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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Quid est veritas? Est Vir qui adest...

Discurso do Santo Padre Bento XVI

À Federação Italiana dos Semanários Católicos

Sala Clementina, sexta-feira, 26 de novembro de 2010.

Prezados irmãos e irmãs!
Estou feliz por me encontrar convosco, por ocasião da Assembleia da Federação Italiana dos Semanários Católicos. Dirijo a minha cordial saudação a Mons. Mariano Crociata, Secretário da Conferência Episcopal Italiana, aos Prelados e Sacerdotes presentes, bem como a Padre Giorgio Zucchelli, Presidente da Federação, a quem agradeço as amáveis palavras. Saúdo todos vós, dirigentes e colaboradores dos 188 jornais católicos representados na Federação; de modo particular, o Diretor da Agência SIR e o Diretor do jornal Avvenire. Estou grato por este encontro, com o qual vós manifestais a vossa fidelidade à Igreja e ao seu magistério; agradeço-vos também o apoio que continuais a oferecer para a coleta do Óbolo de São Pedro e para as iniciativas benéficas promovidas e sustentadas pela Santa Sé.
A Federação Italiana dos Semanários Católicos reúne as publicações semanais diocesanas e os vários órgãos de imprensa de inspiração católica de toda a península itálica. Ela surgiu em 1966 para responder à exigência de desenvolver sinergias e colaborações, destinadas a favorecer a preciosa tarefa de fazer conhecer a vida, a atividade e o ensinamento da Igreja. Criando canais de comunicação entre os diversos organismos de imprensa locais, espalhados por toda a Itália, desejou-se responder à exigência de promover a colaboração e dar uma certa organicidade às várias potencialidades intelectuais e criativas, precisamente para aumentar a eficácia e a incisividade do anúncio da mensagem evangélica. Esta é a função peculiar dos jornais de inspiração católica: anunciar a Boa Nova através da narração dos acontecimentos concretos que são vividos pelas comunidades cristãs e das situações reais em que elas mesmas estão inseridas. Como uma pequena quantidade de fermento, misturado com a farinha, faz levedar toda a massa, assim também a Igreja, presente na sociedade, faz crescer e amadurecer aquilo que nela existe de verdadeiro, de bom e de belo; quanto a vós, tendes a tarefa de prestar contas desta presença, que promove e fortalece aquilo que é autenticamente humano e que transmite ao homem de hoje a mensagem de verdade e de esperança do Senhor Jesus.
Como bem sabeis, no contexto da pós-modernidade em que vivemos, um dos desafios culturais mais importantes diz respeito ao modo de entender a verdade. A cultura predominante, aquela que é mais difundida no areópago midiático, assume em relação à verdade uma atitude cética e relativista, considerando-a como simples opinião e, por conseguinte, legitimando como compatíveis e legítimas muitas "verdades". Mas o desejo que existe no coração do homem dá testemunho da impossibilidade de se contentar com verdades parciais; por isso, a pessoa humana "tende a uma verdade superior, que seja capaz de explicar o sentido da vida; trata-se, por conseguinte, de algo que só pode encontrar êxito no absoluto" (João Paulo II, Encíclica Fides et ratio, 33). A verdade, da qual o homem tem sede, é uma pessoa: o Senhor Jesus. No encontro com esta Verdade, ao conhecê-la e amá-la, nós encontramos a paz autêntica e a felicidade genuína. A missão da Igreja consiste em criar as condições para que se realize este encontro do homem com Cristo. Colaborando para esta tarefa, os órgãos de informação são chamados a servir a verdade com coragem, em vista de ajudar a opinião pública a observar e a interpretar a realidade a partir de um ponto de vista evangélico. Trata-se de apresentar as razões da fé que, enquanto tais, vão além de qualquer visão ideológica e têm pleno direito de cidadania no debate público. É desta exigência que nasce o vosso compromisso constante de dar voz a um ponto de vista que reflita o pensamento católico em todas as questões éticas e sociais.
Estimados amigos, a importância da vossa presença é testemunhada pela difusão minuciosa dos jornais por vós representados. Esta difusão passa através do instrumento do papel impresso que, precisamente pela sua simplicidade, continua a ser uma caixa de ressonância eficaz daquilo que acontece no interior das diversas realidades diocesanas. Por isso, exorto-vos a dar continuidade ao vosso serviço de informação a respeito das vicissitudes que marcam o caminho das comunidades, da sua vida cotidiana e das numerosas iniciativas caritativas e benéficas que elas promovem. Continuai a ser jornais do povo, que procuram favorecer um diálogo autêntico entre os vários componentes sociais, academias de confronto e de debate leal entre diversas opiniões. Deste modo os jornais católicos, enquanto cumprem a importante tarefa de informar, realizam ao mesmo tempo uma insubstituível função formativa, promovendo uma inteligência evangélica da realidade complexa, assim como a educação de consciências críticas e cristãs. Com isto, vós respondeis também ao apelo da Conferência Episcopal Italiana, que pôs no centro do compromisso pastoral da próxima década o desafio educativo, a necessidade de dar ao povo cristão uma formação sólida e robusta.
Caros irmãos e irmãs, cada cristão, através do sacramento do Batismo, torna-se templo do Espírito Santo e, imerso na morte e na ressurreição do Senhor, é consagrado a Ele e pertence-lhe. Também vós, para cumprir a vossa importante tarefa, tendes de cultivar em primeiro lugar um vínculo constante e profundo com Cristo; somente a profunda comunhão com Ele vos tornará capazes de transmitir o anúncio da Salvação ao homem contemporâneo! Na laboriosidade e na dedicação ao vosso trabalho cotidiano sabei dar testemunho da vossa fé, o grande dom gratuito da vocação cristã. Continuai a manter-vos na comunhão eclesial com os vossos Pastores, de maneira a poderdes colaborar com eles como diretores, redatores e administradores de semanários católicos, na missão evangelizadora da Igreja.
Ao despedir-me de vós, gostaria de vos assegurar a minha recordação em sufrágio do saudoso Mons. Franco Peradotto, falecido recentemente, primeiro presidente da Federação Italiana dos Semanários Católicos e, durante muito tempo, diretor da Voce del Popolo, de Turim. Enquanto confio a Federação e o vosso trabalho à intercessão celestial da Virgem Maria e de São Francisco de Sales, concedo-vos de coração, a vós e a todos os vossos colaboradores, a Bênção Apostólica.

* Texto extraído do site do Vaticano, do dia 26 de novembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Por que se confunde a liberdade de informação com a fofoca midiática?


Entrevista feita com Pietro Barcellona. Realizada por Federico Ferraù

Pietro Barcellona é filósofo e professor de Filosofia do Direito na Universidade da Catânia. É membro leigo do Conselho Superior da Magistratura, na Itália. “Neste país – disse Barcellona –, de fato, não é mais possível discutir, porque quem expressa uma opinião deve, imediatamente, ser partidário de um lado ou de outro”.

O que faz o senhor se sentir incomodado, professor?
Vivemos imersos em um clima de maniqueísmo extremista que está se tornado cada vez mais uma forma de pensamento único, e que representa uma patologia grave da vida democrática. Pessoalmente, não partilho desta batalha tão furiosa contra o risco da mordaça e a favor da liberdade absoluta de escuta telefônica de quem quer que seja.

Nem mesmo quando este é o único instrumento para descobrir crimes graves?
Todos os delitos devem ser descobertos e, para isso, é preciso dotar-se de instrumentos para fazê-lo. Mas, olhemos para a realidade dos fatos. Vimos de uma experiência muito longa de interceptações realizadas por centros de poder, sobre as quais ainda não temos nenhuma clareza. Pessoas como Giuliano Tavaroli e Gioacchino Genchi – e muitos outros antes deles – dedicaram tempo e recursos para “escutar” a vida democrática, construindo não averiguações da verdade, mas dossiês chantagistas que serviram apenas para desestabilizar o país.

Interceptamos ou não interceptamos ligações telefônicas?
Penso que o tema das escutas não possa mais ser visto apenas sob o ponto de vista da busca da verdade sobre os inimigos da máfia, sobre crimes mais graves e sobre tudo o que respeita ao código penal. As escutas telefônicas já fazem parte do contexto geral da nossa vida pública. É verdade que deram alguns resultados muito importantes quanto aos crimes de mafiosos, mas em 80% dos casos seu uso foi absolutamente anômalo e serviu para construir, em sinergia com o sistema midiático, processos mais ou menos fantasiosos sem nenhuma comprovação verdadeira.

O senhor, enfim, dá prevalência à privacidade.
Está vendo? Essa é a falsa contraposição. A vida privada é um grande bem, mas o verdadeiro tema é: nesse país, o que serve para se ter acesso à verdade dos fatos? O problema da verdade absorve tanto o problema da tutela da liberdade de imprensa, quanto a tutela do cidadão privado que pretende muito justamente a reserva. O uso indiscriminado das interceptações telefônicas, pelo contrário, levou a uma manipulação contínua da verdade.

Por exemplo?
Penso em Ottaviano Del Turco. Veio à tona uma encenação midiática na qual Del Turco, imerso em uma série de acusações que vinham em grande medida das escutas e das declarações dadas, mais ou menos livremente, por arrependidos, aparecia como um dos maiores criminosos da nossa vida pública.

Falemos da imprensa. A mídia, favorável ou contra o governo, falou de lei-da-mordaça.
Eu não acredito que se deva colocar a mordaça na imprensa. Ela deve ser livre, mas isso não significa que se pode fazer um jornalismo que nunca cita as fontes, no qual tudo se confunde.

Explique-se melhor.
Se eu leio, por exemplo, os artigos  sobre a “panelinha” de Balducci e Anemone, não consigo mais distinguir o que foi extraído da escuta, do que foi declarado ao magistrado (por quem foi interrogado), da reconstrução que o jornalista faz da história, e das declarações que circulam em certos ambientes. São quatro planos que se entrecruzam e que formam um todo único no qual os fatos esvanecem nas conjecturas ou nas reconstruções cheias de interesse. Deduzo a convicção de que Balducci e Anemone provavelmente cometeram certos atos, mas nenhuma das coisas reportadas contém um mínimo de indicação para verificar a veracidade das coisas ditas.

O senhor falou de “manipulação da verdade” induzida pelo uso distorcido das escutas. Não lhe parece exagerado?
Aqui, não me interessa a verdade com V maiúsculo, ma a verdade pública. O último livro de Priore e Fasanella demonstra que este país, desde o Caso Moro, foi objeto de desestabilizações organizadas por poderes ocultos. Mais do que se ocupar de como se pode enfrentar o tema da verdade dos fatos que dizem respeito à vida coletiva, somos chamados a escolher de que lado ficar: mas é uma falsa alternativa, porque o interceptador é sempre um homem santo, enquanto que o interceptado é sempre um réprobo. Nesse caminho, eu não fico, porque não ajuda a ninguém.

Como é possível “colocar-se na ótica do interesse coletivo, para a transparência e para a verdade”, como o senhor escreveu recentemente?
Seria necessária uma reforma política, jurídica e moral. Temo que nenhum dessas, sozinha, bastaria para mudar a mentalidade das pessoas. Se, pelo contrário, cada um pensa poder ser juiz de tudo, como acontece agora, toda reforma seria inútil. Quem é magistrado, que seja magistrado. Quem é jornalista, que seja jornalista.

Valerio Onida nos disse, certa vez, que o direito de informação, ou seja, de informar e ser informados, não pode ser anulado em nome de uma exigência de privacidade. O que o senhor pensa a esse respeito?
Estimo Onida, mas a sua resposta reflete aquela impostação que “rompe” com a complexidade do problema. Hoje, a comunicação não é mais a de meio século atrás. Se um jornal difunde a notícia que uma pessoa vai ser presa porque um crime lhe foi contestado, essa pessoa, na opinião pública, é presa por ter cometido aquele crime. Isto é comunicação? É liberdade de informação?

O que mais é liberdade informação, além de ser um direito garantido pela Constituição?
É aquilo que eu dizia no início: é o direito que os cidadãos temos de conhecer a verdade dos fatos sobre os quais se fundamentam as grandes decisões. É o primado da verdade dos fatos sobre as opiniões pessoais, que deve ser posto como premissa de todo raciocínio sobre a informação. Nenhum conflito puramente objetivo entre uma pessoa que deve acusar e outra que deve defender produzirá alguma verdade estável.

Estamos realmente seguros de que a introdução de novas regras, além daquelas que já existem, leve realmente a uma solução dos problemas?
Não sei. O que eu considero relevante é que não podem existir fontes ocultas e que quem dá notícias deve sempre poder dizer de qual fonte se serviu. Mas sobretudo, sou contra a ideia – que alguns querem fazer valer a todo custo – de que, neste momento, exista o risco de uma mordaça sendo imposta à imprensa. Parece-me absolutamente infundada.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 31 de maio de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.