sábado, 15 de outubro de 2011

Santa Teresa de Ávila

15 de outubro


Santa Teresa de Ávila,
rogai por nós!

Nada te turbe 
Nada te espante 
Dios no muda 
Todo se pasa 
La paciencia 
Todo lo alcanza 
Quien a Dios tiene 
Nada le falta 
Solo Dios basta


Nada te perturbe 
Nada te espante 
Tudo passa, 
Só Deus não muda. 
A paciência 
Tudo alcança 
Quem tem a Deus, 
Nada lhe falta. 
Só Deus basta

“Uma prova de que Deus esteja conosco não é o fato de que não venhamos a cair, mas que nos levantemos depois de cada queda”

Comentário ao evangelho do dia


Santa Teresa de Ávila

1ª Leitura - Rm 4,13.16-18
Irmãos, não foi por causa da Lei, mas por causa da justiça que vem da fé, que Deus prometeu o mundo como herança a Abraão ou à sua descendência. É em virtude da fé que alguém se torna herdeiro. Logo, a condição de herdeiro é uma graça, um dom gratuito, e a promessa de Deus continua valendo para toda a descendência de Abraão, tanto para a descendência que se apega à Lei, quanto para a que se apoia somente na fé de Abraão, que é o pai de todos nós. Pois está escrito: "Eu fiz de ti pai de muitos povos". Ele é pai diante de Deus, porque creu em Deus que vivifica os mortos e faz existir o que antes não existia. Contra toda a humana esperança, ele firmou-se na esperança e na fé. Assim, tornou-se pai de muitos povos, conforme lhe fora dito: "Assim será a tua posteridade". 

Evangelho - Lc 12,8-12
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: "Todo aquele que der testemunho de mim diante dos homens, o Filho do Homem também dará testemunho dele diante dos anjos de Deus. Mas aquele que me renegar diante dos homens, será negado diante dos anjos de Deus. Todo aquele que disser alguma coisa contra o Filho do Homem será perdoado. Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo não será perdoado. Quando vos conduzirem diante das sinagogas, magistrados e autoridades, não fiqueis preocupados como ou com que vos defendereis, ou com o que direis. Pois nessa hora o Espírito Santo vos ensinará o que deveis dizer".

Comentário retirado das Atas do Martírio de São Justino e dos seus companheiros
Ano 163, PG 6, 1565-1572

Aqueles homens santos foram presos e levados ao prefeito de Roma, chamado Rústico. Estando eles diante do tribunal, o prefeito Rústico disse a Justino [...]: “Que doutrina professas?”. Justino disse: “Procurei conhecer todas as doutrinas, mas acabei por abraçar a doutrina verdadeira dos cristãos”. [...] O prefeito Rústico inquiriu: “Que verdade é essa?”. Justino explicou: “Adoramos o Deus dos cristãos, a quem consideramos como o único Criador, desde o princípio, e autor de toda a Criação, das coisas visíveis e invisíveis, e o Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, de Quem foi anunciado pelos profetas que viria ao gênero humano como mensageiro da Salvação e Mestre da boa doutrina. E eu, porque sou homem e nada mais, considero insignificante tudo o que digo para exprimir a Sua divindade infinita, mas reconheço o valor das profecias [...] e sei que eram inspirados por Deus os profetas que vaticinaram a Sua vinda ao meio dos homens”. Rústico perguntou: “Onde vos reunis? [...] Diz-me [...] em que lugar juntas os teus discípulos”. Justino respondeu: “Eu vivo em casa de um certo Martinho, nos banhos de Timiotino. [...] Ali, se alguém queria ir ver-me, comunicava as palavras da verdade”. Rústico perguntou: “Portanto, tu és cristão?”. Justino confirmou: “Sim, sou cristão”. O prefeito Rústico perguntou a Caritão: “Diz-me tu agora, Caritão, também és cristão?”. Caritão respondeu: “Sou cristão por graça de Deus”. [...] Rústico perguntou a Evelpisto: “E tu, de quem és, Evelpisto?”. Evelpisto, escravo de César, respondeu: “Também sou cristão, libertado por Cristo, e por graça de Cristo participo da mesma esperança que estes”. [...] O prefeito Rústico perguntou: “Foi Justino que vos fez cristãos?”. Hierax respondeu: “Eu sou cristão há muito tempo e cristão continuarei a ser”. E Peão, pondo-se de pé, disse: “Também eu sou cristão”. [...] Evelpisto disse: “Eu gostava de ouvir os discursos de Justino, mas a ser cristão aprendi-o de meus pais”. [...] O prefeito Rústico disse a Liberiano: “E tu, que dizes? Também és cristão? Também tu não tens religião?”. Liberiano respondeu: “Também eu sou cristão e, quanto à minha religião, só adoro o Deus verdadeiro”. O prefeito disse a Justino: “Ouve, tu que és tido por sábio e julgas conhecer a verdadeira doutrina: se fores flagelado e decapitado, estás convencido de que subirás ao Céu?”. Justino respondeu: “Espero entrar naquela morada, se tiver de sofrer o que dizes, pois sei que a todos os que viverem santamente lhes está reservada a recompensa de Deus até ao fim dos séculos”. O prefeito Rústico perguntou: “Então tu supões que hás-de subir ao Céu para receber algum prêmio em retribuição?”. Justino disse: “Não suponho, sei-o com toda a certeza”.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O que resta do Pai?



Por Jonah Lynch

Impressiona pela profundidade das intuições o último trabalho do psicanalista Massimo Recalcati, Cosa resta del padre? (O que resta do pai?, em tradução livre; ndt), na livrarias pela editora de Raffaello Cortina. 
Vai muito além das minhas competências avaliar a interpretação de Lacan que nutre e sustenta o pensamento do autor. O que gostaria de considerar é apenas uma pequena parte do livro, que porém é uma janela útil para se chegar ao conjunto da proposta de Recalcati. Trata-se de um dos exemplos literários tomados como “testemunhos” ao final do livro: a figura do pai em A estrada, de Cormac McCarthy. Recalcati sintetiza assim a lição que aquele pai nos dá, através do seu testemunho da esperança, do seu “levar o fogo”: “A vida não é abuso, não é luta para o triunfo do mais forte, não é violência cega. A vida é dedicação, cuidado, presença. A dedicação de um pai a um filho. O amor não é amor da vida, não é amor pelo mundo. O amor é amor do nome, é amor por um nome próprio, pelo mais particular, é amor de um pai por um filho. Nunca é amor pelo universal” (p. 162). Na página seguinte, o autor afirma nas entrelinhas uma novidade desta posição quanto ao que diz respeito à tradição cristã: “O verbo existe apenas através de uma criança. Não é mais aquilo que redime e justifica a vida, não é mais aquilo que pode salvar o mundo, mas é aquilo que pode continuar a existir somente através da singularidade de uma vida” (p. 163). O autor conclui a sua interpretação de McCarthy com um decálogo minimalista: “... algo que resiste, que não cede diante do próprio desejo, a algo, uma sobra de pai que, mesmo no esfacelamento e na decomposição niilista de todos os valores, insiste em transmitir com o fogo a vida como possível. Não matar, não comer, não violentar o outro homem. O que sobra do pai é o ser portador do fogo na noite escura de um mundo sem Deus” (p. 168).
Foi exatamente isto que me comoveu em A estrada. O mundo é mais feio quando vivido sem doação. O egoísmo não nos realiza. Com Recalcati, estou convicto de que seja melhor, mais conveniente para si e para os outros, viver a gratuidade, mesmo que seja na ausência de alguma justificativa transcendente.
Mas, me pergunta se a beleza sedutora de afirmar o outro não obstante tudo, “na noite escura de um mundo sem Deus”, não possa também esconder uma falsidade sutil. Este altruísmo parece ter necessidade da cenografia de um mundo desesperado e brutal. De outra forma, o seu esforço nobre e trágico não ressaltaria. Mas quem me garante que o sacrifício e o meu fazer as vezes do Pai-eterno ausente não seja, na realidade, a minha necessidade de me sentir um herói?
A resposta a esta pergunta está na experiência do sacrifício por amor, tema pouco valorizado no livro de Recalcati. Ele chega à soleira do problema, nas últimas páginas, dedicadas ao filme de Clint Eastwood, Gran Torino, mas não o enfrenta.
Não insisto sobre este ponto apenas por um senso de conservadorismo militante, mas porque é estranho como Recalcati recusa o Deus cristão e, ao mesmo tempo, acaba fazendo um retrato Seu em muitos aspectos preciso, comovente e desejável.
Parece que o axioma tantas vezes repetido do “céu vazio” seja simplesmente uma opinião do autor que tem pouco que ver com o conteúdo da sua proposta. Estamos de acordo praticamente em tudo: graças a Deus que o céu não contém a terrível presença do deus de Sartre ou de um pai-tirano como Zeus. Tem razão, é muito sugestivo descrever o pai, com Lacan, como aquele que une desejo e Lei. É fundamental a experiência do limite e da falha, assim como é fundamental experimentar a vida como mistério superabundante, e viver tanto a errância quanto a pertença, trazidas à tona pelo autor com uma referência ao filho pródigo.
Mas quem foi que disse que não há um vínculo forte e real entre a doação de um pobre pai perdido nas cinzas pós-apocalípticas e a suma gratuidade do Pai criador? Por que não afirmar também esta possibilidade? Ela exalta, não elimina, a beleza da “singularidade de uma vida”.
Fico tocado que aquilo que Recalcati propõe e deseja seja justamente aquilo que Jesus fez. Ele não resolveu os problemas. O Onipotente não dominou com seu poder, mas se humilhou e se comunicou a poucas vidas singulares, aos apóstolos.
Não iluminou a noite com uma mágica solução deus ex machina. Mais do que isso: ele transmitiu o fogo da caridade, que rende a vida possível e belíssima, mesmo quando é inteiramente vivida no vale escuro do mundo hiper-moderno. Tu estás comigo: não temerei mal algum. Sobretudo, não temerei que amanhã seja inevitavelmente pior do que hoje. Aquele fogo que Tu me acendeste poderá passar não apenas a um filho, mas a dois, talvez três. Será preciso o tempo, mas assim nascerá um povo luminoso.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 12 de outubro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Cartas do P.e Aldo 207


Asunción, 10 de outubro de 2011.

Caros amigos,
Nesta noite, fiquei mais tempo do que o normal olhando meus filhinhos doentes, particularmente Victor. Desde quando nasceu está na mesma caminha. Não fala, não vê, não escuta. Parece totalmente ausente da realidade. Depende do outro em tudo. Não tem caixa craniana e seus olhinhos, há tempos, estouraram. Só pode ser colocado em duas posições: deitado com a barriga para cima e, de vez em quando, delicadamente deitado sobre um dos dois lados. As escaras de decúbito, tratadas o tempo inteiro, junto com o gemidozinho que o acompanha, mostram o quadro físico que vemos dele. E no entanto, Victor é muito, infinitamente mais do que isso. É a evidência clamorosa da vibração do Ser. Eu o olho comovido, o acaricio porque ele existe. Existe! Que maravilhamento eu sinto em mim quando olho para o ser que vibra em cada detalhe do seu corpo martirizado! Victor existe, vive! Cada vez que me aproximo dele, fico impactado com a beleza de ser nada mais do que um fragmento de segundo: ele, como eu, é feito em cada momento. A sua beleza e a do ser, do seu ser quase enjaulado num corpo aparentemente deformado e que, no entanto, é templo do Espírito Santo. Ele, acredito, me conheça pelos meus beijos, pela ternura, mas sobretudo porque tanto eu como ele existimos e somos como “Tu que me fazes”. O valor da sua vida, como a do meu filho Aldo e de Mário, está no ser que posso contemplar e, imediatamente, reconhecer: eles, como eu, são relação com o infinito. Muitas vezes penso olhando para eles, assim “deformados” para o mundo – porque a cultura de hoje não consegue mais perceber o ser, aquilo que existe na sua profundidade. Tantos são os casais que, quando esperam um filho, mais do que ficarem comovidos até às lágrimas pelo fato de que ele exista, ficam é preocupados com o como ele é, como ele está, ou se é menino ou menina. Que besteira! Antes do ultrassom, há a comoção pelo ser. Aquela comoção que, seja lá qual for o resultado do ultrassom, cresce fazendo-nos vibrar porque o Mistério se manifestou. Que graça para mim, para vocês, o meu Victor, sacramento do ser que o cria em cada momento. É noite de sábado, mas não consigo me afastar de Victor, de Aldo e de Mário. Victor respira com dificuldade, fiz-lhe uma carícia e ele esticou seus pequenos punhos. Desde o seu nascimento parece ausente da realidade, no entanto ele está no coração da realdiade. A beleza destas criaturas está apenas no fato de que EXISTEM!
E existem porque um Outro, antes de formá-los assim no seio de suas mães, pronunciou seus nomes. Entendem, então, como é um milagre existir, que comoção suscita em mim o ser de cada um?
Olhando para eles só posso ficar grato por aquilo que me une a eles. O ser e o ser fato agora. Desejo a todos os que esperam um filho que tenham esta posição de adoração e de comoção e não a preocupação egoísta de como será, para que não aconteça que desfaça os nossos projetos que não têm nada que ver com o ser e, portanto, com o desígnio de Deus sobre cada um de nós. Pensem na diferença abissal que há entre olhar um doente, um leproso como o que está na capela do Santíssimo, com estes olhos fixos sobre o ser, e olhar os mesmos apenas em seu aspecto fenomênico! Sem esta posição, que sentido teria a vida e o nosso viver cotidiano?
Padre Aldo

Na oração, permanecer abertos à esperança e firmes na fé em Deus


Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Nas catequeses anteriores meditamos sobre alguns Salmos de lamento e de confiança. Hoje gostaria de refletir convosco sobre um Salmo das noites de festa, uma oração que, na alegria, canta as maravilhas de Deus. É o Salmo 126 – segundo a numeração greco-latina é o 125 –, que celebra as grandes coisas que o Senhor operou com o seu povo e que continuamente opera com cada crente.
O Salmista, em nome de toda Israel, começa a sua oração recordando a experiência da salvação:
“Quando o Senhor reconduzia os cativos de Sião, estávamos como sonhando. Em nossa boca só havia expressões de alegria, e em nossos lábios canto de triunfo.” (vv. 1-2a).
O Salmo fala de uma “recondução”, ou seja de uma sorte restituída ao estado original, em toda a sua positividade anterior. Parte-se, portanto, de uma situação de sofrimento e de necessidade à qual Deus responde operando salvação e levando o orante de volto à condição inicial, enriquecida e mudada para melhor. É o que acontece com Jó, quando o Senhor lhe dá de volta tudo o que havia perdido, duplicando e derramando uma bênção ainda maior (cf. 42, 10-13), e é o que experimenta o povo de Israel voltando para a pátria vindo do exílio na Babilônia. É exatamente em referência ao fim da deportação em terra estrangeira que este Salmo é interpretado: a expressão “reconduzir os cativos de Sião” é lida e compreendida pela tradição como um “fazer retornar os prisioneiros de Sião”. Com efeito, o retorno do exílio é paradigma de toda intervenção divina de salvação, porque a queda de Jerusalém e a deportação para a Babilônia foram uma experiência devastante para o povo eleito, não apenas no plano político e social, mas também e sobretudo no plano religioso e espiritual. A perda da terra, o fim da monarquia davídica e a destruição do Templo são vistos como uma negação das promessas divinas, e o povo da aliança, disperso entre os pagãos, se interroga dolorosamente sobre um Deus que parece tê-lo abandonado. Por isso, o fim da deportação e o retorno para a pátria são experimentados como um maravilhoso retorno à fé, à confiança, à comunhão com o Senhor; é uma “restauração da sorte” que implica também conversão do coração, perdão, reencontro da amizade com Deus, consciência da sua misericórdia e renovada possibilidade de louvá-Lo (cf. Jr 29, 12-14; Jr 30, 18-20; Jr 33, 6-11; Ez 39, 25-29). Trata-se de uma experiência de alegria transbordante, de sorrisos e de gritos de júbilo, de tal forma bela que “parece que estávamos sonhando”. As intervenções divinas, frequentemente, têm formas inesperadas, que vão além do que homem possa imaginar; eis então a maravilha e a letícia que se exprimem no louvor: “O Senhor fez grandes coisas”. É o que dizem as nações, e é o que Israel proclama:
“Entre os pagãos se dizia: O Senhor fez por eles grandes coisas. Sim, o Senhor fez por nós grandes coisas; ficamos exultantes de alegria!” (vv. 2b-3).
Deus faz maravilhas na história dos homens. Operando a salvação, se revela a todos como Senhor poderoso e misericordioso, refúgio do oprimido, que não esquece o grito do pobre (cf. Sl 9, 10.13), que ama a justiça e o direito e cujo amor enche a terra (cf. Sl 32, 5). Por isso, diante da libertação do povo de Israel, todas as gentes reconhecem as coisas grandes e estupendas que Deus realiza pelo seu povo e celebram o Senhor na sua realidade de Salvador. E Israel ecoa a proclamação das nações, e a retoma repetindo-a, mas como protagonista, como destinatário direto da ação divina: “o Senhor fez por nós grandes coisas”; “por nós”, ou ainda mais precisamente, “conosco”, em hebraico ‘immanû, afirmando assim aquele relacionamento privilegiado que o Senhor mantém com seus eleitos e que encontrará no nome Emanuel, “Deus conosco”, com o qual Jesus é chamado, o seu ponto alto e a sua plena manifestação (cf. Mt 1, 23).
Caros irmãos e irmãs, na nossa oração devemos olhar mais frequentemente para como, nos acontecimentos da nossa vida, o Senhor no protegeu, guiou, ajudou e louvá-Lo pelo que fez e faz por nós. Devemos ser mais atentos às coisas boas que o Senhor nos dá. Estamos sempre atentos aos problemas, às dificuldades e quase não queremos perceber que existem coisas belas que vêm do Senhor. Esta atenção, que se torna gratidão, é muito importante para nós e cria em nós uma memória do bem que nos ajuda mesmo nas horas difíceis. Deus realiza coisas grandes, e quem faz experiência disso – atento à bondade do Senhor com a atenção do coração – fica cheio de alegria. É com essa nota de festa que se conclui a primeira parte do Salmo. Ser salvos e voltar para a pátria, saindo do exílio, é como voltar à vida: a libertação abre ao sorriso, mas também à espera de uma realização ainda desejada e pedida. É esta a segunda parte do nosso Salmo que soa assim:
“Mudai, Senhor, a nossa sorte, como as torrentes nos desertos do sul. Os que semeiam entre lágrimas, recolherão com alegria. Na ida, caminham chorando, os que levam a semente a espargir. Na volta, virão com alegria, quando trouxerem os seus feixes.” (vv. 4-6).
Se no início da oração, o Salmista celebrava a alegria de uma sorte restaurada pelo Senhor, agora, pelo contrário, ele a pede como algo que ainda precisa se realizar. Se este Salmo se aplica à volta do exílio, esta aparente contradição se explicaria com a experiência histórica, feita por Israel, de um retorno difícil para a pátria, somente parcial, que induz o orante a solicitar ainda outra intervenção divina, para levar à plenitude a restauração do povo.
Mas, o Salmo vai além do dado puramente histórico para se abrir a dimensões mais amplas, de tipo teológico. A experiência consoladora da libertação da Babilônia é, de toda forma, ainda incompleta, “já” ocorrida, mas “ainda não” marcada pela plenitude definitiva. Assim, enquanto que na alegria celebra a salvação recebida, a oração se abre para a espera da plena realização. Por isto, o Salmo utiliza imagens particulares, que, com a sua complexidade, remetem à realidade misteriosa da redenção, em que se entrelaçam o dom recebido e o que ainda se espera, vida e morte, alegria sonhadora e lágrimas dolorosas. A primeira imagem faz referência às torrentes secas do deserto do Negev, que com as chuvas se enchem de água impetuosa que dá vida outra vez para o terreno seco e o faz reflorescer. A solicitação do Salmista é, portanto, que a restauração da sorte do povo e o retorno do exílio sejam como aquela água, irresistível e irrefreável, e capaz de transformar o deserto numa imensa extensão de ervas verdes e flores.
A segunda imagem se desloca das colinas áridas e rochosas do Negev para os campos que os camponeses cultivam para tirar deles o alimento. Para falar da salvação, se remete neste ponto à experiência que a cada ano se renova no mundo agrícola: o momento difícil e cansativo da semeadura e depois a alegria irresistível da colheita. Uma semeadura que é acompanhada por lágrimas, porque se joga aquilo que ainda poderia servir para fazer pão, expondo-se a uma espera cheia de incertezas: o camponês trabalha, prepara o terreno, lança a semente, mas, como ilustra bem a parábola do semeador, não sabe onde esta semente vai cair, se os pássaros a comerão, se vai se firmar, se conseguirá lançar raízes, se se tornará espiga (cf. Mt 13, 3-9; Mc 4, 2-9; Lc 8, 4-8). Jogar a semente é um gesto de confiança e de esperança é necessária a operosidade do homem, mas também é preciso se colocar numa espera impotente, sabendo bem que muitos fatores serão determinantes para o bom êxito da colheita e que o risco de uma falha está sempre à espreita. E no entanto, ano após ano, o camponês repete o seu gesto e lança a sua semente. E quando ela se torna espiga, e os campos se enchem com a lavoura, eis a alegria de quem está diante de um prodígio extraordinário. Jesus conhecia bem esta experiência e falava sobre ela com os seus: “Dizia também: O Reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra. Dorme, levanta-se, de noite e de dia, e a semente brota e cresce, sem ele o perceber.” (Mc 4, 26-27). É o mistério escondido da vida, são as maravilhosas “grandes coisas” da salvação que o Senhor opera na história dos homens e de que os homens ignoram o segredo. A intervenção divina, quando se manifesta em plenitude, mostra uma dimensão impetuosa, como as torrentes do Negev e como o grão nos campos, este último evoca inclusive uma desproporção típica das coisas de Deus: desproporção entre a fadiga da semeadura e a imensa alegria da colheita, entre a ânsia da espera e a serena visão dos celeiros cheios, entre as pequenas sementes lançadas na terra e os grandes feixes dourados pelo sol. Na colheita, tudo se transforma, o pranto acaba, dando lugar ao grito de alegria exultante.
O Salmista se refere a tudo isto para falar da salvação, da libertação, da restauração da sorte, do retorno do exílio. A deportação para a Babilônia, assim como toda situação de sofrimento ou de crise, com sua escuridão feita de dúvidas e de aparente distância de Deus, na realidade, é como uma semeadura, diz o nosso Salmo. No Mistério de Cristo, à luz do Novo Testamento, a mensagem se faz ainda mais explícita e clara: o crente que atravessa aquela escuridão é como o grão de trigo caído na terra que morre, mas para dar muitos frutos (cf. Jo 12, 24); ou então, retomando uma outra imagem cara a Jesus, é como a mulher que sofre as dores do parto para poder chegar à alegria de ter dado à luz uma nova vida (cf. Jo 16, 21).
Caros irmãos e irmãs, este Salmo nos ensina que, na nossa oração, devemos permanecer sempre abertos à esperança e firmes na fé em Deus. A nossa história, ainda que marcada frequentemente pela dor, pelas incertezas, por momentos de crise, é uma história de salvação e de “restauração das sortes”. Em Jesus, todo exílio porque passamos acaba, e toda lágrima é enxugada, no mistério da Sua Cruz, da morte transformada em vida, como o grão de trigo que se rompe na terra e se transforma em espiga. Também para nós esta descoberta de Jesus Cristo é a grande alegria do “sim” de Deus, do restabeleciento da nossa sorte. Mas como aqueles que – voltando da Babilônia cheios de alegria – encontraram uma terra empobrecida, devastada, assim como a dificuldade da semeadura e sofreram chorando sem saber se realmente, no fim, haveria alguma colheita, assim também nós, depois da grande descoberta de Jesus Cristo – a nossa vida, a verdade, o caminho –, entrando no terreno da fé, na “terra da fé”, encontramos também frequentemente uma vida escura, dura, difícil, uma semeadura com lágrimas, mas seguros de que a luz de Cristo nos dá, no fim, realmente, a grande colheita. E devemos aprender isto mesmo nas noites escuras; não esquecer que a luz existe, que Deus já está em nossa vida e que podemos semear com grande confiança de que o “sim” de Deus é mais forte do que todos nós. É importante não perder esta recordação da presença de Deus na nossa vida, esta alegria profunda porque Deus entrou na nossa vida, libertando-nos: é a gratidão pela descoberta de Jesus Cristo, que veio até nós. E esta gratidão se transforma em esperança, é estrela da esperança que nos dá a confiança, é a luz, porque exatamente as dores da semeadura são o início da nova vida, da grande e definitiva alegria de Deus.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 12 de outubro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Somos católicos...

Comentário ao evangelho do dia


Nossa Senhora da Conceição Aparecida

1ª Leitura - Est 5,1b-2; 7,2b-3
Ester revestiu-se com vestes de rainha e foi colocar-se no vestíbulo interno do palácio real, frente à residência do rei. O rei estava sentado no trono real, na sala do trono, frente à entrada. Ao ver a rainha Ester parada no vestíbulo, olhou para ela com agrado e estendeu-lhe o cetro de ouro que tinha na mão, e Ester aproximou-se para tocar a ponta do cetro. Então, o rei lhe disse: "O que me pedes, Ester; o que queres que eu faça? Ainda que me pedisses a metade do meu reino, ela te seria concedida". Ester respondeu-lhe: "Se ganhei as tuas boas graças, ó rei, e se for de teu agrado, concede-me a vida - eis o meu pedido! - e a vida do meu povo - eis o meu desejo!".

2ª Leitura - Ap 12,1.5.13a.15-16a
Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas. E ela deu à luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro. Mas o filho foi levado para junto de Deus e do seu trono. Quando viu que tinha sido expulso para a terra, o dragão começou a perseguir a mulher que tinha dado à luz o menino. A serpente, então, vomitou como um rio de água atrás da mulher, a fim de a submergir. A terra, porém, veio em socorro da mulher.

Evangelho - Jo 2,1-11
Naquele tempo, houve um casamento em Caná da Galiléia. A mãe de Jesus estava presente. Também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento. Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: "Eles não têm mais vinho". "Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou." Sua mãe disse aos que estavam servindo: "Fazei o que ele vos disser". Estavam seis talhas de pedra colocadas aí para a purificação que os judeus costumam fazer. Em cada uma delas cabiam mais ou menos cem litros. Jesus disse aos que estavam servindo: "Enchei as talhas de água". Encheram-nas até a boca. Jesus disse: "Agora tirai e levai ao mestre-sala". E eles levaram. O mestre-sala experimentou a água, que se tinha transformado em vinho. Ele não sabia de onde vinha, mas os que estavam servindo sabiam, pois eram eles que tinham tirado a água. O mestre-sala chamou então o noivo e lhe disse: "Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora!". Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galiléia e manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele.

Comentário feito pelo Beato João Paulo II
papa

Nossa Senhora Aparecida! Neste momento tão solene, tão excepcional, quero abrir diante de Vós, ó Mãe, o coração deste povo, no meio do qual quisestes morar de um modo tão especial – como no meio de outras nações e povos – assim como no meio daquela nação da qual eu sou filho. Desejo abrir diante de Vós o coração da Igreja e o coração do mundo ao qual esta Igreja foi enviada pelo vosso Filho. Desejo abrir-Vos também o meu coração. Nossa Senhora Aparecida! Mulher revelada por Deus, que haveríeis de esmagar a cabeça da serpente (cf. Gen 3,15) na vossa Conceição Imaculada! Eleita desde toda a eternidade para ser a Mãe do Verbo Eterno, o qual, pela anunciação do Anjo, foi concebido no vosso seio virginal como Filho do Homem e verdadeiro Homem! Unida mais estreitamente ao mistério da redenção do homem e do mundo, ao pé da cruz, no Calvário! Dada como Mãe a todos os homens, sobre o Calvário, na pessoa de João, Apóstolo e Evangelista! Dada como Mãe a toda a Igreja, desde a comunidade que se preparava para a vinda do Espírito Santo, à comunidade de todos os que peregrinam sobre a terra, no decorrer da história dos povos e nações, dos países e continentes, das épocas e gerações! Maria! Eu Vos saúdo e Vos digo “Ave” neste santuário, onde a Igreja do Brasil Vos ama, Vos venera e Vos invoca como Aparecida, como revelada e dada particularmente a ele! Como sua Mãe e Padroeira! Como Medianeira e Advogada junto ao Filho de quem sois Mãe! Como modelo de todas as almas possuidoras da verdadeira sabedoria e, ao mesmo tempo, da simplicidade da criança e daquela entranhada confiança que supera toda fraqueza e sofrimento! Quero confiar-Vos de modo particular, este Povo e esta Igreja, todo este Brasil, grande e hospitaleiro, todos os vossos filhos e filhas, com todos os seu problemas a angústias, trabalhos e alegrias. Quero fazê-lo como Sucessor de Pedro e Pastor da Igreja universal, entrando nesta herança de veneração e amor, de dedicação e confiança que, desde séculos, fez parte da Igreja do Brasil e de quantos a formam, sem olhar as diferenças de origem, raça ou posição social, e onde quer que habitem neste imenso país. Todos eles, em este momento, voltados para Fortaleza, se interrogam: para onde vais? Ó Mãe! Fazei que a Igreja seja para este povo brasileiro sacramento de salvação e sinal da unidade de todos os homens, irmãos e irmãs de adoção do vosso Filho e filhos do Pai do Céu! Ó Mãe! Fazei que esta Igreja, e exemplo de Cristo, servindo constantemente o homem, seja a defensora de todos, em particular dos pobres e necessitados, dos socialmente marginalizados e espoliados. Fazei que a Igreja do Brasil esteja sempre a serviço da justiça entre os homens e contribua ao mesmo tempo para o bem comum de todos e para a paz social. Ó Mãe! Abri os corações dos homens e dai a todos a compreensão de que somente no espírito do Evangelho e seguindo o Mandamento do Amor e as bem-aventuranças do Sermão da Montanha será possível construir um mundo mais humano, no qual será valorizada verdadeiramente a dignidade de todos os homens. Ó Mãe! Dai à Igreja, que nesta terra brasileira realizou no passado uma grande obra de evangelização e cuja história é rica de experiências, que, com novo zelo e amor pela missão recebida de Cristo, realize as suas tarefas de hoje. Concedei-lhe para este fim numerosas vocações sacerdotais e religiosas, para que todo o Povo de Deus possa beneficiar-se do ministério dos dispensadores da Eucaristia e das testemunhas do Evangelho. Ó Mãe! Acolhei em vosso coração todas as famílias brasileiras! Acolhei os adultos e os anciãos, os jovens e as crianças! Acolhei também os doentes e todos aqueles que vivem na solidão! Acolhei os trabalhadores do campo e da indústria, os intelectuais nas escolas e universidades, os funcionários de todas as instituições. Protegei-os a todos! Não cesseis, ó Virgem Aparecida, pela vossa mesma presença, de manifestar nesta terra que o Amor é mais forte que a morte, mais poderoso que o pecado! Não cesseis de mostrar-nos Deus, que amou tanto o mundo, a ponto de entregar o seu Filho Unigênito, para que nenhum de nós pereça, mas tenha a vida eterna! (cf. Jo 3,16). Amém.

* Oração de Dedicação da Basílica Nacional, no dia 4 de julho de 1980. Extraída do site do Vaticano

domingo, 9 de outubro de 2011

Sociedade sem graça


Por José de Souza Martins

A falta de liberdade deu lugar à falsa concepção de que ela só pode existir quando for sem freios

A variedade e a frequência da violência que nos assombra constitui indício de profundas e alarmantes mudanças sociais fora de controle: pais que matam filhos, filhos que matam pais, netos que matam avós, bebês que são jogados no lixo, bêbados que dirigem carros em alta velocidade e matam. E mesmo humoristas que querem fazer rir à custa do desrespeito e do menosprezo pelo outro. A sociedade está ficando sem graça. Só há graça na reciprocidade de valores sociais em contraposição à tentação de conveniências pessoais. Nossa tradição de humor é de raiz conservadora e se baseia, sobretudo, em fazer rir das contradições próprias das insuficiências da nossa modernidade, do imitar sem ser ou do ser sem saber. Daí que o caipira seja o nosso sujeito crítico por excelência e nosso insuperável personagem de humor.
A sociedade dos incalculáveis ganhos econômicos tornou-se a sociedade das incalculáveis perdas morais. Falta uma bolsa de valores sociais, que meça diariamente quanto perdemos de nós mesmos, de nossa dignidade, de nossa autoestima, da estima e do respeito pelo outro. A sociedade do pendão da esperança está se transformando na sociedade da desesperança e do ceticismo.
Já há uma rotina de notícias sobre pessoas embriagadas que, dirigindo carro, atropelam, machucam e matam. Vamos nos acostumando, que é o pior sinal da complacência e da rendição incondicional à banalização da vida. Assassinos do volante foram soltos até antes que suas vítimas fossem enterradas. Edson Roberto Domingues, 55 anos, trabalhador, negro, chefe de família, teve 90% do corpo queimado quando seu caminhãozinho foi batido, e pegou fogo, pelo carro Camaro, importado, de R$ 165 mil, dirigido por um jovem embriagado, em disparada, que feriu quatro outras pessoas. Naquela rua a velocidade máxima é de 60 km por hora, que Edson Roberto respeitava. Foi vitimado por um bêbado irresponsável que corria a 116 km por hora. Mediante fiança de R$ 245 mil, o autor da violência foi solto 24 horas antes da morte de sua vítima e dois dias antes que a família a enterrasse no Cemitério da Lapa.
O respeitador da lei foi irremediavelmente punido, como se fosse o culpado; o violador da lei passou umas horas na cadeia e está livre, como se fosse vítima. O assassino vai ser julgado por homicídio doloso, mas o STF já tem decisão sobre outro caso do mesmo gênero, de 2002, em que o dolo é questionado. Como observou um especialista, uma pena que deveria ser de 20 anos de prisão acaba sendo, no máximo, de 4 anos e até trocada por cestas básicas para os pobres. Quando o dinheiro pode pagar por aquilo que não tem preço, quando vida e moeda se equivalem, já significa que nessa equivalência a condição humana se perdeu. O abrandamento do Código de Processo Penal, para casos assim, vai na mesma direção.
História igual ao do dono do Porsche de R$ 600 mil que abalroou e destruiu o carro dirigido por uma moça, matando-a. Salvo por um bombeiro, ele saiu dos escombros de seu carro preocupado unicamente com os danos ao seu veículo. Nossa alma foi mercantilizada no egoísmo da equivalência mercantil do que não é equivalente ou não deveria ser.
Os longos anos de ditadura, de falta de liberdade e de direitos, deram lugar a uma sociedade que se embriaga na falsa concepção de que a liberdade só existe no abuso da liberdade sem freios, sem regras, sem respeito pela liberdade do outro. De que o direito só o é no abuso do direito sem a contrapartida de um código de deveres, os do respeito pelo direito do outro. A democratização corre o risco de se tornar uma farsa na anomia que desagrega, na falta de normas decorrentes de valores sociais de referência. Esses casos sugerem que os valores estão invertidos, pervertidos.
O eixo do nosso senso de justiça vem se deslocando do que por longo tempo definiu os valores sociais e regulou o comportamento das pessoas, a sociedade valorizada como todo. A sociedade tinha a primazia na definição do certo e do errado, do bem e do mal. É verdade que a vara de marmelo teve uma função histórica na formação do caráter do brasileiro, até a geração de nossos pais e avós. O Brasil venceu essa fase repressiva e descabida e começou a formar seus filhos na brandura da compreensão, na honestidade pedagógica de falar, mas de também ouvir.
Mas essa revolução de perspectiva não levou em conta os trânsfugas da educação tradicional e da moderna, os que confundiram liberdade com abuso, direito com prepotência, democracia com impunidade. Chegamos ao tempo cinzento das novas iniquidades, o do direito torto, da lei capciosa, da lei de Gerson, do individualismo exacerbado, da solidão que cega. Em larga extensão, a sociedade brasileira está matando o outro e o sentido da alteridade e da reciprocidade. "Deus é brasileiro" foi frase comum na boca de todos durante um longo tempo de nossa história. Mas Deus morre todos os dias não só nos atos dos que a si mesmos se supõem deuses; também nas várias modalidades de aniquilamento do semelhante.

* José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP, autor, dentre outros, de A Política Do Brasil Lúmpen e Místico (Contexto, 2011). Texto extraído da versão online d'O Estado de São Paulo, do dia 9 de outubro de 2011.

sábado, 8 de outubro de 2011

"Tu estás comigo": esta é a certeza que nos sustenta


Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Voltar-se para o Senhor na oração implica um radical ato de confiança, na consciência de se confiar a Deus que é bom, “misericordioso e piedoso, lento para a ira e rico de amor e de fidelidade” (Ex 34, 6-7; Sl 85, 15; cf. Jl 2, 13; Gn 4, 2; Sl 102, 8; Sl 144, 8; Ne 9, 17). Por isto, hoje, gostaria de refletir convosco sobre um Salmo todo permeado de confiança, no qual o Salmista exprime a sua serena certeza de ser guiado e protegido, colocado em segurança contra todo perigo, porque o Senhor é o seu pastor. Trata-se do Salmo 23 – segundo a datação greco-latina 22 –, um texto familiar a todos e amado por todos.
“O Senhor é meu pastor, não me faltará”: assim começa esta bela oração, evocando o ambiente nômade do pastoreio e a experiência de conhecimento recíproco que se estabelece entre o pastor e as ovelhas que compõem o seu pequeno rebanho. A imagem remete a uma atmosfera de confiança, intimidade, ternura: o pastor conhece as suas ovelhas uma a uma, as chama pelo nome e elas o seguem porque o reconhecem e se confiam a ele (cf. Jo 10, 2-4). Ele cuida delas, as custodia como bens preciosos, pronto para defendê-las, garantir o seu bem-estar, fazê-las viver na tranquilidade. Nada pode faltar se o pastor está com elas. O Salmista se refere a esta experiência, chamando Deus de seu pastor, e deixando-se guiar por Ele rumo a pastos seguros: “Em verdes prados ele me faz repousar. Conduz-me junto às águas refrescantes, restaura as forças de minha alma. Pelos caminhos retos ele me leva, por amor do seu nome” (vv. 2-3).
A visão que se abre aos nossos olhos é a de prados verdes e fontes de água límpida, oásis de paz rumo aos quais o pastor acompanha o rebanho, símbolos dos lugares de vida para os quais o Senhor conduz o Salmista, que se sente como as ovelhas deitadas na erva ao lado de uma fonte, em situação de repouso, não em tensão ou em estado de alarme, mas confiantes e tranquilas, porque o lugar é seguro, a água é fresca, e o pastor as vigia. E não esqueçamos aqui que a cena evocada pelo Salmo é ambientada numa terra em grande parte desértica, ferida pelo sol escaldante, onde o pastor seminômade do Oriente Médio vive com o seu rebanho nas estepes secas que se estendem ao redor dos vilarejos. Mas, o pastor sabe onde encontrar erva e água fresca, essenciais para a vida, sabe levar para o oásis no qual a alma “se refresca” e é possível retomar as forças e novas energias para se colocar outra vez no caminho.
Como diz o Salmista, Deus o guia para “verdes prados” e “águas refrescantes”, onde tudo é superabundante, tudo é dado copiosamente. Se o Senhor é o pastor, mesmo no deserto, lugar de ausência e de morte, não diminui a certeza de uma radical presença de vida, a ponto de poder dizer: “nada me faltará”. O pastor, de fato, traz no coração o bem do seu rebanho, adéqua os seus ritmos e exigências às de suas ovelhas, caminha e vive com elas, guiando-as por caminhos “retos”, ou seja, adequados para elas, com atenção às suas necessidades e não às suas próprias. A segurança do seu rebanho é a sua prioridade e ele obedece a ela quando o guia.
Caros irmãos e irmãs, também nós, como o Salmista, se caminhamos atrás do “Bom Pastor”, por mais difíceis, tortuosos ou longos que possam parecer ser os percursos da nossa vida, frequentemente também em zonas desérticas espiritualmente, sem água e com um sol de racionalismo escaldante, sob a guia do bom pastor, Cristo, estaremos certos de estar seguindo por caminhos “retos” e de que o Senhor nos guia e sempre estará por perto e nunca nos faltará.
Por isto, o Salmista pode declarar uma tranquilidade e uma segurança sem incertezas ou temores: “Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo. Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo” (v. 4).
Quem segue com o Senhor, mesmo nos vales escuros do sofrimento, da incerteza e de todos os problemas humanos, se sente seguro. Tu estás comigo: esta é a nossa certeza, a que nos sustenta. O escuro da noite causa medo, com suas sombras mutantes, a dificuldade para distinguir os perigos, o seu silêncio cheio de ruídos indecifráveis. Se o rebanho se move depois que o sol se põe, quando a visibilidade se faz incerta, é normal que as ovelhas fiquem inquietas, há o risco de tropeçar ou mesmo de se afastar e se perder, e há ainda o temor de possíveis agressores que se escondem na obscuridade. Para falar do vale “escuro”, o Salmista usa uma expressão hebraica que evoca as trevas da morte, de forma que o vale a ser atravessado é um lugar de angústia, de ameaças terríveis, de perigo de morte. E mesmo assim, o orante segue seguro, sem medo, porque sabe que o Senhor está com ele. Aquele “tu estás comigo” é uma proclamação de confiança firme, e sintetiza a experiência de fé radical; a proximidade de Deus transforma a realidade, o vale escuro perde toda periculosidade, se esvazia de toda ameaça. O rebanho, agora, pode caminhar tranquilo, acompanhado pelo ruído familiar do bastão que bate no terreno e assinala a presença tranquilizadora do pastor.
Esta imagem reconfortante encerra a primeira parte do Salmo, e deixa o lugar para uma cena diferente. Estamos ainda no deserto, onde o pastor vive com o seu rebanho, mas agora somos transportados para a sua tenda, que se abre para oferecer hospitalidade: “Preparais para mim a mesa à vista de meus inimigos. Derramais o perfume sobre minha cabeça, e transborda minha taça” (v. 5).
Agora, o Senhor é apresentado como Aquele que acolhe o orante, com os sinais de uma hospitalidade generosa e cheia de atenção. O anfitrião divino prepara a refeição sobre a “mesa”, um termo que, em hebraico, indica, no seu sentido primitivo, a pele de animais que era estendida no chão e sobre a qual os convivas se assentavam para comer juntos. É um gesto de compartilhamento não apenas do alimento, mas também da vida, numa oferta de comunhão e de amizade que cria vínculos e exprime solidariedade. E ainda há o dom munificente do óleo perfumado sobre a cabeça, que dá alívio para o calor do sol do deserto, refresca e acalma a pele e eleva o espírito com sua fragrância. Enfim, o cálice transbordante acrescenta uma nota de festa, com o seu vinho delicioso, compartilhado com generosidade superabundante. Alimento, óleo, vinho: são os dons que fazem viver e dão alegria porque vão além daquilo que é estritamente necessário, e exprimem a gratuidade e a abundância do amor. O Salmo 103 proclama, celebrando a bondade providente do Senhor: “Fazeis brotar a relva para o gado, e plantas úteis ao homem, para que da terra possa extrair o pão e o vinho que alegra o coração do homem, o óleo que lhe faz brilhar o rosto e o pão que lhe sustenta as forças” (vv. 14-15). O Salmista é feito objeto de tantas atenções, de forma que se vê como um viandante que encontra abrigo numa tenda acolhedora, enquanto que seus inimigos são obrigados a parar e olhar, sem poder intervir, porque aquele que consideravam sua presa foi colocado em segurança, se tornou hóspede sagrado, intocável. E o Salmista somos nós se crermos realmente e estivermos em comunhão com Cristo. Quando Deus abre a sua tende para nos acolher, nada nos pode fazer mal.
Quando, depois, o viandante vai embora, a proteção divina se prolonga e o acompanha na sua viagem: “A vossa bondade e misericórdia hão de seguir-me por todos os dias de minha vida. E habitarei na casa do Senhor por longos dias” (v. 6)
A bondade e a fidelidade de Deus são a escolta que acompanha o Salmista que sai da tenda e se coloca no caminho outra vez. Mas, é um caminho que adquire um novo sentido, e se torna peregrinação rumo ao Templo do Senhor, o lugar santo no qual o orante quer “habitar” para sempre e para o qual quer também “retornar”. O verbo hebraico utilizado aqui tem o sentido de “voltar”, mas, com uma pequena modificação vocálica, pode ser compreendido como “habitar”, e assim é traduzido pelas antigas versões e pela maior parte das traduções modernas. Ambos os sentidos podem ser mantidos: voltar para o Templo e nele habitar é o desejo de todo Israelita, e habitar perto de Deus próximo dEle e de sua bondade é o anseio e a nostalgia de todo crente: poder habitar realmente onde Deus está, próximo de Deus. Seguir o Pastor leva à sua casa, é esta a meta de todo caminho, oásis desejado no deserto, tenda de refúgio na fuga dos inimigos, lugar de paz onde se experimenta a bondade e o amor fiel de Deus, dia após dia, na alegria serena de um tempo sem fim.
As imagens deste Salmo, com a sua riqueza e profundidade, acompanharam toda a história e a experiência religiosa do povo de Israel e acompanham os cristãos. A figura do pastor, particularmente, evoca o tempo originário do Êxodo, o longo caminho no deserto, como um rebanho sob a guia do Pastor divino (cf. Is 63, 11-14; Sl 76, 20-21; Sl 77, 52-54). E na Terra Prometida era o rei que tinha a tarefa de pastorear o rebanho do Senhor, como Davi, pastor escolhido por Deus e figura do Messias (cf. 2Sam 5, 1-2; 2Sam 7, 8; Sl 77, 70-72). Além do mais, depois do exílio na Babilônia, quase num novo Êxodo (cf. Is 40, 3-5.9-11; Is 43, 16-21), Israel é levado de volta para a sua pátria como ovelha dispersa e recuperada, reconduzida por Deus a pastor verdejantes e lugares de repouso (cf. Ez 34, 11-16.23-31). Mas é no Senhor Jesus que toda a força evocativa do nosso Salmo alcança a completude, encontra a sua plenitude de significado: Jesus é o “Bom Pastor” que vai em busca da ovelha perdida, que conhece as suas ovelhas e dá a vida por elas (cf. Mt 18, 12-14; Lc 15, 4-7; Jo 10, 2-4.11-18), Ele é o caminho, a estrada reta que nos leva à vida (cf. Jo 14, 6), a luz que ilumina o vale escuro e vence todo o nosso medo (cf. Jo 1, 9; Jo 8, 12; Jo 9, 5; Jo 12, 46). Ele é o anfitrião generoso que nos acolhe e nos coloca a salvo dos inimigos, preparando-nos a mesa do seu corpo e do seu sangue (cf. Mt 26, 26-29; Mc 14, 22-25; Lc 22, 19-20) e a mesa definitiva do banquete messiânico no Céu (cf. Lc 14, 15ss; Ap 3, 20; Ap 19, 9). É Ele o Pastor real, rei na mansidão e no perdão, entronizado sobre o lenho glorioso da cruz (cf. Jo 3, 13-15; Jo 12, 32; Jo 17, 4-5).
Caros irmãos e irmãs, o Salmo 22 nos convida a renovar a nossa confiança em Deus, abandonando-nos totalmente nas suas mãos. Peçamos, portanto, com fé, que o Senhor nos conceda, mesmo nos caminhos difíceis do nosso tempo, poder caminhar sempre em seus caminhos como rebanho dócil e obediente, nos acolha na sua casa, à sua mesa, e nos conduza para “águas refrescantes”, para que, no acolhimento do dom do seu Espírito, possamos beber em suas fontes, fontes daquela água viva que “jorra para a vida eterna” (Jo 4, 14; cf. Jo 7, 37-39). Obrigado

* Extraído do site do Vaticano, do dia 5 de outubro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Cartas do P.e Aldo 206


Assunción, 5 de outubro de 2011.

Caros amigos,
Acabei de me confessar e, finalmente, depois de uma semana muito dura, o céu voltou a ser azul. Que graça grande a confissão semanal ou até mesmo quando é mais frequente. E olhem que a confissão não tem nada que ver com a direção espiritual ou com a procura por algum conselho. O meu confessor é essencial: escuta os meus pecados, me dá a penitência, me faz dizer o Ato de Contrição e, em seguida, me dá a absolvição. Tudo em três minutos. E, no entanto, que Acontecimento, que encontro com o olhar de Jesus que, com os pecadores, nunca perdeu mais do que alguns minutos. A Zaqueu disse: “desce porque, nesta noite, vou jantar com você”. Para a adúltera: “Mulher, quem te condenou?”. “Ninguém, Senhor” “Eu também não te condeno. Vai e não peques mais”, ou seja, permanece sempre comigo. Para Mateus, “segue-me”, e ele O seguiu. Alguns minutos a mais ele dedicou à Samaritana, mas tinha as suas razões pedagógicas. O meu confessor também é assim. A essencialidade do Sacramento: reconhecer a Presença, confiar o meu nada e me sentir abraçado na minha loucura porque, como nos lembra Giussani no seu livro Ciò che abbiamo di più caro (O que temos de mais caro, sem tradução para o português; ndt), “quem comete pecado odeia a si mesmo” e esta é a loucura.
Esta foi uma semana dura, na qual Jesus me manteve próximo dEle na cruz e, em certos momentos, eu O teria deixado sozinho. É a tentação para a qual a minha liberdade responde com a confissão. Ou seja, com a prática daquilo que Péguy, que Giussani cita no seu último livro, chama: VERDADE HIGIÊNICA, de que a confissão é, na minha experiência de 22 anos de missão, o coração. Péguy fala de verdade cirúrgica que é aquela mais cômoda: cortar. E de verdade higiênica: “não procurem um milagre, mas um caminho”. Giussani me educou muito bem a viver esta esperança da verdade higiênica tanto no modo com o qual ele me educou a viver a minha afetividade, quanto no modo com o qual viver cada detalhe. Enquanto que sempre seremos inclinados à verdade cirúrgica: cortar. E assim, experimentaremos a alegria de ser homens, a alegria que nasce do fato que nada daquilo que é humano nos será estranho. É um grande desafio para a liberdade, porque a verdade higiênica exige que você inteiro entre no jogo e exige um trabalho paciente como o trabalho de um parto, para recordar o cartaz de Páscoa de 1989, que trazia a famosa frase de Mounier. Esta semana eu quis cortar tantas coisas, tantos relacionamentos, porque eu estava cansado, mas a obediência à realidade me fez ficar dentro daquilo que acontecia sem cortar nada, sem censurar nada e, no fim, graças à companhia sacramental e à confissão, me descubro, agora, mais livre, mais feliz. Pensava nisso ontem à noite, quando fui ao médico para ver como anda minha diabetes e ele também aplicou em mim uma terapia higiênica mais do que cirúrgica. E esta terapia, a higiênica, depende totalmente da minha liberdade, porém, no fim, salva tudo.
Meus amigos... mesmo que vocês se apaixonem repentinamente e queiram fugir dessa paixão ou tirá-la do meio do caminho, como muitos me escrevem, acredito que ela deva ser motivo para que vocês prestem contas gritando e pedindo ajuda. Espero que vocês leiam o que Giussani disse em Ciò che abbiamo di più caro, para que possam entender o quanto é necessário um trabalho, um caminho, porque o verdadeiro milagre é a verdade higiênica de que a confissão freqüente é o sinal de uma liberdade, verdadeiramente, comprometida com um caminho de conversão. A semana foi dura, como cada dia é duro, porque, aqui, eu sempre vivo no mesmo instante a morte e a ressurreição de Jesus. Não há intervalos!
Um abraço,
Padre Aldo

Da rede à realidade



“A armadilha da instintividade”
Por José Medina

Na escola, muitos dos problemas entre os jovens derivam daquilo que escrevem e leem no Facebook. Falando, depois, com eles, cara a cara, se entende que aquilo que escrevem ali, não seriam capazes de dizer na cara de ninguém.
Todo o mundo da educação nos Estados Unidos afirma que as redes sociais são estupendas, porque permitem uma comunicação facilitada, que derruba os limites de classe e as distâncias. E isto é verdade. Mas, o problema é que se trata de um meio instintivo, que não permite a reflexão, nem favorece o relacionamento interpessoal. Não acredito que se possa manter uma conversa autêntica usando as redes sociais. O que conta é o conceito de “I like it”, “curti”. Tudo se mede a partir do fato de você curtir ou não uma coisa, você curtir ou não as pessoas. Acredito que, para os adultos, seja a mesma coisa: a ideia segundo a qual tudo é automático, tudo é instintivo, é fonte de problemas porque o tempo não existe mais, as pessoas não falam mais! O discurso termina na mensagem de texto. Nos Estados Unidos, a internet já está fora de moda, a comunicação se faz via celular e através do Facebook. O email é um modo já mais profundo de expressão do pensamento, e assume o papel que antes pertencia à conversa.
Educar as pessoas é problemático, porque o instrumento vai no sentido contrário ao esforço educativo. Os três níveis do pensamento humano são: pensar, dizer e escrever. Cada vez que se passa a um nível diferente, o pensamento alcança maior profundidade: pensar consigo mesmo constitui-se num primeiro nível; falar obriga a um diálogo e, por isso, convida a um aprofundamento do pensamento. A escrita obriga a colocar as ideias em ordem. As mídias sociais, infelizmente, reduzem a escrita ao nível mais baixo do pensamento.
Há outro aspecto das redes sociais que contribui para a banalização dos relacionamentos. Para um jovem, no Facebook, não há distinção entre o amigo e o professor: o instrumento faz com que todos sejam uma pequena fotografia. Todas as relações são uniformizadas a um mesmo nível. A diferença construtiva entre jovem e adulto é enfraquecida. Isto gera confusão nos jovens, destruindo o sentido da autoridade e da paternidade. 
Podemos, portanto, utilizar isto como um espaço de educação? Acredito que não seja possível sem que se mude o instrumento mesmo.

“Google ou o professor?”
Por Federico Ponzoni

Sou professor há quase uma década. A tecnologia sempre ocupou a minha reflexão e a minha prática. De um lado, ela entra na escola como instrumento: há alguns anos, quando eu ainda era um seminarista, comecei a ensinar religião, e eu era o único em todo o instituto que usava apresentações em PowerPoint. O efeito era notável: era algo de novo, colorido, divertido. Ajudava a capturar a atenção dos jovens. Depois, o uso de instrumentos como esses se massificou. Passou o efeito da novidade, não bastava mais a simples introdução de um meio novo em sala de aula para educar com eficácia.
Aprendi, portanto, que a técnica no âmbito educativo promete muito, mas mantém pouco. Por exemplo, no Chile, onde estou em missão, os computadores foram introduzidos em sala de aula há dez anos, mas os resultados nos testes internacionais (PISA) não mudaram muito. Somente há poucos anos é que foram introduzidos os softwares didáticos que usam amplamente técnicas de programação que dão resultados tangíveis, sobretudo em matemática. Os estudos feitos até então demonstram, porém, que a simples introdução do software produz um crescimento vacilante dos resultados em matemática. O software, pelo contrário, unido ao aperfeiçoamento do docente e à melhora da didática, produz resultados impressionantes. Técnica ou não técnica, o homem continua sendo o centro do processo educativo. 
Não é tudo. Os estudos mais recentes, tanto em neurobiologia como em mídia, sublinham que a introdução de meios digitais produz uma mudança cultural muito significativa: um “nativo digital” pensa de modo diferente de alguém que só entrou no mundo digital quando adulto. Isto gera graves mal-entendidos entre docentes e alunos: aquilo que o professor diz é frequentemente visto pelo aluno como irrelevante ou inútil (“O professor está me dizendo coisas que posso encontrar no Google... por que, então, eu preciso ficar atento?”) e o professor encontra um aluno distraído, preguiçoso, sem interesse e, por isto, se sente frustrado. Então, é necessário redescobrir o verdadeiro papel do educador. O educador é aquele que sabe transmitir aquilo de que os nativos digitais precisam: uma razão para viver.

Uma carta de pouco valor
Por Carlo Fumagalli

Hoje, vejo em muitas pessoas (não apenas nos jovens) uma notável dependência dos meios de comunicação. Fico tocado com o senso de vazio, de desorientação, que as pessoas têm quando procuram alguém pelo celular e o encontram desligado. Na Hungria não existe o serviço de sms que avisa quem ligou para você. Desencadeia-se, por isto, a fobia de não conseguir falar com aquela pessoa. Que se torna agitação, ansiedade. Em mim, esta dependência é um pouco limitada. Mas, tenho uma missão muito “móvel” e, frequentemente, estou rodando: noventa por cento das ocasiões missionárias que tenho se passa pelo celular. Há, portanto, um aspecto positivo, de um ponto de vista “missionário”. Há o risco de degenerar, mas é uma comodidade enorme, desde que seja apenas o prelúdio para um encontro pessoal. É como, num jogo de baralho, uma carta baixa que você joga para ver o que os outros jogadores têm na mão. Certamente não será com ela que você vai levar para a casa o resultado, mas pode, certamente, facilitar o caminho.
Com o email é diferente. Quase nunca respondo a um pedido diretamente pelo email: convido o outro para nos vermos e conversarmos. Tem nisso uma questão lingüística, mas sobretudo parto da consciência de que não tenho a verdade no bolso, que possa ser confeccionada e enviada por email. Acredito que é muito interessante estar juntos, dar alguns passos juntos, viver juntos um momento de relaxamento...
Tudo isto é possível apenas no relacionamento pessoal. Em geral, precisamos do silêncio, do tempo de escuta do outro, algo que não seja um relacionamento mediado pelas tecnologias ou queimado nos tempos breves. Facebook é um exemplo evidente: uma garota, em dez segundos, convida trezentos “amigos” para um concerto. Depois, no concerto, aparecem apenas em dois que, não por acaso, são os dois para quem ela também telefonou. A ação pessoal é sempre mais resolutiva.
Tenho uma prova evidente disto quando me acontece de sugerir algo para ser lido. Às vezes, para que a pessoa possa receber logo depois do nosso encontro, ligo o computador, anexo o arquivo e envio. Mas, o fracasso é quase certo: entre as centenas de mensagens que recebe, o meu correspondente, no máximo, vai folhear as minhas páginas por uns trinta segundos. Outras vezes, pelo contrário, experimentei dar um livro ou uma fotocópia: é uma coisa completamente diferente. O papel fala. É como se eu dissesse para quem eu tenho diante de mim: “Depois da nossa conversa, pensei em você, rezei por você, trouxe na memória aquilo que você me disse. Procurei um livro e o folheei até encontrar aquilo que parece ter sido escrito exatamente para você; dá uma olhada, sublinhei alguns trechos há alguns anos, dou para você algo que é parte de mim...”.

O que procuramos
Por Giovanni Musazzi

Os lados bons da tecnologia são evidentes: organizo uma viagem em cinco minutos, encontro, sem me mover, livros que me são úteis, convido para um feriado com um único email, economizando quarenta telefonemas. Mas, assim como as coisas boas são tão óbvias, parece-me que se percam de vista os problemas. O uso adequado da internet não é o abuso. Mas, quando se está cego, o abuso está na próxima esquina.
O primeiro risco grave diz respeito ao uso do nosso tempo. O tempo tem um valor. Como tudo é fácil, o risco é que aquilo que deveria me ajudar a economizar tempo, na realidade, toma uma quantidade enorme de tempo. Do mesmo modo, o estar sempre disponível é um peso. Chega um email e, depois de um minuto, um sms no qual avisam que você deve dar uma olhada no email, e dez minutos depois telefonam para perguntar se eu li... e, no máximo, se trata de algo que vai acontecer daqui a duas semanas. É uma ansiedade: tudo agora e tudo imediatamente, tudo sempre urgente.
Frequentemente, de outro lado, perdemos a noção de que do outro lado da linha ou da rede tem uma pessoa. Usamos a tecnologia para procurar alguém não porque nos interessa aquela pessoa, mas apenas porque, naquele momento, precisamos que haja uma pessoa imediatamente disponível para poder descarregar sobre ela o fato que nos sentimos tristes, que estamos parados num engarrafamento na estrada, que estamos fazendo um trabalho tedioso. No fundo, por outro lado, é quase indiferente quem está lendo ou escutando. Ninguém me responde? Telefono para outra pessoa. Ou então, um belo sms grupal: alguém há de me responder! Quando, pelo contrário, vou encontrar alguém, tenho aquela pessoa diante de mim e basta. As pessoas, aqui no Portugal, têm uns três chips de celular, utilizando três empresas de telefonia diferentes. O resultado disso? Mexericos e um montão de dinheiro gasto com contas de celular.
Será que precisamos tanto de todas estas palavras? Precisamos tornar tudo público, disponível online? Eu pedi a muitas famílias próximas que trocassem as fotos privadamente, e que não as publicassem na internet. De fato, tem uma forte tendência a recorrer ao virtual, olhar as fotos e ler os comentários, mais do que viver uma experiência direta. Eu gostaria de viver a vida, e não de viver como um substituto. 


* Extraído do site da Fraternità San Carlo, do dia 5 de outubro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco

Comentário ao evangelho do dia


Nossa Senhora do Rosário

1ª Leitura - At 1,12-14
Depois que Jesus foi elevado ao céu, os apóstolos voltaram para Jerusalém, vindo do monte das Oliveiras, que fica perto de Jerusalém, a mais ou menos um quilômetro. Entraram na cidade e subiram para a sala de cima, onde costumavam ficar. Eram Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão Zelota e Judas, filho de Tiago. Todos eles perseveravam na oração em comum, junto com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus.

Evangelho - Lc 1,26-38
Naquele tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da virgem era Maria O anjo entrou onde ela estava e disse: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!". Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. O anjo, então, disse-lhe: "Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim". Maria perguntou ao anjo: "Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?". O anjo respondeu: "O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altissimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, porque para Deus nada é impossível". Maria, então, disse: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!". E o anjo retirou-se.

Comentário feito por Luigi Giussani (1922-2005)
fundador de Comunhão e Libertação

“Maria, então, disse: ‘Eis a serva do Senhor’. [...] E o anjo retirou-se” (cf. Lc 1,38). Pensemos agora no momento em que Maria fica sozinha em casa: sozinha diante daquela coisa enorme que lhe havia sido proposta, que lhe havia sido dita. Nada a impediria de dizer: “Não escutei nada, foi uma ilusão!”. Mas não é isso que acontece. Daqui nasce [...] a energia, a força para permanecer no Senhor, para permanecer naquilo que vimos. Nós, ao contrário, diante da primeira dificuldade, criamos uma objeção, dizemos: “Não é verdade”. Maria fica sozinha, passa por todas as dificuldades, mas se mantém “firme”. Sua simplicidade está unida a uma força grandiosa e simples. O próprio Abraão tinha se lamentado; Moisés também tinha tremido: Maria, em sua solidão, está plenamente segura. Maria é uma fortaleza, grande e simples. [...] Uma simplicidade impávida (ou seja, repleta de emoção), que desafiou a vida inteira, sozinha com “aquela coisa” que lhe havia sido dita. Sozinha diante das pessoas que não creem, diante do trabalho que tem a fazer: a solidão existe, mas existe também a sua adesão ao Senhor. O que nunca deve diminuir em nós é a adesão da nossa fé: quando já não existem as emoções, quando você já não tem o vigor do início, quando não estão ali os amigos, o que deve continuar a existir é a nossa fidelidade à adesão que demos a Cristo. [...] Os três elementos que distinguem a maturidade da fé são: 1. A consciência de pertencer a um Outro (pertencer, com todo o peso que carregamos, com todos os nossos pecados, ao Corpo visível de Cristo, a Sua Igreja). 2. A energia do “sim”: a simplicidade da liberdade. Nada se transforma em objeção. Uma simplicidade que nos permite viver como homens conscientes. (Você precisa dizer “sim”, pois, com os “mas” e “porém”, jamais chegará à convicção.). 3. A fidelidade: a energia para permanecer no Senhor, em sua Igreja.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

São Francisco de Assis

4 de outubro


São Francisco de Assis,
rogai por nós!

Cantico di Frate Sole o Delle Creature
Altissimu, onnipotente bon Signore,
tue so' le laude, la gloria e l'honore et onne benedictione.
Ad te solo, Altissimo, se konfano,
et nullu homo ène dignu te mentovare.
Laudato sie, mi' Signore, cum tucte le tue creature,
spetialmente messor lo frate sole,
lo qual'è iorno, et allumini noi per lui.
Et ellu è bellu e radiante cum grande splendore:
de te, Altissimo, porta significatione.
Laudato si', mi' Signore, per sora luna e le stelle:
in celu l'ài formate clarite et pretiose et belle.
Laudato si', mi' Signore, per frate vento
et per aere et nubilo et sereno et onne tempo,
per lo quale a le tue creature dài sustentamento.
Laudato si', mi' Signore, per sor'acqua.
la quale è multo utile et humile et pretiosa et casta.
Laudato si', mi' Signore, per frate focu,
per lo quale ennallumini la nocte:
ed ello è bello et iocundo et robustoso et forte.
Laudato si', mi' Signore, per sora nostra matre terra,
la quale ne sustenta et governa,
et produce diversi fructi con coloriti flori et herba.
Laudato si', mi' Signore, per quelli ke perdonano per lo tuo amore
et sostengo infirmitate et tribulatione.
Beati quelli ke 'l sosterrano in pace,
ka da te, Altissimo, sirano incoronati.
Laudato si', mi' Signore, per sora nostra morte corporale,
da la quale nullu homo vivente pò skappare:
guai a·cquelli ke morrano ne le peccata mortali;
beati quelli ke trovarà ne le tue sanctissime voluntati,
ka la morte secunda no 'l farrà male.
Laudate et benedicte mi' Signore et rengratiate
e serviateli cum grande humilitate.


Cântico do Irmão Sol ou Das Criaturas
Altíssimo, omnipotente, bom Senhor,
a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.
A ti só, Altíssimo, se hão-de prestar
e nenhum homem é digno de te nomear.
Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
especialmente o meu senhor irmão Sol,
o qual faz o dia e por ele nos alumias.
E ele é belo e radiante, com grande esplendor:
de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas:
no céu as acendeste, claras, e preciosas e belas.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Vento
e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno, e todo o tempo,
por quem dás às tuas criaturas o sustento.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água,
que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Fogo,
pelo qual alumias a noite:
e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela nossa irmã a mãe Terra,
que nos sustenta e governa, e produz variados frutos,
com flores coloridas, e verduras.
Louvado sejas, ó meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor
e suportam enfermidades e tribulações.
Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz,
pois por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, ó meu Senhor, por nossa irmã a Morte corporal,
à qual nenhum homem vivente pode escapar:
Ai daqueles que morrem em pecado mortal!
Bem-aventurados aqueles que cumpriram a tua santíssima vontade,
porque a segunda morte não lhes fará mal.
Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças
e servi-o com grande humildade.


Ó Deus, que fizestes são Francisco de Assis assemelhar-se ao Cristo por uma vida de humildade e pobreza, concedei que, trilhando o mesmo caminho, sigamos fielmente o vosso filho, unindo-nos convosco na perfeita alegria. Por nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Comentário ao evangelho do dia


São Francisco de Assis

1ª Leitura - Jn 3,1-10
A palavra do Senhor foi dirigida a Jonas, pela segunda vez: "Levanta-te e põe-te a caminho da grande cidade de Nínive e anuncia-lhe a mensagem que eu te vou confiar". Jonas pôs-se a caminho de Nínive, conforme a ordem do Senhor. Ora, Nínive era uma cidade muito grande; eram necessários três dias para ser atravessada. Jonas entrou na cidade, percorrendo o caminho de um dia; pregava ao povo, dizendo: "Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída". Os ninivitas acreditaram em Deus; aceitaram fazer jejum, e vestiram sacos, desde o superior ao inferior. A pregação chegara aos ouvidos do rei de Nínive; ele se levantou do trono e pôs de lado o manto real, vestiu-se de saco e sentou-se em cima de cinza. Em seguida, fez proclamar, em Nínive, como decreto do rei e dos príncipes: "Homens e animais bovinos e ovinos não provarão nada! Não comerão e não beberão água. Homens e animais se cobrirão de sacos, e os homens rezarão a Deus com força; cada um deve afastar-se do mau caminho e de suas práticas perversas. Deus talvez volte atrás, para perdoar-nos e aplacar sua ira, e assim não venhamos a perecer". Vendo Deus as suas obras de conversão e que os ninivitas se afastavam do mau caminho, compadeceu-se e suspendeu o mal, que tinha ameaçado fazer-lhes, e não o fez.

Evangelho - Lc 10,38-42
Naquele tempo, Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e escutava a sua palavra. Marta, porém, estava ocupada com muitos afazeres. Ela aproximou-se e disse: "Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!". O Senhor, porém, lhe respondeu: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada".

Comentário feito por São Thomas More (1478-1535)
estadista inglês, mártir

Depois de recebermos Nosso Senhor na Eucaristia e O termos presente no nosso corpo, não havemos de O deixar só e de nos ocuparmos de outras coisas sem fazer mais caso dEle [...], mas de ter nEle todo o nosso sentido. Dirijamo-nos a Ele com ferventes preces e convivamos com Ele em fervente meditação. Digamos como o profeta: "Escutarei o que diz o Senhor dentro de mim" (Sl 85(84),9). Assim, [...] se Lhe dermos toda a nossa atenção, Ele não deixará de pronunciar, no mais íntimo do nosso ser, esta ou aquela palavra e com ela nos proporcionar grande conforto espiritual e proveito para a nossa alma. Sejamos, ao mesmo tempo, Marta e Maria. Como Marta, façamos de tal sorte que toda a nossa atividade exterior a Ele se restrinja e consista em acolhê-Lo como devemos: primeiro a Ele, e de seguida a cada um dos que O acompanham - a todos aqueles que não são apenas Seus discípulos, mas Ele próprio: "Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes" (Mt 25,40). [...] Esforcemo-nos, pois, por conservar o nosso Hóspede. Digamos-Lhe, como os dois discípulos ao entrar no povoado de Emaús, "Fica conosco, [Senhor]" (Lc 24,29). Então, com toda a certeza, não Se afastará mais de nós, a não ser que O rejeitemos com a nossa própria ingratidão.

sábado, 1 de outubro de 2011

Santa Teresinha do Menino Jesus


1 de outubro


Santa Teresinha do Menino Jesus,
rogai por nós!

J'ai compris que, pour devenir une sainte, il fallait beaucoup souffrir, rechercher toujours le plus parfait et s'oublier soi-même; j'ai compris que chaque âme était libre de répondre aux avances de Notre-Seigneur, de faire peu ou beaucoup pour Lui, en un mot de choisir entre les sacrifices qu'Il demande. Alors je me suis écriée: "Mon Dieu je choisis tout." Je ne veux pas être une sainte à moitié, cela ne me fait pas peur de souffrir pour vous.

Eu entendi que, para se tornar uma santa, era preciso sofrer muito, sempre buscar o mais perfeito e se esquecer de si mesmo; eu entendi que cada alma era livre para responder às tentativas de aproximação de Nosso Senhor, livre para fazer pouco ou muito por Ele, numa palavra livre para escolher em meio aos sacrifícios que Ele solicita. Então, eu gritei: "Meu Deus, eu escolho tudo". Eu não quero ser uma santa pela metade, não tenho medo algum de sofrer por Vós.

Santa Teresinha do Menino Jesus, ensina-nos a amar o bom Deus como tu O amaste!