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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

21 de novembro: Oração pelos cristãos no Iraque

Comunhão e Libertação adere ao apelo dos Bispos italianos para rezar, no domingo, 21 de novembro, pelos cristãos do Iraque, “que sofrem a difícil provação do testemunho cruento da fé” (Comunicado final da Assembleia da Conferência Episcopal Italiana, 11 de novembro de 2010).

O Movimento Comunhão e Libertação convida a todos os seus membros a participar das missas segundo as intenções de Bento XVI, que, no dia seguinte ao gravíssimo atentado na catedral sírio-católica de Bagdá, que causou dezenas de mortos e feridos, disse: “Rezo pelas vítimas desta absurda violência, que é ainda mais cruel na medida em que atingiu pessoas indefesas, recolhidas na casa de Deus, que é casa de amor e de reconciliação. Exprimo, além do mais, a minha afetuosa proximidade à comunidade cristã, novamente atingida, e encorajo a todos pastores e fiéis a serem fortes e firmes na esperança. Diante dos brutais episódios de violência que vêm mutilando as populações do Oriente Médio, gostaria finalmente de renovar o meu sincero apelo pela paz, que é dom de Deus, mas também é o resultado dos esforços dos homens de boa vontade, das instituições nacionais e internacionais. Que todos unem suas forças para que tenha fim toda violência!” (Angelus, 1º de novembro de 2010).
Dirigindo-se a todos os membros de Comunhão e Libertação, Padre Julián Carrón disse que “a participação nas missas dominicais segundo as intenções do Papa e dos Bispos é um gesto de comunhão real e de caridade, para que sintamos como nossos amigos os cristãos do Iraque, ainda que não os conheçamos diretamente”.
Como disse Dom Giussani, “se o sacrifício é aceitar as circunstâncias da vida, da forma como acontecem – porque nos tornam correspondentes, participantes da morte de Cristo – então o sacrifício se torna o ponto-chae de toda a vida [...], mas é também o ponto-chave para entender toda a história do homem. Toda a história do homem depende daquele homem morto na cruz, e eu posso influir sobre a história do homem (posso influir sobre as pessoas que vivem no Japão, agora; sobre as pessoas que estão em perigo no mar, agora; posso intervir para ajudar a dor das mulheres que perdem os filhos, agora, neste momento) se aceito o sacrifício que este momento me impõe” (GIUSSANI, L. É possível viver assim? São Paulo: Companhia Ilimitada, 2008, p. 324). 
Por esta razão, Carrón acrescentou, “se um gesto de oração pode influir sobre a mudança das pessoas no Japão, pode mudar algo também no Iraque. O sacrifício que fazemos pelos cristãos iraquianos e a oração desse domingo sejam um gesto com o qual invocamos, imploramos a Deus a proteção para eles”.

Comunhão e Libertação
Milão, 18 de novembro de 2010

Cartas do P.e Aldo 168





Asunción, 17 de novembro de 2010.

Caros amigos,
olhem para as minhas crianças no dia da sua Primeira Comunhão, no domingo dia 7 de novembro. São belas, muito belas, agora que, finalmente, Jesus entrou em seus corações, se tornando uma única realidade com Jesus.
A semente da graça batismal está se tornando uma árvore.
A história delas é conhecida de vocês. A violência marcou a sua concepção, o seu nascimento... os abusos sexuais. Traumas terríveis, suficientes para destruir uma vida. No entanto, o encontro conosco, o encontro com rostos definidos pelo “eu sou Tu que me fazes”, pela certeza de “amei-te com amor eterno, tendo piedade do teu nada”, não apenas lhe deu a vida outra vez, a alegria de viver, como também lhes deu a liberdade de perdoar aqueles que os colocaram no mundo e abusaram deles.
“Padre, não queremos ver e nem mesmo voltar para casa onde sofremos tanto; perdoamos nossa ‘mãe’ e o concubino que nos fez tanto mal”. Amigos, no dia em que me disseram esta frase, senti toda a potência daquilo que Carrón continuamente nos repete: “O homem não é e nunca será fruto do seus antecedente, por mais feios que sejam, porque ele é relação com o Mistério”. Porém, esta certeza, na qual consiste toda a proposta educativa de Giussani, pode chegar até a nós, aos meus filhos, somente na medida em que é a consistituição consciente do meu eu, somente na medida em que a minha familiaridade com Cristo é vibrante em mim, somente na medida em que acolho, a cada instante, aquilo que Giussani chama o “monstro” do sacrifício como condição para que a minha liberdade coincida com o “Tu, meu Cristo”. Como vocês podem ver, não se trata de medicar as feridas, por mais horríveis que sejam, mas se trata de permitir que Cristo tome posse do próprio eu. A batalha é dura, como diz a Escola de Comunidade sobre o sacrifício, mas o êxito é uma plenitude de vida, aquela plenitude que vocês podem ver no rosto das minhas crianças.
Amigos, tudo é importante e bom. Mas, sem Cristo, tudo é inútil, todo esforço é destinado a falhar!
Somente “eu sou Tu que me fazes” como consciência comovida de si sara a totalidade do humano. Deus e Nossa Senhora nos deem a alegria de vibrar ao pronunciar esta certeza, pelo menos da mesma forma como vibramos por causa de um amor repentino que esperamos chegar, da mesma forma que São Paulo, quando diz: “para mim, viver é Cristo”.
Ciao,
Padre Aldo

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Fazer o Cristianismo 03

"Se uma pessoa não entende o que é a vida, não chega nunca a este nível de desafio [refere-se à resposta dada por um professor a um jovem que lhe perguntou por que ele o convidava a um determinado gesto realizado por CL: "Porque você tem uma ferida", referindo-se ao fato de que seu pai morrera, alguns anos antes, vítima da AIDS. Daquele momento em diante, o aluno não parou mais. E o professor terminou seu testemunho dizendo: "Por que digo isso? Porque a companhia não deve nunca se tornar uma anestesia para a ferida"; ndt]. A pessoa deve ter uma familiaridade com a vida para isso. Na medida em que a pessoa vive a vida, tem uma familiaridade, pode saber onde se encontram de verdade os nós para serem desfeitos. Então, é inútil insistir. Como quando você prende o pé e lhe dizem: 'Corre! Corre!'... A questão é soltá-lo, porque então conseguirá correr! Encontrar a modalidade - se o Senhor nos dá a luz - para fazer o movimento justo para soltá-lo: este é o verdadeiro desafio! Porque então você conseguirá correr. [...] O que isso quer dizer? Que o nosso movimento não nasce do êxito! Nasce do termos sido olhados assim! A questão é que, pelo contrário, tantas vezes o nosso movimento nasce da tentativa de sucesso. E quando não acontece segundo as nossas medidas, paramos de tentar. Porque tínhamos um projeto! Os jovens, que são mais inteligentes que nós, sabem disso muito bem. A questão é: qual é a fonte do movimento? Se eles percebem que é um movimento verdadeiramente gratuito, como estamos aprendendo na Escola de Comunidade [refere-se ao texto que, no momento, está sendo trabalhado nos encontros de Escola de Comunidade no mundo inteiro: o trecho sobre a caridade do livro de Luigi Giussani, "É possível viver assim?"; ndt], que é de fato por puro amor! Porque é este que comove o outro. Tenho aqui comigo um trecho de um texto escrito pela pianista russa Maria Judina: 'Exatamente no meu grupo tinha um chato, um jovenzinho de oito ou nove anos, praticamente sem família, que vivia junto com parentes de quem não gostava e por quem não era amado, de nome Akinfa; era antipático, enchia a paciência de todos, tirava sarro das crianças judias, brigava e assim por diante. Todos nós, e sobretudo eu que tinha uma responsabilidade maior com ele, o exortavam com a palavra e com o exemplo [não apenas com a palavra!], mas uma vez Afinka ultrapassou todos os limites: bateu em um de seus companheiros, xingou os adultos, cometeu um furtozinho e, assim, foi decretada a sua expulsão. Quando veio o momento de cumprir a condenação, o momento em que iria embora, eu, não sei como, desatei a chorar, e neste momento aconteceu o segundo nascimento de Afinka: desatou a chorar também, pediu perdão a todos, devolveu o que havia furtado e, daquele momento em diante, começou a me seguir sempre para onde eu ia como um cãozinho fiel, explicava a todos que, na sua vida, nunca tinha visto uma sua professora chorando por um aluno, que chorasse, para dizer com as suas palavras, pela alma e pela vida de uma criança mimada; esse era exatamente o sentido do seu maravilhamento e do seu desejo de se recolocar no caminho'. Isto não é para os jovens, mas para nós. É para nós! Então, quanto mais isso é familiar na nossa vida, tanto mais nos damos conta de que não é um problema de idade, de técnicas, mas é o mesmo para cada um."
(CARRÓN, Julián. Fare il cristianesimo. Tracce. 2010, p. 4)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Semana Santa com Giussani

"A natureza de Deus aparece como gratuidade porque se doou ao homem. Dom: esta é a primeira palavra na qual se fixa o termo gratuidade ou o termo caridade ou o termo amor. É puro dom, dissemos: sem retorno. Sem retorno quer dizer que é puro dom. A natureza de Deus é dar, aparecer ao homem como dar, dom, sem retorno, puro dom.
O que nos dá? A Si mesmo, quer dizer, o Ser, o Ser porque sem Ele nada foi feito do que já foi feito. 'Sem mim não podeis fazer nada': imaginem aquela cena, na noite da Quinta-Feira Santa. Tudo estava contra eles, e Jesus falava, falava (...), aqueles homens que estavam acostumados a ouvi-Lo falar e O fixavam enquanto falava, observando todas as Suas ações, ficavam atentos a Ele mais do que o habitual (...). Aquele homem que havia colocado a mão no prato para comer junto com eles, como se usava fazer, a um certo momento se interrompe e diz: 'Sem mim nada podeis fazer...'. Mas este é Deus, o único que pode falar assim é Deus!
A natureza de Deus aparece para o homem como dom absoluto: Deus se dá, dá a Si mesmo ao homem. E o que é Deus? A fonte do ser. Deus dá ao homem o ser: permite ao homem ser; permite ao homem ser mais, crescer; permite ao homem ser completamente si mesmo, crescer até a sua realização, isto é, doa ao homem a possibilidade de ser feliz (feliz, isto é, totalmente satisfeito ou perfeito; como sempre disse, em latim e em grego, perfeito e satisfeito são a mesma palavra: perfectus, isto é, perfeito ou realizado, satisfeito é um homem realizado)."
(GIUSSANI, Luigi. Si può vivere così? Uno strano approccio all'esistenza cristiana. 2007, pp. 326-327)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Muito maior que o pecado

Na última Escola de Comunidade, padre Carrón, lendo o editorial de Passos dedicado à “carta que o Papa escreveu diante de um fato tão brutal como o abuso de crianças”, sublinhou que esta carta “é um testemunho da ‘comoção’ da qual fala a Escola de Comunidade, que nos permite olhar tudo, sem eliminar nada, até chegar ao juízo. Visto que todos os jornais carregam um olhar diferente, nós não podemos fazer esta Escola de Comunidade sem falar e sem olhar esse fato de um outro modo, ajudados pelo testemunho do Papa, pois a pergunta é: ‘De onde nasce esse olhar?’”.
Por isso é muito importante que nesses dias leiamos, tornemos conhecido e difundamos o máximo possível nos ambientes o texto publicado.

Haveria muito o que discutir a respeito do que levou Bento XVI a escrever a Carta aos católicos da Irlanda. Poderíamos fazê-lo partindo dos fatos, dos números e dos dados que – lidos corretamente – falam de uma realidade muito menos imponente do que dá a entender a feroz campanha encetada pela mídia; ou das contradições dos que, nos mesmos jornais, acusam – com razão – certas coisas ignóbeis, mas algumas páginas depois justificam tudo e todos, sobretudo em matéria de sexo. Seria possível, e talvez isso ajudasse a entender melhor o contexto de uma Igreja sob ataque, independentemente dos seus erros. Só que o gesto humilde e corajoso do Papa levou a coisa para outros patamares, para o centro da questão.
Claro, a ferida existe. E é gravíssima. Do tipo da que levou Cristo a dizer aquelas palavras de fogo: “Quem escandalizar um só destes pequeninos que creem em mim, seria melhor que lhe pendurassem no pescoço uma pedra e o jogassem no abismo...”.
Há coisas torpes na Igreja. Isso foi reconhecido, de modo claro e forte, pelo próprio Joseph Ratzinger na Via Sacra de cinco anos atrás, pouco antes de se tornar Papa, e que nunca parou de lembrar depois, com realismo. Há o pecado, inclusive grave. Há o mal e o abismo de dor trazido pelo pecado. E há também a exigência de se fazer todo o possível – até com dureza – para frear esse mal e reparar essa dor. O Papa o está fazendo, como prova eloquentemente a sua Carta, ao lembrar que os culpados terão de responder “diante do Deus onipotente, como também perante os tribunais” humanos.
Mas, justamente por essas razões, o verdadeiro centro da questão, o focus esquecido, está em outro lugar. A par de todos os limites e dentro da humanidade ferida da Igreja há ou não há algo maior do que o pecado? Radicalmente maior que o pecado? Há algo que pode romper a medida inexorável do nosso mal? Algo que, como escreve o Pontífice, “tem o poder de perdoar até o mais grave pecado e de tirar o bem inclusive do mais terrível dos males?”.
Esse é o ponto: “Deus teve compaixão do nosso nada”, lembrava Dom Giussani numa frase usada por CL no cartaz de Páscoa: “Não só: Deus se comoveu com a nossa traição, com a nossa rude pobreza, esquecida e traidora, com a nossa mesquinhez. É uma compaixão, uma piedade, uma paixão. Teve piedade de mim”.
É isso que a Igreja traz ao mundo, não certamente por mérito, bravura ou coerência dos seus membros: a compaixão de Deus é pela nossa mesquinhez. Algo muito maior do que os nossos limites. A única coisa infinitamente maior do que nossos limites. Se não partirmos daí, não compreenderemos nada. Tudo fica incompreensível, literalmente.
Costumamos nos esquivar dessa compaixão, tentar escapar dela. Às vezes é dentro da própria Igreja que se reduz a fé a uma ética, e a moralidade a um impossível recurso solitário às leis, parecendo até que sentir necessidade desse abraço seja uma coisa de que deveríamos nos envergonhar. Mas se nos esquecermos de Cristo, se descartarmos totalmente a medida diferente que Ele introduz no mundo agora, através da Igreja, não teremos mais os termos necessários para entendermos e julgarmos a própria Igreja. Então, fica fácil confundir a atenção às vítimas e à sua história com silêncio conivente, e a prudência em relação aos culpados (verdadeiros ou presumidos) – acusados, talvez, por vozes que só se levantaram décadas depois – com a vontade de criar “cortina de fumaça” (o que, às vezes, evidentemente, ocorreu mesmo). Torna-se quase que inevitável falar mal do celibato, sem mencionar sequer o valor real da virgindade. E torna-se impossível entender por que a Igreja pode ser dura e, ao mesmo tempo, materna com os seus sacerdotes que erram. Pode puni-los com severidade e exigir que paguem a pena e reparem o mal feito (é o que ela vem fazendo, não de hoje, pois sempre o fez), mas sem romper – quando possível – o elo de ligação, por ser a única coisa que poderá redimi-los. Pode pedir aos seus filhos “sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai”, não para exigir deles algo impossível, mas para despertar neles a tensão a viver a misericórdia com que Deus nos abraça (“sede misericordiosos como é misericordioso o Pai que está nos céus”). É justamente por isso que a Igreja pode educar. Que, no fundo, é a verdadeira questão posta em discussão pelos que estão acusando (“vejam como até os padres erram, e erram feio! Como podemos confiar a eles as nossas crianças?”), como se o título de mestra da Igreja dependesse da coerência dos seus filhos, e não dEle. De Cristo. Da Presença que – em meio a todos os erros e horrores cometidos – torna possível no mundo um abraço como aquele do Filho pródigo retratado por Chagall no mesmo cartaz de Páscoa. Ali, junto com a frase de Giussani, há uma outra, de Bento XVI: “No fundo, converter-se a Cristo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto-suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência, a exigência do seu perdão e da sua amizade”.
É isso: o abraço de Cristo, dentro da nossa humanidade ferida e indigente e para além do mal que podemos cometer. Se a Igreja – com todos os seus limites – não pudesse oferecer isso ao mundo, inclusive às vítimas dessas barbaridades, então sim estaríamos perdidos. Porque o mal continuaria a existir, mas aí seria impossível vencê-lo.

Comunhão e Libertação

sexta-feira, 17 de abril de 2009

É possível...?

A gente aprende a vida é no concreto, não teoricamente. O amor, por exemplo - o amor como gratuidade e como ternura -, a gente aprende o amor assim é com uma pessoa que vive o amor assim - como gratuidade e como ternura -, e não teoricamente.

* Trecho adaptado de "É possível viver assim?", de Luigi Giussani.