sábado, 31 de dezembro de 2011

Obrigado... porque eterno é Teu amor!


Terminado o ano, só resta dizer "obrigado"... lembrando as maravilhas que, com Seu amor, Ele me fez.

Sl 136 (135)
Aleluia! Louvai o Senhor, pois Ele é bom
pois eterno é Seu amor.
Louvai o Deus dos deuses
pois eterno é Seu amor.
Louvai o Senhor dos senhores
pois eterno é Seu amor.
Só Ele fez grandes maravilhas
pois eterno é Seu amor.
Criou os céus com sabedoria
pois eterno é Seu amor.
Firmou a terra sobre as águas
pois eterno é Seu amor.
Fez os grandes luminares
pois eterno é Seu amor.
O sol para governar o dia
pois eterno é Seu amor.
A lua e as estrelas para governar a noite
pois eterno é Seu amor.
Feriu o Egito nos seus primogênitos
pois eterno é Seu amor.
Tirou Israel do meio deles
pois eterno é Seu amor.
Com mão poderosa e braço estendido
pois eterno é Seu amor.
Dividiu o mar Vermelho em duas partes
pois eterno é Seu amor.
Fez Israel passar no seu meio
pois eterno é Seu amor.
Lançou ao mar Vermelho o faraó e seu exército
pois eterno é Seu amor.
Guiou o Seu povo no deserto
pois eterno é Seu amor.
Feriu grandes soberanos
pois eterno é Seu amor.
Matou reis poderosos
pois eterno é Seu amor.
Seon, rei dos amorreus
pois eterno é Seu amor.
Og, rei de Basã
pois eterno é Seu amor.
Deu como herança o país deles
pois eterno é Seu amor.
Como herança a Seu servo, Israel
pois eterno é Seu amor.
Na nossa humilhação lembrou-Se de nós
pois eterno é Seu amor.
Libertou-nos dos nossos inimigos
pois eterno é Seu amor.
Dá o alimento a todo ser vivo
pois eterno é Seu amor.
Louvai o Deus do céu
pois eterno é Seu amor.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Sagrada Família


Sagrada Família de Jesus,
Maria e José,
rogai por nós!

* São José Operário, de Cláudio Pastro.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Comentário ao evangelho do dia - Natal


Santos Inocentes

1ª Leitura - 1Jo 1, 5-2,2
Caríssimos, a mensagem, que ouvimos de Jesus Cristo e vos anunciamos, é esta: Deus é luz e nEle não há trevas. Se dissermos que estamos em comunhão com Ele, mas andamos nas trevas, estamos mentindo e não nos guiamos pela verdade. Mas, se andamos na luz, como Ele está na luz, então estamos em comunhão uns com os outros, e o sangue de Seu Filho Jesus nos purifica de todo pecado. Se dissermos que não temos pecado, estamo-nos enganando a nós mesmos, e a verdade não está dentro de nós. Se reconhecermos nossos pecados, então Deus se mostra fiel e justo, para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda culpa. Se dissermos que nunca pecamos, fazemos dEle um mentiroso e Sua palavra não está dentro de nós. Meus filhinhos, escrevo isto para que não pequeis. No entanto, se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos pecados do mundo inteiro.

Salmo - Sl 123 (124)
R. Nossa alma como um pássaro escapou
do laço que lhe armara o caçador.
Se o Senhor não estivesse ao nosso lado, *
quando os homens investiram contra nós, 
com certeza nos teriam devorado *
no furor de sua ira contra nós. R.

Então as águas nos teriam submergido, *
a correnteza nos teria arrastado,
e então, por sobre nós teriam passado *
essas águas sempre mais impetuosas. R.

O laço arrebentou-se de repente, *
e assim nós conseguimos libertar-nos.
O nosso auxílio está no nome do Senhor, *
do Senhor que fez o céu e fez a terra! R.

Evangelho - Mt 2, 13-18
Depois que os magos partiram, o Anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: "Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo". José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito. Ali ficou até à morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: "Do Egito chamei o meu Filho". Quando Herodes percebeu que os magos o haviam enganado, ficou muito furioso. Mandou matar todos os meninos de Belém e de todo o território vizinho, de dois anos para baixo, exatamente conforme o tempo indicado pelos magos. Então se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias: "Ouviu-se um grito em Ramá, choro e grande lamento: é Raquel que chora seus filhos, e não quer ser consolada, porque eles não existem mais".

Comentário feito por São Pedro Crisólogo (c. 406-450)
bispo de Ravena, doutor da Igreja

Aonde leva a inveja? [...] O crime hoje cometido no-lo mostra: o medo de que exista um rival para o seu reino enche de angústia a Herodes; maquina então suprimir o "Rei que acaba de nascer" (Mt 2,2), o Rei eterno; luta contra o seu Criador e decide matar inocentes [...]. Que erros tinham aquelas crianças cometido? Nada haviam dito suas línguas mudas, nada seus olhos haviam visto, seus ouvidos escutado, suas mãos feito. Foi-lhes dada a morte, não tendo elas conhecido a vida. [...] Cristo lê o futuro e conhece os segredos dos corações, julga os pensamentos e escrutina as intenções (Sl 138): por que as abandonou? [...] Por que negligenciou o Rei do céu recém-nascido estes companheiros de inocência, por que esqueceu as sentinelas de serviço em redor do Seu berço, levando a que o inimigo, com a intenção de atingir o Rei, devastasse por completo o exército? Irmãos, Cristo não abandonou os Seus soldados, antes os encheu de glória ao permitir-lhes triunfar antes de viver, e ganhar a vitória sem que tivessem de combater. [...] Ele quis que possuíssem o céu, de preferência à terra [...], enviou-os à Sua frente como arautos. Não os abandonou: salvou a Sua guarda avançada, não a esqueceu [...]. Bem-aventurados os que trocaram os trabalhos pelo repouso, as dores pelo alívio, o sofrimento pela alegria. Estão vivos, vivos, vivem realmente, os que sofreram a morte por Cristo. [...] Felizes as lágrimas que as mães verteram por seus filhos: valeram-lhes a graça do batismo. [...] Que Aquele que Se dignou repousar no nosso estábulo queira também conduzir-nos aos prados do céu.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Veni ad salvandum nos!


Mensagem urbi et orbi
De Sua Santidade Bento XVI
Santo Natal, 25 de dezembro de 2011    

Amados irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro!
Cristo nasceu para nós! Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado: a todos chegue o eco deste anúncio de Belém, que a Igreja Católica faz ressoar por todos os continentes, sem olhar a fronteiras nacionais, linguísticas e culturais. O Filho de Maria Virgem nasceu para todos; é o Salvador de todos.
Numa antífona litúrgica antiga, Ele é invocado assim: “Ó Emanuel, nosso rei e legislador, esperança e salvação dos povos! Vinde salvar-nos, Senhor nosso Deus”. Veni ad salvandum nos! Vinde salvar-nos! Tal é o grito do homem de todo e qualquer tempo que, sozinho, se sente incapaz de superar dificuldades e perigos. Precisa colocar a sua mão numa mão maior e mais forte, uma mão do Alto que se estenda para ele. Amados irmãos e irmãs, esta mão é Cristo, nascido em Belém da Virgem Maria. Ele é a mão que Deus estendeu à humanidade, para fazê-la sair das areias movediças do pecado e segurá-la de pé sobre a rocha, a rocha firme da sua Verdade e do seu Amor (cf. Sl 40, 3).
E é isto mesmo o que significa o nome daquele Menino (o nome que, por vontade de Deus, Lhe deram Maria e José): chama-se Jesus, que significa “Salvador” (cf. Mt 1, 21; Lc 1, 31). Ele foi enviado por Deus Pai, para nos salvar sobretudo do mal mais profundo que está radicado no homem e na história: o mal que é a separação de Deus, o orgulho presunçoso do homem fazer como lhe apetece, de fazer concorrência a Deus e substituir-se a Ele, de decidir o que é bem e o que é mal, de ser o senhor da vida e da morte (cf. Gn 3, 1-7). Este é o grande mal, o grande pecado, do qual nós, homens, não nos podemos salvar senão confiando-nos à ajuda de Deus, senão gritando por Ele: “Veni ad salvadum nos – Vinde salvar-nos!”
O próprio fato de elevarmos ao Céu esta imploração já nos coloca na justa condição, já nos coloca na verdade do que somos nós mesmos: realmente nós somos aqueles que gritaram por Deus e foram salvos. Deus é o Salvador, nós aqueles que se encontram em perigo. Ele é o médico, nós os doentes. O fato de reconhecer isto é mesmo o primeiro passo para a salvação, para a saída do labirinto onde nós mesmos, com o nosso orgulho, nos encerramos. Levantar os olhos para o Céu, estender as mãos e implorar ajuda é o caminho de saída, contanto que haja Alguém que escute e possa vir em nosso socorro.
Jesus Cristo é a prova de que Deus escutou o nosso grito. E não só! Deus nutre por nós um amor tão forte que não pôde permanecer em Si mesmo, mas teve de sair de Si mesmo e vir ter conosco, partilhando até ao fundo a nossa condição (cf. Ex 3, 7-12). A resposta que Deus deu, em Cristo, ao grito do homem, supera infinitamente as nossas expectativas, chegando a uma solidariedade tal que não pode ser simplesmente humana, mas divina. Só o Deus que é amor e o amor que é Deus podia escolher salvar-nos através deste caminho, que é certamente o mais longo, mas é aquele que respeita a verdade dEle e a nossa: o caminho da reconciliação, do diálogo e da colaboração.
Por isso, amados irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro, neste Natal de 2011, dirijamo-nos ao Menino de Belém, ao Filho da Virgem Maria e digamos: “Vinde salvar-nos”! Repitamo-lo em união espiritual com tantas pessoas que atravessam situações particularmente difíceis, fazendo-nos voz de quem não a tem.
Juntos, invoquemos o socorro divino para as populações do Nordeste da África, que padecem fome por causa das carestias, por vezes ainda agravadas por um estado persistente de insegurança. A comunidade internacional não deixe faltar a sua ajuda aos numerosos refugiados vindos daquela região, duramente provados na sua dignidade.
O Senhor dê conforto às populações do Sudeste asiático, particularmente da Tailândia e das Filipinas, que se encontram ainda em graves situações de emergência devido às recentes inundações.
O Senhor socorra a humanidade ferida por tantos conflitos, que ainda hoje ensanguentam o Planeta. Ele, que é o Príncipe da Paz, dê paz e estabilidade à Terra onde escolheu vir ao mundo, encorajando a retoma do diálogo entre judeus e palestinos. Faça cessar as violências na Síria, onde já foi derramado tanto sangue. Favoreça a plena reconciliação e a estabilidade no Iraque e no Afeganistão. Dê um renovado vigor, na edificação do bem comum, a todos os componentes da sociedade nos países do Norte da África e do Oriente Médio.
O nascimento do Salvador sustente as perspectivas de diálogo e colaboração no Mianmar à procura de soluções compartilhadas. O Natal do Redentor garanta a estabilidade política nos países da região africana dos Grande Lagos e assista o empenho dos habitantes do Sudão do Sul na tutela dos direitos de todos os cidadãos.
Amados irmãos e irmãs, dirijamos o olhar para a Gruta de Belém: o Menino que contemplamos é a nossa salvação. Ele trouxe ao mundo uma mensagem universal de reconciliação e de paz. Abramos- Lhe o nosso coração, acolhamo-Lo na nossa vida. Repitamos-Lhe com confiada esperança: “Veni ad salvandum nos”.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 25 de dezembro de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

Gramsci tinha razão: somos uma geração mesquinha



Por Mauro Grimoldi

Caro editor,
Escreve quase que movido por um instinto, depois de um diálogo com uma colega minha, mãe de família, que me contou uma confidência recebida de sua filha mais velha.
A menina frequenta o sexto ano e contou à sua mãe a dor que está sentido por uma companheira de sala que revelou a ela, alguns dias antes, o seu sofrimento pela iminente, provável, separação dos pais e o temor de ser afastada da irmã. Que peso é injustamente lançado nas costas de nossos pequenos! Não se trata de um episódio isolado, mas da enésima confirmação de uma inimizade para como nossos próprios filhos, uma verdadeira e propriamente dita hostilidade que nos leva, se se pode dizer assim, a devorá-los, como nos piores pesadelos evocados da literatura mais antiga. Um dos maiores sucessos editoriais japoneses, recentemente traduzido para o italiano (Confissão de Kanae Minato, sem tradução para o português; ndt), conta a vingança, minuciosamente preparada, de um professor do ensino médio contra dois alunos que mataram sua filha de quatro anos. 
Este trecho de Michael Pye, retirado do romance  A camara de inverno, descreve bem uma situação bastante difundida: “No quarto dia em que estavam na estrada, Gretje teve sua primeira menstruação e sua mãe lhe disse que não importava. Sua mãe nunca lhe explicava as coisas, e Gretje era a obrigada a colocar junto o mundo, colando todos os fatos ou as noções nas quais tropeçava”.
Os tempos que estamos vivendo parecem-me marcados por uma dolorosa contradição: o relacionamento com os filhos é distorcido até a uma verdadeira e propriamente dita inversão de papéis. Os adultos se vestem, falam e pensam como criancinhas e as crianças são jogadas, desde a mais tenra infância, nas realidades próprias do mundo adulto (sexo, dinheiro, poder, guerra...), mesmo após uma exposição midiática contínua. A história de Pin, a criança perdida, sem gosto entre os adultos de uma distante brigada parisiense, contada no romance A trilha dos ninhos de aranha de Italo Calvino, poderia ser lida hoje a partir desta chave de interpretação.
A predileção pelos pequenos tantas vezes repetida por Cristo e a advertência peremptória de não escandalizar o distanciar da Sua Pessoa as crianças nos alcançam a partir de uma faceta da experiência humana que se encarrega de uma responsabilidade urgente e dramática, que ilumina a nossa missão de homens para que a educação seja a obra da vida, até ao ponto de nos consumir. Acho que começo a entender de uma maneira totalmente nova a dedicatória que se encontra anotada num dos primeiros livros de Dom Luigi Giussani: “Aos grandes que nos sabem falar, aos pequenos que nos sabem escutar” (Gioventù Studentesca, 1960), assim como o seu célebre apelo: “Obriguem-nos a andar nus, mas nos deixem a liberdade de educar”.
Certamente, a esta urgência não responderá a ênfase, também ela opressiva, hiperprotetora que defende, justifica e preserva os filhos de todos os orcs malvados que povoam o planeta (quem quiser, pode ler The slap, romance do greco-australiano Christos Tsiolkas) ou o fingimento ostentado de uma cumplicidade amigável muito mais do que a redução da educação a psicologia ou a prática normativo-penal. 
É necessário, vice-versa, que os adultos ajam como adultos, coloquem em ação a sua consistência de homens, que não é nem econômica nem muscular, mas é, em primeiro lugar, a consistência da sua esperança; a que não se alimenta da presunção de ter entendido tudo, mas do ideal que se segue. Por isto, precisamos de um lugar onde possamos seguir homens que seguem o Ideal: em suma, precisamos que a Igreja exista.
Tenho vivo na memória o momento do funeral copta realizado para uma menina egípcia, companheira de sala de aula de minha filha Anna, quando a autoridade mais antiga se inclinava em direção à menor das crianças, que, cantando, a interrogava, para responder, também cantando, às suas perguntas. Parece-me uma boa representação da autoridade, que se apoia sobre si mesma, mas só é segura em virtude da tradição, sólida, duradoura e viva, que recebeu e tornou sua. Como Gramsci escreveu: “Uma geração que deprime a geração anterior, que não consegue ver suas grandezas e o seu significado necessário, só pode ser mesquinha e sem confiança em si mesma. (...) Na desvalorização do passado está implícita uma justificação da nulidade do presente”.
Perto do fim do romance A estrada de Cormac McCarthy, no qual se narra a relação entre um pai e um filho num mundo devastado por uma tragédia que reduziu tudo a cinzas, onde a vida animal desapareceu e muitos homens regrediram a uma forma bestial de canibalismo, o filho pergunta ao pai, moribundo, sobre uma criança encontrada na estrada e que nunca mais foi vista outra vez: “Mas, que o encontrará se ele tiver se perdido? Quem encontrará aquele menino?”. A resposta do pai foi: “A bondade o encontrará. Sempre foi assim. E será ainda assim”.
É preciso dizer que esta resposta vem de um homem que, surpreso com a inclinação natural do filho pelo bem, não a mortificou, julgando-a uma fantasia infantil, mas a acompanhou, guiou e fez crescer, reconhecendo na natureza do filho a única possibilidade de salvaguarda da humanidade não só da criança, mas também da sua, até ao legado esperançoso das palavras que eu mencionei, que se demonstrarão verdadeiras e confiáveis.
Emerge uma imagem da educação que não consiste no encher a criança com as próprias opiniões, mas que se realiza no serviço à sua natureza, para fazê-la crescer e dar a ela aquela segurança que a criança, assim como o jovem, é impulsionado a buscar na pessoa e na vida do adulto.
De outro lado, parece-me que seja possível dizer que o movimento amoroso de Deus que se inclina sobre nós, fazendo-Se homem, nasça da urgência de nos assegurar que aquilo que somos é destinado a se realizar: em virtude da ressurreição podemos dizer com a mesma convicção de Paulo e Timóteo: “estou certo de que Aquele que começou em vós esta boa obra, a levará a realização até ao dia de Cristo Jesus”.
A urgência que os tempos põem a nós adultos – qual seja: a de sermos capazes de gerar, educar, fazer crescer na vida aqueles que colocamos no mundo – parece-me decisiva.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 23 de dezembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Comentário ao Evangelho do dia - Natal


São João, Apóstolo e Evangelista

1ª Leitura - 1Jo 1, 1-4
Caríssimos, o que era desde o princípio, o que nós ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos tocaram da Palavra da Vida - de fato, a Vida manifestou-se e nós a vimos, e somos testemunhas, e a vós anunciamos a Vida eterna, que estava junto do Pai e que se tornou visível para nós -; isso que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos, para que estejais em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. Nós vos escrevemos estas coisas para que a nossa alegria fique completa. 

Salmo - Sl 96(97)
R. Ó justos, alegrai-vos no Senhor!
Deus é Rei! Exulte a terra de alegria, *
e as ilhas numerosas rejubilem!
Treva e nuvem O rodeiam no Seu trono, *
que se apoia na justiça e no direito. R.

As montanhas se derretem como cera *
ante a face do Senhor de toda a terra;
e assim proclama o céu Sua justiça, *
todos os povos podem ver a Sua glória. R.

Uma luz já se levanta para os justos, *
e a alegria, para os retos corações.
Homens justos, alegrai-vos no Senhor, *
celebrai e bendizei Seu santo nome! R.

Evangelho - Jo 20, 2-28
No primeiro dia da semana, Maria Madalena saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: "Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram". Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou.

Comentário feito por Orígenes (c. 185-253)
presbítero e teólogo

Considero serem os quatro Evangelhos os elementos essenciais da fé da Igreja [...] e penso que as suas primícias estão [...] no Evangelho de João, o qual, para falar dAquele de quem outros fizeram a genealogia, se inicia precisamente por Aquele que não a tem. Com efeito, escrevendo para judeus que esperavam o descendente de Abraão e de Davi, Mateus diz: "Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão" (Mt 1,1); e Marcos, sabendo muito bem o que escreve, traz: "Princípio do Evangelho" (Mc 1,1). O fim do Evangelho, esse o encontramos em João: é o Verbo que era no princípio, a Palavra de Deus (cf. 1,1). E também Lucas reservou ao discípulo que repousou sobre o peito de Jesus (Jo 13,25) os maiores e mais perfeitos discursos sobre Ele. E nenhum mostrou a Sua divindade de modo tão absoluto como João, que O faz dizer: "Eu sou a luz do mundo" (8,12), "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (14,6), "Eu sou a Ressurreição" (11,25), "Eu sou a porta" (10,9), "Eu sou o Bom Pastor" (10,11) e, no Apocalipse, "Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim" (22,13). Por isso me atrevo a dizer que os Evangelhos são as primícias de toda a Escritura e que, dos Evangelhos, as primícias são o de João, do qual ninguém poderia abarcar todo o sentido a não ser que tivesse descansado sobre o peito de Jesus e recebido dEle Maria por Mãe (Jo 19,27). [...] Quando Jesus diz a Sua Mãe: "Eis o teu filho" e não "eis o homem que também é teu filho", é como se lhe dissesse "Eis o teu filho, gerado por ti", porquanto quem quer que chegue a viver em perfeição não é ele quem vive, mas Cristo que vive nele (Gl 2,20). [...] Será preciso ainda dizer de que inteligência teremos necessidade para podermos interpretar dignamente a palavra depositada, como um tesouro (2 Cor 4,7), nos vasos de barro do uso comum da linguagem, numa caligrafia que todos podem ler, e na palavra que todos podem ouvir se alguém lhe der voz e compreender se todos lhe prestarem atenção? Assim, para interpretarmos devidamente o Evangelho de João, em boa verdade basta-nos ser capazes de dizer: "quanto a nós, temos o pensamento de Cristo, para podermos conhecer os dons da graça de Deus" (1Cor 2,16.12).

domingo, 25 de dezembro de 2011

Deus manifestou-Se... como menino


Missa da noite de Natal
Solenidade do Natal do Senhor
Homilia do Santo Padre Bento XVI
Basílica Vaticana
24 de Dezembro de 2011

Amados irmãos e irmãs!
A leitura que ouvimos, tirada da Carta do Apóstolo São Paulo a Tito, começa solenemente com a palavra “apparuit”, que encontramos de novo na leitura da Missa da Aurora: “apparuit – manifestou-se”. Esta é uma palavra programática, escolhida pela Igreja para exprimir, resumidamente, a essência do Natal. Antes, os homens tinham falado e criado imagens humanas de Deus, das mais variadas formas; o próprio Deus falara de diversos modos aos homens (cf. Hb 1,1: leitura da Missa do Dia). Agora, porém, aconteceu algo mais: Ele Se manifestou, mostrou-Se, saiu da luz inacessível em que habita. Ele, em pessoa, veio para o meio de nós. Na Igreja antiga, esta era a grande alegria do Natal: Deus manifestou-Se. Já não é apenas uma ideia, nem algo que se há de intuir a partir das palavras. Ele “Se manifestou”. 
Mas agora perguntamo-nos: Como Se manifestou? Ele verdadeiramente quem é? A este respeito, diz a leitura da Missa da Aurora: “Manifestaram-se a bondade de Deus (…) e o seu amor pelos homens” (Tt 3, 4). Para os homens do tempo pré-cristão – que, vendo os horrores e as contradições do mundo, temiam que o próprio Deus não fosse totalmente bom, mas pudesse, sem dúvida, ser também cruel e arbitrário –, esta era uma verdadeira ‘epifania’, a grande luz que se nos manifestou: Deus é pura bondade. Ainda hoje há pessoas que, não conseguindo reconhecer a Deus na fé, se interrogam se a Força última que segura e sustenta o mundo seja verdadeiramente boa, ou então se o mal não seja tão poderoso e primordial como o bem e a beleza que, por breves instantes luminosos, se nos deparam no nosso cosmos. “Manifestaram-se a bondade de Deus (…) e o Seu amor pelos homens”: eis a certeza nova e consoladora que nos é dada no Natal.
Na primeira das três leituras desta Missa de Natal, a liturgia cita um texto tirado do livro do Profeta Isaías, que descreve, de forma ainda mais concreta, a epifania que se verificou no Natal: “Um Menino nasceu para nós, um filho nos foi concedido. Tem o poder sobre os ombros, e dão-lhe o seguinte nome: ‘Conselheiro admirável! Deus valoroso! Pai para sempre! Príncipe da Paz!’. O poder será engrandecido numa paz sem fim” (Is 9, 5-6). Não sabemos se o profeta, ao falar assim, tenha em mente um menino concreto nascido no seu período histórico. Mas isso parece ser impossível. Trata-se do único texto no Antigo Testamento, onde de um menino, de um ser humano, se diz: o seu nome será Deus valoroso, Pai para sempre. Estamos perante uma visão que se estende muito para além daquele momento histórico apontando para algo misterioso, colocado no futuro. Um menino, em toda a sua fragilidade, é Deus valoroso; um menino, em toda a sua indigência e dependência, é Pai para sempre. E isto “numa paz sem fim”. Antes, o profeta falara duma espécie de “grande luz” e, a propósito da paz dimanada dEle, afirmara que o bastão do opressor, o calçado ruidoso da guerra, toda a veste manchada de sangue seriam lançados ao fogo (cf. Is 9, 1.3-4).
Deus manifestou-Se... como menino. É precisamente assim que Ele Se contrapõe a toda a violência e traz uma mensagem de paz. Neste tempo, em que o mundo está continuamente ameaçado pela violência em tantos lugares e de muitos modos, em que não cessam de reaparecer bastões do opressor e vestes manchadas de sangue, clamamos ao Senhor: Vós, o Deus forte, Vos manifestastes como menino e mostrastes-Vos a nós como Aquele que nos ama e por meio de quem o amor há de triunfar. Fizestes-nos compreender que, unidos convosco, devemos ser artífices de paz. Amamos o vosso ser menino, a vossa não-violência, mas sofremos pelo fato de perdurar no mundo a violência, levando-nos a rezar assim: Demonstrai a vossa força, ó Deus. Fazei que, neste nosso tempo e neste nosso mundo, sejam queimados os bastões do opressor, as vestes manchadas de sangue e o calçado ruidoso da guerra, de tal modo que a vossa paz triunfe neste nosso mundo.
Natal é epifania: a manifestação de Deus e da sua grande luz num menino que nasceu para nós. Nascido no estábulo de Belém, não nos palácios do rei. Em 1223, quando Francisco de Assis celebrou em Greccio o Natal com um boi, um jumento e uma manjedoura cheia de feno, tornou-se visível uma nova dimensão do mistério do Natal. Francisco de Assis designou o Natal como “a festa das festas” – mais do que todas as outras solenidades – e celebrou-a com “solicitude inefável” (2 Celano, 199: Fontes Franciscanas, 787). Beijava, com grande devoção, as imagens do menino e balbuciava-lhes palavras de ternura como se faz com os meninos – refere Tomás de Celano (ibidem). 
Para a Igreja antiga, a festa das festas era a Páscoa: na ressurreição, Cristo arrombara as portas da morte, e assim mudou radicalmente o mundo: criara para o homem um lugar no próprio Deus. Pois bem! Francisco não mudou, nem quis mudar, esta hierarquia objetiva das festas, a estrutura interior da fé com o seu centro no mistério pascal. Mas, graças a Francisco e ao seu modo de crer, aconteceu algo de novo: ele descobriu, numa profundidade totalmente nova, a humanidade de Jesus. Este fato de Deus ser homem resultou-lhe evidente ao máximo, no momento em que o Filho de Deus, nascido da Virgem Maria, foi envolvido em panos e colocado numa manjedoura. A ressurreição pressupõe a encarnação. 
O Filho de Deus visto como menino, como verdadeiro filho de homem: isto tocou profundamente o coração do Santo de Assis, transformando a fé em amor. “Manifestaram-se a bondade de Deus e o seu amor pelos homens”: esta frase de São Paulo adquiria assim uma profundidade totalmente nova. No menino do estábulo de Belém, pode-se, por assim dizer, tocar Deus e acarinhá-Lo. E o Ano Litúrgico ganhou assim um segundo centro numa festa que é, antes de tudo, uma festa do coração.
Tudo isto não tem nada de sentimentalismo. É precisamente na nova experiência da realidade da humanidade de Jesus que se revela o grande mistério da fé. Francisco amava Jesus menino, porque, neste ser menino, tornou-se-lhe clara a humildade de Deus. Deus tornou-Se pobre. O seu Filho nasceu na pobreza do estábulo. No menino Jesus, Deus fez-Se dependente, necessitado do amor de pessoas humanas, reduzido à condição de pedir o seu, o nosso, amor. Hoje, o Natal tornou-se uma festa dos negócios, cujo fulgor ofuscante esconde o mistério da humildade de Deus, que nos convida à humildade e à simplicidade. Peçamos ao Senhor que nos ajude a alongar o olhar para além das fachadas lampejantes deste tempo a fim de podermos encontrar o menino no estábulo de Belém e, assim, descobrimos a autêntica alegria e a verdadeira luz.
Francisco fazia celebrar a santíssima Eucaristia, sobre a manjedoura que estava colocada entre o boi e o jumento (cf. 1 Celano, 85: Fontes, 469). Depois, sobre esta manjedoura, construiu-se um altar para que, onde outrora os animais comeram o feno, os homens pudessem agora receber, para a salvação da alma e do corpo, a carne do Cordeiro imaculado – Jesus Cristo –, como narra Celano (cf. 1 Celano, 87: Fontes, 471). Na Noite santa de Greccio, Francisco – como diácono que era – cantara, pessoalmente e com voz sonora, o Evangelho do Natal. E toda a celebração parecia uma exultação contínua de alegria, graças aos magníficos cânticos natalícios dos Frades (cf. 1 Celano, 85 e 86: Fontes, 469 e 470). Era precisamente o encontro com a humildade de Deus que se transformava em júbilo: a sua bondade gera a verdadeira festa.
Hoje, quem entra na igreja da Natividade de Jesus em Belém dá-se conta de que o portal de outrora com cinco metros e meio de altura, por onde entravam no edifício os imperadores e os califas, foi em grande parte tapado, tendo ficado apenas uma entrada com metro e meio de altura. Provavelmente isso foi feito com a intenção de proteger melhor a igreja contra eventuais assaltos, mas sobretudo para evitar que se entrasse a cavalo na casa de Deus. Quem deseja entrar no lugar do nascimento de Jesus deve inclinar-se. 
Parece-me que nisto se encerra uma verdade mais profunda, pela qual nos queremos deixar tocar nesta noite santa: se quisermos encontrar Deus manifestado como menino, então devemos descer do cavalo da nossa razão “iluminada”. Devemos depor as nossas falsas certezas, a nossa soberba intelectual, que nos impede de perceber a proximidade de Deus. Devemos seguir o caminho interior de São Francisco: o caminho rumo àquela extrema simplicidade exterior e interior que torna o coração capaz de ver. 
Devemos inclinar-nos, caminhar espiritualmente por assim dizer a pé, para podermos entrar pelo portal da fé e encontrar o Deus que é diverso dos nossos preconceitos e das nossas opiniões: o Deus que Se esconde na humildade dum menino acabado de nascer. Celebremos assim a liturgia desta Noite santa, renunciando a fixarmo-nos no que é material, mensurável e palpável. Deixemo-nos fazer simples por aquele Deus que Se manifesta ao coração que se tornou simples. E nesta hora rezemos também e sobretudo por todos aqueles que são obrigados a viver o Natal na pobreza, no sofrimento, na condição de emigrante, pedindo que se lhes manifeste a bondade de Deus no seu esplendor, que nos toque a todos, a eles e a nós, aquela bondade que Deus quis, com o nascimento de seu Filho no estábulo, trazer ao mundo. Amém.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 24 de dezembro de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

Um cordel de Natal



O Nascimento de Jesus, Um Cordel sobre o Natal

Texto: Euriano Sales
Ilustrações: Meg Banhos
Locução e Edição: Euriano Sales
Trilha: Sa Grama

sábado, 24 de dezembro de 2011

Haverá notícia mais bela a anunciar à terra?



Céus, escutai! Terra, ouve com atenção! Que todas as criaturas, e sobretudo o homem, sejam arrebatadas de admiração e irrompam em louvores: "Jesus Cristo, Filho de Deus, nasce em Belém da Judeia". [...] Haverá notícia mais bela a anunciar à terra? [...] Alguma vez se ouviu coisa parecida, alguma vez o mundo soube de alguma coisa semelhante? "Em Belém da Judeia nasce Jesus Cristo, o Filho de Deus." Tão poucas palavras para exprimir a vinda do Verbo, a Palavra de Deus feita criança, mas que doçura nestas palavras! [...] "Jesus Cristo, o Filho de Deus, nasce em Belém." Nascimento de uma santidade incomparável: honra do mundo inteiro, exaltação de todos os homens devido ao bem imenso que Ele lhes traz, admiração dos anjos por causa da profundidade deste mistério de uma novidade sem paralelo (cf Ef 3,10). [...]
"Jesus Cristo, Filho de Deus, nasce em Belém da Judeia." Vós que estais deitados na poeira, erguei-vos e louvai Deus! Eis o Senhor que chega com a salvação, eis a vinda do Ungido do Senhor, do Seu Messias, ei-Lo que vem na Sua glória. [...] Feliz daquele que se sente atraído por Ele e que "acorre à fragrância dos Seus perfumes" (Ct 1,4 LXX): ele verá "a glória que lhe vem do Pai como Filho único! (Jo 1,14).
Vós que estais perdidos, respirai! Jesus vem salvar o que perecera. Vós, os doentes, voltai a ser saudáveis: Cristo vem estender o bálsamo da Sua misericórdia sobre a chaga dos vossos corações. Estremecei de alegria, todos vós que sentis grandes desejos: o Filho de Deus vem a vós para fazer de vós co-herdeiros do Seu Reino (Rm 8,17). Sim, Senhor, peço-Te, cura-me e ficarei curado; salva-me e serei salvo (Jr 7,14); glorifica-me e ficarei verdadeiramente na glória. Sim, !que a minha alma bendiga o Senhor e que tudo em mim bendiga o Seu santo nome" (Sl 102,1). [...] O Filho de Deus faz-Se homem para fazer dos homens filhos de Deus.
(São Bernardo, Primeiro sermão para a Vigília de Natal)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Comentário ao Evangelho do dia - Advento


Últimos dias antes do Natal - Dia 20 de dezembro

1ª Leitura - Is 7, 10-14
Naqueles dias, o Senhor falou com Acaz, dizendo: "Pede ao Senhor teu Deus que te faça ver um sinal, quer provenha da profundeza da terra, quer venha das alturas do céu". Mas Acaz respondeu: "Não pedirei nem tentarei o Senhor". Disse o profeta: "Ouvi então, vós, casa de Davi; será que achais pouco incomodar os homens e passais a incomodar até o meu Deus? Pois bem, o próprio Senhor vos dará um sinal. Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel".

Salmo - Sl 23 (24)
R. O Senhor vai entrar, é o Rei glorioso!
Ao Senhor pertence a terra e o que ela encerra,*
o mundo inteiro com os seres que o povoam;
porque Ele a tornou firme sobre os mares,*
e sobre as águas a mantém inabalável. R. 

"Quem subirá até o monte do Senhor,*
quem ficará em sua santa habitação?"
"Quem tem mãos puras e inocente coração,* 
quem não dirige sua mente para o crime. R. 

Sobre este desce a bênção do Senhor*
e a recompensa de seu Deus e Salvador".
"É assim a geração dos que O procuram,*
e do Deus de Israel buscam a face". R.

Evangelho - Lc 1, 26-38
Naquele tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!". Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. O anjo, então, disse-lhe: "Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o Seu reino não terá fim". Maria perguntou ao anjo: "Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?". O anjo respondeu: "O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altissimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, porque para Deus nada é impossível". Maria, então, disse: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!". E o anjo retirou-se.

Comentário feito por Prudêncio (348-após 405)
poeta espanhol

Mostra-Te, doce criança, 
Trazida ao mundo por mãe tão casta, 
Que deu à luz sem ter conhecido homem; 
Mostra-Te, Mediador, em ambas as Tuas naturezas. 

Ainda que nascido no tempo, da boca do Pai, 
Engendrado pela Sua palavra (Lc 1,38), 
Já habitavas no seio do Pai (Jo 1,2) 
Ó Sabedoria eterna (1Co 1,24). 

Tu és a Sabedoria que tudo criou (Pr 8,27),
Os céus, a luz e todas as coisas. 
Tu és o Verbo poderoso que fez o universo (Hb 1,3) 
Porque o Verbo é Deus (Jo 1,2). 

Tendo ordenado o curso dos séculos 
E fixado as leis do universo, 
Este artesão do mundo, este construtor, 
Permaneceu no seio do Pai.

Mas, quando se cumpriu o tempo, 
Passados milhões de anos, 
Desceste a visitar 
Este mundo há muito pecador. [...]

Cristo não suportava a queda 
Dos povos que se perdiam; 
Não podia aceitar que a obra do Pai 
Se dissolvesse em nada.

Revestiu-Se de um corpo mortal 
A fim de que a ressurreição da nossa carne 
Quebrasse as cadeias da morte 
E nos conduzisse ao Pai. [...]

Não sentes, ó nobre Virgem, 
Apesar dos dolorosos pressentimentos, 
Que esse glorioso nascimento 
Faz aumentar o brilho da tua virgindade?

Teu seio puríssimo contém o fruto bendito 
Que encherá de alegria toda a criatura. 
Por ti nascerá um mundo novo, 
Aurora de um dia brilhante como o ouro.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Comentário ao Evangelho do dia - Advento

Últimos dias antes do Natal - Dia 19 de dezembro

1ª Leitura - Jz 13, 2-7.24-25a
Naqueles dias, havia um homem de Saraá, da tribo de Dã, chamado Manué, cuja mulher era estéril. O anjo do Senhor apareceu à mulher e disse-lhe: "Tu és estéril e não tiveste filhos, mas conceberás e darás à luz um filho. Toma cuidado de não beberes vinho nem licor, de não comeres coisa alguma impura, pois conceberás e darás à luz um filho. Sua cabeça não será tocada por navalha, porque ele será consagrado ao Senhor desde o ventre materno, e começará a libertar Israel das mãos dos filisteus". A mulher foi dizer ao seu marido: "Veio visitar-me um homem de Deus, cujo aspecto era terrível como o de um anjo do Senhor. Não lhe perguntei de onde vinha nem ele me revelou o seu nome. Ele me disse: 'Conceberás e darás à luz um filho. De hoje em diante, toma cuidado para não beberes vinho nem licor, e não comeres nada de impuro, pois o menino será consagrado a Deus, desde o ventre materno até ao dia da sua morte'". Ela deu à luz um filho e deu-lhe o nome de Sansão. O menino cresceu e o Senhor o abençoou. O espírito do Senhor começou a agir nele no Campo de Dã.

Salmo - Sl 70 (71)
R. Minha boca se encha de louvor,
para que eu cante Vossa glória.
Sede uma rocha protetora para mim, *
um abrigo bem seguro que me salve!
Porque sois a minha força e meu amparo,+
o meu refúgio, proteção e segurança!*
Libertai-me, ó meu Deus, das mãos do ímpio. R. 

Porque sois, ó Senhor Deus, minha esperança, *
em Vós confio desde a minha juventude!
Sois meu apoio desde antes que eu nascesse, +
desde o seio maternal, o meu amparo. R. 

Cantarei Vossos portentos, ó Senhor, *
lembrarei Vossa justiça sem igual!
Vós me ensinastes desde a minha juventude, *
e até hoje canto as Vossas maravilhas. R.

Evangelho - Lc1, 5-25
Nos dias de Herodes, rei da Judeia, vivia um sacerdote chamado Zacarias, do grupo de Abia. Sua esposa era descendente de Aarão e chamava-se Isabel. Ambos eram justos diante de Deus e obedeciam fielmente a todos os mandamentos e ordens do Senhor. Não tinham filhos, porque Isabel era estéril, e os dois já eram de idade avançada. Em certa ocasião, Zacarias estava exercendo as funções sacerdotais no Templo, pois era a vez do seu grupo. Conforme o costume dos sacerdotes, ele foi sorteado para entrar no Santuário, e fazer a oferta do incenso. Toda a assembleia do povo estava do lado de fora rezando, enquanto o incenso estava sendo oferecido. Então apareceu-lhe o anjo do Senhor, de pé, à direita do altar do incenso. Ao vê-lo, Zacarias ficou perturbado e o temor apoderou-se dele. Mas o anjo disse: "Não tenhas medo, Zacarias, porque Deus ouviu tua súplica. Tua esposa, Isabel, vai ter um filho, e tu lhe darás o nome de João. Tu ficarás alegre e feliz, e muita gente se alegrará com o nascimento do menino, porque ele vai ser grande diante do Senhor. Não beberá vinho nem bebida fermentada e, desde o ventre materno, ficará repleto do Espírito Santo. Ele reconduzirá muitos do povo de Israel ao Senhor seu Deus. E há de caminhar à frente deles, com o espírito e o poder de Elias, a fim de converter os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à sabedoria dos justos, preparando para o Senhor um povo bem disposto". Então Zacarias perguntou ao anjo: "Como terei certeza disto? Sou velho e minha mulher é de idade avançada". O anjo respondeu-lhe: "Eu sou Gabriel. Estou sempre na presença de Deus, e fui enviado para dar-te esta boa notícia. Eis que ficarás mudo e não poderás falar, até ao dia em que essas coisas acontecerem, porque tu não acreditaste nas minhas palavras, que hão de se cumprir no tempo certo". O povo estava esperando Zacarias, e admirava-se com a sua demora no Santuário. Quando saiu, não podia falar-lhes. E compreenderam que ele tinha tido uma visão no Santuário. Zacarias falava com sinais e continuava mudo. Depois que terminou seus dias de serviço no Santuário, Zacarias voltou para casa. Algum tempo depois, sua esposa Isabel ficou grávida, e escondeu-se durante cinco meses. Ela dizia: "Eis o que o Senhor fez por mim, nos dias em que ele se dignou tirar-me da humilhação pública!".

Comentário feito por São Máximo de Turim (?-c. 420)
bispo

Foi a oração e não o desejo sexual que levou à concepção de João Batista. O seio de Isabel tinha passado a idade de dar vida, o seu corpo tinha perdido a esperança de conceber; apesar destas condições de desesperança, a oração de Zacarias permitiu a esse corpo envelhecido germinar ainda: foi a graça e não a natureza que concebeu João. Este filho, cujo nascimento vem menos do abraço do que da oração, só poderia ser santo. Apesar de tudo, não devemos espantar-nos por João ter merecido nascimento tão glorioso. O nascimento do precursor de Cristo, daquele que Lhe abriu o caminho, devia apresentar uma semelhança com o do Senhor, nosso Salvador. Se, portanto, o Senhor nasceu de uma virgem, João foi concebido por uma mulher velha e estéril. [...] Não admiramos menos Isabel, que concebeu na sua velhice, do que Maria, que teve um Filho na sua virgindade. Aqui parece-me já haver um símbolo: João representava o Antigo Testamento e nasceu do sangue já arrefecido de uma mulher idosa, enquanto o Senhor, que anuncia a Boa Nova do Reino dos céus, é fruto de uma juventude plena de seiva. Maria, consciente da sua virgindade, admira a criança gerada nas suas entranhas. Isabel, consciente da sua idade avançada, cora ao ver o seu ventre pesado pela gravidez; o evangelista diz, com efeito: "durante cinco meses permaneceu oculta". Temos de admirar também o fato de ser o mesmo arcanjo Gabriel a anunciar os dois nascimentos: traz uma consolação a Zacarias, que permanece incrédulo; e encoraja Maria, que encontra confiante (Lc 1, 26s). O primeiro, por ter duvidado, perdeu a voz; a segunda, por ter acreditado imediatamente, concebeu o Verbo Salvador.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Comentário ao Evangelho do dia - Advento


4º Domingo do Advento

1ª Leitura - 2Sm 7, 1-5.8b-12.14a.16
Tendo-se o rei Davi instalado já em sua casa e tendo-lhe o Senhor dado a paz, livrando-o de todos os seus inimigos, ele disse ao profeta Natã: "Vê: eu resido num palácio de cedro, e a arca de Deus está alojada numa tenda!". Natã respondeu ao rei: "Vai e faze tudo o que diz o teu coração, pois o Senhor está contigo". Mas, naquela mesma noite, a palavra do Senhor foi dirigida a Natã nestes termos: "Vai dizer ao meu servo Davi: 'Assim fala o Senhor: Porventura és tu que me construirás uma casa para eu habitar? Fui eu que te tirei do pastoreio, do meio das ovelhas, para que fosses o chefe do meu povo, Israel. Estive contigo em toda a parte por onde andaste, e exterminei diante de ti todos os teus inimigos, fazendo o teu nome tão célebre como o dos homens mais famosos da terra. Vou preparar um lugar para o meu povo, Israel: eu o implantarei, de modo que possa morar lá sem jamais ser inquietado. Os homens violentos não tornarão a oprimi-lo como outrora, no tempo em que eu estabelecia juízes sobre o meu povo, Israel. Concedo-te uma vida tranquila, livrando-te de todos os teus inimigos. E o Senhor te anuncia que te fará uma casa. Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então, suscitarei, depois de ti, um filho teu, e confirmarei a sua realeza. Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho. Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de mim, e teu trono será firme para sempre'".

Salmo - Sl 88
R. Ao Senhor, eu cantarei eternamente o Vosso amor! 
Ao Senhor, eu cantarei eternamente o Vosso amor,* 
de geração em geração eu cantarei Vossa verdade!
Porque dissestes: "O amor é garantido para sempre!"* 
E a Vossa lealdade é tão firme como os céus. R.

"Eu firmei uma Aliança com meu servo, meu eleito,* 
e eu fiz um juramento a Davi, meu servidor.
Para sempre, no teu trono, firmarei tua linhagem,* 
de geração em geração garantirei o teu reinado!" R.

Ele, então, me invocará: "Ó Senhor, Vós sois meu Pai, sois 
meu Deus,* sois meu Rochedo onde encontro a salvação!"
Guardarei eternamente para ele a minha graça* 
e com ele firmarei minha Aliança indissolúvel. R.

2ª Leitura - Rm 16, 25-27
Irmãos, glória seja dada Àquele que tem o poder de vos confirmar na fidelidade ao meu evangelho e à pregação de Jesus Cristo, de acordo com a revelação do mistério mantido em sigilo desde sempre. Agora este mistério foi manifestado e, mediante as Escrituras proféticas, conforme determinação do Deus eterno, foi levado ao conhecimento de todas as nações, para trazê-las à obediência da fé. A Ele, o único Deus, o sábio, por meio de Jesus Cristo, a glória, pelos séculos dos séculos. Amém!

Evangelho - Lc 1,26-38
Naquele tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!". Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. O anjo, então, disse-lhe: "Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o Seu reino não terá fim". Maria perguntou ao anjo: "Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?". O anjo respondeu: "O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altissimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, porque para Deus nada é impossível". Maria, então, disse: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!". E o anjo retirou-se.

Comentário feito por São Bernardo (1091-1153)
monge cisterciense e doutor da Igreja

Ouviste, ó Virgem, que conceberás e darás à luz um Filho, não de um homem – como compreendeste –, mas do Espírito Santo. O anjo espera a tua resposta: tem de regressar para junto dAquele que o enviou. Nós também esperamos, ó Senhora nossa. Miseravelmente acabrunhados por uma sentença de condenação, esperamos uma palavra de piedade. Ora, eis que te é oferecido o resgate da nossa salvação. Aceita e somos livres. Todos fomos criados no Verbo Eterno de Deus; mas, infelizmente, a morte fez a sua obra em nós. Uma breve resposta tua basta para nos recriar, de modo que sejamos de novo chamados à vida. [...] Não demores, Virgem Maria, dá a tua resposta. Ó Senhora nossa, pronuncia essa palavra que a terra, os infernos e até os próprios céus esperam. Vê: o Rei e Senhor do universo, Ele que "Se deixou prender pela tua beleza" (cf. Sl 44,12), deseja, com o mesmo ardor, o sim da tua resposta. Ele quis fazer depender da tua resposta a salvação do mundo. Agradaste-Lhe com o teu silêncio; agradar-Lhe-ás ainda mais agora com a tua palavra. Eis que Ele próprio te interpela lá do alto: "ó mais bela das mulheres, [...] deixa-Me ouvir a tua voz". [...] Sim, responde rapidamente ao anjo, ou antes, pelo anjo, ao Senhor. Responde numa palavra e acolhe o Verbo; pronuncia a tua própria palavra e concebe o Verbo divino; emite uma palavra passageira e envolve o Verbo eterno. [...] Maria disse então: "Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua palavra".

sábado, 17 de dezembro de 2011

Elevai para o céu vosso olhar


Vem, ó Rei, mensageiro de paz!
Traz ao mundo o sorriso de Deus!
Nunca um homem olhou o Seu rosto;
o Mistério só Tu nos revelas.

Comentário ao Evangelho do dia - Advento


Últimos dias antes do Natal - Dia 17 de dezembro

1ª Leitura - Gn 49, 2.8-10
Naqueles dias, Jacó chamou seus filhos e disse: "Juntai-vos e ouvi, filhos de Jacó, ouvi Israel, vosso pai! Judá, teus irmãos te louvarão; pesará tua mão sobre a nuca de teus inimigos, se prostrarão diante de ti os filhos de teu pai. Judá, filhote de leão: subiste, meu filho, da pilhagem; ele se agacha e se deita como um leão, e como uma leoa; quem o despertará? O cetro não será tirado de Judá, nem o bastão de comando dentre seus pés, até que venha Aquele a quem pertencem, e a quem obedecerão os povos".

Salmo - Sl 71 (72)
R. Nos seus dias a justiça florirá 
e paz em abundância, para sempre.
Dai ao Rei Vossos poderes, Senhor Deus, *
Vossa justiça ao descendente da realeza!
Com justiça ele governe o Vosso povo, *
com equidade Ele julgue os Vossos pobres. R. 

Das montanhas venha a paz a todo o povo, *
e desça das colinas a justiça!
Este Rei defenderá os que são pobres, *
os filhos dos humildes salvará. R. 

Nos seus dias a justiça florirá *
e grande paz, até que a lua perca o brilho!
De mar a mar estenderá o Seu domínio, *
e desde o rio até os confins de toda a terra! R. 

Seja bendito o Seu nome para sempre! *
E que dure como o sol Sua memória!
Todos os povos serão nEle abençoados, *
todas as gentes cantarão o Seu louvor! R.

Evangelho - Mt 1, 1-17
Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacó; Jacó gerou Judá e seus irmãos. Judá gerou Farés e Zara, cuja mãe era Tamar. Farés gerou Esrom; Esrom gerou Aram; Aram gerou Aminadab; Aminadab gerou Naasson; Naasson Gerou Salmon; Salmon gerou Booz, cuja mãe era Raab. Booz gerou Obed, cuja mãe era Rute. Obed gerou Jessé. Jessé gerou o rei Davi. Davi gerou Salomão, daquela que tinha sido a mulher de Urias. Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa; Asa gerou Josafá; Josafá gerou Jorão; Jorão gerou Ozias; Ozias gerou Joatão; Joatão gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias; Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias. Josias gerou Jeconias e seus irmãos, no tempo do exílio na Babilônia. Depois do exílio na Babilônia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel; Zorobabel gerou Abiud; Abiud gerou Eliaquim; Eliaquim gerou Azor; Azor gerou Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud; Eliud gerou Eleazar; Eleazar gerou Matã; Matã gerou Jacó. Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo. Assim, as gerações desde Abraão até Davi são quatorze; de Davi até o exílio na Babilônia, quatorze; e do exílio na Babilônia até Cristo, quatorze.

Comentário feito por São Leão Magno (? -c. 461)
papa e doutor da Igreja

A Encarnação do Verbo, a Palavra de Deus, diz respeito ao passado e ao futuro; nenhum tempo, por mais recuado que seja, foi privado do sacramento da salvação dos homens. O que os apóstolos pregaram é o que os profetas tinham anunciado, e não se pode dizer que o que se acreditou desde sempre se tivesse cumprido tardiamente. Adiando a obra da salvação, Deus tornou-nos, na Sua sabedoria e na Sua bondade, mais aptos para responder ao Seu apelo [...], graças a estes anúncios antigos e frequentes. Não é pois verdade que Deus tenha providenciado às questões humanas mudando de intenção e movido por uma misericórdia tardia: desde a criação do mundo, Ele decretou para todos um único e mesmo caminho de salvação. Com efeito, a graça de Deus, pela qual todos os Seus santos sempre foram justificados, não se iniciou com o nascimento de Cristo, antes cresceu com ele. Este mistério de um grande amor, que agora preencheu o mundo inteiro, já era igualmente poderoso em seus avisos; os que acreditaram quando lhes foi prometido não tiveram menos benefícios do que os que o receberam quando lhes foi dado.  Meus caros, foi pois com uma bondade evidente que as riquezas da graça de Deus foram derramadas sobre nós. Chamados à eternidade, não somos apenas sustentados pelo exemplo do passado, mas vimos aparecer a própria verdade sob uma forma visível e corporal. Devemos pois celebrar o dia do nascimento do Senhor com uma alegria fervorosa que não é deste mundo. [...] Graças à luz do Espírito Santo, saibamos reconhecer Aquele que nos recebeu nEle e que nós recebemos em nós: porque, tal como o Senhor Jesus tomou a nossa carne nascendo, também nós tomamos o Seu corpo renascendo. [...] Deus nos propôs o exemplo da Sua generosidade e humildade [...]: sejamos semelhantes ao Senhor na Sua humildade, se queremos ser como Ele na Sua glória. Ele próprio nos ajudará e nos conduzirá à realização do que prometeu.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Caros professores, foi assim que vocês “mataram” a sua autoridade


Por Giovanni Gobber

Autoridade é uma palavra com muitos sentidos. Pela origem, vem da palavra latina auctoritas, que indicava capacidade de fazer crescer, portanto “prestígio, estima”: vinha de auctor, que denotava “quem faz crescer, quem é fundador”. Na base havia o verbo augere, ou seja “aumentar”. No dicionário etimológico de Ernout e Meillet, augere goza da máxima atenção, visto que deu origem a um grande número de derivados, entre os quais aparece o nome dos augures, os sacerdotes que escrutavam os fenômenos naturais, como o voo dos pássaros, e formulavam previsões, chamadas augurium, porque se acreditava que fossem favoráveis. Os antigos precisavam de auxilium, ou seja, de uma ajuda que “faz as forças crescerem”. Neste âmbito é que se coloca a experiência da auctoritas: a palavra tem valor positivo e atesta a confiança no futuro, que é visto como crescimento, desenvolvimento e é promessa de um bem.
Na época moderna, por causa de uma metonímia (que transfere a palavra de um elemento a outro no mesmo domínio), autoridade se transferiu da capacidade para o indivíduo que tem a capacidade. Dessa forma é que se passou a chamar como autoridade também a pessoa que reveste um alto cargo público (uma posição que confere o poder de “fazer crescer”, de “construir”). Trata-se de um uso de matriz francesa, que remonta ao tardo século XVIII. Uma passagem ulterior tirou a relação com os indivíduos: autoridade, assim, passou a designar o poder legal de gerir os comportamentos sociais. O nexo com o antigo verbo augere e com o prestígio gozado pelos auctores passou a ser opaco. Além do mais, este vínculo se percebe ainda hoje, mesmo que levemente, no adjetivo autoridade (autorevole) e no substantivo autoridade (autorevolezza). O elemento –evole é um derivado do latim –abilis: auctorabilis designava quem é capaz de ser auctor.
Como se pode notar, a moderna autoridade (autorevolezza) está próxima, pelo sentido, da antiga auctoritas: é um prestígio moral, uma estima que se difunde na comunidade e não depende de uma imposição, mas de um compartilhamento. A autoridade era dotada de um fundamento razoável: era reconhecida porque se viam os seus efeitos.
Outros tempos, outros costumes. No mundo moderno, se rompeu o vínculo entre moral e razão.
Consequentemente, autoridade denota sobretudo aquilo que impõe. O bem futuro não é considerado. A ênfase recai sobre a obrigação no presente. A educação não sabe o que fazer com esta autoridade: impondo a obediência não se “faz crescer”; no máximo, se comprime, se reprime.
A crise da autoridade no mundo moderno talvez esteja ligada ao divórcio com a autoridade (autorevolezza). A rebelião surge onde a autoridade indica apenas imposição, obrigação incapaz de mostrar um bem futuro que confira sentido à obediência. Pelo contrário, lá onde age um indivíduo ou um exemplo de autoridade (autorevole), se percebe a necessidade de obedecer. Não se sente como uma obrigação, mas como uma necessidade de seguir quem tem autoridade. Uma disciplina por demais rígida é bem difundida na prática esportiva: quem se submete a treinamentos duros e monótonos encontra uma razão naquilo que faz – e é a recompensa do sucesso futuro. O mesmo vale para quem enfrenta “sessões” exaustivas na academia, enquanto enfrenta a dificuldade de se preparar para provas.
A autoridade depende do bem que pode suscitar. Se não se vê um bem futuro, não se encontra motivo para seguir quem chama para a obediência. Muitos indivíduos – muitas das vezes jovens – recusam a autoridade por este motivo. Outros indivíduos – menos jovens que os primeiros – não aceitam a recusa da autoridade. Estes, por sua vez, não têm autoridade (autorevolezza), não têm a capacidade de mostrar o bem futuro. Há também quem contribuiu, no passado, para a destruição do princípio de uma autoridade fundada sobre um bem do fundamento razoável, e agora se lamenta porque a autoridade não é mais seguida. 
Resta a possibilidade de construir relacionamentos humanos construídos no encontro com pessoas de carne e osso, capazes de “fazer crescer”, ou seja, de educar e ter esperança no futuro. Convém voltar “a crescer”, dizem. Para isto, não são necessários personagens “sóbrios”, austeros, paladinos do rigor, dispensadores de sermões vazios. Para crescer é preciso gerar humanidade. E isto é possível na medida em que se parta da caridade guiada pela fé. O futuro não é apenas dos usuais Übermenschen, para quem tudo é permitido e nenhum veto parece ser fundado.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 16 de dezembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

A memória se torna força da esperança


Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro

Quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Hoje, gostaria de meditar convosco um Salmo que resume toda a história da salvação de que o Antigo Testamento nos dá testemunho. Trata-se de um grande hino de louvor que celebra o Senhor nas múltiplas, repetidas manifestações da Sua bondade ao longo da história dos homens; é o Salmo 136 – ou 135 segundo a tradição greco-latina.
Oração solene de ação de graças, conhecido como o “Grande Hallel”, este Salmo é tradicionalmente cantado ao final da ceia pascal hebraica e, provavelmente, foi rezado também por Jesus na última Páscoa celebrada com os discípulos; a ele, de fato, parece se referir a anotação dos Evangelistas: “Depois de ter cantado o hino, saíram para o monte das Oliveiras” (cf. Mt 26, 30; Mc 14, 26). O horizonte do louvor ilumina assim a difícil estrada do Gólgota. Todo o Salmo 136 se desenrola em forma de uma litania, marcada pela repetição antifonal “porque eterno é Seu amor”. Ao longo da composição, são enumerados os muitos prodígios de Deus na história dos homens e Suas contínuas intervenções em favor de Seu povo; e a cada proclamação da ação salvífica do Senhor a antífona responde com a motivação fundamental do louvor: o amor eterno de Deus, um amor que, segundo o termo hebraico utilizado, implica fidelidade, misericórdia, bondade, graça, ternura. É este o motivo unificante de todo o Salmo, repetido de forma sempre igual, enquanto mudam as suas manifestações pontuais e paradigmáticas: a criação, a libertação do êxodo, o dom da terra, a ajuda providente e constante do Senhor para com Seu povo e cada criatura.
Depois de um tríplice convite à ação de graças ao Deus soberano (vv. 1-3), celebra-se o Senhor como Aquele que realiza “maravilhosos prodígios” (v. 4), o primeiro dos quais é a criação: o céu, a terra, os astros (vv. 5-9). O mundo criado não é um simples cenário sobre o qual se insere a ação salvífica de Deus, mas é o início mesmo daquela ação maravilhosa. Com a criação, o Senhor se manifesta em toda a Sua bondade e beleza, compromete-se com a vida, revelando uma vontade de bem da qual brota cada um dos atos de salvação. E no nosso Salmo, ecoando o primeiro capítulo do Gênesis, o mundo criado é sintetizado no seus elementos principais, insistindo particularmente nos astros, no sol, na lua, nas estrelas, criaturas magníficas que governam o dia e a noite. Não se fala aqui da criação do ser humano, mas ele está sempre presente; o sol e a lua são para ele – para o homem – para marcar o tempo do homem, colocando-o em relação com o Criador, sobretudo através das indicações dos tempos litúrgicos.
E é exatamente a festa da Páscoa que é evocada logo depois, quando, passando para a manifestação de Deus na história, começa-se evocando o grande evento da libertação da escravidão egípcia, do êxodo, traçado a partir de seus elementos mais significativos: a libertação do Egito com a chaga dos primogênitos egípcios, a saída do Egito, a passagem pelo Mar Vermelho, o caminho no deserto até a entrada na terra prometida (vv. 10-20). Estamos no momento originário da história de Israel. Deus interveio com poder para levar o Seu povo para a liberdade; através de Moisés, Seu enviado, impôs-Se ao faraó revelando-Se em toda a Sua grandeza e, finalmente, dobrou a resistência dos egípcios com o terrível flagelo da morte dos primogênitos. Assim, Israel pôde deixar o país da escravidão, com o ouro de seus opressores (cf. Ex 12, 35-36), “com as mãos levantadas” (Ex 14, 8), no sinal exultante da vitória. Também no Mar Vermelho o Senhor agiu com potência misericordiosa. Diante de um Israel assustado com a vista dos egípcios que o perseguiam, a ponto de lamentar haver deixado o Egito (cf. Ex 14, 10-12), Deus, como diz o nosso Salmo, “dividiu em dois o mar Vermelho [...], fez passar Israel pelo meio dele [...], precipitou no mar Vermelho o faraó e seu exército” (vv. 13-15). A imagem do Mar Vermelho “dividido” em dois parece evocar a ideia do mar como um grande monstro que é cortado em dois pedaços e, assim, tornado inofensivo. O poder do Senhor vence o perigo das forças das natureza e daqueles militares: o mar, que parece impedir o caminho do povo de Deus, deixa Israel passar de pés enxutos e, em seguida, se derrama sobre os egípcios derrubando-os. “A mão poderosa e o braço forte” (cf. Dt 5, 15; Dt 7, 19; Dt 26, 8) se mostram, dessa maneira, em toda a sua força salvífica: o opressor injusto foi vencido, engolido pelas águas, enquanto que o povo de Deus “passa pelo meio” para continuar o seu caminho em direção à liberdade. 
Neste ponto, o nosso Salmo faz referência a este caminho, com uma frase brevíssima, recordando a longa peregrinação de Israel para a terra prometida: “conduziu Seu povo através do deserto, porque eterno é Seu amor” (v. 16). Estas poucas palavras encerram uma experiência de quarenta anos, um tempo decisivo para Israel que, deixando-se guiar pelo Senhor, aprende a viver de fé, na obediência e na docilidade à lei de Deus. São anos difíceis, marcados pela dureza da vida no deserto, mas também anos felizes, de confiança no Senhor, de confiança filial; é o tempo da “juventude”, como é definido pelo profeta Jeremias, falando a Israel, em nome do Senhor, com expressões cheias de ternura e de nostalgia: “Lembro-me de tua afeição quando eras jovem, de teu amor de noivado, no tempo em que me seguias ao deserto, à terra sem sementeiras” (Jr 2, 2). O Senhor, como o pastor do Salmo 23 que contemplamos numa de nossas catequeses, por quarenta anos guiou o Seu povo, o educou e amou, conduzindo-o até a terra prometida, vencendo mesmo as resistências e a hostilidade de povos inimigos que querias impedir o seu caminho de salvação (cf. vv. 17-20).
No desenrolar-se das “grandes maravilhas” que o nosso Salmo enumera, chega-se assim ao momento do dom final, a realização da promessa divina feita aos Pais: “e deu a terra deles em herança, porque eterno é Seu amor; como patrimônio de Israel, Seu servo, porque eterno é Seu amor” (vv. 21-22). Na celebração do amor eterno do Senhor, nesse momento se faz memória do dom da terra, um dom que o povo deve receber sem nunca se apossar dela, vivendo continuamente numa postura de acolhida reconhecida e grata. Israel recebe o território no qual poderá habitar como “herança”, um termo que designa de modo genérico a posse de um bem recebido de outro, um direito de propriedade que, de modo específico, faz referência ao patrimônio paterno. Uma das prerrogativas de Deus é de “doar”; e agora, no fim do caminho do êxodo, Israel, destinatário do dom, como um filho, entra no país da promessa realizada. É terminado o tempo do nomadismo, sob tendas, numa vida marcada pela precariedade. Agora tem início o tempo feliz da estabilidade, da alegria de construir as casas, de plantar as vinhas, de viver na segurança (cf. Dt 8, 7-13). Mas é também o tempo da tentação da idolatria, da contaminação com os pagãos, da autosuficiência que faz esquecer a Origem do dom. Por isso, o Salmista menciona a humilhação e os inimigos, uma realidade de morte na qual o Senhor, uma vez mais, Se revela como Salvador: “Em nossa humilhação Ele se lembrou de nós, porque eterno é Seu amor; e nos livrou de nossos inimigos, porque eterno é Seu amor” (vv. 23-24).
Neste ponto nasce a pergunta: como podemos fazer deste Salmo uma oração nossa? Como podemos nos apropriar, para a nossa oração, deste Salmo? O importante é o contexto do Salmo, apresentado no início e no fim: a criação. Retornaremos sobre este ponto: a criação, como o grande dom de Deus do qual vivemos, no qual Ele se revela na Sua bondade e grandeza. Portanto, ter presente a criação como dom de Deus é um ponto comum para todos nós. Depois, segue a história da salvação. Naturalmente, podemos dizer: esta libertação do Egito, o tempo no deserto, a entrada na Terra Santa e depois todos os outros problemas, estão muito distantes de nós, não são a nossa história. Mas temos que ficar atentos à estrutura fundamental desta oração. A estrutura fundamental é que Israel se recorda da bondade do Senhor. Nesta história há tantos vales tenebrosos, há tantas passagens de dificuldade e de morte, mas Israel se recorda que Deus era bom e que pode sobreviver neste vale tenebroso, neste vale de morte, porque se recorda. Há a memória da bondade do Senhor, do Seu poder; a Sua misericórdia vale para sempre. E isto é importante também para nós: ter uma memória da bondade do Senhor. A memória se torna força da esperança. A memória nos diz: Deus existe, Deus é bom, eterna é a Sua misericórdia. E assim a memória abre, mesmo na obscuridade de um dia, de um tempo, o caminho para o futuro: é luz e estrela que nos guia. Também nós temos uma memória do bem, do amor misericordioso, eterno de Deus. A história de Israel é uma memória também para nós, como Deus se mostrou, criou um povo para Si. Depois, Deus se fez homem, um de nós: viveu conosco, sofreu conosco, morreu por nós. Permanece conosco no Sacramento e na Palavra. É uma história, uma memória da bondade de Deus que nos assegura a Sua bondade: o Seu amor é eterno. E também, mesmo nestes dois mil anos da história da Igreja, sempre há, uma vez mais, a bondade do Senhor. Depois do período obscuro da perseguição nazista e comunista, Deus nos libertou, mostrou que é bom, que tem força, que a Sua misericórdia vale para sempre. E, como na história comum, coletiva, está presente esta memória da bondade de Deus, que nos ajuda, se torna estrela da esperança para nós, assim também cada um de nós tem a sua história pessoal de salvação, e temos realmente que estimar esta história, ter sempre presente a memória das grandes coisas que fez também na minha vida, para ter confiança: a Sua misericórdia é eterna. E se hoje eu estou na noite escura, amanhã Ele me liberta porque eterno é Seu amor.
Voltemos ao Salmo, porque, no fim, ele retorna à criação. O Senho – é assim que diz – “dá alimento a todos os seres vivos, porque eterno é Seu amor” (v. 25). A oração do Salmo se conclui com um convite ao louvor: “Louvai o Deus do céu, porque eterno é Seu amor”. O Senhor é Pai bom e providente, que dá a herança aos Seus filhos e concede a todos o alimento para viver. O Deus que criou os céus e a terra e as grandes luzes celestes, que entra na história dos homens para levar à salvação todos os Seus filhos é o Deus que enche o universo com a Sua presença de bem, cuidando da vida e dando o pão. A invisível potência do Criador e Senhor cantada no Salmo se revela na pequena visibilidade do pão que nos dá, com o qual nos faz viver. E assim este pão cotidiano simboliza e sintetiza o amor de Deus como Pai, e nos abre para a realização neotestamentária, para aquele “pão da vida”, a Eucaristia, que nos acompanha na nossa existência de crentes, antecipando a alegria definitiva do banquete messiânico no Céu.
Irmãos e irmãs, o louvor bendito do Salmo 136 nos fez repercorrer as etapas mais importantes da história da salvação, até chegar ao mistério pascal, no qual a ação salvífica de Deus chega ao seu ponto alto. Com alegria cheia de reconhecimento celebremos portanto o Criador, Salvador e Pai fiel, que “de tal modo amou o mundo, que lhe deu Seu Filho unigênito, para que todo o que nEle crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). Na plenitude dos tempos, o Filho de Deus se faz homem para dar a vida, para a salvação de cada um de nós, e Se dá como pão no mistério eucarístico para fazer-nos entrar na Sua aliança que nos torna filhos. Para isso, alcança-nos a bondade misericordiosa de Deus e a sublimidade do Seu “amor eterno”.
Quero, por isso, concluir esta catequese fazendo minhas as palavras que São João escreve na sua Primeira Carta e que devemos sempre ter presentes na nossa oração: “Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato” (1Jo 3, 1). Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 19 de outubro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Comentário ao Evangelho do dia - Advento


3ª Semana do Advento - Sexta-feira
     
1ª Leitura - Is 56, 1-3a.6-8
Isto diz o Senhor: "Cumpri o dever e praticai a justiça, minha salvação está prestes a chegar e minha justiça não tardará a manifestar-se". Feliz do homem que assim proceder e que nisso perseverar, observando o sábado, sem o profanar, preservando suas mãos de fazer o mal. Não diga o estrangeiro que aderiu ao Senhor: "Por certo o Senhor me excluirá de seu povo". Aos estrangeiros que aderem ao Senhor, prestando-Lhe culto, honrando o nome do Senhor, servindo-O como servos Seus, a todos os que observam o sábado e não o profanam, "e aos que mantêm aliança comigo, a esses conduzirei ao meu santo monte e os alegrarei em minha casa de oração; aceitarei com agrado em meu altar seus holocaustos e vítimas, pois minha casa será chamada casa de oração para todos os povos". Diz o Senhor Deus, que reúne os dispersos de Israel: "Ainda reunirei com eles outros, além dos que já estão reunidos".

Salmo - Sl 66 (67)
R. Que as nações Vos glorifiquem, ó Senhor,
que todas as nações Vos glorifiquem.
Que Deus nos dê a Sua graça e Sua bênção, *
e Sua face resplandeça sobre nós!
Que na terra se conheça o Seu caminho *
e a Sua salvação por entre os povos. R. 

Exulte de alegria a terra inteira, *
pois julgais o universo com justiça;
os povos governais com retidão, *
e guiais, em toda a terra, as nações. R. 

A terra produziu sua colheita: *
o Senhor e nosso Deus nos abençoa.
Que o Senhor e nosso Deus nos abençoe, *
e O respeitem os confins de toda a terra! R.

Evangelho - Jo 5, 33-36
Naquele tempo, Jesus disse aos judeus: "Vós mandastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade. Eu, porém, não dependo do testemunho de um ser humano. Mas falo assim para a vossa salvação. João era uma lâmpada que estava acesa e a brilhar, e vós com prazer vos alegrastes por um tempo com a sua luz. Mas eu tenho um testemunho maior que o de João; as obras que o Pai me concedeu realizar. As obras que eu faço dão testemunho de mim, mostrando que o Pai me enviou".

Comentário feito por São Máximo de Turim (? – c. 420)
bispo

Na altura em que todo o universo se encontrava subjugado pelas trevas do diabo e o negrume do pecado reinava sobre o mundo, um novo sol, Cristo, Nosso Senhor, quis, nos últimos tempos e na escuridão da noite, espalhar a claridade de um novo dia. Antes de surgir esta luz, isto é, antes de que se manifestasse "o sol de justiça" (Ml 3, 20), Deus anunciara já, pelos profetas: "Eu vos enviei todos os Meus profetas antes da luz" (Jr 7, 25 [Vulgata]). Mais tarde, o próprio Cristo enviou os Seus raios, ou seja, os Apóstolos, a fazer brilhar a Sua luz e encher de Verdade a terra inteira, a fim de que ninguém se perdesse nas trevas. [...] Nós, os homens, servimo-nos de lâmpadas para levar a cabo as nossas tarefas antes de o sol deste mundo nascer; ora, também o sol de Cristo teve uma lâmpada a preceder a Sua vinda, como diz o salmista: "Preparei uma lâmpada para o Meu Cristo" (Sl 132, 17 [Vulgata]). O Senhor indica-nos quem é esta lâmpada, ao dizer, a respeito de João Batista: "era uma lâmpada ardente e luminosa" (Jo 5, 35). E o mesmo João diz de si mesmo, como se fora o fraco clarão de uma lanterna que se leva à nossa frente: "Mas vai chegar alguém mais forte do que eu, a quem não dou digno de desatar a correia das sandálias. Ele há de vos batizar no Espírito Santo e no fogo" (Lc 3, 16); ao mesmo tempo, percebendo que a sua luz devia desvanecer-se perante os raios desse sol, diz: "Ele é que deve crescer, e eu diminuir" (Jo 3, 30). Com efeito, assim como o clarão de uma lanterna desaparece com a luz do sol, do mesmo modo o batismo de arrependimento de João perde o valor com a chegada da graça de Cristo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Crise da autoridade? O grande erro da liberdade moderna...


Por Stefano Biancu

Nestas páginas enfrentou-se, sob vários aspectos, o tema da crise da autoridade. O dissídio entre autoridade e razão representa, para o bem e para o mal, um nó constitutivo do aspecto intelectual da nossa modernidade. Hannah Arendt já falava disso: a crise atual da autoridade depende diretamente da estrutura intelectual e político-social da modernidade ocidental, que perdeu “the dimension of depth” – a dimensão da profundidade. Ou, para dizer com poucas palavras, a referência constitutiva a qualquer coisa de (sempre) precedente e fundante.
Convém, todavia, reconhecer como a atual crise da razão moderna não só não resultou numa ampla reavaliação da autoridade, como também exacerbou a crise mesma.
Explico-me. A única forma de autoridade que a modernidade reconheceu como legítima é a da razão autônoma, entendida como essência exclusivamente pensante (res cogitans) aplicada ao conhecimento de uma realidade substancialmente redutível a seus aspectos mensuráveis e quantificáveis (res extensa). A crise da única forma de autoridade tida como legítima – a da razão autônoma – levou a crise da autoridade, dessa forma, ao seu paroxismo.
No alvorecer da modernidade, os desafios inerentes à grande representação de uma distinção clara entre res cogitans e res extensa era dúplice. Em primeiro lugar, tratava-se de garantir a possibilidade de uma relação objetiva e neutra com o real, e isto com a finalidade de legitimar a ciência moderna: convinha postular um sujeito (res cogitans) que fosse de uma matéria completamente diferente da do objeto de sua observação (res extensa). Em segundo lugar, tratava-se de reagir à exagerada pretensão de mediação proveniente de instâncias políticas e religiosas: convinha afirmar a imediaticidade de certos direitos fundamentais do indivíduo, direitos que deveriam ser reconhecidos para cada ser humano desde o seu nascimento, e portanto independentemente da sua história e da sua posição, ou seja, da sua colocação no tempo e no espaço. Neste sentido, a grande representação teórica de uma res cogitans atemporal e aespacial teve o mérito de assegurar e garantir o nascimento e o desenvolvimento não apenas da ciência moderna, como também do Estado de direito. Méritos preciosos e de valor indubitável.  
Os problemas, porém, nasceram no momento em que se sustentou que esta representação artificial pudesse exaurir completamente a humanidade do homem. Ler e tentar compreender a autoridade a partir do paradigma de uma razão radicalmente livre de pressupostos (res cogitans) significou, de fato, se opor à possibilidade de encontrar categorias adequadas para o objetivo. Com efeito, é evidente como não é possível compreender a autoridade a não ser a custo de uma radical reflexão tardia acerca da nossa humanidade e da nossa liberdade, na medida em que humanidade e liberdade ricas de pressupostos: ou na medida em que as considerarmos como inseridas num tempo e num espaço.
Se de fato, jurídica e politicamente, a liberdade só pode ser um direito universal a ser reconhecido imediatamente para quem quer que seja, de um ponto de vista ético e antropológico esta imediaticidade representa apenas uma abstração. Eticamente, a liberdade é, de fato, também um dever e uma responsabilidade. Antropologicamente, sempre se está no caminho em direção à própria liberdade. Não nascemos livres: tornamo-nos livres, e nos tornamos graças ao encontro com liberdades mais maduras do que a nossa, que se tornam assim autoridades. Mais a liberdade com a qual se entra na relação é madura, tanto mais ela terá o caráter de uma autoridade geradora de liberdades. No fundo, este é o princípio de toda educação.
Neste sentido, ao lado de uma experiência (jurídico-política) da liberdade como direito, convém reconhecer uma experiência da liberdade como dever (nível ético) e, finalmente, uma mais fundamental experiência da liberdade como dom (nível antropológico). Ter achatado toda experiência possível da liberdade a partir do paradigma jurídico-político de um direito a ser reivindicado imediatamente, levou a uma redução da autoridade a limite (mais ou menos necessário) da liberdade. Tem significado, na melhor das hipóteses, uma redução da autoridade ao nível de um mal menor a ser suportado: seja como for, a uma frustração da liberdade.
Para voltar a compreender a natureza geradora de uma autêntica relação de autoridade, é preciso portanto voltar a prestar contas com a dimensão temporal da nossa história humana: com aquela dimensão da profundidade de que falava Arendt. No nível individual, isto significa  reconhecer que sempre estamos no caminho em direção à nossa própria liberdade – em direção à nossa própria humanidade – que não pode ser simplesmente tomada como um dado óbvio (a não ser no quadro daquela preciosa abstração jurídico-política que constitui um dos pilares do moderno Estado de Direito). No nível social, prestar contas com a dimensão constitutiva da temporalidade significa reconhecer que somos colocados dentro de uma estrutura de transmissão em virtude da qual é importante não apenas garantir as condições de um “espaço público”, mas também de uma “duração pública” (que se revela essencial exatamente para garantir a qualidade do espaço público).
Somente reconhecendo a rica genealogia da nossa liberdade e da nossa humanidade – como liberdade e humanidade ricas de pressupostos – é que será possível voltar a compreender a natureza de uma autoridade geradora de liberdade: mesmo no contexto da modernidade.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 15 de dezembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.