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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Dualidades


Por Bruno Tolentino

Não é Deus o problema.
A humana confusão
nasce da velha teima
da alma com o coração
(ou vice-versa) e o tema
não tem solução
enquanto for dilema.

Um corpo e um espírito
que se debatem em vão
um contra o outro, não
separam o infinito
e o instante senão
segundo o velho mito
da humana divisão.

Nossa dualidade
axiomática, o pão
da falsa refeição
em que tudo é metade,
é uma irrealidade.
Somos um todo. A mão
que busca a eternidade

e o eterno que se inclina
para encontrá-la, são
um só, um não termina
onde começa o vão
esforço da cortina
para alçar-se do chão:
a comédia é divina

por ser a encenatura
de um drama em que a paixão,
a dor da criatura
e sua redenção,
atravessam a obscura
ponte-separação,
fazem do mal a cura...

Quando nos debatemos
numa irresolução
entre polos extremos,
resta que a inclinação
insistente de remos
opostos, um na mão,
um no ar, como gêmeos

dissemelhantes, mas
unidos em razão
de uma paixão que faz
do esforço a solução,
resta que essa voraz,
grave equivocação,
deifica o fugaz

e retarda a ascensão
rumo à única meta.
Somos irmãos da seta,
buscamos a amplidão.
E, se a alma é concreta,
tudo é evaporação
insistente, secreta

e enfim irreprimível!
Vamos aonde vão
todos na multidão
à procura do nível,
a predestinação
de tudo é o invisível.
Movemo-nos na mão

de um ritmo contínuo:
recapitulação
do humano no divino,
somos a dispersão
dos gemidos do sino
escalando a amplidão,
o som sempre mais fino,

mais sutil, mais repleto
daquela oscilação
do voo, que é direto
em si, mas que em função
deste mundo inquieto
é cheio de ilusão.
Como o branco no preto,

a reverberação
entre a ausência de cor
e a excessiva união
de todas, faz supor
uma dissolução
contraditória, o alvor
do amor na negação.

Mas ao fim da lição
nem Deus era o problema
nem era a solução:
não havia o dilema!
Era ilusãoa teima
do ser, sua prisão
uma má-criação...

Que se a dor era o estrume,
o humano coração
é mortal como o grão,
não como o vaga-lume,
e sua vocação
é preparar o lume,
a espiga, a erupção

triunfal de um futuro.
Sofri num corpo impuro
sem frutificação,
mas fiz uma canção,
uns desenhos no escuro,
como as heras no muro
vão subindo do chão.

Entendo que não são
duas coisas idênticas,
mas são gêmeas: canção
e hera são concêntricas,
uma e outra a explosão
da terra, o coração
do eterno: uma o adentra

enquanto a outra o concentra,
mas enfim tudo canta!
É tudo um eco, um vão
aberto entre a garganta
e uma sublimação,
uma ânsia de planta
que se alcança: a canção

é o grão que se levanta.

* TOLENTINO, Bruno. As horas de Katharina - com a peça A andorinha, ou: A cilada de Deus. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2010, pp. 234-237.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Somewhere, somehow

Porque é possível fazer
a verdade disso tudo
como quem faz um estudo,
sem que ao cabo do lazer,

do prazer de havê-lo feito,
tenha-se enfim feito nada
daquilo tudo: a estocada
já estava mesmo no peito.

Imagino algum poeta
nalguma língua estrangeira
este mesmo instante à beira
de escrever isso... Há uma reta

que, pelo meio da gente
como uma régua da vida,
é uma frase repetida,
a mesma, insistentemente:

"... porque é possível fazer
toda a realidade disso
sem o enfadonho exercício
de fazê-lo, de o viver..."

TOLENTINO, Bruno. As horas de Katharina com a peça inédita A andorinha, ou: A cilada de Deus. Rio de Janeiro: Record, 2010, p. 76.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A paixão segundo nós mesmos

Republico um post de alguns meses atrás... pela beleza do texto! Trata-se de uma poesia de Bruno Tolentino, extraída da Balada do Cárcere. Deleitem-se, amigos!
I
A paixão segundo nós mesmos
não é o mero exercício inglório,
o exaustivo repositório
do sem-sentido dado a esmo
e usado em vão: essa paixão,
malentendida como a vida,
como a lenda da perfeição,
é a demonstração desmedida
da descoberta do sensível
como um dos lados do incompleto,
do corpo embriagado, o indiscreto
enamorado do invisível
mais semicego por decreto
da insuficiente inteligência.

Porque toda paixão anda perto
dessa obscura impaciência
que de si mesma faz a tocha
perecível, e assim pouco a pouco
ilumina primeiro a coxa
tão desejada, em seguida o louco
desejo irascível, e logo,
segundo as lógicas do incêndio,
a razão mesma desse esplêndido
enamoramento do fogo:
é que não chega a existir inteira
toda a elusiva realidade
até que um corpo caia à beira
de outro corpo, na totalidade...

O apaixonado é o incendiário
da água turva da superfície,
mergulhador do imaginário
e descobridor, só por isso,
daquele assombroso esplendor
que ele adivinhou sob a pele,
sob o gesto... É por causa do amor
insensato e sensiente que ele,
um louco, toca as profundezas
do ser total, daquele êxtase
aliciante da beleza
imortal. É cavalgando a besta
que a alma depara o Criador.
Mas é tudo uma questão de amor.

II
O perigo para a criatura,
o único verdadeiro perigo,
é desconfiar dessa loucura
que a movimenta sob o signo
multiforme do imperecível.
É não confiar no invisível.

É distrair-se, é deslembrar-se
da perfeita vocação que a trouxe
a este mundo, e abraçar o disfarce,
o sensível, como se ele fosse
a total declinação do enigma:
a finitude como estigma.

Porque é tudo invisível: o nada
é o ilusório sobretudo
da vida sempre adivinhada,
a vida princípio de tudo
e sem fim como todo princípio.
O olhar apaixonado e limpo

apreende o real inteiro,
e inteiridade é devoção.
Como a semente no canteiro
primeiro estremece e só então
deita raiz, sacode a cega
unidade da terra e entrega

enfim sob uma luz perfeita
o talo, a folha, o fruto, o dente
tão frágil da nova semente
à promessa de outra colheita,
assim o olhar da criatura
recebe o mundo e a investidura

de sua semidivindade.
O perigo é baixar a pálpebra
entre o esplendor da realidade
e o desespero, essa falsa álgebra
que interpõe entre o ser e a vida
uma distância descabida.

É preciso olhar com cuidado,
lançar contra todo argumento
aquele olhar maravilhado
e novo, aquele olhar sedento
que subverte e transfigura.
O ser é a visão que procura.

* TOLENTINO, Bruno (1996). Balada do cárcere. Rio de Janeiro: Topbooks, pp. 111-113.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A paixão segundo nós mesmos

I
A paixão segundo nós mesmos
não é o mero exercício inglório,
o exaustivo repositório
do sem-sentido dado a esmo
e usado em vão: essa paixão,
malentendida como a vida,
como a lenda da perfeição,
é a demonstração desmedida
da descoberta do sensível
como um dos lados do incompleto,
do corpo embriagado, o indiscreto
enamorado do invisível
mais semicego por decreto
da insuficiente inteligência.

Porque toda paixão anda perto
dessa obscura impaciência
que de si mesma faz a tocha
perecível, e assim pouco a pouco
ilumina primeiro a coxa
tão desejada, em seguida o louco
desejo irascível, e logo,
segundo as lógicas do incêndio,
a razão mesma desse esplêndido
enamoramento do fogo:
é que não chega a existir inteira
toda a elusiva realidade
até que um corpo caia à beira
de outro corpo, na totalidade...

O apaixonado é o incendiário
da água turva da superfície,
mergulhador do imaginário
e descobridor, só por isso,
daquele assombroso esplendor
que ele adivinhou sob a pele,
sob o gesto... É por causa do amor
insensato e sensiente que ele,
um louco, toca as profundezas
do ser total, daquele êxtase
aliciante da beleza
imortal. É cavalgando a besta
que a alma depara o Criador.
Mas é tudo uma questão de amor.

II
O perigo para a criatura,
o único verdadeiro perigo,
é desconfiar dessa loucura
que a movimenta sob o signo
multiforme do imperecível.
É não confiar no invisível.

É distrair-se, é deslembrar-se
da perfeita vocação que a trouxe
a este mundo, e abraçar o disfarce,
o sensível, como se ele fosse
a total declinação do enigma:
a finitude como estigma.

Porque é tudo invisível: o nada
é o ilusório sobretudo
da vida sempre adivinhada,
a vida princípio de tudo
e sem fim como todo princípio.
O olhar apaixonado e limpo

apreende o real inteiro,
e inteiridade é devoção.
Como a semente no canteiro
primeiro estremece e só então
deita raiz, sacode a cega
unidade da terra e entrega

enfim sob uma luz perfeita
o talo, a folha, o fruto, o dente
tão frágil da nova semente
à promessa de outra colheita,
assim o olhar da criatura
recebe o mundo e a investidura

de sua semidivindade.
O perigo é baixar a pálpebra
entre o esplendor da realidade
e o desespero, essa falsa álgebra
que interpõe entre o ser e a vida
uma distância descabida.

É preciso olhar com cuidado,
lançar contra todo argumento
aquele olhar maravilhado
e novo, aquele olhar sedento
que subverte e transfigura.
O ser é a visão que procura.

* TOLENTINO, Bruno (1996). Balada do cárcere. Rio de Janeiro: Topbooks, pp. 111-113.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Ao Divino Assassino

Um dia após o trágico acidente do vôo JJ3054 da TAM, e quase um mês depois da morte do poeta Bruno Tolentino, relendo suas poesias, encontrei uma que ajuda a olhar para a dor que, tenho certeza - pela dor mesma que sinto eu -, tantos estamos enfrentando agora:

Litania concebida ante o Sagrado Coração,
à época do acidente fatal de Anecy Rocha

Senhor, Senhor, o Teu anjo terrível
é sempre assim? Não tens um refratário
à hora do massacre - um mais sensível

que atrasasse o relógio, o calendário?
Ao que parece a todos tanto faz
por quem o sino dói no campanário.

Começa a amanhecer e uma vez mais
rebelo-me, mas sei que a minha vida
não tem como ou por que voltar atrás.

Aceito que a mais dura despedida
é bem mais que metáfora do nada
a que se inclina o chão; que uma ferida

e a papoula sangrenta da alvorada
pertencem ao mundo sobrenatural
tanto quanto uma lágrima enxugada

à beira de um caixão. Mas afinal,
Senhor, amas ou não a humanidade?
Não fui ao escandaloso funeral

e imaginá-la em Tua eternidade
dói demais! Vou passar mais este teste,
sim, mas protesto contra a insanidade

com que arrancas a muque o que nos deste!
Tu sabes que a soberba da família
era maior que a dela e eu tinha a peste -

pai e mãe apartavam-me da filha
e o irmãozinho nem falar... E hoje, coitados,
como hão de estar? Aqui é a maravilha,

as genuflexões... Os potentados
e os humildes, a nata da esperança,
todos chegam por cá meio esfolados,

sangrando como a luz. Não só da França,
toda a Europa rasteja até aqui
esfolando os joelhos, não se cansa

de ensangüentar-se até chegar a Ti,
e ao menos a um pixote do Além Tejo
restituíste a vista; eu quando o vi

solucei - mas que o cego e o paraplégico
saiam aos pinotes, que o Teu coração
se escancare e esparrame um privilégio

aqui e outro acolá na multidão,
só me faz perguntar: E ela? E ela...?
Não consigo entender que a um alejão

concedas tanto quanto a uma camélia
Tu deixas despencar... Por quê, Senhor?
Olho tudo do vão de uma janela,

mas vejo a porta de um elevador
escancarar-se sobre um outro vão,
um vão sem chão. E a seja lá quem for

aqui absurdamente dás a mão!
Me pões trêmulo, gago, estupefato,
pasmo, Senhor - mas consolado não.

A mesma mão que fez gato e sapato
da minha doce Musa, cura e guia,
cancela as entrelinhas do contrato,

Dominus dixit... Mas quem merecia
mais do que uma açucena matinal
um manso desfolhar-se ao fim do dia,

quem mais do que uma flor, Senhor? Igual
nunca se viu nem mesmo entre os crisântemos,
tinha direito a um fim mais natural,

à morte numa cama, em casa ao menos...
Mas não - tinha que ser total o escândalo!
Por que, se nem nos circos mais extremos

Teus mártires andaram despencando
sobre os leões, se nem o lixo cai
de oito andares aos trancos, Santo Vândalo?!

Não vim denunciar o Filho ao Pai
ou o Pai ao Filho, não vim dar razão
aos que recusam e usam cada ai

contra a humildade; vim porque a Paixão
me chamou pelo nome e a alma obedece
e aceita suar sangue - como não?

Mas não sei mais unir o rogo à prece
do que a elegia ao hino de louvor,
não sei amar-Te assim. Caso o soubesse

teria que ficar aqui, Senhor,
aqui, arrebentando-me os joelhos,
esfolando-me todo ante um amor

que vai tornando sempre mais vermelhos,
mais duros os degraus do Teu altar.
Tu, que tudo consertas, dos artelhos

que desentortas e repões a andar
até às pupilas mortas de um garoto,
do cachoupinho que me fez chorar;

Tu, que a este lhe dás a flor no broto
e àquele o lírio pútrido do pus;
Tu, que passas por um de quatro e a um outro

pegas o colo e entregas a Jesus;
Tu que fazes jorrar da rocha fria;
Tu que metaforizas Tua luz

ao ponto de fazer de uma agonia
um puro horror ou a morna mansuetude -
que hás de fazer, Senhor, comigo um dia?

Quando eu agonizar, boiar no açude
das lágrimas sem fundo... Quando a fonte
cessar de soluçar e uma altitude

imerecida me enxugar a fronte...
Como há de ser, Senhor? Oxalá queiras
que a mim me embale a barca de Caronte,

como o fazia a velha Cantareira,
o azul da travessia... A Irrecorrível
arrasta a cada um de uma maneira

e a quem quer que se abeire ao invisível
recordas a promessa: aquele a escuta
e este a recusa porque a dor é horrível,

mas, se a todos a última permuta
terá sempre o sabor da anulação,
o travo lacrimoso da cicuta,

a ela Tu negaste o próprio chão,
deixaste-a abrir a porta sem querer!
Nunca falou na morte, e com razão,

intuía, quem sabe, o que ia ver...
Sentença Tua? Em nome da promessa
não há negar Teu duro amanhecer -

mas quando arrancas mais uma cabeça
como saber que és Tu, que não mentia
O que ressuscitou? Talvez na pressa,

no pânico de Pedro, eu negue um dia
e trate de escapar, mas hoje não;
hoje sofro com fé e, sem poesia,

metrifico uma dor sem solução,
mas não vim negar nada! Faz efeito
essa dor: faz sangrar, mas faz questão

de defender-me como um parapeito
contra a queda e a revolta. Um Botticelli
despedaçou-se todo, mas que jeito,

se por Lear enforcam uma Cordélia
e encarceram a Arial por Calibã...?
Alvorece, a manhã beata velha

enfia agulhas no Teu céu de lã,
antenas às Tuas cenas de TV,
e eu penso: ela morreu... Hoje, amanhã,

enquanto Te aprouver e até que dê
a palma ao prego e o último verso à traça,
vai doer - mas Amém! Não há porque

amar a morte, mas que venha a Taça,
aceito suar sangue até o final,
como não... Tudo dói, menos a graça,

mata, Senhor, que a morte não faz mal!

* Tolentino, B. (2002). O mundo como idéia: 1959-1999. São Paulo: Globo, pp. 244-249.