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segunda-feira, 2 de abril de 2012

Comentário ao Evangelho do dia - Semana Santa


2ª-feira da Semana Santa 

1ª Leitura - Is 42,1-7
"Eis o meu servo - eu o recebo; eis o meu eleito - nele se compraz minh'alma; pus meu espírito sobre ele, ele promoverá o julgamento das nações. Ele não clama nem levanta a voz, nem se faz ouvir pelas ruas. Não quebra uma cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega; mas promoverá o julgamento para obter a verdade. Não esmorecerá nem se deixará abater, enquanto não estabelecer a justiça na terra; os países distantes esperam seus ensinamentos." Isto diz o Senhor Deus, que criou o céu e o estendeu, firmou a terra e tudo que dela germina, que dá a respiração aos seus habitantes e o sopro da vida ao que nela se move: "Eu, o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te constituí como o centro de aliança do povo, luz das nações, para abrires os olhos dos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas".

Salmo - Sl 26
R. O Senhor é minha luz e salvação.

O Senhor é minha luz e salvação; *
de quem eu terei medo?
O Senhor é a proteção da minha vida; *
perante quem eu tremerei?R. 

Quando avançam os malvados contra mim, *
querendo devorar-me,
são eles, inimigos e opressores, *
que tropeçam e sucumbem.R. 

Se contra mim um exército se armar, *
não temerá meu coração;
se contra mim uma batalha estourar, *
mesmo assim confiarei.R. 

Sei que a bondade do Senhor eu hei de ver *
na terra dos viventes.
Espera no Senhor e tem coragem, * R.

Evangelho - Jo 12,1-11
Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi para Betânia, onde morava Lázaro, que ele havia ressuscitado dos mortos. Ali ofereceram a Jesus um jantar; Marta servia e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Maria, tomando quase meio litro de perfume de nardo puro e muito caro, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa inteira ficou cheia do perfume do bálsamo. Então, falou Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, aquele que O havia de entregar: "Por que não se vendeu este perfume por trezentas moedas de prata, para as dar aos pobres?". Judas falou assim, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão; ele tomava conta da bolsa comum e roubava o que se depositava nela. Jesus, porém, disse: "Deixa-a; ela fez isto em vista do dia de minha sepultura. Pobres, sempre os tereis convosco, enquanto a mim, nem sempre me tereis". Muitos judeus, tendo sabido que Jesus estava em Betânia, foram para lá, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Jesus havia ressuscitado dos mortos. Então, os sumos sacerdotes decidiram matar também Lázaro, porque, por causa dele, muitos deixavam os judeus e acreditavam em Jesus.

Comentário feito por Orígenes (c. 185-253)
presbítero e teólogo 

A esposa do Cântico dos Cânticos diz: "o meu nardo dá o seu perfume" (1,12) [...]; mas podemos ler também "o Seu perfume". [...] A esposa aproximou-se do Esposo, ungiu-O com os seus unguentos e, surpreendentemente, foi como se o nardo não tivesse dado perfume enquanto estava nas mãos da esposa, mas o desse ao entrar em contato com o corpo do Esposo — de sorte que, segundo parece, não foi tanto Ele que recebeu o perfume do nardo mas foi antes o nardo que O recebeu, como se viesse dEle. [...] Apresentamos aqui a esposa Igreja, na pessoa de Maria: diz-se que ela trazia uma libra de nardo de alto preço e que ungiu os pés de Jesus, enxugando-os depois com os cabelos e que, de certo modo, também ela recebeu, através dos cabelos, um perfume impregnado da qualidade e do poder do corpo de Jesus. [...] Ela impregnou a cabeça com um perfume requintado que vinha mais de Cristo que do nardo e disse [com a esposa]: "O meu nardo, derramado no corpo de Cristo, deu-me em troca o Seu aroma". [...] "A casa encheu-se com a fragrância do perfume." Isso indica, seguramente, que a fragrância da doutrina que vem de Cristo e o agradável perfume do Espírito Santo encheram toda a casa deste mundo, ou a casa de toda a Igreja. Ou, pelo menos, encheram toda a casa através desta alma que recebeu a fragrância de Cristo, tendo-Lhe oferecido inicialmente o dom da sua fé como nardo puro, e recebendo, em retribuição, a graça do Espírito Santo e o agradável perfume da doutrina espiritual [...], para que também ela pudesse dizer: "Somos para Deus o bom odor de Cristo" (2Co 2,15). Ora, porque esse nardo foi cheio de fé e de um amor de grande valor, Jesus presta-lhe esta homenagem: "Praticou em Mim uma boa ação!" (Mc 14,6).

domingo, 11 de março de 2012

A Quaresma com os santos

A paixão de todo o corpo de Cristo

Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Agostinho, bispo (Séc.V)
(Ps 140,4-6:CCL 40,2028-2029)

Senhor, eu clamo por vós, socorrei-me sem demora (Sl 140,1). Isto todos nós podemos dizer. Não sou eu que digo, é o Cristo total que diz. Contudo, estas palavras foram ditas especialmente em nome do Corpo, porque, quando Cristo estava neste mundo, orou como homem; orou ao Pai em nome do Corpo; e enquanto orava, gotas de sangue caíram de todo o seu corpo. Assim está escrito no Evangelho: Jesus rezava com mais insistência e seu suor tornou-se como gotas de sangue (Lc 22,44). Que significa este derramamento de sangue de todo o seu corpo, senão a paixão dos mártires de toda a Igreja? Senhor, eu clamo por vós, socorrei-me sem demora. Quando eu grito, escutai minha voz! (Sl 140,1). Julgavas ter acabado de vez o teu clamor ao dizer: eu clamo por vós. Clamaste, mas não julgues que já estejas em segurança. Se findou a tribulação, findou também o clamor; mas se a tribulação da Igreja e do Corpo de Cristo continua até o fim dos tempos, não só devemos dizer: eu clamo por vós, socorrei-me sem demora; mas: Quando eu grito, escutai minha voz! Minha oração suba a vós como incenso, e minhas mãos, como oferta da tarde (Sl 140,2). Todo cristão sabe que esta expressão continua a ser atribuída à própria Cabeça. Porque, na verdade, foi ao cair da tarde daquele dia, que o Senhor, voluntariamente, entregou na cruz Sua vida, para retomá-la em seguida. Também aqui estávamos representados. Com efeito, o que estava suspenso na cruz foi o que Ele assumiu da nossa natureza. Como seria possível que o Pai rejeitasse e abandonasse algum momento Seu Filho Unigênito, sendo ambos um só Deus? Contudo, cravando nossa frágil natureza na cruz, onde o nosso homem velho, como diz o Apóstolo, foi crucificado com Cristo (Rm 6,6), clamou com a voz da nossa humanidade: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? (Sl 21,2). Eis, portanto, o verdadeiro sacrifício vespertino: a paixão do Senhor, a cruz do Senhor, a oblação da vítima salvadora, o holocausto agradável a Deus. Esse sacrifício vespertino, Ele o converteu, por Sua ressurreição, em oferenda da manhã. Assim, a oração que se eleva, com toda pureza, de um coração fiel, é como o incenso que sobe do altar sagrado. Não há aroma mais agradável a Deus: possam todos os fiéis oferecê-lo ao Senhor. Por isso, o nosso homem velho – são palavras do Apóstolo – foi crucificado com Cristo, para que seja destruído o corpo do pecado, de maneira a não mais servirmos ao pecado (Rm 6,6).

domingo, 4 de março de 2012

A Quaresma com os santos

As interrogações mais profundas do gênero humano

Da Constituição pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo de hoje, do Concílio Vaticano II (Séc.XX)
(N.9-10)

O mundo moderno apresenta-se simultaneamente poderoso e fraco, capaz do melhor e do pior; abre-se diante dele o caminho da liberdade ou da escravidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade e do ódio. Por outro lado, o homem toma consciência de que depende dele a boa orientação das forças por ele despertadas e que podem oprimi-lo ou servi-lo. Eis por que se interroga a si mesmo. Na verdade, os desequilíbrios que atormentam o mundo moderno estão ligados a um desequilíbrio mais profundo, que se enraíza no coração do homem. No íntimo do próprio homem, muitos elementos lutam entre si. De um lado, ele experimenta, como criatura, suas múltiplas limitações; por outro, sente-se ilimitado em seus desejos e chamado a uma vida superior. Atraído por muitas solicitações, é continuamente obrigado a escolher e a renunciar. Mais ainda: fraco e pecador, faz muitas vezes o que não quer e não faz o que desejaria. Em suma, é em si mesmo que o homem sofre a divisão que dá origem a tantas e tão grandes discórdias na sociedade. Muitos, sem dúvida, que levam uma vida impregnada de materialismo prático, não podem ter uma clara percepção desta situação dramática; ou, oprimidos pela miséria, sentem-se incapazes de prestar-lhe atenção. Outros, em grande número, julgam encontrar satisfação nas diversas interpretações da realidade que lhes são propostas. Alguns, porém, esperam unicamente do esforço humano a verdadeira e plena libertação da humanidade, e estão persuadidos de que o futuro domínio do homem sobre a terra dará satisfação a todos os desejos de seu coração. Não faltam também os que, desesperando de encontrar o sentido da vida, louvam a audácia daqueles que, julgando a existência humana vazia de qualquer significado próprio, se esforçam por encontrar todo o seu valor apoiando-se apenas no próprio esforço. Contudo, diante da atual evolução do mundo, cresce o número daqueles que formulam as questões mais fundamentais ou as percebem com nova acuidade. Que é o homem? Qual é o sentido do sofrimento, do mal e da morte que, apesar de tão grandes progressos, continuam a existir? Para que servem semelhantes vitórias,  conseguidas a tanto custo? Que pode o homem dar à sociedade e dela esperar? Que haverá depois desta vida terrestre? A Igreja, porém, acredita que Jesus Cristo, morto e ressuscitado por todo o gênero humano, oferece ao homem, pelo Espírito Santo, luz e forças que lhe permitirão corresponder à sua vocação suprema; ela crê que não há debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual possam ser salvos. Crê igualmente que a chave, o centro e o fim de toda a história humana encontra-se em seu Senhor e Mestre. A Igreja afirma, além disso, que, subjacente a todas as transformações, permanecem imutáveis muitas coisas que têm seu fundamento último em Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Quaresma com os santos

No Cristo fomos tentados e nele vencemos o demônio 

Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Agostinho, bispo (Séc.V)
(Ps 60, 2-3:CCL39,766) 

Ouvi, ó Deus, a minha súplica, atendei a minha oração (Sl 60,2). Quem é que fala assim? Parece ser um só: Dos confins da terra a Vós eu clamo, e em mim o coração já desfalece (Sl 60,3). Então já não é um só, e contudo é somente um, porque o Cristo, de quem todos somos membros, é um só. Como pode um único homem clamar dos confins da terra? Quem clama dos confins da terra é aquela herança a respeito da qual foi dito ao próprio Filho: Pede-me e te darei as nações como herança e os confins da terra por domínio (Sl 2,8). Portanto, é esse domínio de Cristo, essa herança de Cristo, esse corpo de Cristo, essa Igreja de Cristo, essa unidade que somos nós, que clama dos confins da terra. E o que clama? O que eu disse acima: Ouvi, ó Deus, a minha súplica, atendei a minha oração; dos confins da terra a Vós eu clamo. Sim, clamei a Vós dos confins da terra, isto é, de toda parte. Mas por que clamei? Porque em mim o coração já desfalece. Revela com estas palavras que Ele está presente a todos os povos no mundo inteiro, não rodeado de grande glória mas no meio de grandes tentações. Com efeito, nossa vida,enquanto somos peregrinos neste mundo, não pode estar livre de tentações, pois é através delas que se realiza nosso progresso e ninguém pode conhecer-se a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigo e tentações. Aquele que clama dos confins da terra está angustiado, mas não está abandonado. Porque foi a nós mesmos, que somos o Seu corpo, que o Senhor quis prefigurar em Seu próprio corpo, no qual já morreu, ressuscitou e subiu ao céu, para que os membros tenham a certeza de chegar também onde a cabeça os precedeu. Portanto, o Senhor nos representou em Sua pessoa quando quis ser tentado por Satanás. Líamos há pouco no Evangelho que nosso Senhor Jesus Cristo foi tentado pelo demônio no deserto. De fato, Cristo foi tentado pelo demônio. Mas em Cristo também tu eras tentado, porque Ele assumiu a tua condição humana, para te dar a Sua salvação; assumiu a tua morte, para te dar a Sua vida; assumiu os teus ultrajes, para te dar a Sua glória; por conseguinte, assumiu as tuas tentações, para te dar a Sua vitória. Se nEle fomos tentados, nEle também vencemos o demônio. Consideras que o Cristo foi tentado e não consideras que Ele venceu? Reconhece-te nEle em Sua tentação, reconhece-te nEle em Sua vitória. O Senhor poderia impedir o demônio de aproximar-se dEle; mas, se não fosse tentado, não te daria o exemplo de como vencer na tentação.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Comentário ao Evangelho do dia - Natal


São João, Apóstolo e Evangelista

1ª Leitura - 1Jo 1, 1-4
Caríssimos, o que era desde o princípio, o que nós ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos tocaram da Palavra da Vida - de fato, a Vida manifestou-se e nós a vimos, e somos testemunhas, e a vós anunciamos a Vida eterna, que estava junto do Pai e que se tornou visível para nós -; isso que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos, para que estejais em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. Nós vos escrevemos estas coisas para que a nossa alegria fique completa. 

Salmo - Sl 96(97)
R. Ó justos, alegrai-vos no Senhor!
Deus é Rei! Exulte a terra de alegria, *
e as ilhas numerosas rejubilem!
Treva e nuvem O rodeiam no Seu trono, *
que se apoia na justiça e no direito. R.

As montanhas se derretem como cera *
ante a face do Senhor de toda a terra;
e assim proclama o céu Sua justiça, *
todos os povos podem ver a Sua glória. R.

Uma luz já se levanta para os justos, *
e a alegria, para os retos corações.
Homens justos, alegrai-vos no Senhor, *
celebrai e bendizei Seu santo nome! R.

Evangelho - Jo 20, 2-28
No primeiro dia da semana, Maria Madalena saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: "Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram". Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou.

Comentário feito por Orígenes (c. 185-253)
presbítero e teólogo

Considero serem os quatro Evangelhos os elementos essenciais da fé da Igreja [...] e penso que as suas primícias estão [...] no Evangelho de João, o qual, para falar dAquele de quem outros fizeram a genealogia, se inicia precisamente por Aquele que não a tem. Com efeito, escrevendo para judeus que esperavam o descendente de Abraão e de Davi, Mateus diz: "Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão" (Mt 1,1); e Marcos, sabendo muito bem o que escreve, traz: "Princípio do Evangelho" (Mc 1,1). O fim do Evangelho, esse o encontramos em João: é o Verbo que era no princípio, a Palavra de Deus (cf. 1,1). E também Lucas reservou ao discípulo que repousou sobre o peito de Jesus (Jo 13,25) os maiores e mais perfeitos discursos sobre Ele. E nenhum mostrou a Sua divindade de modo tão absoluto como João, que O faz dizer: "Eu sou a luz do mundo" (8,12), "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (14,6), "Eu sou a Ressurreição" (11,25), "Eu sou a porta" (10,9), "Eu sou o Bom Pastor" (10,11) e, no Apocalipse, "Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim" (22,13). Por isso me atrevo a dizer que os Evangelhos são as primícias de toda a Escritura e que, dos Evangelhos, as primícias são o de João, do qual ninguém poderia abarcar todo o sentido a não ser que tivesse descansado sobre o peito de Jesus e recebido dEle Maria por Mãe (Jo 19,27). [...] Quando Jesus diz a Sua Mãe: "Eis o teu filho" e não "eis o homem que também é teu filho", é como se lhe dissesse "Eis o teu filho, gerado por ti", porquanto quem quer que chegue a viver em perfeição não é ele quem vive, mas Cristo que vive nele (Gl 2,20). [...] Será preciso ainda dizer de que inteligência teremos necessidade para podermos interpretar dignamente a palavra depositada, como um tesouro (2 Cor 4,7), nos vasos de barro do uso comum da linguagem, numa caligrafia que todos podem ler, e na palavra que todos podem ouvir se alguém lhe der voz e compreender se todos lhe prestarem atenção? Assim, para interpretarmos devidamente o Evangelho de João, em boa verdade basta-nos ser capazes de dizer: "quanto a nós, temos o pensamento de Cristo, para podermos conhecer os dons da graça de Deus" (1Cor 2,16.12).

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A grande alternativa proposta por Bento XVI entre o Mistério e a falta de sentido



Entrevista realizada por Federico Ferraù com Nikolaus Lobkowicz

“Como reconhecer o que é justo?” É esta a pergunta fundamental que está no centro da extraordinária reflexão sobre os fundamentos do direito que Bento XVI desenvolveu no seu discurso no Bundestag, durante a última viagem apostólica à Alemanha. IlSussidiario.net conversou a respeito dele com o filósofo Nikolaus Lobkowicz, que foi reitor da Universidade Ludwig-Maximilian de Munique e Presidente da Universidade Católica de Eichstätt, e atualmente é diretor do ZIMOS - Zentral Institut für Mittel- und Osteuropastudien, centro de estudos dedicado à Europa Central e Oriental.

Professor Lobkowicz, o discurso que o Papa Bento XVI dirigiu ao Parlamento Federal Alemão é, de verdade, tão importante assim?
Certamente. Não era a primeira vez que um Papa falava diante de um Parlamento: pensem nos discursos de Paulo VI e de João Paulo II diante da Assembleia Geral das Nações Unidas. Mas, é a primeira vez que um Papa, a convite do Presidente do Parlamento Alemão, discursa diante dele. A Alemanha é o país de origem de Martinho Lutero, do homem de quem brotou a primeira grande divisão da cristandade na época moderna. A maior parte das divisões ocorridas depois foi apenas uma consequência direta ou indireta deste acontecimento. Em primeiro lugar, é certo que Bento XVI aceitou o convite do Parlamento da sua pátria, mas, segundo penso, o significado verdadeiro do seu discurso diante do Parlamento Federal está no fato de se inserir nos esforços do Pontífice no sentido de promover a “reunificação” dos cristãos.

Uma reunificação? Mas, será uma proposta realista?
Esta reunificação é, para um católico, invariavelmente uma “recondução”, não à força, para a Igreja romana católica assim como se encontra hoje, mais especificamente à comunidade dos cristãos tal como a queria o Senhor e da qual a Igreja católica sempre se concebeu e ainda se concebe como a representante. Bento XVI certamente foi convidado como um chefe de Estado, a Cidade do Vaticano. Todavia, todos entenderam este convite não como um convite de um Estado a outro Estado, mas como o convite àquele que é o chefe da comunidade cristã de longe a mais numerosa, uma comunidade que se considera como a comunidade dos cristãos da qual se dividiram todas as outras. Naturalmente, hoje, a Alemanha não é apenas um país de católicos ou protestantes. Muitos membros do Parlamento alemão são mais ou menos explicitamente ateus. Por isto, Bento XVI, entre as possíveis numerosas variantes para a sua alocução, escolheu um discurso que não sublinhasse aquilo que é especificamente católico e nem mesmo aquilo que é cristão, mas, por assim dizer, aquilo que é direito natural. Aquilo que a Igreja chama “direito natural” é, sim, provavelmente, compreensível particularmente a partir de um ponto de vista católico, mas é, em última instância, acessível a qualquer um, seja cristão ou não. A doutrina do direito natural está fundamentada na ordem da criação e não especificamente na obra de Redenção de Jesus Cristo.

Segundo o Papa, não podemos descobrir e explicar aquilo que é “justo” sem retornar ao conceito de “natureza”. Por quê?
Porque, para descobrir o que é justo, é preciso aprofundar a pergunta que diz respeito ao quê (ou quem) é o homem. “Natureza”, neste contexto, é compreendida não, ou somente incidentalmente, como a realidade fora do homem, mas como a essência do homem, assim como Deus o criou e quis. Este homem é danificado pelo pecado, pelo “pecado original”. Mas a sua essência não é destruída por ele – como, pelo contrário, afirmam os protestantes. Uma das diferenças mais importantes entre a compreensão do homem católica e a protestante consiste no fato que, para Lutero, nada daquilo que o homem realiza sem a graça de Deus pode ser ordenado e bom, enquanto que a Igreja católica sempre sustentou que a graça realiza a natureza, por isso a pressupõe e constrói sobre ela. Paradoxalmente, a compreensão protestante do homem fez como que não se pudesse quase mais falar daquilo que é o homem segundo a sua essência.

Explique isto melhor, professor.
Uma vez que tudo é destruído pelo pecado, até às suas últimas raízes, no fim o homem pode fazer tudo o que lhe vem em mente. Até mesmo a maior das perversões é, em última instância, legítima ou, pelo menos, compreensível, porque Deus, se o homem se arrepende do que fez, na medida em que é Deus misericordioso, o perdoa. Por assim dizer, deve perdoar: onde nada de humano é legítimo por si mesmo, tudo aquilo que o homem é e faz deve ser perdoado. Porém, a Igreja católica sempre sustentou que o homem, não obstante o dano causado pelo pecado original, é bom segundo a sua essência. Deve simplesmente agir e viver em conformidade com sua essência, e não contra ela. A graça constrói sobre esta essência e a realiza. Certamente falta algo se não há a graça, por exemplo, se um homem não encontrou a Cristo e não foi batizado. Mas, isto não significa que algo ou alguém a quem falta algo é inevitavelmente mau ou mesmo malvado.

Os pagãos confirmam isso, como dizia São Paulo.
Sim. Para o pagão, mesmo o do mundo moderno, falta algo, mas, por isto, não é também automaticamente um celerado que, ao final, deve ser condenado e danado. Neste sentido, a doutrina católica é um convite para conhecer Deus e se aproximar dEle, enquanto que a protestante é, em última instância, sempre a tentativa de uma salvação da danação. Por vezes, a radicalidade quase absurda desta concepção, a concepção protestante, levou a pensar que, no fundo, tudo aquilo que o homem faz para si e para os outros seja compreensível e, por isso mesmo, perdoável. Naturalmente, é preciso considerar que quase desde o seu início não existiu “a” doutrina protestante: desde sua origem ela se dividiu em um número de variantes constantemente em crescimento. Algumas delas até mesmo se aproximaram de novo da perspectiva católica.

Segundo o senhor, qual é a pedra angular de todo o discurso do Papa? Por quê?
Sendo que o Papa falou para pessoas de convicções muito diferentes, falou quase como um filósofo, naturalmente um filósofo cristão, e não em primeiro lugar como um teólogo. Isto foi simples para ele: de fato, Ratzinger, assim como Hans Urs von Balthasar ou Henri de Lubac, meio século atrás, é um dos homens mais cultos do nosso tempo e também um dos mais cultos da longa história de bispos de Roma. Eu consideraria como pensamento fundamental do seu discurso a intuição segundo a qual até certo ponto não é necessário ser um cristão crente para reconhecer o que é correto e justo, o que cabe ao homem e o que não cabe. Exatamente por isso o seu discurso tocou também os deputados que não queriam saber nada sobre a fé cristã. Teria tocado também aqueles que não queriam escutar o seu discurso e que, por isso, se mantiveram distantes. As maiorias não podem decidir o que é verdadeiro e o que é falso, justo ou injusto, o que faz bem ao homem e o que lhe traz algum dano. Por isto, é necessária a justa compreensão da essência da realidade e, sobretudo, do homem, uma compreensão que a Igreja católica sempre afirmou como possível e urgente. A fé cristã não nega esta compreensão, mas a realiza.

O Papa citou várias vezes o “coração dócil” (literalmente o “coração que escuta”; ndt) de Salomão. Este coração é razão, mas é também definido como consciência. Não tem um pouco de... confusão? Por quê?
Há duas maneiras para descrever aquilo que, em alemão, se chama “consciência”. De um lado a consciência é descrita como uma voz no fundo da nossa autoconsciência que adverte e condena; de outro lado, com este conceito se entende uma dedução graças à qual podemos saber quais das nossas ações seria ou era moral ou imoral, errada ou justa. Nesta última descrição, a razão desempenha um papel decisivo. Se se pensa sobre o que é ou seria razoável, busca-se o modo justo de agir. É preciso apenas prestar atenção no fato que “razoável” e “justo” significam, neste caso, algo de totalmente diferentes de “esperto”, “que promete sucesso” ou coisas parecidas. Razoáveis, neste sentido, são todas aquelas decisões e ações que, de verdade, consideram tudo aquilo de que se deve ser tido em conta, por exemplo que Deus nos deu, junto com nossa essência, também uma ordem moral, que devemos respeitar e que devemos considerar em todas as nossas decisões.

É este o “coração que escuta”?
Aquilo a que o Papa se refere quando fala do “coração que escuta” é exatamente isto: se escutamos a nossa consciência, escutamos a razão, neste sentido. Isto pressupõe, naturalmente, que não escutemos as premissas de uma ideologia que falsifica a realidade. No fundo, cada um de nós conhece esta situação: sabemos o que seria “a coisa justa”, porém nos persuadimos continuamente de que seria justo algo diferente, às vezes tão distante no tempo que a nossa consciência “emudece” e não é mais possível escutar a sua voz de advertência. Se eu torturo ou mato alguém, traio a minha mulher ou roubo algo, no fundo, sempre sei, independentemente da minha visão de mundo, que isto “não é justo”; só que me convenço que, levando em consideração as minhas circunstâncias, isto é justo ou até mesmo necessário. Naquele momento, sei perfeitamente que estou me iludindo, mas tendo me distrair, me convenço, minto para mim mesmo.

Na primeira parte, o Papa disse que “aquilo que é justo” não é mais evidente. Por onde passa o caminho (o método) para reencontrar esta evidência? Como nós, homens pós-modernos, podemos encontrar isto? 
Aquilo que eu acabei de descrever se tornou cada vez menos claramente reconhecível na nossa cultura, por causa do desaparecimento das tradições cristãs. Desde a Idade Média (Ratzinger escreveu sua tese de habilitação para a Universidade de Munique sobre Boaventura) nasceram sempre mais frequentemente filosofias ou modos de pensar comuns que apagaram e, por assim dizer, renegaram as tradições cristãs e, deste modo, também aquelas partes do pensamento da antiguidade pré-cristã retomadas pelo cristianismo. Isto causou uma atrofia ou mesmo um ressecamento das convicções tradicionais sobre o que é “justo”. Eu, no fundo, acredito que seja um absurdo esta frase feita sobre os “pós-modernos”. De fato, a ruptura é muito mais antiga, sobretudo na cultura alemã. Pensadores como Kant, Hegel ou Nietzsche, que tinham muita coisa justa para dizer, mas descuidaram da verdade sobre questões essenciais, marcaram a cultura alemã de modo determinante. Mesmo se Hegel, por exemplo, tivesse ficado horrorizado ao conhecer a ideologia dos nazistas ou dos comunistas, ainda assim algumas convicções atuais, particularmente nos países de língua alemã, são referidas a ele e aos seus herdeiros. Assim, a Igreja católica, a partir de muitos pontos de vista, se tornou quase a única instituição a manter vivo aquilo que a cultura ocidental entendeu. Eu acredito, por isso, que seja possível readquirir as justas convicções sobre aquilo que é verdadeiro, significativo, correto e justo, somente na medida em que o mundo, e sobretudo os países de língua alemã, se tornem “mais católicos” outra vez.

O que o senhor quer dizer com isso?
Com isto não entendo necessariamente que todos devem se tornar católicos. Mas se trata de um modo de pensar que somente os católicos conseguem levar adiante, e também uma parte essencial dos crentes ortodoxos e anglicanos. Com efeito, não gostaria de excluir que nos estamos aproximando de um tempo que, na tradição cristã, é descrito como o do anticristo. Exatamente nas últimas décadas, por exemplo, se tornou particularmente atual a visão do anticristo apresentada por Vladimir Soloviov no início do século XX. Talvez o fim da história da humanidade, o “fim do mundo”, esteja mais perto do que geralmente pensamos...

É necessário chamar em causa a razão criativa de Deus para tornar a unir razão e natureza?
Sim, porque em última instância apenas a ideia segundo a qual Deus é o criador, de um lado, de toda a realidade, e de outro, também da nossa razão, é que nos permite ver ambas como ordenadas uma à outra. Se não somos nada mais do que macacos por acaso altamente desenvolvidos, vivemos num mundo no qual tudo o que está em jogo é a sobrevivência; mas o homem não sobreviverá para sempre. Somente na medida em que se admite que Deus criou o mundo por amor ao homem, é que a nossa existência tem um sentido neste mundo. Para aqueles que veem em nós um macaco que, por acaso, é mais desenvolvido, de forma que tudo se deve ao acaso de uma cega evolução que poderia mesmo ter terminado de uma forma completamente diferente da forma como terminou, não é possível existir nenhum sentido “objetivo” para a existência do homem. Então, não somos nada mais do que produto do acaso, que, um dia, se apagará novamente e desaparecerá. Então, nada tem sentido; e o homem não é nada mais nada menos do que um Prometeu que, um dia, desaparecerá de novo. Às vezes me espanto ao ver como os homens conseguem apenas suportar uma tal ideia; provavelmente podem suportá-la somente porque nunca a levaram até às suas extremas conclusões. Houve homens, no século passado, que se suicidaram por causa desta visão, com a ideia, por assim dizer, que a única coisa na qual podemos ainda dar prova de nós e que nos demonstra nossa unicidade consiste no fato que somos o único ser vivo sobre a terra que pode “eliminar” a si mesmo intencional e conscientemente. Dostoievski descreveu de forma persuasiva esta visão das coisas no seu romance Os Demônios...

Por que o Papa falou do “movimento ecológico na política alemã a partir dos anos 1970”? Qual é o sentido desta referência específica?
João Paulo II já havia falado de um dever do cristão de preservar o ambiente da destruição, ao invés de simplesmente desfrutar dele até que não reste mais nada. Não devemos esquecer que o movimento e o partido dos “verdes”, na Alemanha, tem sua origem, sim, a partir dos marxistas, mas atraiu também muitos cristãos que estavam preocupados com a destruição do ambiente. Conheço pessoalmente alguns “verdes” que são cristãos convictos. O desejo de proteger a criação é mais do que um mero sentimentalismo; no fundo, todos queremos viver num mundo que não tenha perdido completamente a sua natureza original. Por trás disto há também a preocupação com o sustento da humanidade que continua crescendo...

Por que a doutrina do direito natural não é mais popular no pensamento católico?
Este, efetivamente, é um problema: eu o descreveria como uma preocupante “protestantização” de uma parte dos teólogos católicos e da teologia ensinada por eles. Ver o jusnaturalismo como uma premissa importante e como uma implicação da interpretação da fé pertence à grande tradição da teologia católica. Para mim, há dois motivos que justificam a cada vez menor disponibilidade a se ocupar deste tema: em primeiro lugar, o influxo dos protestantes agnósticos (“somente a Sagrada Escritura vale!”), em segundo lugar, alguns modernos desenvolvimentos do direito natural, que argumentam de modo completamente diverso daquele da tradição cristã. Para dizer a verdade, emerge também o fato que não é fácil continuar a desenvolver o direito natural clássico da Igreja católica: parece que já foi dito tudo o que era essencial. Parece-me que o significado da doutrina do direito natural consista sobretudo no fato que contradiz a ideia segundo a qual existam apenas duas alternativas: a ciência moderna, frequentemente positivista, e a fé cega, quase irracional. Já há bastante tempo, desde antes de se tornar papa, que Ratzinger tem realçado o significado da terceira alternativa: o jusnaturalismo como uma representação daquilo que emerge da essência corretamente entendida do homem. Trata-se de não esquecer uma determinada visão de homem: do homem como criatura, a que a fé cristã não se opõe, mas realiza.

O Papa disse durante a celebração ecumênica em Erfurt, na sexta-feira passada que “a fé não é algo que concebemos ou com o que concordamos. É o fundamento sobre o qual vivemos”. O que significa isto para o diálogo interreligioso na Europa cristã?
Antes que o Papa viesse à Alemanha, houve, na Alemanha e na Áustria, uma discussão acalorada e vivaz. De um lado, alguns protestantes esperavam que o Papa, por assim dizer, canonizasse, pelo menos em parte, Lutero (e também Calvino e Zwingli); de outro lado, houve um movimento entre os teólogos católicos que queria abolir o celibato e até mesmo ordenar mulheres. Diante disto, Bento XVI sublinhou que a unidade dos cristãos e o seu restabelecimento não pode ser, em última instância, obra do homem, ou seja, não se trata de algo que se alcançará (como é no caso de questões políticas) através de tratados e compromissos. Somente o Espírito Santo, e não a negociação entre nós, pobres homens, pode indicar o caminho. Ao mesmo tempo, as palavras do Papa foram um chamado de atenção “para o caminho que já trilhamos”. Há meio século atrás, uma oração ecumênica como aquela que houve em Erfurt seria impensável. As palavras do Papa que o senhor acabou de citar, recordam a “longa duração” que sempre foi característica da Igreja católica: a disponibilidade do coração aberto para esperar até que o Senhor nos indique o caminho.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 28 de setembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Igreja deve se "desmundanizar"...



Encontro com os católicos comprometidos com a Igreja e a sociedade

Discurso do Papa Bento XVI 

Freiburg, Konzerthaus
Domingo, 25 de setembro de 2011.

Caros confrades no ministério episcopal e sacerdotal!
Senhoras e Senhores!
Estou feliz com este encontro convosco que sois comprometidos de múltiplas maneiras com a Igreja e a sociedade. Isto me oferece uma ocasião especial para vos agradecer, aqui, pessoalmente, de todo o meu coração, por vosso serviço e vosso testemunho como “valorosos arautos da fé naquelas realidades que esperamos” (Lumen gentium, n. 35). Dessa maneira, o Concílio Vaticano II designa as pessoas que, como vós, se preocupam com o presente e o futuro da fé. No vosso meio de trabalho vós defendeis a causa da vossa fé e da Igreja, como sabemos, o que não é nada fácil nesses tempos atuais.
Há décadas, assistimos a uma diminuição da prática religiosa, constatamos um crescente distanciamento da vida da Igreja por uma parte notável de batizados. Eis então a pergunta: será que, por acaso, a Igreja não deveria mudar? Será que, por acaso, em seus serviços e estruturas, ela não deveria se adaptar ao tempo presente, para alcançar as pessoas de hoje que estão a procura e em dúvida?
Um dia, perguntaram à Beata Madre Teresa de Calcutá qual deveria ser, segundo ela, a primeira coisa a ser modificada na Igreja. Sua resposta foi: você e eu!
Este pequeno episódio evidencia duas coisas. De um lado, a religiosa quer dizer a seu interlocutor que a Igreja não é unicamente os outros, a hierarquia, o Papa e os Bispos; a Igreja somos todos nós: nós, os batizados. Além do mais, ela parte efetivamente do pressuposto: sim, há motivo para uma mudança. Há a necessidade de uma mudança. Cada cristão e a comunidade dos crentes no seu conjunto são chamados a uma conversão contínua.
Como deve se configurar concretamente esta mudança? Será que se trata de uma renovação tal como, por exemplo, o proprietário de uma casa realiza através da reestruturação ou de uma nova pintura de seu imóvel? Ou será que se trata de uma correção, para retornar aos trilhos ou percorrer um caminho de maneira mais alegre e direta? Estes aspectos e outros mais certamente têm sua importância, e não é o caso de levar todos em consideração neste momento. Mas, quanto àquilo que diz respeito ao motivo fundamental da mudança, trata-se de uma missão apostólica dos discípulos e da própria Igreja.
Com efeito, a Igreja sempre deve verificar sua fidelidade a esta missão. Os três evangelhos sinóticos realçam diferentes aspectos do mandato desta missão: a missão se fundamenta, inicialmente, sobre a experiência pessoal – “Vós sois testemunhas” (Lc 24, 48); ela se exprime em relação – “Fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28, 19); ela transmite uma mensagem universal – “Proclamai o Evangelho a toda a criação” (Mc 16, 15). No entanto, por causa das pretensões e dos condicionamentos do mundo, este testemunho é cada vez mais obscurecido, as relações são alienadas e a mensagem é relativizada. Se, logo em seguida, a Igreja, como o diz o Papa Paulo VI, “procura modelar-se em conformidade com o tipo proposto por Cristo, não poderá deixar de distinguir-se profundamente do ambiente humano, em que afinal vive ou do qual se aproxima” (Encíclica Ecclesiam suam, n. 34). Para realizar sua missão, ela deverá continuamente se distanciar de seu meio, se “desmundanizar” por assim dizer.
A missão da Igreja, com efeito, brota do mistério do Deus uno e trino, do mistério de seu amor criador. E o amor não apenas está presente de qualquer forma em Deus: Ele é amor; por Sua natureza, Ele é amor. E o amor divino não quer ser apenas para si, quer se derramar em conformidade com sua natureza. Na encarnação e no sacrifício do Filho de Deus, o amor alcançou a humanidade de maneira particular. E foi da seguinte maneira: o Cristo, o Filho de Deus, saiu da esfera de seu ser Deus, Ele se fez carne e Se tornou homem; e isto não apenas para confirmar o mundo no seu ser terrestre, e partilhar Sua condição que – a deixando imutável – a transforma. Do evento crístico faz parte o fato incompreensível que existe – como dizem os Padres da Igreja – um sacrum commercium, uma troca entre Deus e os homens. Os Padres a explicam desta maneira: não temos nada para dar a Deus, só podemos Lhe apresentar nossos pecados. Ele os aceita e os faz Seus, e Ele nos dá a si mesmo e à Sua glória em troca. Este é, verdadeiramente, um comércio desigual que se desenrola na vida e nos sofrimentos de Cristo. Ele se torna pecador, se encarrega do pecado; Ele toma aquilo que é nosso e nos dá aquilo que é Seu. Mas, continuando a refletir e a viver na fé, torna-se evidente que nós não Lhe damos apenas o pecado, mas que Ele nos autoriza, Ele nos dá uma força interior para Lhe dar igualmente algo positivo: nosso amor Lhe dá, de maneira positiva, a humanidade. É claro, naturalmente, que é somente graças à bondade de Deus, que o homem, o mendigo, recebe a riqueza divina, que Deus pode dar qualquer coisa, que Deus torna nossa oferta aceitável nos tornando capazes de ser, para Ele, oferentes. 
A Igreja se conforma totalmente com este comércio desigual. Ela não possui nada por ela mesma diante dAquele que a fundou, de sorte que ela poderia dizer: Fizemos isto muito bem! Seu sentido consiste em ser um instrumento da redenção, deixar-se penetrar pela palavra de Deus e transformar o mundo introduzindo-o na união de amor com Deus. A Igreja imerge na atenção complacente do Redentor pelos homens. Ela está lá onde ela é ela mesma, sempre em movimento, colocando-se continuamente a serviço da missão, que ela recebeu do Senhor. É por isto que ela deve sempre se abrir às preocupações do mundo – ao qual ela pertence –, consagrar-se sem reservas a estas preocupações, para continuar e tornar presente o comércio sagrado que teve início com a Encarnação.
No entanto, no desenvolvimento histórico da Igreja se manifesta também uma tendência contrária: é a de uma Igreja que se satisfaz consigo mesma, que se instala neste mundo, que é autossuficiente e se adapta aos critérios do mundo. Muito frequentemente, ela dá à organização e à institucionalização uma importância maior do que a seu apelo à abertura para Deus, que tem a esperança do mundo para o outro.
Para corresponder à sua verdadeira tarefa, a Igreja deve sempre se esforçar por se destacar de sua “mundanidade” para se abrir a Deus. Desta forma, ela segue as palavras de Jesus: “Eles não são deste mundo, como eu não sou deste mundo” (Jo 17, 16), e é assim que ela se dá ao mundo. Num certo sentido, a história vem em socorro da Igreja, através dos diversos períodos de secularização, que contribuíram, de modo essencial, para a sua purificação e para a sua reforma interior.
Com efeito, a secularização – que foram a expropriação dos bens da Igreja ou a supressão dos privilégios ou de coisas parecidas – significaram, a cada vez, uma profunda libertação da Igreja das formas de “mundanidade”: ela se despoja, por assim dizer, de sua riqueza terrestre e volta para abraçar plenamente sua pobreza terrestre. Assim, a Igreja partilha o destino da tribo de Levi que, segundo a afirmação do Antigo Testamento, era a única tribo em Israel que não possuía patrimônio terrestre, mas que havia tomado exclusivamente a Deus, Sua palavra e Seus sinais como parte da herança. Como esta tribo, a Igreja partilhava nesses momentos históricos a exigência de uma pobreza que se abria para o mundo, para se desligar de seus vínculos materiais, e assim seu agir missionário voltava a ser igualmente credível. 
Os exemplos históricos mostram que o testemunho missionário de uma Igreja “desmundanizada” é mais claro. Libertada do fardo e dos privilégios materiais e políticos, a Igreja pode se consagrar melhor e de maneira verdadeiramente cristã ao mundo inteiro; ela pode ser verdadeiramente aberta ao mundo. Ela pode, de novo, viver com mais facilidade seu chamado ao ministério de adoração a Deus e de serviço ao próximo. A tarefa missionária que está ligada à adoração cristã, e que deveria determinar a estrutura da Igreja, se torna visível mais claramente. A Igreja se abre ao mundo não para obter a adesão dos homens a uma instituição com suas próprias pretensões de poder, mas para fazê-los entrar em si mesmos e, dessa maneira, conduzi-los Àquele de quem todas as pessoas podem dizer com Agostinho: Ele é mais íntimo de mim do que eu mesmo (cf. Conf. 3, 6, 11). Ele, que é infinitamente acima de mim, está de tal forma em mim até ao ponto de ser a minha verdadeira interioridade. Por este estilo de abertura da Igreja ao mundo, é traçada, ao mesmo tempo, a forma na qual a abertura para o mundo por parte de cada cristão pode se realizar de maneira eficaz e apropriada.
Não se trata, aqui, de encontrar uma nova estratégia para ressuscitar a Igreja. Trata-se muito mais de deixar de lado tudo aquilo que é unicamente tático, e buscar a plena sinceridade, que não negligencia nem reprime nada da verdade de nosso hoje, mas que a realiza plenamente no hoje, vivendo-a justamente, totalmente na sobriedade do hoje, levando-a à sua plena identidade, tirando dela aquilo que é somente aparência de fé, mas que, na verdade, é apenas convenção e hábito.
Digamos com outras palavras: a fé cristã é sempre, para o homem, um escândalo, e isto não é apenas no nosso tempo. Que o Deus eterno se preocupe conosco, seres humanos, que Ele nos conheça; que o Inapreensível tenha se tornado, num determinado momento, apreensível; que o Imortal tenha sofrido e morrido numa cruz; que para nós, seres mortais, sejam prometidas a ressurreição e a vida eterna – acreditar em tudo isto é, para os homens, uma verdadeira exigência. 
Este escândalo, que não pode ser abolido se não se quiser abolir o cristianismo, foi, infelizmente, colocado à sombra, recentemente, por outros escândalos dolorosos que envolveram os anunciadores da fé. Uma situação perigosa é criada quando esses escândalos tomam o lugar do skandalon primeiro da Cruz e, desta forma, o tornam inacessível, quer dizer, quando eles escondem a verdadeira exigência cristã por trás da inadequação de seus mensageiros.
Há uma razão a mais para acreditar novamente atual a retomada da verdadeira “desmundanização”, de arrancar corajosamente aquilo que há de “mundano” da Igreja. Naturalmente, isto não significa se retirar do mundo, muito pelo contrário. Uma Igreja aliviada dos elementos “mundanos” é capaz de comunicar aos homens – àqueles que sofrem e àqueles que os ajudam – justamente também na esfera sócio-caritativa, a força vital particular da fé cristã. “A caridade não é, para a Igreja, uma espécie de atividade de assistência social que se poderia também deixar para outras pessoas, mas ela pertence à sua natureza mesma, ela é uma expressão de sua essência, à qual ela não pode renunciar” (Deus caritas est, n. 25). Certamente, as obras caritativas da Igreja devem também continuamente prestar atenção às exigências de um distanciamento apropriado do mundo para evitar que, diante de um afastamento crescente da Igreja, suas raízes não sequem. Somente a relação profunda com Deus torna possível uma plena atenção ao homem, da mesma forma que sem a atenção ao próximo a relação com Deus empobrece.
Ser abertos aos acontecimentos do mundo significa, portanto, para a Igreja “desmundanizada”, testemunhar, segundo o Evangelho, o domínio do amor de Deus, em palavras e ações, aqui e agora. E além do mais, esta tarefa vai para além do mundo presente. Com efeito, a vida presente inclui o vínculo com a vida eterna. Como indivíduos, e como comunidade da Igreja, vivemos a simplicidade de um grande amor que, no mundo, é ao mesmo tempo a coisa mais fácil e a mais difícil, porque ela exige nada mais nada menos do que o dom de si mesmo.
Caros amigos, resta-me apenas implorar para nós todos a bênção de Deus e a força do Espírito Santo, para que possamos, cada um no seu próprio campo de ação, reconhecer sempre outra vez o amor de Deus e Sua misericórdia e testemunhar isso. Agradeço-vos a atenção.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 25 de setembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

... a verdadeira crise da Igreja no mundo ocidental é uma crise de fé



Encontro com o Comitê Central dos Católicos Alemães (ZDK)

Discurso do Papa Bento XVI 

Seminário de Freiburg
Sábado, 24 de setembro de 2011


Ilustres Senhores e Senhoras,
Amados irmãos e irmãs,
Agradeço a possibilidade de me encontrar convosco, os membros do Conselho do Comitê Central dos Católicos Alemães, aqui em Freiburg. Quero manifestar-vos o meu apreço pelo empenho com que sustentais, em público, os interesses dos católicos e dais impulso à obra apostólica da Igreja e dos católicos na sociedade. Ao mesmo tempo, quero agradecer-lhe, caro senhor Presidente Glück, pelas suas amáveis palavras, nelas exprimindo muitas coisas importantes e dignas de reflexão.
Queridos amigos, há vários anos que existem os chamados programas exposure no âmbito da ajuda aos países em vias de desenvolvimento. Pessoas responsáveis pela política, pela economia, pela Igreja vão viver, durante um tempo, com os pobres na África, Ásia ou América Latina, compartilhando a sua existência concreta de todos os dias. Colocam-se na situação de vida destas pessoas para verem o mundo com os seus olhos e, desta experiência, tirarem lições para o próprio agir solidário.
Imaginemos que tal programa exposure tivesse lugar aqui na Alemanha. Peritos originários de um país distante viriam viver, durante uma semana, com uma família alemã média. Certamente admirariam aqui muitas coisas, como por exemplo o bem-estar, a ordem e a eficiência. Mas, com um olhar imparcial, constatariam também tanta pobreza: pobreza nas relações humanas e pobreza no âmbito religioso.
Vivemos num tempo caracterizado em grande parte por um relativismo subliminar que penetra todos os âmbitos da vida. Às vezes, este relativismo torna-se combativo, lançando-se contra pessoas que dizem saber onde se encontra a verdade ou o sentido da vida.
E notamos como este relativismo exerce uma influência cada vez maior sobre as relações humanas e a sociedade. Isto se exprime também na inconstância e na descontinuidade de vida de muitas pessoas e num individualismo excessivo. Há pessoas que não parecem capazes de renunciar de modo algum a determinada coisa ou de fazer um sacrifício pelos outros. Também o compromisso altruísta pelo bem comum nos campos sociais e culturais ou então pelos necessitados tem diminuído. Outros já não são capazes de se unir de forma incondicional a um cônjuge. Quase já não se encontra a coragem de prometer ser fiel a vida toda; a coragem de decidir-se e dizer: agora pertenço totalmente a ti, ou então, comprometer-se resolutamente com a fidelidade e a veracidade, e procurar sinceramente as soluções dos problemas.
Queridos amigos, no programa exposure, depois da análise vem a reflexão comum. Nesta elaboração, deve-se olhar a pessoa humana na sua totalidade; e desta faz parte explicitamente, e não só de modo implícito, a sua relação com o Criador.
Vemos que, no nosso rico mundo ocidental, há carências. Muitas pessoas carecem da experiência da bondade de Deus. Não encontram qualquer ponto de contato com as Igrejas institucionais e suas estruturas tradicionais. Mas por quê? Penso que esta seja uma pergunta sobre a qual devemos refletir muito seriamente. Ocupar-se desta questão é a tarefa principal do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização. Mas, obviamente, a mesma diz respeito a todos nós. Permiti-me tratar aqui um ponto da situação específica alemã. Na Alemanha, a Igreja está muito bem organizada. Mas, por detrás das estruturas, porventura existe também a correlativa força espiritual, a força da fé no Deus vivo? Sinceramente devemos afirmar que se verifica um excedente das estruturas em relação ao Espírito. Digo mais: a verdadeira crise da Igreja no mundo ocidental é uma crise de fé. Se não chegarmos a uma verdadeira renovação da fé, qualquer reforma estrutural permanecerá ineficaz.
Mas, voltemos às pessoas a quem falta a experiência da bondade de Deus. Precisam de lugares, onde possam expor a sua nostalgia interior. E, aqui somos chamados a procurar novos caminhos da evangelização. Um destes caminhos poderiam ser as pequenas comunidades, onde sobrevivem as amizades, que são aprofundadas na frequente adoração comunitária de Deus. Aqui há pessoas que contam as suas pequenas experiências de fé no emprego e no âmbito da família e dos conhecidos, testemunhando assim uma nova proximidade da Igreja à sociedade. Depois, a seus olhos, aparece de modo cada vez mais claro que todos necessitam deste alimento do amor, da amizade concreta de um pelo outro e pelo Senhor. Permanece importante a ligação com a seiva vital da Eucaristia, porque sem Cristo nada podemos fazer (cf. Jo 15, 5).
Amados irmãos e irmãs, que o Senhor nos indique sempre o caminho para, juntos, sermos luzes no mundo e mostrarmos ao nosso próximo o caminho para a fonte, onde possam saciar o seu profundo anseio de vida. Obrigado!

* Extraído do site do Vaticano, do dia 24 de setembro de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

Jovens, vós sois a luz do mundo...



Vigília de oração com os jovens

Discurso do Papa Bento XVI 

Feira de Freiburg
Sábado, 24 de setembro de 2011

Queridos jovens amigos!
Durante todo o dia, pensei com alegria nesta noite, quando poderia estar aqui convosco e unir-me a vós na oração. Talvez alguns de vós tenham estado presentes na Jornada Mundial da Juventude, onde pudemos experimentar a singular atmosfera de serenidade, profunda comunhão e íntima alegria que caracteriza uma vigília noturna de oração. Espero que possamos todos nós também fazer a mesma experiência neste momento em que o Senhor nos toca e faz de nós testemunhas jubilosas, que rezam juntas e servem de suporte umas às outras não só nesta noite, mas durante toda a nossa vida.
Em todas as igrejas, nas catedrais e nos conventos, em toda a parte onde se reúnem os fiéis para a celebração da Vigília Pascal, a mais santa de todas as noites começa com o acendimento do Círio Pascal, cuja luz é depois transmitida a todos os presentes. Uma minúscula chama irradia-se para muitas luzes e ilumina a casa de Deus que estava às escuras. Neste maravilhoso rito litúrgico que imitamos nesta vigília de oração, se nos desvenda, através de sinais mais eloquentes do que as palavras, o mistério da nossa fé cristã. Ele, Cristo, que diz de Si mesmo: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8, 12), faz brilhar a nossa vida, para ser verdadeiro o que acabamos de ouvir no Evangelho: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 14). Não são os nossos esforços humanos nem o progresso técnico do nosso tempo que trazem a luz a este mundo. Experimentamos sempre de novo que o nosso esforço por uma ordem melhor e mais justa tem os seus limites. O sofrimento dos inocentes e, enfim, a morte de cada homem constituem uma escuridão impenetrável que pode talvez ser momentaneamente iluminada por novas experiências, como a noite o é por um relâmpago; mas, no fim, permanece uma escuridão angustiante.
Ao nosso redor pode haver a escuridão e as trevas, e todavia vemos uma luz: uma chama pequena, minúscula, que é mais forte do que a escuridão, aparentemente tão poderosa e insuperável. Cristo, que ressuscitou dos mortos, brilha neste mundo, e o faz de modo mais claro precisamente onde tudo, segundo o juízo humano, parece lúgubre e sem esperança. Ele venceu a morte – Ele vive – e a fé nEle penetra, como uma pequena luz, tudo o que é escuro e ameaçador. Certamente quem acredita em Jesus não é que vê sempre só o sol na vida, como se fosse possível poupar-lhe sofrimentos e dificuldades, mas há sempre uma luz clara que lhe indica um caminho, o caminho que conduz à vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Os olhos de quem acredita em Cristo vislumbram, mesmo na noite mais escura, uma luz e veem já o fulgor de um novo dia.
A luz não fica sozinha. Ao seu redor, acendem-se outras luzes. Sob os seus raios, delineiam-se de tal modo os contornos do ambiente que nos podemos orientar. Não vivemos sozinhos no mundo. Exatamente nas coisas importantes da vida, temos necessidade de outras pessoas. Assim, de modo particular na fé, não estamos sozinhos, somos anéis da grande corrente dos crentes. Ninguém chega a crer, senão for sustentado pela fé dos outros; mas, por outro lado, com a minha fé contribuo para confirmar os outros na sua fé. Ajudamo-nos mutuamente a ser exemplo uns para os outros, partilhamos com os outros o que é nosso, os nossos pensamentos, as nossas ações, a nossa estima. E ajudamo-nos mutuamente a orientar-nos, a identificar o nosso lugar na sociedade.
Queridos amigos, diz o Senhor: “Eu sou a luz do mundo; vós sois a luz do mundo”. É uma coisa misteriosa e magnífica que Jesus tenha dito de Si próprio e de cada um de nós a mesma coisa, ou seja, que “somos luz”. Se acreditarmos que Ele é o Filho de Deus que curou os doentes e ressuscitou os mortos, ou mais, que Ele mesmo ressuscitou do sepulcro e está verdadeiramente vivo, então compreenderemos que Ele é a luz, a fonte de todas as luzes deste mundo. Nós, ao contrário, não cessamos de experimentar a falência dos nossos esforços e o erro pessoal, apesar das nossas boas intenções. Ao que parece, não obstante o seu progresso técnico, o mundo onde vivemos, em última análise, não se tem tornado melhor. Existem ainda guerras, terror, fome e doença, pobreza extrema e desalmada repressão. E mesmo aqueles que, na história, se consideraram “portadores de luz”, mas sem ter sido iluminados por Cristo que é a única verdadeira luz, não criaram paraíso terrestre algum, antes instauraram ditaduras e sistemas totalitários onde até a mais pequena centelha de humanismo foi sufocada.
Neste ponto, não devemos calar o fato de que o mal existe. Nós o vemos em tantos lugares deste mundo; mas o vemos também – e isto nos assusta – na nossa própria vida. Sim, no nosso próprio coração, existe a inclinação para o mal, o egoísmo, a inveja, a agressividade. Com certa autodisciplina, talvez isto possa, em certa medida, se controlar. Caso diverso e mais difícil se passa com formas de mal mais escondido, que podem envolver-nos como um nevoeiro indefinido, tais como a preguiça, a lentidão no querer e no praticar o bem. Repetidamente, ao longo da história, pessoas atentas fizeram notar que o dano para a Igreja não vem dos seus adversários, mas dos cristãos tíbios. Então, como Cristo pode dizer que os cristãos – sem ter excluído os cristãos fracos – são a luz do mundo? Compreenderíamos talvez que Ele tivesse gritado: Convertei-vos! Sede a luz do mundo! Mudai a vossa vida, tornai-a clara e resplandecente! Não será o caso de ficar maravilhados ao vermos que o Senhor não nos dirige um apelo, mas diz que somos a luz do mundo, que somos luminosos, que resplandecemos na escuridão?
Queridos amigos, o apóstolo São Paulo, em muitas das suas cartas, não tem receio de designar por “santos” os seus contemporâneos, os membros das comunidades locais. Aqui se torna evidente que cada batizado – mesmo antes de poder realizar boas obras – é santificado por Deus. No batismo, o Senhor acende, por assim dizer, uma luz na nossa vida, uma luz que o Catecismo chama a graça santificante. Quem conservar essa luz, quem viver na graça, é santo.
Queridos amigos, a imagem dos santos foi repetidamente objeto de caricatura e apresentada de modo distorcido, como se o ser santo significasse estar fora da realidade, ser ingênuo e viver sem alegria. Não é raro pensar-se que um santo seja apenas aquele que realiza ações ascéticas e morais de nível altíssimo, pelo que se pode certamente venerar mas nunca imitar na própria vida. Como é errada e desalentadora esta visão! Não há nenhum santo, com exceção da bem-aventurada Virgem Maria, que não tenha conhecido também o pecado e que não tenha caído alguma vez. Queridos amigos, Cristo não se interessa tanto de quantas vezes vacilamos e caímos na vida, como sobretudo de quantas vezes nós, com a Sua ajuda, nos erguemos. Não exige ações extraordinárias, mas quer que a sua luz brilhe em vós. Não vos chama porque sois bons e perfeitos, mas porque Ele é bom e quer tornar-vos seus amigos. Sim, vós sois a luz do mundo, porque Jesus é a vossa luz. Sois cristãos, não porque realizais coisas singulares e extraordinárias, mas porque Ele, Cristo, é a vossa, a nossa vida. Vós sois santos, nós somos santos, se deixarmos a sua graça agir em nós.
Queridos amigos, nesta noite em que nos reunimos em oração ao redor do único Senhor, vislumbramos a verdade da palavra de Cristo segundo a qual não pode ficar escondida uma cidade situada no cimo de um monte. Esta assembleia brilha nos vários significados da palavra: quer no clarão de inúmeras luzes, quer no resplendor de tantos jovens que acreditam em Cristo. Uma vela só pode dar luz, se se deixar consumir pela chama; permaneceria inútil, se a sua cera não alimentasse o fogo. Permiti que Cristo arda em vós, ainda que isto possa às vezes implicar sacrifício e renúncia. Não tenhais medo de poder perder alguma coisa, ficando, no fim, por assim dizer, de mãos vazias. Tende a coragem de empenhar os vossos talentos e os vossos dotes pelo Reino de Deus e de vos dar a vós mesmos – como a cera da vela –, para que o Senhor ilumine, por vosso meio, a escuridão. Sabei ousar ser santos ardorosos, em cujos olhos e coração brilha o amor de Cristo e que, deste modo, trazem luz ao mundo. Eu confio que vós e muitos outros jovens aqui na Alemanha sejais chamas de esperança, que não ficam escondidas. “Vós sois a luz do mundo”. “Onde há Deus, há futuro!” Amém.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 24 de setembro de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Testemunhai às novas gerações a beleza exigente da vida cristã


Visita Pastoral a Ancona

Encontro com as famílias e com os sacerdotes

Discurso do Santo Padre Bento XVI

Catedral de São Ciríaco, Ancona
Domingo, 11 de setembro de 2011

Caros sacerdotes e caros esposos,
A colina sobre a qual foi construída esta Catedral nos permitiu ter um belíssimo olhar sobre a cidade e sobre o mar; mas ao atravessar o majestoso portal o espírito permanece fascinado com a harmonia do estilo românico, enriquecido por um entrelaçamento de influxos bizantinos e de elementos góticos. Também diante da vossa presença – sacerdotes e esposos provenientes das diversas dioceses italianas – se percebe a beleza da harmonia e da complementaridade das vossas diferentes vocações. O mútuo conhecimento e a estima mútua, no compartilhamento da mesma fé, levam a apreciar o carisma uns dos outros e a se reconhecerem parte do único “edifício espiritual” (1Pd 2, 5) que, tendo como pedra angular o mesmo Cristo Jesus, cresce bem ordenado para ser templo santo no Senhor (cf. Ef 2, 20-21). Obrigado, portanto, por este encontro: ao caro Arcebispo, Dom Edoardo Menichelli – também pelas expressões com as quais o introduziu – e a cada um de vós.
Gostaria de me dedicar a falar brevemente sobre a necessidade de trazer de volta a Ordem e o Matrimônio para a única fonte eucarística. Ambos os estados de vida têm, de fato, no amor de Cristo, que dá a si mesmo para a salvação da humanidade, a mesma raiz; são chamados a uma missão comum: a de testemunhar e tornar presente este amor a serviço da comunidade, para a edificação do Povo de Deus (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1534). Esta perspectiva permite, antes de qualquer coisa, que se supere uma visão redutiva da família, que a considera como mera destinatária da ação pastoral. É verdade que, neste tempo difícil, ela precisa de particulares atenções. Não por isto, no entanto, deve ser diminuída a sua identidade ou mortificada sua responsabilidade específica. A família é riqueza para os esposos, bem insubstituível para os filhos, fundamento indispensável da sociedade, comunidade vital para o caminho da Igreja. 
Em nível eclesial, valorizar a família significa reconhecer sua relevância na ação pastoral. O ministério que nasce do Sacramento do Matrimônio é importante para a vida da Igreja: a família é lugar privilegiado de educação humana e cristã e continua sendo, por causa desta finalidade, a melhor aliada do ministério sacerdotal; ela é um dom precioso para a edificação da comunidade. A proximidade do sacerdócio à família, por sua vez, a ajuda a tomar consciência da própria realidade profunda e da própria missão, favorecendo o desenvolvimento de uma forte sensibilidade eclesial. Nenhuma vocação é uma questão privada, muito menos a vocação ao matrimônio, porque o seu horizonte é a Igreja inteira. Trata-se, portanto, de saber integrar e harmonizar, na ação pastoral, o ministério sacerdotal com “o autêntico Evangelho do matrimônio e da família” (Esort. ap. Familiaris consortio, 8) para uma comunhão efetiva e fraterna. E a Eucaristia é o centro e a fonte desta unidade que anima toda a ação da Igreja. 
Caros sacerdotes, pelo dom que recebestes na Ordenação, fostes chamados a servir como Pastores à comunidade eclesial, que é “família de famílias”, e portanto a amar cada um com coração paterno, com autêntica distância de vós mesmos, com dedicação plena, contínua e fiel: sois sinal vivo que remete a Cristo Jesus, o único Bom Pastor. Conformai-vos a Ele, ao seu estilo de vida, com aquele serviço total e exclusivo de que o celibato é expressão. Também o sacerdote tem uma dimensão esponsal; é identificar-se com o coração de Cristo Esposo, que dá a vida pela Igreja sua esposa (cf. Esort. ap. postsin. Sacramentum caritatis, 24). Cultivai uma profunda familiaridade com a Palavra de Deus, luz no vosso caminho. A celebração cotidiana e fiel da Eucaristia seja o lugar onde possais atingir a força para dar-vos a vós mesmos, cada dia, no ministério e viver constantemente na presença de Deus: é Ele a vossa morada e a vossa herança. Disto deveis ser testemunhas para a família e para cada pessoa que o Senhor coloca no vosso caminho, mesmo nas circunstâncias mais difíceis (cf. ibid., 80). Encorajai os cônjuges, compartilhai com eles as responsabilidades educativas, ajudai-os a renovar continuamente a graça do seu matrimônio. Tornai a família protagonista na ação pastoral. Sede acolhedores e misericordiosos, também com aqueles que têm mais dificuldade para cumprir os compromissos assumidos com o vínculo matrimonial e mesmo com aqueles que falharam convosco.
Caros esposos, o vosso Matrimônio se enraíza na fé segundo a qual “Deus é amor” (1Jo 4, 8) e segundo a qual seguir a Cristo significa “permanecer no amor” (cf. Jo 15, 9-10). A vossa união – como ensina São Paulo – é sinal sacramental do amor de Cristo pela Igreja (cf. Ef 5, 32), amor que culmina na Cruz e que é “significado e atuado na Eucaristia” (Esort. ap. Sacramentum caritatis, 29). O Mistério eucarístico incida sempre mais profundamente na vossa vida cotidiana: tirai inspiração e força deste Sacramento para o vosso relacionamento conjugal e para a missão educativa a que sois chamados; construí as vossas famílias na unidade, dom que vem do alto e que alimenta o vosso compromisso na Igreja e na promoção de um mundo justo e fraterno. Amai os vossos sacerdotes, exprimi o vosso apreço pelo generoso serviço que desempenham. Saibais suportar também seus limites, sem nunca renunciar a pedir que sejam entre vós ministros exemplares que vos falem de Deus e que vos conduzam a Deus. A vossa fraternidade é, para eles, uma preciosa ajuda espiritual e um sustento nas provações da vida.
Caros sacerdotes e caros esposos, saibais encontrar sempre na santa Missa a força para viver a pertença a Cristo e à sua Igreja, no perdão, no dom de si mesmos e na gratidão. O vosso agir cotidiano tenha na comunhão sacramental a sua origem e o seu centro, para que tudo seja feito para a glória de Deus. Deste modo, o sacrifício de amor de Cristo vos transformará, até ao ponto de vos tornar nEle “um só corpo e um só espírito” (cf. Ef 4, 4-6). A educação à fé das novas gerações também passa através da vossa coerência. Testemunhai a eles a beleza exigente da vida cristã, com a confiança e a paciência de quem conhece o poder da semente jogada no terreno. Como no episódio evangélico que acabamos de escutar (Mc 5, 21-24.35-43), sejais, para todos os que foram confiados à vossa responsabilidade, sinal da benevolência e da ternura de Jesus: nEle se torna visível como o Deus que ama a vida não é estranho ou distante dos acontecimentos humanos, mas é o Amigo que nunca abandona. E nos momentos em que se insinuar a tentação que faz pensar que todo compromisso educativo é vão, tirai da Eucaristia a luz para reforçar a fé, seguros de que a graça e a potência de Jesus Cristo podem alcançar o homem em todas a situações, mesmo nas mais difíceis.
Caros amigos, confio-vos todos à proteção de Maria, venerada nesta Catedral sob o título de “Rainha de todos os Santos”. A tradição liga a sua imagem ao ex voto de um marinheiro, em sinal de gratidão pela salvação do filho, que saiu ileso de uma tempestade no mar. O olhar materno da Mãe acompanhe também os vossos passos na santidade rumo a um porto de paz.
Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 11 de setembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Fazei tudo o que ele vos disser



Encontro com os jovens casais

Discurso do Santo Padre Bento XVI

Praça do Plebiscito, Ancona
Domingo, 11 de setembro de 2011

Caros casais,
Fico feliz por concluir esta jornada intensa, ponto alto do Congresso Eucarístico Nacional, encontrando-vos, quase querendo confiar a herança deste evento de graça às vossas jovens vidas. De resto, a Eucaristia, dom de Cristo para a salvação do mundo, indica e contém o horizonte mais verdadeiro da experiência que estais vivendo: o amor de Cristo como plenitude do amor humano. Agradeço ao Arcebispo de Ancona-Osimo, Dom Edoardo Menichelli, por sua saudação cordial e profunda, e a todos vós por esta participação tão viva; obrigado também pelas perguntas que me dirigistes e que eu recebo confiando na presença em nosso meio do Senhor Jesus: Ele apenas tem palavras de vida eterna, palavras de vida para vós e para o vosso futuro!
As perguntas que fizestes, no atual contexto social, assumem um peso ainda maior. Gostaria de oferecer-vos apenas algumas orientações para uma resposta. Devido a certos aspectos, nosso tempo não é fácil, sobretudo para vós jovens. A mesa está cheia de muitas coisas deliciosas, mas, como no episódio evangélico das Bodas de Caná, parece que faltou o vinho da festa. Sobretudo a dificuldade para encontrar um trabalho estável estende um véu de incerteza sobre o futuro. Esta condição contribui para adiar a tomada de decisões definitivas, e incide de forma negativa sobre o crescimento da sociedade, que não consegue valorizar plenamente a riqueza de energias, de competências e de criatividade da vossa geração.
Falta o vinho da festa mesmo numa cultura que tende a prescindir de claros critérios morais: na desordem, cada um é impulsionado a se mover de maneira individual e autônoma, frequentemente apenas no perímetro do presente. A fragmentação do tecido comunitário se reflete num relativismo que ataca os valores essenciais; a consonância de sensações, de estados de ânimo e de emoções parece mais importante do que o compartilhamento de um projeto de vida. Mesmo as escolhas de fundo se tornam frágeis, expostas a uma perene revogação, que frequentemente é entendida como expressão de liberdade, enquanto que, na verdade,assinala justamente a carência de liberdade. Pertence a uma cultura privada do vinho da festa também a aparente exaltação do corpo, que, na realidade, banaliza a sexualidade e tende a fazer com que ela seja vivida fora de um contexto de comunhão de vida e de amor.
Caros jovens, não tenhais medo de enfrentar estes desafios! Nunca percais a esperança. Tende coragem, mesmo nas dificuldades, permanecendo firmes na fé. Estai certos de que, em toda circunstância, sois amados e guardados pelo amor de Deus, que é a nossa força. Deus é bom. Por isto é importante que o encontro com Deus, sobretudo na oração pessoal e comunitária, seja constante, fiel, exatamente como é o caminho do vosso amor: amar a Deus e sentir que Ele me ama. Nada nos pode separar do amor de Deus! Estai certos, pois, de que também a Igreja está próxima de vós, vos sustenta, não cessa de olhar para vós com grande confiança. Ela sabe que tendes sede de valores, os verdadeiros, sobre os quais valha a pena construir a vossa casa! O valor da fé, da pessoa, da família, das relações humanas, da justiça. Não vos desencorajeis diante das carências que parecem apagar a alegria do banquete da vida. Nas Bodas de Caná, quando o vinho faltou, Maria convidou os servos a se dirigirem a Jesus e lhes deu uma indicação precisa: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2, 5). Guardai como um tesouro estas palavras, as últimas de Maria relatadas pelos Evangelhos, quase como um testamento espiritual, e sempre tereis a alegria da festa: Jesus é o vinho da festa!
Como noivos, vós estais vivendo um tempo único, que abre para a maravilha do encontro e ajuda a descobrir a beleza de existir e de ser preciosos para alguém, de poder dizer reciprocamente: tu és importante para mim. Vivei com intensidade, de modo progressivo e com verdade este caminho. Não renunciai à tarefa de perseguir um ideal alto de amor, reflexo e testemunho do amor de Deus! Mas, como viver esta fase da vossa vida, testemunhar o amor na comunidade? Gostaria de vos dizer, antes de tudo, que evitai fechar-vos em relacionamentos intimistas, falsamente seguros; fazei, pelo contrário, que a vossa relação se torne fermento de uma presença ativa e responsável na comunidade. Não esquecei, pois, que, para ser autêntico, também o amor solicita um caminho de amadurecimento: a partir da atração inicial e do “sentir-se bem” com o outro, educai-vos a “querer bem” ao outro, a “querer o bem” do outro. O amor vive de gratuidade, de sacrifício de si, de perdão e de respeito pelo outro.
Caros amigos, todo amor humano é sinal do Amor eterno que nos criou, cuja graça santifica a escolha de um homem e de uma mulher de se entregarem reciprocamente na vida do matrimônio. Vivei este tempo do noivado na espera confiante de um dom como este, que será recebido na medida em que percorreis um caminho de conhecimento, de respeito, de atenção que não deveis nunca perder de vista: é somente assim que a linguagem do amor permanecerá significativa mesmo com o correr dos anos. Educai-vos, pois, desde agora, à liberdade da fidelidade, que vos leva a ser guardiões uns dos outros, até ao ponto de viverem um para o outro. Preparai-vos para escolher com convicção o “para sempre” que está por trás do amor: a indissolubilidade, antes de ser uma condição, é um dom desejado, solicitado e vivido, para além de toda mutável situação humana. E não pensai, segundo uma mentalidade difusa, que a convivência seja garantia para o futuro. Queimar as etapas acaba por fazer “queimar” o amor, que, pelo contrário, precisa do respeito pelo tempo e pela progressão nas expressões; precisa que dê espaço a Cristo, que é capaz de tornar um amor humano fiel, feliz e indissolúvel. A fidelidade e a continuidade do vosso querer bem vos tornará capazes também de serdes abertos para a vida, de serdes genitores: a estabilidade da vossa união no Sacramento do Matrimônio permitirá aos filhos que Deus quererá vos dar que cresçam confiantes na bondade da vida. Fidelidade, indissolubilidade e transmissão da vida são os pilares de toda família, verdadeiro bem comum, patrimônio precioso para toda a sociedade. Desde já, fundai sobre esses valores o vosso caminho rumo ao matrimônio e testemunhai-o também aos vossos coetâneos: é um serviço precioso! Sede gratos a todos os que, com empenho, competência e disponibilidade, vos acompanham na formação: são sinal da atenção e do cuidado que a comunidade cristão tem por vós. Não permanecei sós: buscai e acolhei a companhia da Igreja.
Gostaria de retornar ainda sobre um ponto essencial: a experiência do amor tem em si a tensão para Deus. O verdadeiro amor promete o infinito! Fazei, portanto, deste vosso tempo de preparação para o matrimônio um itinerário de fé: redescobri, para a vossa vida de casal, a centralidade de Jesus Cristo e do caminhar na Igreja. Maria nos ensina que o bem de cada um depende da escuta dócil da palavra do Filho. Em que se confia a Ele, a água da vida cotidiana se transforma em vinho de um amor que torna boa, bela e fecunda a vida. Caná, de fato, é anúncio e antecipação do dom do vinho novo da Eucaristia, sacrifício e banquete no qual o Senhor nos alcança, nos renova e transforma. Não perdei a importância vital deste encontro: a assembleia litúrgica dominical vos encontre plenamente participantes: da Eucaristia brota o senso cristão da existência e um novo modo de viver (cf. Esort. ap. postsin. Sacramentum caritatis, 72-73). E, então, não tereis medo de assumir a difícil responsabilidade da escolha conjugal, não temereis entrar neste “grande mistério” no qual duas pessoas se tornam uma só carne (cf. Ef 5, 31-32).
Caríssimos jovens, confio-vos à proteção de São José e de Maria Santíssima; seguindo o convite da Virgem Mãe – “Fazei tudo o que ele vos disser” – não vos faltará o gosto da verdadeira festa e sabereis levar a todos o “vinho” melhor, aquele que Cristo dá para a Igreja e para o mundo. Gostaria de dizer-vos que também eu estou próximo de vós e de todos aqueles que, como vós, vivem este maravilhoso caminho de amor. Abençoo-vos com todo o coração!

* Extraído do site do Vaticano, do dia 11 de setembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

JMJ: a silenciosa semeadura do Senhor na contemporaneidade



Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Entrevista concedida pelo Santo Padre Bento XVI
aos jornalistas durante o voo para Madri

Voo Papal
Quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Padre Lombardi: Santidade, bem-vindo entre nós, muito obrigado por nos conceder, como é comum, este breve encontro durante o voo de ida. A “comunidade volante” dos jornalistas, aqui, é composta por 56 pessoas de vários países, mas os jornalistas que o esperam em Madri são mais de 4 mil. É um recorde para a Espanha e também se considerarmos os eventos mundiais. Todos nos comprometemos, naturalmente, a ecoar adequadamente suas palavras neste belíssimo acontecimento. Como é comum, proponho algumas perguntas que me foram dadas, há alguns dias, pelos jornalistas aqui presentes.

Santo Padre, estamos na 26ª Jornada Mundial da Juventude, a 12ª celebrada com um grande encontro mundial. João Paulo II, que as inventou, agora é Beato, e é o Protetor Oficial desta JMJ de Madri. No início do seu Pontificado, nos perguntávamos se o senhor iria continuar a linha do seu Predecessor. Agora, o senhor já está na sua terceira Jornada Mundial, depois de Colônia e de Sydney. Como o senhor vê o significado destes eventos na “estratégia” pastoral da Igreja universal no Terceiro Milênio?

Santo Padre: Caros amigos, bom dia! Fico contente de ir convosco para a Espanha por ocasião deste grande acontecimento. Depois de duas JMJ vividas também pessoalmente, posso apenas dizer que foi realmente uma inspiração a que foi dada ao Papa João Paulo II, quando criou esta realidade de um grande encontro dos jovens e do mundo com o Senhor. Eu diria que estas JMJ são um sinal, uma cascata de luz; dão visibilidade para a fé, visibilidade para a presença de Deus no mundo e criam, assim, a coragem de ser crente. Frequentemente os crentes se sentem isolados neste mundo, quase perdidos. Aqui, veem que não estão sozinhos, que há uma grande rede de fé, uma grande comunidade de crentes no mundo, que é belo viver nesta amizade universal. E, assim, me parece, nascem amizades, amizades que ultrapassam os confins das diversas culturas, dos diversos países. E este nascimento de uma rede universal de amizade, que liga o mundo e Deus, é uma importante realidade para o futuro da humanidade, para a vida da humanidade de hoje. Naturalmente, a JMJ não pode ser um acontecimento isolado: faz parte de um caminho maior, é preparado por este caminho da Cruz que passa por diversos países e já une jovens sob o sinal da Cruz e do maravilhoso sinal de Nossa Senhora. E assim a preparação da JMJ é muito mais que preparação técnica de um acontecimento com tantos problemas técnicos, naturalmente; é uma preparação interior, um colocar-se em caminho em direção aos outros, juntos rumo a Deus. E também, na sequência, após o estabelecimento de grupos de amizade, manter este contato universal que abre as fronteiras das culturas, dos contrastes humanos, religiosos, e assim é um caminho contínuo que guia a um novo vértice, a uma nova JMJ. Parece-me, neste sentido, que é preciso ver a JMJ como sinal, parte de um grande caminho; cria amizades, abre fronteiras e torna visível o fato de que é bonito estar com Deus, que Deus está conosco. Neste sentido, queremos dar continuidade a esta grande ideia do Beato Papa João Paulo II.

Padre Lombardi: Santidade, os tempos mudam. A Europa e o mundo ocidental em geral vivem uma crise econômica profunda, mas que também manifesta dimensões de grave inquietação social e moral e de grande incerteza pelo futuro, que se tornam particularmente dolorosas para os jovens. Nos dias passados vimos, por exemplo, os fatos acontecidos na Grã Bretanha, com desencadeamento de rebeliões ou de agressões. Ao mesmo tempo, há sinais de comprometimento generoso e entusiasmado, de voluntariado e de solidariedade, de jovens crentes e não crentes. Em Madri, encontraremos muitos jovens maravilhosos. Quais mensagens a Igreja pode dar para a esperança e o encorajamento dos jovens do mundo, sobretudo aqueles que, hoje, são tentados pelo desânimo e pela rebelião?

Santo Padre: Sim. Confirma-se, na atual crise econômica, aquilo que já havia aparecido na grande crise anterior, ou seja, que a dimensão ética não é algo exterior aos problemas econômicos, mas uma dimensão interior e fundamental. A economia não funciona apenas como uma autoregulamentação de mercado, mas precisa de uma razão ética para funcionar para o homem. E aparece outra vez aquilo que João Paulo II já havia dito na sua primeira encíclica social, isto é, que o homem deve ser o centro da economia e que a economia não deve ser medida segundo o proveito máximo, mas segundo o bem de todos, e que deve incluir a responsabilidade pelo outro e só funcionará verdadeiramente bem na medida em que funcionar de modo humano, respeitando o outro. E com as diversas dimensões: responsabilidade pela própria nação e não apenas por si mesmos; responsabilidade pelo mundo – também uma nação não está isolada, também a Europa não está isolada, mas é responsável por toda a humanidade e deve pensar nos problemas econômicos sempre a partir da responsabilidade pelas outras partes do mundo, por aquelas que sofrem, têm sede e fome, não têm futuro. E, portanto – terceira dimensão desta responsabilidade –, responsabilidade pelo futuro. Sabemos que é preciso proteger nosso planeta, mas devemos proteger – somando tudo – o funcionamento do serviço de trabalho econômico para todos e pensar que o amanhã é também o hoje. Se os jovens de hoje não encontram perspectivas na sua vida, também o nosso hoje é errado e “malvado”. Por isso, a Igreja, com a sua doutrina social, com a sua doutrina sobre a responsabilidade na relação com Deus, abre para a capacidade de renunciar ao proveito máximo e ver as coisas na dimensão humanista e religiosa, ou seja, ser um para o outro. Assim, novos caminhos podem se abrir. O grande número de voluntários que trabalham em diversos lugares do mundo, não para si, mas para o outro, e encontram exatamente assim o sentido da vida, demonstram que é possível fazer isto e que uma educação para estes grandes objetivos, como tenta fazer a Igreja, é fundamental para o nosso futuro.

Padre Lombardi: Santidade, os jovens do mundo de hoje vivem geralmente em ambientes multiculturais e multiconfessionais. A tolerância recíproca é mais necessária do que nunca. O senhor insiste sempre muito sobre o tema da verdade. O senhor não pensa que esta insistência sobre a verdade e sobre a única Verdade que é Cristo possa ser um problema para os jovens de hoje? Não acredita que esta insistência os dirija para a contraposição e para a dificuldade de dialogar e buscar junto com os outros?

Santo Padre: A vinculação entre verdade e intolerância, monoteísmo e incapacidade de diálogo com os outros, é um argumento que frequentemente retorna no debate sobre o cristianismo de hoje. E, naturalmente, é verdade que na história houve abusos, seja do conceito da verdade, seja do conceito do monoteísmo; mas foram abusos. A realidade é totalmente diferente. O argumento está errado, porque a verdade é acessível somente na medida em que há liberdade. Podem ser impostos, com violência, comportamentos, observâncias, atividades, mas não a verdade! A verdade se abre apenas para a liberdade, para o livre consentimento, e por isso liberdade e verdade são intimamente unidas, uma é condição para a outra. E, além do mais, buscar a verdade, os verdadeiros valores que dão vida e futuro, não tem alternativa: não queremos a mentira, não queremos o positivismo de normas impostas com uma certa força; somente os valores verdadeiro levam ao futuro, por isso, dizemos que é necessário buscar os valores verdadeiros e não permitir o arbítrio de alguns, não deixar que se fixe uma razão positivista que nos diz, acerca dos problemas éticos, dos grandes problemas do homem, que não existe uma verdade racional. Isto sim seria expor verdadeiramente o homem ao arbítrio daqueles que têm o poder. Devemos estar sempre em busca da verdade, dos verdadeiros valores; temos um núcleo nos valores, nos direitos humanos fundamentais; outros elementos fundamentais semelhantes são reconhecidos e, exatamente eles, nos permitem um diálogo uns com os outros. A verdade como tal é dialógica porque tenta conhecer melhor, entender melhor e o faz em diálogo com os outros. Assim, buscar a verdade e a dignidade do homem é a maior defesa da liberdade.

Padre Lombardi: Uma última pergunta, Santidade. As Jornadas Mundiais da Juventude são um tempo muito bonito e suscitam muitos entusiasmos, mas os jovens, depois, voltam para suas casas e encontram de novo um mundo no qual a prática religiosa está diminuindo cada vez mais fortemente. Muitos deles, provavelmente, não serão mais vistos na igreja. Como é possível dar continuidade aos frutos das Jornadas Mundiais da Juventude? O senhor acredita que, efetivamente, elas deem frutos de longa duração, para além dos momentos de grande entusiasmo?

Santo Padre: Deus sempre semeia silenciosamente, nunca aparece imediatamente nas estatísticas. E com a semente que o Senhor coloca na terra com as JMJ, acontece como a semente de que Ele fala no Evangelho: algumas caem no caminho e se perdem; outras caem sobre a pedra e se perdem; outras caem entre os espinhos e se perdem; mas algumas caem em terra boa e produzem muitos frutos. Exatamente assim é a semeadura da JMJ: muito se perde – e isto é humano. Com outras palavras do Senhor: o grão de mostarda é pequeno, mas cresce e se torna uma grande árvore. Com outras palavras ainda: certamente, muito se perde, e não podemos dizer que a partir de amanhã recomeça um grande crescimento da Igreja. Deus não age assim. Mas, cresce em silêncio e cresce muito. Sei das outras JMJ que muitas amizades nasceram, amizades para uma vida inteira; tantas novas experiências. E é sobre este crescimento silencioso que colocamos nossa confiança e estamos seguros, mesmo que as estatísticas não falem muito... a semente do Senhor realmente cresce e será, para muitas pessoas, o início de uma amizade com Deus e com outros, de uma universalidade do pensamento, de uma responsabilidade comum que realmente nos mostra que estes dias trazem frutos. Obrigado!

Padre Lombardi: Obrigado ao senhor, Santidade, por esta conversa que já nos orienta rumo aos temas essenciais destes dias belíssimos. Desejamos ao senhor, naturalmente, que estes dias sejam – não obstante o calor – cheios de alegria e de satisfação. Porém, antes de deixar o senhor retornar ao seu lugar, queria dizer que também para a nossa comunidade hoje é um dia de festa, porque há uma das nossas decanas, uma que fez todas as viagens de João Paulo II e todas as do senhor, exceto uma, porque não estava muito bem, e que hoje está fazendo aniversário. Os anos são naturalmente poucos, mesmo que as viagens tenham sido tantas. Trata-se de Paloma Gómez Borrero a quem felicitamos junto como senhor.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 18 de agosto de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.