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domingo, 11 de março de 2012

A Quaresma com os santos

A paixão de todo o corpo de Cristo

Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Agostinho, bispo (Séc.V)
(Ps 140,4-6:CCL 40,2028-2029)

Senhor, eu clamo por vós, socorrei-me sem demora (Sl 140,1). Isto todos nós podemos dizer. Não sou eu que digo, é o Cristo total que diz. Contudo, estas palavras foram ditas especialmente em nome do Corpo, porque, quando Cristo estava neste mundo, orou como homem; orou ao Pai em nome do Corpo; e enquanto orava, gotas de sangue caíram de todo o seu corpo. Assim está escrito no Evangelho: Jesus rezava com mais insistência e seu suor tornou-se como gotas de sangue (Lc 22,44). Que significa este derramamento de sangue de todo o seu corpo, senão a paixão dos mártires de toda a Igreja? Senhor, eu clamo por vós, socorrei-me sem demora. Quando eu grito, escutai minha voz! (Sl 140,1). Julgavas ter acabado de vez o teu clamor ao dizer: eu clamo por vós. Clamaste, mas não julgues que já estejas em segurança. Se findou a tribulação, findou também o clamor; mas se a tribulação da Igreja e do Corpo de Cristo continua até o fim dos tempos, não só devemos dizer: eu clamo por vós, socorrei-me sem demora; mas: Quando eu grito, escutai minha voz! Minha oração suba a vós como incenso, e minhas mãos, como oferta da tarde (Sl 140,2). Todo cristão sabe que esta expressão continua a ser atribuída à própria Cabeça. Porque, na verdade, foi ao cair da tarde daquele dia, que o Senhor, voluntariamente, entregou na cruz Sua vida, para retomá-la em seguida. Também aqui estávamos representados. Com efeito, o que estava suspenso na cruz foi o que Ele assumiu da nossa natureza. Como seria possível que o Pai rejeitasse e abandonasse algum momento Seu Filho Unigênito, sendo ambos um só Deus? Contudo, cravando nossa frágil natureza na cruz, onde o nosso homem velho, como diz o Apóstolo, foi crucificado com Cristo (Rm 6,6), clamou com a voz da nossa humanidade: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? (Sl 21,2). Eis, portanto, o verdadeiro sacrifício vespertino: a paixão do Senhor, a cruz do Senhor, a oblação da vítima salvadora, o holocausto agradável a Deus. Esse sacrifício vespertino, Ele o converteu, por Sua ressurreição, em oferenda da manhã. Assim, a oração que se eleva, com toda pureza, de um coração fiel, é como o incenso que sobe do altar sagrado. Não há aroma mais agradável a Deus: possam todos os fiéis oferecê-lo ao Senhor. Por isso, o nosso homem velho – são palavras do Apóstolo – foi crucificado com Cristo, para que seja destruído o corpo do pecado, de maneira a não mais servirmos ao pecado (Rm 6,6).

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Cartas do P.e Aldo 207


Asunción, 10 de outubro de 2011.

Caros amigos,
Nesta noite, fiquei mais tempo do que o normal olhando meus filhinhos doentes, particularmente Victor. Desde quando nasceu está na mesma caminha. Não fala, não vê, não escuta. Parece totalmente ausente da realidade. Depende do outro em tudo. Não tem caixa craniana e seus olhinhos, há tempos, estouraram. Só pode ser colocado em duas posições: deitado com a barriga para cima e, de vez em quando, delicadamente deitado sobre um dos dois lados. As escaras de decúbito, tratadas o tempo inteiro, junto com o gemidozinho que o acompanha, mostram o quadro físico que vemos dele. E no entanto, Victor é muito, infinitamente mais do que isso. É a evidência clamorosa da vibração do Ser. Eu o olho comovido, o acaricio porque ele existe. Existe! Que maravilhamento eu sinto em mim quando olho para o ser que vibra em cada detalhe do seu corpo martirizado! Victor existe, vive! Cada vez que me aproximo dele, fico impactado com a beleza de ser nada mais do que um fragmento de segundo: ele, como eu, é feito em cada momento. A sua beleza e a do ser, do seu ser quase enjaulado num corpo aparentemente deformado e que, no entanto, é templo do Espírito Santo. Ele, acredito, me conheça pelos meus beijos, pela ternura, mas sobretudo porque tanto eu como ele existimos e somos como “Tu que me fazes”. O valor da sua vida, como a do meu filho Aldo e de Mário, está no ser que posso contemplar e, imediatamente, reconhecer: eles, como eu, são relação com o infinito. Muitas vezes penso olhando para eles, assim “deformados” para o mundo – porque a cultura de hoje não consegue mais perceber o ser, aquilo que existe na sua profundidade. Tantos são os casais que, quando esperam um filho, mais do que ficarem comovidos até às lágrimas pelo fato de que ele exista, ficam é preocupados com o como ele é, como ele está, ou se é menino ou menina. Que besteira! Antes do ultrassom, há a comoção pelo ser. Aquela comoção que, seja lá qual for o resultado do ultrassom, cresce fazendo-nos vibrar porque o Mistério se manifestou. Que graça para mim, para vocês, o meu Victor, sacramento do ser que o cria em cada momento. É noite de sábado, mas não consigo me afastar de Victor, de Aldo e de Mário. Victor respira com dificuldade, fiz-lhe uma carícia e ele esticou seus pequenos punhos. Desde o seu nascimento parece ausente da realidade, no entanto ele está no coração da realdiade. A beleza destas criaturas está apenas no fato de que EXISTEM!
E existem porque um Outro, antes de formá-los assim no seio de suas mães, pronunciou seus nomes. Entendem, então, como é um milagre existir, que comoção suscita em mim o ser de cada um?
Olhando para eles só posso ficar grato por aquilo que me une a eles. O ser e o ser fato agora. Desejo a todos os que esperam um filho que tenham esta posição de adoração e de comoção e não a preocupação egoísta de como será, para que não aconteça que desfaça os nossos projetos que não têm nada que ver com o ser e, portanto, com o desígnio de Deus sobre cada um de nós. Pensem na diferença abissal que há entre olhar um doente, um leproso como o que está na capela do Santíssimo, com estes olhos fixos sobre o ser, e olhar os mesmos apenas em seu aspecto fenomênico! Sem esta posição, que sentido teria a vida e o nosso viver cotidiano?
Padre Aldo

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Igreja deve se "desmundanizar"...



Encontro com os católicos comprometidos com a Igreja e a sociedade

Discurso do Papa Bento XVI 

Freiburg, Konzerthaus
Domingo, 25 de setembro de 2011.

Caros confrades no ministério episcopal e sacerdotal!
Senhoras e Senhores!
Estou feliz com este encontro convosco que sois comprometidos de múltiplas maneiras com a Igreja e a sociedade. Isto me oferece uma ocasião especial para vos agradecer, aqui, pessoalmente, de todo o meu coração, por vosso serviço e vosso testemunho como “valorosos arautos da fé naquelas realidades que esperamos” (Lumen gentium, n. 35). Dessa maneira, o Concílio Vaticano II designa as pessoas que, como vós, se preocupam com o presente e o futuro da fé. No vosso meio de trabalho vós defendeis a causa da vossa fé e da Igreja, como sabemos, o que não é nada fácil nesses tempos atuais.
Há décadas, assistimos a uma diminuição da prática religiosa, constatamos um crescente distanciamento da vida da Igreja por uma parte notável de batizados. Eis então a pergunta: será que, por acaso, a Igreja não deveria mudar? Será que, por acaso, em seus serviços e estruturas, ela não deveria se adaptar ao tempo presente, para alcançar as pessoas de hoje que estão a procura e em dúvida?
Um dia, perguntaram à Beata Madre Teresa de Calcutá qual deveria ser, segundo ela, a primeira coisa a ser modificada na Igreja. Sua resposta foi: você e eu!
Este pequeno episódio evidencia duas coisas. De um lado, a religiosa quer dizer a seu interlocutor que a Igreja não é unicamente os outros, a hierarquia, o Papa e os Bispos; a Igreja somos todos nós: nós, os batizados. Além do mais, ela parte efetivamente do pressuposto: sim, há motivo para uma mudança. Há a necessidade de uma mudança. Cada cristão e a comunidade dos crentes no seu conjunto são chamados a uma conversão contínua.
Como deve se configurar concretamente esta mudança? Será que se trata de uma renovação tal como, por exemplo, o proprietário de uma casa realiza através da reestruturação ou de uma nova pintura de seu imóvel? Ou será que se trata de uma correção, para retornar aos trilhos ou percorrer um caminho de maneira mais alegre e direta? Estes aspectos e outros mais certamente têm sua importância, e não é o caso de levar todos em consideração neste momento. Mas, quanto àquilo que diz respeito ao motivo fundamental da mudança, trata-se de uma missão apostólica dos discípulos e da própria Igreja.
Com efeito, a Igreja sempre deve verificar sua fidelidade a esta missão. Os três evangelhos sinóticos realçam diferentes aspectos do mandato desta missão: a missão se fundamenta, inicialmente, sobre a experiência pessoal – “Vós sois testemunhas” (Lc 24, 48); ela se exprime em relação – “Fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28, 19); ela transmite uma mensagem universal – “Proclamai o Evangelho a toda a criação” (Mc 16, 15). No entanto, por causa das pretensões e dos condicionamentos do mundo, este testemunho é cada vez mais obscurecido, as relações são alienadas e a mensagem é relativizada. Se, logo em seguida, a Igreja, como o diz o Papa Paulo VI, “procura modelar-se em conformidade com o tipo proposto por Cristo, não poderá deixar de distinguir-se profundamente do ambiente humano, em que afinal vive ou do qual se aproxima” (Encíclica Ecclesiam suam, n. 34). Para realizar sua missão, ela deverá continuamente se distanciar de seu meio, se “desmundanizar” por assim dizer.
A missão da Igreja, com efeito, brota do mistério do Deus uno e trino, do mistério de seu amor criador. E o amor não apenas está presente de qualquer forma em Deus: Ele é amor; por Sua natureza, Ele é amor. E o amor divino não quer ser apenas para si, quer se derramar em conformidade com sua natureza. Na encarnação e no sacrifício do Filho de Deus, o amor alcançou a humanidade de maneira particular. E foi da seguinte maneira: o Cristo, o Filho de Deus, saiu da esfera de seu ser Deus, Ele se fez carne e Se tornou homem; e isto não apenas para confirmar o mundo no seu ser terrestre, e partilhar Sua condição que – a deixando imutável – a transforma. Do evento crístico faz parte o fato incompreensível que existe – como dizem os Padres da Igreja – um sacrum commercium, uma troca entre Deus e os homens. Os Padres a explicam desta maneira: não temos nada para dar a Deus, só podemos Lhe apresentar nossos pecados. Ele os aceita e os faz Seus, e Ele nos dá a si mesmo e à Sua glória em troca. Este é, verdadeiramente, um comércio desigual que se desenrola na vida e nos sofrimentos de Cristo. Ele se torna pecador, se encarrega do pecado; Ele toma aquilo que é nosso e nos dá aquilo que é Seu. Mas, continuando a refletir e a viver na fé, torna-se evidente que nós não Lhe damos apenas o pecado, mas que Ele nos autoriza, Ele nos dá uma força interior para Lhe dar igualmente algo positivo: nosso amor Lhe dá, de maneira positiva, a humanidade. É claro, naturalmente, que é somente graças à bondade de Deus, que o homem, o mendigo, recebe a riqueza divina, que Deus pode dar qualquer coisa, que Deus torna nossa oferta aceitável nos tornando capazes de ser, para Ele, oferentes. 
A Igreja se conforma totalmente com este comércio desigual. Ela não possui nada por ela mesma diante dAquele que a fundou, de sorte que ela poderia dizer: Fizemos isto muito bem! Seu sentido consiste em ser um instrumento da redenção, deixar-se penetrar pela palavra de Deus e transformar o mundo introduzindo-o na união de amor com Deus. A Igreja imerge na atenção complacente do Redentor pelos homens. Ela está lá onde ela é ela mesma, sempre em movimento, colocando-se continuamente a serviço da missão, que ela recebeu do Senhor. É por isto que ela deve sempre se abrir às preocupações do mundo – ao qual ela pertence –, consagrar-se sem reservas a estas preocupações, para continuar e tornar presente o comércio sagrado que teve início com a Encarnação.
No entanto, no desenvolvimento histórico da Igreja se manifesta também uma tendência contrária: é a de uma Igreja que se satisfaz consigo mesma, que se instala neste mundo, que é autossuficiente e se adapta aos critérios do mundo. Muito frequentemente, ela dá à organização e à institucionalização uma importância maior do que a seu apelo à abertura para Deus, que tem a esperança do mundo para o outro.
Para corresponder à sua verdadeira tarefa, a Igreja deve sempre se esforçar por se destacar de sua “mundanidade” para se abrir a Deus. Desta forma, ela segue as palavras de Jesus: “Eles não são deste mundo, como eu não sou deste mundo” (Jo 17, 16), e é assim que ela se dá ao mundo. Num certo sentido, a história vem em socorro da Igreja, através dos diversos períodos de secularização, que contribuíram, de modo essencial, para a sua purificação e para a sua reforma interior.
Com efeito, a secularização – que foram a expropriação dos bens da Igreja ou a supressão dos privilégios ou de coisas parecidas – significaram, a cada vez, uma profunda libertação da Igreja das formas de “mundanidade”: ela se despoja, por assim dizer, de sua riqueza terrestre e volta para abraçar plenamente sua pobreza terrestre. Assim, a Igreja partilha o destino da tribo de Levi que, segundo a afirmação do Antigo Testamento, era a única tribo em Israel que não possuía patrimônio terrestre, mas que havia tomado exclusivamente a Deus, Sua palavra e Seus sinais como parte da herança. Como esta tribo, a Igreja partilhava nesses momentos históricos a exigência de uma pobreza que se abria para o mundo, para se desligar de seus vínculos materiais, e assim seu agir missionário voltava a ser igualmente credível. 
Os exemplos históricos mostram que o testemunho missionário de uma Igreja “desmundanizada” é mais claro. Libertada do fardo e dos privilégios materiais e políticos, a Igreja pode se consagrar melhor e de maneira verdadeiramente cristã ao mundo inteiro; ela pode ser verdadeiramente aberta ao mundo. Ela pode, de novo, viver com mais facilidade seu chamado ao ministério de adoração a Deus e de serviço ao próximo. A tarefa missionária que está ligada à adoração cristã, e que deveria determinar a estrutura da Igreja, se torna visível mais claramente. A Igreja se abre ao mundo não para obter a adesão dos homens a uma instituição com suas próprias pretensões de poder, mas para fazê-los entrar em si mesmos e, dessa maneira, conduzi-los Àquele de quem todas as pessoas podem dizer com Agostinho: Ele é mais íntimo de mim do que eu mesmo (cf. Conf. 3, 6, 11). Ele, que é infinitamente acima de mim, está de tal forma em mim até ao ponto de ser a minha verdadeira interioridade. Por este estilo de abertura da Igreja ao mundo, é traçada, ao mesmo tempo, a forma na qual a abertura para o mundo por parte de cada cristão pode se realizar de maneira eficaz e apropriada.
Não se trata, aqui, de encontrar uma nova estratégia para ressuscitar a Igreja. Trata-se muito mais de deixar de lado tudo aquilo que é unicamente tático, e buscar a plena sinceridade, que não negligencia nem reprime nada da verdade de nosso hoje, mas que a realiza plenamente no hoje, vivendo-a justamente, totalmente na sobriedade do hoje, levando-a à sua plena identidade, tirando dela aquilo que é somente aparência de fé, mas que, na verdade, é apenas convenção e hábito.
Digamos com outras palavras: a fé cristã é sempre, para o homem, um escândalo, e isto não é apenas no nosso tempo. Que o Deus eterno se preocupe conosco, seres humanos, que Ele nos conheça; que o Inapreensível tenha se tornado, num determinado momento, apreensível; que o Imortal tenha sofrido e morrido numa cruz; que para nós, seres mortais, sejam prometidas a ressurreição e a vida eterna – acreditar em tudo isto é, para os homens, uma verdadeira exigência. 
Este escândalo, que não pode ser abolido se não se quiser abolir o cristianismo, foi, infelizmente, colocado à sombra, recentemente, por outros escândalos dolorosos que envolveram os anunciadores da fé. Uma situação perigosa é criada quando esses escândalos tomam o lugar do skandalon primeiro da Cruz e, desta forma, o tornam inacessível, quer dizer, quando eles escondem a verdadeira exigência cristã por trás da inadequação de seus mensageiros.
Há uma razão a mais para acreditar novamente atual a retomada da verdadeira “desmundanização”, de arrancar corajosamente aquilo que há de “mundano” da Igreja. Naturalmente, isto não significa se retirar do mundo, muito pelo contrário. Uma Igreja aliviada dos elementos “mundanos” é capaz de comunicar aos homens – àqueles que sofrem e àqueles que os ajudam – justamente também na esfera sócio-caritativa, a força vital particular da fé cristã. “A caridade não é, para a Igreja, uma espécie de atividade de assistência social que se poderia também deixar para outras pessoas, mas ela pertence à sua natureza mesma, ela é uma expressão de sua essência, à qual ela não pode renunciar” (Deus caritas est, n. 25). Certamente, as obras caritativas da Igreja devem também continuamente prestar atenção às exigências de um distanciamento apropriado do mundo para evitar que, diante de um afastamento crescente da Igreja, suas raízes não sequem. Somente a relação profunda com Deus torna possível uma plena atenção ao homem, da mesma forma que sem a atenção ao próximo a relação com Deus empobrece.
Ser abertos aos acontecimentos do mundo significa, portanto, para a Igreja “desmundanizada”, testemunhar, segundo o Evangelho, o domínio do amor de Deus, em palavras e ações, aqui e agora. E além do mais, esta tarefa vai para além do mundo presente. Com efeito, a vida presente inclui o vínculo com a vida eterna. Como indivíduos, e como comunidade da Igreja, vivemos a simplicidade de um grande amor que, no mundo, é ao mesmo tempo a coisa mais fácil e a mais difícil, porque ela exige nada mais nada menos do que o dom de si mesmo.
Caros amigos, resta-me apenas implorar para nós todos a bênção de Deus e a força do Espírito Santo, para que possamos, cada um no seu próprio campo de ação, reconhecer sempre outra vez o amor de Deus e Sua misericórdia e testemunhar isso. Agradeço-vos a atenção.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 25 de setembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Cartas do P.e Aldo 204


Asunción, 6 de setembro de 2011.

Caros amigos,
Um fato ocorrido nas últimas semanas me colocou diante da contemporaneidade de Cristo e, portanto, se tornaram um grande possibilidade para fixar nos olhos, de maneira intensa, Jesus.
Eu já estava com as passagens aéreas no bolso para ir à Itália, quando, numa tarde, os médicos e o diretor da clínica chegaram no meu escritório e me disseram: “Padre Aldo, seu filho Aldo [meu filho adotivo, portador de gravíssimas deformações físicas] está muito doente e não temos certeza de que conseguirá sobreviver. Gostaríamos que ele permanecesse aqui na clínica e não fosse enviado a um hospital, onde acabaria sendo deixado morrendo, enquanto que nós queremos acompanhá-lo em sua morte”. Vi-me, uma vez mais, diante de uma decisão: estão me esperando no Meeting e, aqui, os médicos me dizem que meu filho está com os dias contados. O que fazer? Fico e atraso em alguns dias a partida, a fim de ver se ele melhora, ou desisto de ir ao Meeting? Uma escolha difícil porque estavam em jogo os últimos dias do meu filho. E um filho, especialmente quando é adotivo, é a sua mesma carne, ainda mais porque é fruto de uma gratuidade total. Alguns me disseram: como é que o senhor pode ir, deixando-o sozinho, ao invés de acompanhá-lo nas suas últimas horas? Eu sentia meu coração em pedaços, sentia em mim um sentimento que me dizia: você deve ficar. Porém, uma vez mais eu me perguntei: o que Cristo pede de mim, neste momento?
E dois juízos me ajudaram a tomar a decisão de ir. O primeiro: aquele filho me foi dado e se Cristo decidiu pedi-lo de volta, quem sou eu para não devolvê-lo? O segundo: a realidade me pede para estar presente no Meeting e em La Thuile, onde acontecerá a assembleia internacional. Ou seja, a realidade me chama a estar onde estão aqueles amigos que mais me lembram que “É o Senhor”, os amigos que mais me mostram o rosto de Jesus. E eu preciso disto porque, do contrário, não consigo enfrentar a vida todos os dias e nem mesmo o dia de meu filho, que, seja como for, não morrerá sozinho, mas na companhia dos meus amigos da clínica. E assim, peguei o avião com a grata surpresa de que me filho se recuperou. É impressionante ver como Deus me educa a ser livre, ou seja, a confiar no seu desígnio que, qualquer que seja, é sempre positivo, mesmo quando, no momento, parece ser injusto e você preferiria se rebelar. Dizer “Tu, meu Cristo” nunca é algo óbvio, mas se dá sempre dentro de um abandono seu, cheio de dor, cujo resultado é uma estranha letícia.
Os filhos não são algo que nos pertence, e só o são quando amamos o desígnio de Deus sobre eles, mesmo quando isso coincide com o fato de eles nos serem tirados. É assim que me acontece todos os dias. Assim como a cada vez a dor é sempre maior, porque quanto mais Cristo o agarra, tanto mais você se descobre vulnerável, tanto mais você sofre. Se antes de encontrar Jesus nem mesmo uma “pedrada na cabeça” movia o meu coração, agora que Cristo me tomou, basta um grão de areia para que eu sinta toda a dor que me circunda.
Amar, ou seja, deixar-se tomar por Cristo é sofrer e sofrer é amar. E quanto mais você é de Cristo, tanto mais você sofre; e tanto mais você sofre, quanto mais você busca Cristo. Ou, para dizer mais claramente, Cristo nos torna mais vulneráveis, mais sensíveis, mais atentos a cada detalhe.
Rezem por mim e por meus filhos.
Com afeto,
Padre Aldo

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?


Bento XVI

Audiência Geral

Sala Paulo VI
Quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Na catequese de hoje gostaria de apresentar um Salmo de fortes implicações cristológicas, que continuamente aflora nos relatos da paixão de Jesus, com a sua dupla dimensão de humilhação e de glória, de morte e de vida. É o Salmo 22, segundo a tradição judaica, ou 21, segundo a tradição greco-latina, uma oração sincera e tocante, de uma densidade humana e de uma riqueza teológica que fazem com este seja um dos Salmos mais rezados e estudados de todo o Saltério. Trata-se de uma longa composição poética, e nós nos dedicaremos particularmente à sua primeira parte, que está centrada no lamento, a fim de aprofundar algumas dimensões significativas da oração de súplica a Deus.
Este Salmo apresenta a figura de um inocente perseguido e cercado por adversários que querem a sua morte; e ele recorre a Deus num lamento doloroso que, na certeza da fé, se abre misteriosamente para o louvor. Na sua oração, a realidade angustiante do presente e a memória consoladora do passado se alternam, numa sofrida tomada de consciência da própria situação desesperada que, porém, não quer renunciar à esperança. O seu grito inicial é um apelo dirigido a um Deus que parece distante, que não responde e parece havê-lo abandonado:
“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? E permaneceis longe de minhas súplicas e de meus gemidos? Meu Deus, clamo de dia e não me respondeis; imploro de noite e não me atendeis.” (vv. 2-3)
Deus silencia, e este silêncio despedaça o espírito do orante, que chama incessantemente, mas sem encontrar resposta. Os dias e as noites se sucedem, numa busca incansável de uma palavra, de uma ajuda que não chega; Deus parece tão distante, tão esquecido, tão ausente. A oração pede escuta e resposta, solicita um contato, busca uma relação que possa dar conforto e salvação. Mas, se Deus não responde, o grito de ajuda se perde no vazio e a solidão se torna insustentável. No entanto, o orante do nosso Salmo, por mais três vezes, no seu grito, chama o Senhor de “meu” Deus, num extremo ato de confiança e de fé. Não obstante toda aparência, o Salmista não pode acreditar que o vínculo com o Senhor tenha sido interrompido totalmente; e enquanto pergunta sobre o presumido abandono incompreensível, afirma que o “seu” Deus não o pode abandonar. 
Como se vê, o grito inicial do Salmo – “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” – é referido pelos Evangelhos de Mateus e de Marcos como o grito lançado por Jesus morrendo na cruz (cf. Mt 27, 46; Mc 15, 34). Ele exprime toda a desolação do Messias, Filho de Deus, que está diante do drama da morte, uma realidade totalmente contrária ao Senhor da vida. Abandonado por quase todos os seus, traído e renegado por discípulos, circundado por quem o insulta, Jesus está sob o peso  esmagador de uma missão que deve passar pela humilhação e pela aniquilação. Por isso, grita ao Pai, e o seu sofrimento assume as palavras doloridas do Salmo. Mas, o seu grito não é desesperado, da mesma forma que não o era o grito do Salmista, que, na sua súplica, percorre um caminho atormentado que chega, finalmente, numa perspectiva de louvor, na confiança da vitória divina. E visto que, no costume judaico, citar o início de um Salmo implicava uma referência ao poema inteiro, a oração desoladora de Jesus, mesmo mantendo a sua carga de indizível sofrimento, se abre para a certeza da glória. “Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória?”, dirá, mais tarde, o Ressuscitado para os discípulos de Emaús (Lc 24, 26). Na sua paixão, em obediência ao Pai, o Senhor Jesus atravessa o abandono e a morte para chegar à vida e dá-la a todos os crentes.
A este grito de súplica inicial, no nosso Salmo 21(22), segue-se, em doloroso contraste, a recordação do passado:
“Nossos pais puseram sua confiança em vós, esperaram em vós e os livrastes. A vós clamaram e foram salvos; confiaram em vós e não foram confundidos.” (vv. 5-6).
Aquele Deus que, para o Salmista, hoje, parece tão distante, é, porém, o Senhor misericordioso que Israel sempre experimentou na sua história. O povo a que pertence o orante foi objeto do amor de Deus e pode testemunhar a sua fidelidade. A começar dos Patriarcas, passando pelo Egito e pela longa peregrinação no deserto, a permanência na terra prometida em contato com povos agressivos e inimigos, até à escuridão do exílio, toda a história bíblica foi uma história de grito de ajuda por parte do povo e de respostas salvífica por parte de Deus. E o Salmista se refere à fé constante de seus pais, que “confiaram” – esta palavra é repetida por três vezes – sem que nunca fossem desiludidos. Agora, porém, parece que esta cadeia de invocações confiantes e respostas divinas tenha sido interrompida; a situação do Salmista parece desmentir toda a história da salvação, tornando ainda mais dolorosa a realidade presente.
Mas, Deus não pode desmentir a si mesmo, e eis que, então, a oração volta a descrever a situação penosa do orante, a fim de induzir o Senhor a ter piedade e intervir, como sempre fez no passado. O Salmista se define um “verme, não sou homem, o opróbrio de todos e a abjeção da plebe” (v. 7), é objeto de zombaria e escárnio (cf. v. 8) e é ferido exatamente na fé: “Esperou no Senhor, pois que ele o livre, que o salve, se o ama” (v. 9), dizem. Sob os golpes zombeteiros da ironia e do desprezo, quase parece que o perseguido tenha perdido exatamente as características humanas, assim como o Servo sofredor descrito pelo Livro de Isaías (cf. Is 52, 14; 53, 2b-3). Ou como o justo oprimido do Livro da Sabedoria (cf. 2, 12-20), ou ainda como Jesus no Calvário (cf. Mt 27, 39-43). O Salmista também vê colocado em questão o seu relacionamento com o seu Senhor, quando sublinham cruel e sarcasticamente aquilo que o está fazendo sofrer: o silêncio de Deus, a sua aparente ausência. E no entanto, Deus esteve presente na existência do orante com uma proximidade e uma ternura incontestáveis. O Salmista lembra o Senhor disso: “Sim, fostes vós que me tirastes das entranhas de minha mãe e, seguro, me fizestes repousar em seu seio. Eu vos fui entregue desde o meu nascer” (vv. 10-11a). O Senhor é o Deus da vida, que faz nascer e acolhe o recém-nascido e cuida dele com afeto de pai. E se, antes, havia sido feita a memória da fidelidade de Deus na história do povo, agora o orante reevoca a própria história pessoal de relacionamento com o Senhor, chegando até ao momento particularmente significativo do início da sua vida. E ali, não obstante a desolação presente, o Salmista reconhece uma proximidade e um amor divinos tão radicais a ponto de poder, então, exclamar, numa confissão cheia de fé e de geradora de esperança: “desde o ventre de minha mãe vós sois o meu Deus” (v. 11b).
O lamento se torna, nesse ponto, uma súplica sincera: “Não fiqueis longe de mim, pois estou atribulado; vinde para perto de mim, porque não há quem me ajude” (v. 12). A única proximidade que o Salmista percebe e que o assusta é a dos inimigos. É, portanto, necessário que Deus se faça próximo e socorra, porque os inimigos rodeiam o orante, como leões que escancaram suas fauces para rugir e devorar (cf. vv. 13-14). A angústia altera a percepção do perigo, engrandecendo-o. Os adversários parecem invencíveis, tornaram-se como animais ferozes e muito perigosos, enquanto que o Salmista se vê como um vermezinho, impotente, sem nenhuma defesa. Mas estas imagens usadas no Salmo servem também para dizer que, quando o homem se torna brutal e agredi o irmão, algo de animalesco toma a frente nele, parece perder tudo o que é de humano; a violência sempre tem, em si, algo de bestial e somente a intervenção salvífica de Deus pode restituir o homem à sua humanidade. Ora, para o Salmista, objeto de uma agressão tão feroz, parece não haver saída, e a morte começa a se apoderar dele: “Derramo-me como água, todos os meus ossos se desconjuntam; (...) minha garganta está seca qual barro cozido, pega-se no paladar a minha língua (...). Repartem entre si as minhas vestes, e lançam sorte sobre a minha túnica” (vv. 15.16.19). Com imagens dramáticas, que podemos encontrar de novo nos relatos da paixão de Cristo, descreve-se o desfalecimento do corpo do condenado, o sede insuportável que atormenta o moribundo e que encontra eco no pedido de Jesus – “Tenho sede” (cf. Jo 19, 28) –, até chegar ao gesto definitivo dos algozes que, como os soldados sob a cruz, repartem as vestes da vítima, já considerada morta (cf. Mt 27, 35; Mc 15, 24; Lc 23, 34; Jo 19, 23-24).
Eis então, urgente, novamente o pedido de socorro: “Porém, vós, Senhor, não vos afasteis de mim; ó meu auxílio, bem depressa me ajudai. Salvai-me” (vv. 20.22a). Este é grito que abre os céus, porque proclama uma fé, uma certeza que vai além de toda dúvida, de toda escuridão e de toda desolação. E o lamento se transforma, deixa o lugar para o louvor na acolhida da salvação: “Vós me respondestes. Anunciarei, então, vosso nome a meus irmãos, e vos louvarei no meio da assembleia” (vv. 22c-23). Assim, o Salmo se abre à ação de graças, ao grande hino final que envolve todo o povo, os fiéis do Senhor, a assembleia litúrgica, as gerações futuras (cf. vv. 24-32). O Senhor veio em socorro, salvou o pobre e lhe mostrou seu rosto de misericórdia. Morte e vida se cruzaram num mistério inseparável, e a vida triunfou, o Deus da salvação se mostrou Senhor inconteste, que todos os confins da terra celebram e, diante de quem, todas as famílias dos povos se prostrarão. É a vitória da fé, que pode transformar a morte em dom da vida, o abismo da dor em fonte de esperança.
Irmãos e irmãs muito queridos, este Salmo nos levou ao Gólgota, aos pés da cruz de Jesus, para reviver a sua paixão e compartilhar a alegria fecunda da ressurreição. Deixemo-nos, portanto, invadir pela luz do mistério pascal mesmo na aparente ausência de Deus, mesmo no silêncio de Deus, e, como os discípulos de Emaús, aprendamos a discernir a verdadeira realidade para além das aparências, reconhecendo o caminho da exaltação exatamente na humilhação, e o pleno manifestar-se da vida na morte, na cruz. Assim, colocando outra vez toda a nossa confiança e a nossa esperança em Deus Pai, em todas as angústias poderemos, também nós, rezar a Ele com fé, e o nosso grito de ajuda se transformará em canto de louvor. Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 14 de setembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Deus está sempre por perto...


Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Retomaremos, hoje, as Audiências na Praça São Pedro e, na “escola de oração” que estamos vivendo juntos nestas Catequeses da quarta-feira, gostaria de começar a meditar sobre alguns Salmos que, como eu dizia em junho passado, formam o “livro de oração” por excelência. O primeiro Salmo sobre o qual me dedico é um Salmo de lamento e de súplica atravessado de profunda confiança, no qual a certeza da presença de Deus funda a oração que brota de uma condição de extrema dificuldade na qual se encontra o orante. Trata-se do Salmo 3, referido, na tradição judaica, a Davi no momento em que foge do seu filho Absalão (cf. v. 1): é um dos episódios mais dramáticos e sofridos na vida do rei, quando seu filho usurpa o seu trono real e o obriga a deixar Jerusalém para ter a vida salva (cf. 2Sam 15ss). A situação de perigo e de angústia experimentada por Davi se torna, portanto, pano de fundo para esta oração e ajuda a compreendê-la, mostrando-se como a situação típica na qual um Salmo como este pode ser recitado. No grito do Salmista, todo homem pode reconhecer aqueles sentimentos de dor, de amargura e, ao mesmo tempo, de confiança em Deus que, segundo a narração bíblica, haviam acompanhado a fuga de Davi de sua cdiade.
O Salmo começa com uma invocação ao Senhor:
“Senhor, como são numerosos os meus perseguidores! É uma turba que se dirige contra mim. Uma multidão inteira grita a meu respeito: Não, não há mais salvação para ele em seu Deus!” (vv. 2-3).
A descrição que o orante faz da sua situação é, portanto, marcada por tons fortemente dramáticos. Por três vezes se repete a ideia de multidão – “numerosos”, “turba”, “multidão” – que, no texto original, é dita com a mesma raiz hebraica, de forma a sublinhar ainda mais a enormidade do perigo, de modo repetitivo, quase martelante. Esta insistência sobre o número e a grandeza dos inimigos serve para exprimir a percepção, por parte do Salmista, da absoluta desproporção existente entre ele e seus perseguidores, uma desproporção que justifica e fundamenta a urgência do seu pedido de ajuda: os opressores são muitos, assumem o controle, enquanto que o orante está sozinho e desamparado, à mercê de seus agressores. No entanto, a primeira palavra que o Salmista pronuncia é “Senhor”; o seu grito começa com a invocação de Deus. Uma multidão ameaça e se insurge contra ele, gerando um medo que agiganta a ameaça fazendo-a parecer ainda maior e mais aterrorizadora; mas o orante não se deixa vencer por esta visão de morte, mantém firme o relacionamento com o Deus da vida e a Ele, antes de mais, se dirige, em busca de ajuda. Porém, os inimigos tentam também quebrar este vínculo com Deus e destruir a fé de sua vítima. Eles insinuam que o Senhor não pode intervir, afirmando que nem mesmo Deus poderá salvá-lo. A agressão, portanto, não é apenas física, mas também toca a dimensão espiritual: “o Senhor não poderá te salvar” – dizem –, o núcleo central do espírito do Salmista é agredido. É a extrema tentação a que o crente é submetido, é a tentação de perder a fé, a confiança na proximidade de Deus. O justo supera a última provação, permanece firme na fé e na certeza da verdade e na plena confiança em Deus, e exatamente assim encontra a vida e a verdade. Parece-me que aqui o Salmo acaba tocando-nos muito pessoalmente: em tantos problemas somos tentados a pensar que, talvez, Deus não me salve, não me conheça, talvez não haja possibilidade; a tentação contra a fé é a última agressão do inimigo, e devemos resistir a isto e, assim, encontrar a Deus e encontrar a vida.
O orante do nosso Salmo é, portanto, chamado a responder com a fé aos ataques dos ímpios: os inimigos – como eu disse – negam que Deus possa ajudá-lo, ele, porém, O invoca, O chama pelo nome, “Senhor”, e depois se volta a Ele com um “tu” enfático, que expressa um relacionamento firme, sólido, e encerra em si a certeza da resposta divina:
“Mas tu és, Senhor, para mim um escudo; tu és minha glória, tu me levantas a cabeça. Apenas elevei a voz para o Senhor, ele me responde de sua montanha santa” (vv. 4-5).
A visão dos inimigos, agora, desaparece, não venceram porque quem crê em Deus é seguro que Deus seja o seu amigo: permanece apenas o “Tu” de Deus, aos “muitos” se contrapõe agora apenas um, mas muito maior e muito mais poderoso do que muitos adversários. O Senhor é ajuda, defesa, salvação; como escudo protege que se confia a Ele, e o faz levantar a cabeça, no gesto de triunfo e de vitória. O homem não está mais sozinho, os inimigos não são imbatíveis como parecem, porque o Senhor escuta o grito do oprimido e responde do lugar de Sua presença, do Seu monte santo. O homem grita, na angústia, no perigo, na dor; o homem pede ajuda, e Deus responde. Este entrelaçar-se de grito humano e resposta divina é a dialética da oração e a chave de leitura de toda a história da salvação. O grito exprime a necessidade de ajuda e recorre à fidelidade do outro; gritar quer dizer fazer um gesto de fé na proximidade e na disponibilidade à escuta própria de Deus. A oração expressa a certeza de uma presença divina já experimentada e acreditada, que na resposta salvífica de Deus se manifesta em plenitude. Isto é relevante: que, na nossa oração, seja importante, presente, a certeza da presença de Deus. Assim, o Salmista, que se sente assediado pela morte, confessa a sua fé no Deus da vida que, como escudo, o envolve com uma proteção invulnerável; quem pensava que já havia perdido pode levantar a cabeça, porque o Senhor o salva; o orante, ameaçado e ridicularizado, está na glória, porque Deus é a sua glória.
A resposta divina que acolhe a oração dá ao Salmista uma segurança total; mesmo o medo acabou, e o grito se aquieta na paz, numa profunda tranquilidade interior:
“Eu, que me tinha deitado e adormecido, levanto-me, porque o Senhor me sustenta. Nada temo diante desta multidão de povo, que de todos os lados se dirige contra mim” (vv. 6-7).
O orante, mesmo em meio ao perigo e à batalha, pode adormecer tranquilo, numa inequívoca postura de abandono confiante. Ao seu redor os adversários se dirigem contra ele, são tantos, se erguem contra ele, escarnecem e tentam fazê-lo cair, mas ele, pelo contrário, se deita e dorme tranquilo e sereno, seguro da presença de Deus. E, ao despertar, encontra Deus ainda ao seu lado, como guardião que não dorme (cf. Sl 120, 3-4), que o sustenta, o segura pela mão, nunca o abandona. O medo da morte é vencido pela presença dAquele que não morre. E mesmo a noite, povoada de temores atávicos, a noite dolorosa da solidão e da espera angustiada, agora se transforma: aquilo que evoca a morte se torna presença do Eterno.
À visibilidade do ataque do inimigo, maciço, imponente, se contrapõe a invisível presença de Deus, com toda a sua invencível potência. E é a Ele que, novamente, o Salmista, depois de suas expressões de confiança, dirige a oração: “Levantai-vos, Senhor! Salvai-me, ó meu Deus!” (v. 8a). Os agressores “se dirigiam” (cf. v. 2) contra a sua vítima, quem, porém, “se levantará” é o Senhor, e será para abatê-los. Deus o salvará, respondendo ao seu grito. Por isso, o Salmo se encerra com a visão da sua libertação do perigo que mata e da tentação que pode fazer perecer. Depois do pedido dirigido ao Senhor de se levantar para salvar, o orante descreve a vitória divina: os inimigos que, com sua injusta e cruel opressão, são símbolo de tudo aquilo que se opõe a Deus e ao seu plano de salvação, são vencidos. Feridos na boca, não poderão mais agredir com sua violência destrutiva e não mais poderão insinuar o mal da dúvida na presença e na ação de Deus: o seu falar insensato e blasfemo é definitivamente desmentido e reduzido ao silêncio pela intervenção salvífica do Senhor (cf. v. 8bc). Assim, o Salmista pode concluir a sua oração com uma frase de conotações litúrgicas que celebra, na gratidão e no louvor, o Deus da vida: “Sim, Senhor, a salvação vem de vós. Desça a vossa bênção sobre vosso povo” (v. 9).
Caros irmãos e irmãs, o Salmo 3 nos apresentou uma súplica cheia de confiança e de consolação. Rezando este Salmo, podemos fazer nossos os sentimentos do Salmista, figura do justo perseguido que encontra em Jesus a sua realização. Na dor, no perigo, na amargura da incompreensão e da ofensa, as palavras do Salmo abrem o nosso coração para a certeza confortante da fé. Deus está sempre por perto – mesmo nas dificuldades, nos problemas, nas obscuridades da vida –, escuta, responde e salva do seu modo. Mas é preciso saber reconhecer a sua presença e aceitar os seus caminhos, como Davi na sua fuga humilhante do filho Absalão, como o justo perseguido do Livro da Sabedoria e, em última instância e de forma mais completa, como o Senhor Jesus no Gólgota. E quando, aos olhos dos ímpios, Deus parece não intervir e o Filho morre, exatamente então se manifesta para todos os crentes, a verdadeira glória e a definitiva realização da salvação. Que o Senhor nos dê fé, venha em auxílio da nossa fraqueza e nos torne capazes de crer e de rezar em toda angústia, nas noites dolorosas da dúvida e nos longos dias de dor, abandonando-nos confiantes a Ele, que é nosso “escudo” e nossa “glória”. Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 7 de setembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Santa Edith Stein

9 de agosto


Santa Edith Stein,
rogai por nós!

Deus de nossos pais, conduzistes Santa Edith Stein, vossa mártir, ao conhecimento e à imitação até à morte de vosso Filho crucificado; fazei que por sua intercessão todos os homens reconheçam no Cristo seu Salvador e possam, graças a Ele, contemplar sem fim a vossa face. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Não se pode adquirir a “Ciencia da Cruz”, se não sofrendo verdadeiramente o peso da cruz. Desde o primeiro instante tenho tido a convicção íntima e me digo do fundo do coração: Salve, Oh Cruz, minha única esperança (S.ta Edith Stein)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Cartas do P.e Aldo 201

Asunción, 13 de julho de 2011.

Caros amigos,
A desproporção entre o meu nada e o Mistério de que é feito o meu coração aumenta na medida em que vejo a minha impotência diante da minha necessidade e a de tantos que, sofrendo, desamparados, batem à minha porta. Que dor, que grito, dentro de mim, dirigido ao Mistério para que mostre o Seu terno rosto diante de três jovens mães internadas com câncer em estado terminal. Maria tem 29 anos e 5 filhos, Josefina tem 32 anos e 6 filhos, Cíntia tem 42 anos e 3 filhos. Três mulheres solitárias, sem maridos, que as abandonaram sozinhas com os 14 filhos. Enquanto eu celebrava a missa, achava que Josefina estava morrendo. Um câncer no pulmão parecia sufocá-la. Eu via a sua respiração difícil e olhava para a hóstia entre as minhas mãos. Sentia toda a sua dor e pedia a Jesus para olhá-la nos olhos, e pedia para dividir com ela a sua dor. Num certo momento, me aproximei dela e a acariciei e, depois de lhe ter dado a unção dos enfermos, logo depois de comungar, repousou. Quem sou eu, Senhor? Perguntava Santa Catarina. Nada. E quem és Tu? Tudo.
Ver a cada dia quem é o humano é dramático, e no entanto aquele homem que, num certo momento, para de viver é Cristo e, olhando para ele assim, não é possível não se ajoelhar. Porque, se aquilo de mais caro que você tem é Cristo, é verdade que aquele homem é aquilo de mais caro que você tem naquele momento. E ele é aquilo de mais caro que você tem porque ele, como eu, é aquilo de mais caro que existe para Cristo. E eu vi isto pela enésima vez neste sábado à noite, quando uma família, para se desfazer de uma parente idoso, com uma perna cheia de vermes numa grande ferida, passando de uma mentira para outra para nos enganar, conseguiu largar este pobre homem na frente da Clínica. Tinham nos procurado, enganando-nos, com o velhinho na carroceria aberta da camionete, enquanto eles estavam bem protegidos do frio na cabine. O motivo? Fede.
Nós o pegamos e eu vi naquele rosto triste a Presença do Mistério e, sem esperar nenhum médico e muito menos a assistente social (vocês sabem bem como, muito frequentemente, estes profissionais, antes de qualquer coisa, olham para a ficha clínica: se tem um diagnóstico e tudo preenchido corretamente). Jesus, que era um médico, caminhando pelas estradas e encontrando milhares de pacientes, olhava para quê? Para o diagnóstico? Para a ficha clínica? Ou escutava a dor dessas pessoas, olhava para sua fé e as curava imediatamente? Quanto a isto, sou um grosso: mando todos à merda muito facilmente. Eu olhava para ele e pensava: Deus se serviu também do engano dos parentes – que, há um tempo, o haviam abandonado num galinheiro – para mostrar a eles, para me mostrar que Ele não havia se esquecido daquele homem, daquele pobrezinho cuja realeza é objetiva, porque é relação com o Mistério.
Eu o beijei, levei para a Clínica. Os enfermeiros o transformaram. Porém, não havia leito livre e já era noite. Então, o Espírito Santo, sabendo que sou fraco de memória, me lembrou que, na Capela onde o Santíssimo fica exposto, onde já tem um mendigo doente, ainda havia um lugar. Assim, nós o levamos para ali e acho que Jesus gostou disso, porque agora Ele tem dois coroinhas cuidando dEle.
Enquanto isso, os parentes fugiram. Outra vez vi acontecer aquilo que o Salmo de Laudes do sábado diz: “pode uma mãe abandonar o seu filho?”, “Porém, eu não te abandonarei nunca”.
Experimentei isto na segunda-feira, quando uma adolescente que matou o seu companheiro quis renunciar ao seu filho, nascido aos 7 meses e que, agora, tem já 3 meses de vida. Ela vive na nossa casa de acolhida para meninas e adolescentes grávidas. Tive que ir ao juizado de menores com ela e com a advogada. Que dor ouvir a menina dizer ao juiz que me cedia o seu filho para poder voltar para a prisão de menores. Falava com uma frieza terrível e, comovido, eu olhava para o bebê entre os meus braços. O menino era como um lixo, e era maltratado por ela.
Terminada a aventura da adoção, voltamos para casa. Agora, Deus me fez, pela enésima vez, pai deste pequeno. E ela, esta pobre garota, voltará para a prisão para terminar a pena que poderia ter sido descontada aqui, conosco, na companhia do seu filho. Padre Paolino, depois do que aconteceu, me disse, pensando no que perde e ganha: “Nem mesmo a beleza sem Cristo consegue mover o coração de uma pessoa”. Você pode oferecer a ela o lugar mais bonito do mundo, mais limpo, mas sem o encontro com Cristo até mesmo uma campo de concentração é mais atraente.
Finalmente, uma notícia interessante no dia de São Bento: apresentou-se um jovem de 24 anos, rico, deserdado pela família e expulso de casa porque queria se tornar padre. Graduado em filosofia e com outros títulos. Chegou aqui graças ao semanário que publicamos e que ele lê (como é importante ter um espaço nos jornais laicos com um semanário “leigo”, ou seja, católico). Quer ser sacerdote porque está fascinado com a experiência que vibra no jornalzinho que publicamos.
Olhei para ele com muito distanciamento, mesmo porque, nestes anos, muitos chegaram aqui com este desejo, mas depois, diante da minha proposta, não voltaram mais. Eu o escutei e, em seguida, lhe perguntei: “Você gosta das garotas?”. Ele olhou para mim surpreso. E eu lhe disse: “Nesses tempos, esta é uma pergunta importante porque a condição, como dizia Giussani, para ser padre é ser homem”. “Padre, é claro que sim”, ele me respondeu. Bem, então eu lhe propus: “Por três meses... não apenas porque você é formado em filosofia e gosta de estudar e de cantar (ele cantava na ópera de Asunción), falar italiano etc. (um monte de dons que eu nunca tive, já que eu era um burro na escola), mas para que você possa aprender a prestar contas com o ‘morder a pedra’, como dizia o frei a Miguel Mañara. Hoje, você virá conosco – Padre Paolino e eu – à fazenda onde estão os doentes de AIDS, recusados por todos. Por três meses, você vai viver com eles: vai dormir num de seus quartos, numa beliche, comerá com eles, trabalhará a terra e, obviamente, terá o espaço necessário para a oração, a leitura, o silêncio etc. Depois, terminados os três meses, vai ficar com os ‘ex-mendigo’ da casa de São Joaquim e Sant’Anna, para dar banho e limpar estes filhos prediletos de Deus, vivendo com eles. E, então, finalmente, mais alguns meses na Clínica... Amigo, para ser padre, é preciso ter culhões, porque, de outra forma, amanhã, bastará que uma garota olhe para você, para que você desapareça, ou então você acabará vivendo no orgulho, nas lamentações e no burguesismo de tantos padres novos e nem tão novos assim que eu conheço. ‘É preciso sofrer para que a verdade não se cristalize numa doutrina’, dizia Mounier”. Ele olhou para mim e, com um sorriso, me disse: “Padre, obrigado. É isto que eu quero, aceito o desafio”. Subimos no carro, fomos para a fazenda e, desde o dia de São Bento, com o seu “ora et labora”, ele está ali, dando início a uma aventura que, se Deus quiser – quem sabe – será aquele que me substituirá, porque a vida passa e eu sempre pedi ao Senhor um substituto, mas que fosse alguém com culhões e que ame Cristo e os pobres muito mais do que um apaixonado ama a mulher com quem se casou, muito mais do que um apaixonado ama a sua namorada. 
Rezem, portanto, amigos, para que, se Jesus quiser, seja, para esse rapaz, de verdade, a possibilidade de viver a graça que me foi dada para viver. A regra é sempre a mesma: “calos nos joelhos, calos nas mãos, calos na mente”. Padres, ou seja, homens viris!
Ciao,
Padre Aldo

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cartas do P.e Aldo 198


Asunción, 21 de junho de 2011.

Caríssimos,
Eis a foto de recordação das 11 crianças da Casinha de Belém batizadas neste domingo. A maioria delas não tem ninguém, mas agora podem dizer “Pai” para o Mistério. Que responsabilidade, para mim e os amigos, nos foi presenteada com o batismo delas! Uma responsabilidade possível de viver apenas se o meu eu é definido, momento após momento, pela certeza “eu sou Tu que me fazes”. Desta certeza depende todo o caminho educativo e a sua maturidade.
Olho-os e vejo a grandeza e a beleza do Mistério que permitiu que nascessem em condições desumanas e violentas para, depois, retomá-los e levá-los para onde Sua Presença é evidente.
Olho-os e, comovido, penso naquilo que o profeta disse: “antes de te formares no ventre de tua mãe, pronunciei o teu nome”.
Que bonito: eu, como os meus pequenos, fomos pensados, desde sempre, por Deus! Que bonito: eu, como as minhas crianças, fomos chamados pelo nome, ou seja, somos Seus, pertencemos-Lhe desde sempre. Então, o modo com o qual fomos concebidos é secundário (não porque não seja importante... pelo contrário), porque a nossa identidade vem antes, vem da eternidade. Então, mesmo se concebido na violência, isto não define mais a minha personalidade. 
O aborto é terrível porque elimina um nome que Deus pronunciou desde sempre. Então, entendem porque as meninas grávidas são, para mim, tesouros, mesmo que tenham 12 anos de idade. Elas moram conosco, salvas daquelas diabólicas ONGs que fazem de tudo para que abortem.
Uma garotinha da favela, vítima do crack desde os 9 anos de idade, não queria a criança de que estava grávida e chegou aqui em condições indescritíveis. Deu à luz uma menina lindíssima (hoje, a mãe tem 15 anos) e, no início não a queria. Três meses se passaram e ela, a mãe, é outra pessoa, é uma verdadeira mulher, uma verdadeira mãe. Mesmo o seu aspecto físico mudou: está bonita, bem vestida, limpa, orgulhosa da sua feminilidade. Vê-la amamentando a sua menina é de uma ternura enorme.
Não mais o passado como “piranha” (é como são chamadas essas crianças), mas um início de consciência de ser fruto do SER, daquele “Tu que me fazes”. Mas, dentro de uma companhia de 24 horas por dia. Porém, é assim que o Mistério nos faz companhia. Lucilla, a filha do meu amigo Luigi Amiconi, dizia: “Tudo o que eu faço é dizer ‘sim’ a Liz (uma menina com gravíssimos problemas psíquicos, físicos e de mobilidade), e este ‘SIM’ mudou Liz e me mudou. E dizer ‘SIM’ quer dizer responder às suas necessidades, quer dizer estar sempre com ela. E este ‘SIM’ que digo a ela, eu o digo a todas as crianças. Mas, posso dizê-lo porque um outro o diz para mim”.
E é mesmo bonito ver esta garota de 12 anos, que parece ter a metade, e que não fala, é mesmo bonito vê-la feliz e fazendo de tudo para responder às provocações de Lucilla. E Lucilla que a olha, a olha para perceber o que quer, o que a realidade lhe pede para poder responder “SIM”. Educar é apenas dizer “SIM” à realidade.
Padre Aldo

terça-feira, 21 de junho de 2011

Cartas do P.e Aldo 197

Asuncíon, 17 de junho de 2011.

Caros amigos,
Cedo ou tarde, teremos que morrer, mesmo se, frequentemente, nos esquecemos disto. Então, como vocês gostariam de morrer? Aldo, um homem de 36 anos, paciente terminal da clínica, me disse: "vim para cá porque quero me preparar bem para o encontro definitivo com Jesus. Quero morrer com dignidade, ou seja, com o Santo Rosário na mão e Jesus Eucarístico. O Rosário é a minha arma para vencer esta batalha final. Padre, me acompanhe nesta luta, porque eu quero ver Jesus".
Deus conceda a todos nós esta liberdade.
Padre Aldo

domingo, 12 de junho de 2011

Cartas do P.e Aldo 196

Asunción, 10 de junho de 2011.

Caríssimos,
Levando a sério aquilo que Carrón nos diz, fazendo um trabalho permanente, verificando em cada momento a razoabilidade da fé, a dúvida desaparece, deixando lugar para uma certeza de ferro que nem mesmo a pior condição na qual uma pessoa possa se encontrar a fará tremer. Isto não significa – e eu experimento isto todos os dias, há mais de 20 anos – que me seja poupada a experiência da solidão, da dor que Jesus mesmo viveu no Getsêmani ou na cruz.
Quantas vezes eu gritei e grito: “Pai, se é possível, afasta de mim este cálice”. Ou quantas vezes busquei inutilmente uma companhia que “vigiasse” comigo! Porém, dentro deste deserto, desta batalha, a luz da fé sempre venceu e mesmo que em certo momentos o grito de Jesus se tenha feito vivo – “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” –, é como se imediatamente a posição da fé vencesse sempre: “Não a minha, mas a tua vontade seja feita” ou “nas tuas mãos eu me confio”.
Ver todos os dias pessoas morrendo ou tanta dor inocente me permite viver continuamente esta experiência. Digo experiência porque fica sempre mais claro que Deus é tudo, que Deus se ocupa de mim e de cada um de nós com uma ternura infinita.
Ontem, morreu Domenica, uma garota lindíssima doente de AIDS. A sua jovem vida tinha sido destruída pela prostituição a que tinha sido obrigada por seu companheiro, um alemão, que desapareceu depois que ela ficou doente. Ler o seu prontuário médico é assustador, quando se vê aonde pode chegar uma pessoa quando em seu coração não há Deus. Nestes últimos meses, vivia numa casa cujas paredes eram de papelão. Nós a encontramos abandonada no chão de terra, sozinha. Vivia com um homem, na miséria absoluta. Nós a trouxemos para a clínica, mas ela já havia decidido morrer. Não queria mais saber de nada: nem comer, nem tomar remédios. Num momento de crise, teve uma reação muito feia com uma enfermeira que acabou machucando o dedo com uma seringa com a qual lhe havia aplicada uma injeção. Um drama no drama.
A enfermeira, uma bela garota, mãe de quatro filhos, dos quais três são gêmeos, depois de um primeiro momento de medo, colocou-se em contato com o médico responsável pela clínica na qual, um tempo antes, havia acontecido a mesma coisa, e escreveu estas palavras: “tão logo me dei conta do que havia acontecido, tirei minhas luvas, lavei minhas mãos, chamei o médico para ver o que podia ser feito e experimentei uma grande angústia. Mas, imediatamente, entreguei tudo a Deus e me lembrei daquilo que me havia sido dito num encontro de catequese: ‘O demônio favorece estas coisas para que nasça em nós a dúvida: por que Deus permite estas coisas’. Mas, eu tenho a certeza de que mesmo esta provação é uma Graça de Deus que me ama, de forma que deixo tudo em Suas mãos, para que se faça a Sua vontade, e isto me dá tanta paz”.
Domenica, olhando-a com amor, começou a se acalmar, tomou o remédio e quando lhe perguntava se queria um sorvete, ela me respondia: “Sim, padre, quero de baunilha”.
A depressão pareceu se acalmar um pouco e foi bonito quando pediu o Batismo e a Primeira Comunhão. Foi um momento que significou mesmo uma melhora do seu estado de saúde. Recebeu a Eucaristia até a manhã do dia em que morreu. Eu a olhei e ainda era bela. O seu corpo nunca amado e sempre usado tinha reencontrado uma harmonia suprimida por anos de prostituição. Uma vez mais Deus venceu, uma vez mais a evidência de que Deus não abandona os seus filhos, por mais desesperados que sejam, se impõe aos olhos de todos.
Era o reacontecer do fato da adúltera, da Samaritana. Então, como não se render à evidência, à razoabilidade da fé?
E todos os dias é assim, amigos. De fato, somos os vivos, de fatos Cristo já venceu tudo. Amigos, vejo como Deus é atento a quem não tem nada, vejo como Deus ama e recolhe aqueles que o mundo chama de lixo humano. De fato, para Deus, não existe o filho bom ou o mal, existe apenas o filho.
Padre Aldo

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Cartas do P.e Aldo 195

Asunción, 3 de junho de 2011.

Caros amigos,
É belo se surpreender sempre mais com o olhar fixo no Mistério e os pés bem plantados na realidade, não importando se devo suar as proverbiais sete camisas, porque o suor é a dramaticidade com a qual se enfrenta a vida.
De volta à casa, como acontece em toda família, a pessoa se encontra com a realidade que, no meu caso, é aquela onde a dor transborda de todos os lados: moribundos, jovens com câncer e com AIDS, velhos abandonados, meninas grávidas ou violentadas, filhos que fogem ou se opõem ao caminho educativo das Casinhas de Belém, colaboradores com tantos problemas pessoais e familiares, pessoas que com a desculpa de ajudar criam mais problemas do que soluções. Nem mesmo coloquei os pés na terra, saindo do avião, e eis o cenário. O meui coração sentiu imediatamente que Deus me pede tudo, que a realidade já é amiga e, por isso mesmo, está sempre pronta a me provocar. Não tive tempo nem mesmo para a saudade do que encontrei na Itália, porque a realidade me faz formigar de uma nostalgia muito maior, infinitamente mais bela: a nostalgia de fixar bem nos olhos do Mistério, aquele Tu que me fazes. No avião eu tinha lido a introdução dos exercícios de Carrón. Imediatamente reconheci descrito, de forma operativa, o meu eu tornado ainda mais inquieto, desejoso, saudoso de vê-Lo. Eu estava cansado, o fuso horário, as confusões... as perguntas, a súplica, a necessidade urgente de não perder de vista, um instante sequer, a alegria pascal, ou seja, a companhia dos “vivos”: Julián de la Morena, Paolino, Padre Martino do Chile e visitor da São Carlos Borromeu na América Latina.
Dor, sofrimento, suor, alegria pascal. Sim, porque a alegria pascal é uma companhia na qual é evidente, claro, luminoso, o carisma que nos foi dado. O abraço destes amigos tornou ainda mais potente para mim a pergunta pelo Infinito que trago dentro de mim.
Assim, pude, tão logo cheguei em casa e desfiz as malas de presentes para as minhas crianças, visitar os doentes, os idosos, os meus filhos mais novos, o pessoal que estava trabalhando, vendo neles, mesmo se os olhos estavam anuviados pelo cansaço, a beleza radiante do rosto de Cristo. Aquele rosto que vi, em cada dia, na Itália, em cada lugar por onde passei.
Há, de fato, em todos os lugares, uma vida que desabrocha, um surplus de vida, de vontade de viver. E é esta vontade de viver que tão logo encontrei Isabel, uma garotinha de 15 anos – e que, numa carta, se define como um “vírus” –, me coloquei de joelhos diante do Mistério, suplicando-lhe que me dê aquela paternidade necessária para comunicar a ela a alegria de ser um dom. Um fato que me obriga a estar diante dEle, se verdadeiramente amo esta filha, porque sem esta minha posição não conseguirei lhe comunicar nada, não poderei lhe mostrar que também para ela existe a possibilidade de passar da consciência de ser um “vírus” à certeza “de amei-te com um amor eterno, tendo piedade do teu nada”.
A mesma posição eu senti como necessária quando, visitando a casa onde vivem algumas garotas grávidas (uma de 12 anos está no oitavo mês) e outras que acabaram ter seus filhos, saudando-as com afeto, depois de 15 dias sem as ver, não obtive sequer um olhar delas. Uma vez mais, vi em seus rostos a raiva da vida, de todos. Senti ternura por elas, da mesma forma que o Mistério sente por mim, olhando-me continuamente, acolhendo-me, porque “antes de ser concebido no ventre de minha mãe, Ele pronunciou o meu nome, fez de mim sua propriedade, teve piedade do meu nada, amando-me de um amor eterno”. E, então, eu as saudei dizendo: “Voltarei amanhã e vamos ficar juntos”.
No dia seguinte, o milagre: uma delas, depois de três meses conosco, se aproximou e me deu um beijo. Não somente isso, mas mesmo a sua feminilidade, antes destruída, se refez. Quando ela chegou aqui, com a sua barriga maior do que ela (que tem apenas 15 anos), estava suja, desarrumada, destruída pelo crack; agora, não tem mais nem sinal daquela menina perdida. Bonita, cabelos longos bem penteados, unhas pintadas, vestida como as garotas de hoje etc. Além do mais, vive para a sua filha.
Veio-me em mente aquilo que Dom Giussani disse em “É possível viver assim?”: a moralidade é olhar no rosto a Jesus... então, tudo se torna ordenado, a pessoa se penteia de certa maneira, abotoa seus botões, tem vergonha se está com sapatos sujos e diz “perdoe-me por estar assim desarrumado”.
Hoje, chegou outra garota que está no terceiro ano do ensino médio e está no terceiro mês de gravidez. Esta noite, faremos a festa com as outras para lhe dar as boas vindas. É Jesus que chegou com uma trouxinha na barriga. Olho para ela, é pequena, magra, os olhos verdes, e sinto uma ternura infinita. Outro caso de pedofilia. Mas, tenho a certeza – porque há anos a toco com a mão – que também para ela a certeza do Cristo ressuscitado triunfará. Não existe problema, por mais violento, que não encontre em Cristo a vitória
Certamente, trata-se de uma luta e de uma dor contínuas, mas esta é a condição para estar, instante após instante, diante do Mistério. A dor é tanta (também hoje, na clínica, morreu uma jovem mãe com quatro filhos) e, às vezes, parece me arrastar, no entanto, dentro de tudo isto encontro o repetir contínuo de “eu sou Tu que me fazes”, que muda tudo, e tudo se torna motivo de letícia, porque tudo, exatamente tudo, se torna positivo, porque tudo se torna grito, reconhecimento do Ser que me faz em cada momento, e por quem bate o meu coração.
Padre Aldo

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Cartas do P.e Aldo 194

Asunción, 27 de maio de 2011.

Caros amigos,
De volta da Itália, agradeço de coração a todas as pessoas que encontrei e, particularmente, os tantos, tantíssimos testemunhos da Ressurreição de Cristo, tanto de doentes como de pessoas em outras condições difíceis. De fato, como nos lembrava Carrón, citando São Paulo, “nenhum dom de Graça nos falta mais”.
A alegria de ver pessoas mudadas, seguindo Carrón, me enche o coração de esperança e de energia. Uma vez mais se confirmou que o problema não é ir para o Paraguai, para o Brasil ou para a África, mas seguir aquela companhia na qual Deus o colocou e na qual é evidente a experiência do carisma, com o mundo do coração.
Não há condição privilegiada, é a realidade nas circunstâncias na qual Deus nos colocou e nos coloca. Eu vim para o Paraguai porque Giussani me mandou, mas não para o mal do Paraguai ou da América Latina como tantos têm.
Uma pessoa que viva aí o carisma, seguindo Carrón, não sente saudade do Paraguai. Vi coisas do outro mundo e frequentemente me perguntei: mas, quantos veem isso? Vi os sinais da vitória de Cristo em todos os lugares por onde passei e uma pessoa estaria ali sempre, olhando para esses sinais, desejando pertencer àqueles lugares. De verdade, me senti em casa, porque se a pessoa olha para onde Carrón olha, identificando-se com a sua experiência, a vida floresce, as obras se tornam a presença dos “vivos” num mundo de mortos.
Obrigado de coração, porque vi um movimento de pessoas vivas que me marcaram. E quem vive assim aí na Itália, vive aqui comigo mesmo se nunca vier me ver. E vice-versa: ninguém escapa daquilo que não existe. Agradeço também àqueles que, com seu sacrifício, continuam ajudando a Providência, para poder terminar o hospital e a escola, particularmente às crianças das escolas que visitei.
Em nome dos meus doentes e de todos, agradeço a vocês de coração. Para mim, mendigar é mendigar Cristo, mendigar o Seu amor, porque o objetivo da vida é ser dada.
Rezamos por todos vocês, caros amigos e benfeitores que nos ajudam. Obrigado.
Padre Aldo

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Cartas do P.e Aldo 192

Asunción, 1 de maio de 2011.

Caros amigos,
Os apóstolos encheram-se de alegria ao verem Jesus. A alegria, a letícia cristã, portanto, consiste tão somente em ver, em tocar Jesus. Por isso, a nossa falta de alegria nunca se deve à dor, qualquer que seja essa dor, ou às circunstâncias adversas. Também os Evangelhos destes dias nos falaram da falta de letícia dos Apóstolos, uma falta que se devia ao fato de que eles O tinham confundido com um fantasma, com uma imaginação; e o fantasma, a imaginação – que é a negação da realidade – gera apenas medo, angústia, depressão. No fundo, a depressão é a vida sem a realidade e determinada pelos fantasmas, pelas fantasias. Por isto, numa aparição, Jesus disse: “Olhem, sou Eu... um fantasma não tem carne nem osso”, e mostrou suas chagas e comeu com eles. Assim, naquela manhã, no Lago de Tiberíades, Jesus ressuscitado apareceu uma vez mais e os apóstolos se assustaram, pensando que estavam vendo um fantasma. Como é terrível a fantasia, o não ver a realidade. Porém, João, o amigo predileto de Jesus, interveio prontamente e disse: “É o Senhor”. Pedro, como que despertado da sua letargia, ao ouvir “É o Senhor”, se jogou no mar e, nadando, chegou à margem e abraçou Jesus.
Nestes dias, toquei a beleza destes fatos. Vivi momentos duros, nos quais o medo entrou em mim e, com Paolino, nos demos conta de uma necessidade de correr para São Paulo, para encontrar os amigos Marcos, Cleuza, Julián, para que, como João, nos dissessem: “É o Senhor”. Deixamos a paróquia na noite de Páscoa e, como aqueles dois de Emaús, corremos para São Paulo e vimos o Senhor, de forma que, no dia seguinte, voltamos para casa com o coração cheio de letícia.
Os fatos acontecidos tinham sido muito dolorosos: Milagres, uma de nossas filhas da Casinha de Belém, morrera com apenas um ano de idade e me fora entregue nos braços pelo pessoal do hospital público envolta em trapos; a dor de seus irmãozinhos ao verem-na morta (leiam em Tempi o texto no qual relato estes fatos); a morte de um de meus primeiros colegiais, que, há um tempo, era hóspede da nossa clínica e carregava nas costas uma vida de drogas, álcool e rua; a morte de Maria Vitória, com 22 anos de idade, uma garota tão bonita consumida pelo câncer e que tinha uma filha de dois anos; a chegada na nova casa de acolhida para meninas violentadas e grávidas: primeiro (não digo os nomes verídicos) Maria, uma garotinha de 15 anos de idade, que morava numa favela e que parece ter 12 anos, e teve uma filhinha linda, mesmo que, desde os 9 anos de idade, consuma todo tipo de droga, mesmo que, durante a gravidez, tenha consumido tanto crack - a menina é um milagre do Senhor -; Josefina, de 17 anos, uma vida cheia de violência e que deu à luz uma prematura que acabou de completar um mês de vida; Larissa, 15 anos, uma vida de sofrimentos, está grávida de sete meses; Maria, uma menina de 12 anos, está no oitavo mês. Estes são apenas alguns dos acontecimentos. Agora vocês entendem o motivo da urgência de ver os amigos, ou seja, aqueles que nos indicam com clareza que “É o Senhor”. E é esta certeza, neste mar de dor, que torna cheio de letícia o coração, porque, com amigos assim, não existe momento em que não se possa se alegrar ao ver o Senhor ressuscitado.
A alegria é um lugar, não uma emoção ou um sentimento. A alegria é um lugar onde está presente, evidente, o carisma. Não basta que seja um lugar, mas é necessário que esteja presente o carisma. Por isto, tantas companhias não nos dizem nada, porque não vivem aquela pertença ao carisma, não seguem Carrón, não olham para onde ele olha, não se deixam provocar pela experiência que ele vive, pela liberdade que ele nos testemunha. E estas companhias não somente não nos ajudam como também nos causam apenas danos, como é muito frequentemente documentado, mesmo em quem pretende ajudar uma obra.
Sem esta posição que nos define, seremos tristes, vítimas dos nossos fantasmas que, depois, se tornarão pretensões sobre tudo; verdadeiramente, a letícia é um lugar no qual está presente, vibrante, o carisma. E é, de fato, comovente ver que a companhia de Marcos, Cleuza, Julián de La Morena, Bracco é a vitória de Cristo hoje; de forma que mesmo as obras caminham na gratuidade e nos permitem viver sempre mais com clareza aquilo que deriva dEle. Amigos, somente assim é possível estar diante da morte com o coração cheio de letícia, mesmo quando é um filho seu, como Milagres, que lhe é tirado; somente assim é possível permanecer diante destas meninas mães, fruto da violência, com gratuidade, respeito, discrição, amando-as, porque é possível ver nelas a paixão e a ressurreição de Cristo.
Com afeto,
Padre Aldo

Cartas do P.e Aldo 191

Asunción, 29 de abril de 2011.

Caros amigos,
Sei que muitos de vocês que me escrevem relatando seus sofrimentos e dramas esperam há algum tempo alguma resposta. Peço-lhes um pouco de paciência, porque tenho estado continuamente comprometido com meus filhos que têm necessidade de alguém com quem falar e se sentirem queridos.
Além do mais, a secretária não conhece o italiano e eu não seu usar o computador. De qualquer forma, nos próximos dias terei um pouco mais de tempo e responderei a todos.
Lembro-me de cada um de vocês na oração – que acredito valha mais do que minhas palavras, mesmo que saiam do coração da experiência.
Obrigado.
Com afeto
Padre Aldo

terça-feira, 26 de abril de 2011

Cartas do P.e Aldo 189



Asunción, 17 de abril de 2011.

Caríssimos,
Hoje, o pequeno Victor completou 4 anos. O seu pequeno leito, como podem ver na foto, foi revestido como nas grandes solenidades litúrgicas se reveste o altar da igreja ou de uma catedral. Sim. Porque é o pequeno leito onde, desde o seu nascimento, Victor, consciente ou inconscientemente, oferece a sua vida, a sua dor que o faz gemer, é como o altar onde Jesus Eucarístico se oferece vítima de expiação para os meus, para os nossos pecados. Vejam como as ternas enfermeiras o vestiram bem! Roupa de festa, para um dia sem o cotidiano pijaminha. Na cabeceira colocaram um bilhetinho igual ao que colocam na cama de cada doente. No bilhetinho de Victor está escrita a razão, o motivo do seu sofrimento: pelo Santo Padre.
Ele, Victor, oferece conosco a sua vida pelo Papa, e eu estou certo de que o Papa sente o afeto misterioso da grande dor de Victor, o meu pequeno Jesus que não cessa de gemer, apertando as suas pequenas mãozinhas como que para comunicar a sua dor. Eu o olho com uma ternura que me faz sempre mais desejar o infinito, o Mistério que se fez carne nele, pequena hóstia branca. Eu preciso dele, porque só de olhá-lo se me desperta, de modo potente, a certeza de que se é apenas e exclusivamente relação com o Mistério. Eu o olho e vibro por dentro, com toda a dor que carrego comigo, pela certeza de que “eu sou Tu que me fazes”.
É esta certeza que, mesmo neste momento no qual estou escrevendo, me sustenta, enquanto sei que a minha pequena Milagres, com a Síndrome de Down, está morrendo e, quem sabe, em algumas horas, será mandada de volta para a Casinha de Belém ou para a Clínica para morrer. Nasceu com mil problemas físicos. Quando tem crises respiratórias, fica até roxinha. É pequena como um passarinho, me olha com os seus olhinhos tão belos, leva suas mãozinhas e pezinhos para a boca e, depois, sorri (isto, até anteontem, antes da crise).
Mesmo ela, uma pequena hóstia branca que parte meu coração, também me faz desejar apenas o infinito. Como na sexta-feira à noite, quando voltava para casa com Padre Paolino, às 23h, vindo da Casinha de Belém: olhamos para o céu e estava tão bonito. Um conjunto de nuvens de tamanhos e cores diferentes (brancas, cinzas, pretas) unidas umas as outras através de uma espécie de – poderíamos dizer – cordão umbilical. Entre uma e outra um azul intenso no qual brilhavam as estrelas do céu tropical e a lua cheia no centro de tudo. Paramos com o rosto levantado, olhando aquele espetáculo, sentindo a emoção do Infinito que se tornava presente naquela beleza, a mesma beleza de Victor e de Milagres. Mais do que isso: naquele momento, era ainda mais evidente que o espetáculo que estava sobre nós só era assim belo porque o Victor existe, porque a Milagres existe, porque Tu, ó doce Jesus, existes. 
Amigos, termino aqui, porque me chamaram: na casa de acolhida para o idosos há uma velhinha que está em estado grave. Assim é a minha vida de todos os dias: um imprevisto em cada momento que se torna um Acontecimento. É mesmo bonito estar em cada segundo suspenso, com o olhar fixo no Infinito e os pés pousados sobre a certeza de que Ele está aqui.
Confio-me e confio os meus filhos às orações de vocês.
Padre Aldo

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O sentido da Páscoa para quem não crê

Por Dom Carlo Maria Cardeal Martini

Enquanto o Natal suscita instintivamente a imagem de quem se joga com alegria (e também cheio de saúde) na vida, a Páscoa é ligada a representações mais complexas. É o acontecimento de uma vida passada através do sofrimento e da morte, de uma existência dada de volta a quem a havia perdido. Por isso, se o Natal suscita um pouco em todas as latitudes (mesmo junto aos não cristãos e aos não crentes) uma atmosfera de letícia e quase de alegria despreocupada, a Páscoa permanece sendo um mistério mais escondido e difícil. Mas, toda a nossa existência, para além de uma retórica fácil, se joga preferentemente sobre o terreno do obscuro e do difícil. Penso sobretudo, neste momento, nos doentes, naqueles que sofrem sob o peso de doenças graves, naqueles que não sabem para quem comunicar sua angústia, e também em todos aqueles para quem vale o antigo ditado, icástico e quase intraduzível, senectus ipsa morbus, “a velhice é, por sua natureza, uma doença”. Penso, finalmente, em todos aqueles que sentem na carne, na psique ou no espírito o estigma da fraqueza e da fragilidade humana: esses são provavelmente a maioria dos homens e das mulheres deste mundo.
Por isto, gostaria que a Páscoa fosse vivida sobretudo como um convite à esperança, também para os sofredores, para as pessoas idosas, para todos aqueles que estão curvados sob os pesos da vida, para todos os excluídos dos circuitos da cultura predominante, que é (enganosamente) a do “estar bem” como princípio absoluto. Gostaria que a saudação e o grito que os nossos irmãos do Oriente têm trocado entre si nestes dias, “Cristo ressuscitou, Cristo verdadeiramente ressuscitou”, percorresse os corredores dos hospitais, entrasse nos quartos dos doentes, nas celas das prisões; gostaria que suscitasse um sorriso de esperança também naqueles que se encontram nas salas de espera para complicadas análises solicitadas pela medicina de hoje, onde, frequentemente, se encontram rostos tensos, pessoas que tentam esconder o nervosismo que as agita.
A pergunto que me faço é: o que a Páscoa diz a mim, hoje, idoso, um pouco debilitado nas forças, já na lista de chamada para uma passagem inevitável? E o que poderia dizer também para quem não compartilha a minha fé e a minha esperança? Antes de mais, a Páscoa me diz que “os sofrimentos do momento presente não são comparáveis à glória futura que deverá ser revelada a nós” (Rom 8, 18). Estes sofrimentos são, em primeiro lugar, o de Cristo na sua Paixão, para os quais seria difícil encontrar uma causa ou uma razão se não se olhasse para além do muro da morte. Mas, existem também todos os sofrimentos pessoais ou coletivos que afetam a humanidade, causados ou pela cegueira da natureza ou pela maldade ou negligência dos homens.
É preciso repetir para si mesmo, com audácia, vencendo a resistência interior, que não há proporção entre aquilo que devemos sofrer e aquilo que esperamos com confiança. Por ocasião da Páscoa, gostaria de poder dizer a mim mesmo, com fé, as palavras de Paulo na Segunda Carta aos Coríntios: “É por isso que não desfalecemos. Ainda que exteriormente se desconjunte nosso homem exterior, nosso interior renova-se de dia para dia. A nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória incomensurável. Porque não miramos as coisas que se vêem, mas sim as que não se veem . Pois as coisas que se vêem são temporais e as que não se vêem são eternas” (4, 16-17).
Tudo isto pede uma grande tensão de esperança. Porque, como disse também São Paulo, “não esperança, somos salvos. Ora, aquilo que se espera, se é visto, não é mais esperança” (Rom 8, 24). Esperar assim pode ser difícil, mas não vejo outra saída para os males deste mundo, a não ser que se queira esconder o rosto na areia e ver ou pensar nada. Porém, é mais difícil para mim exprimir o que pode dizer a Páscoa para quem não participa da minha fé e está curvado sob os pesos da vida. Nisto, me ajudam pessoas que encontrei e nas quais senti como que uma fonte misteriosa, que as ajuda a olhar de frente para o sofrimento e para a morte, mesmo sem poderem encontrar uma razão para aquilo que poderá acontecer. Vejo, assim, que há dentro de todos nós algo daquilo que São Paulo chama “esperança contra toda esperança” (Rom 4, 18), ou seja, uma vontade e uma coragem de ir adiante apesar de tudo, mesmo quando não se compreende o sentido daquilo que acontece.
É assim que muitos homens deram prova de uma capacidade de retomada que tem algo de milagroso. Pensem em tudo o que se fez, com indômita energia, depois do tsunami de 26 de dezembro de 2004, ou depois da inundação de New Orleans provocada pelo furacão Katrina em agosto do ano seguinte. Pensem nas energias de reconstrução que surgem como que do nada depois da tempestade das guerras. Pensem nas palavras que a jovem Etty Hillesum, de vinte e oito anos, escreveu no dia 3 de julho de 1942, antes de ser levada para morrer em Auschwitz: “Eu olhava de frente a nossa destruição iminente, o nosso previsível fim miserável, que se manifestava em muitos momentos ordinários da nossa vida cotidiana. É esta possibilidade que eu incorporei na percepção da minha vida, sem experimentar, como consequência, uma diminuição da minha vitalidade. A possibilidade da morte é uma presença absoluta na minha vida, e por causa disso a minha vida adquiriu uma nova dimensão”. 
Por estas coisas, não podemos confiar apenas na ciência, senão para lhe pedir alguns instrumentos técnicos: no máximo, ela permite um frágil prolongamento dos nossos dias. A interrogação, pelo contrário, é sobre o sentido do que está acontecendo e, mais ainda, sobre o amor que nos é dado recolher mesmo em impasses como esses. Há alguém que me ama de tal forma a ponto de me fazer sentir cheio de vida, mesmo em meio à fraqueza, que me diz “eu sou a vida, a vida para sempre”.
Ou, pelo menos, há alguém a quem posso dedicar os meus dias, mesmo quando me parece que tudo esteja perdido. É assim que a ressurreição entra na experiência cotidiana de todos os sofredores, particularmente dos doentes e dos idosos, dando a eles a possibilidade de produzir ainda frutos abundantes a despeito das forças que se lhe esvaem e da fraqueza que os assalta. A vida na Páscoa se mostra mais forte do que a morte, e é assim que todos nos esperamos percebê-la.

* Extraído do Avvenire.it, do dia 15 de abril de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sábado, 9 de abril de 2011

Cartas do P.e Aldo 187

Asunción, 8 de abril de 2011.

Caros amigos,
“Deus ama mais a nossa liberdade do que a nossa salvação”, nos dizia Dom Giussani. Nestes dias, não apenas Paolino e eu, mas todos experimentamos o que significa esta provocação que desmascara a nossa possessividade, a nossa pretensão sobre os outros, talvez até com a sutil desculpa de que seja pelo bem deles. Anna Maria é uma garota muito bonita de quinze anos, e tenho sua adoção judicial... no domingo à noite, ela fugiu da “Casinha de Belém” com Marta, de dezessete anos, a mãe da pequena Lúcia, a menina que morreu alguns meses atrás na nossa clínica. Imaginem o que significou para mim e para Paolino em particular. Pensem no que vocês experimentariam se uma filha fugisse de casa. A dor foi grande, porém cheia de uma liberdade desconhecida antes, aquela liberdade que é uma total entrega ao Mistério e que se torna oração. Nós a procuramos, mas nada...
Às três da madrugada, Marta retornou e foi acolhida com alegria pela “mãe adotiva”, mas não tínhamos ainda nenhuma notícia de Anna Maria. No dia seguinte, segunda-feira, avisamos a polícia e o juiz responsável pelo caso, que emitiu uma ordem de captura.
Foram dias, horas sem fim, cheios de preocupação e também de uma certa raiva, devida aos mil porquês e pretensões que trazíamos dentro do coração. É o humano em todas as suas dimensões que, porém, não cessa de ser grito, oração, súplica. A impotência é total. A primeira noite, para mim, foi um pesadelo, mas as confiança na Providência era total. Na total impotência, eu sentia que o meu amor devia prestar contas com a liberdade de Anna Maria. Mas, que desafio! Que dureza! Amar a liberdade dos próprios filhos mais do que sua salvação... se você não for tomado pelo Mistério, isso não é possível; se o seu eu não é um “eu sou Tu que me fazes”, não é nem mesmo hipotetizável uma posição assim. Mas, graças a Nossa Senhora, para mim, esta certeza é dura como uma pedra, de forma que vence sempre. E, hoje, quarta-feira, a bela notícia: Marcelo, seu professor, a viu numa rua. Imediatamente, sai para buscá-la. Quando cheguei, agarrou-se, literalmente, à minha pobre pessoa e eu a levei para casa, para a nossa casa. Eu a olhava e acariciava. Estava muito bonita no seu cansaço. Somente algumas palavras, com as quais eu perguntei se alguém lhe havia feito mal. Depois, dei-lhe um chocolate, como Giussani fez comigo naquele dia, rezamos uma Ave Maria. Chamei Paolino, que a abraçou com uma grande ternura. Em seguida, chamamos Diana, a mãe adotiva, da “Casinha de Belém” número 2, para que a levasse para um banho e para dormir, deixando para o dia seguinte todo o resto. A psicólogo a esperava com as perguntas de sempre, mas Paolino, brigando, disse: “os psicólogos somos nós, por isso, vamos fazer festa e, agora, ela deve dar uma boa dormida”. Quando demos boa noite, perguntamos: “você está feliz de voltar?”. E ela: “sim, Padre”.
Ela andou, caminhou por três dias... mas, quando já estava cansada, resolveu voltar para casa. A liberdade de Deus e a sua liberdade venceram nossos medos, nossas pretensões, nossa posse. Ainda uma vez aquele “eu sou Tu que me fazes”, que aos poucos entra até no fundo dos ossos dos meus filhos, triunfou. Dias muito duros, mas hoje, ver o triunfo da liberdade é, de fato, comovente, porque Anna Maria voltou, está salva. E somente quem ama a liberdade se alegra, porque vê também a salvação dos seus filhos.
Certo, amigos, não é fácil... porque, todos os dias, o Senhor me pede tudo neste oásis de dor... e, às vezes, parece que não darei conta... e, frequentemente, a pessoa pode experimentar aquele sentimento que faz dizer “mas, Senhor, o que queres de mim?”. Mas, no mesmo instante, aquele Tu que domina tudo vence.
Todos os momentos são uma batalha como aquela de Jacó com o Anjo... e é bonito que seja assim, porque é a vida que o exige, porém é necessário que a minha liberdade, no fim, se renda sempre à evidência do Mistério que me quer Seu.
Obrigado, amigos, porque quando rezam por mim e por meus filhos, vocês contribuiram para a volta da nossa Marta e de Anna Maria.
Amigos, desafiem e deixem-se sempre desafiar pela liberdade dos filhos de vocês.
Padre Aldo

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Cartas do P.e Aldo 185



Asunción, 31 de março de 2011.

Caros amigos,
O caminho para a santidade é a letícia. Aquela Letícia que convive mesmo com um câncer, com uma doença terminal e que tem a sua única origem em “Tu, meu Cristo”.
Olhem a beleza de Alma e de Carol, duas garotas de 17 anos internadas na nossa clínica. Doentes de câncer, encontraram Jesus. Deste Encontro a alegria de viver que se torna trabalho.
Amigos, não é possível duvidar da vitória de Cristo quando olhamos para estes rostos, conscientes do câncer que têm. Meu Deus, como é verdade aquilo que Carrón nos diz quando fala da contemporaneidade de Cristo!
Padre Aldo