
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
terça-feira, 25 de agosto de 2009
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Cartas do P.e Aldo 64
Caros amigos,
Chegou hoje! Se pode servir, me permito, mantendo o anonimato, inviar este email às centenas de pessoas que me escrevem e têm o mesmo problema.
Que belo ver como Jesus se serve mesmo dos pobres para dar esperança a quem perdeu o desejo de viver.
Com afeto,
P.e Aldo
Caríssimo P.e Aldo,
escrevo para agradecer ao senhor, porque o seu testemunho marcou uma reviravolta na minha vida.
Não nos conhecemos pessoalmente e, no entanto, sinto uma grande familiaridade com o senhor, porque o vínculo que nos une é mais forte que o vínculo de sangue.
Neste verão, não podendo ir ao Meeting, segui pela internet alguns dos encontros que eram apontados por amigos que haviam ido. Assim, me deparei com o seu testemunho. Fiquei fulgurante, porque o senhor falava de mim: também eu sofro de depressão, devo tomar sempre alguns medicamentos e estava com raiva porque a minha vida era triste e difícil. Não aceitava dever ser sempre assim. Mas as palavras do senhor – “a depressão é uma graça” –, ditas com a consciência e o sofrimento de quem a experimentou verdadeira na própria vida, mexeram comigo. Nunca acreditei nas alegrias fulgurantes, mas a história da vida do senhor, em alguns aspectos muito semelhante a minha, suscitou em mim um esperança inimaginável. Naqueles dias, eu havia escrito para um amigo dizendo que eu nunca seria uma protagonista, mas sempre e apenas ninguém. Sentia-me um nada e de nada valiam as palavras de quem me dizia o contrário. Aí, me parecem Vicky, as palavras do senhor e tudo adquire, devagarzinho, cor e espessura outra vez.
Estou vivendo um momento de graça que não pensava que pudesse acontecer na minha vida. Agora, eu sei que é possível viver assim! Não peço mais ao Senhor que me cure da depressão (se acontecer, será benvindo) porque entendi que não existe obstáculo para a graça. Deus pode fazer correr os rios para cima e eu me sinto assim: contra as leis da natureza, a minha vida está caminhando no máximo. Não faço grandes coisas como o senhor faz, mas nas minhas condições de mulher e de mãe, de professora e de amante da música e do canto, tento fazer frutificar os talentos que Deus me deu como posso. A depressão não é mais um obstáculo. E, por isso, devo agradecer ao senhor.
Quando eu vi o senhor falando, na tela do meu computador, eu chorava porque me identificava com o seu sofrimento, entendia a sua angústia, mas a vitória de Cristo sobre a depressão era ainda mais evidente. Desejei que acontecesse também comigo: se Cristo venceu a morte, como pode parar diante de uma depressão banal?
Hoje, mesmo sendo Natal, me sinto como um daqueles ícones russos nos quais o nascimento era representado com o presságio da morte e da ressurreição: eu estou viva, ou melhor estou renascida, estou ressuscitada! Sei que a doença poderá colocar outra vez na minha boca palavras de morte e de desespero, mas a verdade a estou dizendo agora: Cristo venceu a morte e, portanto, venceu também a minha depressão!
Espero muito poder encontrar o senhor, poder falar com o senhor, um dia, porque, como Giussani nos ensinou, quero buscar, a cada dia, o rosto dos santos para conseguir conforto em suas palavras.
Desejo ao senhor todo o bem e peço-lhe para rezar por mim e por todas as pessoas deprimidas.
Abraço o senhor em Cristo.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Cartas do P.e Aldo 41
Caros amigos,
como posso não comunicar a vocês a alegria de ter tocado com a mão alguns dos sinais inconfundíveis da Presença de Cristo entre nós, como nos repete sempre Carrón?
1. Fui a Quito, no Dia de Início de Ano. Uma surpresa imprevista diante destes sinais, a ponto de ter preferido não dizer nenhuma palavra, depois de ter escutado, por três horas, a 3 mil metros de altitude, Amparito (que, nos próximos dias, estará na Espanha e na Itália, por ocasião das Tendas de Natal) e as suas amigas negras que contaram suas histórias (como a de Vicky) cheias de dor, de angústia... e, finalmente, o encontro com Estefânia – uma pessoa do Grupo Adulto – que lhes mudou a vida. Não apenas suas vidas de discriminação (todas descendentes de negros trazidos da África há alguns séculos atrás), mas também de morte, de atrocidades impensáveis. Um encontro e a vida muda. Mando-lhes alguns de seus testemunhos.
2. Da mesma forma em Lima (no Peru), onde estive por alguns dias, por ocasião do Happening, para escutar e aprofundar o mote que definia a vida de Andrea Aziani, o amigo memor que morreu este ano: “Febre de vida”.
500 pessoas atentas e comovidas! Pareciam crianças nas quais vibrava o frescor do início. Algo bem diferente do burguesismo ou do olhar para Giussani como um mito! As referências a Carrón como pai, mestre e amigo, são já familiares. Sente-se no ar um frescor, frequentemente desconhecido no primeiro mundo. Sim, exatamente assim! Febre de vida.
3. Por três dias, na volta, tive a graça de estar com os Zerbini – Marcos e Cleuza – em nossa casa. Contar tudo o que aconteceu é impossível. Porém, é suficiente sublinhar que, para mim, foi como reviver o encontro com Giussani ou aqueles breves mas intensos encontros com Carrón. Seja caminhando juntos, seja almoçando ou jantando, qualquer coisa que enfrentássemos, tudo era determinado pelo Mistério presente “nos sinais inconfundíveis” de cada fragmento da realidade. Foi uma retomada contínua de cada palavra da Escola de Comunidade, do ensinamento de Carrón. Era evidente, entre nós, que Giussani não é e não pode ser um mito, mas uma presença viva, visível no frescor das referências, dos sinais inconfundíveis da Sua Presença, a Presença do Mistério. Muitas vezes viz lágrimas nos olhos de Marcos: seja quando visitamos juntos cada paciente da clínica, seja quando fazíamos a procissão com o Santíssimo, seja quando encontramos os responsáveis desta pequenina cidade da caridade, na qual o Mistério revela o Seu rosto misericordioso.
Todos ficamos surpresos: este homem, este deputado – o mais votado da cidade de São Paulo (uma cidade com mais de 20 milhões de habitantes) –, com lágrimas nos olhos ao ver os “sinais inconfundíveis do Mistérios” que, através dos meus filhos, se manifestam. Sinceramente, só vi Giussani comovido assim diante da realidade e, mais recentemente, também Carrón. Quem de nós, padres (somos duros...) ou leigos, olhando os sinais inconfundíveis da Sua Presença, chora? Quem, vendo as minhas crianças doentes, entre os padres ou os leigos, chora como Marcos? Vi apenas ele. E não por uma emoção, como ele sublinhou, mas por um juízo: olhando para os doentes, escutando os testemunhos dos responsáveis de toda esta caridade, viu a Presença do Mistério.
Era a primeira vez que, em 20 anos de missão, me senti como no dia em que Giussani, abraçando-me e olhando-me nos olhos – eu com esta minha cabeça desnorteada, com a depressão – me disse: “agora, me sinto seguro de você e, por isto, mando você para o Paraguai”. Ver, depois de 20 anos, um homem que me toma pela mão, me olha, nos olha e chora, me convenceu ainda mais de que não apenas eu, mas tudo é obra do Mistério e, por isto, as fotos que tenho eu as mando para vocês – fotos que, para alguns, são justamente uma provocação que desconcerta, são belas, porque a beleza é o esplendor da verdade. Eles são o esplendor, para nós que confundimos a beleza com a simpatia, com o esteticismo... nós que a uma mulher que corresponde aos cânones de Miss Paraguai (aqui existe uma dessas, que trabalha como secretária do nosso semanário) chamamos de bela e olhamos, enquanto que alguém como Victor é escandaloso. Mas a beleza é o se manifestar da verdade, e somente a verdade comove, muda a vida. A realidade sempre é bela. Torna-se feia quando a manipulamos, segundo um destino que não é o seu. Como quando uma mulher é olhada não como sinal do Mistério, mas como um objeto para ser usado ou um instrumento ou um interesse particular. Victor e Celeste são belíssimos, porque são a realidade como Deus permitiu que se manifestasse, porque são o esplendor da verdade, porque é o Mistério que os faz, os mantem vivos. Por isto, suscita não emoção, mas grito para que a nossa vida mude.
Estou escrevendo estas linhas ao lado da pequena hóstia branca Celeste: uma criança solitária, gravemente doente de leucemia. Ela está fazendo um carinho no meu cotovelo... sinto a sua dor, vejo Jesus, ela o torna palpitante e me comove. Gostaria tanto – e peço isso a Jesus, através de Celeste que me olha com seus olhos pretos, apertando um pequeno ursinho de pelúcia – que todos nós, os velhos do Movimento, pudéssemos reaver o coração dos Zerbini. Falar de política, de economia, fazer pregações, ou conferências sem os olhos úmidos como os de Marcos, para mim, é como se tivéssemos reduzido Giussani a um mito. Deus nos perdoe, me perdoe, depois de tudo o que vi, toquei, se ainda não somos capazes de comoção.
Então, vocês entendem, lhes pergunto, o que quer dizer ver um homem tocado pelo Mistério, um homem que leva a sério realmente a Escola de Comunidade e a Carrón, como Marcos, comovido até as lágrimas no ver e escutar os meus amigos, pequenos, doentes e todos os meus amigos leigos, casados ou não, pessoas simples que formam aquilo que vocês chamariam de um conselho administrativo?
Nunca me havia acontecido uma coisa igual... e como gostaria que cada dia tivesse a espessura que tem para estes meus amigos do Brasil.
Com afeto.
P.e Aldo
P.S.: Milagre de amor: Celeste depois de anos de dor e tristeza sorri (veja na foto anexa).
domingo, 29 de março de 2009
A esperança maior...
Meu nome é Vicky, tenho 42 anos e venho da região oriental de Uganda. Quero agradecer a vocês e a Deus pela vida preciosa que me deu. Em 1992, quando engravidei do meu último filho, Brian, meu marido pediu que eu escolhesse entre continuar sendo sua esposa renunciando à gravidez ou separar-me dele se quisesse ter a criança. Naquela época tinha só dois filhos e decidi levar a gravidez adiante, o que marcou o fim da nossa relação. Realmente não entendia por que ele estava sendo tão cruel e intransigente. Depois, em 1997 perdi o trabalho porque fiquei doente e, ao mesmo tempo, meu filho Brian manifestou sintomas de tuberculose, e surgiram as primeiras suspeitas. No ano seguinte piorei e, no hospital de Nsambiya, fui examinada e submetida ao teste de HIV, que deu positivo. Foi então que me lembrei e entendi por que meu marido não queria a gravidez de Brian: na época, ele também era soropositivo.
A vida em casa, com meus três filhos, tornou-se difícil. Os dois primeiros eram saudáveis, mas não tínhamos dinheiro para pagar a escola; não tínhamos o que comer, nem dinheiro para os remédios, e, pior de tudo, não tínhamos amor de nenhuma parte do mundo. Não sabia mais se Deus realmente existia. Em 2001, alguém me mandou ao Meeting Point International, onde encontrei mulheres as quais era difícil para mim acreditar que pudessem viver daquela forma mesmo estando doentes de Aids, tal era a alegria que tinham no rosto; dançavam e estavam felizes, e eu me perguntava como alguém que tinha essa doença podia cantar e dançar. No Meeting Point você é acolhido com músicas e canções de diferentes povos - africanos, europeus, indianos -; ouvi até algumas de minha própria tribo. Depois de um longo tempo, comecei a ver uma luz brilhar sobre meu ser em pedaços, então comecei a encontrar-me com aquelas mulheres.
Uma coisa importante, que nunca esqueci, foi o dia em que alguém me olhou com um olhar que tinha em si raios da esperança e do amor. Durante todo esse tempo eu fiquei na cama e todos os meus amigos, os parentes e até os vizinhos olhavam para mim e para meus filhos com repulsa e desprezo. Com este olhar de amor e esperança que me lançaram foi-me mostrado algo que trouxe vida ao meu espírito e corpo em pedaços. Eu disse a mim mesma: ‘Vicky! Você tem valor e o seu valor é maior do que o peso da sua doença e do que a morte’.Em 2002, comecei a comprar remédios para meu filho, que estava para morrer, depois de tê-lo tirado da escola por causa da discriminação com a qual era tratado: tinham-no apelidado de ‘esqueleto’. Em 2003, também comecei a comprar remédios para mim. Eu pesava, então, 45 quilos, agora peso 75. Brian, agora, está realmente saudável e voltou para a escola. O meu filho maior está na universidade, o segundo, no colegial. Onde está o poder da morte? Está na perda da esperança e na falta de amor. Agora, trabalho como voluntária no Meeting Point, e todas as vezes que acolho as pessoas digo a elas que o valor da vida é maior do que aquele vírus que carregam dentro de si. Essa afirmação nutre a esperança de uma pessoa que sofre e está para morrer e a traz de volta à vida. Todos os meus resultados só foram possíveis porque fui revestida de algo além da morte e, em particular, de amor. Obrigada a todas as pessoas que nos educaram embora nunca as tenhamos visto. Mas hoje, em nome de Giussani, Carrón veio entre nós, que éramos pobres e esquecidos: quem é mais rico do que nós, agora? Somos os mais ricos do mundo porque alguém colocou pelo menos um sorriso no rosto de uma pessoa.
quinta-feira, 26 de março de 2009
Outro ainda sobre AIDS...
Discutir o problema da Aids a partir da redação dos jornais e dos escritórios políticos das diversas instituições européias é uma coisa; discuti-lo tendo diante dos olhos a situação de dezenas de mulheres soropositivas, e de seus filhos que foram contagiados, é toda uma outra coisa. Rose Busingye dirige o Meeting Point de Kampala, um lugar de renascimento para 4 mil pessoas, entre doentes e órfãos, que de outro modo estariam condenados a viver no silêncio e no abandono o destino dos marcados pelo HIV. Neste local de intensa humanidade, as polêmicas sobre o uso do preservativo para abater o flagelo da Aids chegam como um eco de longe.
E quanto às pessoas que possam ter relações com outras e difundir o contágio?
Também aí vale o mesmo discurso: é necessário, antes de tudo, olhar a humanidade deles. Uma vez, estávamos falando aos nossos meninos da importância de proteger os outros, de evitar o contágio; um deles se pôs a rir, dizendo: “mas que me importa quem são os outros? Quem são as mulheres com quem saio?”. E um outro dizia: “também eu fui infectado, e agora?”. A AIDS é um problema como todos os problemas da vida, que não se pode reduzir a um particular. É necessário, antes de tudo, partir do fato de que é preciso ser educado também no viver a sexualidade. Mas a educação remete à descoberta de si mesmo: a pessoa que é consciente de si, sabe que tem um valor que é maior que tudo. Sem a descoberta deste valor – de si e dos outros – não há nada que tenha. Também o preservativo, ao final, pode ser bem utilizado apenas por uma pessoa que tenha descoberto qual o valor do humano, se ama verdadeiramente e se é amada. Pensa-se talvez que onde o preservativo é distribuído não prossegue o contágio da AIDS? Enfim, em certos casos o discurso do preservativo, nas condições nas quais nos encontramos, pode parecer até ridículo.
Em que sentido?
Há poucos dias, por exemplo, mostramos a nossas mulheres o que é o preservativo, explicando inclusive as instruções de uso: antes de usá-lo deve-se lavar as mãos, não deve haver pó, deve ser conservado a uma certa temperatura. Foram eles mesmo que me interromperam: lavar as mãos, quando para ter um pouco de água devemos andar vinte quilômetros a pé? E depois tem o problema do pó: até mesmo um grão qualquer pode ser perigoso e arriscar o rompimento do preservativo. Mas, essas mulheres quebram pedras da manhã à noite, e têm a pele das mãos secas, rachadas e duras como a rocha! Por isso, digo que se fala sem conhecer minimamente o problema e as condições na qual nos encontramos.
À luz desta difusa ignorância em relação aos problemas reais das pessoas que vivem na África, que efeito têm as polêmicas contra o Papa?
O Papa não faz outra coisa que defender e sustentar justamente aquilo que serve para ajudar esta gente: afirmar o significado da vida e a dignidade do ser humano. Aqueles que o atacam têm interesses a defender, enquanto que o Papa não os tem: nos quer bem e quer o bem da África. Não é dele que vêm as minas que lançam para os ares nossos meninos, nossas crianças que viram soldados, que se encontram amputados, sem orelha, sem boca, incapazes de deglutir a saliva: e a eles o que damos, os preservativos?
De fato, a AIDS não é o único problema que atinge a África.
Existem muitíssimos outros problemas e situações trágicas sobre as quais há total indiferença. Quando, há alguns anos, ocorreu o genocídio em Ruanda, todos estavam observando. Aqui perto existe um país pequeniníssimo, que podia ser protegido e nada foi feito: lá estavam os meus parentes e morreram todos de modo desumano. Ninguém se moveu e agora vêm aqui com os preservativos. Mas, também no nível das doenças, vale o mesmo discurso: por que não nos trazem as aspirinas ou os remédios contra malária? A malária é uma doença que aqui vitima mais pessoas que a Aids.
Qual a situação de agora, na Uganda, em relação à difusão da AIDS?
Em Uganda se estão fazendo grandes progressos e o nosso presidente está trabalhando muito bem e obtendo ótimos resultados. O seu método não é apostar na difusão dos preservativos, mas na educação: instituiu um ministério para isso e colocou pessoas nas vilas de analfabetos para educá-las a uma mudança de vida. A esposa do presidente esteve aqui conosco há pouco tempo e disse com força que o verdadeiro ponto que pode fazer mudar a situação é parar de viver como os cães e os gatos, que devem sempre satisfazer a seus instintos; e falou do fato que o homem é dotado de razão, que o faz responsável por aquilo que realiza. Se o homem continua ligado ao instinto como um animal, dar a ele um preservativo não serve a nada. Mudar as condutas. Este é o método que está dando resultados e teve como consequência o fato de que a difusão da AIDS em Uganda baixou de 18% a 3% da população. O método funciona e o coração do método é fazer de um modo tal que as pessoas se sintam queridas. O vemos aqui, no Meeting Point: quando as pessoas chegam aqui não querem mais ir embora.
quarta-feira, 25 de março de 2009
A menina de Alagoinha e nós...
A menina de Alagoinha e nós...Nem sabemos o nome “da menina de Alagoinha”..., que aos nove anos ficou grávida após ter sido abusada pelo padrasto e fez um aborto, e muitos, nesses dias, nem se preocuparam em pensar que ela é a primeira que, nestes tempos tristes, precisaria de uma carícia, da carícia do Nazareno.
A menina de Alagoinha e nós – que estamos nas fábricas, nos escritórios, nas escolas, no planalto ou escrevendo nos jornais – precisamos de uma ternura tal que nos envolva até despertar uma afeição por nós mesmos. Porque sem isso, o sentimento que prevalece é somente o cansaço: basta que as dificuldades do viver, ou melhor, o mistério por meio do qual a vida nos desafia, seja um pouquinho maior do que a nossa medida, e nos sentimos esmagados. E, então, nos defendemos, tornando evidente a nossa resistência, ou mesmo o nosso escândalo, diante de algo que não entendemos.
Mas diante de um fato tão dramático, essas palavras parecem inúteis. Será que a vida é um engano? Podemos dar sentido à vida quando nos encontramos diante de fatos como esse? Podemos suportar tal sofrimento? Sozinhos não conseguimos. É preciso que nos deparemos com a presença de alguém que faça a experiência de uma plenitude na vida, de modo que possamos ver e recuperar a esperança de que tudo não acaba em um vazio devastador.
Nem Cristo foi poupado da angústia diante da dor e do mal, até a morte. Mas o que fez a diferença n’Ele? Ter sido uma pessoa mais valente do que nós? Não! Tanto que no momento mais terrível de provação, Ele pediu que a cruz lhe fosse poupada. Em Cristo, foi derrotada a suspeita de que a vida, em última instância, seria um fracasso: o que venceu foi o seu vínculo com o Pai.
Bento XVI lembrou-nos que “a verdadeira resposta consiste em dar testemunho do amor que ajuda a enfrentar a dor e a agonia de modo humano. Estejamos certos disto: nenhuma lágrima, nem de quem sofre, nem de quem lhe está próximo, se perderá diante de Deus” (Angelus, 1.fev.09).
Por isso, estamos com a menina de Alagoinha, e com a Igreja, que não se cansa de nos indicar, dentro dos acontecimentos da história, que não se pode pagar o mal com o mal. Entendemos o aborto como uma segunda agressão à menina. Um gesto assim deixa marcas profundas por toda a vida, e uma menina que já havia sofrido tanto não merecia receber mais esta violência. A vida é dom de Deus, e em nome de quem o homem decide quando ela será dada ou retirada?
A presença de Cristo é o único fato que pode dar sentido à dor e à injustiça. Reconhecer a positividade que vence qualquer solidão e qualquer violência só é possível graças ao encontro com pessoas que testemunham que a vida vale mais do que a doença e a morte. Como aconteceu com Vicky, retratada no documentário vencedor de Cannes de 2008: uma mulher soropositivo da Uganda, que aceitou este olhar sobre si, redescobriu a própria dignidade e, hoje, ajuda centenas de outras pessoas em uma ONG do seu país. Esta é a vida nova como todos nós esperamos, mesmo diante do mal do mundo e nosso. Esta é a vida que a menina de Alagoinha espera agora.












