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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Por que pais e professores têm medo de que um jovem diga “eu”?


Por Carlo Wolfsgruber

Desenvolverei as minhas reflexões colocando e comentando três perguntas.

1. Somos capazes, nós adultos, de educar, ou mais exatamente de gerar outros adultos, isto é, homens que se interessem verdadeiramente pela realidade?
Adulto, de fato, é aquele que é interessado – até ao ponto de se sentir interpelado – por tudo aquilo que existe; não como uma criança que tende a se interessar somente por aquilo que responde às suas necessidades imediatas. É este o desafio, talvez o mais dramático, diante do qual nos encontramos cada vez que entramos em uma sala de aula. Se não o aceitássemos, culpando, como tantas vezes fazemos, a maldade dos tempos ou a presumida degradaão das gerações, entregaremos os jovens ao niilismo dominante (mais prático do que teórico, mas também teórico), aquele que, enquanto está tendido a usar ansiosamente o real, lhe nega o seu valor de sinal. Esvazia-o daquilo que, como mãe, o real carrega em suas vísceras: o ser. Non horruisti Virginis uterum (Te Deum).
Todos nós sabemos muito bem que, no relacionamento com o real, a experiência do ser implica a experiência de uma irredutível positividade do real mesmo: o real é positivo na medida em que existe, antes de qualquer juízo sobre o como. Quando não é assim, a realidade causa medo, porque é um continente ignoto, para além das Colunas de Hércules da nossa medida, para além das possibilidades de uso imediato que poderíamos ter. E é exatamente este medo que, normalmente, é mascarado pela apatia – que sempre é violência – carregada de distração (evagatio mentis que Tomás identifica como uma das características – a primeira de todas é a desperatio – da acídia) que caracteriza tantos de nossos jovens e não tão jovens.
Cortes, Magellano, Cristovão Colombo: a positividade do real, como posição cultural, permitiu a eles a viagem rumo ao ignoto, até ao ponto de queimar os navios atrás de si. Vale a pena “encarregar-se” do novo.
Pelo contrário, “Antes / da viagem estamos tranquilos mas suspeitamos que / o sábio não se mova e que o prazer / de retonar custe um despropósito. / Depois, partimos e tudo fica OK e tudo / e tudo é para o melhor e inútil” (Montale).
Somente se aceitarmos o desafio educativo, somente assim nos daremos conta de que o nosso melhor aliado é o eu do jovem; e este é um teste sem erros. O homem é aquele nível da natureza no qual a natureza diz “eu” e o poder – inimigo do homem –, qualquer poder, tem medo exatamente deste “eu”. Tantos pais e tantos docentes, infelizmente, compartilham o medo de que o jovem diga “eu”; e quanto mais falam, tanto mais têm medo e não sabem o que fazer: o que já sabem não basta, é preciso a psicologia. Quanto tempo será preciso para que se deem conta?
É este “eu” que é reconhecido, interpelado e desafiado a partir da sua razão. Que é exigência de nexos, ou seja, de significados, porque o significado de algo é dado pelo sua relação com todos os fatores que se relacionam com ela e pela sua funcionalidade em relação a estes mesmos fatores.
Assim, a razão do homem – erguida por aquela curiosidade que se exprime na pergunta “por quê?” – irridutivelmente busca o significado, sem se contentar com respostas parciais, provisórias.
Verdadeiramente, a razão humana na sua simplicidade original é profecia da atração vencedora (a delectatio victrix) do Verdadeiro e do Uno!
O primeiro dever de um professor – que queira ser educador, não antes, não depois, não ao lado do seu ensino – é, antes de tudo, aquele de ser homem, isto é, de não dar por óbvio o ponto focal da própria humanidade: o seu sujeito mesmo, entender o que ele é e ter uma consciência dele continuamente renovada.
Somente assim ele poderá reconhecer e desafiar o eu do jovem no percurso de autoconsciência, que ainda é o objetivo último da escola – lugar educativo. Não competências e habilidades (que, no entanto, não devem ser desvalorizadas), mas autoconsciência.
É a velha disputa entre Platão e Isócrates (ferozmente contestado também por Aristóteles) sobre a natureza e o valor da paideia: se ela é a busca pelo verdadeiro (ou seja, a autoconsciência) – abstrata e inútil, sustentava Isócrates – ou então se é a competência e a habilidade, muito mais concretas e úteis (embora – como acontece – não adequadas a todos). Parece que a escola de Isócrates era muito mais frequentada do que a de Platão... 

2. Mas, pode um homem ajudar outro homem senão por algo que já existe em si?
É no fenômeno do conhecimento que o homem se dá conta, enquanto faz a experiência disso, da própria razão, da própria afeição e da própria liberdade. O conhecimento é sempre a descoberta de “algo” real e novo, é aquela tomada de posse – consciência – de que fala o Salmo 8; por sua natureza, ela não para, abre-se ao conhecimento de outro; e, em cada passo – cada um ligado ao outro –, sofro aquele contragolpe afetivo no qual tomo cada vez mais consciência do meu ser na realidade – não existe separação entre eu e a realidade –, da minha necessidade de ser (não me faço por mim mesmo), da minha tarefa na realidade diante do ser.
Para que esta palingenesi – novo início – aconteça na escola, na experiência dos jovens e do docente, é preciso que o objeto do conhecimento proposto ao jovem não seja, em última instância, a disciplina, mas a realidade. No entanto, tal dinâmica cognoscitiva acontece toda através da disciplina; é preciso, então, que o docente tenha uma profunda consciência do nexo que passa entre a própria disciplina e a realidade e experiência consciente do que seja o entusiasmo pela realidade total, sem o qual a paixão pelo particular e pela própria matéria assemelha muitíssimo a uma fixação.
O professor entre em sala de aula certamente rico do seu saber – se não soubesse, porque não estuda o que deveria ensinar, arruinaria o objetivo pelo qual entra naquela sala de aula –, mas oferece o próprio saber aos seus estudantes, sobretudo para que aquele saber tome vida em si, alimentando assim nos outros – quase sem se dar conta, por osmose – o studium (valha-me o longo estudo e o grande amor: hendíadis) de uma particularidade do real, não fim em si mesmo (ou seja, em última instância, ao amor próprio de quem sabe), mas porque naquela particularidade se reflete a positividade e a beleza do ser, ou seja, da realidade total.
A lição – de entrada ou não necessariamente –, a verificação, particularmente o tema que se tornou assim um diálogo rico de perguntas: aqui tem início o verdadeiro envolvimento intelectual e afetivo entre docente e alunos.
Estou falando não tanto e não apenas das perguntas que os alunos fazem (mesmo que não esteja desvalorizando sua importância), mas é o professor que sabe como e quando fazer as perguntas, aquelas típicas de quem, na ação que realiza, é livre do particular, porque respira no horizonte mais vasto do significado: do que se trata? O que estamos fazendo? O que sabemos sobre este ponto? O que não sabemos? Por que o enfrentamos? Quais resultados esperamos?
Não se trata de perguntas genéricas – “o que é a liberdade” – que deixam o jovem à mercê do que sente – a este propósito, seria preciso ler os ensaios de Flannery O’Connor –, e tampouco de perguntas de mentira, perguntas retóricas e inquisitoriais, mas perguntas que são oferecidas à consciência e à liberdade do outro para ajudá-lo a entrever a resposta na própria experiência. Começa assim a se constituir um sujeito autônomo e crítico e este é o caminho da chamada re-invenção guiada (H. Freudenthal).
Desse modo, salvamos a nós mesmos mais facilmente, mais do que da vulgaridade de um certo “concreto” (recusa – que começa com o “dar por óbvio” – de um ideal maior do que a somatória das nossas reações, dos nossos pareceres, dos nossos projetos, dos nossos papéis e também dos nossos estudos); salvamo-nos também do perigo de não comunicar aos nossos alunos a alegria de conhecer que é sempre também a alegira do estar juntos (Rigotti).

3. É possível ensinar introduzindo os alunos ao conhecimento de algo sem aninhar em si uma espera pelo novo?
“Conhece-se apenas por acontecimento” (Finkielkraut). Conhecer começa apenas lá onde o homem se encontra diante de um novo, de algo real, não construído por si, outro de si.
Fazendo nossa esta afirmação, nos colocamos em oposição a Petrarca – o verdadeiro “pai” da mentalidade moderna – que, numa carta ao monge beneditino Pierre Bersuire, escreveu: “A quem é especialista em algo nada acontece de novo [por isso] nada acontece de assustador” (Familiares 22). Fazendo nossa esta afirmação damos, porém, razão à nossa experiência, na qual se faz transparente que “é uma irrupção do novo aquilo que rompe as engrenagens [a prisão do já sabido, das definições já dadas], que coloca em movimento o processo” (Finkielkraut) de conhecimento.
De outro lado, o homem que está percorrendo um caminho cognoscitivo sabe muito bem que “há algo de novo hoje no sol, ainda que antigo” (Pascoli): a verdadeira novidade, mesmo sendo imprevista, porque imprevisível, sempre responde a uma espera – não a uma imagem – que, há tempo, se aninha na alma.
Por isso, a resposta a esta terceira pergunta é sim, se a pessoa reduz a sua tarefa àquela de um divulgador, que se limita – e quer se limitar – à descrião e à classificação.
Existe uma grande diferença entre o professor como pesquisador do Verdadeiro (e do Uno) e o professor como aquele que “parte o pão da ciência” com seus estudantes.
Não é possível dar o mesmo peso a Lavoisier, a Proust e a Dalton: todos foram, de algum modo, fundadores da Química (fazendo com que ela desse o salto da alquimia para a sua característica moderna), mas Dalton não se limitou a observar e a descrever a realidade, empenhou-se até ao ponto de formular uma hipótese sobre os motivos das Leis Fundamentais Ponderais: arriscou a hipótese atômica (antes dele, apenas filósofos e poetas haviam falado de átomos), permitindo-nos descobrir, assim, aspectos e dimensões da realidade que se escondem, imediatamente, à nossa observação e que, porém, explicam aquilo que observamos.
Repetindo aquilo que já se sabe, induz-se inevitavelmente no estudante a consciência de uma falta, de um vazio que deve ser preenchido, de uma ausência. Exatamente sobre esta ausência se insere o “poder” de quem deveria educar. Mais do que autonomia, mais do que criticidade: o reconhecimento da dignidade do jovem, mesmo que repetido com discurso, permanece distante da postura real do educador.
Mas, para dar crédito à razão e à liberdade do outro, quanta paciência é preciso! É preciso aquela paciência de quem não se esquece de como fez para entender aquilo que sabe, de quem repercorreu várias vezes a história da própria disciplina, mas depois – mais profundamente – de quem tem um sentimento de consanguinidade para com seus alunos; temos o mesmo sangue azul, participamos do mesmo ser, nós e as pessoas que temos diante de nós e esta consciência pode maniferstar-se em nós como incansável busca e incansável adesão à sua categorialidade.
“O ensino, seja lá qual for o ponto de vista a partir do qual o observamos, é sempre uma comparação entre nós e  o infinito [o ser de quem estamos falando]: comparação com o infinito na medida em quem constitutivo do nosso eu; comparação com o infinito na medida em que constitutivo da emergência efêmera e contingente do fenômeno que é sinal; comparação com o infinito na presença da liberdade do outro” (Padre Giussani).
Isto é simplesmente impossível ao homem solitário, a quem não se concebe originalmente em relação.
Termino com um voto a vocês e a mim. O momento mais bonito do ensino acontece quando aquilo que já sei me é dado outra vez por alguém presente; não como definição memorizada, mas como algo que vive, como uma vida em ato. É o momento no qual faz-se experiência de um aspecto do coincidir consigo mesmo (liberdade): somente assim se “arrisca” mudar. E, por isso, o mister do professor é o mais bonito do mundo.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 19 de fevereiro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

“Morrer cantando, quero morrer cantando...”


Editorial do Observador Semanal

Carlos, antes de morrer, entoou seu último canto

A morte chega de repente, afirma o Evangelho, como um ladrão. Não envia um aviso, mesmo que, na maioria dos casos, os sinais de sua visita iminente sejam evidentes. Em nossa clínica, porém, ela tem uma presença contínua. Só em um dos últimos dias cinco pessoas morreram e, entre elas, apenas uma tinha mais de cinquenta anos. Os demais tinham entre trinta e quarenta anos, quatro eram vítimas do câncer e o outro de AIDS. A morte convive comigo vinte quatro horas por dia. Todavia, não me assusta. Porque sua presença me remete – e isso é algo maravilhoso – ao motivo último pelo qual vale a pena viver.
Vejo-a caminhando por todos os quartos da clínica, entre as camas onde, lentamente, meus filhos vão se apagando. Vejo-a pelos corredores, quando escuto o ruído já familiar das rodinhas da maca que acompanha ao necrotério o recém-falecido. Não existe esquina ou detalhe que não me recorde o que disse Cesare Pavese: “a morte virá e tomará teus olhos”.
Existe algo de mais belo do que uma companhia que, em cada momento, tira-o da anestesia que facilmente toma conta da vida? Haverá uma motivação mais humana do que uma companhia que desperta a razão com suas grandes interrogações e consegue que, a cada instante, assumamos o Infinito? Não existe aventura mais humana do que conviver com quem permite viver tendido em direção à eternidade.
Quando estou ao lado de um moribundo, escuto sua respiração difícil que, progressivamente, diminui de intensidade até acabar; quando vejo o moribundo com a boca aberta, como na pintura “O grito” de Munch, como que para, finalmente, permitir que a alma saia do corpo; quando vejo os olhos abertos, de par em par, fixando o desconhecido, o incognoscível, não consigo não me identificar com este meu filho que está se adiantando para preparar-me um lugar no Paraíso.
A última batalha da vida, a decisiva, é duríssima, porque, de seu êxito, depende toda a vida, depende a eternidade. E é bonito ver como a maioria absoluta dos que morrem perderam todas as batalhas da vida, mas ganharam a última e, com ela, a guerra. A morte convive conosco, parece a rainha entre nós, todavia é derrotada sempre porque Cristo Eucarístico, o “Pantocrator”, domina a clínica. Ele mesmo é que acompanha a cada um dos que morrem ao Paraíso.
Enquanto a batalha toma corpo e a morte parece prevalecer, é Cristo o protagonista que, diante de um mínimo de consciência do paciente que lhe permita dizer “SIM”, se apieda, o agarra pela mão e o leva consigo. A evidência deste fato é o rosto sorridente do cadáver. É impressionante ver como a pele, antes enrugada, torna-se jovem, os lábios, antes tensos pela dor, se transformam num sorriso celestial.
“Creio na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém”. É o último artigo do Credo e é o mais esquecido mesmo pelos padres. No entanto, que sentido teriam os demais artigos se este último? São Paulo nos lembra disso em uma de suas cartas: se os mortos não ressuscitam, tampouco Cristo ressuscitou, e nós seríamos o mais loucos do mundo por seguir uma ilusão que não resolve o problema da morte. Porém, Cristo ressuscitou e nós também com Ele. Por isso, ao longo dos séculos, a Igreja sempre nos educou a uma familiaridade com a morte, aquela familiaridade que permitiu a São Francisco dizer: “louvado seja meu Senhor por nossa irmã morte corporal”. A experiência de Francisco acontece diariamente na clínica. Em seis anos, faleceram mais de setecentas pessoas, a maioria delas jovens, depois de um longo calvário.
Carlos, com um estilo de vida boêmio, de origem argentina, passou sua vida vagabundeando por todos os lados, cantando, farreando, distante de Deus. E como a todos os que pensam que a vida é uma farra, durante a qual se colecionam mulheres, se bebe, se faz o que se quer, quando alguma enfermidade chega, a única companhia que lhes resta é a solidão. E assim aconteceu que Carlos, trazido a nossa clínica por umas pessoas piedosas, se encontrou sozinho diante da morte. Porém, estando em nossa companhia, quer dizer, na companhia de Cristo, conheceu o cristianismo, encontrou a Ele.
O dia em que, depois de décadas longe dos sacramentos, pediu a confissão foi uma festa para ele e para todos. A morte perdeu sua cara feia e se tornou desejável, como para um noivo que, depois de muitas lutas, pode coroar seu sonho de amor. Desde aquele dia, retomou o violão e, ainda que todo carcomido pelo câncer, continuou tocando e cantando na clínica até ao último dia, tornando-se a alegria de todos. Alguns dias antes de morrer, compôs uma canção maravilhosa, através da qual expressou toda a sua paixão por Cristo e a espera gozosa de encontrá-Lo. Música e palavras suas.
O título de sua última canção descreve a modalidade com a qual se preparou para morrer e morreu: “Morrer cantando”

“Envolveu-me a escuridão, com seu escuro manto,
tive uma sensação de medo que fez meus passos tremerem
tratei de me afastar e fugir de suas mãos,
mas uma luz potente me arrebatou num choro.

Veio ao meu encontro e iluminou meus anos
voltei a dizer: Cristo, de olhar manso,
senti um amor diferente, a que abracei chorando,
depois da noite sei que existe algo.

Morrer cantando, quero morrer cantando,
Para encontrar a Cristo
quero morrer cantando.

Aquela escuridão que eu temia tanto
Era uma luz viva, era Deus que se aproximava,
um encontro amigo que me está dando
felicidade eterna, alegria e canto.

Já estou na luz e, com Cristo, a salvo
Meu futuro, um presente que me está passando.
Não fujam da morte, não temam seus dentes
Temam apenas perder-se sem Cristo, irmãos.

Morrer cantando, quero morrer cantando,
Para encontrar a Cristo
quero morrer cantando.

Recordo-me do momento, alguns dias antes de morrer, em que, com um esforço grande, colocando todas as suas energias, quis se despedir, presenteando-nos com este canto que testemunha a mudança de sua vida. Uma mudança que aconteceu graças ao encontro com Cristo, aquele Cristo que havia permanecido no fundo de sua memória, como um tesouro que espera ser reconhecido. Toda a clínica vibrou de comoção porque era evidente a vitória de Cristo.
Aquela mesma comoção que vivemos alguns dias atrás, quando Maria, uma mulher brasileira, sozinha, de origem italiana, que, antes de morrer pronunciando o doce nome de Jesus, pediu um sorvete. “Desejo saborear um sorvete antes de morrer”, nos disse. E, enquanto a enfermeira foi comprá-lo, lhe pedi: “Maria, daqui a pouco você vai estar no Paraíso. Peço que você cumprimente a Jesus, José e Maria e a Santíssima Trindade por mim”. E ela: “Sim, padre”. Uma coisa do outro mundo, neste mundo. Que alguém possa se despedir dessa maneira, quando cotidianamente até mesmo a palavra “morte” é censurada. Quando a enfermeira chegou, conseguiu saborear um pouquinho do sorvete, seus olhos já prontos para se apagarem se iluminaram e, pronunciando o doce nome de Jesus, se foi para o céu.
Sua vida tinha sido uma aventura dolorosa, como é a vida de todos aqueles que morrem na clínica, porém o final foi glorioso. O que pode haver de mais bonito do que morrer saboreando um sorvete e dizendo “Tu, meu Cristo!”? Sim, “Tu, meu Cristo!”, porque quando a pessoa chega aqui, normalmente, não conhece a Jesus. Porém, com o tempo, graças à ternura do pessoal (todos, sem exceção, sentem-se abraçados por Cristo), a liberdade de cada paciente adverte a urgência de pronunciar mesmo com palavras “Tu, meu Cristo!”.
É algo paradisíaco ver como, quando pronunciam o doce nome de Jesus, toda a sua personalidade vibra de comoção até às lágrimas. Não é que desapareça a dor, ou reduzamos a dose de morfina, mas é que o nome de Jesus, apenas pronunciado, faz o milagre de devolver a cada um a paz e a serenidade a que aspira o coração.
Amigos, para mim, é uma graça indizível ver, todos os dias, a potência do nome de Jesus... e sinto uma dor muito grande no coração quando vejo quanta falta de fervor há em nós, quão distantes estamos do que significa vibrar pelo simples fato de pronunciar o nome santo de Jesus. Para mim, é uma doçura e uma fortaleza únicas, desde o momento em que desperto até a hora de dormi, afirmar continuamente “Tu, meu Cristo!”, não apenas com o pensamento como também com a boca. Nesta consciência de ser propriedade de Cristo, brota a liberdade de aceitar minha dor e a dor de todos.
Olhando como morrem meus pacientes, com os olhos fixos no Mistério, para cima, para o Infinito, não posso não sentir que esta é a única postura totalmente humana, porque o homem é feito para o Infinito. Recentemente, me comovi quando Etsuro Sotoo, visitando nossa nova clínica, me disse: “Padre, é importante que o teto de cada quarto não seja branco, mas como o belíssimo céu do Paraguai, azul com linhas de nuvens, para que o paciente, quando estiver por morrer, esteja olhando para o céu, sinal do que é o Paraíso”.
E é verdade, porque todos morremos de morte natural, olhando para o Infinito; e quando o Infinito, que se fez carne, é a vida de quem assiste o moribundo, o moribundo mesmo, ao escutar “Tu, meu Cristo!”, mudará sua atitude, às vezes cheia de angústia, em uma entrega total a Cristo e morrerá saboreando a paz de quem alcançou a meta depois de tanto navegar. 
“Sob o denso azul
do céu, uma ave marinha voa;
nunca descansa, porque todas as imagens têm escrito:
mais além”.
Como são verdadeiros estes suspiros dramáticos de Montale, e que intensidade de esperança vibra em nós só de ouvi-los! Meus pacientes tocam já com a mão aquele “mais além” a que tudo remete.

Padre Aldo

* Extraído do Observador Semanal, do dia 03 de setembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.