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sábado, 7 de abril de 2012

Comentário ao Evangelho do dia - Tríduo Pascal



Sábado Santo
    
1ª Leitura - Gn 1,1-2,2
No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra estava deserta e vazia, as trevas cobriam a face do abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Deus disse: “Faça-se a luz!” E a luz se fez. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. E à luz Deus chamou “dia” e às trevas, “noite”. Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia. Deus disse: “Faça-se um firmamento entre as águas, separando umas das outras”. E Deus fez o firmamento, e separou as águas que estavam embaixo, das que estavam em cima do firmamento. E assim se fez. Ao firmamento Deus chamou “céu”. Houve uma tarde e uma manhã: segundo dia. Deus disse: “Juntem-se as águas que estão debaixo do céu num só lugar e apareça o solo enxuto!”. E assim se fez. Ao solo enxuto Deus chamou “terra” e ao ajuntamento das águas, “mar”. E Deus viu que era bom. Deus disse: “A terra faça brotar vegetação e plantas que deem semente, e árvores frutíferas que deem fruto segundo a sua espécie, que tenham nele a sua semente sobre a terra”. E assim se fez. E a terra produziu vegetação e plantas que trazem semente segundo a sua espécie, e árvores que dão fruto tendo nele a semente da sua espécie. E Deus viu que era bom. Houve uma tarde e uma manhã: terceiro dia. Deus disse: “Façam-se luzeiros no firmamento do céu, para separar o dia da noite. Que sirvam de sinais para marcar as épocas os dias e os anos, e que resplandeçam no firmamento do céu e iluminem a terra”. E assim se fez. Deus fez os dois grandes luzeiros: o luzeiro maior para presidir ao dia,e o luzeiro menor para presidir à noite, e as estrelas. Deus colocou-os no firmamento do céu para alumiar a terra, 18para presidir ao dia e à noite e separar a luz das trevas. E Deus viu que era bom. E houve uma tarde e uma manhã: quarto dia. Deus disse: “Fervilhem as águas de seres animados de vida e voem pássaros sobre a terra, debaixo do firmamento do céu”. Deus criou os grandes monstros marinhos e todos os seres vivos que nadam, em multidão, nas águas, segundo as suas espécies, e todas as aves, segundo as suas espécies. E Deus viu que era bom. E Deus os abençoou, dizendo: “Sede fecundos e multiplicai-vos e enchei as águas do mar, e que as aves se multipliquem sobre a terra”. Houve uma tarde e uma manhã: quinto dia. Deus disse: “Produza a terra seres vivos segundo as suas espécies, animais domésticos, répteis e animais selvagens, segundo as suas espécies”. E assim se fez. Deus fez os animais selvagens, segundo as suas espécies, os animais domésticos segundo as suas espécies e todos os répteis do solo segundo as suas espécies. E Deus viu que era bom. Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e segundo à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra”. E Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou: homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a! Dominai sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu e sobre todos os animais que se movem sobre a terra”. E Deus disse: “Eis que vos entrego todas as plantas que dão semente  sobre a terra, e todas as árvores que produzem fruto com sua semente, para vos servirem de alimento. E a todos os animais da terra, e a todas as aves do céu, e a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou todos os  vegetais para alimento”. E assim se fez. E Deus viu tudo quanto havia feito, e eis que tudo era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã: sexto dia. E assim foram concluídos o céu e a terra com todo o seu exército. No sétimo dia, Deus considerou acabada toda a obra que tinha feito; e no sétimo dia descansou de toda a obra que fizera.

Salmo - Sl 103
R. Enviai o vosso Espírito Senhor,
e da terra toda a face renovai.

Bendize, ó minha alma, ao Senhor!*
Ó meu Deus e meu Senhor, como sois grande!
De majestade e esplendor vos revestis*
e de luz vos envolveis como num manto. R.

A terra vós firmastes em suas bases,*
ficará firme pelos séculos sem fim;
os mares a cobriam como um manto,*
e as águas envolviam as montanhas. R.

Fazeis brotar em meio aos vales as nascentes*
que passam serpeando entre as montanhas;
às suas margens vêm morar os passarinhos,*
entre os ramos eles erguem o seu canto. R.

De vossa casa as montanhas irrigais,*
com vossos frutos saciais a terra inteira;
fazeis crescer os verdes pastos para o gado*
e as plantas que são úteis para o homem. R.

Quão numerosas, ó Senhor, são vossas obras,*
e que sabedoria em todas elas!
Encheu-se a terra com as vossas criaturas!*
Bendize, ó minha alma, ao Senhor! R.

2ª Leitura - Gn 22,1-18
Naqueles dias, Deus pôs Abraão à prova. Chamando-o, disse: “Abraão!”. E ele respondeu: “Aqui estou”. E Deus disse: “Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um monte que eu te indicar”. Abraão levantou-se bem cedo, selou o jumento, tomou consigo dois dos seus servos e seu filho Isaac. Depois de ter rachado lenha para o holocausto, pôs-se a caminho, para o lugar que Deus lhe havia ordenado. No terceiro dia, Abraão, levantando os olhos, viu de longe o lugar. Disse, então, aos seus servos: “Esperai aqui com o jumento, enquanto eu e o menino vamos até lá. Depois de adorarmos a Deus, voltaremos a vós”. Abraão tomou a lenha para o holocausto e a pôs às costas do seu filho Isaac, enquanto ele levava o fogo e a faca. E os dois continuaram caminhando juntos. Isaac disse a Abraão: “Meu pai”. “Que queres, meu filho?”, respondeu ele. E o menino disse: “Temos o fogo e a lenha, mas onde está a vítima para o holocausto?”. Abraão respondeu: “Deus providenciará a vítima para o holocausto, meu filho”. E os dois continuaram caminhando juntos. Chegados ao lugar indicado por Deus, Abraão ergueu um altar, colocou a lenha em cima, amarrou o filho e o pôs sobre a lenha em cima do altar. Depois, estendeu a mão, empunhando a faca para sacrificar o filho. E eis que o anjo do Senhor gritou do céu, dizendo: “Abraão! Abraão!”. Ele respondeu: “Aqui estou!”. E o anjo lhe disse: “Não estendas a mão contra teu filho e não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu filho único”. Abraão, erguendo os olhos, viu um carneiro preso num espinheiro pelos chifres; foi buscá-lo e ofereceu-o em holocausto no lugar do seu filho. Abraão passou a chamar aquele lugar: “O Senhor providenciará”. Donde até hoje se diz: “Sobre o monte o Senhor providenciará”. O anjo do Senhor chamou Abraão, pela segunda vez, do céu, e lhe disse: “Juro por mim mesmo - oráculo do Senhor -, uma vez que agiste deste modo e não me recusaste teu filho único, eu te abençoarei e tornarei tão numerosa tua descendência como as estrelas do céu e como as areias da praia do mar. Teus descendentes conquistarão as cidades dos inimigos. Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque me obedeceste”.

Salmo - Sl 15
R. Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio!

Ó Senhor, sois minha herança e minha taça,*
meu destino está seguro em vossas mãos!
Tenho sempre o Senhor ante meus olhos,*
pois se o tenho a meu lado não vacilo. R.

Eis por que meu coração está em festa,
minha alma rejubila de alegria,*
e até meu corpo no repouso está tranqüilo;
pois não haveis de me deixar entregue à morte,*
nem vosso amigo conhecer a corrupção. R.

Vós me ensinais vosso caminho para a vida;
junto a vós, felicidade sem limites,*
delícia eterna e alegria ao vosso lado! R.

3ª Leitura - Ex 14,15-15,1
Naqueles dias, o Senhor disse a Moisés: “Por que clamas a mim por socorro? Dize aos filhos de Israel que se ponham em marcha. Quanto a ti, ergue a vara, estende o braço sobre o mar e divide-o, para que os filhos de Israel caminhem em seco pelo meio do mar. De minha parte, endurecerei o coração dos egípcios, para que sigam atrás deles, e eu seja glorificado às custas do Faraó, e de todo o seu exército, dos seus carros e cavaleiros. E os egípcios saberão que eu sou o Senhor, quando eu for glorificado às custas do Faraó, dos seus carros e cavaleiros”. Então, o anjo do Senhor, que caminhava à frente do acampamento dos filhos de Israel, mudou de posição e foi para trás deles; e com ele, ao mesmo tempo, a coluna de nuvem, que estava na frente, colocou-se atrás, 20inserindo-se entre o acampamento dos egípcios e o acampamento dos filhos de Israel. Para aqueles a nuvem era tenebrosa, para estes, iluminava a noite. Assim, durante a noite inteira, uns não puderam aproximar-se dos outros. Moisés estendeu a mão sobre o mar, e durante toda a noite o Senhor fez soprar sobre o mar um vento leste muito forte; e as águas se dividiram. Então, os filhos de Israel entraram pelo meio do mar a pé enxuto, enquanto as águas formavam como que uma muralha à direita e à esquerda. Os egípcios puseram-se a persegui-los, e todos os cavalos do Faraó, carros e cavaleiros os seguiram mar adentro. Ora, de madrugada, o Senhor lançou um olhar, desde a coluna de fogo e da nuvem, sobre as tropas egípcias e as pôs em pânico. Bloqueou as rodas dos seus carros, de modo que só a muito custo podiam avançar. Disseram, então, os egípcios: “Fujamos de Israel! Pois o Senhor combate a favor deles, contra nós”. O Senhor disse a Moisés: “Estende a mão sobre o mar, para que as águas se voltem contra os egípcios, seus carros e cavaleiros”. Moisés estendeu a mão sobre o mar e, ao romper da manhã, o mar voltou ao seu leito normal, enquanto os egípcios, em fuga, corriam ao encontro das águas, e o Senhor os mergulhou no meio das ondas. As águas voltaram e cobriram carros, cavaleiros e todo o exército do Faraó, que tinha entrado no mar em perseguição de Israel. Não escapou um só. Os filhos de Israel, ao contrário, tinham passado a pé enxuto pelo meio do mar, cujas águas lhes formavam uma muralha à direita e à esquerda. Naquele dia, o Senhor livrou Israel da mão dos egípcios, e Israel viu os egípcios mortos nas praias do mar, e a mão poderosa do Senhor agir contra eles. O povo temeu o Senhor, e teve fé no Senhor e em Moisés, seu servo. Então, Moisés e os filhos de Israel cantaram ao Senhor este cântico.

Salmo - Ex 15, 1-5.17-18
R. O Senhor é rei para sempre.

“Cantarei ao Senhor, porque ele manifestou sua glória.
Precipitou no mar cavalos e cavaleiros.         
O Senhor é a minha força e o objeto do meu cântico;
foi ele quem me salvou.

Ele é o meu Deus – eu o celebrarei;
o Deus de meu pai – eu o exaltarei.   
O Senhor é o herói dos combates, seu nome é Javé.
Lançou no mar os carros do faraó e o seu exército;
a elite de seus combatentes afogou-se no mar Vermelho;

o abismo os cobriu; afundaram-se nas águas como pedra.
Conduzi-lo-eis e o plantareis na montanha que vos pertence,
no lugar que preparastes para vossa habitação,
Senhor, no santuário, Senhor, que vossas mãos fundaram.
O Senhor é rei para sempre, sem fim!”.

4ª Leitura - Is 54,5-14
Teu esposo é aquele que te criou, seu nome é Senhor dos exércitos; teu redentor, o Santo de Israel, chama-se Deus de toda a terra. O Senhor te chamou, como a mulher abandonada e de alma aflita; como a esposa repudiada na mocidade, falou o teu Deus. Por um breve instante eu te abandonei, mas com imensa compaixão volto a acolher-te. Num momento de indignação, por um pouco ocultei de ti minha face, mas com misericórdia eterna compadeci-me de ti, diz teu salvador, o Senhor. Como fiz nos dias de Noé, a quem jurei nunca mais inundar a terra, assim juro que não me irritarei contra ti nem te farei ameaças. Podem os montes recuar e as colinas abalar-se, mas minha misericórdia não se apartará de ti, nada fará mudar a aliança de minha paz, diz o teu misericordioso Senhor. Pobrezinha, batida por vendavais, sem nenhum consolo, eis que assentarei tuas pedras sobre rubis, e tuas bases sobre safiras; revestirei de jaspe tuas fortificações, e teus portões, de pedras preciosas, e todos os teus muros, de pedra escolhida. Todos os teus filhos serão discípulos do Senhor, teus filhos possuirão muita paz; terás a justiça por fundamento. Longe da opressão, nada terás a temer; serás livre do terror, porque ele não se aproximará de ti.

Salmo - Sl 29
R. Eu vos exalto, ó Senhor, porque vós me livrastes!

Eu vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes,*
e não deixastes rir de mim meus inimigos!
Vós tirastes minha alma dos abismos*
e me salvastes, quando estava já morrendo! R.

Cantai salmos ao Senhor, povo fiel,*
dai-lhe graças e invocai seu santo nome!
Pois sua ira dura apenas um momento,*
mas sua bondade permanece a vida inteira;
se à tarde vem o pranto visitar-nos,*
de manhã vem saudar-nos a alegria. R.

Escutai-me, Senhor Deus, tende piedade!*
Sede, Senhor, o meu abrigo protetor!
Transformastes o meu pranto em uma festa,*
Senhor meu Deus, eternamente hei de louvar-vos! R.

5ª Leitura - Is 55,1-11
Assim diz o Senhor, “Ó vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga. Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-me com atenção, e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento do vosso corpo. Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida; farei convosco um pacto eterno, manterei fielmente as graças concedidas a Davi. Eis que fiz dele uma testemunha para os povos, chefe e mestre para as nações. Eis que chamarás uma nação que não conhecias, e acorrerão a ti povos que não te conheciam, por causa do Senhor, teu Deus, e do Santo de Israel, que te glorificou. Buscai o Senhor, enquanto pode ser achado; invocai-o, enquanto ele está perto. Abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações; volte para o Senhor, que terá piedade dele, volte para nosso Deus, que é generoso no perdão. Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor. Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da terra. Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e fecundar a terra, e fazê-la germinar e dar semente, para o plantio e para a alimentação, assim a palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”.

Salmo - Is 12, 2.4-6
R. Com alegria bebereis do manancial da salvação.

Eis o Deus, meu Salvador, eu confio e nada temo;*
o Senhor é minha força, meu louvor e salvação.
Com alegria bebereis do manancial da salvação. R.

e direis naquele dia: “Dai louvores ao Senhor,
invocai seu santo nome, anunciai suas maravilhas,*
entre os povos proclamai que seu nome é o mais sublime. R.

Louvai cantando ao nosso Deus, que fez prodígios e portentos,*
publicai em toda a terra suas grandes maravilhas!
Exultai cantando alegres, habitantes de Sião,*
porque é grande em vosso meio o Deus Santo de Israel!”. R.

6ª Leitura - Br 3,9-15.32-4,4
Ouve, Israel, os preceitos da vida; presta atenção, para aprenderes a sabedoria. Que se passa, Israel? Como é que te encontras em terra inimiga? Envelheceste num país estrangeiro, te contaminaste com os mortos, foste contado entre os que descem à mansão dos mortos. Abandonaste a fonte da sabedoria! Se tivesses continuado no caminho de Deus, viverias em paz para sempre. Aprende onde está a sabedoria, onde está a fortaleza e onde está a inteligência, e aprenderás também onde está a longevidade e a vida, onde está o brilho dos olhos e a paz. Quem descobriu onde está a sabedoria? Quem penetrou em seus tesouros? Aquele que tudo sabe, conhece-a, descobriu-a com sua inteligência; aquele que criou a terra para sempre e a encheu de animais e quadrúpedes; aquele que manda a luz, e ela vai, chama-a de volta, e ela obedece tremendo. As estrelas cintilam em seus postos de guarda e alegram-se; ele chamou-as, e elas respondem: “Aqui estamos”; e alumiam com alegria o que as fez. Este é o nosso Deus, e nenhum outro pode comparar-se com ele. Ele revelou todo o caminho da sabedoria a Jacó, seu servo, e a Israel, seu bem-amado. Depois, ela foi vista sobre a terra e habitou entre os homens. A sabedoria é o livro dos mandamentos de Deus, é a lei, que permanece para sempre. Todos os que a seguem, têm a vida, e os que a abandonam, têm a morte. Volta-te, Jacó, e abraça-a; marcha para o esplendor, à sua luz. Não dês a outro a tua glória nem cedas a uma nação estranha teus privilégios. Ó Israel, felizes somos nós, porque nos é dado conhecer o que agrada a Deus.

Salmo - Sl 18
R. Senhor, tens palavras de vida eterna.

Alei do Senhor Deus é perfeita,*
conforto para a alma!
O testemunho do Senhor é fiel,*
sabedoria dos humildes. R.

Os preceitos do Senhor são precisos,*
alegria ao coração.
O mandamento do Senhor é brilhante,*
para os olhos é uma luz. R.

É puro o temor do Senhor,*
imutável para sempre.
Os julgamentos do Senhor são corretos*
e justos igualmente. R.

Mais desejáveis do que o ouro são eles,*
do que o ouro refinado.
Suas palavras são mais doces que o mel,*
que o mel que sai dos favos. R.

7ª Leitura - Ez 36,16-17a.18-28
A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: “Filho do homem, os da casa de Israel estavam morando em sua terra. Mancharam-na com sua conduta e suas más ações. Então derramei sobre eles a minha ira, por causa do sangue que derramaram no país e dos ídolos com os quais o mancharam. Eu dispersei-os entre as nações, e eles foram espalhados pelos países. Julguei-os de acordo com sua conduta e suas más ações. Quando eles chegaram às nações para onde foram, profanaram o meu santo nome; pois deles se comentava: ‘Esse é o povo do Senhor; mas tiveram de sair do seu país!’. Então eu tive pena do meu santo nome que a casa de Israel estava profanando entre as nações para onde foi. Por isso, dize à casa de Israel: Assim fala o Senhor Deus: Não é por causa de vós que eu vou agir, casa de Israel, mas por causa do meu santo nome, que profanastes entre as nações para onde fostes. Vou mostrar a santidade do meu grande nome, que profanastes no meio das nações. As nações saberão que eu sou o Senhor - oráculo do Senhor Deus - quando eu manifestar minha santidade à vista delas por meio de vós. Eu vos tirarei do meio das nações,  vos reunirei de todos os países, e vos conduzirei para a vossa terra. Derramarei sobre vós uma água pura, e sereis purificados. Eu vos purificarei de todas as impurezas e de todos os ídolos. Eu vos darei um coração novo e porei um espírito novo dentro de vós. Arrancarei do vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne; porei o meu espírito dentro de vós e farei com que sigais a minha lei e cuideis de observar os meus mandamentos. Habitareis no país que dei a vossos pais. Sereis o meu povo e eu serei o vosso Deus.

Salmo - Sl 41
R. A minh’alma tem sede de Deus.

A minh’alma tem sede de Deus,*
e deseja o Deus vivo.
Quando terei a alegria de ver*
a face de Deus? R.

Peregrino e feliz caminhando*
para a casa de Deus,
entre gritos, louvor e alegria*
da multidão jubilosa. R.

Enviai vossa luz, vossa verdade:*
elas serão o meu guia;
que me levem ao vosso Monte santo,*
até a vossa morada! R.

Então irei aos altares do Senhor,*
Deus da minha alegria.
Vosso louvor cantarei, ao som da harpa,*
meu Senhor e meu Deus! R.

Evangelho - Mc 16,1-7
Quando passou o sábado, Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus. E bem cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, elas foram ao túmulo. E diziam entre si: “Quem rolará para nós a pedra da entrada do túmulo?”. Era uma pedra muito grande. Mas, quando olharam, viram que a pedra já tinha sido retirada. Entraram, então, no túmulo e viram um jovem, sentado do lado direito, vestido de branco. E ficaram muito assustadas. Mas o jovem lhes disse: “Não vos assusteis! Vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou. Não está aqui. Vede o lugar onde o puseram. Ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele irá à vossa frente, na Galileia. Lá vós o vereis, como ele mesmo tinha dito”.

Comentário feito por São Cromácio de Aquileia (?-407)
bispo

O mundo inteiro, que celebra a Vigília Pascal durante toda esta noite, testemunha a grandeza e a solenidade da mesma. E com razão: nesta noite a morte foi vencida, a Vida está viva, Cristo ressuscitou dos mortos. Outrora, Moisés dissera ao povo, a propósito desta Vida: “Sentireis a vossa vida suspensa e tremereis noite e dia” (Dt 28,66). [...] Que aqui se trata de Cristo Senhor, é Ele próprio que no-lo mostra no Evangelho, quando diz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Ele Se diz o caminho, porque conduz ao Pai; a verdade, porque condena a mentira; e a vida, porque comanda a morte [...]: “Onde está, ó morte, a tua vitória?  Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Cor 15,55). Porque a morte, que sempre fora vitoriosa, foi vencida pela morte dAquele que a venceu. A Vida aceitou morrer para desconcertar a morte. Da mesma forma que, ao nascer do dia, as trevas desaparecem, assim foi a morte aniquilada, quando se ergueu a Vida eterna. [...] Eis, pois, o Tempo Pascal. Outrora, Moisés falou ao seu povo dizendo: “Este mês será para vós o primeiro dos meses; ele será para vós o primeiro dos meses do ano” (Ex 12,2). [...] O primeiro mês do ano não é, portanto, janeiro, em que tudo está morto, mas o Tempo Pascal, em que tudo retorna à vida. Porque é agora que a erva dos prados, de certa forma, ressuscita da morte, é agora que há flores nas árvores e que as vinhas têm rebentos, é agora que o próprio ar parece feliz com o início de um novo ano. [...] Este Tempo Pascal é, assim, o primeiro mês, o tempo novo [...] e, também neste dia, o gênero humano é renovado. Pois hoje, no mundo inteiro, inumeráveis povos ressuscitam, pela água do batismo, para uma vida nova. [...] E nós, que acreditamos que o Tempo Pascal é, na verdade, o ano novo, devemos celebrar esse santo dia com toda a alegria e exultação e júbilo espiritual, para podermos dizer, verdadeiramente, este refrão do salmo: “Este é o dia da vitória do Senhor: cantemos e alegremo-nos nele!” (117,24).

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Comentário ao Evangelho do dia - Tríduo Pascal


Quinta-feira da Semana Santa  
     
1ª Leitura - Ex 12,1-8.11-14
O Senhor disse a Moisés e a Aarão no Egito: "Este mês será para vós o começo dos meses, será o primeiro mês do ano. Falai assim a toda a comunidade de Israel: No dia dez deste mês, cada um tome um animal por família — um animal para cada casa. Se a gente da casa for pouca para comer um animal, convidará também o vizinho mais próximo, de acordo com o número de pessoas. Para cada animal deveis calcular o número de pessoas que vão comer. O animal será sem defeito, macho de um ano. Podereis escolher tanto um cordeiro como um cabrito. Devereis guardá-lo até o dia catorze deste mês, quando, ao cair da tarde, toda a comunidade de Israel reunida o imolará. Tomarão um pouco do sangue e untarão as ombreiras da porta das casas onde comerem. Comerão a carne nesta mesma noite. Deverão comê-la assada ao fogo, com pães sem fermento e ervas amargas. Assim devereis comê-lo: com os cintos na cintura, os pés calçados, o cajado na mão; e comereis às pressas, pois é a Páscoa do Senhor. Nessa noite eu passarei pela terra do Egito e matarei todos os primogênitos no país, tanto das pessoas como dos animais. Farei justiça contra todos os deuses do Egito — eu, o Senhor. O sangue servirá de sinal nas casas onde estiverdes. Ao ver o sangue, passarei adiante, e não vos atingirá a praga exterminadora quando eu ferir a terra do Egito. Este dia será para vós uma festa memorável em honra do Senhor, que haveis de celebrar por todas as gerações, como instituição perpétua".

Salmo - Sl 116
R. Que retribuirei ao Senhor por todo o bem que me deu?

Como retribuirei ao Senhor 
todos os seus benefícios para comigo?  
Elevarei o cálice da salvação, 
invocando o nome do Senhor. 

É preciosa aos olhos do Senhor 
a morte dos seus fiéis. 
Senhor, sou teu servo, filho da tua serva; 
quebraste as minhas cadeias.  

Hei-de oferecer-te sacrifícios de louvor, 
invocando, Senhor, o teu nome.  
Cumprirei as minhas promessas feitas ao Senhor 
na presença de todo o seu povo.

1ª Leitura - 1Cor 11,23-26
De fato, eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: Na noite em que ia ser entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: "Isto é o meu corpo † entregue por vós. Fazei isto em minha memória". Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice e disse: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em minha memória". De fato, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha.

Evangelho - Lc 4,16-21
Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora, † hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. Foi durante a ceia. O diabo já tinha seduzido Judas Iscariotes para entregar Jesus. Sabendo que o Pai tinha posto tudo em suas mãos e que de junto de Deus saíra e para Deus voltava, Jesus levantou-se da ceia, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a à cintura. Derramou água numa bacia, pôs-se a lavar os pés dos discípulos e enxugava-os com a toalha que trazia à cintura. Chegou assim a Simão Pedro. Este disse: "Senhor, tu vais lavar-me os pés?". Jesus respondeu: "Agora não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás". Pedro disse: "Tu não me lavarás os pés nunca!" Mas Jesus respondeu: "Se eu não te lavar, não terás parte comigo". Simão Pedro disse: "Senhor, então lava-me não só os pés, mas também as mãos e a cabeça". Jesus respondeu: "Quem tomou banho não precisa lavar senão os pés, pois está inteiramente limpo. Vós também estais limpos, mas não todos". Ele já sabia quem o iria entregar. Por isso disse: "Não estais todos limpos". Depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e voltou ao seu lugar. Disse aos discípulos: "Entendeis o que eu vos fiz? Vós me chamais de Mestre e Senhor; e dizeis bem, porque sou. Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais assim como eu fiz para vós".

Comentário feito por Santa Catarina de Sena (1347-1380)
terceira dominicana, Doutora da Igreja

"Tenho ardentemente desejado comer convosco esta Páscoa antes de padecer" (Lc 22,15). Recordando estas palavras do nosso Salvador, se me perguntassem qual é a Páscoa que eu desejo ter convosco, responder-vos-ia: não há outra Páscoa que não a do Cordeiro imolado, a que Ele fez de Si mesmo quando Se entregou aos Seus amados discípulos. Oh doce cordeiro pascal, preparado pelo fogo do amor de Deus na Sua santíssima cruz! Alimento divino, fonte de alegria, de deleite e de consolo! Nada nos falta, uma vez que para os Teus servos Te fizeste mesa, alimento e servo. [...] O Verbo, o Filho único de Deus, deu-Se a nós com um grande fogo de amor. Quem nos apresenta esta Páscoa hoje? O servo Espírito Santo. Por causa do amor desmesurado que tem por nós, Ele não se contentou em fazer-nos servir por outros, é Ele mesmo que quer ser o nosso servo. É nesta mesa que a minha alma deseja estar [...] para comer a Páscoa antes de morrer. [...] Sabei que é bom que nos apresentemos nesta mesa simultaneamente despojados e vestidos: despojados de todo o egoísmo, de toda a atracção pelo mundo, de toda a negligência e de toda a tristeza [...] – porque uma má tristeza definha a alma – e envolvidos na caridade ardente de Cristo. [...] Quando a alma contempla o seu criador e a bondade infinita que encontra nEle, não pode deixar de O amar. [...] De imediato ama aquilo que Deus ama e detesta o que Lhe desagrada, porque Ele Se despojou de Si mesmo por amor. [...] Por causa da Sua fome pela nossa salvação e pela honra de Seu Pai, Cristo humilhou-Se e sujeitou-Se a uma morte ignominiosa na cruz, embriagado de amor e apaixonado por nós. Esta é a Páscoa que eu desejo celebrar.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Comentário ao Evangelho do dia - Semana Santa


3ª-feira da Semana Santa
     
1ª Leitura - Is 49,1-6
Nações marinhas, ouvi-me, povos distantes, prestai atenção: o Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe ele tinha na mente o meu nome; fez de minha palavra uma espada afiada, protegeu-me à sombra de sua mão e fez de mim uma flecha aguçada, escondida em sua aljava, e disse-me: "Tu és o meu Servo, Israel, em quem serei glorificado". E eu disse: "Trabalhei em vão, gastei minhas forças sem fruto, inutilmente; entretanto o Senhor me fará justiça e o meu Deus me dará recompensa". E agora diz-me o Senhor - Ele que me preparou desde o nascimento para ser Seu Servo - que eu recupere Jacó para Ele e faça Israel unir-se a Ele; aos olhos do Senhor esta é a minha glória. Disse Ele: "Não basta seres meu Servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os remanescentes de Israel: eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até aos confins da terra".

Salmo - Sl 70
R. Minha boca anunciará vossa justiça.

Eu procuro meu refúgio em vós, Senhor:*
que eu não seja envergonhado para sempre!
Porque sois justo, defendei-me e libertai-me!*
Escutai a minha voz, vinde salvar-me!R. 

Sede uma rocha protetora para mim,*
um abrigo bem seguro que me salve!
Porque sois a minha força e meu amparo,
o meu refúgio, proteção e segurança!
Libertai-me, ó meu Deus, das mãos do ímpio.R. 

Porque sois, ó Senhor Deus, minha esperança,*
em Vós confio desde a minha juventude!
Sois meu apoio desde antes que eu nascesse, 
desde o seio maternal, o meu amparo.R. 

Minha boca anunciará todos os dias*
vossa justiça e vossas graças incontáveis.
Vós me ensinastes desde a minha juventude,*
e até hoje canto as Vossas maravilhas.R.

Evangelho - Jo 13,21-33.36-38
Naquele tempo, estando à mesa com seus discípulos, Jesus ficou profundamente comovido e testemunhou: "Em verdade, em verdade vos digo, um de vós me entregará". Desconcertados, os discípulos olhavam uns para os outros, pois não sabiam de quem Jesus estava falando. Um deles, a quem Jesus amava, estava recostado ao lado de Jesus. Simão Pedro fez-lhe um sinal para que ele procurasse saber de quem Jesus estava falando. Então, o discípulo, reclinando-se sobre o peito de Jesus, perguntou-lhe: "Senhor, quem é?". Jesus respondeu: "É aquele a quem eu der o pedaço de pão passado no molho". Então Jesus molhou um pedaço de pão e deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. Depois do pedaço de pão, Satanás entrou em Judas. Então Jesus lhe disse: "O que tens a fazer, executa-o depressa". Nenhum dos presentes compreendeu por que Jesus lhe disse isso. Como Judas guardava a bolsa, alguns pensavam que Jesus lhe queria dizer: "Compra o que precisamos para a festa", ou que desse alguma coisa aos pobres. Depois de receber o pedaço de pão, Judas saiu imediatamente. Era noite. Depois que Judas saiu, disse Jesus: "Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nEle. Se Deus foi glorificado nEle, também Deus O glorificará em Si mesmo, e O glorificará logo. Filhinhos,  por pouco tempo estou ainda convosco. Vós me procurareis, e agora vos digo, como eu disse também aos judeus: 'Para onde eu vou, vós não podeis ir'". Simão Pedro perguntou: "Senhor, para onde vais?". Jesus respondeu-lhe: "Para onde eu vou, tu não me podes seguir agora, mas me seguirás mais tarde". Pedro disse: "Senhor, por que não posso seguir-Te agora? Eu darei a minha vida por Ti!". Respondeu Jesus: "Darás a tua vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: o galo não cantará antes que me tenhas negado três vezes".

Comentário extraído da Liturgia Latina das Horas 
Hino de Laudes da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

Desce o Verbo de Deus à nossa terra,  
Sem deixar a direita de Deus Pai 
E, lançada a semente do Evangelho, 
Chega o Senhor ao ocaso da vida. 

Um discípulo O entrega aos inimigos; 
Mas, antes de morrer, o Salvador 
Entrega-Se aos discípulos, dizendo: 
Sou o Pão vivo que desceu do Céu (Jo 6,51). 

O Corpo de Jesus é alimento, 
O Seu Sangue, bebida verdadeira. 
Viverá para sempre o homem novo 
Que tomar deste Pão e deste Vinho. 

Nascendo, quis ser nosso companheiro, 
Na Ceia Se tornou nosso alimento, 
Na Morte Se ofereceu como resgate, 
Na Glória será nossa recompensa. 

Hóstia Santa, penhor de Salvação, 
Perene manancial de eterna Vida, 
O inimigo teima em combater-nos; 
Salvai-nos com a Vossa fortaleza. 

Ao Senhor Uno e Trino demos glória, 
Cantemos Seu louvor por todo o sempre; 
A todos nos conceda a Vida eterna, 
Abrindo-nos as portas do Seu Reino.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Comentário ao Evangelho do dia - Semana Santa


2ª-feira da Semana Santa 

1ª Leitura - Is 42,1-7
"Eis o meu servo - eu o recebo; eis o meu eleito - nele se compraz minh'alma; pus meu espírito sobre ele, ele promoverá o julgamento das nações. Ele não clama nem levanta a voz, nem se faz ouvir pelas ruas. Não quebra uma cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega; mas promoverá o julgamento para obter a verdade. Não esmorecerá nem se deixará abater, enquanto não estabelecer a justiça na terra; os países distantes esperam seus ensinamentos." Isto diz o Senhor Deus, que criou o céu e o estendeu, firmou a terra e tudo que dela germina, que dá a respiração aos seus habitantes e o sopro da vida ao que nela se move: "Eu, o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te constituí como o centro de aliança do povo, luz das nações, para abrires os olhos dos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas".

Salmo - Sl 26
R. O Senhor é minha luz e salvação.

O Senhor é minha luz e salvação; *
de quem eu terei medo?
O Senhor é a proteção da minha vida; *
perante quem eu tremerei?R. 

Quando avançam os malvados contra mim, *
querendo devorar-me,
são eles, inimigos e opressores, *
que tropeçam e sucumbem.R. 

Se contra mim um exército se armar, *
não temerá meu coração;
se contra mim uma batalha estourar, *
mesmo assim confiarei.R. 

Sei que a bondade do Senhor eu hei de ver *
na terra dos viventes.
Espera no Senhor e tem coragem, * R.

Evangelho - Jo 12,1-11
Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi para Betânia, onde morava Lázaro, que ele havia ressuscitado dos mortos. Ali ofereceram a Jesus um jantar; Marta servia e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Maria, tomando quase meio litro de perfume de nardo puro e muito caro, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa inteira ficou cheia do perfume do bálsamo. Então, falou Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, aquele que O havia de entregar: "Por que não se vendeu este perfume por trezentas moedas de prata, para as dar aos pobres?". Judas falou assim, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão; ele tomava conta da bolsa comum e roubava o que se depositava nela. Jesus, porém, disse: "Deixa-a; ela fez isto em vista do dia de minha sepultura. Pobres, sempre os tereis convosco, enquanto a mim, nem sempre me tereis". Muitos judeus, tendo sabido que Jesus estava em Betânia, foram para lá, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Jesus havia ressuscitado dos mortos. Então, os sumos sacerdotes decidiram matar também Lázaro, porque, por causa dele, muitos deixavam os judeus e acreditavam em Jesus.

Comentário feito por Orígenes (c. 185-253)
presbítero e teólogo 

A esposa do Cântico dos Cânticos diz: "o meu nardo dá o seu perfume" (1,12) [...]; mas podemos ler também "o Seu perfume". [...] A esposa aproximou-se do Esposo, ungiu-O com os seus unguentos e, surpreendentemente, foi como se o nardo não tivesse dado perfume enquanto estava nas mãos da esposa, mas o desse ao entrar em contato com o corpo do Esposo — de sorte que, segundo parece, não foi tanto Ele que recebeu o perfume do nardo mas foi antes o nardo que O recebeu, como se viesse dEle. [...] Apresentamos aqui a esposa Igreja, na pessoa de Maria: diz-se que ela trazia uma libra de nardo de alto preço e que ungiu os pés de Jesus, enxugando-os depois com os cabelos e que, de certo modo, também ela recebeu, através dos cabelos, um perfume impregnado da qualidade e do poder do corpo de Jesus. [...] Ela impregnou a cabeça com um perfume requintado que vinha mais de Cristo que do nardo e disse [com a esposa]: "O meu nardo, derramado no corpo de Cristo, deu-me em troca o Seu aroma". [...] "A casa encheu-se com a fragrância do perfume." Isso indica, seguramente, que a fragrância da doutrina que vem de Cristo e o agradável perfume do Espírito Santo encheram toda a casa deste mundo, ou a casa de toda a Igreja. Ou, pelo menos, encheram toda a casa através desta alma que recebeu a fragrância de Cristo, tendo-Lhe oferecido inicialmente o dom da sua fé como nardo puro, e recebendo, em retribuição, a graça do Espírito Santo e o agradável perfume da doutrina espiritual [...], para que também ela pudesse dizer: "Somos para Deus o bom odor de Cristo" (2Co 2,15). Ora, porque esse nardo foi cheio de fé e de um amor de grande valor, Jesus presta-lhe esta homenagem: "Praticou em Mim uma boa ação!" (Mc 14,6).

domingo, 11 de março de 2012

A Quaresma com os santos

A paixão de todo o corpo de Cristo

Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Agostinho, bispo (Séc.V)
(Ps 140,4-6:CCL 40,2028-2029)

Senhor, eu clamo por vós, socorrei-me sem demora (Sl 140,1). Isto todos nós podemos dizer. Não sou eu que digo, é o Cristo total que diz. Contudo, estas palavras foram ditas especialmente em nome do Corpo, porque, quando Cristo estava neste mundo, orou como homem; orou ao Pai em nome do Corpo; e enquanto orava, gotas de sangue caíram de todo o seu corpo. Assim está escrito no Evangelho: Jesus rezava com mais insistência e seu suor tornou-se como gotas de sangue (Lc 22,44). Que significa este derramamento de sangue de todo o seu corpo, senão a paixão dos mártires de toda a Igreja? Senhor, eu clamo por vós, socorrei-me sem demora. Quando eu grito, escutai minha voz! (Sl 140,1). Julgavas ter acabado de vez o teu clamor ao dizer: eu clamo por vós. Clamaste, mas não julgues que já estejas em segurança. Se findou a tribulação, findou também o clamor; mas se a tribulação da Igreja e do Corpo de Cristo continua até o fim dos tempos, não só devemos dizer: eu clamo por vós, socorrei-me sem demora; mas: Quando eu grito, escutai minha voz! Minha oração suba a vós como incenso, e minhas mãos, como oferta da tarde (Sl 140,2). Todo cristão sabe que esta expressão continua a ser atribuída à própria Cabeça. Porque, na verdade, foi ao cair da tarde daquele dia, que o Senhor, voluntariamente, entregou na cruz Sua vida, para retomá-la em seguida. Também aqui estávamos representados. Com efeito, o que estava suspenso na cruz foi o que Ele assumiu da nossa natureza. Como seria possível que o Pai rejeitasse e abandonasse algum momento Seu Filho Unigênito, sendo ambos um só Deus? Contudo, cravando nossa frágil natureza na cruz, onde o nosso homem velho, como diz o Apóstolo, foi crucificado com Cristo (Rm 6,6), clamou com a voz da nossa humanidade: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? (Sl 21,2). Eis, portanto, o verdadeiro sacrifício vespertino: a paixão do Senhor, a cruz do Senhor, a oblação da vítima salvadora, o holocausto agradável a Deus. Esse sacrifício vespertino, Ele o converteu, por Sua ressurreição, em oferenda da manhã. Assim, a oração que se eleva, com toda pureza, de um coração fiel, é como o incenso que sobe do altar sagrado. Não há aroma mais agradável a Deus: possam todos os fiéis oferecê-lo ao Senhor. Por isso, o nosso homem velho – são palavras do Apóstolo – foi crucificado com Cristo, para que seja destruído o corpo do pecado, de maneira a não mais servirmos ao pecado (Rm 6,6).

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Quaresma com os santos

No Cristo fomos tentados e nele vencemos o demônio 

Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Agostinho, bispo (Séc.V)
(Ps 60, 2-3:CCL39,766) 

Ouvi, ó Deus, a minha súplica, atendei a minha oração (Sl 60,2). Quem é que fala assim? Parece ser um só: Dos confins da terra a Vós eu clamo, e em mim o coração já desfalece (Sl 60,3). Então já não é um só, e contudo é somente um, porque o Cristo, de quem todos somos membros, é um só. Como pode um único homem clamar dos confins da terra? Quem clama dos confins da terra é aquela herança a respeito da qual foi dito ao próprio Filho: Pede-me e te darei as nações como herança e os confins da terra por domínio (Sl 2,8). Portanto, é esse domínio de Cristo, essa herança de Cristo, esse corpo de Cristo, essa Igreja de Cristo, essa unidade que somos nós, que clama dos confins da terra. E o que clama? O que eu disse acima: Ouvi, ó Deus, a minha súplica, atendei a minha oração; dos confins da terra a Vós eu clamo. Sim, clamei a Vós dos confins da terra, isto é, de toda parte. Mas por que clamei? Porque em mim o coração já desfalece. Revela com estas palavras que Ele está presente a todos os povos no mundo inteiro, não rodeado de grande glória mas no meio de grandes tentações. Com efeito, nossa vida,enquanto somos peregrinos neste mundo, não pode estar livre de tentações, pois é através delas que se realiza nosso progresso e ninguém pode conhecer-se a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigo e tentações. Aquele que clama dos confins da terra está angustiado, mas não está abandonado. Porque foi a nós mesmos, que somos o Seu corpo, que o Senhor quis prefigurar em Seu próprio corpo, no qual já morreu, ressuscitou e subiu ao céu, para que os membros tenham a certeza de chegar também onde a cabeça os precedeu. Portanto, o Senhor nos representou em Sua pessoa quando quis ser tentado por Satanás. Líamos há pouco no Evangelho que nosso Senhor Jesus Cristo foi tentado pelo demônio no deserto. De fato, Cristo foi tentado pelo demônio. Mas em Cristo também tu eras tentado, porque Ele assumiu a tua condição humana, para te dar a Sua salvação; assumiu a tua morte, para te dar a Sua vida; assumiu os teus ultrajes, para te dar a Sua glória; por conseguinte, assumiu as tuas tentações, para te dar a Sua vitória. Se nEle fomos tentados, nEle também vencemos o demônio. Consideras que o Cristo foi tentado e não consideras que Ele venceu? Reconhece-te nEle em Sua tentação, reconhece-te nEle em Sua vitória. O Senhor poderia impedir o demônio de aproximar-se dEle; mas, se não fosse tentado, não te daria o exemplo de como vencer na tentação.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Olhar para Cristo para compreender o sentido do viver no serviço e no dom de si

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro

Quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Gostaria hoje de terminar as minhas catequeses sobre a oração do Saltério, meditando um dos mais famosos “Salmos reais”, um Salmo que Jesus mesmo citou e que os autores do Novo Testamento retomaram e leram amplamente em referência ao Messias, a Cristo. Trata-se do Salmo 110 segundo a tradição hebraica, 109 segundo a greco-latina; um Salmo muito amado pela Igreja antiga e pelos crentes de todos os tempos. Esta oração estava, talvez, vinculada à entronização de um rei davídico; todavia, o seu sentido vai além da específica contingência do fato histórico abrindo-se a dimensões mais amplas e se tornando assim celebração do Messias vitorioso, glorificado à direita de Deus.
O Salmo começa com uma declaração solene: “Oráculo do Senhor ao meu senhor: ‘Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés’” (v. 1).
Deus mesmo entroniza o rei na glória, fazendo-o sentar à Sua direita, um sinal de honra grandiosa e de privilégio absoluto. Desta maneira, o rei é admitido à participação da senhoria divina, da qual é mediador junto do povo. Tal senhoria do rei se concretiza também na vitória sobre os adversários, que são colocados aos seus pés por Deus mesmo; a vitória sobre os inimigos é do Senhor, mas o rei é feito participante desta vitória e o seu triunfo se torna testemunho e sinal do poder divino.
A glorificação real expressa neste início do Salmo foi assumida pelo Novo Testamento como profecia messiânica; por isso, o versículo está entre os mais usados pelos autores neotestamentários, seja como citação explícita, que como alusão. Jesus  mesmo mencionou este versículo a propósito do Messias, para mostrar que o Messias é mais do que Davi, é o Senhor de Davi (cf. Mt 22, 41-45; Mc 12, 35-37; Lc 20, 41-44). E Pedro o retoma no seu discurso no Pentecostes, anunciando que, na ressurreição de Cristo, realiza-se esta entronização do rei e que, a partir de então, Cristo está à direita do Pai, participa da Senhoria de Deus sobre o mundo (cf. At 2, 29-35). É o Cristo, de fato, o Senhor entronizado, o Filho do homem sentado à direita de Deus que vem sobre as nuvens do céu, como Jesus mesmo se define durante o processo diante do Sinédrio (cf. Mt 26, 63-64; Mc 14, 61-62; cf. também Lc 22, 66-69). É Ele o verdadeiro rei que, com a ressurreição, entrou na glória à direita do Pai (cf. Rm 8, 34; Ef 2, 5; Col 3, 1; Hb 8, 1; Hb 12, 2), superior aos anjos, sentado nos céus acima de toda potência e com todos os adversários aos seus pés, até que aquela última inimiga, a morte, seja vencida definitivamente por Ele (cf. 1Cor 15, 24-26; Ef 1, 20-23; Hb 1, 3-4.13; Hb 2, 5-8; Hb 10, 12-13; 1Pd 3, 22). E se entende imediatamente que este rei está à direita de Deus e participa da Sua Senhoria, não é um desses homens sucessores de Davi, mas somente o novo Davi, o Filho de Deus que venceu a morte e participa realmente da glória de Deus. É o nosso rei, que nos dá mesmo a vida eterna.
Entre o rei celebrado pelo nosso Salmo e Deus existe, portanto, uma relação incindível; os dois governam juntos um único governo, até o ponto que o Salmista pode afirmar que é Deus mesmo que estende o cetro do soberano dando-lhe a missão de dominar sobre seus adversários, como recita o versículo 2:
“De Sião o Senhor estende o cetro do teu poder: Domina no meio de teus inimigos!”
O exercício do poder é um encargo que o rei recebe diretamente do Senhor, uma responsabilidade que deve viver na dependência e na obediência, se tornando assim sinal, no meio do povo, da presença poderosa e providente de Deus. O domínio sobre os inimigos, a glória e a vitória são dons recebidos, que fazem do soberano um mediador do triunfo divino sobre o mal. Ele domina sobre os inimigos transformando-os, os vence com o seu amor.
Por isso, no versículo seguinte, se celebra a grandeza do rei. O versículo 3, na realidade, apresenta algumas dificuldades de interpretação. No texto original hebraico faz-se referência à convocação do exército, para a qual o povo responde generosamente, colocando-se em torno do seu soberano no dia da sua coroação. A tradução grega dos LXX, que remonta ao século III ou II a.C., faz referência, pelo contrário, à filiação divina do rei, ao seu nascimento ou geração da parte do Senhor, e é esta a escolha interpretativa de toda a tradição da Igreja, de forma que o versículo soa da seguinte forma:
“Tu és príncipe desde o dia do teu nascimento, entre santos esplendores; antes da aurora, como orvalho, eu te gerei.”
Este oráculo divino sobre o rei afirmaria, portanto, uma geração divina inundada de esplendor e de mistérios, uma origem secreta e imperscrutável, ligada à beleza arcana da aurora e à maravilha do orvalho que, na luz da primeira manhã, brilha sobre os campos e os torna fecundos. Delineia-se, assim, indissoluvelmente ligada à realidade celeste, a figura do rei que vem realmente de Deus, do Messias que leva ao povo a vida divina e é mediador de santidade e de salvação. Também aqui vemos que tudo isto não é realizado pela figura de um rei davídico, mas pelo Senhor Jesus Cristo, que realmente vem de Deus; Ele é a luz que traz a vida divina para o mundo.
Com esta imagem sugestiva e enigmática termina a primeira estrofe do Salmo, que dá lugar a outro oráculo, que abre uma nova perspectiva, na linha de uma dimensão sacerdotal ligada à realeza. Recita assim o versículo 4:
“O Senhor jurou e não se arrepende: ‘Tu és sacerdote para sempre à maneira de Melquisedec’.”
Melquisedec era o sacerdote rei de Salém que havia abençoado Abraão e oferecido pão e vinho depois da vitoriosa campanha militar conduzida pelo patriarca para salvar o neto Ló das mãos dos inimigos que o haviam capturado (cf. Gn 14). Na figura de Melquisedec, poder real e sacerdotal convergem e, nesse ponto, são proclamados pelo Senhor numa declaração que promete eternidade: o rei celebrado pelo Salmo será sacerdote para sempre, mediador da presença divina no meio do seu povo, através da bênção que vem de Deus e que, na ação litúrgica, se encontra com a resposta bendita do homem.
A Carta aos Hebreus faz uma referência explícita a este versículo (cf. Hb 5, 5-6.10; Hb 6, 19-20) e sobre ele centra todo o capítulo 7, elaborando a sua reflexão sobre o sacerdócio de Cristo. Jesus, assim nos diz a Carta aos Hebreus à luz do Salmo 110 (109), Jesus é o verdadeiro e definitivo sacerdote, que leva à plena realização os traços do sacerdócio de Melquisedec tornando-os perfeitos.
Melquisedec, como diz a Carta aos Hebreus, era “sem pai, sem mãe, sem genealogia” (Hb 7, 3a), sacerdote, portanto, não segundo as regras dinásticas do sacerdócio levítico. Ele, por isso, “permanece sacerdote para sempre” (Hb 7, 3b), prefiguração de Cristo, sumo sacerdote perfeito que “foi constituído não por prescrição de uma lei humana, mas pela Sua imortalidade” (Hb 7, 16). No Senhor Jesus ressuscitado e ascendido ao céu, onde senta à direita do Pai, realiza-se a profecia do nosso Salmo e o sacerdócio de Melquisedec é levado à perfeição, porque se tornou absoluto e eterno, se tornou uma realidade que não conhece fim (cf. Hb 7, 24). E a oferta do pão e do vinho, realizada por Melquisedec nos tempos de Abraão, encontra a sua realização no gesto eucarístico de Jesus, que no pão e no vinho oferece a Si mesmo e, vencida a morte, leva todos os crentes à vida. Sacerdote perene, “santo, inocente, imaculado” (Hb 7, 26), Ele, como diz ainda a Carta aos Hebreus, pode “levar a termo a salvação daqueles que por Ele vão a Deus, porque vive sempre para interceder em seu favor” (Hb 7, 25).
Depois deste oráculo divino do versículo 4, com seu solene juramento, a cena do Salmo muda e o poeta, dirigindo-se diretamente ao rei, proclama: “O Senhor está à tua direita!” (v. 5a). Se, no versículo 1 era o rei que se assentava à direita de Deus em sinal de sumo prestígio e de honra, agora é o Senhor que Se coloca à direita do soberano para protegê-lo com o escudo na batalha e para salvá-lo de todo perigo. O rei está protegido, Deus é o seu defensor e juntos combatem e vencem todo o mal.
Desta maneira, se abrem os versículos finais do Salmo com a visão do soberano triunfante que, apoiado pelo Senhor, tendo recebido dEle poder e glória (cf. v. 2), se opõe aos inimigos, fazendo os adversários baterem em retirada, e julgando as nações. A cena é pintada com cores fortes, a fim de significar a dramaticidade do combate e a plenitude da vitória real. O soberano, protegido pelo Senhor, abate todos os obstáculos e segue seguro em direção à vitória. Diz-nos: sim, no mundo existe tanto mal, há uma batalha permanente entre o bem e o mal, e parece que o mal seja o mais forte. Não, mais forte é o Senhor, o nosso verdadeiro rei e sacerdote Cristo, porque combate com toda a força de Deus e, não obstante todas as coisas que nos fazem duvidar do êxito positivo da história, Cristo vence e o bem vence, o amor vence e não o ódio.
É aqui que se insere a sugestiva imagem com a qual o nosso Salmo se finaliza, que é também uma palavra enigmática.
“Ao longo do caminho ele bebe da torrente, por isso levantará a cabeça.” (v. 7)
No meio da descrição da batalha, se destaca a figura do rei que, num momento de trégua e de repouso, mata a sede numa torrente d’água, encontrando nele restauro e novo vigor, de forma a poder retomar o seu caminho triunfante, com a cabeça erguida, em sinal de vitória definitiva. É óbvio que esta palavra muito enigmática era um desafio para os Padres da Igreja devido às diversas interpretações que se podiam dar. Assim, por exemplo, Santo Agostinho disse: esta torrente é o ser humano, a humanidade, e Cristo bebeu desta torrente fazendo-se homem, e assim, entrando na humanidade do ser humano, levantou Sua cabeça e, agora, é a cabeça do Corpo Místico, é o nosso chefe, é o vencedor definitivo (cf.  Enarratio in Psalmum CIX, 20: PL 36, 1462).
Caros amigos, seguindo a linha interpretativa do Novo Testamento, a tradição da Igreja teve grande consideração por este Salmo como um dos textos messiânicos mais significativos. E, de modo eminente, os Padres fizeram referência contínua a ele sempre em chave cristológica: o rei cantado pelo Salmista é, definitivamente, Cristo, o Messias que instaura o Reino de Deus e vence as potências do mundo, é o Verbo gerado pelo Pai antes de toda criatura, antes da aurora, o Filho encarnado morto e ressuscitado e sentado nos céus, o sacerdote eterno que, no mistério do pão e do vinho, doa a remissão dos pecados e a reconciliação com Deus, o rei que ergue a cabeça triunfando sobre a morte com a Sua ressurreição. Bastaria recordar, uma vez mais, um trecho do comentário de Santo Agostinho a este Salmo: “Era necessário conhecer o único Filho de Deus, que estava para vir entre os homens, para assumir o homem e para se tornar homem através da natureza assumida: Ele morreu, ressuscitou, ascendeu ao céu, está sentado à direita do Pai e cumpriu entre os povos tudo o que havia prometido... Tudo isto, portanto, deveria ser profetizado, deveria ser prenunciado, deveria ser assinalado como destinado a ocorrer, para que, acontecendo de repente, não causasse medo, mas fosse prenunciado, ou mais ainda aceito com fé, alegria e espera. No âmbito destas promessas recai este Salmo, que profetiza, em termos seguros e explícitos, o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, de quem não devemos ter a menor dúvida de que nEle seja realmente  anunciado o Cristo (cf. Enarratio in Psalmum CIX, 20: PL 36, 1447).
O evento pascal de Cristo se torna assim a realidade para a qual o Salmo nos convida a olhar, olhar para Cristo para compreender o sentido da verdadeira realeza, do viver no serviço e no dom de si, num caminho de obediência e de amor levado “até o fim” (cf. Jo 13, 1 e Jo 19, 30). Rezando com este Salmo, pedimos ao Senhor, portanto, que possamos, também nós, seguir sobre Seus caminhos, no seguimento de Cristo, o rei Messias, dispostos a subir com Ele sobre o monte da cruz para chegarmos, também com Ele, à glória, e contemplá-Lo sentado à direita do Pai, rei vitorioso e sacerdote misericordioso que doa perdão e salvação a todos os homens. E também nós, tornados, por graça de Deus, “gente escolhida, sacerdócio régio, nação santa” (cf. 1Pd 2, 9), poderemos chegar com alegria às fontes da salvação (cf. Is 12, 3) e proclamar a todo o mundo as maravilhas dAquele que nos “chamou das trevas para a Sua luz maravilhosa” (cf. 1Pd 2, 9).
Caros amigos, nestas últimas Catequeses quis vos apresentar alguns Salmos, preciosas orações que encontramos na Bíblia e que refletem as várias situações da vida e os vários estados de espírito que podemos ter para com Deus. Gostaria, agora, de renovar a todos o convite a rezar com os Salmos, habituando-se talvez a usar a Liturgia das Horas da Igreja, as Laudes pela manhã, as Vésperas à tarde, as Completas antes de dormirem. O nosso relacionamento com Deus será, com isso, enriquecido no caminho cotidiano em direção a Ele, e realizado com maior alegria e confiança. Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 16 de novembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sábado, 7 de janeiro de 2012

A lei divina é fonte de vida


Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro

Quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Nas últimas catequeses meditamos sobre alguns Salmos que são exemplos dos gêneros típicos de oração: lamento, confiança, louvor. Na catequese de hoje gostaria de me dedicar ao Salmo 119 segundo a tradição hebraica, 118 segundo a greco-latina: um Salmo muito particular, único no seu gênero. Antes de mais, o é por seu comprimento: é composto, de fato, por 176 versículos divididos em 22 estrofes de oito versículos cada uma. Depois, tem a peculiaridade de ser um “acróstico alfabético”: ou seja, é construído segundo o alfabeto hebraico, que é composto por 22 letras. Cada estrofe corresponde a uma letra deste alfabeto, e com tal letra começa a primeira palavra dos oito versículos da estrofe. Trata-se de uma construção literária original e muito exigente, na qual o autor do Salmo teve que colocar em jogo toda a sua habilidade.
Mas, o que para nós é mais importante é a temática central deste Salmo: trata-se, de fato, de um imponente e solene canto sobre a Torá do Senhor, ou seja, sobre a Sua Lei, termo que, na sua acepção mais ampla e completa, é compreendido como ensinamento, instrução, direcionamento de vida; a Torá é revelação, é Palavra de Deus que interpela o homem e provoca a sua resposta de obediência confiante e de amor generoso. E é de amor pela Palavra de Deus que este Salmo é todo atravessado; ele celebra a sua beleza, a sua força salvífica, a sua capacidade de dar alegria e vida. Porque a Lei divina não é jugo pesado de escravidão, mas dom de graça que torna livres e leva à felicidade. “Nos Teus decretos me deleito; não esquecerei Tua palavra” (v. 16), afirma o Salmista; e em seguida: “Dirige-me na senda dos teus mandamentos, porque nela está minha alegria” (v. 35); e ainda: “Quanto amo a tua lei; passo o dia todo a meditá-la” (v. 97. A Lei do Senhor, a Sua Palavra, é o centro da vida do orante; nela ele encontra consolação, faz dela objeto de meditação, a conserva no seu coração: “Conservo no coração tuas promessas para não te ofender com o pecado” (v. 11), é este o segredo da felicidade do Salmista; e depois ainda: “Caluniaram-me os insolentes, de todo coração guardarei teus preceitos” (v. 69).
A fidelidade do Salmista nasce da escuta da Palavra, a ser guardada no seu interior, meditando-a e amando-a, exatamente como Maria, que “guardava, meditando-as no seu coração” as palavras que lhe eram dirigidas e os eventos maravilhosos nos quais Deus Se revelava, pedindo o seu assentimento de fé (cf. Lc 2, 19.51). E se o nosso Salmo começa nos primeiros versículos proclamando “felizes” os “que caminham na Lei do Senhor” (v. 1b) e “os que guardam os Seus ensinamentos” (v. 2a), é ainda a Virgem Maria quem leva à plena realização a perfeita figura do crente descrito pelo Salmista. É Ela, de fato, a verdadeira “feliz”, proclamada por Isabel porque “creu no cumprimento daquilo que o Senhor lhe disse” (Lc 1, 45), e é dEla e de sua fé que Jesus mesmo dá testemunho quando, à mulher que lhe havia gritado “Feliz o seio que te carregou”, responde “Mais felizes são aqueles que escutam a palavra de Deus e a põem em prática!” (Lc 11, 27-28). Certamente, Maria é feliz porque o seu seio carregou o Salvador, mas sobretudo porque acolheu o anúncio de Deus, porque foi atenta e amorosa custodiadora da Sua Palavra.
O Salmo 119 é, portanto, todo tecido ao redor desta Palavra de vida e de felicidade. Se o seu tema central é a “Palavra” e a “Lei” do Senhor, ao lado destes termos aparecem, em quase todos os versículos, sinônimos como “preceitos”, “decretos”, “mandamentos”, “ensinamentos”, “promessa”, “juízos”, e tantos verbos vinculados a estes como observar, guardar, compreender, conhecer, amar, meditar, viver. Todo o alfabeto passa através das 22 estrofes deste Salmo, e também todo o vocabulário do relacionamento confiante do crente com Deus; encontramos nele o louvor, o agradecimento, a confiança, mas também a súplica e o lamento, sempre, porém, atravessados pela certeza da graça divina e da potência da Palavra de Deus. Mesmo os versículos mais marcados pela dor e pelo senso de escuridão permanecem abertos à esperança e são permeados de fé. “Estou prostrado no chão; dá-me vida conforme tua palavra” (v. 25), reza confiante o Salmista; “Sou como um odre exposto à fumaça, mas não esqueço teus estatutos” (v. 83), é o grito do crente. A sua fidelidade, mesmo se colocada à prova, encontra força na Palavra do Senhor: “a quem me insulta, poderei responder que tenho confiança na tua palavra” (v. 42), ele afirma com firmeza; e mesmo diante da perspectiva angustiante da morte, os mandamentos do Senhor são o seu ponto de referência e a sua esperança de vitória: “Por pouco não me expulsaram deste mundo, mas não abandonei teus preceitos” (v. 87).
A lei divina, objeto do amor apaixonado do Salmista e de todo crente, é fonte de vida. O desejo de compreendê-la, de observá-la, de orientar a ela todo o próprio ser é a característica do homem justo e fiel ao Senhor, que a “medita dia e noite”, como recita o Salmo 1 (v. 2); é uma lei, a de Deus, que deve ser mantida “no coração”, como diz o bem conhecido texto do Shemá no Deuteronômio:
“Ouve, ó Israel! (...) trarás gravadas no teu coração todas estas palavras que hoje te ordeno. Tu as repetirás com insistência a teus filhos e delas falarás quando estiveres sentado em casa ou andando a caminho, quando te deitares ou te levantares” (Dt 6, 4.6-7).
Centro da existência, a Lei de Deus solicita a escuta do coração, uma escuta feita de obediência não servil, mas filial, confiante, consciente. A escuta da Palavra é encontro pessoal com o Senhor da vida, um encontro que deve se traduzir em escolhas concretas e se tornar caminho e seguimento. Quando Lhe é perguntado o que fazer para ter a vida eterna, Jesus aponta o caminho da observância da Lei, mas indicando como fazer para levá-la à realização: “Só te falta uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me” (Mc 10, 21). A realização da Lei é seguir Jesus, andar no caminho de Jesus, em companhia de Jesus. 
O Salmo 119 nos leva, portanto, ao encontro com o Senhor e nos orienta para o Evangelho. Há nele um versículo sobre o qual eu gostaria de me dedicar: é o versículo 57 – “Eu disse: Minha porção, Senhor, é guardar Tuas palavras”. Também em outros Salmos o orante afirma que o Senhor é a sua “porção”, a sua herança: “O Senhor é a minha parte da herança e meu cálice”, recita o Salmo 16 (v. 5a), “rochedo do meu coração e minha porção é Deus para sempre!” é a proclamação do fiel no Salmo 73 (v. 26b), e ainda, no Salmo 142, o Salmista grita ao Senhor: “És meu refúgio, és a minha porção na terra dos vivos” (v. 6b).
Este termo – “porção” – evoca o evento da repartição da terra prometida entre as tribos de Israel, quando aos Levitas não é dada nenhuma porção do território, porque a sua “porção” era o Senhor mesmo. Dois textos do Pentateuco são explícitos quanto a isto, utilizando o termo em questão: “O Senhor disse a Aarão: ‘Tu não terás herança na terra dos israelitas, nem haverá porção para ti em seu meio. Eu sou tua porção e tua herança no meio deles’”, assim declara o Livro dos Números (Nm 18, 20), e o Deuteronômio reitera: “Por isso Levi não tem porção nem herança com seus irmãos, porque o próprio Senhor é a sua herança, como o Senhor teu Deus lhe prometeu” (Dt 10, 9; cf. Dt 18, 2; Js 13, 33; Ez 44, 28).
Os sacerdotes, pertencentes à tribo de Levi, não podem ser proprietários de terras no país que Deus dava como herança para o seu povo, realizando a promessa feita a Abraão (cf. Gn 12, 1-7). A posse da terra, elemento fundamental de estabilidade e de possibilidade de sobrevivência, era sinal de bênção, porque implicava a possibilidade de construir uma casa, de criar os filhos, de cultivar os campos e de viver dos frutos da terra. Pois bem, os Levitas, mediadores do sagrado e da bênção divina, não podem possuir, como os outros israelitas, este sinal exterior da bênção e esta fonte de subsistência. Inteiramente doados ao Senhor, devem viver apenas dEle, abandonados ao Seu amor providente e à generosidade dos irmãos, sem ter herança porque Deus é a sua porção da herança, Deus é a sua terra, que os faz viver em plenitude.
E agora, o orante do Salmo 119 aplica a si esta realidade: “A minha porção é o Senhor”. O seu amor por Deus e pela Sua Palavra o leva à escolha radical de ter o Senhor como único bem e também de guardar as Suas palavras como dom precioso, mais valioso do que toda herança, e do que toda posse terrena. O nosso versículo, de fato, tem a possibilidade de uma dupla tradução e poderia mesmo ser lido da seguinte maneira: “A minha porção, Senhor, eu disse, é guardar as Tuas palavras”. As duas traduções não se contradizem, mas se completam: o Salmista está afirmando que a sua porção é o Senhor, mas também que guardar as palavras divinas é a sua herança, como, em seguida, dirá no versículo 111: “Minha herança para sempre são teus testemunhos, são esses a alegria do meu coração”. É esta a felicidade do Salmista: a ele, assim como para os Levitas, foi dada como porção de herança a Palavra de Deus.
Caríssimos irmãos e irmãs, estes versículos são de grande importância também hoje para todos nós. Antes de mais para os sacerdotes, chamados a viver apenas do Senhor e da Sua Palavra, sem outras seguranças, tendo Ele como único bem e única fonte de verdadeira vida. Nesta luz se compreende a livre escolha do celibato pelo Reino dos céus, que deve ser redescoberto na sua beleza e força. Mas estes versículos são importantes também para todos os fiéis, povo de Deus pertencente apenas a Ele, “reino de sacerdotes” para o Senhor (cf. 1Pd 2, 9; Ap 1, 6; Ap 5, 10), chamados à radicalidade do Evangelho, testemunhas da vida trazida pelo Cristo, novo e definitivo “Sumo Sacerdote” que se ofereceu em sacrifício para a salvação do mundo (cf. Hb 2, 17; Hb 4, 14-16; Hb 5, 5-10; Hb 9, 11ss). O Senhor e a Sua Palavra: isto é a nossa “terra”, na qual viver na comunhão e na alegria.
Deixemos, portanto, que o Senhor coloque em nosso coração este amor pela Sua Palavra, e nos conceda ter sempre no centro da nossa existência Ele e Sua santa vontade. Peçamos que a nosssa oração e toda a nossa vida sejam iluminadas pela Palavra de Deus, lâmpada para os nossos passos e luz para o nosso caminho, como diz o Salmo 119 (cf. v. 105), de forma que nosso caminhar seja seguro, na terra dos homens. E Maria, que acolheu e gerou a Palavra, seja nossa guia e nosso conforto, estrela polar que indica a via da felicidade. 
Então, também nós poderemos nos alegrar em nossa oração, como o orante do Salmo 16, com os dons inesperados do Senhor e pela imerecida herança que coube a nós:
“O Senhor é a minha porção da herança e meu cálice. Nas tuas mãos, a minha porção. Para mim a sorte caiu em lugares deliciosos, maravilhosa é minha herança” (Sl 16, 5-6).

* Extraído do site do Vaticano, do dia 9 de novembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.