem deve ser o centro da economia e que a economia não deve ser medida segundo o proveito máximo, mas segundo o bem de todos, e que deve incluir a responsabilidade pelo outro e só funcionará verdadeiramente bem na medida em que funcionar de modo humano, respeitando o outro. E com as diversas dimensões: responsabilidade pela própria nação e não apenas por si mesmos; responsabilidade pelo mundo – também uma nação não está isolada, também a Europa não está isolada, mas é responsável por toda a humanidade e deve pensar nos problemas econômicos sempre a partir da responsabilidade pelas outras partes do mundo, por aquelas que sofrem, têm sede e fome, não têm futuro. E, portanto – terceira dimensão desta responsabilidade –, responsabilidade pelo futuro. Sabemos que é preciso proteger nosso planeta, mas devemos proteger – somando tudo – o funcionamento do serviço de trabalho econômico para todos e pensar que o amanhã é também o hoje. Se os jovens de hoje não encontram perspectivas na sua vida, também o nosso hoje é errado e “malvado”. Por isso, a Igreja, com a sua doutrina social, com a sua doutrina sobre a responsabilidade na relação com Deus, abre para a capacidade de renunciar ao proveito máximo e ver as coisas na dimensão humanista e religiosa, ou seja, ser um para o outro. Assim, novos caminhos podem se abrir. O grande número de voluntários que trabalham em diversos lugares do mundo, não para si, mas para o outro, e encontram exatamente assim o sentido da vida, demonstram que é possível fazer isto e que uma educação para estes grandes objetivos, como tenta fazer a Igreja, é fundamental para o nosso futuro.

Padre Lombardi: Santidade, os jovens do mundo de hoje vivem geralmente em ambientes multiculturais e multiconfessionais. A tolerância recíproca é mais necessária do que nunca. O senhor insiste sempre muito sobre o tema da verdade. O senhor não pensa que esta insistência sobre a verdade e sobre a única Verdade que é Cristo possa ser um problema para os jovens de hoje? Não acredita que esta insistência os dirija para a contraposição e para a dificuldade de dialogar e buscar junto com os outros?

Santo Padre: A vinculação entre verdade e intolerância, monoteísmo e incapacidade de diálogo com os outros, é um argumento que frequentemente retorna no debate sobre o cristianismo de hoje. E, naturalmente, é verdade que na história houve abusos, seja do conceito da verdade, seja do conceito do monoteísmo; mas foram abusos. A realidade é totalmente diferente. O argumento está errado, porque a verdade é acessível somente na medida em que há liberdade. Podem ser impostos, com violência, comportamentos, observâncias, atividades, mas não a verdade! A verdade se abre apenas para a liberdade, para o livre consentimento, e por isso liberdade e verdade são intimamente unidas, uma é condição para a outra. E, além do mais, buscar a verdade, os verdadeiros valores que dão vida e futuro, não tem alternativa: não queremos a mentira, não queremos o positivismo de normas impostas com uma certa força; somente os valores verdadeiro levam ao futuro, por isso, dizemos que é necessário buscar os valores verdadeiros e não permitir o arbítrio de alguns, não deixar que se fixe uma razão positivista que nos diz, acerca dos problemas éticos, dos grandes problemas do homem, que não existe uma verdade racional. Isto sim seria expor verdadeiramente o homem ao arbítrio daqueles que têm o poder. Devemos estar sempre em busca da verdade, dos verdadeiros valores; temos um núcleo nos valores, nos direitos humanos fundamentais; outros elementos fundamentais semelhantes são reconhecidos e, exatamente eles, nos permitem um diálogo uns com os outros. A verdade como tal é dialógica porque tenta conhecer melhor, entender melhor e o faz em diálogo com os outros. Assim, buscar a verdade e a dignidade do homem é a maior defesa da liberdade.

Padre Lombardi: Uma última pergunta, Santidade. As Jornadas Mundiais da Juventude são um tempo muito bonito e suscitam muitos entusiasmos, mas os jovens, depois, voltam para suas casas e encontram de novo um mundo no qual a prática religiosa está diminuindo cada vez mais fortemente. Muitos deles, provavelmente, não serão mais vistos na igreja. Como é possível dar continuidade aos frutos das Jornadas Mundiais da Juventude? O senhor acredita que, efetivamente, elas deem frutos de longa duração, para além dos momentos de grande entusiasmo?

Santo Padre: Deus sempre semeia silenciosamente, nunca aparece imediatamente nas estatísticas. E com a semente que o Senhor coloca na terra com as JMJ, acontece como a semente de que Ele fala no Evangelho: algumas caem no caminho e se perdem; outras caem sobre a pedra e se perdem; outras caem entre os espinhos e se perdem; mas algumas caem em terra boa e produzem muitos frutos. Exatamente assim é a semeadura da JMJ: muito se perde – e isto é humano. Com outras palavras do Senhor: o grão de mostarda é pequeno, mas cresce e se torna uma grande árvore. Com outras palavras ainda: certamente, muito se perde, e não podemos dizer que a partir de amanhã recomeça um grande crescimento da Igreja. Deus não age assim. Mas, cresce em silêncio e cresce muito. Sei das outras JMJ que muitas amizades nasceram, amizades para uma vida inteira; tantas novas experiências. E é sobre este crescimento silencioso que colocamos nossa confiança e estamos seguros, mesmo que as estatísticas não falem muito... a semente do Senhor realmente cresce e será, para muitas pessoas, o início de uma amizade com Deus e com outros, de uma universalidade do pensamento, de uma responsabilidade comum que realmente nos mostra que estes dias trazem frutos. Obrigado!

Padre Lombardi: Obrigado ao senhor, Santidade, por esta conversa que já nos orienta rumo aos temas essenciais destes dias belíssimos. Desejamos ao senhor, naturalmente, que estes dias sejam – não obstante o calor – cheios de alegria e de satisfação. Porém, antes de deixar o senhor retornar ao seu lugar, queria dizer que também para a nossa comunidade hoje é um dia de festa, porque há uma das nossas decanas, uma que fez todas as viagens de João Paulo II e todas as do senhor, exceto uma, porque não estava muito bem, e que hoje está fazendo aniversário. Os anos são naturalmente poucos, mesmo que as viagens tenham sido tantas. Trata-se de Paloma Gómez Borrero a quem felicitamos junto como senhor.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 18 de agosto de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Radicados em Cristo, damos asas à nossa liberdade



Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Festa de Acolhimento dos Jovens

Discurso do Papa Bento XVI

Praça de Cibeles, Madri
Quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Queridos jovens amigos!
Agradeço as carinhosas palavras que me dirigiram os jovens representantes dos cinco continentes. Com afeto, saúdo a todos vós que estais aqui congregados – jovens da Oceania, África, América, Ásia e Europa – e também a todos os que não puderam vir. Sempre vos tenho muito presente e rezo por vós. Deus concedeu-me a graça de vos poder ver e vos ouvir mais de perto, e de nos colocarmos juntos à escuta da Sua Palavra.
Na leitura que há pouco foi proclamada, ouvimos uma passagem do Evangelho onde se fala de acolher as palavras de Jesus e de pô-las em prática. Há palavras que servem apenas para entreter, e passam como o vento; outras instruem, sob alguns aspectos, a mente; as palavras de Jesus, ao invés, têm de chegar ao coração, radicar-se nele e modelar a vida inteira. Sem isso, ficam estéreis e tornam-se efêmeras; não nos aproximam dEle. E, deste modo, Cristo continua distante, como uma voz entre muitas outras que nos rodeiam e às quais estamos habituados. Além disso, o Mestre que fala não ensina algo que aprendeu de outros, mas o que Ele mesmo é, o único que conhece verdadeiramente o caminho do homem para Deus, pois foi Ele que o abriu para nós, que o criou para podermos alcançar a vida autêntica, a vida que sempre vale a pena viver em todas as circunstâncias e que nem mesmo a morte pode destruir. O Evangelho continua explicando estas coisas com a sugestiva imagem de quem constrói sobre a rocha firme, resistente às investidas das adversidades, contrariamente a quem edifica sobre a areia, talvez numa paisagem paradisíaca, poderíamos dizer hoje, mas que se desmorona à primeira rajada de ventos e fica em ruínas.
Queridos jovens, escutai verdadeiramente as palavras do Senhor, para que sejam em vós “espírito e vida” (Jo 6, 63), raízes que alimentam o vosso ser, linhas de conduta que nos assemelham à pessoa de Cristo, sendo pobres de espírito, famintos de justiça, misericordiosos, puros de coração, amantes da paz. Escutai-as frequentemente cada dia, como se faz com o único Amigo que não engana e com o qual queremos partilhar o caminho da vida. Bem sabeis que, quando não se caminha ao lado de Cristo, que nos guia, extraviamo-nos por outra sendas como a dos nossos próprios impulsos cegos e egoístas, a de propostas lisonjeiras mas interesseiras, enganadoras e volúveis, que atrás de si deixam o vazio e a frustração.
Aproveitai estes dias para conhecer melhor a Cristo e inteirar-vos de que, enraizados nEle, o vosso entusiasmo e alegria, os vossos anseios de crescer, de chegar ao mais alto, ou seja, a Deus, têm futuro sempre assegurado, porque a vida em plenitude já habita dentro do vosso ser. Fazei-a crescer com a graça divina, generosamente e sem mediocridade, propondo-vos seriamente a meta da santidade. E, perante as nossas fraquezas, que às vezes nos oprimem, contamos também com a misericórdia do Senhor, sempre disposto a dar-nos de novo a mão e que nos oferece o perdão no sacramento da Penitência.
Edificando-a sobre a rocha firme, a vossa vida será não só segura e estável, mas contribuirá também para projetar a luz de Cristo sobre os vossos coetâneos e sobre toda a humanidade, mostrando uma alternativa válida a tantos que viram a sua vida desmoronar-se, porque os alicerces da sua existência eram inconsistentes: a tantos que se contentam com seguir as correntes da moda, se refugiam no interesse imediato, esquecendo a justiça verdadeira, ou se refugiam em opiniões pessoais em vez de procurar a verdade sem adjetivos.
Sim, há muitos que, julgando-se deuses, pensam que não têm necessidade de outras raízes nem de outros alicerces para além de si mesmo. Desejariam decidir, por si sós, o que é verdade ou não, o que é bom ou mau, justo ou injusto; decidir quem é digno de viver ou pode ser sacrificado nas aras de outras preferências; em cada momento dar um passo à sorte, sem rumo fixo, deixando-se levar pelo impulso de cada instante. Estas tentações estão sempre à espreita. É importante não sucumbir a elas, porque na realidade conduzem a algo tão fútil como uma existência sem horizontes, uma liberdade sem Deus. Pelo contrário, sabemos bem que fomos criados livres, à imagem de Deus, precisamente para ser protagonistas da busca da verdade e do bem, responsáveis pelas nossas ações e não meros executores cegos, colaboradores criativos com a tarefa de cultivar e embelezar a obra da criação. Deus quer um interlocutor responsável, alguém que possa dialogar com Ele e amá-Lo. Por Cristo, podemos verdadeiramente consegui-lo e, radicados nEle, damos asas à nossa liberdade. Porventura não é este o grande motivo da nossa alegria? Não é este um terreno firme para construir a civilização do amor e da vida, capaz de humanizar todo homem?
Queridos amigos, sede prudentes e sábios, edificai as vossas vidas sobre o alicerce firme que é Cristo. Esta sabedoria e prudência guiará os vossos passos, nada vos fará tremer e, em vosso coração, reinará a paz. Então sereis bem-aventurados, ditosos, e a vossa alegria contagiará os outros. Perguntar-se-ão qual seja o segredo da vossa vida e descobrirão que a rocha que sustenta todo o edifício e sobre a qual assenta toda a vossa existência é a própria pessoa de Cristo, vosso amigo, irmão e Senhor, o Filho de Deus feito homem, que dá consistência a todo o universo. Ele morreu por nós e ressuscitou para que tivéssemos vida, e agora, junto do trono do Pai, continua vivo e próximo a todos os homens, velando continuamente com amor por cada um de nós.
Confio os frutos desta Jornada Mundial da Juventude à Santíssima Virgem, que soube dizer “sim” à vontade de Deus e nos ensina, como ninguém, a fidelidade ao seu divino Filho, que acompanhou até à sua morte na cruz. Meditaremos tudo isto mais pausadamente ao longo das diversas estações da Via-Sacra. Peçamos para que o nosso “sim” de hoje a Cristo seja também, como o dEla, um “sim” incondicional à Sua amizade, no fim desta Jornada Mundial e durante toda a nossa vida. Muito obrigado!

* Extraído do site do Vaticano, do dia 18 de agosto de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

... o nome de Cristo ressoará por todos os cantos...



Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Festa de Acolhimento dos Jovens

Saudação inicial do Papa Bento XVI

Praça de Cibeles, Madri
Quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Queridos jovens amigos!
É uma alegria imensa encontrar-me aqui convosco, no centro da bela cidade de Madri, cujas chaves o Senhor Prefeito teve a amabilidade de me entregar. Hoje é também a capital dos jovens do mundo, para qual se voltam os olhos da Igreja inteira. O Senhor congregou-nos aqui para vivermos nestes dias a bela experiência da Jornada Mundial da Juventude. Com a vossa presença e participação nas celebrações, o nome de Cristo ressoará por todos os cantos desta ilustre cidade. E rezamos para que a sua mensagem de esperança e de amor tenha eco também no coração daqueles que não creem ou se afastaram da Igreja. Muito obrigado pelo estupendo acolhimento que me dispensastes ao entrar na cidade, sinal da vossa estima e proximidade ao Sucessor de Pedro. 
Saúdo o Senhor Cardeal Stanislau Rylko, Presidente do Pontifício Conselho para os Leigos, e os seus colaboradores neste Dicastério, reconhecido por todo o trabalho realizado. De igual modo agradeço ao Senhor Cardeal Antônio Maria Rouco Varela, Arcebispo de Madri, pelas suas amáveis palavras e o esforço da sua arquidiocese, juntamente com as restantes dioceses da Espanha, para preparar esta Jornada Mundial da Juventude, para a qual se trabalhou com generosidade também em outras Igrejas particulares do mundo inteiro. Agradeço às autoridades nacionais, autonômicas e locais a sua amável presença e a sua generosa colaboração para o bom andamento deste grande acontecimento. Obrigado aos Irmãos no Episcopado, aos sacerdotes, seminaristas, pessoas consagradas e fieis que estão aqui presentes e vieram para acompanhar os jovens na vivência destes dias intensos de peregrinação ao encontro de Cristo. A todos saúdo cordialmente no Senhor e repito que é uma grande felicidade encontrar-me aqui com todos vós. Que a chama do amor de Cristo nunca se apague nos vossos corações.

Saudação em francês
Queridos jovens francófonos, correspondestes numerosamente ao apelo do Senhor para vir encontrá-Lo em Madri. Parabéns! Bem-vindos à Jornada Mundial da Juventude! Trazeis dentro de vós questões, e procurais respostas. É bom não parar de procurar. Procurai sobretudo a Verdade que não é uma ideia, nem uma ideologia nem um slogan, mas uma Pessoa, Cristo, o próprio Deus vindo ao meio dos homens! Tendes razão em querer radicar nEle a vossa fé, querer fundar a vossa vida em Cristo. Ele vos ama desde sempre e conhece melhor do que ninguém. Possam estes dias, ricos de oração, de ensinamento e de encontros, ajudar-vos a descobri-Lo ainda mais para melhor O amardes. Que Cristo vos acompanhe durante este tempo forte, em que iremos, todos juntos, celebrá-Lo e rezar a Ele.

Saudação em inglês
Estendo uma saudação afetuosa aos numerosos jovens de língua inglesa vindos a Madri. Possam estes dias de oração, amizade e celebração estreitar-nos uns aos outros e ao Senhor Jesus. Mantende a confiança na palavra de Cristo como alicerce da vossa vida! Enraizados e edificados nEle, firmes na fé e abertos ao poder do Espírito, encontrareis o vosso lugar no plano de Deus e enriquecereis a Igreja com os vossos dons. Rezemos uns pelos outros, para podermos ser jubilosas testemunhas de Cristo, hoje e sempre. Deus vos abençoe a todos!

Saudação em alemão
Caros amigos de língua alemã! Saúdo todos vós. Estou contente com a vossa presença tão numerosa. Nestes dias, queremos juntos professar, aprofundar e transmitir a nossa fé em Cristo. Experimentamos mais uma vez: é Ele que verdadeiramente dá o sentido da nossa vida. Abramos o coração a Cristo. E que Ele nos conceda um tempo cheio de felicidade e de graças em Madri.

Saudação em italiano
Queridos jovens italianos! Com grande afeto, vos saúdo e me alegro com a vossa participação numerosa e animada pela alegria da fé. Vivei estes dias com espírito de intensa oração e fraternidade, dando testemunho da vitalidade da Igreja na Itália, das paróquias, associações, movimentos. Partilhai com todos esta riqueza. Obrigado!

Saudação em português
Queridos jovens dos diversos países de língua oficial portuguesa e todos os que vos acompanham, bem-vindos a Madri! A todos saúdo com grande amizade e convido a subir até à fonte eterna da vossa juventude e conhecer o protagonista absoluto desta Jornada Mundial e – espero – da vossa vida: Cristo Senhor. Nestes dias, ouvireis pessoalmente ressoar a Sua Palavra. Deixai que esta Palavra penetre e crie raízes nos vossos corações, e sobre ela edificai a vossa vida. Firmes na fé, sereis um elo na grande cadeia dos fiéis. Não se pode crer sem ser amparado pela fé dos outros, e pela minha fé contribuo também para amparar os outros na fé. A Igreja precisa de vós, e vós precisais da Igreja.

Saudação em polonês
Saúdo os jovens vindos da Polônia, concidadãos do Beato João Paulo II, o iniciador das Jornadas Mundiais da Juventude. Alegro-me pela vossa presença aqui em Madri! Desejo-vos dias estupendos, dias de oração e de consolidação da vossa união com Jesus. Que vos guie o Espírito de Deus.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 18 de agosto de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Jovens - arraigados e edificados em Cristo - manifestem a firmeza da sua fé



Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Cerimônia de boas-vindas

Discurso do Papa Bento XVI

Aeroporto Internacional de Madri Barajas
Quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Majestades,
Senhor Cardeal Arcebispo de Madri,
Senhores Cardeais,
Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Distintas Autoridades Nacionais, Autonômicas e Locais, 
Querido povo de Madri e da Espanha inteira!
Obrigado, Majestade, pela sua presença aqui, juntamente com a Rainha, e pelas palavras deferentes e amigas de boas-vindas que me dirigiu. Palavras que me fazem reviver as inesquecíveis demonstrações de simpatia recebidas nas minhas anteriores visitas apostólicas a Espanha, e de modo muito particular na minha recente viagem a Santiago de Compostela e a Barcelona. Saúdo cordialmente a todos vós que vos encontrais reunidos aqui em Barajas, e todos os que acompanham esta cerimônia através do rádio e da televisão. Uma menção muito agradecida desejo fazer aos que, com tanto zelo e dedicação, nas instituições eclesiais e civis, contribuíram com o seu esforço e trabalho para que esta Jornada Mundial da Juventude em Madri decorra em boa ordem e se cubra de abundantes frutos.
Desejo também agradecer de todo o coração a hospitalidade de tantas famílias, paróquias, colégios e outras instituições que acolheram os jovens vindos de todo o mundo, primeiro nas diversas regiões e cidades da Espanha e agora nesta grande cidade de Madri, cosmopolita e sempre de portas abertas.
Venho aqui para me encontrar com milhares de jovens de todo o mundo, católicos, interessados por Cristo ou à procura da verdade que dê sentido genuíno à sua existência. Chego como Sucessor de Pedro para confirmar a todos na fé, vivendo alguns dias de intensa atividade pastoral para anunciar que Jesus Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida. Para animar o compromisso de construir o Reino de Deus no mundo, no meio de nós. Para exortar os jovens a se encontrarem pessoalmente com Cristo Amigo e, assim, radicados na Sua Pessoa, converterem-se em Seus fiéis seguidores e valorosas testemunhas.
Esta multidão de jovens que veio a Madri... por que e para que vieram? Embora a resposta deva ser dada por eles mesmos, pode-se, no entanto, pensar que desejam escutar a Palavra de Deus, como lhes foi proposto no lema para esta Jornada Mundial da Juventude, de tal maneira que, arraigados e edificados em Cristo, manifestem a firmeza da sua fé.
Muitos deles talvez tenham ouvido a voz de Deus apenas como um leve sussurro, impelindo-os a procurá-Lo mais diligentemente e a partilhar com outros a experiência da força que tem na suas vidas. Esta descoberta do Deus vivo revigora os jovens e abre os seus olhos para os desafios do mundo onde vivem, com as suas possibilidades e limitações. Veem a superficialidade, o consumismo e o hedonismo imperantes, tanta banalidade na vivência da sexualidade, tanto egoísmo, tanta corrupção. E sabem que, sem Deus, seria difícil afrontar estes desafios e ser verdadeiramente felizes, colocando para isso todo o entusiasmo na consecução de uma vida autêntica. Mas, com Ele a seu lado, terão luz para caminhar e razões para esperar, não se detendo nem mesmo diante dos ideais mais altos, que hão de motivar os seus generosos compromissos para a construção de uma sociedade onde se respeite a dignidade humana e uma efetiva fraternidade. Aqui, nesta Jornada, eles têm uma ocasião privilegiada para colocar em comum as suas aspirações, trocar reciprocamente a riqueza das suas culturas e experiências, animar-se mutuamente num caminho de fé e de vida, no qual alguns se julgam sozinhos ou ignorados nos seus ambientes cotidianos. Mas não! Não estão sozinhos. Muitos da sua idade partilham os mesmos propósitos deles e, confiando inteiramente em Cristo, sabem que têm realmente um futuro à sua frente e não temem os compromissos decisivos que preenchem toda a vida. Por isso me dá imensa alegria poder escutá-los, rezarmos juntos e celebrar a Eucaristia com eles. A Jornada Mundial da Juventude traz-nos uma mensagem de esperança, como uma brisa de ar puro e juvenil, com aromas renovadores que nos enchem de confiança face ao amanhã da Igreja e do mundo.
Não faltam, certamente, dificuldades. Subsistem tensões e confrontos em aberto em muitos lugares do mundo, inclusive com derramamento de sangue. A justiça e o sublime valor da pessoa humana facilmente se curvam a interesses egoístas, materiais e ideológicos. Nem sempre se respeita, como é devido, o meio ambiente e a natureza, que Deus criou com tanto amor. Além disso, muitos jovens olham com preocupação para o futuro diante da dificuldade de encontrar um trabalho digno, ou por terem perdido o emprego, ou por ser este muito precário. Há outros que precisam de prevenção para não cair na rede das drogas, ou de uma ajuda eficaz, caso desgraçadamente já tenham caído nela. Há muitos que, por causa da sua fé em Cristo, são vítimas de discriminação, que gera o desprezo e a perseguição, aberta ou dissimulada, que sofrem em determinadas regiões e países. Molestam-lhes querendo afastá-los dEle, privando-os dos sinais da Sua presença na vida pública e silenciando mesmo o Seu santo Nome. Mas, eu volto a dizer aos jovens, com todas as forças do meu coração: Que nada e ninguém vos tire a paz; não vos envergonheis do Senhor. Ele fez questão de fazer-Se igual a nós e experimentar as nossas angústias para levá-las a Deus, e assim nos salvou.
Neste contexto, é urgente ajudar os jovens discípulos de Jesus a permanecerem firmes na fé e a assumirem a maravilhosa aventura de anunciá-la e testemunhá-la abertamente com a sua própria vida. Um testemunho corajoso e cheio de amor pelo homem irmão, ao mesmo tempo decidido e prudente, sem ocultar a própria identidade cristã, num clima de respeitosa convivência com outras legítimas opções e exigindo ao mesmo tempo o devido respeito pelas próprias.
Majestades, ao renovar-lhes o meu agradecimento pelas deferentes boas-vindas que me proporcionaram, desejo exprimir também o meu apreço e proximidade a todos os povos da Espanha, bem como a minha admiração por um país tão rico de história e cultura, pela vitalidade da sua fé, que frutificou em tantos santos e santas de todas as épocas, em numerosos homens e mulheres que, deixando a sua terra, levaram o Evangelho a todos os cantos do mundo, e em pessoas retas, solidárias e bondosas por todo o seu território. Trata-se de um grande tesouro, que vale a pena, sem dúvida, cuidar com atitude construtiva, para o bem comum de hoje e para oferecer um horizonte luminoso ao porvir das novas gerações. Embora atualmente haja motivos de preocupação, maior é a solicitude dos espanhóis pela sua superação com esse dinamismo que os caracteriza e para o qual contribuem grandemente as suas profundas raízes cristãs, muito fecundas ao longo dos séculos.
Daqui saúdo com grande cordialidade todos os queridos amigos espanhóis e madrilenos, e todos os que vieram de outras terras. Durante estes dias estarei junto de vós, mas tendo também muito presente todos os jovens do mundo, particularmente os que atravessam provações de diversa natureza. Ao confiar este encontro à Santíssima Virgem Maria e à intercessão dos Santos protetores desta Jornada, peço a Deus que abençoe e proteja sempre os filhos da Espanha. Muito obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 18 de agosto de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

Meditar: "ruminar" os mistérios de Deus e Sua vontade


Bento XVI

Audiência Geral

Pátio do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo
Quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Ainda estamos sob as luzes da Festa da Assunta, que – como eu disse – é uma Festa da esperança. Maria chegou ao Paraíso e este é o nosso destino: todos nós podemos chegar ao Paraíso. A questão é: como? Maria chegou; Ela – disse o Evangelho – é “Aquela que acreditou no cumprimento daquilo que o Senhor lhe disse” (Lc 1, 45). Portanto, Maria acreditou, confiou-se a Deus, entrou com a sua vontade na vontade do Senhor e, assim, estava exatamente no caminho mais direto, na estrada que leva ao Paraíso. Acreditar, confiar-se ao Senhor, entrar na sua vontade: esta é a direção essencial.
Hoje, não gostaria de falar sobre todo este caminho da fé, mas apenas sobre um pequeno aspecto da vida da oração que é a vida do contato com Deus, ou seja, falar sobre a meditação. E o que é a meditação? Quer dizer “fazer memória” daquilo que Deus fez e não esquecer os tantos benefícios que Ele nos faz (cf. Sl 103, 2b). frequentemente, vemos apenas as coisas negativas; temos que manter na nossa memória também as coisas positivas, os dons que Deus nos fez, estar atentos aos sinais positivos que veem de Deus e fazer memória deles. Portanto, falamos de um tempo de oração que, na tradição cristão, é chamada “oração mental”. Conhecemos, em geral, a oração com palavras, naturalmente também a mente e o coração devem estar presentes nesta oração, mas falamos hoje sobre uma meditação que não é feita de palavras, mas é um deixar que nossa mente entre em contato com o coração de Deus. E Maria, aqui, é um modelo muito real. O evangelista Lucas repete, diversas vezes, que Maria “de sua parte, guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração” (Lc 2, 19; cf. 2, 51b). Guarda, não esquece, Ela é atenta a tudo o que o Senhor lhe disse e fez, e medita, ou seja, entra em contato com diversas coisas, aprofunda-as no seu coração.
Aquela, portanto, que “acreditou”, no momento do anúncio do Anjo, e que se fez instrumento para que a Palavra eterna do Altíssimo pudesse se encarnar, acolheu também no seu coração o maravilhoso prodígio daquele nascimento humano-divino, meditou-o, concentrou-se na reflexão sobre aquilo que Deus estava operando nEla, para acolher a vontade divina na sua vida e corresponder a ela. O mistério da encarnação do Filho de Deus e da maternidade de Maria é tão grande que requer um processo de interiorização, não é apenas algo de físico que Deus opera nEla, mas é algo que exige uma interiorização por parte de Maria, que tenta aprofundar a inteligência do que aconteceu, interpretar seu sentido, compreender as implicações. Assim, dia após dia, no silêncio da vida ordinária, Maria continuou a guardar no seu coração os sucessivos eventos maravilhosos de que foi testemunha, até à prova extrema da Cruz e à glória da Ressurreição. Maria viveu plenamente a sua existência, os seus deveres cotidianos, a sua missão de mãe, mas soube manter em si um espaço interior para refletir sobre a palavra e sobre a vontade de Deus, sobre tudo o que acontecia nEla, sobre os mistérios da vida do seu Filho.
No nosso tempo, somos absorvidos por tantas atividades e compromissos, preocupações, problemas; frequentemente, tendemos a preencher todos os espaços do dia, sem ter um momento para parar e refletir e nutrir a vida espiritual, o contato com Deus. Maria nos ensina como é necessário encontrar, nos nossos dias, com todas as atividades, momentos para nos recolhermos em silêncio e meditar sobre aquilo que o Senhor nos quer ensinar, sobre como está presente e age no mundo e na nossa vida: ser capazes de parar um momento e meditar. Santo Agostinho compara a meditação sobre os mistério de Deus à assimilação da comida e usa um verbo que aparece repetidas vezes em toda a tradição cristão: “ruminar”; ou seja, os mistérios de Deus devem ser continuamente ecoados em nós para que se tornem familiares para nós, guiem a nossa vida, nos nutram como acontece com o alimento necessário para nos sustentar. E São Boaventura, referindo-se às palavras da Sagrada Escritura, diz que “devem ser sempre ruminadas para que possam ser fixadas, com ardente aplicação do espírito” (Coll. In Hex, ed. Quaracchi 1934, p. 218). Meditar, pois, quer dizer criar em nós uma situação de recolhimento, de silêncio interior, para refletir, assimilar os mistérios da nossa fé e aquilo que Deus opera em nós; e não apenas as coisas que vão e vêm. Podemos fazer esta “ruminação” de vários modos, tomando, por exemplo, um breve trecho da Sagrada Escritura, sobretudo dos Evangelhos, dos Atos dos Apóstolos, das Cartas dos apóstolos, ou então uma página de um autor de espiritualidade que nos aproxima e torna mais presente as realidades de Deus para o nosso hoje, ou mesmo deixando-se aconselhar por um confessor ou por um diretor espiritual, ler e refletir sobre o que se leu, centrando-se sobre isto, tentando compreender, entender o que diz para mim, o que diz hoje, abrir o nosso espírito àquilo que o Senhor quer nos dizer e ensinar. Também o Santo Rosário é uma oração de meditação: repetindo a Ave Maria somos convidados a repensar e a refletir sobre o Mistério que proclamamos. Mas podemos nos concentrar também sobre alguma intensa experiência espiritual, sobre palavras que permaneceram impressas em nós ao participar da Eucaristia dominical. Portanto, como podeis ver, existem muitos modos de meditar e, dessa forma, tomar contato com Deus e nos aproximar de Deus e, assim, estar no caminho em direção ao Paraíso.
Caros amigos, a constância no dar tempo a Deus é um elemento fundamental para o crescimento espiritual; será o Senhor mesmo que nos concederá o gosto dos Seus mistérios, das Suas palavras, da Sua presença e ação, sentir como é belo quando Deus fala conosco; nos fará compreender, de modo mais profundo, o que quer de mim. Enfim, é exatamente este o objetivo da meditação: confiar-se sempre mais às mãos de Deus, com confiança e amor, certos de que somente fazendo a Sua vontade seremos, no fim, verdadeiramente felizes.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 17 de agosto de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Uma “viagem” no tempo para viver o cristianismo hoje


Por Danilo Zardin

“A modernidade não consiste somente de negatividade. Se fosse assim, não poderia durar por muito tempo. Ela tem em si grandes valores morais que advêm exatamente do cristianismo, que somente graças ao cristianismo, como valor, entraram na consciência da humanidade”.
Extrapolado do seu contexto, o elogio da alma boa que se esconde nas dobras profundas da modernidade filha da tradição europeia poderia parecer a alguém um pouco romântico e excessivamente otimista: no entanto, é impregnado do são realismo que está na base do juízo histórico-cultural elaborado por Joseph Ratzinger/Bento XVI, na qualidade de homem capaz de sistematizar a posição cristã diante dos desafios do nosso contexto contemporâneo.
A frase citada é retirada exatamente do recente livro-entrevista organizado por Peter Seewald, Luz do mundo, e foi retomada por Francesco Ventorino num discurso seu de apresentação do volume. Agrade ou não, é uma perspectiva de avaliação cheia de razão e altamente compreensiva, aberta a todas as dimensões globais daquele mosaico intrincado que é o mundo no qual vivemos.
Vale a pena levá-la realmente a sério como hipótese de leitura e colocá-la à prova com a máxima cordialidade confiante, começando pelos fragmentos de realidade do passado com os quais nos embatemos quando nos havemos com as criações artísticas, as memórias literárias ou os relatos históricos que nos restituem, hoje, as vozes e o pensamento mais autêntico, para além dos esquemas e dos preconceitos superficiais dos quais, às vezes, corremos o risco de ficarmos prisioneiros.
Neste sentido, uma ajuda significativa é oferecida pela tradução para o italiano da síntese do jesuíta Robert Bireley sobre a renovação católica da primeira idade moderna: Ripensare il cattolicesimo (1450-1700): nuove interpretazioni della Controriforma [Repensar o catolicismo (1450-1700): novas interpretações da Contra-Reforma, em tradução livre, publicado pela Marietti; ndt]. Na versão italiana, por exigências de simplicidade na divulgação da mensagem, foi introduzida no título a palavra “ripensare”. Mas, na versão original americana, de 1999, no lugar de “ripensare” se encontra uma ainda mais forte “remodelar” (The Refashioning), que, a partir do espaço das nossas concepções intelectuais, nos leva à substância dos desenvolvimentos históricos reconstruídos; assim como, ao invés de estar diante das “novas interpretações”, somos colocados diante, mais ambiciosamente, da proposta de uma “revisão” ou “reformulação”, em sentido geral (A Reassessment), daquilo que antes se usava chamar Contra-Reforma, mas que Bireley tentar redesenhar de forma diferente, a ponto de solicitar o abandono das velhas etiquetas de fundo polêmico, para passar a outras categorias de juízo mais adequadas ao objeto a que se referem.
Com efeito, como sabe muito bem que tem um mínimo de familiaridade com a história religiosa do nosso Ocidente, a crítica da unilateralidade contida no estereótipo negativo da “Contra-Reforma” já havia sido levada adiante, até ao mais elevado nível pela historiografia europeia do século XX, por Hubert Jedin. Mas Bireley, referindo-se mais à nova sensibilidade amadurecida na esteira das pesquisas dos últimos cinquenta anos, retomando a terminologia lançada por outro estudioso de bastante autoridade e jesuíta ainda ativo hoje em dia (John O’Malley), ultrapassa também a recuperação tentada por Jedin a favor da corrente positiva de uma “Reforma Católica” anterior e paralela ao movimento da Contra-Reforma.
Como O’Malley, Bireley opta decididamente pelo uso do único conceito geral de “catolicismo da primeira idade moderna”: onde o fantasma da contraposição à outra grande Reforma (a protestante) cessa de ser a pedra angular sobre a qual gravita toda a construção de um catolicismo reorganizado sobre seus fundamentos e readaptado às exigências de um universo modificado, depois da saída de cena daquele que, por três séculos ou mais, usou-se chamar  “Idade Média”.
Recapitulando os frutos mais atualizados da pesquisa internacional sobre a história cristã do mundo moderno, o livro do estudioso norteamericano traça, em alguns capítulos convincentes, o aspecto dinâmico e poderosamente criativo de uma religião que não era apenas a cansada relíquia de uma gloriosa tradição do passado, mas uma força viva que contribuiu, com um papel de primeiro plano, exatamente para o desenvolvimento, num sentido novo, da civilização humana que – aquela tradição – havia hospedado e feito crescer no seu seio fecundo.
O elemento dinâmico está justamente, para Bireley, na capacidade de “responder” às mudanças que se estavam desdobrando, sem fechar-se na defesa das velhas posições já garantidas. O novo que avançava era uma pergunta ou um “desafio” que solicitava a consciência católica a reagir, atingindo, a partir do patrimônio da sua extraordinária riqueza, ideias, estímulos e projetos que, depois, iriam se amalgamar com o vigor irreprimível de descobertas e aquisições revestidas do fascínio de uma originalidade surpreendente e plasticamente móvel, carregada de uma força propositiva tenaz.
Esta parábola de inteligente aplicação em proveito dos recursos contidos no próprio código genético é delineada por Bireley em relação ao florescimento dos novos carismas e dos novos modelos de santidade ativa, que revolucionaram os quadros das instituições da Igreja de Roma e dilataram em sentido ainda mais impressionantemente pluralista a variedade das suas formas de vida religiosa comunitária, antes e depois do Concílio de Trento (enquanto que a Reforma, no norte, tendia a reduzir tudo a um esquema filoparoquial achatado em sentido nivelador).
Mas a dinâmica reemerge também na invenção de uma estratégia educativa intensificada para atingir o indivíduo, ancorada no cuidado da consciência pessoal do eu, no desfrute dos recursos da cultura escrita, do catecismo e da escola, na disciplina da conduta prática através da elaboração de sistemas de regras, de guias, de manuais, de “exercícios”, de modelos ideais nos quais se espelhar e pelos quais se deixar dirigir para imprimir uma “forma” à própria vida do mundo.
A mesma ânsia de propor uma rede global de significados para a vida de cada homem se derramou, já desde o início do mundo moderno, numa nova “evangelização” destinada a se projetar de forma decidida, pela primeira vez na história, para além dos confins da Europa. As missões eram dirigidas, porém, também para o interior, rumo à restauração da velha forma de ser da cristandade do continente e em vista do novo impulso da sua consciência ética coletiva, tendo como pano de fundo a grande obra conjunta que entrava em diálogo com as exigências da política e da consolidação dos aparatos de Estado, assim como se dobrava sobre as forças secretas da natureza e buscava dominar os seus mecanismos para manipulá-los a fim de manter a centralidade do bem-estar do homem, servindo-se da ciência e da técnica como prolongamentos necessários da gestão responsável da totalidade da criação.
O êxito talvez mais surpreendentemente moderno deste esforço de “repensamento” da inserção da fé católica na realidade do mundo foi a descoberta ainda mais lúcida e consciente da possibilidade de viver o cristianismo, “na sua plenitude”, não apenas num estado de perfeição separado das condições da massa do povo dos fiéis, mas também dentro do fluxo de uma “secularidade” plasmada pelos deveres do governo da família, dos compromissos cotidianos de trabalho, na imersão mais ampla e envolvente dentro da vida coletiva da sociedade: uma fé totalmente encarnada, mas capaz de reconverter a “carne” mesma da vida do mundo.

O livro de Robert Bireley foi publicado em 2010, em italiano, e pode ser adquirido na Itacalibri, pelo valor de € 29,00. A edição original, de 1999 - The Refashioning of Catholicism, 1450-1700: A Reassessment of the Counter Reformation - pode ser adquirida na Amazon, ao preço de $ 17,53.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 12 de agosto de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.