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domingo, 4 de março de 2012

A Quaresma com os santos

Por meio de Moisés foi dada a Lei, mas a graça e a verdade nos chegaram através de Jesus Cristo

Dos Sermões de São Leão Magno, papa (Séc.V)
(Sermo 51, 3-4.8: PL 54, 310-311.313)

O Senhor manifesta a Sua glória na presença de testemunhas escolhidas, e de tal modo fez resplandecer o Seu corpo, semelhante ao de todos os homens, que Seu rosto se tornou brilhante como o sol e Suas vestes brancas como a neve. A principal finalidade dessa transfiguração era afastar dos discípulos o escândalo da cruz, para que a humilhação da paixão, voluntariamente suportada, não abalasse a fé daqueles a quem tinha sido revelada a excelência da dignidade oculta de Cristo. Mas, segundo um desígnio não menos previdente, dava-se um fundamento sólido à esperança da santa Igreja, de modo que todo o Corpo de Cristo pudesse conhecer a transfiguração com que Ele também seria enriquecido, e os Seus membros pudessem contar com a promessa da participação daquela glória que primeiro resplandecera na Cabeça. A esse respeito, o próprio Senhor dissera, referindo-se à majestade de Sua vinda: Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai (Mt 13,43). E o apóstolo Paulo declara o mesmo, dizendo: Eu entendo que os sofrimentos do tempo presente nem merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós (Rm 8,18). E ainda: Vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então vós aparecereis também com Ele, revestidos de glória (Cl 3,3-4). Entretanto, aos apóstolos que deviam ser confirmados na fé e introduzidos no conhecimento de todos os mistérios do Reino, esse prodígio ofereceu ainda outro ensinamento. Moisés e Elias, isto é, a Lei e os Profetas, apareceram conversando com o Senhor, a fim de cumprir-se plenamente, na presença daqueles cinco homens, o que fora dito: Será digna de fé toda palavra proferida na presença de duas ou três testemunhas (cf. Mt 18,16). Que pode haver de mais estável e mais firme que esta palavra? Para proclamá-la, ressoa em uníssono a dupla trombeta do Antigo e do Novo Testamento, e os testemunhos dos tempos passados concordam com o ensinamento do Evangelho. Na verdade, as páginas de ambas as alianças confirmam-se mutuamente; e o esplendor da glória presente mostra, com total evidência, Aquele que as antigas figuras tinham prometido sob o véu dos mistérios. Porque, como diz João, por meio de Moisés foi dada a Lei, mas a graça e a verdade nos chegaram através de Jesus Cristo (Jo 1,17). NEle cumpriram-se integralmente não só a promessa das figuras proféticas, mas também o sentido dos preceitos da lei; pois pela Sua presença mostra a verdade das profecias e, pela Sua graça, torna possível cumprir os mandamentos. Sirva, portanto, a proclamação do santo Evangelho para confirmar a fé de todos, e ninguém se envergonhe da cruz de Cristo, pela qual o mundo foi redimido. Ninguém tenha medo de sofrer por causa da justiça ou duvide da recompensa prometida, porque é pelo trabalho que se chega ao repouso, e pela morte, à vida. O Senhor assumiu toda a fraqueza de nossa pobre condição e, se permanecermos no Seu amor e na proclamação do Seu Nome, venceremos o que Ele venceu e receberemos o que prometeu. Assim, quer cumprindo os mandamentos ou suportando a adversidade, deve sempre ressoar aos nossos ouvidos a voz do Pai, que se fez ouvir, dizendo: Este é o meu filho amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o (Mt 17,5).

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Cartas do P.e Aldo 206


Assunción, 5 de outubro de 2011.

Caros amigos,
Acabei de me confessar e, finalmente, depois de uma semana muito dura, o céu voltou a ser azul. Que graça grande a confissão semanal ou até mesmo quando é mais frequente. E olhem que a confissão não tem nada que ver com a direção espiritual ou com a procura por algum conselho. O meu confessor é essencial: escuta os meus pecados, me dá a penitência, me faz dizer o Ato de Contrição e, em seguida, me dá a absolvição. Tudo em três minutos. E, no entanto, que Acontecimento, que encontro com o olhar de Jesus que, com os pecadores, nunca perdeu mais do que alguns minutos. A Zaqueu disse: “desce porque, nesta noite, vou jantar com você”. Para a adúltera: “Mulher, quem te condenou?”. “Ninguém, Senhor” “Eu também não te condeno. Vai e não peques mais”, ou seja, permanece sempre comigo. Para Mateus, “segue-me”, e ele O seguiu. Alguns minutos a mais ele dedicou à Samaritana, mas tinha as suas razões pedagógicas. O meu confessor também é assim. A essencialidade do Sacramento: reconhecer a Presença, confiar o meu nada e me sentir abraçado na minha loucura porque, como nos lembra Giussani no seu livro Ciò che abbiamo di più caro (O que temos de mais caro, sem tradução para o português; ndt), “quem comete pecado odeia a si mesmo” e esta é a loucura.
Esta foi uma semana dura, na qual Jesus me manteve próximo dEle na cruz e, em certos momentos, eu O teria deixado sozinho. É a tentação para a qual a minha liberdade responde com a confissão. Ou seja, com a prática daquilo que Péguy, que Giussani cita no seu último livro, chama: VERDADE HIGIÊNICA, de que a confissão é, na minha experiência de 22 anos de missão, o coração. Péguy fala de verdade cirúrgica que é aquela mais cômoda: cortar. E de verdade higiênica: “não procurem um milagre, mas um caminho”. Giussani me educou muito bem a viver esta esperança da verdade higiênica tanto no modo com o qual ele me educou a viver a minha afetividade, quanto no modo com o qual viver cada detalhe. Enquanto que sempre seremos inclinados à verdade cirúrgica: cortar. E assim, experimentaremos a alegria de ser homens, a alegria que nasce do fato que nada daquilo que é humano nos será estranho. É um grande desafio para a liberdade, porque a verdade higiênica exige que você inteiro entre no jogo e exige um trabalho paciente como o trabalho de um parto, para recordar o cartaz de Páscoa de 1989, que trazia a famosa frase de Mounier. Esta semana eu quis cortar tantas coisas, tantos relacionamentos, porque eu estava cansado, mas a obediência à realidade me fez ficar dentro daquilo que acontecia sem cortar nada, sem censurar nada e, no fim, graças à companhia sacramental e à confissão, me descubro, agora, mais livre, mais feliz. Pensava nisso ontem à noite, quando fui ao médico para ver como anda minha diabetes e ele também aplicou em mim uma terapia higiênica mais do que cirúrgica. E esta terapia, a higiênica, depende totalmente da minha liberdade, porém, no fim, salva tudo.
Meus amigos... mesmo que vocês se apaixonem repentinamente e queiram fugir dessa paixão ou tirá-la do meio do caminho, como muitos me escrevem, acredito que ela deva ser motivo para que vocês prestem contas gritando e pedindo ajuda. Espero que vocês leiam o que Giussani disse em Ciò che abbiamo di più caro, para que possam entender o quanto é necessário um trabalho, um caminho, porque o verdadeiro milagre é a verdade higiênica de que a confissão freqüente é o sinal de uma liberdade, verdadeiramente, comprometida com um caminho de conversão. A semana foi dura, como cada dia é duro, porque, aqui, eu sempre vivo no mesmo instante a morte e a ressurreição de Jesus. Não há intervalos!
Um abraço,
Padre Aldo

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Cuidado com os burros motivados


Entrevista com Roberto Shinyashiki*

A revista ISTO É publicou, em 2005, esta entrevista com Roberto Shinyashiki, médico psiquiatra, com Pós-Graduação em administração de empresas pela USP, consultor organizacional e conferencista de renome nacional e internacional. Em Heróis de Verdade, o escritor combate a supervalorização das aparências, diz que falta ao Brasil competência, e não auto-estima.
É uma entrevista imperdível... seis anos depois, quanta coisa ficou ainda mais evidente: as universidades se tornaram escolas de mediocridade e de incompetência - sem um único exemplo em contrário -; a aparência se tornou de tal forma dominante que já não sabemos se somos, temos ou parecemos ser, não sabemos nem mesmo o que ou quem somos; a mentira e a arrogância se tornaram a chave para abrir todas as portas; a meritocracia acabou; a ignorância e a mediocridade viraram virtudes e são celebradas... e a lista pode ser ainda mais longa!

ISTO É - Quem são os heróis de verdade?
Roberto Shinyashiki - Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe. O mundo define que poucas pessoas deram certo. Isso é uma loucura. Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes. E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados. Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu à pena, porque não conseguiu ter o carro, nem a casa maravilhosa. Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa, possa se orgulhar da mãe. O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes. Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros. São pessoas que sabem pedir desculpas e admitiram que erraram.

ISTO É - O Sr. citaria exemplos?
Shinyashiki - Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos, empregado em uma farmácia. Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis. Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem. Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito “100% Jardim Irene”. É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes. O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana. Em países como o Japão, a Suécia e a Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se mata? Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher, que embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego, que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.

ISTO É - Qual o resultado disso?
Shinyashiki - Paranoia e depressão cada vez mais precoce. O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece. A única coisa que prepara uma criança para o futuro, é ela poder ser criança. Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos. Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas. Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.

ISTO É - Por quê?
Shinyashiki - O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento. É contratado o sujeito com mais marketing pessoal. As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência. Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras. Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei-a na hora. Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

ISTO É - Há um script estabelecido?
Shinyashiki - Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um presidente de multinacional no programa “O Aprendiz”? Qual é seu defeito? Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal: “- Eu mergulho de cabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar”. É exatamente o que o Chefe quer escutar. Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido? É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder. O vice-presidente de uma as maiores empresas do planeta me disse: “Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir”. Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor!

ISTO É - Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?
Shinyashiki - Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento. Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência. Cuidado com os burros motivados. Há muita gente motivada fazendo besteira. Não adianta você assumir uma função, para a qual não está preparado. Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso, para o qual eu não estava preparado. Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

ISTO É - Está sobrando auto-estima?
Shinyashiki - Falta às pessoas a verdadeira auto-estima. Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa. Antes, o ter conseguia substituir o ser. O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom. Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser, nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer. As pessoas parecem que sabem, parece que fazem, parece que acreditam. E poucos são humildes para confessar que não sabem. Há muitas mulheres solitárias no Brasil, que preferem dizer que é melhor assim. Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

ISTO É - Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo de valorizar a aparência?
Shinyashiki - Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis. Quem vai salvar o Brasil? O Lula. Quem vai salvar o time? O técnico. Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta. O problema é que eles não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia: “Quando você quiser entender a essência do ser humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarreia durante um jantar no Palácio de Buckingham”. Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarreia. Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo. A gente tem de parar de procurar super-heróis, porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.

ISTO É - O conceito muda quando a expectativa não se comprova?
Shinyashiki - Exatamente. A gente não é super-herói nem super fracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso. Hoje, as pessoas estão questionando o Lula, em parte porque acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram. A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.

ISTO É - Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?
Shinyashiki - Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente.Há várias coisas que eu queria e não consegui. Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos. Com uma criança especial, eu aprendi que, ou eu a amo do jeito que ela é, ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse. Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo. O resto foram apostas e erros. Dia desses apostei na edição de um livro, que não deu certo. Um amigão me perguntou: “Quem decidiu publicar esse livro?”. Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu. Não preciso mentir.

ISTO É - Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?
Shinyashiki - O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las. São três fraquezas: a primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança. Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram. Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno. Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards. Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates. O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.

ISTO É - Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?
Shinyashiki - A sociedade quer definir o que é certo. São quatro loucuras da sociedade... A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se eles não tivessem significados individuais. A segunda loucura é: você tem de estar feliz todos os dias. A terceira é: você tem que comprar tudo o que puder. O resultado é esse consumismo absurdo. Por fim, a quarta loucura: você tem de fazer as coisas do jeito certo. Jeito certo não existe. Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito. Tem gente que diz que não será feliz, enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento. Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou com amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo à praia ou ao cinema. Quando era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes. Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte. A maior parte pega o médico pela camisa e diz: “Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei à vida inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz”.

* Extraído da revista ISTO É, n. 1879, de 19 de outubro de 2005.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Como reconhecemos o que é justo?



Visita ao Parlamento Federal

Discurso do Papa Bento XVI 

Palácio Reichstag de Berlim
Quinta-feira, 22 de setembro de 2011  

Ilustre Senhor Presidente Federal!
Senhor Presidente do Bundestag!
Senhora Chanceler Federal!
Senhor Presidente do Bundesrat!
Senhoras e Senhores Deputados!
E, para mim, uma honra e uma alegria falar diante desta Câmara Alta, diante do Parlamento da minha Pátria alemã, que se reúne aqui em representação do povo, eleita democraticamente para trabalhar pelo bem da República Federal da Alemanha. Quero agradecer ao Senhor Presidente do Bundestag o convite que me fez para pronunciar este discurso, e também as amáveis palavras de boas-vindas e de apreço com que me acolheu. Neste momento, dirijo-me a vós, prezados Senhores e Senhoras, certamente também como concidadão que se sente ligado por toda a vida às suas origens e acompanha solidariamente as vicissitudes da pátria alemã. Mas o convite para pronunciar este discurso foi dirigido a mim como Papa, como Bispo de Roma, que carrega a responsabilidade suprema da Igreja Católica. Deste modo, vós reconheceis o papel que compete à Santa Sé como parceira no seio da Comunidade dos Povos e dos Estados. Em base a esta minha responsabilidade internacional, quero vos propor algumas considerações sobre os fundamentos do Estado liberal de direito.
Seja-me permitido começar as minhas reflexões sobre os fundamentos do direito com uma pequena narrativa tirada da Sagrada Escritura. Conta-se, no Primeiro Livro dos Reis, que Deus concedeu ao jovem rei Salomão fazer um pedido por ocasião da sua entronização. Que irá pedir o jovem soberano neste momento tão importante: sucesso, riqueza, uma vida longa, a eliminação dos inimigos? Não pede nada disso; mas sim: “Concede ao teu servo um coração dócil, para saber administrar a justiça ao teu povo e discernir o bem do mal” (1Re 3, 9). Com esta narrativa, a Bíblia quer nos indicar o que deve ser, em última análise, importante para um político. O seu critério último e a motivação para o seu trabalho como político não devem ser o sucesso e menos ainda o lucro material. A política deve ser um compromisso em prol da justiça e, assim, criar as condições de fundo para a paz. Naturalmente um político procurará o sucesso, sem o qual não poderia jamais ter a possibilidade de uma ação política efetiva; mas o sucesso há de estar subordinado ao critério da justiça, à vontade de atuar o direito e à inteligência do direito. É que o sucesso pode tornar-se também um aliciamento, abrindo assim o caminho para a falsificação do direito, a destruição da justiça. “Se se põe de lado o direito, em que se distingue então o Estado de um grande bando de ladrões?” – sentenciou uma vez Santo Agostinho (De civitate Dei IV, 4, 1). Nós, alemães, sabemos pela nossa experiência que estas palavras não são fúteis. Experimentamos a separação entre o poder e o direito, o poder colocar-se contra o direito, o seu pisotear o direito, de tal modo que o Estado se tornou o instrumento para a destruição do direito: tornou-se um bando de ladrões muito bem organizado, que quase chegou a ameaçar o mundo inteiro e impeli-lo até à beira do precipício. Servir ao direito e combater o domínio da injustiça é e permanece sendo a tarefa fundamental do político. Num momento histórico em que o homem adquiriu um poder até agora impensável, esta tarefa torna-se particularmente urgente. O homem é capaz de destruir o mundo. Pode manipular-se a si mesmo. Pode, por assim dizer, criar seres humanos e excluir outros seres humanos de serem homens. Como reconhecemos o que é justo? Como podemos distinguir entre o bem e o mal, entre o verdadeiro direito e o direito apenas aparente? O pedido de Salomão permanece sendo a questão decisiva perante a qual se encontram também hoje o homem político e a política.
Grande parte da matéria que se deve regular juridicamente pode ter por critério suficiente o da maioria. Mas é evidente que, nas questões fundamentais do direito em que está em jogo a dignidade do homem e da humanidade, o princípio majoritário não basta: no processo de formação do direito, cada pessoa que tem responsabilidade deve ela mesma procurar os critérios da própria orientação. No século III, o grande teólogo Orígenes justificou assim a resistência dos cristãos a certos ordenamentos jurídicos em vigor: “Se alguém se encontrasse no povo de Cítia que tem leis irreligiosas e fosse obrigado a viver no meio deles, (…) estes agiriam, sem dúvida, de modo muito razoável se, em nome da lei da verdade que precisamente no povo da Cítia é ilegalidade, formassem juntamente com outros, que tenham a mesma opinião, associações mesmo contra o ordenamento em vigor” [Contra Celsum GCS Orig. 428 (Koetschau); cf. FÜRST, A. (2006). “Monotheismus und Monarchie. Zum Zusammenhang von Heil und Herrschaft in der Antike”. Theol.Phil. 81, pp. 321-338; a citação está na página 336; cf. também RATZINGER, J. (1971). Die Einheit der Nationem, Eine Vision der Kirchenväter. Salzburg-München, p. 60].
Com base nesta convicção, os combatentes da resistência agiram contra o regime nazista e contra outros regimes totalitários, prestando assim um serviço ao direito e à humanidade inteira. Para estas pessoas era evidente de modo incontestável que, na realidade, o direito vigente era injustiça. Mas, nas decisões de um político democrático, a pergunta sobre o que corresponda agora à lei da verdade, o que seja verdadeiramente justo e possa tornar-se lei não é igualmente evidente. Hoje, de fato, não é por si mesmo evidente aquilo que seja justo e possa se tornar direito vigente m relação às questões antropológicas fundamentais. À questão de saber como se possa reconhecer aquilo que verdadeiramente é justo e, deste modo, servir à justiça na legislação, nunca foi fácil encontrar resposta e hoje, na abundância dos nossos conhecimentos e das nossas capacidades, uma tal questão tornou-se ainda muito mais difícil.
Como se reconhece o que é justo? Na história, os ordenamentos jurídicos foram quase sempre religiosamente motivados: com base numa referência à Divindade, decide-se aquilo que é justo entre os homens. Ao contrário de outras grandes religiões, o cristianismo nunca impôs ao Estado e à sociedade um direito revelado, nunca impôs um ordenamento jurídico derivado de uma revelação. Mas apelou para a natureza e para a razão como verdadeiras fontes do direito; apelou para a harmonia entre razão objetiva e subjetiva, mas uma harmonia que pressupõe serem as duas esferas fundadas na Razão criadora de Deus. Deste modo, os teólogos cristãos associaram-se a um movimento filosófico e jurídico que estava formado já desde o século II (a.C.). De fato, na primeira metade do século II pré-cristão, deu-se um encontro entre o direito natural social, desenvolvido pelos filósofos estóicos, e autorizados mestres do direito romano [cf. WALDSTEIN, W. (2010). Ins Herz geschrieben. Das Naturrecht als Fundament einer menschlichen Gesellschaft. Augsburg, pp. 31-61]. Neste contato nasceu a cultura jurídica ocidental, que foi, e é ainda agora, de importância decisiva para a cultura jurídica da humanidade. Desta ligação pré-cristã entre direito e filosofia parte o caminho que leva, através da Idade Média cristã, ao desenvolvimento jurídico do Iluminismo até à Declaração dos Direitos Humanos e depois à nossa Lei Fundamental alemã, pela qual o nosso povo reconheceu, em 1949, “os direitos invioláveis e inalienáveis do homem como fundamento de toda a comunidade humana, da paz e da justiça no mundo”.
Foi decisivo para o desenvolvimento do direito e o progresso da humanidade que os teólogos cristãos tivessem tomado posição contra o direito religioso, requerido pela fé nas divindades, e se tivessem colocado ao lado da filosofia, reconhecendo como fonte jurídica válida para todos a razão e a natureza na sua correlação. Esta opção já havia sido realizada por São Paulo, quando afirma na Carta aos Romanos: “Quando os gentios que não têm a Lei [a Torá de Israel], por natureza agem segundo a Lei, eles (…) são lei para si próprios. Esses mostram que o que a Lei manda praticar está escrito nos seus corações, como resulta do testemunho da sua consciência” (Rm 2, 14-15). Aqui aparecem os dois conceitos fundamentais de natureza e de consciência, sendo aqui a “consciência” o mesmo que o “coração dócil” de Salomão, a razão aberta à linguagem do ser. Deste modo se até à época do Iluminismo, da Declaração dos Direitos Humanos depois da II Guerra Mundial e até à formação da nossa Lei Fundamental, a questão acerca dos fundamentos da legislação parecia esclarecida, no último meio século verificou-se uma dramática mudança da situação. Hoje considera-se a ideia do direito natural uma doutrina católica bastante singular, sobre a qual não valeria a pena discutir fora do âmbito católico, de tal modo que quase se tem vergonha mesmo só de mencionar o termo. Queria brevemente indicar como se veio a criar esta situação. Antes de mais nada é fundamental a tese segundo a qual haveria entre o ser e o dever ser um abismo intransponível: do ser não poderia derivar um dever, porque se trataria de dois âmbitos absolutamente diversos. A base de tal opinião é a concepção positivista de natureza, quase adotada por todos hoje em dia. Se se considera a natureza – no dizer de Hans Kelsen - “um agregado de dados objetivos, unidos uns aos outros como causas e efeitos”, então realmente dela não pode derivar qualquer indicação que seja de algum modo de caráter ético (Waldstein, op. cit., 15-21). Uma concepção positivista de natureza, que compreende a natureza de modo puramente funcional, tal como a conhecem as ciências naturais, não pode criar qualquer ponte para a ética e o direito, mas suscitar de novo respostas apenas funcionais. Entretanto o mesmo vale para a razão numa visão positivista, que é considerada por muitos como a única visão científica. Segundo ela, o que não é verificável ou falsificável não entra no âmbito da razão em sentido estrito. Por isso, a ética e a religião devem ser atribuídas ao âmbito subjetivo, caindo fora do âmbito da razão no sentido estrito do termo. Onde vigora o domínio exclusivo da razão positivista – e tal é, em grande parte, o caso da nossa consciência pública –, as fontes clássicas de conhecimento da ética e do direito são postas fora de jogo. Esta é uma situação dramática que interessa a todos e sobre a qual é necessário um debate público; convidar urgentemente para ele é uma intenção essencial deste discurso.
O conceito positivista de natureza e de razão, a visão positivista do mundo é, no seu conjunto, uma parcela grandiosa do conhecimento humano e da capacidade humana, à qual não devemos de modo algum renunciar. Mas ela mesma no seu conjunto não é uma cultura que corresponda e seja suficiente ao ser humano em toda a sua amplitude. Onde a razão positivista se considera como a única cultura suficiente, relegando todas as outras realidades culturais para o estado de subculturas, aquela diminui o homem, antes, ameaça a sua humanidade. Digo isto pensando precisamente na Europa, onde vastos ambientes procuram reconhecer apenas o positivismo como cultura comum e como fundamento comum para a formação do direito, reduzindo todas as outras convicções e os outros valores da nossa cultura ao estado de uma subcultura. Assim a Europa se coloca, face às outras culturas do mundo, numa condição de falta de cultura e suscitam-se, ao mesmo tempo, correntes extremistas e radicais. A razão positivista, que se apresenta de modo exclusivista e não é capaz de perceber algo para além do que é funcional, assemelha-se aos edifícios de concreto armado sem janelas, nos quais nos damos o clima e a luz por nós mesmos e já não queremos receber estes dois elementos do amplo mundo de Deus. E no entanto não podemos iludir-nos, pois em tal mundo autoconstruído bebemos em segredo e igualmente nos “recursos” de Deus, que transformamos em produtos nossos. É preciso tornar a abrir as janelas, devemos olhar de novo para a vastidão do mundo, o céu e a terra e aprender a usar tudo isto de modo justo.
Mas, como fazê-lo? Como encontramos a entrada justa na vastidão, no conjunto? Como pode a razão reencontrar a sua grandeza sem escorregar no irracional? Como pode a natureza aparecer novamente na sua verdadeira profundidade, nas suas exigências e com as suas indicações? Chamo à memória um processo da história política recente, esperando não ser mal entendido nem suscitar demasiadas polêmicas unilaterais. Diria que o aparecimento do movimento ecológico na política alemã a partir dos anos 1970, apesar de não ter talvez aberto janelas, todavia foi, e continua a ser, um grito que anseia por ar fresco, um grito que não se pode ignorar nem deixar de lado, porque se vislumbra nele muita irracionalidade. Pessoas jovens deram-se conta de que, nas nossas relações com a natureza, há algo que não está bem; que a matéria não é apenas um material para nossa factura, mas a própria terra traz em si a sua dignidade e devemos seguir as suas indicações. É claro que aqui não faço propaganda por um determinado partido político; nada me seria mais alheio do que isso. Quando na nossa relação com a realidade há qualquer coisa que não funciona, então devemos todos refletir seriamente sobre o conjunto e todos somos remetidos à questão acerca dos fundamentos da nossa própria cultura. Seja-me permitido deter-me um momento mais neste ponto. A importância da ecologia é agora indiscutível. Devemos ouvir a linguagem da natureza e responder-lhe coerentemente. Mas quero insistir num ponto que – a meu ver –, hoje como ontem, é negligenciado: existe também uma ecologia do homem. Também o homem possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece. O homem não é apenas uma liberdade que se cria por si própria. O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza, e a sua vontade é justa quando respeita a natureza e a escuta e quando se aceita a si mesmo por aquilo que é e que não se criou por si mesmo. Assim mesmo, e só assim, é que se realiza a verdadeira liberdade humana.
Voltemos aos conceitos fundamentais de natureza e razão, de onde partíramos. O grande teórico do positivismo jurídico, Kelsen, em 1965 – com a idade de 84 anos (consola-me o fato de ver que, aos 84 anos, ainda se é capaz de pensar algo de razoável) –, abandonou o dualismo entre ser e dever ser. Antes, ele tinha dito que as normas só podem derivar da vontade. Consequentemente – acrescenta ele – a natureza só poderia conter em si mesma normas, se uma vontade tivesse colocado nela estas normas. Mas isto – diz ele – pressuporia um Deus criador, cuja vontade se inseriu na natureza. “Discutir sobre a verdade desta fé é absolutamente vão” – observa ele a tal propósito (citado segundo Waldstein, op.cit., 19). Mas sê-lo-á verdadeiramente? – eu perguntaria. É verdadeiramente desprovido de sentido refletir se a razão objetiva que se manifesta na natureza não pressuponha uma Razão criadora, um Creator Spiritus?
Aqui deveria vir em nossa ajuda o patrimônio cultural da Europa. Foi na base da convicção sobre a existência de um Deus criador que se desenvolveram a ideia dos direitos humanos, a ideia da igualdade de todos os homens perante a lei, o conhecimento da inviolabilidade da dignidade humana em cada pessoa e a consciência da responsabilidade dos homens pelo seu agir. Estes conhecimentos da razão constituem a nossa memória cultural. Ignorá-la ou considerá-la como mero passado seria uma amputação da nossa cultura no seu todo e privá-la-ia da sua integralidade. A cultura da Europa nasceu do encontro entre Jerusalém, Atenas e Roma, do encontro entre a fé no Deus de Israel, a razão filosófica dos Gregos e o pensamento jurídico de Roma. Este tríplice encontro forma a identidade íntima da Europa. Na consciência da responsabilidade do homem diante de Deus e no reconhecimento da dignidade inviolável do homem, de cada homem, este encontro fixou critérios do direito, cuja defesa é nossa tarefa neste momento histórico.
Ao jovem rei Salomão, na hora de assumir o poder, foi concedido formular um seu pedido. Que sucederia se nos fosse concedido a nós, legisladores de hoje, fazer um pedido? O que é que pediríamos? Penso que também hoje, em última análise, nada mais poderíamos desejar que um coração dócil, a capacidade de distinguir o bem do mal e, deste modo, estabelecer um direito verdadeiro, servir à justiça e à paz. Agradeço-vos pela vossa atenção!

* Extraído do site do Vaticano, do dia 22 de setembro de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Feridos pela beleza, subamos a Deus...


Bento XVI

Audiência Geral

Praça da Liberdade, Castel Gandolfo
Quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Neste período, chamei a atenção várias vezes sobre a necessidade de todo cristão encontrar tempo para Deus, para a oração, em meio às tantas ocupações dos nossos dias. O Senhor mesmo nos oferece muitas ocasiões para que nos recordemos dEle. Hoje, gostaria de me dedicar brevemente sobre um destes canais que podem nos conduzir a Deus e que pode também ser de ajuda no encontro com Ele: é o caminho das expressões artísticas, parte daquela “via pulchritudinis” – “caminho da beleza” – de que falei algumas vezes e que o homem de hoje deveria recuperar no seu significado mais profundo.
Talvez já vos tenha acontecido algumas vezes, diante de uma escultura, de um quadro, de alguns versos de uma poesia, ou de um trecho de uma música, experimentar uma emoção íntima, um sentido de alegria, ou seja, perceber claramente que, diante de vós, não havia somente matéria, um pedaço de mármore ou de bronze, uma tela pintada, um conjunto de letras ou um acúmulo de sons, mas algo de maior, algo que “fala”, capaz de tocar o coração, de comunicar uma mensagem, de elevar o espírito. Uma obra de arte é fruto da capacidade criativa do ser humano, que se interroga diante da realidade visível, tenta descobrir o seu sentido profundo e comunicá-lo através da linguagem das formas, das cores, dos sons. A arte é capaz de exprimir e tornar visível a necessidade do homem de ir além daquilo que se vê, manifesta a sede e a busca do infinito. Mais, é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e uma verdade que vão além do cotidiano. E uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, levando-nos para o alto. 
Mas, há expressões artísticas que são verdadeiras estradas para Deus, a Beleza suprema, ou melhor, são uma ajuda para crescer no relacionamento com Ele, na oração. Trata-se das obras que nascem da fé e que expressam a fé. Um exemplo pode ser visto quando visitamos uma catedral gótica: somos levados pelas linhas verticais que nos amparam rumo ao céu e atraem para o alto o nosso olhar e o nosso espírito, enquanto que, ao mesmo tempo, nos sentimos pequenos, mesmo que desejosos de plenitude... Ou quando entramos numa igreja românica: somos convidados, de modo espontâneo, ao recolhimento e à oração. Percebemos que, nestes esplêndidos edifícios, a fé de gerações está como que incluída. Ou então, quando escutamos um trecho de música sacra que faz vibrar as cordas do nosso coração, o nosso espírito é como que dilatado e ajudado a se dirigir a Deus. Vem-me à mente um concerto de músicas de Johann Sebastian Bach, em Mônaco da Baviera, regido por Leonard Bernstein. Ao final do último trecho, uma das Cantatas, senti, não por raciocínio, mas no profundo do coração, que aquilo que eu havia escutado me havia transmitido verdade, verdade do sumo compositor, e me impulsionava a agradecer a Deus. Ao meu lado estava o bispo luterano de Mônaco e, espontaneamente, lhe disse: “Ouvindo isto se entende: é verdade; é verdadeira a fé assim forte, e a beleza que exprime irresistivelmente a presença da verdade de Deus”. Mas, quantas vezes quadros ou afrescos, frutos da fé do artista, nas suas formas, nas suas cores, na sua luz, nos impulsionam a dirigir o pensamento a Deus e fazem crescer em nós o desejo de chegar à fonte de toda beleza! Continua sendo profundamente verdadeiro aquilo que escreveu um grande artista – Marc Chagall: os pintores, por séculos, mergulharam seus pincéis naquele alfabeto colorido que é a Bíblia. Quantas vezes, então, as expressões artísticas podem ser ocasiões para nos lembrarmos de Deus, para ajudar a nossa oração ou mesmo a conversão do nosso coração! Paul Claudel, famoso poeta, dramaturgo e diplomata francês, na Basílica de Notre Dame de Paris, em 1886, exatamente escutando o canto do Magnificat durante a Missa de Natal, percebeu a presença de Deus. Não havia entrado na igreja por motivos de fé, tinha entrado para procurar argumentos contra os cristãos, e, pelo contrário, a graça de Deus agiu no se coração.
Caros amigos, convido-vos a redescobrir a importância deste caminho também para a nossa oração, para nossa relação viva com Deus. As cidades e os países do mundo inteiro guardam tesouros de arte que expressam a fé e nos remetem ao relacionamento com Deus. A visita aos lugares de arte, então, não seja apenas ocasião de enriquecimento cultural – isto também – mas sobretudo possa se tornar um momento de graça, de estímulo para reforçar o nosso vínculo e o nosso diálogo com o Senhor, para parar e contemplar – na passagem da realidade exterior simples para  a realidade mais profunda que exprime – o raio de beleza que nos toca, que quase nos “fere” no nosso íntimo e nos convida a subir em direção a Deus. Termino com uma oração de um Salmo – o Salmo 27: “Uma só coisa peço ao Senhor e a peço incessantemente: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para admirar aí a beleza do Senhor e contemplar o seu santuário” (Sl 26, 4). Esperamos que o Senhor nos ajude a contemplar a Sua beleza, seja na natureza, seja nas obras de arte, de forma que sejamos tocados pela luz do Seu rosto, para que também nós sejamos luz para o nosso próximo. Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 31 de agosto de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Universidade: casa onde se busca a verdade da pessoa humana



Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Encontro com Jovens Professores Universitários

Discurso do Papa Bento XVI

Basílica do Mosteiro de São Lourenço do Escorial
Sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Senhor Cardeal Arcebispo de Madri,
Queridos Irmãos no Episcopado,
Queridos Padres Agostinianos,
Queridos Professores e Professoras,
Distintas Autoridades,
Meus amigos!
Com regozijo esperava este encontro convosco, jovens professores das universidades espanholas, que prestais uma colaboração esplêndida para a difusão da verdade em circunstâncias nem sempre fáceis. Saúdo-vos cordialmente e agradeço as amáveis palavras de boas-vindas e também a música executada que ressoou maravilhosamente neste mosteiro de grande beleza artística, testemunho eloquente, durante séculos, de uma vida de oração e estudo. Neste lugar emblemático, razão e fé fundiram-se harmoniosamente na pedra austera para modelar um dos monumentos mais renomados de Espanha.
Saúdo também com particular afeto a todos os que participaram, nestes dias, do Congresso Mundial das Universidades Católicas, em Ávila, sob o lema: “Identidade e missão da Universidade Católica”.
Encontrar-me aqui no vosso meio faz-me recordar os meus primeiros passos como professor na Universidade de Bonn. Quando ainda se sentiam as feridas da guerra e eram muitas as carências materiais, a tudo supria o encanto de uma atividade apaixonante, o trato com colegas das diversas disciplinas e o desejo de dar resposta às inquietações últimas e fundamentais dos alunos. Esta universitas, que então vivi, de professores e estudantes que procuram, juntos, a verdade em todos os saberes ou – como diria Afonso X, o Sábio – esse “ajuntamento de mestres e escolares com vontade e capacidade para aprender os saberes” (Sete Partidas, partida II, título XXXI), clarifica o sentido e mesmo a definição da Universidade.
No lema da presente Jornada Mundial da Juventude – “Enraizados e edificados em Cristo, firmes na fé” (cf. Col 2, 7) –, podeis também encontrar luz para compreender melhor o vosso ser e ocupação. Neste sentido, como escrevi aos jovens na Mensagem preparatória para estes dias, os termos “enraizados, edificados e firmes” falam de alicerces seguros para a vida (cf. n. 2).
Mas onde os jovens poderão encontrar estes pontos de referência numa sociedade vacilante e instável? Às vezes pensa-se que a missão de um professor universitário seja hoje, exclusivamente, a de formar profissionais competentes e eficientes que satisfaçam as exigências laborais de cada período concreto. Diz-se também que a única coisa que se deve privilegiar, na presente conjuntura, é a capacitação meramente técnica. Sem dúvida, prospera na atualidade esta visão utilitarista da educação mesmo universitária, difundida especialmente a partir de âmbitos extra-universitários. Contudo vós que vivestes como eu a Universidade e que a viveis agora como docentes, sentis certamente o anseio de algo mais elevado que corresponda a todas as dimensões que constituem o homem. Como se sabe, quando a mera utilidade e o pragmatismo imediato se erigem como critério principal, os danos podem ser dramáticos: desde os abusos de uma ciência que não reconhece limites para além de si mesma, até ao totalitarismo político que se reanima facilmente quando é eliminada toda a referência superior ao mero cálculo de poder. Ao invés, a genuína ideia de universidade é que nos preserva precisamente desta visão reducionista e distorcida do humano.
Com efeito, a universidade foi, e deve continuar sendo, a casa onde se busca a verdade própria da pessoa humana. Por isso, não é uma casualidade que tenha sido precisamente a Igreja quem promoveu a instituição universitária; é que a fé cristã nos fala de Cristo como o Logos por Quem tudo foi feito (cf. Jo 1, 3) e do ser humano criado à imagem e semelhança de Deus. Esta boa nova divisa uma racionalidade em toda a criação e contempla o homem como uma criatura que compartilha e pode chegar a reconhecer esta racionalidade. Deste modo, a universidade encarna um ideal que não deve ser desvirtuado por ideologias fechadas ao diálogo racional, nem por servilismos a uma lógica utilitarista de simples mercado, que olha para o homem como mero consumidor.
Aqui está a vossa importante e vital missão. Sois vós que tendes a honra e a responsabilidade de transmitir este ideal universitário: um ideal que recebestes dos vossos mais velhos, muitos deles humildes seguidores do Evangelho e que, como tais, se converteram em gigantes do espírito. Devemos nos sentir seus continuadores, numa história muito diferente da deles mas cujas questões essenciais do ser humano continuam a exigir a nossa atenção convidando-nos a ir mais longe. Sentimo-nos unidos a eles, nesta cadeia de homens e mulheres que se devotaram a propor e a valorizar a fé perante a inteligência dos homens. E, para fazê-lo, não basta ensiná-lo, é preciso vivê-lo, encarná-lo, à semelhança do Logos que também se encarnou para estabelecer a sua morada entre nós. Neste sentido, os jovens precisam de mestres autênticos: pessoas abertas à verdade total nos diversos ramos do saber, capazes de escutar e viver dentro de si mesmos este diálogo interdisciplinar; pessoas convencidas sobretudo da capacidade humana de avançar a caminho da verdade. A juventude é tempo privilegiado para a busca e o encontro com a verdade. Como já disse Platão: “Busca a verdade enquanto és jovem, porque, se o não fizeres, depois escapar-te-á das mãos” (Parmênides, 135d). Esta sublime aspiração é o que de mais valioso podeis transmitir, pessoal e vitalmente, aos vossos estudantes, e não simplesmente algumas técnicas instrumentais e anônimas nem alguns dados frios e utilizáveis apenas funcionalmente.
Por isso, encarecidamente vos exorto a não perderdes jamais tal sensibilidade e encanto pela verdade, a não esquecerdes que o ensino não é uma simples transmissão de conteúdos, mas uma formação de jovens a quem deveis compreender e amar, em quem deveis suscitar aquela sede de verdade que possuem no mais fundo de si mesmos e aquele anseio de superação. Sede para eles estímulo e fortaleza.
Para isso, é preciso ter em conta, em primeiro lugar, que o caminho para a verdade completa compromete o ser humano na sua integralidade: é um caminho da inteligência e do amor, da razão e da fé. Não podemos avançar no conhecimento de algo, se não nos mover o amor; nem tampouco amar uma coisa em que não vemos racionalidade; porque “não aparece a inteligência e depois o amor: há o amor rico de inteligência e a inteligência cheia de amor” (Caritas in veritate, 30). Se estão unidos a verdade e o bem, o estão igualmente o conhecimento e o amor. Desta unidade deriva a coerência de vida e pensamento, a exemplaridade que se exige de todo o bom educador.
Em segundo lugar, temos que considerar que a verdade em si mesma está para além do nosso alcance. Podemos procurá-la e aproximar-nos dela, mas não possui-la totalmente; antes, é ela que nos possui e estimula. Na atividade intelectual e docente, a humildade é também uma virtude indispensável, pois protege da vaidade que fecha o acesso à verdade. Não devemos atrair os estudantes para nós mesmos, mas encaminhá-los para essa verdade que todos procuramos. Nisto vos ajudará o Senhor, que vos propõe ser simples e eficazes como o sal, ou como a lâmpada que dá luz sem fazer ruído (cf. Mt 5, 13).
Tudo isto nos convida a voltar incessantemente o olhar para Cristo, em cujo rosto resplandece a Verdade que nos ilumina; mas que é também o Caminho que leva à plenitude sem fim, fazendo-Se caminhante conosco e sustentando-nos com o seu amor. Radicados nEle, sereis bons guias dos nossos jovens. Com esta esperança, coloco-vos sob o amparo da Virgem Maria, Sede da Sabedoria, para que Ela vos faça colaboradores do seu Filho com uma vida repleta de sentido para vós mesmos, e fecunda de frutos, tanto de conhecimento como de fé, para vossos alunos. Muito obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 19 de agosto de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Artistas, fazei resplandecer a verdade nas vossas obras

Inauguração da Mostra
“O esplendor da verdade, a beleza da caridade
Homenagem  dos artistas a Bento XVI pelos seus 60 anos de sacerdócio

Discurso do Santo Padre Bento XVI

Átrio da Sala Paulo VI
Segunda-feira, 4 de julho de 2011

Senhores Cardeais,
Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Caros amigos,
Para mim, é uma grande alegria encontrar-vos e receber a vossa criativa e multiforme homenagem por ocasião do 60º aniversário da minha Ordenação Sacerdotal. Sou sinceramente grato a vós pela vossa proximidade nesta ocasião tão significativa e importante para mim. Na Celebração Eucarística do dia 29 de junho passado, Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, agradeci ao Senhor pelo dom da vocação sacerdotal. Hoje, agradeço-vos pela amizade e pela gentileza que me manifestais. Saúdo cordialmente o Cardeal Angelo Sodano, decano do Sacro Collegio, e o Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Pontifício Conselho da Cultura, que, junto a seus colaboradores, organizou esta manifestação artística particular, e agradeço também por suas palavras corteses a mim dirigidas. Dirijo também a minha saudação a todos os presentes, de modo particular a vós, caros artistas, que acolhestes o convite para apresentar uma criação vossa nesta Mostra.
O presente encontro, no qual tenho a alegria e a curiosidade de admirar as vossas obras, quer ser uma nova etapa daquele percurso de amizade e de diálogo que empreendemos no dia 21 de novembro de 2009, na Capela Sistina, um evento que ainda trago impresso no espírito. A Igreja e os artistas voltam a se encontrar, a conversar, a sustentar a necessidade de um colóquio que quer e deve se tornar cada vez mais intenso e articulado, também para oferecer à cultura, ou melhor às culturas do nosso tempo, um exemplo eloquente de diálogo fecundo e eficaz, orientado para tornar este nosso mundo mais humano e mais belo. Hoje, vós me apresentais o fruto da vossa criatividade, da vossa reflexão, do vosso talento, expressões dos vários âmbitos artísticos que aqui representais: pintura, escultura, arquitetura, ourivesaria, fotografia, cinema, música, literatura e poesia. Antes de admirá-las convosco, permiti-me dedicar algum momento para refletir convosco acerca do sugestivo título desta Exposição: “O esplendor da verdade, a beleza da caridade”. Na Homilia da Missa pro eligendo pontifice, comentando a bela expressão de São Paulo da Carta aos Efésios “veritatem facientes in caritate” (Ef 4, 15) – eu definia o “fazer a verdade na caridade” como uma fórmula fundamental da existência cristã. E acrescentava: “Em Cristo, verdade e caridade coincidem. Na medida em que nos aproximamos de Cristo, também na nossa vida, verdade e caridade se fundem. A caridade sem verdade seria cega; a verdade sem caridade seria como ‘um címbalo que retine’ (1Cor 13, 1)”. É próprio da união, ou melhor, da sinfonia, da perfeita harmonia de verdade e caridade, que emana a autêntica beleza, capaz de suscitar admiração, maravilhamento e alegria verdadeira no coração dos homens. O mundo no qual vivemos precisa que a verdade resplandeça e não seja ofuscada pela mentira ou pela banalidade; precisa que a caridade inflame e não seja oprimida pelo orgulho e pelo egoísmo. Precisamos que a beleza da verdade e da caridade toque o íntimo do nosso coração e o torne mais humano.
Caros amigos, gostaria de renovar a vós e a todos os artistas um apelo amigável e apaixonado: nunca separai a criatividade artística da verdade e da caridade, nunca buscai a beleza longe da verdade e da caridade, mas com a riqueza da vossa genialidade, do vosso ímpeto criativo, sejais sempre, com coragem, buscadores da verdade e testemunhas da caridade; fazei resplandecer a verdade nas vossas obras e fazei que a sua beleza suscite no olhar e no coração de quem as admira o desejo e a necessidade de tornar bela e verdadeira a existência, cada existência, enriquecendo-a com aquele tesouro que nunca diminui, que faz da vida uma obra de arte e de cada homem um extraordinário artista: a caridade, o amor. O Espírito Santo, artífice de toda beleza que há no mundo, vos ilumine sempre e vos guie em direção à Beleza última e definitiva, aquela que aquece a nossa mente e o nosso coração e que esperamos poder contemplar, um dia, em todo o seu esplendor.
Uma vez mais, obrigado pela vossa amizade, pela vossa presença e porque levais ao mundo um raio desta Beleza, que é Deus. De coração, transmito a todos vós, aos vossos entes queridos e a todo o mundo da arte, a minha Bênção Apostólica.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 4 de julho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O que memória e beleza têm que ver com a lógica?


Por Giovanni Maddalena

O que memória e beleza têm que ver com a lógica? É verdade que a lógica expressa apenas verdades necessárias de forma que de certas premissas advêm inevitavelmente certas conclusões? “Inevitavelmente” significa “mecanicamente”?
Comecemos da segunda pergunta, esperando que ela, depois, ilumine as outras duas. Certamente, há tipo de raciocínio que são necessários, o que significa que é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão seja falsa. Os silogismos clássicos estudados noa escola são deste tipo. Se todos os homens são mortais e Sócrates é um homem, inevitavelmente Sócrates será mortal.
Apóiam-se sobre a necessidade também as audaciosas formalizações da lógica do século XIX que se estuda ainda nas universidades. De Frege a Gödel, esta lógica garantiu uma compreensão muito mais precisa da lógica das proposições (“se chove, pego o guarda-chuava”), da predicativa (“alguns professores são sábios”) e da modal (“é necessário que os torcedores do Torino sofram”). Como se sabe, o projeto de uma compreensão de toda a lógica através deste caráter necessarista encontrou nos teoremas da incompletude de Gödel um limite, no sentido que o grande lógico mostrou que a formalização, se coerente, nunca pode ser completa.
Por mais útil qe seja esta lógica necessária (e o é, não obstante os seus detratores), dela escapam alguns processos racionais, que foram classificados normalmente como “ampliativos”, no sentido que alargam o nosso conhecimento mesmo se perdem em termos de necessidade. A indução clássica é o mais notável destes tipos de raciocínio: um certo número de amostras exemplificativas me conduz a identificar uma lei geral. Se as amostras foram escolhidas adequadamente (por acaso etc.) e a hipótese é limitada, a indução tem boas probabilidades de ser útil para a pesquisa.
Todavia, permanecem fora também deste tipo de raciocínio processos lógicos como: certas descobertas científicas particularmente significativas (a anedota da maçã de Newton é uma boa metáfora disso), o diagnóstico médico, o raciocínio indiciário (o caso de Cogne), as certezas morais em situações novas (confio ou não confio?). Aqui, a necessidade parece totalmente perdida. Mas, se perde também o uso da razão?
C. S. Peirce, célebre lógico norte-americano do fim do século XIX, havia elaborado um procsso para todos estes casos. Chama-se abdução ou retrodução e é a passagem do consequente ao antecedente: no caso anterior seria “pego o guarda-chuva, portanto chove”. Na lógica clássica, trata-se de um erro (falácia), mas se sairmos de uma lógica necessária, isso pode ser justificado. Como?
Se nos encontramos diante de um fenômeno surpreendente, que não tivesse sido catalogado pela nossa experiência passada (do contrário, se trataria de uma indução), podemos formular uma condicional (se a explicação fosse X, então o fenômeno surpreendente se explicaria) que o introduza numa explicação nova e convincente, que podemos, depois, verificar dedutivamente (se fosse assim, as consequências seriam...) e indutivamente (com uma verificação a partir das amostras). Mas, como fazemos para encontrar a explicação na qual o caso surpreendente possa ser lido? Aqui, Peirce tinha as ideias pouco claras, mas deixou indicações que podem ser sistematizadas da seguinte forma.
Encontramos uma explicação lendo os sinais que se encontram por trás do limiar simbólico, ou seja, lendo sinais que não são palavras ou símbolos – que recordam o objeto através de uma interpretação –, mas lendo sinais mais elementares, ícones e índices, que recordam o seu objeto por similaridades e conexões (a maçã que cai como sinal de uma ordem – que deveria ser uma força – e a sua conexão com o resto dos fenômenos de “queda”). Desde modo, lemos os sinais segundo a sua beleza e a sua plausibilidade no contexto. Dois modos diversos para compreender estética e ética em sentido gnosiológico: o ideal aspirado pelo raciocínio e a concordância entre o ideal e o raciocínio em curso. Os melhores romances policiais adotam esta estratégia (por exemplo, Os assassinos da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe), bem como as grandes descobertas científicas e as certezas morais decisivas.
Mas, como fazemos para conhecer esta beleza? Com qual critério a julgamos? Como fazemos para saber que existe e o que é? Existe em nós um critério, frequentemente vago (que quer dizer “não determinado”), mas muito eficaz: Peirce o chamava “instinto racional”, a Bíblia o chama “coração”. Parece-me que seja o mesmo “instrumento” que Agostinho indicava com o termo “memória” no livro X das Confissões. Uma pessoa quer ser soldado para ser feliz e outra não quer ser soldado para ser feliz. Onde conheceu a felicidade para usá-la como critério? Ela se encontra inscrita no fundo da nossa razão e permanece como critério insuperável, mesmo que frequentemente só indeterminado, mais propenso a não ser satisfeito do que a se contentar, a dizer não mais do que sim (como dizia Sócrates do seu daimon), mas sinal inequívoco de que, no fundo dos nossos raciocínios, a nossa razão é feita para uma beleza sem fim.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 28 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O objetivo primeiro da oração é a conversão

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 15 de junho de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Na história religiosa do antigo Israel, os profetas com seu ensinamento e sua pregação tiveram grande relevância. Entre eles, emerge a figura de Elias, suscitado por Deus para levar o povo à conversão. O seu nome significa “o Senhor é meu Deus” e é de acordo com este nome que se desenrola a sua vida, toda consagrada a provocar no povo o reconhecimento do Senhor como único Deus. Acerca de Elias, o Livro do Eclesiástico diz: “Elias, o profeta, levantou-se em breve como um fogo. Suas palavras queimavam como uma tocha ardente” (Eclo 48, 1). Com esta tocha Israel reencontrou o seu caminho em direção a Deus. No seu ministério, Elias reza: invoca o Senhor para que traga à vida o filho de uma viúva que o tinha hospedado (cf. 1Re 17, 17-24), grita a Deus o seu cansaço e a sua angústia enquanto foge para o deserto procurado pela rainha Jezabel (cf. 1Re 19, 1-4), mas é sobretudo no Monte Carmelo que se mostra em toda a sua potência de intercessor quando, diante de todo Israel, reza ao Senhor para que se manifeste e converta o coração do povo. É o episódio narrado no capítulo 18 do Primeiro Livro de Reis, sobre o qual, hoje, nos deteremos.
Encontramo-nos no reino do norte, no século IX a.C., no tempo do Rei Acab, num momento no qual em Israel se havia criado uma situação de aberto sincretismo. Ao lado do Senhor, o povo adorava Baal, o ídolo tranquilizador do qual se acreditava que viesse o dom da chuva e a quem, por isso mesmo, se atribuía o poder de dar fertilidade aos campos e vida aos homens e animais. Mesmo pretendendo seguir o Senhor, Deus invisível e misterioso, o povo procurava segurança também num deus compreensível e previsível, de quem pensava poder obter fecundidade e prosperidade em troca de sacrifícios. Israel estava cedendo à sedução da idolatria, a contínua tentação do crente, iludindo-se de poder “servir a dois senhores” (cf. Mt 6, 24; Lc 16, 13), e de facilitar os caminhos impenetráveis da fé no Onipotente, colocando sua fidelidade também num deus impotente feito pelos homens.
É exatamente para desmascarar a estupidez enganadora desta postura que Elias manda o povo de Israel se reunir no Monte Carmelo e o coloca diante da necessidade de fazer uma escolha: “Se o Senhor é Deus, segui-o, mas se é Baal, segui a Baal!” (1Re 18, 21). E o profeta, portador do amor de Deus, não deixa sozinho o povo diante desta escolha, mas o ajuda indicando o sinal que revelará a verdade: tanto ele quanto os profetas de Baal prepararão um sacrifício e rezaram, e o verdadeiro Deus se manifestará respondendo com o fogo que consumirá a oferta. Começa assim o confronto entre o profeta Elias e os seguidores de Baal, que na realidade é entre o Senhor de Israel, Deus de salvação e de vida, e o ídolo mudo e sem consistência, que não pode fazer nada, nem o bem nem o mal (cf. Jer 10, 5). E começa também o confronto entre dois modos completamente diversos de se dirigir a Deus e de rezar.
Os profetas de Baal, de fato, gritam, se agitam, dançam saltando, entram num estado de exaltação chegando mesmo a fazer cortes no corpo, “com espadas e lanças, até se cubrirem de sangue” (1Re 18, 28). Eles recorrem a si mesmos para interpelar o seu deus, confiando nas próprias capacidades a fim de provocar nele a resposta. Revela-se assim a realidade enganadora do ídolo: ele é pensado pelo homem como algo de que se possa dispor, que é possível gerir com as próprias forças, a quem se pode chegar a partir de si mesmos e da própria força vital. A adoração do ídolo ao invés de abrir o coração humano para a Alteridade, para uma relação libertadora que permita sair do espaço fechado do próprio egoísmo para chegar a dimensões de amor e de dom recíproco, fecha a pessoa no círculo exclusivo e desesperante da busca de si. E o engano é tal que, adorando o ídolo, o homem se descobre obrigado a ações extremas, na ilusória tentativa de submetê-lo à própria vontade. Por isso, os profetas de Baal chegam até ao ponto de se fazerem mal, de infligir a si mesmos feridas nos corpos, num gesto dramaticamente irônico: para ter uma resposta, um sinal de vida do seu deus, eles se recobrem de sangue, recobrindo-se simbolicamente de morte.
Postura de oração bem diferente é, pelo contrário, a de Elias. Ele pede ao povo que se aproxime, envolvendo-o assim na sua ação e na sua súplica. O objetivo do desafio que ele dirige aos profetas de Baal era levar o povo que se havia perdido seguindo os ídolos de volta para Deus; por isso, ele quer que Israel se uma a ele, se tornando partícipe e protagonista da sua oração e daquilo que está acontecendo. Em seguida, o profeta erige um altar, utilizando, como diz o texto, “doze pedras, segundo o número das doze tribos saídas dos filhos de Jacó, a quem o Senhor dissera: Tu te chamarás Israel” (1Re 18, 31). Aquelas pedras representam toda Israel e são a memória tangível da história de eleição, de predileção e de salvação de que o povo foi objeto. O gesto litúrgico de Elias tem um alcance decisivo; o altar é lugar sagrado que indica a presença do Senhor, mas aquelas pedras que o compõem representam o povo, que agora, pela mediação do profeta, está simbolicamente colocado diante de Deus, se torna “altar”, lugar de oferta e de sacrifício.
Mas, é necessário que o símbolo se torne realidade, que Israel reconheça o verdadeiro Deus e reencontre a própria identidade de povo do Senhor. Por isso, Elias pede a Deus que se manifeste, e aquelas doze pedras que deveriam recordar a Israel a sua verdade servem também para recordar ao Senhor a sua fidelidade, à qual o profeta apela na sua oração. As palavras da sua invocação são densas de significado e de fé: “Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, saibam todos hoje que sois o Deus de Israel, que eu sou vosso servo e que por vossa ordem fiz todas estas coisas. Ouvi-me, Senhor, ouvi-me: que este povo reconheça que vós, Senhor, sois Deus, e que sois vós que converteis os seus corações!” (1Re 18, 36-37; cf. Gen 32, 36-37). Elias se dirige ao Senhor chamando-o Deus dos Pais, fazendo assim memória implícita das promessas divinas e da história de eleição e de aliança que uniu indissoluvelmente o Senhor ao seu povo. O envolvimento de Deus na história dos homens é tal que, desde então, o seu Nome é inseparavelmente unido ao dos Patriarcas e o profeta pronuncia aquele Nome santo para que Deus se recorde e se mostre fiel, mas também para que Israel se sinta chamado pelo nome e reencontre a sua fidelidade. O título divino pronunciado por Elias, de fato, parece um pouco surpreendente. Ao invés de usar a fórmula habitual, “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”, ele utiliza um apelativo menos comum: “Deus de Abraão, de Isaac e de Israel”. A substituição do nome “Jacó” por “Israel” evoca a luta de Jacó nas margens do Yabboq, com a mudança de nome a que o narrador se refere explicitamente (cf. Gen 32, 31) e sobre a qual falei numa das últimas catequeses. Tal substituição adquire um significado pungente na invocação de Elias. O profeta esá rezando pelo povo do reino do norte, que se chamava Israel, diferente de Judá, que indicava o reino do sul. E agora, este povo, que parece ter esquecido a própria origem e o próprio relacionamento privilegiado com o Senhor, se sente chamar pelo nome enquanto e pronunciado o Nome de Deus, Deus do Patriarca e Deus do povo: “Senhor, Deus [...] de Israel, saibam todos hoje que sois o Deus de Israel”.
O povo para o qual Elias reza é recolocado diante da própria verdade, e o profeta pede que também a verdade do Senhor se manifeste e que Ele intervenha para converter Israel, retirando-o do engano da idolatria e levando-o assim à salvação. O seu pedido é para que o povo saiba, conheça em plenitude quem, de verdade, é o  seu Deus, e faça a escolha decisiva de seguir somente a Ele, o verdadeiro Deus. Porque somente assim Deus é reconhecido por aquilo que é, Absoluto e Transcendente, sem a possibilidade de colocá-Lo ao lado de outros deuses, que O renegariam como absoluto, relativizando-O. É esta a fé que faz de Israel o povo de Deus; é a fé proclamada no conhecido texto do Shemà Israel: “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 4-5). Ao absoluto de Deus, o crente deve responder com um amor absoluto, total, que comprometa toda a sua vida, as suas forças, o seu coração. E é exatamente para o coração do seu povo que o profeta, com sua oração, está implorando conversão: “que este povo reconheça que vós, Senhor, sois Deus, e que sois vós que converteis os seus corações!” (1Re 18, 37). Elias, com a sua intercessão, pede a Deus aquilo que Deus mesmo deseja fazer, manifestar-se em toda a sua misericórdia, fiel à própria realidade de Senhor da vida que perdoa, converte, transforma.
E é o que acontece: “Então, subitamente, o fogo do Senhor baixou do céu e consumiu o holocausto, a lenha, as pedras, a poeira e até mesmo a água da valeta. Vendo isso, o povo prostrou-se com o rosto por terra, e exclamou: O Senhor é Deus! O Senhor é Deus!” (1Re 18, 38-39). O fogo, este elemento ao mesmo tempo necessário e terrível, ligado às manifestações divinas da sarça ardente e do Sinai, agora serve para assinalar o amor de Deus que responde à oração e se revela ao seu povo. Baal, o deu mudo e impotente, não tinha respondido às invocações dos seus profetas; o Senhor, pelo contrário, responde, e de modo inequívoco, não apenas queimando o holocausto, mas até mesmo secando a água que tinha sido derramada ao redor do altar. Israel não pode mais ter dúvidas; a misericórdia divina veio ao encontro da sua fraqueza, de suas dúvidas, de sua falta de fé. Agora, Baao, o ídolo vão, é vencido, e o povo, que parecia perdido, reencontrou o caminho da verdade e reencontrou-se a si mesmo.
Caros irmãos e irmãs, o que esta história do passado diz para nós? Qual é o presente desta história? Em primeiro lugar está em questão a prioridade do primeiro mandamento: adorar apenas a Deus. Onde Deus desaparece, o homem cai na escravidão das idolatrias, como mostraram, no nosso tempo, os regimes totalitários e como mostram também diversas formas de niilismo, que tornam o homem dependente de ídolos, da idolatria; o escravizam. Segundo. O objetivo primeiro da oração é a conversão: o fogo de Deus que transforma o nosso coração e nos faz capazes de ver a Deus e, assim, de viver segundo Deus e de viver para o outro. E o terceiro ponto. Os Padres nos dizem que mesmo esta história de um profeta é profética, se – dizem – é sombra do futuro, do futuro Cristo; é um passo no caminho em direção a Cristo. E nos dizem que aqui vemos o verdadeiro fogo de Deus: o amor que guia o Senhor até à cruz, até ao dom total de si. A verdadeira adoração de Deus, então, é dar a si mesmo a Deus e aos homens, a verdadeira adoração é o amor. E a verdadeira adoração de Deus não destrói, mas renova, transforma. Certamente o fogo de Deus, o fogo do amor, queima, transforma, purifica, mas exatamente por isso não destrói, mas cria a verdade do nosso ser, recria o nosso coração. E assim, realmente vivos pela graça do fogo do Espírito Santo, do amor de Deus, somos adoradores em espírito e verdade. Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 15 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

MEC não quer ensinar

Por Carlos Alberto Di Franco *

Acabo de ler duas instigantes obras de Zygmunt Bauman: Amor Líquido e Modernidade Líquida. Bauman, um dos mais originais e perspicazes sociólogos da atualidade, vai fundo nos paradoxos da modernidade líquida. Vivemos um tempo de incertezas, de sinais confusos, de ausência de vínculos duradouros. Mas, ao mesmo tempo, o comportamento fluido e relativista acaba, frequentemente, em arrebatos de dogmatismo ideológico. O relativismo, facilmente, transforma-se em autoritarismo.
Recentemente, a imprensa noticiou que, para evitar discriminações, o Ministério da Educação (MEC) quer renunciar ao dever de ensinar. Por exemplo, entende que pode promover o preconceito a explicação em sala de aula de que a concordância entre artigo e substantivo é uma norma da língua portuguesa. Dessa forma, o MEC aconselha a relativizar. Segundo o Ministério, a expressão "os carro" também seria correta. A sociedade, quando se deu conta do que o MEC estava propondo, foi unânime na sua indignação. Afinal, a oportunidade de aprender bem a sua língua deve ser um direito de todos.
Nesse caso, no entanto, penso que está em jogo mais do que a norma culta da língua portuguesa. Implicitamente, o MEC nos diz: na busca por um "mundo mais justo" (sem preconceitos) pode ser aconselhável dizer algumas mentiras. Na lógica ministerial, o conhecimento é munição para a discriminação.
Vislumbra-se aí uma visão de mundo na qual o critério político prevaleceria sobre a realidade das coisas, sobre a verdade. E aqui reside o ponto central, cuja discussão é incômoda para uma sociedade que não deseja utilizar o conceito "verdade". Este seria apropriado apenas para uma agenda conservadora; os contemporâneos não deveriam utilizá-lo mais.
Mas por que será que a "verdade" é tão incômoda? Porque ainda estamos imersos no sofisma moderno que confunde "ter um conhecimento certo sobre algo" com "ser dono da verdade". O engano está em equiparar "conhecimento limitado" - que é onde sempre estaremos - com "todo conhecimento é inválido".
Outro influente motivo para evitar o uso do conceito "verdade" é a aspiração por liberdade. As "verdades" tolheriam a nossa autonomia, imporiam uns limites indesejáveis; no mínimo, acabariam diminuindo a nossa liberdade de pensamento. O MEC - de fato - entende assim: numa sociedade plural, não se poderia ter apenas uma única norma culta para a língua portuguesa. Deixemos os nossos alunos "livres" para escolherem as diversas versões.
Não será que ocorre exatamente o contrário? Quem conhece bem a língua portuguesa tem a liberdade de escolher qual forma - num texto literário, por exemplo - expressa melhor a sua ideia. E pode até abrir mão da norma culta, num determinado momento. Só terá a segurança dessa escolha quem conhecer a norma culta, caso contrário, serão tiros no escuro.
Entre liberdade e verdade não vige uma relação dialética. Elas andam juntas. O que pode provocar um antagonismo com a liberdade é uma versão absolutista de verdade, encarnada pelo sujeito que entende ser o "dono da verdade". Mas a verdade não é um objeto que se possui. A verdade é o mundo, é a realidade, são os outros. É uma porta que se abre para fora, não para dentro, e por isso pode ser contemplada por todos. Ela é democrática: está acessível a todos.
Já não será hora de superarmos a disjuntiva moderna e estabelecermos uma relação amigável com a "verdade"? Não significa fazer um pacto "espiritual" com o universo ou assinar uma espécie de declaração de alienação, abdicando do uso da inteligência e da crítica. A proposta que aqui se faz nada mais é do que buscar uma relação de honestidade intelectual com a realidade e com os outros.
Penso que essa relação de honestidade intelectual está na origem da cultura ocidental, ainda lá com os gregos. É um processo de aprendizagem, que leva a reconhecer os próprios erros, a revisar as condutas e, ainda que não seja retilíneo, trouxe indubitáveis bens (ainda não plenamente alcançados, mas que indicam a meta): o reconhecimento da dignidade da pessoa humana, o respeito e a valorização da mulher, a rejeição da escravidão, a democracia como expressão dessa dignidade, a tolerância, a compreensão, etc.
Aquilo de que mais nos orgulhamos não foi alcançado brigando com a "verdade", dizendo que tudo era relativo, que dava na mesma A ou B. Nesta lógica aparentemente ampla - mas que no fundo é estreita (porque não está aberta à realidade e aos outros, impera o subjetivo) -, quem ganha é o mais forte, aquele que grita mais alto. Já não existe um referencial adequado para o diálogo. Ficam as versões. Ficam os discursos. E ficamos à mercê dos Sarneys... E agora também dos Paloccis.
Só mais um último aspecto, agora do ponto de vista pedagógico. A visão do MEC sobre a educação corrobora a constatação feita pela pediatra norte-americana Meg Meeker. Ela considera que as principais dificuldades da educação dos jovens de hoje não são causadas por eles. Na visão dela, o problema não são os jovens - como muitas vezes os moralistas de plantão ou os saudosistas de outros tempos querem culpá-los.
A dra. Meg Meeker, com a experiência de mais de 20 anos atendendo adolescentes e pais no seu consultório, diz que a causa está nos próprios adultos, que diminuíram as expectativas da educação em relação às novas gerações. "Eles não conseguirão fazer isso..." Ou: "É impossível que ajam dessa forma..." Os próprios educadores nivelam por baixo - como se o comportamento ético fosse hoje em dia irrealizável - e depois se dizem decepcionados com os jovens.
Ministério da Educação: os alunos saberão fazer bom uso das regras de português. Não lhes impeça o acesso ao conhecimento e, principalmente, não lhes negue um dos principais motores para o crescimento pessoal: a confiança.

* Carlos Alberto Di Franco é doutor em comunicação, é professor de Ética e diretor do Master em Jornalismo. Texto extraído d'O Estado de São Paulo (versão online), do dia 30 de maio de 2011.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O Novo Testamento deu fim à invisibilidade do Pai

Bento XVI

Regina Coeli

Praça São Pedro
Domingo, 22 de maio de 2011

Caros irmãos e irmãs!
O Evangelho deste domingo, o Quinto da Páscoa, propõe um duplo mandamento sobre a fé: crer em Deus e crer em Jesus. O Senhor, de fato, disse ao seus discípulos: “Tenhais fé em Deus e tenhais fé também em mim” (Jo 14, 1). Não são dois atos separados, mas um único ato de fé, a plena adesão à salvação operada por Deus Pai através de seu Filho Unigênito. O Novo Testamento deu fim à invisibilidade do Pai. Deus mostrou o seu rosto, como confirma a resposta de Jesus ao apóstolo Felipe: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 9). O Filho de Deus, com a sua encarnação, morte e ressurreição, nos libertou da escravidão do pecado para nos dar a liberdade dos filhos de Deus e nos fez conhecer o rosto de Deus que é amor: Deus pode ser visto, é visível em Cristo. Santa Teresa d’Ávila escreve que “não devemos nos distanciar daquilo que constitui todo o nosso bem e o nosso remédio, ou seja, da santíssima humanidade de nosso Senhor Jesus Cristo” (Castelo interior, 7, 6). Portanto, apenas crendo em Cristo, permanecendo unidos a Ele, os discípulos, entre os quais estamos também nós, podem continuar a sua ação permanente na história: “Em verdade, em verdade, eu vos digo – disse o Senhor –, quem crê em mim, também ele realizará as obras que eu realizo” (Jo 14, 12).
A fé em Jesus comporta segui-Lo cotidianamente, nas ações simples que compõem o nosso dia-a-dia. “É próprio do mistério de Deus agir de modo submisso. Somente aos poucos Ele constrói na grande história da humanidade a sua história. Torna-se homem, mas de modo a poder ser ignorado pelos seus contemporâneos, pelas forças de poder da história. Padece e morre e, como Ressuscitado, quer chegar à humanidade apenas através da fé dos seus aos quais se manifesta. Continuamente, Ele bate submissamente às portas dos nossos corações e, se lhe abrimos, lentamente nos torna capazes de ‘ver’” (Jesus de Nazaré II, 2011, p. 206). Santo Agostinho afirma que “era necessário que Jesus dissesse: ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida’ (Jo 14, 6), para que uma vez conhecido o caminho, se conhecesse a meta” (Tractatus in Ioh., 69, 2: CCL 36, 500), e a meta é o Pai. Para os cristãos, para cada um de nós, portanto, o Caminho para o Pai é deixar-se guiar por Jesus, por sua palavra de Verdade, e acolher o dom da sua Vida. Façamos nosso o convite de São Boaventura: “Abre pois os olhos, dispõe o ouvido espiritual, abre os teus lábios e dispõe o teu coração, para que possas, em todas as criaturas, ver, escutar, louvar, amar, venerar, glorificar, honrar o teu Deus” (Itinerarium mentis in Deum, I, 15).
Caros amigos, o compromisso de anunciar Jesus Cristo, “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6), constitui a tarefa principal da Igreja. Invoquemos a Virgem Maria para que assista sempre os Pastores e aqueles que, nos diversos ministérios, anunciam a feliz Mensagem de salvação, para que a Palavra de Deus se difunda e o número dos discípulos se multiplique (cf. At 6, 7)

* Extraído do site do Vaticano, do dia 22 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Que na Universidade haja uma autêntica paixão pela Verdade...

Discurso do Santo Padre Bento XVI
aos dirigentes, docentes e estudantes
da Universidade Católico do Sagrado Coração

Aula Paulo VI
Sábado, 21 de maio de 2011

Senhores Cardeais,
Magnífico Reitor, ilustres Docentes,
Distintos representantes do pessoal,
Caros estudantes!
Estou muito feliz de poder ter este encontro com vós que formais a grande família da Universidade Católica do Sagrado Coração, nascida há noventa anos sob a iniciativa do Instituto Giuseppe Toniolo de Estudos Superiores, entidade fundadora e garantidora do Ateneu, pela feliz intuição de Padre Agostino Gemelli. Agradeço ao Cardeal Tettamanzi e ao Prof. Ornaghi, pelas calorosas palavras que me dirigiram em nome de todos.
O nosso tempo é um tempo de grandes e rápidas transformações, que se refletem também sobre a vida universitária: a cultura humanista parece atingida por um progressivo desgaste, enquanto se acentua o valor das disciplinas ditas “produtivas”, de âmbito tecnológico e econômico; esbarramos com a tendência a reduzir o horizonte humano ao nível daquilo que é mensurável, a eliminar do saber sistemático e crítico a questão fundamental sobre o sentido. A cultura contemporânea, por isso, tende a confinar a religião fora dos espaços da racionalidade: na medida em que as ciências empíricas monopolizam os territórios da razão, não parece haver mais espaço para as razões do crer, de forma que a dimensão religiosa é relegada à esfera da opinião e do privado. Neste contexto, as motivações e as características mesmas da instituição universitária são radicalmente questionadas.
Noventa anos depois de sua fundação, a Universidade Católica do Sagrado Coração se encontra vivendo esta virada histórica, na qual é importante consolidar e incrementar as razões pelas quais nasceu, levando àquela conotação eclesial que é evidenciada pelo adjetivo “católica”; a Igreja, de fato, “especialista em humanidade”, é promotora de humanismo autêntico. Emerge, nesta perspectiva, a vocação original da Universidade, nascida da busca pela verdade, de toda a verdade, de toda a verdade do nosso ser. E com a sua obediência à verdade e às exigências do seu conhecimento ela se torna escola de humanitas na qual se cultiva um saber vital, se forjam personalidades fortes e se transmitem conhecimentos e competências de valor. A perspectiva cristã, como quadro do trabalho intelectual da Universidade, não se contrapõe ao saber científico e às conquistas da engenhosidade humana, mas, pelo contrário, a fé alarga o horizonte do nosso pensamento, é caminho para a verdade plena, guia de autêntico desenvolvimento. Sem orientação para a verdade, sem uma postura de procura humilde e audaz, toda cultura se desfaz, decai no relativismo e se perde no efêmero. Tirada, pelo contrário, das garras de um reducionismo que a mortifica e a circunscreve, pode se abrir a uma interpretação verdadeiramente iluminada do real, desempenhando assim um autêntico serviço para a vida.
Caros amigos, fé e cultura são grandezas indissoluvelmente ligadas, manifestações daquele desiderium naturale videndi Deum que está presente em todo homem. Quando esta união se quebra, a humanidade tende a dobrar-se e fechar-se sobre suas próprias capacidades criativas. É necessário, então, que na Universidade haja uma autêntica paixão pela questão do Absoluto, a Verdade mesma, e portanto também pelo saber teológico, que no vosso Ateneu é parte integrante do currículo. Unindo em si a audácia da pesquisa e a paciência do amadurecimento, o horizonte teológico pode e deve valorizar todos os recursos da razão. A questão da Verdade e do Absoluto – a questão de Deus – não é uma investigação abstrata, separada da realidade do cotidiano, mas é a pergunta crucial, da qual depende radicalmente a descoberta de sentido do mundo e da vida. No Evangelho se funda uma concepção do mundo e do homem que não cessa de desencadear significados culturais, humanistas e éticos. O saber da fé, portanto, ilumina a pesquisa do homem, a interpreta humanizando-a, a integra em projetos de bem, arrancando-a da tentação do pensamento calculador, que instrumentaliza o saber e faz das descobertas científicas meios de poder e de escravização do homem.
O horizonte que anima o trabalho universitário pode e deve ser a paixão autêntica pelo homem. Somente no serviço ao homem a ciência se desenvolve como verdadeiro cultivo e custódia do universo. E servir ao homem é fazer a verdade na caridade, é amar a vida, respeitá-la sempre, a começar das situações nas quais ela é mais frágil e indefesa. É esta a nossa tarefa, especialmente nos tempos de crise: a história da cultura mostra como a dignidade do homem foi reconhecida verdadeiramente na sua integralidade à luz da fé cristã. A Universidade Católica é chamada a ser lugar no qual toma forma de excelência aquela abertura ao saber, aquela paixão pela verdade, aquele interesse pela história do homem caracterizam a autêntica espiritualidade cristã. De fato, colocar-se numa postura de fechamento ou de distanciamento diante da perspectiva da fé significa esquecer que ela foi ao longo da história, e o é ainda, fermento de cultura e luz para a inteligência, estímulo para que se desenvolvessem todas as suas potencialidades positivas para o bem autêntico do homem. Como afirma o Concílio Vaticano II, a fé é capaz de dar luz à existência. Diz o Concílio que a fé “vê todas as coisas sob um luz nova, e revela as intenções de Deus sobre a vocação integral do homem, e por isso guia a inteligência para soluções plenamente humanas” (Gaudium et spes, 11).
A Universidade Católica é lugar no qual isto deve acontecer com eficácia singular, sob o perfil seja científico, seja didático. Este peculiar serviço para a Verdade é dom de graça e expressão qualificante de caridade evangélica. A atestação da fé e o testemunho da caridade são incindíveis (cf. 1Jo 3, 23). O núcleo profundo da verdade de Deus, de fato, é o amor com o qual Ele se inclinou sobre o homem e, em Cristo, lhe ofereceu dons infinitos de graça. Em Jesus, descobrimos que Deus é amor e que somente no amor podemos conhecê-Lo: “todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus (...), porque Deus é amor” (1Jo 4, 7.8), diz São João. E Santo Agostinho afirma: “Non intratur in veritatem nisi per caritatem” (Contra Faustum, 32). O vértice do conhecimento de Deus se atinge no amor; aquela amor que sabe ir até à raiz, que não se contenta com ocasionais expressões filantrópicas, mas ilumina o sentido da vida com a Verdade de Cristo, que transforma o coração do homem e o arranca dos egoísmos que geram miséria e morte. O homem precisa de amor, homem precisa de verdade, para não desperdiçar o frágil tesouro da liberdade e ser exposto à violência das paixões e aos condicionamentos abertos e ocultos (cf. João Paulo II, Enc. Centesimus annus, 46). A fé cristã não faz da caridade um sentimento vago e piedoso, mas uma força capaz de iluminar os caminhos da vida em todas as suas expressões. Sem esta visão, sem esta dimensão teologal originária e profunda, a caridade se contenta com a ajuda ocasional e renuncia à tarefa profética, que lhe é própria, de transformar a vida da pessoa e as estruturas mesmas da sociedade. Este é um compromisso específico que a missão na Universidade vos chama a realizar como protagonistas apaixonados, convictos de que a força do Evangelho é capaz de renovar as relações humanas e penetrar no coração da realidade.
Caros jovens universitários da “Católica”, sois a demonstração viva daquele caráter da fé que muda a vida e salva o mundo, com os problemas e as esperanças, com as interrogações e as certezas, com as aspirações e os compromissos que o desejo de uma vida melhor gera e a oração alimenta. Caros representantes do pessoal técnico-administrativo sede orgulhosos das tarefas que vos são confiadas no contexto da grande família universitária no suporte da multiforme atividade formativa e profissional. E a vós, caros Docentes, é confiado um papel decisivo: mostrar como a fé cristã é fermento de cultura e luz para a inteligência, estímulo para que se desenvolva todas as suas potencialidades positivas, para o bem autêntico do homem. Aquilo que razão vê, a fé ilumina e manifesta. A contemplação da obra de Deus abre o saber à exigência da investigação racional, sistemática e crítica; a busca por Deus reforça o amor pelas letras e pelas ciências profanas: “Fides ratione adiuvatur et ratio fide perficitur”, aifrma Hugo de São Victor (De sacramentis, I, III, 30: PL 176, 232). Nesta perspectiva, a Capela é o coração pulsante e o alimento constante da vida universitária, à qual se une o Centro Pastoral onde os Assistentes Espirituais das diversas sedes são chamados a desenvolverem sua preciosa missão sacerdotal que é imprescindível para a identidade da Universidade Católica. Como ensina o Beato João Paulo II, a Capela “é lugar do espírito, onde pausam em oração e encontram alimento, orientação e sustento os crentes em Cristo, que vivem com modalidades diversas a vida intensa da Universidade; é academia de virtudes cristãs, onde cresce e se desenvolve a vida batismal, e se expressa com ardor apostólico; é casa acolhedora e aberta, para todos aqueles que, escutando o Mestre interior, se fazem buscadores de verdade e servem o homem na dedicação diuturna a um saber não satisfeito com horizontes estreitos e pragmáticos. No contexto da modernidade em declínio, ela se torna, com forte ênfase, centro vivo e propulsor de animação cristã da cultura: no diálogo respeitoso e franco, na proposta clara e motivada (cf. 1Pd 3, 15), no testemunho que interroga e convence” (Discurso aos Capelães europeus, 1 de maio de 1998). Assim dizia o Papa João Paulo II, em 1998.
Caros amigos, espero que a Universidade Católica do Sagrado Coração, em sintonia com as intenções do Instituto Toniolo, prossiga com renovada confiança o seu caminho, mostrando de forma eficaz que a luz do Evangelho é fonte de verdadeira cultura capaz de desencadear energias de um humanismo novo, integral, transcendente. Confio-vos a Maria Sedes Sapientiae e, com afeto, vos transmito de coração minha Bênção Apostólica

* Extraído do site do Vaticano, do dia 21 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.