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domingo, 4 de março de 2012

A Quaresma com os santos

O amor fraterno a exemplo de Cristo

Do “Espelho da Caridade”, do Bem-aventurado Elredo, abade (Séc.XI)
(Lib. 3,5: PL 195,582)

Nada nos impele tanto ao amor dos inimigos – e é nisso que consiste a perfeição do amor fraterno – do que considerar com gratidão a admirável paciência de Cristo, o mais belo dos filhos dos homens (Sl 44,3). Ele apresentou seu rosto cheio de beleza aos ultrajes dos ímpios; deixou-os velar Seus olhos que governam o universo com um sinal; expôs Seu corpo aos açoites; submeteu às pontadas dos espinhos Sua cabeça, que faz tremer os principados e as potestades; entregou-Se aos opróbrios e às injúrias; finalmente,suportou com paciência a cruz, os cravos, a lança, o fel e o vinagre, conservando em tudo a doçura, a mansidão e a serenidade. Depois, como cordeiro levado ao matadouro ou como ovelha diante dos que a tosquiam, Ele não abriu a boca (Is 53,7). Ao ouvir esta palavra admirável, cheia de doçura, cheia de amor e de imperturbável serenidade: Pai, perdoa-lhes! (Lc 23,34), quem não abraçaria logo com todo o afeto os seus inimigos? Pai, perdoa-lhes!, disse Jesus. Poderá haver oração que exprima maior mansidão e caridade? Entretanto, Jesus não se contentou em pedir; quis ainda desculpar, e acrescentou: Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem! (Lc 23,34). São, na verdade, grandes pecadores, mas não sabem avaliar a gravidade de seu pecado. Por isso, Pai, perdoa-lhes! Crucificaram-Me, mas não sabem a quem crucificaram, porque, se soubessem, não teriam crucificado o Senhor da glória (1Cor 2,8). Por isso, Pai, perdoa-lhes! Julgaram-Me um transgressor da lei, um usurpador da divindade, um sedutor do povo. Ocultei-lhes a minha face, não reconheceram a Minha majestade. Por isso, Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem! Por conseguinte, se o homem quer amar-se a si mesmo com amor autêntico, não se deixa corromper por nenhum prazer da carne. Para não sucumbir a essa concupiscência da carne, dirija todo o seu afeto à admirável humanidade do Senhor. Para encontrar mais perfeito e suave repouso nas delícias da caridade fraterna, abrace também com verdadeiro amor os seus inimigos. Mas, para que esse fogo divino não arrefeça diante das injúrias, contemple sem cessar, com os olhos do coração, a serena paciência de seu amado Senhor e Salvador.

quinta-feira, 1 de março de 2012

A Quaresma com os santos

Imitemos o exemplo de Cristo como pastor 

Das Homilias de Santo Astério de Amaséia, bispo (Séc.V)
(Hom. 13:PG40,355-358.362)

Se quereis parecer-vos com Deus porque fostes criados à Sua imagem, imitai o Seu exemplo. Se sois cristãos, nome que já é uma proclamação de caridade, imitai o amor de Cristo. Considerai as riquezas de Sua bondade. Estando para vir como homem ao meio dos homens, enviou à Sua frente João, como pregoeiro e exemplo de penitência; e antes de João, tinha enviado todos os profetas para ensinarem aos homens o arrependimento, a volta ao bom caminho e a conversão a uma vida melhor. Vindo, pouco depois, Ele mesmo em pessoa, proclamou com a Sua voz: Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados e eu vos darei descanso (Mt 11,28). Como acolheu Ele os que ouviram a sua voz? Concedeu-lhes sem dificuldade o perdão dos pecados e a imediata libertação de seus sofrimentos. O Verbo os santificou, o Espírito os confirmou; o velho homem foi sepultado nas águas do batismo e o novo, regenerado, resplandeceu pela graça. Que conseguimos ainda? De inimigos de Deus, nos tornamos amigos; de estranhos, filhos; e de pagãos, santos e piedosos. Imitemos o exemplo de Cristo como pastor. Contemplemos os evangelhos e vendo neles, como num espelho, o exemplo de sua solicitude e bondade, aprendamos a praticá-las. Vejo ali, em parábolas e figuras, um pastor de cem ovelhas que, ao verificar que uma delas se afastara do rebanho e andava sem rumo, não permaneceu com as outras que pastavam tranquilamente. Saiu à sua procura, atravessando vales e florestas, transpondo altos e escarpados montes, percorrendo desertos, num esforço incansável até encontrá-la. Tendo-a encontrado, não a castigou nem a obrigou com violência a voltar para o rebanho; pelo contrário, tomando-a nos ombros e tratando-a com doçura, levou-a para o aprisco, alegrando-se mais por esta única ovelha recuperada do que por todas as outras. Consideremos a realidade oculta na obscuridade da parábola. Nem esta ovelha nem este pastor são propriamente uma ovelha e um pastor; são imagem de uma realidade mais profunda. Há nesses exemplos um ensinamento sagrado: nunca devemos considerar os homens como perdidos e sem esperança de salvação, nem deixar de ajudar com todo empenho os que se encontram em perigo nem demorar em prestar-lhes auxílio. Pelo contrário, reconduzamos ao bom caminho os que se afastaram da verdadeira vida e alegremo-nos com a sua volta à comunhão daqueles que vivem reta e piedosamente.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Comentário ao Evangelho do dia - Advento


2ª Semana do Advento - Quarta-feira

1ª Leitura - Is 40,25-31
"Com quem haveis de me comparar, e a quem seria eu igual?" - fala o Santo. Levantai os olhos para o alto e vede: Quem criou tudo isto? - Aquele que expressa em números o exército das estrelas e a cada uma chama pelo nome: tal é a grandeza e força e poder de Deus que nenhuma delas falta à chamada. Então, por que dizes, Jacó, e por que falas, Israel: "Minha vida ocultou-se da vista do Senhor e meu julgamento escapa ao do meu Deus?". Acaso ignoras, ou não ouviste? O Senhor é o Deus eterno que criou os confins da terra; ele não falha nem se cansa, insondável é sua sabedoria; Ele dá coragem ao desvalido e aumenta o vigor do mais fraco. Cansam-se as crianças e param, os jovens tropeçam e caem, mas os que esperam no Senhor renovam suas forças, criam asas como as águias, correm sem se cansar, caminham sem parar.

Salmo - Sl 102 (103)
R. Bendize, ó minha alma ao Senhor.
Bendize, ó minha alma, ao Senhor, *
e todo o meu ser, seu santo nome!
Bendize, ó minha alma, ao Senhor, *
nâo te esqueças de nenhum de seus favores! R. 

Pois Ele te perdoa toda culpa, *
e cura toda a tua enfermidade;
da sepultura Ele salva a tua vida *
e te cerca de carinho e compaixão. R. 

O Senhor é indulgente, é favorável, *
é paciente, é bondoso e compassivo.
Não nos trata como exigem nossas faltas, *
nem nos pune em proporção às nossas culpas. R.

Evangelho - Mt 11,28-30
Naquele tempo, tomou Jesus a palavra e disse: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve".

Comentário feito por Pedro de Celles (c. 1115–1183)
monge, depois bispo

Senhor, envia-nos o Cordeiro; é do cordeiro que precisamos e não do leão (cf. Ap 5, 5-6); do Cordeiro que não Se irrita e cuja mansidão nunca Se perturba; do Cordeiro que nos dará a Sua lã, branca como a neve, para aquecer em nós aquilo que está frio, para cobrir a nossa nudez; do Cordeiro que nos dará a Sua carne a comer, para não morrermos de fraqueza no caminho (cf. Jo 6, 51; Mt 15, 32). Envia-O cheio de sabedoria porque, com a Sua prudência divina, Ele vencerá o espírito orgulhoso; envia-O cheio de força, porque está escrito que Ele é "o Senhor, poderoso herói, o Senhor, herói na batalha" (Sl 24, 8); envia-O cheio de mansidão, pois Ele descerá "como os aguaceiros que regam a terra" (Sl 72, 6); envia-O como vítima, porque Ele deverá ser vendido e imolado para nos resgatar (cf. Mt 26, 15; Jo 19, 36; Ex 12, 46); envia-O, não para exterminar os pecadores, pois "não veio chamar os justos, mas os pecadores" (cf. Mt 9, 13); envia-O, enfim, "digno de receber a glória, a honra e a força, [...] digno de receber o livro e de abrir suas páginas seladas" (Ap 4, 11; Ap 5, 9), isto é, o mistério inexprimível da Encarnação.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Dilige et fac quod vis

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 13 de abril de 2011

A santidade

Caros irmãos e irmãs,
Nas Audiências Gerais destes últimos dois anos a figura de tantos Santos e Santas nos acompanhou: aprendemos a conhecê-los mais de perto e a entender que toda a história da Igreja é marcada por estes homens e mulheres que, com sua fé, com sua caridade, com sua vida, foram faróis para tantas gerações, e o são ainda para nós. Os Santos manifestam, de diversas maneiras, a presença poderoso e transformadora do Ressuscitado; deixaram que Cristo tomasse conta tão plenamente de suas vida a ponto de terem podido afirmar com São Paulo que “não sou mais eu quem vive, mas é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20). Seguir o seu exemplo, recorrer à sua intercessão, entrar em comunhão com eles, “nos une a Cristo, do qual, como da Fonte e da Cabeça, emana toda a graça e toda a vida do Povo de Deus” (Conc. Ec. Vat. II, Cost. dogm. Lumen gentium 50). Ao final deste ciclo de catequese, gostaria de oferecer alguns pensamentos sobre o que significa a santidade.
O que quer dizer ser santos? Quem é chamado a ser santo? Frequentemente somos levados a pensar que a santidade seja uma meta reservada a poucos eleitos. São Paulo, pelo contrário, fala do grande ensinamento de Deus e afirma: “Nele – Cristo – (Deus) nos escolheu antes da criação do mundo para sermos santos e imaculados diante dele na caridade” (Ef 1, 4). E fala de todos nós. No centro do desígnio divino está Cristo, no qual Deus mostra o seu Rosto: o Mistério escondido nos séculos se revelou em plenitude no Verbo feito carne. E Paulo, em seguida, nos diz: “Aprouve, de fato, a Deus que habitasse nEle toda a plenitude” (Col 1, 19). Em Cristo o Deus vivo se fez próximo, visível, escutável, tocável, para que cada um pudesse chegar à sua plenitude de graça e de verdade (cf. Jo 1, 14-16). Por isso, toda a existência cristã conhece uma única e suprema lei, aquela que São Paulo expressa numa fórmula que se repete em todos os seus escritos: em Cristo Jesus. A santidade, a plenitude da vida cristã não consiste no realizar empreendimentos extraordinários, mas no unir-se a Cristo, no viver os seus mistérios, no fazer nossos as suas posturas, os seus pensamentos, os seus comportamentos. A medida da santidade é dada pela estatura que Cristo conquista em nós, por quanto, com a força do Espírito Santo, modelamos toda a nossa vida a partir da sua. É o ser conformes a Jesus, como afirma São Paulo: “Aqueles que ele conheceu desde sempre, foram predestinados a serem conformes à imagem do seu Filho” (Rm 8, 29). E Santo Agostinho exclama: “Viva será a minha vida cheia de Ti” (Confissões, 10, 28). O Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a Igreja, fala com clareza do chamado universal para a santidade, afirmando que ninguém está excluído desse chamado: “Nos vários gêneros de vida e nas várias profissões uma única santidade é praticada por todos aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus e... seguem Cristo pobre, humilde e portador da cruz, para merecerem ser partícipes da sua glória” (n. 41).
Mas, permanece a questão: como podemos percorrer a estrada da santidade, responder a este chamado? Posso fazê-lo com minhas próprias forças? A resposta é clara: uma vida santa não é fruto somente do nosso esforço, das nossas ações, porque é Deus, o três vezes Santo (cf. Is 6, 3), que nos torna santos, é a ação do Espírito Santo que nos anima a partir de dentro, é a vida mesma de Cristo Ressuscitado que nos é comunicada e que nos transforma. Para dizê-lo ainda uma vez com o Concílio Vaticano II: “os seguidores de Cristo, chamados por Deus não segundo suas obras, mas segundo o desígnio da sua graça e justificados em Jesus Senhor, no batismo da fé foram verdadeiramente feitos filhos de Deus e coparticipantes da natureza divina, por isso são realmente santos. Eles, portanto, devem, com a ajuda de Deus, manter nas suas vidas, e aperfeiçoá-la, a santidade que receberam” (ibid., 40). A santidade, portanto, tem sua raiz última na graça batismal, no ser enxertados no Mistério pascal de Cristo, com o que nos é comunicado o seu Espírito, a sua vida de Ressuscitado. São Paulo sublinha de modo muito evidente a transformação que a graça batismal opera no homem e chega a cunhar uma terminologia nova, forjada com a preposição “com”: com-mortos, com-sepultados, com-ressuscitados, com-vivificados com Cristo; o nosso destino é indissoluvelmente ligado ao seu. “Por meio do batismo – ele escreve – fomos sepultados junto com ele na morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dos mortos... assim também nós pudéssemos caminhar numa vida nova” (Rm 6, 4). Mas, Deus respeita sempre a nossa liberdade e pede que aceitemos este dom e vivamos as exigências que ele implica, pede que nos deixemos transformar pela ação do Espírito Santo, conformando a nossa vontade à vontade de Deus.
Como pode acontecer que o nosso modo de pensar e as nossas ações se tornam o pensar e o agir com Cristo e de Cristo? Qual é alma da santidade? De novo o Concílio Vaticano II explica, dizendo-nos que a santidade cristã não é outra coisa senão a caridade plenamente vivida. “‘Deus é amor; quem permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele’ (1Jo 4, 16). Ora, Deus difundiu largamente o seu amor nos nossos corações por meio do Espírito Santo, que nos foi dado (cf. Rm 5, 5); por isso, o dom primeiro e mais necessário é a caridade, com a qual amamos Deus sobre todas as coisas e o próximos por amor a Ele. Mas, para que a caridade, como uma boa semente, cresça na alma e dê frutos, todo fiel deve escutar a palavra de Deus e, com a ajuda da sua graça, realizar com obras a sua vontade, participar frequentemente dos sacramentos, sobretudo da Eucaristia e da santa liturgia; aplicar-se constantemente à oração, à abnegação de si mesmo, ao serviço ativo dos irmãos e ao exercícios de toda virtude. A caridade, de fato, vínculo da perfeição e realização da lei (cf. Col 3, 14; Rm 13, 10), dirige todos os meios de santificação, dá a eles forma e os conduz ao seu fim. Talvez esta linguagem do Concílio Vaticano II pareça a nós um pouco solene demais, de forma que seja necessário dizer essas coisas de forma mais simples. O que é essencial? Essencial é nunca deixar um domingo que seja sem um encontro com o Cristo Ressuscitado na Eucaristia; isto não pode ser um peso a mais, mas deve ser a luz para toda a semana. Nunca começar e terminar um dia sem, pelo menos, um breve contato com Deus. E, no caminho da nossa vida, seguir as “placas de sinalização” que Deus nos comunicou no Decálogo lido com Cristo, que é simplesmente a explicitação do que seja a caridade em determinadas situações. Parece-me que esta seja a verdadeira simplicidade e grandeza da vida de santidade: o encontro com o Ressuscitado no domingo, o contato com Deus no início e no fim do dia, seguir, nas decisões, as “placas de sinalização” que Deus nos comunicou, que são apenas formas de caridade. Por isso, “o verdadeiro discípulo de Cristo se caracteriza pela caridade para com Deus e para com o próximo” (Lumen gentium, 42). Esta é a verdadeira simplicidade, grandeza e profundidade da vida cristã, do ser santos.
Eis porque Santo Agostinho, comentando o capítulo quarto da Primeira Carta de São João, pôde afirmar algo tão corajoso: "Dilige et fac quod vis", "Ama e faze o que quiseres". E continua: "Seja que tu silencies, que seja por amor; seja que tu fales, que seja por amor; seja que tu corrijas, que seja por amor; seja que tu perdoes, que seja por amor; exista em ti a raiz do amor, visto que desta raiz só pode proceder o bem" (7,8: PL  35). Quem é guiado pelo amor, quem vive a caridade plenamente, é guiado por Deus, porque Deus é amor. Assim, vale esta grande palavra: "Dilige et fac quod vis", "Ama e faze o que quiseres".
Talvez, nos perguntemos: será que podemos, com nossos limites, com a nossa fraqueza, tender a algo tão alto? A Igreja, durante o Ano Litúrgico, nos convida a fazer memória de uma fileira de Santos, daqueles que viveram plenamente a caridade, souberam amar e seguir Cristo em suas vidas cotidianas. Eles nos dizem que é possível para todos percorrer esta estrada. Em cada época da história da Igreja, em cada latitude da geografia do mundo, os Santos pertencem a todas as idades e a todos os estados de vida, são rostos concretos de todos os povos, línguas e nações. E são tipos muito diferentes. Na realidade, devo dizer que também para a minha fé pessoal muitos santos, não todos, são verdadeiras estrelas no firmamento da história. E gostaria de acrescentar que, para mim, não apenas alguns grandes santos que amo e que conheço bem são “placas de sinalização”, mas também exatamente os santos simples, ou seja, as pessoas boas que vejo na minha vida, que nunca serão canonizadas. São pessoas normais, por assim dizer, sem heroísmo visível, mas na sua bondade de todo dia vejo a verdade da fé. Esta bondade, que amadureceram na fé da Igreja, é para mim a mais segura apologia do cristianismo e o sinal de onde pode estar a verdade.
Na comunhão dos Santos, canonizados e não canonizados, que a Igreja vive graças a Cristo em todos os seus membros, nós gozamos da sua presença e da sua companhia e cultivamos a firma esperança de poder imitar o seu caminho e compartilhar um dia da mesma vida bem-aventurada, a vida eterna.
Caros amigos, como é grande e bela, e também simples, a vocação cristã vista sob esta luz! Todos somos chamados à santidade: é a medida mesma da vida cristã. Uma vez mais recorro a São Paulo que expressa essa mensagem com grande intensidade quando escreve: “A cada um de nós foi dada a graça segundo a medida do dom de Cristo... Ele deu a alguns de serem apóstolos, a outros de serem profetas, a outros ainda de serem evangelistas, a outros de serem pastores e mestres, para prepararem os irmãos para cumprir o ministério, com o objetivo de edificar o corpo de Cristo, a fim de que cheguemos todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até ao homem perfeito, até atingir a medida da plenitude de Cristo” (Ef 4, 7.11-13). Gostaria de convidar a todos para se abrirem à ação do Espírito Santo, que transforma a nossa vida, para sermos também nós como peças do grande mosaico de santidade que Deus segue criando na história, para que o rosto de Cristo resplenda na plenitude do seu fulgor. Não tenhamos medo de tender para o alto, para as alturas de Deus; não tenhamos medo de que Deus nos peça muito, mas deixemo-nos guiar, em todas as ações cotidianas, pela sua Palavra, mesmo se nos sentirmos pobres, inadequados, pecadores: será Ele quem nos transformará segundo o seu amor. Obrigado. 

* Extraído do site do Vaticano, do dia 13 de abril de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 22 de março de 2011

Comentário ao evangelho do dia

3ª-feira da 2ª Semana Quaresma

1ª Leitura - Is 1,10.16-20
Ouvi a palavra do Senhor, magistrados de Sodoma, prestai ouvidos ao ensinamento do nosso Deus, povo de Gomorra. Lavai-vos, purificai-vos. Tirai a maldade de vossas ações de minha frente. Deixai de fazer o mal! Aprendei a fazer o bem! Procurai o direito, corrigi o opressor. Julgai a causa do órfão, defendei a viúva. Vinde, debatamos - diz o Senhor. Ainda que vossos pecados sejam como púrpura, tornar-se-ão brancos como a neve. Se forem vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como lã. Se consentires em obedecer, comereis as coisas boas da terra. Mas se recusardes e vos rebelardes, pela espada sereis devorados, porque a boca do Senhor falou!

Evangelho - Mt 23,1-12
Naquele tempo, Jesus falou às multidões e a seus discípulos: "Os mestres da Lei e os fariseus têm autoridade para interpretar a Lei de Moisés. Por isso, deveis fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imiteis suas ações! Pois eles falam e não praticam. Amarram pesados fardos e os colocam nos ombros dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo. Fazem todas as suas ações só para serem vistos pelos outros. Eles usam faixas largas, com trechos da Escritura, na testa e nos braços, e põem na roupa longas franjas. Gostam de lugar de honra nos banquetes e dos primeiros lugares nas sinagogas; gostam de ser cumprimentados nas praças públicas e de serem chamados de Mestre. Quanto a vós, nunca vos deixeis chamar de Mestre, pois um só é vosso Mestre e  todos vós sois irmãos. Na terra, não chameis a ninguém de pai, pois um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. Não deixeis que vos chamem de guias, pois um só é o vosso Guia, Cristo. Pelo contrário, o maior dentre vós deve ser aquele que vos serve. Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado".

Comentário extraído da Imitação de Cristo
tratado espiritual do século XV 

Não te preocupes muito se alguém é por ti ou contra ti, mas procede e ocupa-te de modo a que Deus esteja contigo em tudo quanto faças. Consegue uma consciência pura, que Deus te defenderá bem. [...] Se souberes calar-te e sofrer, verás sem dúvida o auxílio do Senhor. Ele conhece o tempo e o modo de te libertar, e por isso a Ele te deves submeter. É próprio de Deus ajudar e libertar de toda a confusão. Muitas vezes, é mais útil para a conservação da nossa humildade que os outros conheçam os nossos defeitos e os censurem. Quando um homem se humilha por causa dos seus defeitos, acalma os outros facilmente e satisfaz sem custo os que com ele se iravam. Deus protege e liberta o humilde, ama-o e consola-o. Inclina-Se para ele e dá-lhe grande graça; e, depois do seu abatimento, eleva-o à glória. Revela os Seus segredos ao humilde, arrasta-o e convida-o docemente para Si. E ele, mesmo na confusão, vive em paz, porque se firma em Deus e não no mundo. Não julgues ter adiantado em qualquer coisa se não te sentires inferior a todos. 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Lc 2,22-35
Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor. Conforme está escrito na Lei do Senhor: "Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor". Foram também oferecer o sacrifício - um par de rolas ou dois pombinhos - como está ordenado na Lei do Senhor. Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era justo e piedoso, e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor. Movido pelo Espírito, Simeão veio ao Templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava, Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus: "Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; porque meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel". O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a respeito dele. Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: "Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma".

Comentário feito por Santo Inácio de Antioquia (?-c. 110)
bispo e mártir 

Hoje, começo a ser discípulo. Que criatura alguma, visível ou invisível, me impeça de ir ter com Jesus Cristo. [...] Nem os mais cruéis suplícios me perturbam, a única coisa que desejo é estar com Jesus Cristo. De que me servem as doçuras deste mundo e os impérios da terra? Mais vale morrer por Cristo Jesus que reinar até aos confins do universo. É a Ele que procuro, a Ele que morreu por nós; é a Ele que desejo, a Ele que ressuscitou por nós. Aproxima-se o momento do meu nascimento. [...] Deixai-me abraçar a luz puríssima. Nessa altura, serei um homem. Permiti-me imitar a paixão do meu Deus. [...] Os meus desejos terrenos estão crucificados, já não tenho em mim fogo para amar a matéria, mas apenas a "água viva" (Jo 7, 38) que murmura e me segreda ao coração: "Vem para junto do Pai". Não quero continuar a saborear os alimentos perecíveis nem as doçuras desta vida. É do pão de Deus que tenho fome, da carne de Jesus Cristo, Filho de David, e como bebida quero o Seu sangue, que é o amor incorruptível.