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sábado, 7 de janeiro de 2012

A lei divina é fonte de vida


Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro

Quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Nas últimas catequeses meditamos sobre alguns Salmos que são exemplos dos gêneros típicos de oração: lamento, confiança, louvor. Na catequese de hoje gostaria de me dedicar ao Salmo 119 segundo a tradição hebraica, 118 segundo a greco-latina: um Salmo muito particular, único no seu gênero. Antes de mais, o é por seu comprimento: é composto, de fato, por 176 versículos divididos em 22 estrofes de oito versículos cada uma. Depois, tem a peculiaridade de ser um “acróstico alfabético”: ou seja, é construído segundo o alfabeto hebraico, que é composto por 22 letras. Cada estrofe corresponde a uma letra deste alfabeto, e com tal letra começa a primeira palavra dos oito versículos da estrofe. Trata-se de uma construção literária original e muito exigente, na qual o autor do Salmo teve que colocar em jogo toda a sua habilidade.
Mas, o que para nós é mais importante é a temática central deste Salmo: trata-se, de fato, de um imponente e solene canto sobre a Torá do Senhor, ou seja, sobre a Sua Lei, termo que, na sua acepção mais ampla e completa, é compreendido como ensinamento, instrução, direcionamento de vida; a Torá é revelação, é Palavra de Deus que interpela o homem e provoca a sua resposta de obediência confiante e de amor generoso. E é de amor pela Palavra de Deus que este Salmo é todo atravessado; ele celebra a sua beleza, a sua força salvífica, a sua capacidade de dar alegria e vida. Porque a Lei divina não é jugo pesado de escravidão, mas dom de graça que torna livres e leva à felicidade. “Nos Teus decretos me deleito; não esquecerei Tua palavra” (v. 16), afirma o Salmista; e em seguida: “Dirige-me na senda dos teus mandamentos, porque nela está minha alegria” (v. 35); e ainda: “Quanto amo a tua lei; passo o dia todo a meditá-la” (v. 97. A Lei do Senhor, a Sua Palavra, é o centro da vida do orante; nela ele encontra consolação, faz dela objeto de meditação, a conserva no seu coração: “Conservo no coração tuas promessas para não te ofender com o pecado” (v. 11), é este o segredo da felicidade do Salmista; e depois ainda: “Caluniaram-me os insolentes, de todo coração guardarei teus preceitos” (v. 69).
A fidelidade do Salmista nasce da escuta da Palavra, a ser guardada no seu interior, meditando-a e amando-a, exatamente como Maria, que “guardava, meditando-as no seu coração” as palavras que lhe eram dirigidas e os eventos maravilhosos nos quais Deus Se revelava, pedindo o seu assentimento de fé (cf. Lc 2, 19.51). E se o nosso Salmo começa nos primeiros versículos proclamando “felizes” os “que caminham na Lei do Senhor” (v. 1b) e “os que guardam os Seus ensinamentos” (v. 2a), é ainda a Virgem Maria quem leva à plena realização a perfeita figura do crente descrito pelo Salmista. É Ela, de fato, a verdadeira “feliz”, proclamada por Isabel porque “creu no cumprimento daquilo que o Senhor lhe disse” (Lc 1, 45), e é dEla e de sua fé que Jesus mesmo dá testemunho quando, à mulher que lhe havia gritado “Feliz o seio que te carregou”, responde “Mais felizes são aqueles que escutam a palavra de Deus e a põem em prática!” (Lc 11, 27-28). Certamente, Maria é feliz porque o seu seio carregou o Salvador, mas sobretudo porque acolheu o anúncio de Deus, porque foi atenta e amorosa custodiadora da Sua Palavra.
O Salmo 119 é, portanto, todo tecido ao redor desta Palavra de vida e de felicidade. Se o seu tema central é a “Palavra” e a “Lei” do Senhor, ao lado destes termos aparecem, em quase todos os versículos, sinônimos como “preceitos”, “decretos”, “mandamentos”, “ensinamentos”, “promessa”, “juízos”, e tantos verbos vinculados a estes como observar, guardar, compreender, conhecer, amar, meditar, viver. Todo o alfabeto passa através das 22 estrofes deste Salmo, e também todo o vocabulário do relacionamento confiante do crente com Deus; encontramos nele o louvor, o agradecimento, a confiança, mas também a súplica e o lamento, sempre, porém, atravessados pela certeza da graça divina e da potência da Palavra de Deus. Mesmo os versículos mais marcados pela dor e pelo senso de escuridão permanecem abertos à esperança e são permeados de fé. “Estou prostrado no chão; dá-me vida conforme tua palavra” (v. 25), reza confiante o Salmista; “Sou como um odre exposto à fumaça, mas não esqueço teus estatutos” (v. 83), é o grito do crente. A sua fidelidade, mesmo se colocada à prova, encontra força na Palavra do Senhor: “a quem me insulta, poderei responder que tenho confiança na tua palavra” (v. 42), ele afirma com firmeza; e mesmo diante da perspectiva angustiante da morte, os mandamentos do Senhor são o seu ponto de referência e a sua esperança de vitória: “Por pouco não me expulsaram deste mundo, mas não abandonei teus preceitos” (v. 87).
A lei divina, objeto do amor apaixonado do Salmista e de todo crente, é fonte de vida. O desejo de compreendê-la, de observá-la, de orientar a ela todo o próprio ser é a característica do homem justo e fiel ao Senhor, que a “medita dia e noite”, como recita o Salmo 1 (v. 2); é uma lei, a de Deus, que deve ser mantida “no coração”, como diz o bem conhecido texto do Shemá no Deuteronômio:
“Ouve, ó Israel! (...) trarás gravadas no teu coração todas estas palavras que hoje te ordeno. Tu as repetirás com insistência a teus filhos e delas falarás quando estiveres sentado em casa ou andando a caminho, quando te deitares ou te levantares” (Dt 6, 4.6-7).
Centro da existência, a Lei de Deus solicita a escuta do coração, uma escuta feita de obediência não servil, mas filial, confiante, consciente. A escuta da Palavra é encontro pessoal com o Senhor da vida, um encontro que deve se traduzir em escolhas concretas e se tornar caminho e seguimento. Quando Lhe é perguntado o que fazer para ter a vida eterna, Jesus aponta o caminho da observância da Lei, mas indicando como fazer para levá-la à realização: “Só te falta uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me” (Mc 10, 21). A realização da Lei é seguir Jesus, andar no caminho de Jesus, em companhia de Jesus. 
O Salmo 119 nos leva, portanto, ao encontro com o Senhor e nos orienta para o Evangelho. Há nele um versículo sobre o qual eu gostaria de me dedicar: é o versículo 57 – “Eu disse: Minha porção, Senhor, é guardar Tuas palavras”. Também em outros Salmos o orante afirma que o Senhor é a sua “porção”, a sua herança: “O Senhor é a minha parte da herança e meu cálice”, recita o Salmo 16 (v. 5a), “rochedo do meu coração e minha porção é Deus para sempre!” é a proclamação do fiel no Salmo 73 (v. 26b), e ainda, no Salmo 142, o Salmista grita ao Senhor: “És meu refúgio, és a minha porção na terra dos vivos” (v. 6b).
Este termo – “porção” – evoca o evento da repartição da terra prometida entre as tribos de Israel, quando aos Levitas não é dada nenhuma porção do território, porque a sua “porção” era o Senhor mesmo. Dois textos do Pentateuco são explícitos quanto a isto, utilizando o termo em questão: “O Senhor disse a Aarão: ‘Tu não terás herança na terra dos israelitas, nem haverá porção para ti em seu meio. Eu sou tua porção e tua herança no meio deles’”, assim declara o Livro dos Números (Nm 18, 20), e o Deuteronômio reitera: “Por isso Levi não tem porção nem herança com seus irmãos, porque o próprio Senhor é a sua herança, como o Senhor teu Deus lhe prometeu” (Dt 10, 9; cf. Dt 18, 2; Js 13, 33; Ez 44, 28).
Os sacerdotes, pertencentes à tribo de Levi, não podem ser proprietários de terras no país que Deus dava como herança para o seu povo, realizando a promessa feita a Abraão (cf. Gn 12, 1-7). A posse da terra, elemento fundamental de estabilidade e de possibilidade de sobrevivência, era sinal de bênção, porque implicava a possibilidade de construir uma casa, de criar os filhos, de cultivar os campos e de viver dos frutos da terra. Pois bem, os Levitas, mediadores do sagrado e da bênção divina, não podem possuir, como os outros israelitas, este sinal exterior da bênção e esta fonte de subsistência. Inteiramente doados ao Senhor, devem viver apenas dEle, abandonados ao Seu amor providente e à generosidade dos irmãos, sem ter herança porque Deus é a sua porção da herança, Deus é a sua terra, que os faz viver em plenitude.
E agora, o orante do Salmo 119 aplica a si esta realidade: “A minha porção é o Senhor”. O seu amor por Deus e pela Sua Palavra o leva à escolha radical de ter o Senhor como único bem e também de guardar as Suas palavras como dom precioso, mais valioso do que toda herança, e do que toda posse terrena. O nosso versículo, de fato, tem a possibilidade de uma dupla tradução e poderia mesmo ser lido da seguinte maneira: “A minha porção, Senhor, eu disse, é guardar as Tuas palavras”. As duas traduções não se contradizem, mas se completam: o Salmista está afirmando que a sua porção é o Senhor, mas também que guardar as palavras divinas é a sua herança, como, em seguida, dirá no versículo 111: “Minha herança para sempre são teus testemunhos, são esses a alegria do meu coração”. É esta a felicidade do Salmista: a ele, assim como para os Levitas, foi dada como porção de herança a Palavra de Deus.
Caríssimos irmãos e irmãs, estes versículos são de grande importância também hoje para todos nós. Antes de mais para os sacerdotes, chamados a viver apenas do Senhor e da Sua Palavra, sem outras seguranças, tendo Ele como único bem e única fonte de verdadeira vida. Nesta luz se compreende a livre escolha do celibato pelo Reino dos céus, que deve ser redescoberto na sua beleza e força. Mas estes versículos são importantes também para todos os fiéis, povo de Deus pertencente apenas a Ele, “reino de sacerdotes” para o Senhor (cf. 1Pd 2, 9; Ap 1, 6; Ap 5, 10), chamados à radicalidade do Evangelho, testemunhas da vida trazida pelo Cristo, novo e definitivo “Sumo Sacerdote” que se ofereceu em sacrifício para a salvação do mundo (cf. Hb 2, 17; Hb 4, 14-16; Hb 5, 5-10; Hb 9, 11ss). O Senhor e a Sua Palavra: isto é a nossa “terra”, na qual viver na comunhão e na alegria.
Deixemos, portanto, que o Senhor coloque em nosso coração este amor pela Sua Palavra, e nos conceda ter sempre no centro da nossa existência Ele e Sua santa vontade. Peçamos que a nosssa oração e toda a nossa vida sejam iluminadas pela Palavra de Deus, lâmpada para os nossos passos e luz para o nosso caminho, como diz o Salmo 119 (cf. v. 105), de forma que nosso caminhar seja seguro, na terra dos homens. E Maria, que acolheu e gerou a Palavra, seja nossa guia e nosso conforto, estrela polar que indica a via da felicidade. 
Então, também nós poderemos nos alegrar em nossa oração, como o orante do Salmo 16, com os dons inesperados do Senhor e pela imerecida herança que coube a nós:
“O Senhor é a minha porção da herança e meu cálice. Nas tuas mãos, a minha porção. Para mim a sorte caiu em lugares deliciosos, maravilhosa é minha herança” (Sl 16, 5-6).

* Extraído do site do Vaticano, do dia 9 de novembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Cartas do P.e Aldo 204


Asunción, 6 de setembro de 2011.

Caros amigos,
Um fato ocorrido nas últimas semanas me colocou diante da contemporaneidade de Cristo e, portanto, se tornaram um grande possibilidade para fixar nos olhos, de maneira intensa, Jesus.
Eu já estava com as passagens aéreas no bolso para ir à Itália, quando, numa tarde, os médicos e o diretor da clínica chegaram no meu escritório e me disseram: “Padre Aldo, seu filho Aldo [meu filho adotivo, portador de gravíssimas deformações físicas] está muito doente e não temos certeza de que conseguirá sobreviver. Gostaríamos que ele permanecesse aqui na clínica e não fosse enviado a um hospital, onde acabaria sendo deixado morrendo, enquanto que nós queremos acompanhá-lo em sua morte”. Vi-me, uma vez mais, diante de uma decisão: estão me esperando no Meeting e, aqui, os médicos me dizem que meu filho está com os dias contados. O que fazer? Fico e atraso em alguns dias a partida, a fim de ver se ele melhora, ou desisto de ir ao Meeting? Uma escolha difícil porque estavam em jogo os últimos dias do meu filho. E um filho, especialmente quando é adotivo, é a sua mesma carne, ainda mais porque é fruto de uma gratuidade total. Alguns me disseram: como é que o senhor pode ir, deixando-o sozinho, ao invés de acompanhá-lo nas suas últimas horas? Eu sentia meu coração em pedaços, sentia em mim um sentimento que me dizia: você deve ficar. Porém, uma vez mais eu me perguntei: o que Cristo pede de mim, neste momento?
E dois juízos me ajudaram a tomar a decisão de ir. O primeiro: aquele filho me foi dado e se Cristo decidiu pedi-lo de volta, quem sou eu para não devolvê-lo? O segundo: a realidade me pede para estar presente no Meeting e em La Thuile, onde acontecerá a assembleia internacional. Ou seja, a realidade me chama a estar onde estão aqueles amigos que mais me lembram que “É o Senhor”, os amigos que mais me mostram o rosto de Jesus. E eu preciso disto porque, do contrário, não consigo enfrentar a vida todos os dias e nem mesmo o dia de meu filho, que, seja como for, não morrerá sozinho, mas na companhia dos meus amigos da clínica. E assim, peguei o avião com a grata surpresa de que me filho se recuperou. É impressionante ver como Deus me educa a ser livre, ou seja, a confiar no seu desígnio que, qualquer que seja, é sempre positivo, mesmo quando, no momento, parece ser injusto e você preferiria se rebelar. Dizer “Tu, meu Cristo” nunca é algo óbvio, mas se dá sempre dentro de um abandono seu, cheio de dor, cujo resultado é uma estranha letícia.
Os filhos não são algo que nos pertence, e só o são quando amamos o desígnio de Deus sobre eles, mesmo quando isso coincide com o fato de eles nos serem tirados. É assim que me acontece todos os dias. Assim como a cada vez a dor é sempre maior, porque quanto mais Cristo o agarra, tanto mais você se descobre vulnerável, tanto mais você sofre. Se antes de encontrar Jesus nem mesmo uma “pedrada na cabeça” movia o meu coração, agora que Cristo me tomou, basta um grão de areia para que eu sinta toda a dor que me circunda.
Amar, ou seja, deixar-se tomar por Cristo é sofrer e sofrer é amar. E quanto mais você é de Cristo, tanto mais você sofre; e tanto mais você sofre, quanto mais você busca Cristo. Ou, para dizer mais claramente, Cristo nos torna mais vulneráveis, mais sensíveis, mais atentos a cada detalhe.
Rezem por mim e por meus filhos.
Com afeto,
Padre Aldo

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Quem nos livrará das ilusões do mau desejo?



Por Francesco Botturi

Num recente trabalho de Pietro Barcellona foi reproposto o tema da modernidade tecnológica e da sua orientação ao pós-humano, na qual se delineia uma alternativa prático-histórica para as “tradições culturais humanistas” com seu patrimônio ético-religioso e metafísico. Uma reflexão renovada, em suma, acerca da potencial, e em parte já atual, sublevação antropológica, de que falavam também dois recentes e interessantes textos de Antonio Allegra.
A questão é hoje fundamental; persistiríamos em não querer compreender o nosso tempo se não  notássemos que ele é atravessado por uma tendência, altamente sintomática ainda que minoritária, a considerar antiquado e falido o humanismo ocidental (veja-se, por exemplo, Sloterdijk recordado por Allegra) e a encarar como única alternativa possível e desejável uma disponibilização técnica integral do homem e do mundo, como racionalização criativa da existência. Portanto, não tanto uma alternativa laica própria do humanismo tradicional (para ficar claro, o humanismo dos direitos humanos, da solidariedade internacional, da democracia liberal etc.), mas uma alternativa frontal e global à ideia do humano como paradigma e medida intangível de sentido.
Trata-se não de uma forma nova de humanismo, mas de uma hipótese pós-humanista, na qual o humano encontra novo sentido na medida em que é sujeito-objeto ao mesmo tempo das mais avançadas possibilidades de transformação técnica. Uma técnica não mais concebida a serviço de um grande projeto reformador (estaríamos ainda numa visão humanista de um ideal meta-técnico colocado como guia dos processos históricos), mas uma técnica entendida como operadora de uma grande e integral transformação consequente ao seu experimentalismo mesmo (da qual, segundo penso, a ideia do “futurismo” italiano foi uma antecipação artístico-cultural interessante: a técnica não mais como executora de projetos, mas como criadora em si mesma de novidades, produtora, por si mesma, de nova antropologia).
Esta visão exasperada do nosso futuro se mantém e se torna atraente em razão de um concurso de fatores persuasivos, que é oportuno evidenciar: racionalidade técnico-científica, exercício de poder e experiência de liberdade. Uma síntese operativa que, na realidade, não deixa ninguém indiferente, porque coloca em jogo fatores antropológicos primários. Por isto, mesmo quem não assume como sua uma visão pós-humanista hard, compartilha facilmente dela a perspectiva de fundo que considera o homem como um constructo psíquico ou social modificável conforme o gosto – como recorda Barcellona –, como já é particularmente visível no vasto âmbito da biopolítica contemporânea; ou melhor, a aceitação de tais perspectivas é o modo normal com o qual o humanismo tradicional se desintegra por dentro no uso contemporâneo.
Isto adquirido, não acredito, porém, que seja proveitoso proceder através de uma sistemática contraposição entre o novo paradigma e o da tradição humanista. Mesmo porque neste tipo de confronto – entre aquilo que tem um seu passado e aquilo que tem um seu futuro – é óbvio que sai ganhando quem for mais persuasivo... Trata-se muito mais de entrar na síndrome antropológica que fundamenta a perspectiva pós-humana para compreender o que do humano está em jogo e o que torna tão atraente assim este jogo do humano.
Falei acerca de três fatores convergentes significativos; consideremo-los outra vez. A importância da racionalidade científica e técnica é óbvia, assim como é evidente o reducionismo que faz dela o paradigma do conhecimento e da ação. A crítica a tal reducionismo já é habitual e facilmente compartilhada: outras formas de conhecer e agir são essenciais para o homem e para a sua condição histórica. Menos usual é, porém, a consideração acerca da motivação que torna fascinante tal reducionismo. Ela está ligada ao baricentro da síndrome pós-humanista, que está no exercício de poder, expressão prática, concreta e eficiente de um fator humano subentendido, absolutamente decisivo: o desejo.
O fascínio da perspectiva pós-humanista – ainda que se leve em consideração suas exasperações e loucuras – é o seu apelo secreto ao desejo humano de transformação da sua condição histórica numa condição qualitativamente superior. Desejo que é o vetor irreprimível da aventura humana (como tentei mostrar no texto La generazione del beneA geração do bem, em tradução livre – publicado pela Vita e Pensiero, em 2009). A impotência contemporânea da tradição humanista – segundo penso – deriva principalmente da sua incapacidade de se fazer competitiva no plano do desejo humano, da discussão sobre seu objeto adequado, da sua proposta como forma possível de vida. Então, mesmo o terceiro elemento de fascínio, a experiência da liberdade, poderia assumir um significado diferente do de um exercício libertário e subjetivo da escolha para se tornar compromisso voluntarista com a aventura do desejo e relação solidária com as outras liberdades.
Para uma perspectiva neo-humanista não é suficiente a contraposição ao pós-humanismo; é necessária uma perspectiva sensata, na qual os fatores de influência do pós-humanismo – saber, desejo e poder, liberdade – encontrem uma amplitude e uma síntese melhores.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 20 de julho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Entendi, com meus alunos, o que é a escola...


Por Mario Caponnetto

Depois de seis anos ensinando no Centro de Formação Profissional In-presa, neste ano me perguntei qual a incidência que os adultos têm no percurso dos jovens e, sobretudo, qual a incidência que os professores têm entre os alunos, visto que, frequentemente, o professor é uma figura a ser suportada mais do que alguém de quem se aprende algo. Buscando responder a estas perguntas, li com atenção as redações de fim de ano, das quais consegui uma ajuda para julgar, de modo realista, o meu percurso como professor.
Dei-me conta de que aconteceu uma experiência verdadeiramente educativa, porque foram respeitadas certas condições.
Antes de mais, nada daquilo que aconteceu foi censurado, porque tudo foi acolhido e julgado. “Durante o estágio, tive alguns desentendimentos com Marco e Mathias e, às vezes, a vontade de ir trabalhar ia embora”, diz Simone, aluno do I Elétrico; da mesma forma, Mirco, seu colega de sala, que na carta final na qual faz um resumo de como o ano passou, escreve: “Cara Emilia, eu me chamo Mirco e estou na escola há um ano. Gostei muito, mesmo tendo tido alguns desentendimentos com os professores por causa dos meus modos de estar em sala”. Os desentendimentos acontecem, mas não são tudo, se forem julgados: podem representar um passo verdadeiro em direção a uma conquista maior.
O primeiro modo de julgar os limites é aceitá-los, como diz Luigi acerca de seu tutor na empresa: “Cara Emilia, sou Luigi... os meus pontos de referência mais importantes foram os tutores na empresa, particularmente Rossano. Ele foi muito mais do que alguém que me deu um trabalho, porque, mesmo sendo consciente das minhas escassas capacidades, me aceitou e elogiou por aquilo que fiz”.
É apenas assim que se descobre que alguém pode lhe dar uma mão, que você não está sozinho com o seu limite, mas que pode olhá-lo de frente. “No início, eu me sentia sem lugar, a minha situação era parecida com a de um peixe fora d’água, eu tinha sido colocado na cozinha sem ao menos saber as técnicas básicas, eu me sentia inútil... Esta situação melhorou mês após mês, até atingir a autonomia nas tarefas mais elementares e superar problemas que, no início, me pareciam intransponíveis. Giacomo me deu uma mão e tanto”, disse Riccardo do I Auxiliar de Cozinha. Gabriele, um aspirante a eletricista, diz algo parecido: “No laboratório, não sou muito prático, mas os professores me dizem que é normal, de fato aprendi muitas coisas que eu não sabia, e para im isto quer dizer que tenho satisfações”.
Eis outra grande descoberta: posso estar diante dos meus limites apenas se tem alguém que me ajuda a olhar para eles, alguém que vê mais, que vê na frente. O adulto se encontra ali para me ajudar a olhá-los, não para censurá-los; por isto, é alguém que me deixa mais livre, como disse Cristian: “O tutor na empresa sempre me fez sentir em casa, me fez sentir livre para aprender e errar! Teve muita paciência, visto que, no início, eu era como uma criança que engatinha, não sabia caminhar”. É um adulto que ajuda a ver a realidade, que introduz na realidade, até dentro dos aspectos mais difíceis, aqueles a que é necessário se habituar: “Durante o primeiro mês de estágio, eu não estava satisfeita com meu trabalho. Quando comecei a me habituar com os horários e os tempos do restaurante, comecei a me sentir satisfeita com o meu trabalho”, disse Giulia.
O adulto, de um lado, faz entender o valor da fadiga que deve realizar, mas, de outro, oferece a possibilidde de se apaixonar por um pedaço da realidade, como nos testemunha Carlos: “A minha matéria preferida é Cidadania, uma matéria muito importante, porque nos mantém sempre informados de coisas interessantes”. Também Michael se interessou por uma matéria: “A minha matéria preferida é Inglês; tendo uma garota tão bonita como professora, é possível fazer as tarefas melhor e com mais vontade”. É uma paixão que tem que ver com a descoberta do belo, às vezes através do rosto de uma bela professora, mas tem que ver também com uma gratificação, como disse Stefano: “Por hora, o prato que mais gostei de fazer foi a crostata. Mais do que um prato, é um doce e digo que me dei muito bem porque o professor me disse isso, ele havia dito também que era melhor do que a que ele havia feito”.
Depois de ter descoberto uma paixão, um professor, um tutor, Alessandro, um aluno do segundo ano, chegou a dizer: “Para mim, o estágio é como uma partida de futebol: é bonito, mas cansa”. E Niccolò chegou a falar da escola em termos quase poéticos: “para definir a escola eu usaria a metáfora da neblina, porque a neblina, depois de um tempo, se dissolve. Quando cheguei aqui, não sabia nada, mas agora estou começando a entender esta profissão, exatamente como a neblina que se dissolve”.
Pode acontecer que um aluno entenda mais o que quer fazer e decida mudar o percurso: “Cara Emilia, me chamo Simone, sou do II B Elétrico e tenho 16 anos. Este ano foi bom. Consegui encontrar minha pérola! No início do ano, tive a oportunidade de ver se o eletricista era o meu caminho e, de fato, não era; assim, experimentei o curso de arquivista, mas também este não era o meu caminho. Assim, escolhi seguir a minha paixão, ou seja, estar em contato com os animais e fiquei bem. [...] Quem sabe, quando eu estiver grande, poderei me especializar como adestrador”. Pode acontecer também que se abra algo que estava fechado há tempos ou que, talvez, nunca se tenha aberto: “Sempre fui uma garota daquelas que odeia estudar, mas esta escola conseguiu me fazer abrir a vontade de estudar, de conhecer e aprender a história das paixões que tenho dentro de mim, daquilo que escolhi como o trabalho do meu grande futuro”, disse Yuney, aluna do I Auxiliar de Cozinha.
Por isto, Mattia, depois de ter descoberto que pode enfrentar os seus limites sem censurá-los, depois de ter descoberta que também ele pode ter uma paixão, que tem alguém pronto a acolhê-lo e a ensinar-lhe uma profissão, pode dizer: “Para mim, este ano voou, sem que eu nem me desse conta”.
Portanto, o que é a escola? Marco é quem explica muito bem: “Cara Emilia, estou freqüentando a sua escola porque quero ter um futuro, ser alguém, mesmo porque ser garçon é o que eu sempre quis fazer, e esta escola, a sua escola, me permite realizar este meu sonho”.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 28 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

domingo, 10 de abril de 2011

Nosso coração se estende para além do muro da morte...

Bento XVI

Angelus

Praça São Pedro
Domingo, 10 de abril de 2011.

Caros irmãos e irmãs!
Faltam somente duas semanas para a Páscoa, e as Leituras bíblicas deste domingo falam da ressurreição. Não ainda da de Jesus, que irromperá como uma novidade absoluta, mas da nossa ressurreição, aquela a que aspiramos e que Cristo mesmo nos deu, ressurgindo dos mortos. Com efeito, a morte representa, para nós, como que um muro que nos impede de ver além; e no entanto o nosso coração se estende para além deste muro, e mesmo se não podemos conhecer aquilo que ele esconde, todavia o pensamos, o imaginamos, exprimindo com símbolos o nosso desejo de eternidade.
Ao povo hebreu, no exílio distante da terra de Israel, o profeta Ezequiel anuncia que Deus abrirá os sepulcros dos deportados e os fará retornar para a sua terra, para repousarem em paz (cf. Ez 37, 12-14). Esta aspiração ancestral do homem de ser sepultado junto com os seus pais é saudade de uma “pátria” que o acolha no término das fadigas terrenas. Esta concepção não contém ainda a ideia de uma ressurreição pessoal da morte, que aparece somente por volta do final do Antigo Testamento, e que, no tempo de Jesus, ainda não era muito bem recebida por todos os judeus. De resto, mesmo entre os cristãos, a fé na ressurreição e na vida eterna, não raramente, é acompanhada de muitas dúvidas, de muita confusão, porque se trata sempre de uma realidade que ultrapassa os limites da nossa razão, e requer um ato de fé. No Evangelho de hoje – a ressurreição de Lázaro – escutamos a voz da fé da boca de Marta, a irmã de Lázaro. A Jesus que lhe diz: “Teu irmão ressuscitará”, ela responde: “Sei que ressurgirá na ressurreição do último dia” (Jo 11, 23-24). Mas, Jesus replica: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, mesmo se morrer, viverá” (Jo 11, 25-26). Eis a verdadeira novidade, que irrompe e supera toda barreira! Cristo abate o muro da morte, nEle habita toda a plenitude de Deus, que é vida, vida eterna. Por isto, a morte não teve poder sobre Ele; e a ressurreição de Lázaro é sinal do seu pleno domínio sobre a morte física, que diante de Deus é como um sono (cf. Jo 11, 11).
Mas, há outra morte, que custou a Cristo a luta mais dura, até ao preço da cruz: é a morte espiritual, o pecado, que ameaça arruinar a existência de todo homem. Para vencer esta morte, Cristo morreu, e a sua Ressurreição não é o retorno à vida anterior, mas é a abertura de uma realidade nova, uma “nova terra”, finalmente reunificada com o Céu de Deus. Por isto, São Paulo escreve: “Se o Espírito de Deus, que ressuscitou Jesus dos mortos, habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo dos mortos dará a vida também aos vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que habita em vós” (Rm 8, 11). Caros irmãos, voltemo-nos para a Virgem Maria, que já participa desta Ressurreição, para que nos ajude a dizer com fé: “Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus” (Jo 11, 27), a descobrir verdadeiramente que Ele é a nossa salvação.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 10 de abril de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O equívoco sobre as competências faz mal aos professores e aos estudantes


Por Dario Nicoli

Continua a reflexão de Dario Nicoli sobre o tema das competências. O primeiro artigo foi publicado no IlSussidiario.net de 29 de março (e traduzido para o português por Paulo R. A. Pacheco; ndt). 

Este posicionamento só foi possível graças à consciência acerca das três dimensões fundamentais do saber:
- o saber possui uma dimensão lógico-cognitiva que pressupõe uma linguagem, um campo de referência e, além do mais, uma epistemologia que permite delinear os mapas conceituais e os esquemas cognitivo-operativos das disciplinas;
- o saber apresenta também uma dimensão afetiva e relacional que permanece escondida quando se reduz a inteligência a pura função de cálculo, memória e repetição. Todo âmbito disciplinar possui a capacidade de “sedução” no sentido que exprime um fascínio próprio capaz de atrair a pessoa e suscitar emoções. Assim, acontece uma mobilização da inteligência emocional, solicita-se ao estudante que se coloque em jogo, que cuide do objeto do seu estudo apreciando o caráter pessoal e social do saber, seja como procedimento seja como aspiração e necessidade;
- finalmente, o saber evidencia uma dimensão concreta: todo conhecimento está implicado na realidade que constitui seu ambiente, a partir do qual toma vida, dando nome às coisas e aos processos, tornando compreensível aquilo que acontece, contribuindo para formular hipóteses de solução e motivando a utilização dos instrumentos idôneos, fornecendo critérios apropriados para avaliar o percurso que se está percorrendo e sugerir melhorias. O caráter prático do saber está presente também na sua epistemologia: de fato, diz-se que um saber é abstrato no sentido de que foi “extraído” da realidade que representa o lugar no qual ele é necessariamente encorporado.
O poder da cultura e a “pessoa competente” – É exatamente devido a estas três características do saber – lógico-cognitiva, afetiva e relacional, concreta – que se podem pensar experiências de aprendizado não mais inertes, mas vitais, capazes de solicitar ainda mais a pessoa do estudante que, dessa forma, tem a ocasião de experimentar pessoalmente a cultura.
O jovem que se aproxima do saber é colocado, dessa forma, numa afeição que solicita a sua sensibilidade e suscita um vínculo e um desejo de aprender sobre; ao mesmo tempo, ele é levado a colher o valor daquilo que aprende, visto que, através dele, abre-se cada vez mais para a realidade, descobre a possibilidade de conhecê-la efetivamente e, portanto, se torna consciente das próprias capacidades e dos próprios talentos.
É preciso explicitar bem que a competência não é um objeto nem um fator que possa ser transferido do professor para o discente. Ela indica, em sentido próprio, a qualidade de uma pessoa, que é reconhecida quando esta se mostra capaz, com provas tangíveis e significativas, de mobilizar os próprios recursos – habilidades e conhecimentos – a fim de fazer frente, de modo adequado, às tarefas e aos problemas que lhe são confiados.
A competência não é assimilável nem a um conjunto de saberes, e nem mesmo a uma adaptação social, mas indica uma característica de natureza ético-moral da pessoa, uma disposição positiva diante do real. Competente é a pessoa autônoma e responsável que tem consciência dos próprios talentos e da própria vocação, possui um sentido positivo da existência, entra em relação de modo amigável com a realidade em todas as suas dimensões, de onde extrai os principais fatores em jogo, se insere de forma recíproca no tecido da vida social no qual age de modo significativo e eficaz.
As habilidades e os conhecimentos constituem a trama e, ao mesmo tempo, os ingredientes de uma ação formativa para tarefas e problemas que é capaz de solicitar o estudante no sentido da descoberta do valor do saber como fonte de afeição, útil, dotado de sentido.
Paola Mastrocola, no seu recente volume Togliamo il disturbo (Acabemos com o problema; ndt), na sua batalha antipedagógica, acha conveniente o expediente que tende a confundir a competência com a habilidade, reduzindo esta última a “exigência das empresas”. Na realidade, uma abordagem por competências permite que se fixe, de modo unívoco e comprometido para todos – professores, estudantes e famílias –, as metas necessárias para uma séria preparação do aluno: por exemplo, indicando nas evidências (ou desempenhos esperados) o correto domínio da língua ainda que apenas no perfil lexical, ortográfico e gramatical; além de, prevendo que o estudante saiba apresentar publicamente as obras literárias de autores tidos como indispensáveis, manifestando nisso não apenas preparação, mas também paixão e capacidade de convencimento junto dos seus companheiros. A abordagem por competências tem como meta, na realidade, “olhar para cima” e contrastar com a tendência à banalização do saber e ao desaparecimento de um real domínio pela palavra, mas o faz evitando posições restauradoras que não são credíveis porque não prestam contas com a realidade cultural e social do nosso tempo, que não é demonizada, mas compreendida, tomando dela o que tem de bom. Enquanto que o fechamento nas velhas escolas por pouco resulta numa operação, no longo prazo, pouco convincente exatamente naquele plano cultural que se declara, pelo contrário, desejoso de defender da enésima “nova barbárie”.
Nesta perspectiva, a escola pode, como afirma Jerome Bruner, cultivar as energias naturais que estimulam o aprendizado espontâneo ou “vontade de aprender”, aquelas que não dependem de uma recompensa externa, mas derivam de uma fonte intrínseca à pessoa, sendo inerente à feliz realização da atividade:
- a curiosidade: de fato, a mais singular característica humana é a atitude a ser aprendida;
- o desejo de competência, ou seja, o estímulo para enfrentar e resolver problemas, de forma que a competência se torna, por sua vez, um fator de motivação antes ainda de se tornar uma capacidade conseguida;
- a aspiração por emular um modelo proposto pelos professores entendidos como equipe, o que não significa necessariamente imitar o mestre, mas no fato de que ele se torne parte integrante do diálogo interno do estudante, uma pessoa de quem ele deseja o respeito, de quem quer fazer suas as qualidades;
- o compromisso consciente por se inserir no tecido da reciprocidade social, que representa o desejo intrínseco na natureza humana de responder aos outros e cooperar com ele tendo em vista um objetivo comum: há no vínculo social uma energia intrínseca para aprender, e não se trata de uma imitação, mas de uma dinâmica na qual se aprende reciprocamente.
A vontade de aprender é um motivo intrínseco, que encontra a sua fonte, a sua recompensa no exercício de si. Ela se torna um problema apenas em determinadas circunstâncias: como aquelas de uma escola na qual se impõe um programa, os estudantes são privados de toda iniciativa, a linha a ser seguida é rigidamente fixada. Portanto, não há um problema de aprendizado em si, mas de um método de ensino que impõe tarefas que não conseguem alavancar as energias naturais do aprendizado próprias do aluno.
O método para o aprendizado autêntico – O ensino não é uma sucessão de aulas e nem mesmo uma simples sequência de práticas operativas, mas é a organização e a animação de situações de aprendizado que se referem a situações reais na qual o sujeito é chamado a exercer papéis ativos, procedendo através deles na plena consciência e domínio também teórico dos saberes subjacentes.
Para trabalhar de modo consciente sobre as competências é necessário, portanto, coligar cada uma das competências a um conjunto delimitado de problemas e de tarefas; inventariar os recursos intelectivos (saberes, técnicas, saber-fazer, atitudes, competências mais específicas) colocados em ação pela competência considerada.
O discente se torna, dessa maneira, capaz de fazer uma experiência cultural que mobiliza suas capacidades e solicita suas boas potencialidades. O saber se mostra a ele como um objeto sensível, uma realidade ao mesmo tempo simbólica, prática e explicativa.
Isto comporta a escolha de ocasiões e de tarefas que consintam ao estudante fazer a descoberta pessoal do saber, reportar-se a ele com um espírito amigável e curioso, compartilhar com os outros esta experiência, adquirir um saber efetivamente pessoal.
É errado contrapor a didática por competências àquela por disciplinas; além do mais, a primeira, se bem entendida, contrasta a degeneração desta última que consiste na redução do trabalho do professor à transferência de uma certa quantidade de noções sem um vínculo buscado nem com os estudantes nem com a realidade, mas nem mesmo com os colegas. O ensino “empregadizado” se tornou uma rotina e, assim, a liberdade de ensino degenerou no automatismo.
O professor não se limita a transferir os conhecimentos, mas é um guia capaz de fazer perguntas, desenvolver estratégias para resolver problemas, levando o discente, assim, a compreensões mais profundas. Os “produtos” da atividade dos estudantes constituem as evidências de uma avaliação confiável, fundada em provas reais e adequadas.
O valor da didática por competências é definido pelas seguintes metas formativas: formar cidadãos conscientes, autônomos e responsáveis; reconhecer os aprendizados adquiridos; favorecer processos formativos eficazes e capazes de mobilizar as capacidades e os talentos dos jovens, tornando-os responsáveis pelo próprio caminho formativo; caracterizar de maneira europeia o sistema educativo italiano, tornando possível a mobilidade das pessoas no contexto comunitário; favorecer a continuidade entre formação, trabalho e vida social ao longo de todo o curso da vida; valorizar a cultura viva do território como recurso para o aprendizado; permitir uma corresponsabilidade educativa por parte das famílias e da comunidade territorial. (Fim da parte 2).

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 6 de abril de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O mito da excelência: corrida em direção à felicidade ou em direção ao nada?


Por Anna Alemani

Alguns dias atrás, no ginásio de uma escola de bairro (Paulus Hook, Jersey City, NJ), assisti à projeção de Race to Nowhere (Corrida para lugar nenhum; ndt), um documentário sobre um aspecto muito debatido do atual sistema escolar dos Estados Unidos: a crescente pressão a que são submetidos os estudantes para atingirem a excelência – acadêmica, mas não só. Race to Nowhere concentra-se sobre o caso dos adolescentes que frequentam a escola, mas a corrida começa quando ainda são pequenos: todo o sistema escolar público está se transformando num mecanismo para formar e selecionar os estudantes melhores, aqueles destinados a vencer a competição com os seus coetâneos e entrar nas universidades mais prestigiosas dos EUA, ter acesso às profissões mais desejáveis, ganhar o máximo e poder, finalmente, viver contentes.
Vicki H. Abeles, diretora de primeira viagem, aponta o dedo contra os programas públicos como No Child left Behind (Nenhuma criança deixada para trás; ndt) da administração Bush e Race to the Top (Corrida para o topo; ndt), a principal iniciativa dedicada à educação do presidente Obama. Estes programas fundaram a reforma do sistema escolar sobre a introdução de rígidos critérios de seleção para os professores e padrões acadêmicos para os estudantes. A reforma, além do mais, encorajou a competição entre os institutos escolares, dado que os fundos que vêm do governo federal para os estados dependem diretamente do atingimento deste padrão, e portanto dos resultados nos testes sobre determinadas matérias a que são submetidos os estudantes de vários níveis.
Fundada sobre a convicção de que a introdução de objetivos quantificáveis no nível da aprendizagem contribua para melhorar os resultados individuais, a reforma causou um deslocamento da atenção dos estudantes do “aprender” para o “aprender a fazer prova”, e do “preparar-se para a universidade” para o preparar-se para “se apresentar bem” na universidade. A competição para entrar numa faculdade Ivy League (as oito universidades mais famosas do nordeste dos EUA: Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Princenton, University of Pennsylvania e Yale; ndr) é implacável e não basta ter a nota mais alta da classe, é preciso também ter sucesso no esporte, participar de atividades culturais, fazer voluntariado etc. Muitos adolescentes acabam buscando atalhos, como copiar nas provas ou usar remédios que potencializam o desempenho.
Abeles, mãe de três filhos, está particularmente preocupada com os efeitos imediatos deste processo de doutrinação de massa: estresse, anorexia, depressão e uma crescente taxa de suicídio entre os adolescentes. Todavia, são evidenciadas também algumas consequências indiretas: para render ao máximo nas provas os estudantes tendem a memorizar passivamente aquilo que sabem que será pedido na prova, ao invés de aprenderem aquilo que é necessário aprender para se tornarem bons profissionais. Essas provas de múltipla escolha se concentram, de fato, em critérios mensuráveis como capacidade linguística e matemática, enquanto que outros conhecimentos humanistas são considerados inúteis até mesmo para serem avaliados. E no entanto é evidente que capacidades técnicas não bastam para formar gestores, inovadores, pensadores e empresário. Além do mais, é razoável nos perguntarmos se os estudantes que não são motivados pela curiosidade, pela paixão e satisfação pessoal, não acabarão buscando atalhos ou agindo de forma pouco ética também na sua vida profissional.
Além da ênfase colocada sobre o fato de que a tensão compromete a saúde física e mental dos adolescentes, uma conclusão interessante do filme é que, frequentemente, o motivo que move estes jovens a participar da corrida é o seu desejo de uniformidade, de serem aceitos e satisfazerem as expectativas de outros, antes de tudo de seus pais. Como se o desejo de ter sucesso na escola fosse assumido como próprio, mas não coincidisse com o seu verdadeiro desejo. Neste cenário, nem mesmo os professores oferecem uma solução, avaliados e pagos, eles também, a partir de seus resultados em provas idênticas. Antes pelo contrário, muitos professores qualificados abandonam o sistema público, desencorajados e desmotivados.
Race to Nowhere dá uma descrição vívida e realista da realidade, mas não fornece uma resposta satisfatória para a questão colocada e, em alguns momentos, soa muito mais como uma lamentação.
Qualquer um que tenha experimentado o processo de admissão numa faculdade dos EUA sabe que pode ser estressante: você deve escrever sobre você mesmo e suas motivações, apresentar carta de recomendação, fazer testes de comportamento e colóquios pessoais. As escolas tentam selecionar os candidatos mais fortes, aqueles que com o seu sucesso contribuirão para fazer a reputação da escola crescer, e para fazer isto utilizam critérios simples e superficiais que garantirão, se não a certeza, pelo menos a maior probabilidade de escolher os melhores. É darwinismo, pelo menos na versão mais simplista, aplicado à educação: promove-se uma seleção natural das características que aumentam a capacidade de competir de um indivíduo.
O objetivo é minimizar o risco do processo: risco de selecionar um estudante destinado a falhar, risco de ensinar algo que se revelará inútil, risco de encorajar comportamentos não conformes. E no entanto, selecionando e promovendo apenas os estudantes considerados “melhores” com base nestes critérios mensuráveis, descuida-se daqueles que têm outras capacidades úteis mas não facilmente mensuráveis. Eliminando o risco, sacrificamos também um ganho potencial. “As naturezas desviantes – explica Nietzsche em Humano, demasiado humano – são da mais alta importância onde quer que se queira produzir algum progresso... as naturezas mais fortes conservam o tipo, enquanto que as mais frágeis contribuem para fazê-lo evoluir”.
A educação, por si mesma, é feita de uma proposta livre de pais, educadores ou professores para seus jovens. É a liberdade compreendida nesta proposta que permite distinguir uma pressão positiva de uma pressão negativa. O que torna a pressão negativa é o uso incondicionado de padrões e teorias para avaliar o progresso e a aprendizagem individual. Este confronto contínuo com o padrão é contraproducente, porque a realidade nunca coincidirá com a abstração.
A mesma tensão pode ser positiva se se parte do desejo de conhecer e aprender com o qual todos nascemos, fornecendo aos estudantes os meios para seguir esta inclinação natural. Ao lado destes métodos de reforma, seria necessário utilizar abordagens mais abertas e individuais, que prestem atenção na unicidade de cada estudante e na sua motivação, deixando-os livres para explorar, arriscar, errar e corrigir-se ao invés de obrigá-los a aderir, imitar ou agradar. Sobretudo, é preciso professores especialistas e dotados de liberdade de currículo, colocados em condição de poder chamar a atenção dos próprios alunos para esta curiosidade original e motivá-los sem criar pressão.
Mas, é extremamente difícil manter este positivo, e é muito mais simples ficar ligado ao padrão, sobretudo com os próprios filhos, porque este positivo implica uma liberdade e a liberdade implica um risco e o risco dá medo. Parece-me que os adolescentes de Race to Nowhere sejam jovens que perderam a segurança em si mesmos. E assim também seus pais. Parece-me que os EUA, como povo, perderam a segurança nas próprias capacidades na competição com povos mais esfomeados e motivados, como os da China ou da Índia. Talvez, pertençamos a povos muito viciados e tenhamos nos esquecido do que nos motiva, do que nos move. A motivação não nasce do que “deve” fazer, mas do que “quer” fazer.
Mais do que reduzir os programas, eliminar as notas ou não dar mais tarefas (como o filme propõe), a questão da pressão da corrida poderia se tornar tensão em direção à própria satisfação, se se desenvolvesse a consciência da própria motivação e se se partisse do próprio desejo. Os pais deveriam também começar a ter confiança nos próprios filhos, considerando os adolescentes responsáveis e competentes com os próprios desejos. Sair-se bem na escola seria, então, visto como expressão de e não oposição ao próprio desejo de satisfação. Para dizer em duas palavras: não se é obrigado a ir para a universidade para se ser feliz. Mas, se o deseja, isto é o que a realidade lhe pede para fazer.
Em A causa das crianças, a psicanalista francesa Françoise Dolto disse que “o objetivo é a saída de um obscurantismo latente que cresce a grandes passos quanto àquilo que diz respeito à educação dos jovens... são criados de modo inteligente apenas as crianças que cresceram sob a confiança dos pais. Pais que se empenham em guiar e sustentar o desejo dessas crianças no limite do possível. Aceitam que o desejo se manifeste. As crianças têm confiança nos pais respeitosos do próprio acesso à autonomia que encorajam, confiando na confiança dos filhos em si mesmos. O futuro de uma população é representado pela sua juventude”.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 3 de março de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mc 6,53-56
Naquele tempo, tendo Jesus e seus discípulos acabado de atravessar o mar da Galiléia, chegaram a Genesaré e amarraram a barca. Logo que desceram da barca, as pessoas imediatamente reconheceram Jesus. Percorrendo toda aquela região, levavam os doentes deitados em suas camas para o lugar onde ouviam falar que Jesus estava. E, nos povoados, cidades e campos onde chegavam, colocavam os doentes nas praças e pediam-lhe para tocar, ao menos, a barra de sua veste. E todos quantos o tocavam ficavam curados.

Comentário feito por Santo Agostinho (354-430)
Bispo de Hipona (África do Norte) e Doutor da Igreja 

Todos os homens querem ser felizes; não há ninguém que não o queira, e com tanta intensidade que o deseja acima de tudo. Melhor ainda: tudo o que querem para além disso querem-no para isso. Os homens perseguem paixões diferentes, um esta, outro aquela; também existem muitas maneiras de ganhar a vida neste mundo: cada um escolhe a sua profissão e exerce-a. Mas quer adotem este ou aquele gênero de vida, todos os homens agem nesta vida para serem felizes. [...] O que há então nesta vida capaz de nos fazer felizes, que todos desejam mas que nem todos alcançam? Procuremo-lo. [...] Se eu perguntar a alguém: "Queres viver?", ninguém se sentiria tentado a responder-me: "Não quero". [...] Do mesmo modo, se eu perguntar: "Queres ser saudável?", ninguém me responderá: "Não quero". A saúde é um bem precioso aos olhos do rico e, para o pobre, ela é muitas vezes o único bem que ele possui. [...] Todos concordam no amor pela vida e pela saúde. Ora quando o homem desfruta da vida e é saudável, poderá contentar-se com isso? [...] Um homem rico perguntou ao Senhor: "Mestre, que devo fazer para ter a vida eterna?" (Mc 10, 17) Ele temia morrer e era forçado a morrer. [...] Ele sabia que uma vida de dor e de tormentos não é vida, e que se lhe deveria antes dar o nome de morte. [...] Apenas a vida eterna pode ser feliz. A saúde e a vida neste mundo não a garantem, tememos demasiado perdê-las: chamai a isto "temer sempre" e não "viver sempre". [...] Se a nossa vida não é eterna, se não satisfaz eternamente os nossos desejos, não pode ser feliz, nem sequer é vida. [...] Quando entrarmos nessa vida, teremos a certeza de aí ficar para sempre. Teremos a certeza de possuir eternamente a verdadeira vida sem qualquer temor, pois encontrar-nos-emos naquele Reino sobre o qual se diz: "E o Seu reino não terá fim" (Lc 1, 33).

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Por que não conseguimos ser chineses sem a China?


Por Giovanni Cominelli

A transliteração da primeira linha do Livro I da Metafísica de Aristóteles soa assim: Pàntes ànthropoi to eidénai orégontai fùsei.  Traduzido: “Todos os homens, por natureza, desejam saber”. É a frase que inaugura a civilização europeia. Mas, se levantarmos os olhos dos “textos sagrados” e os voltarmos para os jovens das nossas escolas, para aqueles que estão diante de nós cada manhã, aqueles cujos professores passam para frente em série, cada um com a sua mochila de noções que deverão ser descarregadas ali, na cátedra, entre os bancos, a afirmação aristotélica não parece, de fato, muito evidente. Os nossos jovens têm desejo de aprender?
As observações empíricas tiradas dos estudos da OCDE (Organização pela Cooperação e o Desenvolvimento Econômico; ndt) e outros órgãos semelhantes evideciam dois dados: os jovens dos países desenvolvidos têm cada vez menos desejo de estudar; os jovens dos países em vias de desenvolvimento têm um desejo de estudar maior do que os seus coetâneos “ricos”. Saiba-se que entre os países desenvolvidos se delineia uma hierarquia: a Finlândia está entre os primeiros lugares. Mas a observação “nasométrica” realizada pelas escolas de Milão e do entorno, onde a comparação foi possível por causa da presença crescente e múltipla de quase cem etnias, confirma nos jovens de fora um desejo de estudar maior do que o que há nos nativos italianos. Constatação análoga vale para os jovens parisienses, londrinos, berlinenses, nova-iorquinos... As políticas dos sistemas educativos na Europa, reformados há muito tempo ou nunca – como é o caso da Itália –, se degladiam há anos com este dado.
Este fato contém uma pergunta dramática colocada a ele: a queda do desejo de aprender significa a queda do desejo em geral? Visto que o desejo é sempre “desejo de...” – assim como o pensamento é sempre “pensamento de...” – e visto que o desejo humano é uma massa de logos e de libido, a queda do desejo de aprender marca uma queda de interesse e de amor pela realidade e um rodopio narcísico do Eu numa espiral de vontade de potência ou de depressão de impotência. Se generalizado, marca uma enorme transformação antropológica e de civilização.
Se fosse assim, seria necessário muito mais do que algum reforma dos sistemas educativos. É preciso não apenas uma ideia diferente do educar e, portanto, do ensinar, mas sobretudo é preciso construir uma nova civilização, já que esta – que foi construída nos últimos trezentos anos – parece ter exaurido a própria energia interior. Este é o último pensamento dos sociólogos das transições e dos filósofos da história, bem como dos roteiristas ocidentais. Marx, Nietzsche, Spengler, Teillhard de Chardin, Baumann – para citar alguns – representam os pólos teóricos destes diagnósticos-visões-previsões de civilização.
Há uma versão menos dramática da primeira questão. Sim, os homens, por natureza, desejam saber, mas o sistema educativo que os deveria acompanhar rumo ao saber é uma ponte arruinada. Construída em outras épocas, mais especificamente a partir do século XVIII, com materiais velhos e métodos ultrapassados, para sociedades que desapareceram ou que estavam em vias de... Podemos dizer, então, que o desejo está intacto, o sistema educativo, porém, o está impedindo de se erguer em direção à sua margem. A isto se acrescentem o novo homo sapiens que se está delineando, os digital natives, o cérebro digital etc.
Enquanto isso, aquilo que se vê é que os filhos jovens do velho mundo euro-russo-americano se cansam de se empenhar. O reino da abundância e da liberdade que Marx propunha na segunda metade do século XIX, como fim e destino inevitável do comunismo, chegou justamente pela estrada do capitalismo. Mesmo que as diferenças de classe e de renda continuem muito agudas, mesmo nos países desenvolvidos e entre os países desenvolvidos, é evidente a divergência  entre o mundo euro-russo-americano, de um lado, e o latino-americano ou asiático, de outro. É como se a superabundância dos bens cortasse na raiz o desejo de aprender, de fazer, de estudar, de lutar. Enquanto os “pobres” desejam, os “ricos” consomem. Deste ponto de vista, a relação China-EUA é paradigmática.
Quais conclusões práticas provisórias se podem tirar dessa relação, excluindo-se o fato de que na Europa seja possível adotar o modelo chinês fundado na repressão familiar e social, sobre um autoritarismo feroz e sobre a fome, e que já é praticado na Itália, desde os anos 1950? É preciso assumir como ligadas umas às outras todas as dimensões das políticas da educação e da instrução. É preciso realizar uma Kulturkampf nos fundamentos antropológicos da nossa civilização. Se os fundamentos estão podres, isto fica evidente, em primeiro lugar, no sistema educativo. É preciso fazer uma reforma radical do sistema educativo, de tal forma que seja capaz de construir os fundamentos de uma nova civilização.
Separar estes dois aspectos: a batalha antropolótica e a batalha tecnicamente educativa significava, respectivamente, reduzir a batalha pela civilização a uma pregação ideológica, na medida em que aceita passivamente culturas, programas, estruturas, administrações do sistema educativo vigente; ou então iludir-se de que as novas tecnologias didáticas, as novas estruturas institucionais, as novas formas de autonomia, avaliação, formação e recrutament de novos professores sejam capazes, por si, de ressuscitar o desejo de aprender. Na transição de civilização que estamos vivendo, em direção a estuários desconhecidos, a questão educativa se torna um empreendimento global.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 24 de janeiro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Eis porque o nosso “terrível” desejo de felicidade não é vão


Entrevista com Fabrice Hadjadj, feita por Federico Ferraù

“Basta encostar a mão contra a própria garganta para sentir a pulsação do sangue nas nossas artérias. É o sinal de que a nossa vida deve se tornar como que um rio: entrar em relação com a fonte através de todos os córregos da nossa história e fluir sem parar numa oferta”. Nesta longa entrevista, o filósofo francês Fabrice Hadjadj, hoje no Meeting de Rímini para apresentar o livro de Dom Giussani L’io rinasce in un incontro, fala com o Il Sussidiario sobre o coração humano, continuamente em equilíbrio entre o absurdo e a graça.

“Aquela natureza que nos impulsiona a desejar coisas grandes é o coração”. Segundo o senhor, em que sentido o título do Meeting deste ano é um desafio para os nossos dias?
O desafio é reconhecer em si um desejo que não vem de si. O coração é muito surpreendente, sobretudo para um individualista. Não falo em nível espiritual ou sentimental. Falo exatamente do miocárdio. Temos, em nós, este órgão que bate por um tempo que não decidimos, uma espécie de maestro a quem está ligada toda a nossa vida fisiológica. Trata-se de oxigenar o nosso sangue certamente, o que associa o coração à respiração, o “poema da respiração” diz Rilke, visto que a inspiração e a expiração nos outorgam este ensinamento admirável: a vida não está na independência, no isolamento, na autonomia, está num movimento (um teólogo diria que está em uma “pericoresi”) onde nunca se para de receber e de dar. Eis que se reduzem a nada, imediatamente, todas as pretensões de independência!

Dom Giussani diz que o simples fato de que o nosso coração existe é já uma provocação.
Ele tem razão. Basta encostar a mão contra a própria garganta para sentir a pulsação do sangue nas nossas artérias. É o sinal de que a nossa vida deve se tornar como que um rio: entrar em relação com a fonte através de todos os córregos da nossa história e fluir sem parar numa oferta. A promessa se encontra em Isaías: Eis que vou fazer a paz correr para ela como um rio (Is 66, 12). E também o Evangelho: Quem crê em mim, do seu interior manarão rios de água viva (Jo 7, 38). Certamente esta promessa pode dar medo. Alguns prefeririam reduzir-se aos seus pequenos barris de água parada. Em todo caso, o que é certo é que o cristianismo não é uma série de normas sufocantes, é ao contrário o “desejo de coisas grandes”, de tal forma grandes que superam a capacidade humana. Para acolher é preciso aceitar ser dilatados, ser até mesmo rasgados.

É mesmo necessario chamar a atenção da “natureza” para definir o coração do homem?
O termo “natureza” vem de “nascer”. Nascer é ter recebido a existência e, portanto, não ser a origem do próprio ser. Ter uma natureza é ter recebido, no nascimento, uma certa estrutura de existência, um dinamismo, uma tendência que está em mim e da qual eu não sou o artífice. É aquilo que dissemos sobre o coração: o centro do meu ser não está sob o meu controle, aquilo que tenho de mais íntimo me remete a um outro que não sou eu. Eu me desperto com os meus desejos: beber um café, folhear o jornal, ganhar mais dinheiro, beijar Caterina Murino, mas há em mim também outra coisa: este terrível desejo de felicidade.

Por que o senhor o chama “terrível”?
O dinheiro pode dar-me a felicidade? Caterina pode fazer isso? Se este desejo de felicidade não encontra vias de escape, acaba por me fazer destruir aquilo que eu, no início, havia desejado: como esse algo não é a “coisa grande”, acabo por jogar fora ou dizer isso na sua cara. Ou então me destruo a mim mesmo: como me contento com coisas pequenas, acordo a elas um valor que não têm e sufoco o meu coração. Atenção, não quero dizer que Caterina Murino, criada a imagem de Deus (e que imagem!), seja algo de pequeno. Mas, para poder estar de acordo com o meu coração, seria preciso que Caterina fosse cheia de graça, de verdade, de eternidade até (como a sua frágil beleza me deixa entrever). Seria necessário que Caterina fosse divina. Não posso fazer nada a este respeito. Está na minha natureza (na natureza de todo homem por pouco que escute o próprio coração). Dante entendeu isso muito bem. Há em nós o desejo da Coisa Grande que é Deus mesmo. Mas este desejo de Deus não deve nos levar a desprezar as criaturas (desprezar as criaturas seria necessariamente desprezar o seu Criador). Pelo contrário: o desejo de Deus nos faz desejar a divinização das criaturas. Portanto, desejar “coisas grandes” não significa rejeitar uma Beatriz anã, nem fantasiar uma Beatriz de dois metros e quarenta, mas desejar uma Beatriz tal “che Dio parea nel suo volto gioire” [“que Deus pareça, no seu rosto, se alegrar” (Paraíso XXVII, 105)].

Hoje em dia, estamos convencidos de que as ideias “fortes” não têm nenhum direito ou poder sobre nós. No melhor dos casos, se elas têm algum, é reservado ao âmbito privado, não ao público. É o mesmo também para o cristianismo? Deve ele limitar a sua “pretensão” sobre o homem?
Afirmar que as ideias fortes não têm nenhum poder sobre nós, eis aqui uma ideia, e uma ideia fraca. O homem não é um animal governado pelos instintos. Aquilo que, para o homem, cumpre o papel do instinto é a sua razão. Ele é sempre orientado por ideias, boas ou más, ideias de todas as formas (e de todas as falsificações). O homem inicia, portanto, sempre com o ser um ideólogo (pelo menos depois do pecado original). Utiliza termos abstratos. Por exemplo, diz “tudo bem”. Assim, numa conversa qualquer. Mas, “tudo bem” é algo de abstrato e enorme, é uma questão imensa na sua boca e ele não se dá conta porque é um ideólogo. De fato, deveria sair da ideologia e ir em direção à realidade, ou seja, perguntar-se: o que é verdadeiramente, realmente, “bem”? Trata-se simplesmente de tomar consciência das palavras que já estão ali, na nossa língua, entre as nossas palavras mais cotidianas e descobrir o seu peso concreto.

Qual é este peso?
Dom Giussani amava repetir estas palavras do salmista: Tu, Senhor, és meu único bem (Sl 16, 2). Esta é a concretude! Isso traça um caminho, afirma concretamente no que consiste o meu bem, e me conduz a atos que empenham a minha vida. Mas esta palavra possui algo de exorbitante. É a razão pela qual Dom Giussani acrescentava: “Uma frase assim carregada e assim peremptória, assim definitiva e totalizante, que a pode repetir?” (L’io rinasce in un incontro, p. 59).

E quanto ao que diz respeito à esfera privada, que goza de um direito absoluto?
Quanto ao que concerne à “convicções privadas”, trata-se de uma invenção burguesa: o pequeno possuidor quer afirmar que possui uma propriedade que é mesmo sua e que não pertence a nenhum outro. Mas, ao mesmo tempo, acaba por se dar conta: esta propriedade é morta se ele não acolher ninguém nela. Cada espaço privado se realiza somente na hospitalidade. E assim se torna público. Pelo contrário, peguem um jardim publico: ele assume todo o seu valor quando, por exemplo, vocês estão com uma garota, sentados num banco, ou com um velho amigo, numa conversa íntima. Cada espaço público se realiza somente no encontro entre pessoas. E assim se torna privado. Trago esses exemplos para mostrar que a separação público/privado é uma ficção muito artificial. É literalmente uma mutilação, visto que tal ficção declara: aquilo que vocês têm em no coração não deve ser gritado nas praças. Mas, se não há mais comunicação entre seus corações e suas palavras, quer dizer que não são mais homens. São uma carpa. E acabam por abocanhar todos os anzóis.

O senhor escreveu que a pretensão cristão é “tomar o poder sobre o teu coração, ou seja conquistar-te sem danificar nem a tua inteligência, nem a tua vontade, mas, pelo contrário, reforçando-o”. Como podemos viver a “pretensão” total da verdade encontrada sem renunciar a nós mesmos?
A resposta se encontra na sua pergunta: só existe encontro se existirem dois seres bem distintos. Então, encontrar a verdade não é uma alienação mas uma realização. Se lhe digo “Deus quer tudo de você”,o senhor se assustará porque comparará o desejo de Deus com o seu, e o seu é estreito, possessivo, redutivo. Mas, repito-lhe o que eu disse: “Deus quer tudo de você”, sublinho, “tudo de você”, ou seja você mesmo completamente, sem mutilações, sem diminuições, sem alienação, e portanto você mesmo com a sua alma e o seu corpo, com a sua inteligência e a sua vontade, com toda a sua liberdade, e até mesmo com uma liberdade infinitamente maior, porque desembaraçada de tudo o que pode haver de impedimento. Isso nos reconduz às palavras do salmo que se canta nas vésperas do domingo: O Senhor estenderá desde Sião teu cetro poderoso: Dominarás, disse ele, até no meio de teus inimigos (Sl 109, 2). Se forço o inimigo, se o dobro mesmo que seja com uma pequena sedução psicológica, dominarei talvez o seu corpo, mas não o seu coração. Dominar até o coração é a pretensão mais terrível e, ao mesmo tempo, a intenção mais doce. Porque não existem outros meios para dominar até o coração senão fazer-se amar livre e inteligentemente, ou seja, respondendo às “exigências do coração”. O catecismo da Igreja católica o diz claramente: “Viver no céu é estar com Cristo. Os eleitos vivem nEle, mas conservando, mais, encontrando a sua verdadeira identidade, o seu próprio nome” (Catecismo, §1025). Por que isso? Porque “o eu renasce e renasce em um encontro”. Porque eu sou eu mesmo apenas na minha relação com o meu Criador e, através dEle, com as outras criaturas. Ser originais não é ser excêntrico. É voltar-se para a origem e viver sempre no jorro da fonte.

A maravilha parece ser a dimensão mais adequada à forma original da nossa razão. Como podemos reencontrar esta dimensão para salvar a razão?
A grandeza da inteligência é efetivamente a de saber sentir-se estupefata. Atenção: sentir-se estupefata não significa ser estúpida. De fato, aquele que é verdadeiramente estúpido é, pelo contrário, aquele que crê saber tudo, que tem resposta para tudo. Quem se sente estupefeito coloca-se em posição de escuta e aprende. Um provérbio hebraico diz: “Quem é sábio? Quem sabe aprender de cada coisa”. Há, portanto, um vínculo entre estupor e estupefação. É aqui – estupefazendo-se, sentindo-se estupefeita – que a razão se abre a tudo o que a supera, àquilo que é encontro vivo, que está para além do cálculo (mas não desprezemos o cálculo, esta capacidade de pesar o real que é também um mistério – devemos apenas submeter o cálculo ao louvor, como na música). O problema não é, portanto, como fazer para redescobrir esta dimensão.

Por que o senhor diz isso?
Porque não se trata de fazer. Se nos limitamos ao “fazer” permanecemos no âmbito do nosso poder, das nossas capacidades, e nos fechamos ao estupor. Não se trata de fazer, mas de ser. O ser é, de fato, no fundo, estupor. Para dar-se conta disso é preciso saber-se abandonar ao repouso, viver – pelo menos um dia por semana, um momento no dia – a bênção do shabbat, que se poderia também chamar a nossa essência dominical. Parem tudo (Parai! Sabei que eu sou Deus, diz o salmo 45) e olhem uma flor, uma paisagem, escutem um quarteto de Mozart (ou de Haydn), contemplem o rosto de uma criança... Admirem mesmo uma garrafa, uma simples garrafa, como Morandi sabe admirá-la, não com uma genialidade especial, mas como um respiro amplo, com o coração aberto e disponível (o que é ainda melhor do que a genialidade), e eis que o mistério aparecerá, a incompreensibilidade da presença de uma garrafa... Mesmo a menor das garrafas é uma garrafa jogada ao mar, que esconde uma mensagem do criador de todas as coisas.

No ano passado, o senhor concluiu a sua entrevista no Il Sussidiario com estas palavras: “É preciso que a ação começa com um gesto de gratuidade. Se esta gratuidade não está presente, nunca estarei na direção do ser”. De onde pode vir esta gratuidade?
Não me lembro de ter dito isso. Talvez porque era exatamente um “gesto de gratuidade”... A gratuidade pode ter dois sentidos. Há a gratuidade do absurdo. E há a gratuidade da graça. Tudo aquilo que fazemos, todos os nossos cálculos, todos os nossos projetos, devem desembocar em uma ou outra dessas gratuidades. Encontrou um bom trabalho, e depois? Casa-se com uma mulher, e depois? Tem filhos, e depois? Ou não há nenhum sentido e você se encontra na gratuidade do absurdo. Ou então, tudo isso tem o sentido de um amor, um amor que dá a vida, e você se encontra na gratuidade da graça. Ou uma ou a outra. Mas antes ainda de entender a gratuidade quanto à finalidade da existência, ela pode ser entendida a partir da sua presença mesma: como é possível que eu esteja aqui? De onde me vem esse dom? É um presente envenenado? Também aqui: ou reconheço a graça de ser, ou então acho absurda a existência (mas nesse último caso me contradigo, porque desfruto da existência para desprezar a existência – esta é a minha própria absurdidade). O ato de render graças é o fundamento de toda ação porque, se não reconheço a graça de ser, então tudo aquilo que poderei fazer será da ordem do desprezo do ser, da regressão, da negação. Isso poderá assumir uma aparência humanista, apresentar-se como uma utopia de sociedade perfeita; na verdade, já que não vejo a existência como uma graça, essa utopia será o triunfo do nada: o seu fundamento será o ressentimento. Sob o pretexto de construir um super-homem ou uma super-sociedade, o empreendimento seria a destruição da sociedade e do homem.

O senhor vai apresentar o livro de Dom Giussani L’io rinasce in un incontro. O que lhe sugeriu a leitura desse livro? O senhor compartilha a escolha do título?
Saibam que se eu encontrei o pessoal de CL é porque aquelas pessoas encontraram afinidade entre o meu modo de colocar as questões e o de Dom Giussani. Eu não o conhecia. Travei contato com sua obra apenas há dois anos atrás. Depois, me pediram para fazer a apresentação, em Paris, do livro É possível viver assim? (em abril de 2009). Naquele momento, pude experimentar aquela afinidade de pensamento. Aquele foi um verdadeiro encontro, precisamente. Fiquei tocado com a simplicidade, a força, a tangibilidade concreta das suas palavras. Assim, a leitura de L’io rinasce in un incontro foi a continuação da mesma onda. Cada vez que leio Dom Giussani não é que encontre ideias novas, porque temos o mesmo enraizamento em Santo Tomás e na poesia e, sobretudo (eu devo isso ao teatro), um senso análogo do drama. Não, aquilo que eu acho, o que é muito melhor, é a novidade das ideias que eu já possuo, uma espécie de energia, de envio missionário, de impulsão no sentido de comunicar e viver na “dramaticidade e letícia...”. Quanto ao título do livro, tem a sua evidência. Uma evidência que imerge na profundidade de Deus. O que sabemos nós dessa profundidade? Deus é Trindade. Ele é único em três Pessoas. O Pai gera o Filho na comunhão do Espírito. De tal forma que Deus mesmo é eternamente nascimento e encontro. Um nascimento e um encontro infinito...

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 28 de agosto de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Ulisses: herói do coração e não apenas do cérebro

Por Alessandro Banfi

Ulisses desembarcou também em Rímini. Aconteceu ontem entre os jovens do Meeting, confirmando a sua fama de grande viajante, renovando seu fascínio que, mais uma vez, pode ser definido como verdadeiramente mítico.
Nos pavilhões da feira tomou corpo, graças às palavras de Simone Invernizzi e di Carmine Di Martino, e graças a alguns grandes escritores. O mito e o gênio, de fato, são destinados a se encontrarem. Partindo de Primo Levi, que dedicou um capítulo inteiro do seu diário de Auschwitz – Se questo è un uomo (traduzido para o português como Os afogados e os sobreviventes, pela editora Paz e Terra) – exatamente ao Canto dantesco de Ulisses. Foi Invernizzi quem introduziu a versão dantesca do mito mais fascinante da nossa cultura ocidental.
Ulisses sempre foi, para nós, como que uma pessoa ainda viva, a encarnação mesma da astúcia, da inteligência, do desejo de sair do mundinho particular para descobrir o mundo inteiro. Mas, em Rímini, quem chegou foi o Ulisses dantesco que, sem perder nada do caráter do primeiro Ulisses, o clássico, o “polutropos” [πολυτρόπως, em grego, quer dizer “de diversas maneiras”; ndt] o herói dos muitos rostos, se torna o emblema mesmo da humanidade, o pretexto para cantar “a estatura do homem”.
E a mostra dedicada a este tema, no Meeting (é preciso dizer, entre parênteses, que as mostras, em Rímini, são sempre muito atraentes e os catálogos da Itaca Libri são preciosos e muito adequados para levar para casa algo mais do que uma simples emoção), aberta por Invernizzi e Martino, num encontro emocionante e muito aplaudido realizado no Auditório da feira, foi em si um pequeno evento com leituras poéticas e muito envolvimento. Ulisses, em Rímini, foi resgatado, revelou-se também como um herói do coração, não apenas do cérebro.
O que há nesse mito clássico revistado por Dante que é capaz de tornar a questão assim viva e presente? O já citado Levi e uma outra vítima da violência estatal e ideológica do século XX, o poeta russo dissidente, Osip Mandelstam, refletiram exatamente sobre o XXVI Canto do Inferno. Ambos, quando eram prisioneiros, se refugiaram na recordação daquele terceto: “Considerate la vostra semenza /  Fatti non foste a viver come bruti / ma per seguir virtute e conoscenza” ("Considerai a vossa origem / Não fostes feitos para viver como os animais / Mas para seguir virtude e conhecimento").
Que hino à humanidade, que sintética e magistral descrição da estatura do humano, do seu desejo! Sem se conhecerem, distantes no tempo por alguns anos, duas vítimas do campo de concentração, um de Hitler e outro de Stálin, pensavam em Dante, no seu Ulisses. Agarraram-se a ele. O Pikolo do romance de Levi, Jean Samuel, ainda está vivo e, anos mais tarde, falou a respeito daquela recitação de Dante em voz alta que Levi fez numa manhã fria de Auschwitz: “Era o protesto extremo do prisioneiro de um campo de concentração”.
Invernizzi e Di Martino explicaram bem que a interpretação que, por anos, se fez de Dante não é uma questão secundária. É como se tivessem existido três grandes correntes de leitura desse mito dantesco. A primeira vai de Croce a De Sanctis e vê uma contradição entre o Dante poeta e o Dante cristão-teólogo. O poeta parece amar Ulisses, mas o teólogo, como Di Martino disse de forma muito eficaz, o “castra”. Depois, tem uma leitura religiosa que vê no desejo de Ulisses um exagero mesmo em relação a Deus, o “voo louco” seria uma culpa, também cristã. Enquanto que será a leitura que Dom Luigi Giussani propõe, n’O senso religioso, a única que fará justiça a este mito.
Certamente, o desejo de Ulisses não é uma culpa, mas é o meio, o como, que o leva ao fracasso. Não é uma questão pequena, porque na negação, ou melhor na limitação do desejo, se joga o que há de mais fundamental. “Resecare spem longam”, já recomendava o poeta romano Horácio, inspirando-se em Epicuro. Literalmente cortar a própria aspiração pelo Infinito para não sofrer. Frase que, se tinha um valor antes da Encarnação, se torna uma censura estridente no mundo depois de Cristo.
Não é por acaso que a interpretação que Giussani faz é a mais próxima da de Eliot, de Auerbach, de Singleton e da estudiosa italiana da obra de Dante, Anna Maria Chiavacci, citada ontem em Rímini.
Se tem algo de sedutor no Meeting é isso: propor as grandes questões da vida e da cultura a um público frequentemente jovem, muito vasto. Por isso, Ulisses passou de muito bom grado também por Rímini.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 24 de agosto de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Rezar é aprender a desejar

Mensagem do Secretário de Estado Cardeal  Tarcisio Bertone,
em nome do Santo Padre Bento XVI,
por ocasião da 31ª edição do Meeting pela Amizade entre os Povos
(Rímini, 22 a 28 de agosto de 2010)

A Sua Excelência Reverendíssima
Dom Francesco Lambiasi
Bispo de Rímini

Excelência Reverendíssima,
com alegria tenho o prazer de transmitir a saudação cordial do Santo Padre a Vossa Excelência, aos organizadores e a todos os participantes do Meeting pela Amizade entre os Povos, que acontece em Rímini.
Este ano, o título da vossa importante manifestação – “Aquela natureza que nos impulsiona a desejar coisas grandes é o coração” – nos recorda que, no fundo da natureza de todo homem, se encontra uma irreprimível inquietude que o impulsiona na busca de algo que satisfaça esse seu desejo. Todo homem intui que é exatamente na realização dos desejos mais profundos do seu coração que se pode encontrar a possibilidade de realização de si, de cumprimento de si, de se tornar verdadeiramente si mesmo.
O homem sabe que não pode responder sozinho às próprias necessidades. Por mais que se iluda de ser autossuficiente, ele experimenta que não é capaz de bastar a si mesmo. Tem necessidade de se abrir ao outro, a algo ou a alguém, que possa doar-lhe aquilo que lhe falta. Deve, por assim dizer, sair de si mesmo em direção daquilo que seja capaz de preencher a amplidão do seu desejo.
Como o título do Meeting sublinha, a meta última do coração do homem não é qualquer coisa, mas apenas as “coisas grandes”. O homem é frequentemente tentado a parar nas coisas pequenas, naquelas que dão uma satisfação e um prazer “baratos”, naquelas que gratificam por apenas um momento, coisas tão fáceis de se obter, quanto ilusórias em última instância. No relato evangélico das tentações de Jesus (cf. Mt 4, 1-4), o diabo insinua que seja “o pão”, ou seja, a satisfação material, aquilo que será capaz de saciar o homem. Esta é uma mentira perigosa, porque contém apenas uma parte de verdade. O homem, de fato, vive também de pão, mas não só de pão. A resposta de Jesus revela a falsidade última dessa posição: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4, 4). Somente Deus basta. Somente Ele sacia a fome profunda do homem. Quem encontrou a Deus, encontrou tudo. As coisas finitas podem dar vislumbres de satisfação ou de alegria, mas somente o Infinito pode preencher o coração do homem: “inquietum est cor nostrum, donec requiescat in te – o nosso coração permanece inquieto enquanto não repousa em Ti” (Santo Agostinho, Confissões, I, 1). O homem, no fundo, tem necessidade de uma única coisa que contenha tudo, mas antes deve aprender a reconhecer, mesmo que seja através de seus desejos e anseios superficiais, aquilo de que realmente precisa, aquilo que quer verdadeiramente, aquilo que é capaz de satisfazer a capacidade do próprio coração. 
Deus veio ao mundo para despertar em nós a sede pelas “coisas grandes”. É possível ver isso muito bem naquela página do Evangelho, de riqueza inesgotável, que narra o encontro de Jesus com a mulher samaritana (cf Jo 4, 5-42), da qual Santo Agostinho deixou um comentário luminoso. A samaritana vivia a insatisfação existencial de quem não encontrara ainda aquilo que procurava:  tinha tido “cinco maridos” e, naquele momento, convivia com outro homem. Aquela mulher, como fazia habitualmente, tinha ido buscar água no poço de Jacó e encontrou Jesus, sentado, “cansado da viagem”, no calor do meio-dia. Depois de lhe ter pedido água, é Jesus mesmo quem lhe oferece água, e não uma água qualquer, mas uma “água viva”, capaz de extinguir a sua sede. E assim ele abria espaço, “pouco a pouco [...] no coração dela” (Santo Agostinho, Comentário ao Evangelho de João, XV, 12), fazendo emergir o desejo de algo de mais profundo do que a simples necessidade de satisfazer a sede material. Santo Agostinho comenta: “Aquele que pedia de beber, tinha sede da fé daquela mulher” (Ibid., XV, 11). Deus tem sede da nossa sede dEle. O Espírito Santo, simbolizado pela “água viva” de que falava Jesus, é exatamente aquele poder vital que aplaca a sede mais profunda do homem e lhe doa a vida total, aquela vida que ele busca e espera sem conhecer. A samaritana deixou, então, por terra o jarro “que, a partir de então, não lhe servia mais, e se havia tornado um peso: estava ávida, desde então, por saciar sua sede apenas com aquela água” (Ibid., XV, 30).
Mesmo os discípulos de Emaús, diante de Jesus, vivem a mesma experiência. É ainda o Senhor que faz “arder o coração” dos dois, enquanto caminhavam “com o rosto triste” (cf. Lc 24, 13-35). Mesmo sem reconhecerem Jesus ressuscitado, durante o trajeto seguido junto com Ele, eles sentiam o coração “arder no peito”, retomar a vida, tanto que, chegados em casa, “insistiram” para que Ele permanecesse com eles. “Fica conosco, Senhor”: é a expressão do desejo que palpita no coração de todo ser humano. Este desejo de “coisas grandes” deve se transformar em oração. Os Padres sustentavam que rezar não é outra coisa senão a conversão de si em desejo insistente do Senhor. Num belíssimo texto, Santo Agostinho define a oração como a expressão do desejo, e afirma que Deus responde alargando nosso coração para Ele: “Deus [...], suscitando o desejo em nós, estende o nosso ânimo; e estendendo-o, o torna capaz de acolhê-Lo” (Comentário à Primeira Carta de João, IV, 6). De nossa parte, devemos purificar os nossos desejos e as nossas esperanças para poder acolher a doçura de Deus. “Esta – continua Santo Agostinho – é a nossa vida: exercitarmo-nos no desejo” (Ibid.). Rezar diante de Deus é um caminho, uma escalada: é um processo de purificação dos nossos pensamentos, dos nossos desejos. Podemos pedir tudo a Deus. Tudo o que há de bom. A bondade e a potência de Deus não conhecem um limite entre coisas grandes e pequenas, entre coisas materiais e espirituais, entre coisas terrenas e celestiais. No diálogo com Ele, levando toda nossa vida diante de Seus olhos, aprendemos a desejar coisas boas, a desejar, no fundo, a Deus mesmo. Narra-se que, em um de seus momentos de oração, Santo Tomás de Aquino ouviu o Senhor Crucificado lhe dizer: “Escreveste bem de mim, Tomás; o que desejas?”. “Nada além de Ti”, foi a resposta do Santo doutor. “Nada além de Ti”. Aprender a rezar é aprender a desejar e, assim, aprender a viver.
Cinco anos depois da morte de Mons. Luigi Giussani, o Sumo Pontífice se une espiritualmente aos membros de Comunhão e Libertação. Como recordou na Audiência do dia 24 de março de 2007, na Praça São Pedro, “Dom Giussani se empenhou [...] em despertar nos jovens o amor por Cristo, ‘Caminho, Verdade e Vida’, repetindo que apenas Ele é o caminho para a realização dos desejos mais profundos do coração do homem”.
Ao confiar aos participantes do Meeting essas reflexões, desejando que sejam de ajuda para conhecer, encontrar e amar sempre mais ao Senhor, e testemunhar no nosso tempo que as “grandes coisas” a que o coração humano anseia se encontram em Deus, Sua Santidade Bento XVI assegura a sua oração e, de muito bom grado, envia a Vossa Excelência, aos responsáveis e organizadores e a todos os presentes, a Benção Apostólica.
Uno, cordialmente, também o meu desejo e me valho dessa circunstância para confirmar-me, com sentimentos de especial obséquio, como, de Vossa Excelência Reverendíssima, devotíssimo no Senhor.
Tarcisio Cardeal Bertone
Secretário de Estado

Do Vaticano, 10 de agosto de 2010.

* Extraído do site do Vaticano, no dia 23 de agosto de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.