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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Uma guilhotina para a razão

Por Paulo R. A. Pacheco

Aquilo a que alguns vêm chamando de "vitória jurídica", no caso da aprovação, por unanimidade, no STF, da união estável homoafetiva, só poderia ser assim chamada caso existissem duas forças jurídicas se antagonizando. O que não é, nem de longe, verdade: lembremo-nos de que a Carta Magna brasileira deixa bem claro aquilo que deve ser chamado "casamento", aquilo que deve receber o título de "família", eliminando, antes de qualquer conflito, toda e qualquer possibilidade de antagonismo - essa, por sinal, é a grande virtude de toda prescrição, vale dizer, descrever a ordenação dos fatos legais a partir da normalização, ou seja, da suposta ausência de casos contraditórios (não é preciso ser um grande sábio para saber que toda verdadeira norma, diga-se de passagem, não vem depois do delito, não é fruto do delito ou da necessidade de corrigir o delito a posteriori... a norma vem antes do delito e depois da identificação do Bem e do Justo e do Verdadeiro... é fruto da razão e não da reação). Lembremo-nos também de que não há, em parte alguma de nossa Constituição, impedimento implícito ou explícito para que, nos termos da lei, se estabelecessem contratos, de que natureza fossem, entre pares de mesmo sexo. Lembremo-nos, outrossim, de que o casamento civil ou o reconhecimento da união estável, para fins de proveito de benefícios, nada mais são que contrato registrado em cartório.
A vitória, evidentemente - e que, inclusive, é mister afirmar, fere a Constituição ao mudar o estatuto da célula social e fere o direito natural, ao estabelecer a definição de família a partir da opinião de um grupo (majoritário ou não, não interessa) - não é jurídica, mas ideológica. Vejam-se os votos proferidos pela totalidade dos senhores ministros do Supremo: não há um único caso de exercício inteligente da argumentação jurídica. Os "argumentos", quando muito, são tentativas medíocres de poetização do politicamente correto ou arremedos de justificação psicanalítica para o injustificável. Sim, a vitória foi da boçalidade e da ideologia. E não é preciso ser um jurista, um advogado, um "entendedor" de leis, basta ter um cérebro e saber usar a razão - atividade, a propósito, cada vez menos comum entre os homens na contemporaneidade.
Triste ver que o Supremo Tribunal Federal é feito de uma única voz... pior, de uma altissonante voz unida pela homologação do pensamento.
Vencendo-se essa primeira batalha ideológica, abre-se o precedente para que, aos poucos, se estabeleçam os "argumentos" (se é que se pode usar esta palavra no caso daquilo que nossos potentados do Judiciário vomitam) sobre os quais se construirão outras vitórias ideológicas, como a descriminação do aborto. Foi assim, no passado, quando a ideologia pró-divórcio venceu uma primeira batalha em prol do Estado Laico... plantando o conceito falacioso de que laicismo é sinônimo de laicidade. E o Estado, finalmente, depois de ter invadido nossos lares e mentes, invadirá nossos corpos... E as mulheres, "donas de seus corpos", descobrirão tarde demais que não dominam nada de si. E os homens e mulheres, finalmente livres para fazerem o que quiserem do "bônus" que carregam entre as pernas (metáfora usada pelo "ministro poeta" Ayres Brito), descobrirão tarde demais que o que fazem na intimidade não tem nada de privado.
Aumenta em mim o nojo por este estado de coisas. E temo pelo momento em que - talvez um pouco paranoicamente demais, é verdade - dizer do "nojo" pela mediocridade e pela patrulha do pensamento será crime passível de morte (e não exagero em dizer "morte"... porque todos sabemos que ela não precisa ser explicitamente corte de cabeças, à la iluminismo francês... basta que seja uma guilhotina usada contra a razão para que haja morte do quê de humano que define a pessoa).
Dixit.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

1978-2005: aspectos menos conhecidos dos 25 anos de Pontificado de João Paulo II - 4


A obra do Santo Padre
para a custódia do Depósito da Fé
e a preservação da Disciplina Eclesiástica

1993
- Em 22 de abril, a sala de imprensa vaticana publica a declaração final de um encontro organizado em março pelo Pontifício Conselho para a Família. O texto – assinado, entre outros, pelo cardeal Alfonso López Trujillo, presidente do Conselho, e por D. Dionigi Tettamanzi – reafirma que a contracepção “corrompe a intimidade conjugal” e que a comunidade cristã deve se opor à legalização do divórcio.
- Numa carta pastoral comum (10 de julho), três bispos alemães (entre eles D. Karl Lehmann, bispo de Magonza) se pergunta se um divorciado(a) que contraiu segundas núpcias, convencido(a) de que o matrimônio anterior tenha naufragado irremediavelmente, pode se aproximar da comunhão eucarística. A Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) esclarece numa carta aos bispos que isso não é lícito.
- No dia 22 de outubro, o Papa reafirma energicamente a lei do celibato sacerdotal para a Igreja latina e acrescenta, diante das contestações e das críticas, que “é preciso ousar (conservando o celibato), nunca se dobrar”.
- Em 28 de outubro, o núncio apostólico no Méximo, D. Girolamo Prigione, anuncia a possível remoção da diocese mexicana de San Cristóbal de las Casas de D. Samuel Ruiz.

1994
- Em janeiro de 1994, o jornal italiano “Avvenire” recebe um novo diretor, Dino Boffo. Órgãos de imprensa atribuem a designação diretamente ao cardeal Ruini, primaz da Itália.
- A CDF publica, no dia 20 de dezembro, a carta circular “Há dois anos”, destinadas aos presidentes das conferências episcopais, que tratava das “obras de síntese” do Catecismo da Igreja Católica. A razão dessa carta se deve a algumas traduções em inglês, caracterizadas por uma linguagem muito secularizada sobre a mulher.
- Com a carta apostólica Ordinatio sacerdotalis (22 de maio), o Santo Padre, “em virtude do [seu] ministério de confirmar os irmãos”, declara que “a Igreja não tem, de modo algum, a faculdade de conferir às mulheres a ordenação sacerdotal, e que esta sentaça deve ser mantida de modo definitivo por todos os fiéis”.
- A CDF, na “Carta aos bispos da Igreja Católica acerca do recebimento da comunhão eucarística por fiéis divorciados em segundas núpcias” (14 de setembro), reafirma a impossibilidade de dar comunhão aos católicos divorciados que se casaram outra vez.
- A CDF intervém acerca da nomeação da teóloga feminista Teresa Berger para a cátedra de Liturgia da Faculdade Teológica da Universidade de Bochum, na Alemanha.

1995
- Segundo o semanário inglês “The Tablet”, o prefeito da Congregação para a Educação Católica, cardeal Pio Laghi, sugeriu que fosse cancelada uma conferência que o teólogo da libertação Gustavo Gutiérrez deveria proferir em Roma, em novembro de 1994. Gutiérrez, em 1990, havia publicado uma edição revista do seu livro “Teologia da Libertação”, tendo eliminado algumas das dúvidas sobre a ortodoxia. 
- A Congregação para os Bispos demite D. Jacques Gaillot, bispo de Evreux (França), que com o seu ministério fortemente secularizado e a sua ação politicizada provoca graves desorientações entre os fiéis.
- Sob indicação do substituto da Secretaria de Estado vaticana, D. Giovanni Battita Re, e do prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, cardeal Jozef Tomko, o missionário comboniano P.e Renato Kizito Sesana é removido de seu encargo de diretor da revista queniana “New People”, que havia se tornado privada de toda finalidade missionária.
- Na encíclica Evangelium vitae (25 de março), o Santo Padre define como “democracias totalitárias” os parlamentos que aprovam leis que consentem na interrupção voluntária da gravidez.
- A CDF sugere e obtém da Superior da Congregação das “Irmãs de Nossa Senhora” que se mande a irmã brasileira Ivone Gebara, que se enredara em teorias feministas, estudar boa teologia, por dois anos, na Europa.
- D. Samuel Ruiz, então bispo de Chiapas, teórico de uma igreja indígena diferente da de Jesus Cristo, permanece no seu posto, mas passa a ser acompanhado por um bispo coadjutor com direito de sucessão, D. Raúl Vera Lopez.

1996
- Com um editorial no L’Osservatore Romano do dia 2 de fevereiro e assinado “***” (que, na prática, indica a autoridade máxima do autor), a Sé Apostólica condena as opiniões de 16 teólogos moralistas alemães que, num livro, contestaram a encíclica Veritatis splendor “sobre questões fundamentais da doutrina moral” (6 de agosto de 1993) e afirmaram que ela era uma tentativa de impor uma posição teológica. O editorial reafirma o papel do magistério papal e a obediêncai que se deve a ele.

1997
- A CDF excomunga, com uma “Notificação” datada de 2 de janeiro, o teólogo Tissa Balasuriya, visto que, com as suas teorias, “minava alguns pontos essenciais da fé cristã”. Será reabilitado, depois de um “mea culpa”, em 1998. Observações sobre um livro do P.e Balasuriya já haviam se difundido em 1994.
- Em 11 de fevereiro de 1997, S. Eminência o cardeal Ruini obtém do Papa um decreto no sentido de uma maior vigilância sobre a Sociedade São Paulo, a casa das Edições Paulinas: João Paulo II nomeia D. Antonio Buoncristiani delegado junto à Sociedade São Paulo, com a tarefa de “exercer todas as funções que dizem respeito tanto ao Superior Geral quanto ao Superior Provincial”. No decreto especifica-se, “para mais informação”, que a sua autoridade se estende sobre os Periódicos “Família Cristã”, “Jesus”, “Vita Pastorale” etc., e sobre as Edições São Paulo. Alguns religiosos paulinos tinha recusado a restituir à direção o P.e Stefano Andreatta, que havia sido submetido por indicação do Vigário de Cristo, mas havia sido injustamente destituído por eles. Depois de uma dolorosíssima troca de declarações e desmentidos por parte de alguns paulinos, em abril de 1998, P.e Leonardo Zega é removido da direção de “Família Cristã” e é definitivamente afastado do jornal em 12 de outubro de 1998.
- A Santa Sé, depois da visita apostólica feita, em 1995, por D. Xavier Lozano Barragân aos seminários dos jesuítas no México, e depois do interesse do prefeito da Congregação para a Educação Católica, cardeal Pio Laghi, ordena o fechamento do Instituto Interreligioso e do Centro de Estudos Católicos da Cidade do México, dependentes da Conferência dos Institutos Religiosos Mexicanos (CIRM), além do fechamento também do Instituto Teológico do Colégio Máximo de Cristo Rei com o anexo Centro de Reflexão Teológica dirigido pela Companhia de Jesus. S. Eminência o cardeal Laghi indica na opção a favor da Teologia da Libertação a causa principal da “confusão e controvérsia” defundida pelos institutos.
- A Conferência dos Religiosos Colombianos é responsabilizada, com um carta enviada por D. Tarcisio Bertone, segretário da CDF, pelos desvios encontrados no relatório do primeiro encontro nacional de teologia da vida religiosa, ocorrido em Bogotá, em abril de 1996, e publicado na revista “Vinculum” da Conferência dos Religiosos Colombianos. O relatório contém um estilo “reivindicativo, agressivo e crítico contra a mesma hierarquia eclesiástica” e pretende elaborar uma teologia da vida religiosa “prescindindo de um estudo sério das Escrituras, da Tradição e do Magistério”.
- Com uma Instrução Interdicasterial (assinada, no dia 15 de agosto, por responsáveis por oito dicastérios e ofícios da Cúria Romana), a Sé Apostólica restabelece os justos limites da colaboração dos leigos no ministério dos sacerdotes.
- Em 20 de setembro, D. Jorge Medina Estévez, proprefeito da Congregação para o Culto Divino, escreve a D. Anthony Pilla, presidente da Conferência Episcopal Norte-Americana, para comunicar-lhe que a tradução inglesa dos livros litúrgicos, realizada por bispos dos EUA, “não exprime acuradamente” os sentido do texto latino e “não é isenta de problemas doutrinais”. Sobre a questão, os oito cardeais norte-americanos já haviam se encontrado em Roma com os cardeais Medina Estévez e Ratzinger.
- Após uma carta enviada pelo prefeito da Congregação pela Evangelização dos Povos, cardeal Josef Tomko, a Conferência Episcopal da Coreia do Sul sanciona o veto de publicação para três sacerdotes – P.e John Sye Kong-seok, P.e Paul Cheong Yang-mo (ambos professores da Universidade Sogang de Seul, mantida por jesuítas) e P.e Edouard Ri Je-min (professor da Universidade Católica de Kwangiu e diretor da revista “Skinhak Chonmang”). Os três apoiavam ideias, “por nada conformes à doutrina católica”, particularmente sobre temas como o sacerdócio feminino, o celibato dos padres, a evangelização e a inculturação.

* Extraído de Totus tuus network. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Liberdade religiosa, caminho para a paz - 04

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE BENTO XVI
PARA A CELEBRAÇÃO DO XLIV DIA MUNDIAL DA PAZ

1 DE JANEIRO DE 2011

LIBERDADE RELIGIOSA, CAMINHO PARA A PAZ

Diálogo entre instituições civis e religiosas
9. O patrimônio de princípios e valores expressos por uma religiosidade autêntica é uma riqueza para os povos e respectivas índoles: fala diretamente à consciência e à razão dos homens e mulheres, lembra o imperativo da conversão moral, motiva para aperfeiçoar a prática das virtudes e aproximar-se amistosamente um do outro sob o signo da fraternidade, como membros da grande família humana.[12]
No respeito da laicidade positiva das instituições estatais, a dimensão pública da religião deve ser sempre reconhecida. Para isso, um diálogo sadio entre as instituições civis e as religiosas é fundamental para o desenvolvimento integral da pessoa humana e da harmonia da sociedade.  

Viver no amor e na verdade
10. No mundo globalizado, caracterizado por sociedades sempre mais multiétnicas e pluriconfessionais, as grandes religiões podem constituir um fator importante de unidade e paz para a família humana. Com base nas suas próprias convicções religiosas e na busca racional do bem comum, os seus membros são chamados a viver responsavelmente o próprio compromisso num contexto de liberdade religiosa. Nas variadas culturas religiosas, enquanto há que rejeitar tudo aquilo que é contra a dignidade do homem e da mulher, é preciso, ao contrário, valer-se daquilo que resulta positivo para a convivência civil.
O espaço público, que a comunidade internacional torna disponível para as religiões e para a sua proposta de "vida boa", favorece o aparecimento de uma medida compartilhável de verdade e de bem e ainda de um consenso moral, que são fundamentais para uma convivência justa e pacífica. Os líderes das grandes religiões, pela sua função, influência e autoridade nas respectivas comunidades, são os primeiros a ser chamados ao respeito recíproco e ao diálogo.
Os cristãos, por sua vez, são solicitados pela sua própria fé em Deus, Pai do Senhor Jesus Cristo, a viver como irmãos que se encontram na Igreja e colaboram para a edificação de um mundo, onde as pessoas e os povos "não mais praticarão o mal nem a destruição (...), porque o conhecimento do Senhor encherá a terra, como as águas enchem o leito do mar" (Is 11, 9). 

Diálogo como busca em comum
11. Para a Igreja, o diálogo entre os membros de diversas religiões constitui um instrumento importante para colaborar com todas as comunidades religiosas para o bem comum. A própria Igreja nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo. "Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia refletem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens".[13]
A estrada indicada não é a do relativismo nem do sincretismo religioso. De fato, a Igreja "anuncia, e tem mesmo a obrigação de anunciar incessantemente Cristo, 'caminho, verdade e vida' (Jo 14, 6), em quem os homens encontram a plenitude da vida religiosa e no qual Deus reconciliou consigo mesmo todas as coisas".[14] Todavia isto não exclui o diálogo e a busca comum da verdade em diversos âmbitos vitais, porque, como diz uma expressão usada frequentemente por São Tomás de Aquino, "toda a verdade, independentemente de quem a diga, provém do Espírito Santo".[15]
Em 2011, tem lugar o 25º aniversário da Jornada Mundial de Oração pela Paz, que o Venerável Papa João Paulo II convocou em Assis em 1986. Naquela ocasião, os líderes das grandes religiões do mundo deram testemunho da religião como sendo um fator de união e paz, e não de divisão e conflito. A recordação daquela experiência é motivo de esperança para um futuro onde todos os crentes se sintam e se tornem autenticamente obreiros de justiça e de paz.

Verdade moral na política e na diplomacia
12. A política e a diplomacia deveriam olhar para o patrimônio moral e espiritual oferecido pelas grandes religiões do mundo, para reconhecer e afirmar verdades, princípios e valores universais que não podem ser negados sem, com os mesmos, negar-se a dignidade da pessoa humana. Mas, em termos práticos, o que significa promover a verdade moral no mundo da política e da diplomacia? Quer dizer agir de maneira responsável com base no conhecimento objetivo e integral dos fatos; quer dizer desmantelar ideologias políticas que acabam por suplantar a verdade e a dignidade humana e pretendem promover pseudo-valores com o pretexto da paz, do desenvolvimento e dos direitos humanos; quer dizer favorecer um empenho constante de fundar a lei positiva sobre os princípios da lei natural.[16] Tudo isto é necessário e coerente com o respeito da dignidade e do valor da pessoa humana, sancionado pelos povos da terra na Carta da Organização das Nações Unidas de 1945, que apresenta valores e princípios morais universais de referência para as normas, as instituições, os sistemas de convivência a nível nacional e internacional.

Para além do ódio e do preconceito
13. Não obstante os ensinamentos da história e o compromisso dos Estados, das organizações internacionais em nível mundial e local, das organizações não governamentais e de todos os homens e mulheres de boa vontade que cada dia se empenham pela tutela dos direitos e das liberdades fundamentais, ainda hoje no mundo se registam perseguições, discriminações, atos de violência e de intolerância baseados na religião. De modo particular na Ásia e na África, as principais vítimas são os membros das minorias religiosas, a quem é impedido de professar livremente a própria religião ou mudar para outra, através da intimidação e da violação dos direitos, das liberdades fundamentais e dos bens essenciais, chegando até à privação da liberdade pessoal ou da própria vida.
Temos depois, como já disse, formas mais sofisticadas de hostilidade contra a religião, que nos países ocidentais se exprimem por vezes com a renegação da própria história e dos símbolos religiosos nos quais se refletem a identidade e a cultura da maioria dos cidadãos. Frequentemente tais formas fomentam o ódio e o preconceito e não são coerentes com uma visão serena e equilibrada do pluralismo e da laicidade das instituições, sem contar que as novas gerações correm o risco de não entrar em contato com o precioso patrimônio espiritual dos seus países.
A defesa da religião passa pela defesa dos direitos e liberdades das comunidades religiosas. Assim, os líderes das grandes religiões do mundo e os responsáveis das nações renovem o compromisso pela promoção e a tutela da liberdade religiosa, em particular pela defesa das minorias religiosas; estas não constituem uma ameaça contra a identidade da maioria, antes, pelo contrário, são uma oportunidade para o diálogo e o mútuo enriquecimento cultural. A sua defesa representa a maneira ideal para consolidar o espírito de benevolência, abertura e reciprocidade com que se há de tutelar os direitos e as liberdades fundamentais em todas as áreas e regiões do mundo.

Liberdade religiosa no mundo
14. Dirijo-me, por fim, às comunidades cristãs que sofrem perseguições, discriminações, atos de violência e intolerância, particularmente na Ásia, na África, no Oriente Médio e de modo especial na Terra Santa, lugar escolhido e abençoado por Deus. Ao mesmo tempo que lhes renovo a expressão do meu afeto paterno e asseguro a minha oração, peço a todos os responsáveis que intervenham prontamente para pôr fim a toda a violência contra os cristãos que habitam naquelas regiões. Que os discípulos de Cristo não desanimem com as presentes adversidades, porque o testemunho do Evangelho é e será sempre sinal de contradição.
Meditemos no nosso coração as palavras do Senhor Jesus: "Felizes os que choram, porque hão-se ser consolados. (...) Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. (...) Felizes sereis quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentido, vos acusarem de toda a espécie de mal. Alegrai-vos e exultai, pois é grande nos Céus a vossa recompensa" (Mt 5, 4-12). Por isso, renovemos "o compromisso por nós assumido no sentido da indulgência e do perdão – que invocamos de Deus para nós, no 'Pai-nosso' – por havermos posto, nós mesmos, a condição e a medida da desejada misericórdia: 'perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido' (Mt 6, 12)".[17] A violência não se vence com a violência. O nosso grito de dor seja sempre acompanhado pela fé, pela esperança e pelo testemunho do amor de Deus. Faço votos também de que cessem no Ocidente, especialmente na Europa, a hostilidade e os preconceitos contra os cristãos pelo facto de estes pretenderem orientar a própria vida de modo coerente com os valores e os princípios expressos no Evangelho. Mais ainda, que a Europa saiba reconciliar-se com as próprias raízes cristãs, que são fundamentais para compreender o papel que teve, tem e pretende ter na história; saberá assim experimentar justiça, concórdia e paz, cultivando um diálogo sincero com todos os povos.

Liberdade religiosa, caminho para a paz
15. O mundo tem necessidade de Deus; tem necessidade de valores éticos e espirituais, universais e compartilhados, e a religião pode oferecer uma contribuição preciosa na sua busca, para a construção de uma ordem social justa e pacífica a nível nacional e internacional.
A paz é um dom de Deus e, ao mesmo tempo, um projeto a realizar, nunca totalmente cumprido. Uma sociedade reconciliada com Deus está mais perto da paz, que não é simples ausência de guerra, nem mero fruto do predomínio militar ou econômico, e menos ainda de astúcias enganadoras ou de hábeis manipulações. Pelo contrário, a paz é o resultado de um processo de purificação e elevação cultural, moral e espiritual de cada pessoa e povo, no qual a dignidade humana é plenamente respeitada. Convido todos aqueles que desejam tornar-se obreiros de paz e sobretudo os jovens a prestarem ouvidos à própria voz interior, para encontrar em Deus a referência estável para a conquista de uma liberdade autêntica, a força inesgotável para orientar o mundo com um espírito novo, capaz de não repetir os erros do passado. Como ensina o Servo de Deus Papa Paulo VI, a cuja sabedoria e clarividência se deve a instituição do Dia Mundial da Paz, "é preciso, antes de mais, proporcionar à Paz outras armas, que não aquelas que se destinam a matar e a exterminar a humanidade. São necessárias sobretudo as armas morais, que dão força e prestígio ao direito internacional; aquela arma, em primeiro lugar, da observância dos pactos".[18] A liberdade religiosa é uma autêntica arma da paz, com uma missão histórica e profética. De fato, ela valoriza e faz frutificar as qualidades e potencialidades mais profundas da pessoa humana, capazes de mudar e tornar melhor o mundo; consente alimentar a esperança num futuro de justiça e de paz, mesmo diante das graves injustiças e das misérias materiais e morais. Que todos os homens e as sociedades aos diversos níveis e nos vários ângulos da terra possam brevemente experimentar a liberdade religiosa, caminho para a paz!

Vaticano, 8 de Dezembro de 2010.

BENEDICTUS PP XVI

Notas
[12] Cf. BENTO XVI, Discurso aos Representantes de outras Religiões do Reino Unido (17 de Setembro de 2010): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 25/IX/2010), 6-7.
[13] CONC. ECUM. VAT. II, Decl. sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs Nostra aetate, 2.
[14] Ibid., 2.
[15] Super evangelium Joannis, I, 3.
[16]Cf. BENTO XVI, Discurso às Autoridades civis e ao Corpo Diplomático em Chipre (5 de Junho de 2010): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 12/VI/2010), 4; COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL, À procura de uma ética universal: um olhar sobre a lei natural (Cidade do Vaticano 2009).
[17] PAULO VI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1976: AAS 67 (1975), 671.
[18] Ibid.: o.c., 668.

* Retirado do site do Vaticano, do dia 1o de janeiro de 2011. Adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

Liberdade religiosa, caminho para a paz - 03

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE BENTO XVI
PARA A CELEBRAÇÃO DO XLIV DIA MUNDIAL DA PAZ

1 DE JANEIRO DE 2011

LIBERDADE RELIGIOSA, CAMINHO PARA A PAZ

A dimensão pública da religião 
6. Embora movendo-se a partir da esfera pessoal, a liberdade religiosa – como qualquer outra liberdade – realiza-se na relação com os outros. Uma liberdade sem relação não é liberdade perfeita. Também a liberdade religiosa não se esgota na dimensão individual, mas realiza-se na própria comunidade e na sociedade, coerentemente com o ser relacional da pessoa e com a natureza pública da religião.
O relacionamento é uma componente decisiva da liberdade religiosa, que impele as comunidades dos crentes a praticarem a solidariedade em prol do bem comum. Cada pessoa permanece única e irrepetível e, ao mesmo tempo, completa-se e realiza-se plenamente nesta dimensão comunitária.
Inegável é a contribuição que as religiões prestam à sociedade. São numerosas as instituições caritativas e culturais que atestam o papel construtivo dos crentes na vida social. Ainda mais importante é a contribuição ética da religião no âmbito político. Tal contribuição não deveria ser marginalizada ou proibida, mas vista como válida ajuda para a promoção do bem comum. Nesta perspectiva, é preciso mencionar a dimensão religiosa da cultura, tecida através dos séculos graças às contribuições sociais e sobretudo éticas da religião. Tal dimensão não constitui de modo algum uma discriminação daqueles que não partilham a sua crença, mas antes reforça a coesão social, a integração e a solidariedade.

Liberdade religiosa, força de liberdade e de civilização:
os perigos da sua instrumentalização
7. A instrumentalização da liberdade religiosa para mascarar interesses ocultos, como por exemplo a subversão da ordem constituída, a apropriação de recursos ou a manutenção do poder por parte de um grupo, pode provocar danos enormes às sociedades. O fanatismo, o fundamentalismo, as práticas contrárias à dignidade humana não se podem jamais justificar, e menos ainda o podem ser se realizadas em nome da religião. A profissão de uma religião não pode ser instrumentalizada, nem imposta pela força. Por isso, é necessário que os Estados e as várias comunidades humanas nunca se esqueçam de que a liberdade religiosa é condição para a busca da verdade e que a verdade não se impõe pela violência mas pela "força da própria verdade".[10] Neste sentido, a religião é uma força positiva e propulsora na construção da sociedade civil e política.
Como se pode negar a contribuição das grandes religiões do mundo para o desenvolvimento da civilização? A busca sincera de Deus levou a um respeito maior da dignidade do homem. As comunidades cristãs, com o seu patrimônio de valores e princípios, contribuíram imensamente para a tomada de consciência das pessoas e dos povos a respeito da sua própria identidade e dignidade, bem como para a conquista de instituições democráticas e para a afirmação dos direitos do homem e seus correlativos deveres.
Também hoje, numa sociedade cada vez mais globalizada, os cristãos são chamados – não só através de um responsável empenho civil, econômico e político, mas também com o testemunho da própria caridade e fé – a oferecer a sua preciosa contribuição para o árduo e exaltante compromisso em prol da justiça, do desenvolvimento humano integral e do reto ordenamento das realidades humanas. A exclusão da religião da vida pública subtrai a esta um espaço vital que abre para a transcendência. Sem esta experiência primária, revela-se uma tarefa árdua orientar as sociedades para princípios éticos universais e torna-se difícil estabelecer ordenamentos nacionais e internacionais nos quais os direitos e as liberdades fundamentais possam ser plenamente reconhecidos e realizados, como se propõem os objetivos – infelizmente ainda menosprezados ou contestados – da Declaração Universal dos direitos do homem de 1948.

Uma questão de justiça e de civilização:
o fundamentalismo e a hostilidade contra os crentes prejudicam a laicidade positiva dos Estados
8. A mesma determinação, com que são condenadas todas as formas de fanatismo e de fundamentalismo religioso, deve animar também a oposição a todas as formas de hostilidade contra a religião, que limitam o papel público dos crentes na vida civil e política.
Não se pode esquecer que o fundamentalismo religioso e o laicismo são formas reverberadas e extremas de rejeição do legítimo pluralismo e do princípio de laicidade. De fato, ambas absolutizam uma visão redutiva e parcial da pessoa humana, favorecendo formas, no primeiro caso, de integralismo religioso e, no segundo, de racionalismo. A sociedade, que quer impor ou, ao contrário, negar a religião por meio da violência, é injusta para com a pessoa e para com Deus, mas também para consigo mesma. Deus chama a Si a humanidade através de um desígnio de amor, o qual, ao mesmo tempo que implica a pessoa inteira na sua dimensão natural e espiritual, exige que lhe corresponda em termos de liberdade e de responsabilidade, com todo o coração e com todo o próprio ser, individual e comunitário. Sendo assim, também a sociedade, enquanto expressão da pessoa e do conjunto das suas dimensões constitutivas, deve viver e organizar-se de modo a favorecer a sua abertura à transcendência. Por isso mesmo, as leis e as instituições de uma sociedade não podem ser configuradas ignorando a dimensão religiosa dos cidadãos ou de modo que prescindam completamente da mesma; mas devem ser comensuradas – através da obra democrática de cidadãos conscientes da sua alta vocação – ao ser da pessoa, para o poderem favorecer na sua dimensão religiosa. Não sendo esta uma criação do Estado, não pode ser manipulada, antes deve contar com o seu reconhecimento e respeito.
O ordenamento jurídico a todos os níveis, nacional e internacional, quando consente ou tolera o fanatismo religioso ou anti-religioso, falta à sua própria missão, que consiste em tutelar e promover a justiça e o direito de cada um. Tais realidades não podem ser deixadas à mercê do arbítrio do legislador ou da maioria, porque, como já ensinava Cícero, a justiça consiste em algo mais do que um mero ato produtivo da lei e da sua aplicação. A justiça implica reconhecer a cada um a sua dignidade,[11] a qual, sem liberdade religiosa garantida e vivida na sua essência, fica mutilada e ofendida, exposta ao risco de cair sob o predomínio dos ídolos, de bens relativos transformados em absolutos. Tudo isto expõe a sociedade ao risco de totalitarismos políticos e ideológicos, que enfatizam o poder público, ao mesmo tempo que são mortificadas e coarctadas, como se lhe fizessem concorrência, as liberdades de consciência, de pensamento e de religião.

Notas
[10] Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Decl. sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanae, 1.
[11] Cf. CÍCERO, De inventione, II, 160.

* Retirado do site do Vaticano, do dia 1o de janeiro de 2011. Adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Também o homem moderno deseja Deus, mas não se vê

Por Salvatore Abbruzzese

A Itália secularizada se esquece de Deus e, sem nenhum vínculo com a Igreja, é constantemente atravessada e perturbada por manifestações de sensibilidade religiosa que, mesmo não mudando o quadro complexo, não conseguem, de fato, reduzir o universo da crença e das práticas religiosa a uma simples persistência do passado, nem a confiná-lo a expressões superficiais e passageiras da cultura difusa.
Isso não é deduzido apenas da vivacidade dos movimentos e das associações católicas, nem apenas das manifestações de entusiasmo religioso às quais os dois últimos pontificados habituaram a opinião pública, tanto menos se deve ao simples respeito tributado pelas diversas representações políticas laicas ao magistério eclesial. Para entender o peso e a extensão da sensibilidade religiosa na sociedade secularizada contemporânea é necessário examinar variáveis ainda mais extensas.
Os lugares religiosos, como os santuários e as abadias, são meta de um fluxo contínuo de peregrinos e turistas. É notável como, na Itália pós-moderna, lugares como Pádua, Assis, Pietralcina (apenas para citar aqueles mais conhecidos) não cessam de mobilizar cotidianamente massas consistentes de peregrinos. A Itália é também, e talvez mais do que tenha sido há vinte ou trinta anos atrás, o país onde os “lugares do espírito” têm lugar nos guias turísticos, enquanto abadias e mosteiros se revelam sempre mais disponíveis para hospedar fiéis em suas buscas espirituais, admitindo-os nos momentos de oração e de refeição.
O mesmo pode ser dito para os tempos das solenidades religiosas: as celebrações de Natal e de Páscoa acolhem ainda dois terços dos italianos, enquanto que nos dias dos Santos padroeiros de cada um dos vilarejos do país continuam, ainda, frequentemente de modo mais solene do que acontecia no passado, a mobilizar energias e recursos, suscitando uma participação que está bem longe de diminuir.
A grande maioria dos pais (mais de 80%) continua – hoje, como há quarenta anos atrás – a enviar os próprios filhos para as paróquias, para a formação religiosa de base e para a catequese ligada à primeira comunhão. Como se não bastasse, vem aumentando o percentual daqueles que declaram necessário celebrar com um rito religioso os principais ritos de passagem, inclusive o matrimônio: entre 1990 e 2000 esse número subiu de 79 para 82% dos italianos.
Existe, em outros termos, uma proximidade com a mensagem de salvação da religião católica que revela a persistência de um vínculo e de um diálogo pessoal e privado que se exprime através das frequências nos lugares e a atenção aos tempos e, sem o qual, tanto as primeiras quanto a segunda seriam inexplicáveis em um contexto secularizado. Uma semelhante atenção aos lugares e aos tempos é tanto mais importante quanto mais é acompanhada do não desaparecimento da mesma prática religiosa.  
Se o percentual daqueles que declaram freqüentar regularmente os ritos religiosos supera os 30%, é preciso não esquecer como, no meio disso, exista pelo menos 50% de italianos que declara freqüentar os ritos com frequência alternada. É como se se dissesse que o núcleo sólido dos praticantes é apoiado por um contexto de reconhecimento generalizado que, com a própria prática esporádica e episódica, acaba, de alguma maneira, legitimando aqueles que vão regularmente à igreja.
A verdadeira novidade é constituída não apenas pelo desaparecimento dos praticantes (como toda boa teoria da secularização sustenta), mas pela dos não praticantes: o percentual daqueles que declaram nunca colocar os pés na igreja para assistir aos ritos religiosos (independentemente dos eventos privados) está em constante diminuição desde 1981 até hoje: em 2005 passa um pouco dos 10% do total dos italianos, quando no início dos anos 1980 chegava a 21%. Tais frequentações do sagrado não são sem consequências. Confiança institucional, trabalho, vida de casal e educação dos filhos se revelam profundamente influenciados pela dimensão da prática religiosa.
Toda essa série de elementos – muitos dos quais  já bastante conhecidos, mas sempre teimosamente ignorados – desloca completamente o eixo do problema. Não se trata de interrogar-se sobre o desaparecimento da dimensão religiosa, mas sobre sua invisibilidade e a sua transparência com relação ao quadro no qual se situa. O ponto fulcral da análise é constituído não tanto da ausência de Deus, mas de um desejo que não se transforma automaticamente em pertença, não leva a um vínculo constante e significativo com a comunidade dos crentes seja lá como ela for entendida, mas continua situado no plano afetivo, pessoal e privado.
A dimensão religiosa continua sendo como um rio cársico [o autor se vale de uma imagem utilizada por Ladislao Mittner para se referir ao pietismo protestante. Mittner (1964) diz que "é quase impossível distinguir o pietismo das muitas outras seitas religiosas da época. Filões singulares do movimento apresentam fenômenos cársicos: aparecem, desaparecem, e, de repente, reaparecem mais além, sem que a identidade do filão possa ser propriamente demostrada" (p. 40). No Carso, região de solo calcáreo da ex-Iugoslávia, há rios que desaparecem no solo permeável e passam a correr no subterrâneo, voltando a aparecer na superfície muitos quilômetros à frente. Rio cársico, portanto, é aquele que aparece e desaparece, tornando-se ora visível ora oculto em seu percurso (cf. Mittner, L., Storia della Letteratura Tedesca - Dall Pietismo al Romanticismo, Einandi, Milão, 1964); ndt], pronto para terminar seu fluxo apenas quando algo ou alguém a solicita, apresentando propostas concretas de existência, revelando uma verdadeira e própria companhia, capaz de formar vínculos sociais. Isso permite entender por que foi a religiosidade dos movimentos, ou seja aquela capaz de transmutar-se em relações significativas, em companhia, a ter sucesso e a manter em pé as redes associativas mesmo nos períodos de secularização mais profunda, revelando-se capazes mesmo de interpretar uma tal pergunta.
Mas isso permite entender também o quanto, sob a superfície de uma sociedade “sem Deus e sem profetas” – como recordava Max Weber no início do século passado –, prossiga o rio de uma sensibilidade religiosa latente, estendida e difundida, esperando uma resposta às interrogações de fundo da vida e ao desejo que as alimenta. Entre o cenário de uma sociedade esquecida de Deus e uma que cultiva sua busca no secreto da consciência de cada um a diferença, evidentemente, é radical. Volta-se, assim, à intuição de Bento XVI segundo a qual o quaerere Deum, a busca de Deus, e não a secularização, é que forma a figura da modernidade contemporânea. 
Abrem-se, assim, perguntas inéditas sobre como se articule um tal desejo submerso e por que valores pode ser orientado. É preciso se dirigir para a compreensão de uma tal religiosidade submersa, das esperanças que traz em si, assim como dos limites que a caracterizam e a ferem, limitando-a ao foro interior das consciências dos indivíduos. É preciso se perguntar como uma tal proximidade com o anúncio de salvação dialogue com os lugares religiosos, os tempos do sagrado, as imagens e as representações que o ilustram. Assim como é preciso interrogar-se sobre as perguntas que vêm da sociedade laica pós-secular, os desejos aos quais se abre e por causa dos quais está em busca. Nisso, e não a partir de outros lugares, é que convém situar-se, se se quer interpretar o sentido último da época na qual nos encontramos vivendo.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 27 de agosto de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A leiga França pede ajuda à religião...



... mas não tem coragem de falar disso!

Por David Blázquez

A França está vendo reacender-se, nas últimas semanas, o debate sobre a laicidade. Alguns fatos contribuíram para isso: a proposta de lei promovida por Sarkozy sobre o veto da burca em todos os lugares públicos, os ataques israelenses de alguns dias atrás, ou os disparos de metralhadores em uma mesquita de Istres, no sul da França. São apenas três exemplos dos contínuos problemas em matéria de convivência que atormentam continuamente a nação que é o berço da laicidade.
Todos estes eventos colocam de novo nas primeiras páginas dos jornais o debate sobre um modelo de convivência que parece não conseguir responder aos desafios de um mundo, e de uma Europa cada vez mais obrigada a repensar-se em termos de relação real e não mais de tolerância abstrata.
Recentemente, foi publicado no Le Monde um artigo do Grande Rabino da França, Gilles Bernheim. Nesse artigo, a voz pública do judaísmo francês se exprimia muito claramente: “as religiões podem contribuir para a criação de uma França mais pacífica”. Palavras que não podem ser dadas como óbvias no país que, junto com a “moderna” Turquia, realizou fielmente o projeto de transformação do espaço público-concreto em um espaço vazio-abstrato. “Cada uma das grandes religiões e filosofias presentes em nosso país” – continuava Bernheim – “possui tesouros de razão, justiça e paz que devem ser mobilizados para ajudar a República”, porque “para além das divergências dogmáticas, todos os homens de boa fé podem se entender”.
Mas, como retomar aquele caminho de entendimento que, aparentemente, se fechou? Bernheim, partindo de uma tradição religiosa ancorada na experiência da concretude do relacionamento humano e da importância dos lugares, insiste sobre a necessidade de sair dos termos abstratos do debate. É preciso retomar a “discussão face a face, olhos nos olhos, fugindo do prazer fácil dos monólogos” e saber que “a história não é uma fantasia, mas se constrói, agora e sempre, ancorada em lugares precisos”. É necessário “servir-se do patrimônio da nossa experiência (...) para encontrar, entre nós, os olhares, os gestos e as palavras que nos permitirão criar, onde estamos, a paz, a disciplina, a solidariedade e a dignidade”.
Neste sentido, deveria ser muito mais frequentemente retomado, e sobretudo aplicado concretamente, o discurso pronunciado pelo presidente Sarkozy em São João de Latrão, em dezembro de 2007. Diante de Bento XVI, ele disse, naquela ocasião: “espero profundamente o advento de uma laicidade positiva, ou seja, de uma laicidade que, mesmo vigiando sobre a liberdade de pensar, sobre a liberdade de crer ou não crer, não considera que as religiões sejam um perigo, mas sim um ponto a favor. Trata-se (...) de procurar o diálogo com as grandes religiões da França e de ter como princípio facilitar a vida cotidiana das grandes correntes espirituais mais do que tentar complicá-la para eles”.
Naquela ocasião, a França laicista deu uma lição teórica de verdadeira laicidade a toda a Europa. Terá a coragem, como reivindica Bernheim, de permitir as suas consequências práticas e as suas traduções concretas? E sobretudo, haverá alguém na França que terá a audácia de empreender isso?

* Extraído de IlSussidiario.net, do dia 16 de junho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco. 

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Unidos na paixão por Cristo e pelo homem

Por Antonio Lopez*

Afastados cinco anos da eleição, a CEI (Conferência Episcopal Italiana) convida a rezar por Bento XVI. Que continua a missão de João Paulo II, seu predecessor. Mas, o que os liga em profundidade? Falamos sobre isso com Monsenhor Lorenzo Albacete e David Schindler

Cinco anos atrás, Bento XVI sucedia a João Paulo II. O que os liga em profundidade? Pedimos a Monsenhor Lorenzo Albacete, editor, ensaista e responsável eclesiástico de CL nos EUA, e ao professor David Schindler, reitor e decano do Instituto João Paulo II para o Matrimônio e a Família, que ilustrassem os principais elementos de continuidade entre os dois pontificados. Por exemplo, o modo tão particular de conceber a fé: paixão por Cristo e pela pessoa humana.

Qual é a opinião de vocês a respeito da continuidade entre aquele grande Papa e seu sucessor?
Albacete: Acredito que a maior parte das pessoas não tenha prestado muita atenção na questão da continuidade. O ensinamento cheio de autoridade de João Paulo II e a sua contribuição para a vida da Igreja, a forma que deu à Igreja, pode se dizer substancialmente esgotada? Pode-se dizer que, hoje, temos algo de novo? Pessoalmente, fui muito tocado pela continuidade. Certamente que os estilos são diferentes, mas a continuidade é impressionante. Talvez alguns não a vejam, porque não é percebida a novidade de Cristo. A Igreja fez um esforço para ultrapassar esta divisão.
Schindler: Estou de acordo sobre o fato de que a continuidade seja profunda. Antes de mais nada, como todos os grandes homens da Igreja, ambos testemunharam o Evangelho e a unidade do Evangelho. Podemos reconhecer a sua unidade no fato de Bento XVI sublinhar, várias vezes, que o problema fundamental, hoje, é o esquecimento de Deus. No centro de todos os problemas culturais ou eclesiais que se tentam enfrentar está a recuperação da memória de Deus. João Paulo II disse algo parecido com isso em "Cruzando o limiar da esperança": o século XXI será um século religioso, ou não será em nada. Penso que este seja, de fato, o fundo de unidade entre eles: a recuperação do senso religioso e a memória de Deus, tal como é concretamente revelada em Jesus Cristo.

Qual é o olhar deles sobre o mundo? O que eles pretendem quando buscam restabelecer um significado adequado da laicidade?
Schindler: Algo que me impressionou de verdade na insistência de Bento XVI sobre a laicidade - por exemplo, quando encontrou os líderes franceses - é a sua insistência sobre o fato de que temos necessidade de recuperar uma compreensão adequada do que é a laicidade. Laicidade, para a nossa cultura, significa calar a respeito de Deus, enquanto que o ponto central de Bento é a retomada do conceito de laicidade, em cujo centro está a busca de Deus, o desejo de Deus, e em segundo lugar um desejo sem descanso, que não encontra realização total senão no encontro com Deus, na forma na qual Ele se revelou na história, ou seja, em Jesus Cristo.
Albacete: Exato. Não haveria laicidade se não existisse o Deus de Cristo. O que se tem chamado de laicidade, a separação de Deus ou da dimensão espiritual, não é laicidade em nada. Uma verdadeira laicidade é possível apenas através do Deus de Jesus Cristo.

Por quê?
Albacete: Porque é Ele que leva juntos, em si, o divino e o humano, na modalidade delineada desde o Concílio da Calcedônia, em 451. Creio que esta seja uma das coisas mais importantes que emergiram no discurso feito no Collège des Bernardins: sem Cristo não há laicidade.

Vocês podem nos dizer algo a mais a respeito da insistência de Bento XVI sobre o monaquismo, e sobre o por que não se trata de uma redução da Igreja a uma forma de vida espiritual, fora do mundo?
Schindler: Para mim, o ponto é que cada dia, na sua realidade mais profunda, cada dia, em cada aspecto seu, é dies Domini. Cada dia é Dia do Senhor. A natureza do homem é litúrgica.
Albacete: Lembrem-se de como Bento XVI expressou isso naquela ocasião: o primeiro fruto desta busca é construir uma biblioteca.
Schindler: E trabalhar!
Albacete: E trabalhar... exatamente assim. Ora et labora.
Schindler: E aqui está a dignidade do que é humilde. Neste contexto, o trabalho manual tem grande dignidade. Em um certo sentido, somente um cristão pode viver seriamente o trabalho manual. Em outros termos, a encarnação é céu e terra que se conjugam. O objetivo do nosso empenho sobre a terra é realizar o céu, mesmo que não nos seja possível realizá-lo plenamente nesta vida. Em Jesus, o céu veio sobre a terra, para que a terra pudesse ir para o céu. Ora, em Jesus, nós já participamos, agora, da unidade entre céu e terra. Por isso, somente no Cristianismo, somente na revelação de Cristo, é possível que a cada tempo, lugar e espaço, seja dada a dignidade que lhe é própria. Hoje, a nossa concepção do trabalho é tão limitada que nós o compreendemos tão somente como um instrumento para adquirir algo. É, em parte, verdadeiro, mas o trabalho é uma atividade que é participação na criatividade mesma de Deus, na ação de Deus encarnado.

A concepção moderna de trabalho é fundamentada sobre a separação entre a vida enquanto tal e o que a pessoa faz no trabalho. O que há de novo na afirmação de João Paulo II e de Bento XVI acerca da unidade entre a vida na sua inteireza e o agir do homem?
Albacete: Todas as divisões como esta são apenas manifestações de uma divisão que está na origem. Trata-se da perda da experiência do Deus cristão. São maneiras diversas de expressar este dualismo.
Schindler: Acredito que seja uma questão muito ampla. O que torna possível unir o conceito de vocação e o trabalho é reconhecer que a liberdade se realiza apenas na afirmação de um "para sempre". A verdadeira liberdade é dirigida a um amor que assume a forma de uma promessa, cuja realização só é possível mediante a verificação da relação de Deus com mundo, que se manifesta na pessoa de Cristo. O fundo da questão é simplesmente reconhecer que o significado da liberdade consiste em dizer "para sempre" a Deus, tornados livres mediante Jesus Cristo, até o ponto de compreender a relação de Deus com todas as coisas, e ao serviço de todas as coisas.

Tanto João Paulo II quanto Bento XVI insistiram sobre a liberdade do homem e tentaram defendê-la. Em quase todas as suas encíclicas, João Paulo II citou a Gaudium et spes (n. 22): Cristo revela Deus ao homem e revela o homem a si mesmo. O Cristianismo, para Bento XVI, revela (sem eliminá-lo) o mistério da pessoa humana: cada pessoa é relação com o Mistério, e é livre na medida em que reconhece esta dependência e vive para um outro. Este conceito de liberdade não é um desafio aberto ao mundo contemporâneo, que identifica liberdade com "criatividade", "autonomia" e "igualdade"?
Albacete: Não há nada de errado, em princípio, nestas duas acepções... mas a liberdade não pode ser criativa sem Cristo. Porque, sem Ele, tudo perde a força, tudo passa, e a morte não é vencida. Os impérios vão e vêm, das grandes obras e dos grandes eventos se perde a lembrança.
Schindler: Ratzinger tem um modo maravilhoso de expôr ascoisas. Quando fala do sacramento diz que consiste no dar algo que não se possui. Parece-me que a chave de todo o agir humano é que ele é pré-sacramental. Em outras palavras, eu nunca sou a primeira e absoluta origem do que transmito. Se quisermos falar em termos de paternidade e filiação: queremos ser criativos, estar na origem; queremos ser pais de nossas ações, e em um certo sentido isto é verdadeiro. Mas, na medida em que somos criaturas, podemos ser verdadeiramente pais apenas dentro de uma filiação. Em um nível mais profundo, recebemos a capacidade, a energia que transmitimos, mesmo que participemos dela plenamente. Temos autonomia, mas é a autonomia própria de um dom que recebemos e do qual participamos. Ratzinger fala do sacramento exatamente nestes termos, belíssimos: eu participo de uma força, mas não sou originalmente o seu proprietário. Participo de uma força na medida em que sou seu receptor.

Os pontificados de João Paulo II e o de Bento XVI é um grande "irradiar-se de paternidade" e uma defesa da profundidade do mistério da paternidade. O que se perdeu na atual crise da paternidade?
Albacete: Para mim, não é por acaso nem fruto de uma definição cultural o fato de o nome do Deus cristão ser "Pai": cada gesto e cada palavra de Deus são reveladores, e mesmo Jesus chamava a Deus de "Pai". Isto significa que o primeiro modo no qual se manifesta a perda de orientação natural que, como homens, temos em relação ao infinito, é exatamente a perda do significado da paternidade. Participar da vida de Deus é participar da vida do Pai, é ser como que "a sombra do Pai", como na obra de Karol Wojtyla, "Raios de paternidade", centrada sobre São José, visto como a sombra do Pai. A incapacidade de compreender quão profundamente José encarne isto demonstra a fratura que se verificou.

Uma das maiores contribuições de João Paulo II foram suas catequeses de quarta-feira, nas quais apresentou uma visão do amor humano nos termos do relacionamento nupcial. Quais são os elementos mais essencialmente novidadeiros deste ensinamento?
Albacete: Gostaria de ligar isto à perda do sentido do sacramento, porque o matrimônio é o sacramento primordial. Se não tivesse existido o Pecado original, não existiriam os sacramentos, mas tão somente o matrimônio. O matrimônio revela a intenção de Deus no criar a partir do nada. Não é apenas paternidade, porque a paternidade é inseparável da maternidade e do relacionamento nupcial. Tudo isso, porém, se perdeu. João Paulo II oferece uma grandíssima ajuda para recuperar a unidade entre estes elementos que definem o amor humano. Sem esta unidade, o amor humano é como um edifício que desaba: é um 11 de setembro. Resiste por um pouco, se incendeia e você pensa que o problema é manter o fogo sob controle e, de repente, o edifício desaba.
Schindler: Concordo. Gostaria apenas de acrescentar uma coisa: parece-me que o que ambos os papas querem dizer é que há algo que diz respeito ao homem como destino de paternidade, que diz respeito à mulher como destino de maternidade, que diz respeito à criança; algo que manifesta uma característica essencial da natureza do amor humano. Na nossa cultura, tendemos a julgar que existem agentes humanos, abstratos, pelos quais acontece de serem homens e mulheres. Mas, se perdermos os caracteres distintivos do homem, perdemos uma característica essencial do amor. Se perdermos os caracteres distintivos da mulher, perdemos algo de essencial quanto ao significado do amor. E se pensarmos nas crianças como pequenos adultos que se originarão disto, perdemos algo de essencial quanto ao que respeita ao significado do amor humano. Pensando neste último aspecto, há uma beleza particular no fato de que Deus tenha revelado a Si mesmo em Cristo, na forma de uma criança. Não é uma circunstância temporal: Jesus é Filho do Pai pela eternidade. Por isto, a filiação, o ser criança, não é uma condição da qual somos destinados a sair.
Albacete: Até que não se tornem uma coisa só, vocês não irão ao encontro do próprio destino.

* Publicado em Tracce, no dia 19 de abril de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.