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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Uma “viagem” no tempo para viver o cristianismo hoje


Por Danilo Zardin

“A modernidade não consiste somente de negatividade. Se fosse assim, não poderia durar por muito tempo. Ela tem em si grandes valores morais que advêm exatamente do cristianismo, que somente graças ao cristianismo, como valor, entraram na consciência da humanidade”.
Extrapolado do seu contexto, o elogio da alma boa que se esconde nas dobras profundas da modernidade filha da tradição europeia poderia parecer a alguém um pouco romântico e excessivamente otimista: no entanto, é impregnado do são realismo que está na base do juízo histórico-cultural elaborado por Joseph Ratzinger/Bento XVI, na qualidade de homem capaz de sistematizar a posição cristã diante dos desafios do nosso contexto contemporâneo.
A frase citada é retirada exatamente do recente livro-entrevista organizado por Peter Seewald, Luz do mundo, e foi retomada por Francesco Ventorino num discurso seu de apresentação do volume. Agrade ou não, é uma perspectiva de avaliação cheia de razão e altamente compreensiva, aberta a todas as dimensões globais daquele mosaico intrincado que é o mundo no qual vivemos.
Vale a pena levá-la realmente a sério como hipótese de leitura e colocá-la à prova com a máxima cordialidade confiante, começando pelos fragmentos de realidade do passado com os quais nos embatemos quando nos havemos com as criações artísticas, as memórias literárias ou os relatos históricos que nos restituem, hoje, as vozes e o pensamento mais autêntico, para além dos esquemas e dos preconceitos superficiais dos quais, às vezes, corremos o risco de ficarmos prisioneiros.
Neste sentido, uma ajuda significativa é oferecida pela tradução para o italiano da síntese do jesuíta Robert Bireley sobre a renovação católica da primeira idade moderna: Ripensare il cattolicesimo (1450-1700): nuove interpretazioni della Controriforma [Repensar o catolicismo (1450-1700): novas interpretações da Contra-Reforma, em tradução livre, publicado pela Marietti; ndt]. Na versão italiana, por exigências de simplicidade na divulgação da mensagem, foi introduzida no título a palavra “ripensare”. Mas, na versão original americana, de 1999, no lugar de “ripensare” se encontra uma ainda mais forte “remodelar” (The Refashioning), que, a partir do espaço das nossas concepções intelectuais, nos leva à substância dos desenvolvimentos históricos reconstruídos; assim como, ao invés de estar diante das “novas interpretações”, somos colocados diante, mais ambiciosamente, da proposta de uma “revisão” ou “reformulação”, em sentido geral (A Reassessment), daquilo que antes se usava chamar Contra-Reforma, mas que Bireley tentar redesenhar de forma diferente, a ponto de solicitar o abandono das velhas etiquetas de fundo polêmico, para passar a outras categorias de juízo mais adequadas ao objeto a que se referem.
Com efeito, como sabe muito bem que tem um mínimo de familiaridade com a história religiosa do nosso Ocidente, a crítica da unilateralidade contida no estereótipo negativo da “Contra-Reforma” já havia sido levada adiante, até ao mais elevado nível pela historiografia europeia do século XX, por Hubert Jedin. Mas Bireley, referindo-se mais à nova sensibilidade amadurecida na esteira das pesquisas dos últimos cinquenta anos, retomando a terminologia lançada por outro estudioso de bastante autoridade e jesuíta ainda ativo hoje em dia (John O’Malley), ultrapassa também a recuperação tentada por Jedin a favor da corrente positiva de uma “Reforma Católica” anterior e paralela ao movimento da Contra-Reforma.
Como O’Malley, Bireley opta decididamente pelo uso do único conceito geral de “catolicismo da primeira idade moderna”: onde o fantasma da contraposição à outra grande Reforma (a protestante) cessa de ser a pedra angular sobre a qual gravita toda a construção de um catolicismo reorganizado sobre seus fundamentos e readaptado às exigências de um universo modificado, depois da saída de cena daquele que, por três séculos ou mais, usou-se chamar  “Idade Média”.
Recapitulando os frutos mais atualizados da pesquisa internacional sobre a história cristã do mundo moderno, o livro do estudioso norteamericano traça, em alguns capítulos convincentes, o aspecto dinâmico e poderosamente criativo de uma religião que não era apenas a cansada relíquia de uma gloriosa tradição do passado, mas uma força viva que contribuiu, com um papel de primeiro plano, exatamente para o desenvolvimento, num sentido novo, da civilização humana que – aquela tradição – havia hospedado e feito crescer no seu seio fecundo.
O elemento dinâmico está justamente, para Bireley, na capacidade de “responder” às mudanças que se estavam desdobrando, sem fechar-se na defesa das velhas posições já garantidas. O novo que avançava era uma pergunta ou um “desafio” que solicitava a consciência católica a reagir, atingindo, a partir do patrimônio da sua extraordinária riqueza, ideias, estímulos e projetos que, depois, iriam se amalgamar com o vigor irreprimível de descobertas e aquisições revestidas do fascínio de uma originalidade surpreendente e plasticamente móvel, carregada de uma força propositiva tenaz.
Esta parábola de inteligente aplicação em proveito dos recursos contidos no próprio código genético é delineada por Bireley em relação ao florescimento dos novos carismas e dos novos modelos de santidade ativa, que revolucionaram os quadros das instituições da Igreja de Roma e dilataram em sentido ainda mais impressionantemente pluralista a variedade das suas formas de vida religiosa comunitária, antes e depois do Concílio de Trento (enquanto que a Reforma, no norte, tendia a reduzir tudo a um esquema filoparoquial achatado em sentido nivelador).
Mas a dinâmica reemerge também na invenção de uma estratégia educativa intensificada para atingir o indivíduo, ancorada no cuidado da consciência pessoal do eu, no desfrute dos recursos da cultura escrita, do catecismo e da escola, na disciplina da conduta prática através da elaboração de sistemas de regras, de guias, de manuais, de “exercícios”, de modelos ideais nos quais se espelhar e pelos quais se deixar dirigir para imprimir uma “forma” à própria vida do mundo.
A mesma ânsia de propor uma rede global de significados para a vida de cada homem se derramou, já desde o início do mundo moderno, numa nova “evangelização” destinada a se projetar de forma decidida, pela primeira vez na história, para além dos confins da Europa. As missões eram dirigidas, porém, também para o interior, rumo à restauração da velha forma de ser da cristandade do continente e em vista do novo impulso da sua consciência ética coletiva, tendo como pano de fundo a grande obra conjunta que entrava em diálogo com as exigências da política e da consolidação dos aparatos de Estado, assim como se dobrava sobre as forças secretas da natureza e buscava dominar os seus mecanismos para manipulá-los a fim de manter a centralidade do bem-estar do homem, servindo-se da ciência e da técnica como prolongamentos necessários da gestão responsável da totalidade da criação.
O êxito talvez mais surpreendentemente moderno deste esforço de “repensamento” da inserção da fé católica na realidade do mundo foi a descoberta ainda mais lúcida e consciente da possibilidade de viver o cristianismo, “na sua plenitude”, não apenas num estado de perfeição separado das condições da massa do povo dos fiéis, mas também dentro do fluxo de uma “secularidade” plasmada pelos deveres do governo da família, dos compromissos cotidianos de trabalho, na imersão mais ampla e envolvente dentro da vida coletiva da sociedade: uma fé totalmente encarnada, mas capaz de reconverter a “carne” mesma da vida do mundo.

O livro de Robert Bireley foi publicado em 2010, em italiano, e pode ser adquirido na Itacalibri, pelo valor de € 29,00. A edição original, de 1999 - The Refashioning of Catholicism, 1450-1700: A Reassessment of the Counter Reformation - pode ser adquirida na Amazon, ao preço de $ 17,53.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 12 de agosto de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 28 de junho de 2011

De Galileu a Einstein, para alargar a razão


Entrevista com Paolo Musso, feita por Mario Gargantini

O cientificismo? Foram os filósofos que o inventaram. O racionalismo? Não é o nosso destino inevitável. Descartes? Um gigante da filosofia e da matemática, mas com a ciência moderna não tem nada que ver. A fé? Não apenas não é irracional, como o seu método tem muito de comum com o método científico. Pico Dela Mirandola, Pascal, Rosmini, Newman? Fiquem no sótão: a verdadeira alternativa para a modernidade é Galileu. São apenas algumas das teses, certamente “fortes” e destinadas a causar alguma discussão, contidas no último livro de Paolo Musso, La scienza e l’idea di ragione [A ciência e a ideia de razão, em tradução livre; ndt], que acabou de ser publicado pela  editora Mimesis, com um lisonjeiro prefácio de Evandro Agazzi: uma obra desafiadora que se propõe, como diz o subtítulo, a traçar um quadro crítico da evolução de “ciência, filosofia e religião, de Galileu aos buracos negros e além”. Conversamos sobre o livro com o seu autor, docente da Universidade da Insubria de Varese e da Universidade Católica Sedes Sapientiae de Lima (Peru).

A primeira coisa que impressiona no livro é a vastidão: não tanto como tamanho da obra, mas pela amplidão e, ao mesmo tempo, profundidade dos assuntos tratados.
Sem dúvida. Com efeito, trata-se de um empreendimento ambicioso, talvez até demais. De outro lado, numa época na qual a filosofia está se transformando cada vez mais em filologia, é preciso mesmo que alguém tenha a coragem (ou a inconsciência, se se preferir) de tentar grandes sínteses. Mas, o senhor disse bem quando se refere ao fato de que a amplidão não significa menor profundidade e, eu acrescentaria, ou precisão. Digo-o sem presunção, consciente de que o mérito não é meu, mas do verdadeiro exército de amigos que, frequentemente comum a disponibilidade extraordinária, me ajudou a ir a fundo das questões que, sozinho, nunca teria conseguido entender nem superficialmente. Hoje, o conhecimento científico está em tão rápida evolução que não é possível fazer filosofia da ciência de forma séria a não ser que seja através de um relacionamento constante com os cientistas no trabalho. Não se trata, porém, de um livro para especialistas: pelo contrário, foi pensado para permitir diversos níveis de leitura, desde o leitor comum, passando pelas pesquisas escolares ou monografias de final de curso, até chegar à pesquisa de nível universitário.

Quanto da sua atividade de ensino influiu sobre o texto?
Foi fundamental. Antes, gostaria de aproveitar para agradecer publicamente aos meus alunos de Varese e de Lima. Sem eles este livro nunca teria nascido. Não foi à toa que o dediquei a eles.

Quais são as principais ideias-chave?
Tudo partiu de uma constatação paradoxal e inegável: a visão de mundo que, hoje, é largamente dominante e que é chamada de “modernidade”, se mostra como filha da ciência, sempre vista como indissoluvelmente ligada ao racionalismo no plano filosófico e ao mecanicismo no plano físico; e visto que a ciência é, para nós, um horizonte intranscendível, a “modernidade” se mostra também como intranscendível, uma espécie de destino fatal a que seremos definitivamente entregues. O paradoxo está no fato que tudo isso não tem nada que ver com a ciência real, mas muito mais com aquela sua caricatura que é o cientificismo, nascido dos filósofos e que somente, depois, contagiou também os cientistas. Que, além do mais, quando estão trabalhando, não podem fazer menos do que ser anticientistas nos fatos: porque o autêntico método científico experimental, codificado de maneira insuperável por Galileu, baseia-se numa ideia de razão estruturalmente aberta para a realidade, para a experiência, para o imprevisto e para o mistério; enquanto que o cientificismo baseia-se numa ideia fechada de “razão-medida-de-todas-as-coisas”, que, se colocada em prática, destruiria em primeiro lugar a própria ciência. Por isto, grande parte do livro é dedicada a fornecer uma informação correta sobre como a ciência nasceu e se desenvolveu, superando gradualmente o mecanicismo das origens, através da análise de algumas das grandes etapas paradigmáticas (Galileu, Newton, a termodinâmica, a relatividade, a mecânica quântica, a cosmologia, o caos e a complexidade).

Uma das passagens cruciais é feita de um confronto entre Galileu e Descartes. Por quê?
Porque existe um mito muito difundido segundo o qual Descartes seria o verdadeiro cofundador da ciência moderna, ao lado (e, às vezes até, acima) de Galileu.

E porém?
Porém, isso não é verdade. Descartes nunca entendeu nada do método galileiano, que, pelo contrário, foi criticado abertamente, e durante toda a sua vida continuou fazendo ciência (ou melhor, pseudo-ciência) a priori, isto é, segundo o método dedutivo típico dos filósofos aristotélicos que, nas suas palavras, eram tão desprezados. A verdade é que Descartes foi o primeiro dos modernos na filosofia e na matemática, onde foi um verdadeiro gigante (a ponto de podermos dizer que, sem ele, nunca teria sido possível as geometrias não euclidianas), mas do ponto de vista das ciências naturais foi, pelo contrário, o último dos antigos.

Então, por que se criou este mito?
Foi uma ação intencional, desejada. E o motivo me parece evidente: tal mito, de fato, permite fazer circular injustamente como fatores constitutivos da ciência o racionalismo e o mecanicismo, que são cosubstanciais ao método cartesiano, mas que não têm nada que ver com o método galileiano.

Ou seja, Descartes não lhe é muito simpático...
Não é uma questão de simpatia. Certamente Descartes era insuportavelmente presunçoso, mas também Galileu o era. Da mesma forma, Descartes não foi certamente menos “crente sincero” do que ele, e do ponto de vista da coerência moral tinha mais pontos do que Galileu. Mas o que lhe faltava completamente (e que Galileu tinha no mais alto grau) era o sentido do mistério, ou seja, a capacidade de se maravilhar diante da realidade: que, como dizia Einstein, “é a semente de toda a arte e de toda verdadeira ciência”.

O outro grande protagonista do livro é exatamente Einstein.
Era suficientemente óbvio, dado o tema. Mas não era óbvia a descoberta que fiz do quão profundamente ele e Galileu eram ligados. Einstein tinha em casa os retratos de Newton, Faraday e Maxwell, mas se lermos atentamente os seus escritos vamos descobrir que o seu verdadeiro norte foi Galileu. Esta é também a explicação para muitos mal-entendidos: não é possível entender, de verdade, Galileu sem entender Einstein, mas são bem poucos os filósofos e os historiadores da ciência renascentista que conhecem a teoria da relatividade.

O senhor gosta muito de Galileu, e julga de forma muita negativa as teses de alguns dos mais importantes críticos da modernidade, como Del Noce, Guardini, De Lubac...
Não os julgo negativamente! Antes, as suas ideias, particularmente as de Del Noce, têm um papel central na minha análise. Aquilo que não me convence é a sua pars construens, porque é uma veleidade esperar opor a um gigante como Descartes pensadores certamente grandes mas que não estão à sua altura, e sobretudo que são irremediavelmente marcados pela sensibilidade moderna, como Pico Della Mirandola, Pascal, Rosmini ou mesmo Newman, de quem gosto muito.

Galileu, pelo contrário, tem certamante a physique du rôle... mas, ele também não tinha os seus defeitos?
Os seus defeitos não me interessam! O que deve interessar a todos é aquilo que nos deixou como herança: nada menos do que um novo (e formidável) modo de usar a razão. Que, se bem entendido, é o exato oposto do reducionismo. E que, ao mesmo tempo, representa um dos últimos pontos de resistência contra o relativismo e o irracionalismo que se têm difundido.

A propósito do relativismo, o senhor é muito severo também com a epistemologia contemporânea.
Em boa parte dela, se não em toda ela, há várias décadas, prevalece uma postura relativista e antirealista absurda que nega que a ciência possa conhecer o mundo assim como é verdadeiramente. Para sustentar isso, é preciso ou não conhecê-la ou fingir que não a conhece. É interessante notar que o relativismo cultural moderno se desenvolveu em grande parte exatamente a partir destas teses epistemológicas: mostrar sua insustentabilidade tem, portanto, implicações que vão muito além do âmbito científico.

Muitos autores católicos, porém, veem com favor esta epistemologia “fraca”, porque pensam que ajude a defender a fé das excessivas pretensões da ciência.
É só porque não a conhecem. Do contrário, entenderiam que não apenas a ciência não é inimiga da fé, como também, pelo contrário, é, pelo menos potencialmente, a sua melhor aliada, dado que é, de qualquer forma, o único setor da cultura que defende ainda a ideia segundo a qual a experiência pode conduzir à verdade, cuja negação apriorística e imotivada constitui, ao invés, o verdadeiro “dogma central” da modernidade. E, seja como for, como repete continuamente Bento XVI, a fé não se defende restringindo o alcance da razão, mas alargando-o, ou seja, abrindo a razão a um horizonte maior.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 28 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A religião: relação com Deus e força de paz

Viagem Apostólica à Croácia
(4 e 5 de junho de 2011)

Encontro com expoentes da sociedade civil, do mundo político, acadêmico, cultural e empresarial, com o Corpo Diplomático e com os líderes religiosos

Discurso do Papa Bento XVI

Teatro Nacional Croata - Zagreb
Sábado, 4 de junho de 2011

Senhor Presidente,
Senhores Cardeais,
Ilustres Senhores e Senhoras,
Amados irmãos e irmãs!
Estou muito feliz por poder começar a minha visita encontrando-vos, a vós que representais âmbitos qualificados da sociedade croata além do Corpo Diplomático. Dirijo a minha saudação cordial a cada um de vós pessoalmente e também às realidades vitais a que pertenceis: às comunidades religiosas, às instituições políticas, científicas e culturais, aos setores artístico, econômico e desportivo. Agradeço especialmente a Mons. Puljić e ao Prof. Zurak as amáveis palavras que me dirigiram, bem como aos artistas que me acolheram com a linguagem universal da música. A dimensão da universalidade, que caracteriza a arte e a cultura, é conatural de um modo particular ao cristianismo e à Igreja Católica. Cristo é plenamente homem, e tudo aquilo que é humano encontra nEle e na sua Palavra plenitude de vida e de significado.
Este teatro esplêndido é um lugar simbólico, que exprime a vossa identidade nacional e cultural. O fato de poder vos encontrar aqui, todos juntos, é mais um motivo de alegria do espírito, porque a Igreja é um mistério de comunhão e rejubila sempre com a comunhão na riqueza das diversidades. A participação dos Representantes das outras Igrejas e Comunidades cristãs, bem como das religiões hebraica e muçulmana, contribui para nos lembrar que a religião não é uma realidade aparte relativamente à sociedade: pelo contrário, é uma sua componente conatural, que evoca constantemente a dimensão vertical, a escuta de Deus como condição para a busca do bem comum, da justiça e da reconciliação na verdade. A religião coloca o homem em relação com Deus, Criador e Pai de todos, e, por conseguinte, deve ser uma força de paz. As religiões sempre se devem purificar segundo esta sua verdadeira essência, para corresponderem à sua genuína missão.
E aqui queria introduzir o tema central desta minha breve reflexão: a consciência. Transversal aos diferentes campos onde estais empenhados, este tema é fundamental para uma sociedade livre e justa, tanto a nível nacional como supranacional. Aqui penso naturalmente na Europa, de que a Croácia faz parte desde sempre no plano histórico-cultural, ao passo que, no plano político-institucional, está em vias de entrar na União Europeia. Pois bem, as grandes conquistas da idade moderna, ou seja, o reconhecimento e a garantia da liberdade de consciência, dos direitos humanos, da liberdade da ciência e, consequentemente, de uma sociedade livre, há que confirmá-las e desenvolvê-las, mas mantendo a racionalidade e a liberdade abertas ao seu fundamento transcendente, para evitar que tais conquistas se autodestruam, como infelizmente temos de constatar em não poucos casos. A qualidade da vida social e civil, a qualidade da democracia dependem em grande parte deste ponto “crítico” que é a consciência, de como a mesma é entendida e de quanto se investe na sua formação. Se a consciência se reduz, segundo o pensamento moderno predominante, ao âmbito da subjetividade, para o qual se relegam a religião e a moral, a crise do Ocidente não tem remédio e a Europa está destinada à involução. Pelo contrário, se a consciência é descoberta novamente como lugar da escuta da verdade e do bem, lugar da responsabilidade diante de Deus e dos irmãos em humanidade – que é a força contra toda a ditadura – então há esperança para o futuro.
Estou grato ao Prof. Zurak por ter lembrado as raízes cristãs de numerosas instituições culturais e científicas deste país, como aliás aconteceu em todo o continente europeu. O lembrar estas origens é necessário inclusive para a verdade histórica, mas é importante saber lê-las em profundidade a fim de que possam animar também os dias de hoje. Por outras palavras, é decisivo captar o dinamismo que está dentro do acontecimento, por exemplo, da criação de uma universidade, ou de um movimento artístico, ou de um hospital. É preciso compreender o porquê e o como de isso ter acontecido, para se valorizar nos dias de hoje tal dinamismo, que é uma realidade espiritual que se torna cultural e, consequentemente, social. Na base de tudo, encontram-se homens e mulheres, encontram-se pessoas, consciências, movidas pela força da verdade e do bem. Foram citados alguns dos filhos ilustres desta terra. Gostaria de deter-me no Padre jesuíta Ruđer Josip Bošković, que nasceu em Dubrovnik há trezentos anos, no dia 18 de maio de 1711. Ele personifica muito bem o consórcio feliz entre a fé e a ciência, que se estimulam reciprocamente a uma pesquisa ao mesmo tempo aberta, diversificada e capaz de síntese. A sua obra mais importante, Theoria philosophiae naturalis, publicada em Viena e depois em Veneza a meados do século XVIII, tem um subtítulo muito significativo: redata ad unicam legem virium in natura existentium, ou seja, “segundo a única lei das forças existentes na natureza”. Em Bošković, temos a análise, o estudo de múltiplos ramos do saber, mas temos também a paixão pela unidade. E isto é típico da cultura católica. Por isso, é sinal de esperança a fundação de uma Universidade Católica na Croácia. Espero que esta contribua para criar unidade entre os diversos âmbitos da cultura contemporânea, os valores e a identidade do vosso povo, dando continuidade à fecunda contribuição da Igreja para a história da nobre nação croata. Voltando ao Padre Bošković, dizem os peritos que a sua teoria da “continuidade”, válida tanto nas ciências naturais como na geometria, concorda magnificamente com algumas das grandes descobertas da física contemporânea. Que podemos dizer? Prestemos homenagem ao croata ilustre, mas também ao jesuíta autêntico; prestemos homenagem ao cultor da verdade que está bem ciente do quanto esta o supere, mas sabe também, à luz da verdade, empenhar profundamente os recursos da razão que o próprio Deus lhe concedeu.
Contudo, para além da homenagem, é preciso aproveitar o método, a abertura mental destes grandes homens. Voltemos, pois, à consciência como chave mestra para a elaboração cultural e a construção do bem comum. É na formação das consciências que a Igreja oferece à sociedade a sua contribuição mais específica e preciosa. Uma contribuição que começa na família e que encontra um reforço importante na paróquia, onde as crianças e adolescentes e, depois, os jovens aprendem a aprofundar as Sagradas Escrituras, que são o “grande códice” da cultura europeia; e, ao mesmo tempo, aprendem o sentido da comunidade fundada no dom: não no interesse econômico ou na ideologia, mas no amor, que é “a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira” (Caritas in veritate, 1). Aprendida na infância e na adolescência, esta lógica da gratuidade é, depois, vivida nos diversos âmbitos, no jogo e no desporto, nas relações interpessoais, na arte, no serviço voluntário aos pobres e aos doentes, e, uma vez assimilada, pode-se concretizar nos âmbitos mais complexos da política e da economia, colaborando para uma polis que seja acolhedora e hospitaleira, e que ao mesmo tempo não seja vazia, nem falsamente neutra, mas rica de conteúdos humanos, com uma forte consistência ética. É aqui que os christifideles laici estão chamados a fazer render generosamente a sua formação, guiados pelos princípios da Doutrina Social da Igreja, por uma autêntica laicidade, a justiça social, a defesa da vida e da família, a liberdade religiosa e educativa.
Ilustres amigos, a vossa presença e a tradição cultural croata sugeriram-me estas breves reflexões. Deixo-vo-las como sinal da minha estima e sobretudo da vontade que tem a Igreja de caminhar com a luz do Evangelho no meio deste povo. Agradeço-vos pela vossa atenção e de coração abençoo a todos vós, os vossos entes queridos e as vossas atividades!

* Extraído do site do Vaticano, do dia 4 de junho de 2011. Revisado por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Uma aventura fascinante


Colóquio do Santo Padre Bento XVI com os astronautas
da Estação Espacial Internacional

Sala dos Foconi
Sábado, 21 de maio de 2011

Introdução
Caros astronautas,
Fico muito feliz de ter esta extraordinária possibilidade de uma conversa convosco durante a vossa missão. Sou particularmente grato de poder me dirigir a tantos de vós, dada a presença, ao mesmo tempo, neste momento, de duas tripulações na Estação Espacial.
A humanidade vive um período de rapidíssimo progresso dos conhecimentos científicos e das aplicações técnicas. Neste sentido, sois os nossos representantes – a ponta de lança – da humanidade que explora novos espaços e novas possibilidades para o nosso futuro, indo além dos limites das nossas experiências cotidianas.
Todos admiram a vossa coragem, a disciplina e o empenho com o qual vos preparastes para esta missão. Estamos convencidos de que sois animados por ideais nobres e que quereis colocar os frutos de vossas pesquisas e de vossos empreendimentos à disposição de toda a humanidade e para o bem comum.
Esta conversa, portanto, me permite expressar também a minha admiração e apreciação por vós e por todos aqueles que colaboram para tornar possível o vosso empreendimento, além de encorajar-vos a levá-la a bom termo com segurança e sucesso.
Mas, esta deve ser uma conversa, por isso não devo ser eu apenas a falar. Pelo contrário, estou muito interessado em ouvir as vossas experiências e reflexões. Permiti-me, portanto, dirigir-vos algumas perguntas:

Perguntas
Primeira pergunta
Da Estação Espacial, podeis ver a nossa Terra de uma perspectiva muito diferente. Sobrevoais continentes e povos diversos, muitas vezes ao dia. Creio que, para vós, seja evidente que vivamos todos juntos numa única Terra e que é absurdo que combatamos e nos matemos uns aos outros. Sei que a mulher de Mark Kelly foi vítima de um grave atentado e espero que a sua saúde continue a melhorar. Contemplando do alto a Terra, quais as considerações que vós fazeis sobre o modo com o qual as nações e os povos vivem juntos aqui embaixo, ou sobre como a ciência pode contribuir para a causa da paz?
Resposta de Mark Kelly (EUA)
Obrigado, Santidade, pelas suas palavras gentis e obrigado por ter recordado minha mulher Gabby. Sua pergunta é interessante. De fato, voamos sobre o mundo e não vemos limites, mas ao mesmo tempo nos damos conta do fato que os povos se enfrentam, que há tanta violência neste mundo e isto é, verdadeiramente, uma desgraça. Geralmente, os povos se enfrentam por razões diversas. É visível, hoje em dia, no Oriente Médio: em parte é uma questão de democracia, mas normalmente os povos lutam pelos recursos. É interessante aquilo que acontece no espaço: na Terra, de fato, frequentemente, se luta por energia; no espaço, utilizamos a energia solar e, na Estação Espacial, temos reservas energéticas. Veja, a ciência e a tecnologia aplicadas à Estação Espacial para desenvolver o potencial de energia solar nos mantém, na realidade, quase que com uma quantidade ilimitada de energia. Eis então, se estas tecnologias fossem mais usadas na Terra, provavelmente a violência poderia ser reduzida.

Segunda pergunta
Um dos temas sobre os quais retorno mais frequentemente nos meus discursos é o da responsabilidade que todos temos pelo futuro do nosso planeta. Recordo que há sérios riscos para o ambiente e para a sobrevivência das futuras gerações. Os cientistas nos convidam à prudência e, do ponto de vista ético, devemos fazer com que cresçam nossas consciências. Do vosso ponto de vista extraordinário, como vedes a situação da Terra? Vedes sinais ou fenômenos para os quais devemos estar mais atentos?
Resposta de Ron Garan (EUA)
Santidade, é uma grande honra falar com o senhor. Tem razão: aquilo que temos daqui é um ponto de vista verdadeiramente extraordinário. De um lado, vemos o quão indescritivelmente belo é o planeta que nos foi dado; de outro, podemos ver o quão frágil é, na realidade. Peguemos, por exemplo, a atmosfera: vista do espaço, é fina como uma folha de papel, e pensar que este extrato fino como uma folha seja tudo aquilo que separa qualquer ser vivo do vazio do espaço, e que seja tudo aquilo que nos proteja, é um pensamento que faz refletir. Veja, a nós parece incrível ver a Terra pendurada no vazio do espaço e pensar que nos encontramos ali, todos juntos, na corrida desse frágil oásis através do universo... É isso, nos enche de grande esperança pensar que nos encontramos todos juntos a bordo desta incrível Estação Espacial que orbita a Terra, construída por tantos países numa colaboração internacional, para que se pudesse realizar este grandioso empreendimento... Veja, isto demonstra que, trabalhando juntos, colaborando, podemos superar muitos dos problemas que o planeta vem enfrentando, podemos resolver muitos dos desafios colocados aos habitantes do nosso planeta, que é verdadeiramente um lugar belíssimo para se viver e trabalhar, e este lugar no qual nos encontramos é incrível para admirar a nossa bela Terra!

Terceira pergunta
A experiência que estais fazendo agora é extraordinária e muito importante, mas depois voltareis para esta Terra como todos nós. Quando voltardes, sereis olhados com admiração, sereis tratados como heróis e falareis com grande autoridade. Convidar-vos-ão a falar das vossas experiências. Quais seriam as mensagens mais importantes que gostaríeis de dirigir sobretudo aos jovens, que viverão num mundo profundamente marcado pelas vossas experiências e descobertas?
Resposta de Mike Finchke (EUA)
Santidade, como disseram os meus colegas, podemos olhar para baixo e admirar este esplêndido planeta que Deus fez, que é o mais belo planeta de todo o Sistema Solar. Porém, se levantarmos o olhar, veremos o resto do Universo, e o Universo está ali para ser explorado por nós. E a Estação Espacial Internacional é apenas um símbolo, um exemplo daquilo que os seres humanos podem fazer quando trabalham juntos de forma construtiva. Portanto, a nossa mensagem – uma das nossas mensagens, mas acredito que a mais importante – é que devemos fazer os filhos e os jovens deste planeta saber que em torno de nós há todo um Universo a ser explorado. E que, se o fizermos juntos, não há nada que não possamos obter!

Quarta pergunta
A exploração do espaço é uma aventura científica fascinante. De fato, sei que, nestes dias, estais instalando novos instrumentos para a pesquisa científica e o estudo das radiações que chegam do espaço mais distante. Mas, acredito que seja também uma aventura do espírito humano, um estímulo poderoso para fazer refletir sobre a origem e o destino do universo e da humanidade. Os crentes olham frequentemente para os espaços sem fim, meditando sobre o Criador de tudo isto, e ficam tocados pelo mistério da sua grandeza. Por isso, a medalha que confiei a Roberto Vittori, como sinal da minha participação na vossa missão, representa a criação do homem, pintada por Michelangelo na abôbada da Capela Sistina. No vosso compromisso intenso de trabalho e de pesquisa, acontece de parardes para fazer semelhantes reflexões – ou mesmo de dirigirdes uma oração ao Criador? Ou é mais fácil para vós refletir sobre estas coisas quando estais de retorno à Terra?
Resposta de Roberto Vittori (Itália)
Santidade, viver a bordo da Estação Espacial Internacional, trabalhar como astronauta na nave Soyuz da Estação é uma experiência extremamente intensa. Mas, quando cai a noite, todos podemos olhar para baixo, para a Terra: o nosso planeta, o planeta azul, é belíssimo. Azul é a cor do nosso planeta, azul é a cor do céu, azul é também a cor da Aeronáutica militar italiana, a organização que me deu a oportunidade de entrar na Agência Espacial Europeia. Quando temos um momento de tempo para a beleza aí de baixo, que é o efeito tridimensional da beleza do nosso planeta, quem captura tudo é o nosso coração, quem captura tudo é o meu coração. E, então, eu rezo: rezo por mim, rezo pelas nossas famílias, pelo nosso futuro. Trouxe a medalha comigo, e a faço flutuar diante de mim, para demonstrar a falta de gravidade. Desejo agradecer ao senhor muitíssimo por esta oportunidade; quero que esta medalha flutue em direção ao meu amigo e colega Paolo: ele, de fato, voltará para a Terra no Soyuz. Eu a trouxe comigo para o espaço e ele a levará de volta para a Terra, a fim de restitui-la ao senhor.

Quinta pergunta
A minha última pergunta é para Paolo. Caro Paolo, sei que, nos últimos dias, tua mãe te deixou e quando, daqui a alguns dias, voltares à casa, não a encontrarás mais te esperando. Todos ficamos próximos de ti, e eu também rezei por ela... Como viveste este tempo de dor? Na vossa Estação, estais distantes e isolados, e sofreis de um sentido de separação, ou vos sentis ainda mais unidos entre vós e inseridos numa comunidade que vos acompanha com atenção e afeto?
Resposta de Paolo Nespoli (Itália)
Santo Padre, senti suas orações, as vossas orações chegarem até aqui em cima: é verdade, estamos fora deste mundo, orbitamos ao redor da Terra e temos um ponto de vantagem para olhar a Terra e para sentir tudo aquilo que está em torno dela. Os meus colegas aqui, a bordo da Estação – Dimitri, Kelly, Ron, Alexander e Andrei – ficaram muito próximos de mim neste momento importante para mim, muito intenso, assim como os meus irmãos, as minhas irmãs, as minhas tias, os meus primos, os meus parentes também estiveram próximos de minha mãe nos últimos momentos. Sou grato por tudo isto. Senti-me distante, mas também muito próximo, e seguramente pensar que todos vós estáveis perto de mim, unidos neste momento, foi de extremo alívio. Agradeço também à Agência Espacial Europeia e à Agência Espacial Americana, que colocaram à disposição os recursos para que eu tenha podido falar com ela nos últimos momentos.

Palavras conclusivas do Papa
Caros astronautas,
Agradeço-vos cordialmente por esta belíssima ocasião de encontro e de diálogo convosco. Vós me haveis ajudado e a tantas outras pessoas a refletirem juntos sobre temas importantes para o futuro da humanidade. Faço os melhores votos pelo vosso trabalho e pelo sucesso da vossa grande missão a serviço da ciência, da colaboração internacional, do progresso autêntico e da paz no mundo. Continuarei a vos seguir com o meu pensamento e a minha oração e, de muito bom grado, vos transmito a minha Bênção Apostólica.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 21 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Cícero: não somos frutos do acaso, mas feitos para olhar o Céu


Por Laura Cioni

Entre os inúmeros argumentos sobre os quais Cícero escreveu em suas obras, um diz respeito à natureza dos deuses, naturalmente polemizando com os epicuristas, tão detestados pela tradição romana de pensar e de agir, da qual ele é um crente convicto. A escola epicurista nega que os deuses, da tranquilidade de sua sua sede, se ocupem dos eventos humanos. Antes, eles nem mesmo contruiram o mundo, que nada mais é que fruto do casual aglomerar-se dos átomos. Contra tal doutrina perigosa para as estruturas culturais e políticas de Roma, Cícero responde com uma obra em três livros, o De natura deorum.
Na parte central do segundo livro, o autor fala da conformação física do homem, enumerando a sabedoria com a qual são distribuídos os órgãos que presidem os sentidos; particularmente, há uma passagem surpreendente que, junto a toda a argumentação a que dá lugar, poderia ter sido elaborada pelos defensores do princípio antrópico, a teoria segundo a qual o universo, na sua totalidade, teria sido construído em função da vida do homem sobre a terra. “Deus levantou o homem da terra e o colocou em posição ereta, de pé, de modo que, contemplando o céu, pudesse ter noção dos deuses. Os homens não são habitantes da terra mas, em certo sentido, são expectadores, a partira da terra, das realidades superiores e celestes, cuja contemplação não se vê em nenhuma outra espécie de seres vivos”.
A afirmação demonstra o quanto os antigos, mesmo os mais pragmáticos como os Romanos, soubessem cruzar o limiar da pura observação das coisas para chegar a seu objetivo: neste caso da posição ereta do homem, Cícero chega à conclusão que ela foi querida para favorecer a busca do princípio. Exatamente ele que dedicou a maior parte da sua atividade ao governo da res publica e que, nos períodos nos quais, por causa das contínuas mudanças políticas de Roma, foi obrigado a recuar para o otium, ou para a pura busca intelectual, ocupou-se, mesmo que em função política, de um tema especulativo de grande interesse para quem queira conhecer o pensamento dos antigos. Falando dos deuses, Cícero fala, na realidade, dos homens e reconhece na sua conformação física a marca dos únicos seres a quem foi dada a tarefa de indagar a realidade celeste: uma concepção alta do homem, que funda toda a atividade intelectual que Roma, depois, transmitiu ao ocidente com o nome de humanitas.
De modo mais poético, um profeta do Antigo Testamento, que viveu no século VIII antes de Cristo, usa expressões semelhantes. Oséias dá voz à repreensão de Javé contra Israel: O meu povo é duro para converter-se: / chamado a olhar para o alto / nenhum sabe levantar o olhar.
São vozes antigas, de milênios, mas o seu chamado de atenção é sempre atual, se se ler de dentro de nossos problemas de modernos. Há muitos séculos o céu é sim lugar da pesquisa, mas se tornou, de certa maneira, mais distante, não apenas porque instrumentos cada vez mais potentes dilataram o espaço da pesquisa; a beleza e a ordem do cosmo convidam raramente a ultrapassar aquilo que se vê, para fixar os olhos da mente sobre as coisas invisíveis. Por isso, frequentemente os modernos se concebem apenas como habitantes da terra e a usam a seu bel prazer, sem a atenção devida àquilo que dá a eles a hospitalidade temporária.
Mas, o homem comum sabe que olhar para o céu é um modo simples para não se sentir sozinho, mesmo que no deserto cheio de gente das metrópoles, é uma ocasião para refletir sobre a vastidão do conhecimento e mais ainda sobre tudo aquilo que existe. Não deveria ser difícil neste ponto formular a pergunta que torna verdadeiramente homens, e que Leopardi soube exprimir tão bem: Por que tanta candeia? / Por que estes ares infinitos, este / Infinito profundo, sereno, esta / Imensa solidão? E eu, que sou eu?
Mesmo se a pergunta ficasse sem resposta, ela já daria a dimensão adequada para a vida do homem. E caso acolhese a resposta – Pai nosso que estais nos céus – a sua dignidade de criatura razoável e livre encontraria o abraço.

* Texto extraído do IlSussidiario.net, do dia 22 de janeiro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Mesmo a maior dor não pode ofuscar o sentido da vida




Por Gianluigi Da Rold

É amável e rigoroso, envolvente e ao mesmo tempo meticuloso. Não são adjetivos de uma circunstância, mas aquilo que nos vem em mente imediatamente depois que se termina de ler Se la vita si rianima [Se a vida se reanima, sem tradução para o português ainda; ndt], livrinho de Giuseppe Baiocchi e Patrizia Fumagalli, com um prefácio de Giancarlo Cesana, editado pela Ares no final de fevereiro desse ano. Baiocchi é um grande profissional, jornalista do Avvenire, por 23 anos do Corriere della Sera e, depois, diretor da La Padania, mas também um historiador da escola de Giorgio Rumi, junto com amigo Walter Tobagi. A mais jovem, Patrizia Fumagalli, é médica especialista em anestesia reanimadora, pessoa que esta em contato constante, portanto, com o sofrimento e com as esperanças de ver um paciente seu se recuperar, para obter o objetivo pelo qual fez o juramente de Hipócrates.
O livro entra com rigor quase científico no debate sobre  a vida e sobre a “morte controlada” e, às vezes, declaradamente solicitada, sobre o significado da vida mesmo em caso de coma profundo ou de retorno daquele estado que parece um outro mistério impenetrável. Insere-se, portanto, num debate bastante atual, que há um tempo ecoa nos meios políticos e se detém também sobre o caso de Eluana Englaro, um dos casos que mais dividiu a Itália nos últimos anos.
Desde o prefácio de Giancarlo Cesana  já se pode perceber algumas passagens lógicas precisas que não se casam com aquela a que se chama eufemisticamente de “eutanásia”. Cesana lembra: “Os hospitais nasceram no início daquilo que chamamos Idade Média (...). Não nasceram porque se sabiam curar as doenças (...). Os hospitais nasceram para hospedar, para acolher e assistir os homens e as mulheres em dificuldade, golpeados pela desventura, nos quais frequentemente doença e miséria eram uma só coisa”.
Se nesta frase há a grande tradição cristã da ajuda, na premissa dos autores nos detemos sobre uma palavra que, de um ponto de vista hospitalar, parece um semantema de maus presságios, “reanimação”: “para a língua italiana, e isso pode ser encontrado em todos os dicionários, é um termo esplêndico – escrevem Baiocchi e Fumagalli – que significa restituição e retomada da vitalidade, de animação, de confiança, de coragem (...). E no entanto, na deterioração da linguagem e na preguiçosa rotina jornalística ou burocrático-sanitária, acabou por se associar quase exclusivametne a um sentido prevalente de perda, de antecâmara do fim, de um templo afastado onde se realizam os ritos mistéricos de uma ciência cada vez menos traduzível para o senso comum”.
Entre estas duas considerações de partida, que lembram a esperança da vida, a luta pela vida, a necessidade de honrar a vida em todos os modos, passando também através do sofrimento e dos mistérios não apenas da medicina moderna como também da natureza humana mesma, da mente e do coração de um pessoa, o relato dos dois autores de Se la vita si rianima fundamenta-se sempre sobre escrupulosas definições científicas, reconstruções de casos a partir de um ponto de vista médico e, ao mesmo tempo, episódios reais de quem voltou do incrível estado neurovegetativo, de quem tinha programado a “sua morte” em caso de graves deformações de caráter físico e, depois, aceitou viver da mesma forma.
Leva-se em consideração também o impacto emocional, psicologico, que revira não apenas o doente, mas toda uma família, alargada para os amigos que estão próximos. Não obstante todo esse complexo de fatores, chega-se ao um núcleo profundo: a vida é uma aventura irrepetível que nos é dada, provavelmente em qualquer condição física que seja. Porque trocar um dom como esse e uma aventura como essa por uma eficiência física?
Assim, desse modo tão motivado, chega-se ao último capítulo, intitulado Eluana, a exceção. Aqui, o relato ilumina uma derrubada da lógica: “(...) na memória coletiva de tantos anos e de tantos casos vividos e experimentados emerge um único caso no qual, praticamente desde o início, manifesta-se a rejeição da pessoa cuidada na reanimação e com deficiência de natureza cerebral: o caso Englaro. A exceção, a única exceção está aqui, na postura da família que se recusa a aceitar a realidade”.
Poderá parecer paradoxal, mas para quem escreve e para quem leu com paixão este livro, parece que o “caso Englaro” seja um “emblemático exemplo dos tempos”, uma “mentalidade que se afirma”, uma “tragédia causada pela uma dor terrível” que, porém, ofusca a realidade. o mal moderno mais insidioso. Ninguém julga. Somente se quer raciocionar segundo uma lógica.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 6 de setembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 6 de julho de 2010

"Assim, deciframos a luz primordial"



Por Marco Bersanelli*

Depois de 18 anos de trabalho e de ansiedade, eis finalmente os primeiros frutos. O satélite Planck da Agência Espacial Europeia completou o primeiro ano de observações a partir de sua órbita a um milhão e meio de quilômetros da Terra, e nos presenteou com uma primeira imagem espetacular do Universo profundo. Algo que nunca havia sido visto.
A imagem representa toda a esfera celeste observada em nove comprimentos de onda que vão de  0,3 mm a 1 cm. Nove cores diferentes, podemos dizer, mas invisíveis aos nossos olhos: estamos no reino das microondas, onde a luminosidade do céu noturno não é dominada pela luz da Lua e das estrelas, mas por uma fraca luz difusa, que provém uniformemente do fundo do céu - aquele fundo que, para os nossos olhos, parece preto. É a luz deixada no Universo há 14 bilhões de anos atrás, nas fases iniciais da expansão cósmica, quando era mil vezes menor e quente do que hoje, e um bilhão de vezes mais denso.
Aquela luz primordial, dita "fundo cósmico de microondas", viajou quase sem ser perturbada desde o início do tempo (para uma precisão, podemos dizer que 99,998% da idade do Universo) e, portanto, nos traz uma imagem do Universo recém-nascido. Nas dobras das suas propriedades estão escondidos tesouros de informação cosmológica e, nas últimas décadas, foi objeto de uma escalada ininterrupta de observações feitas da Terra, a partir de balões estratosféricos e mesmo a partir do espaço. Planck é o experimento seguramente mais potente já concebido no setor. As suas imagens de alta definição prometem lançar nova luz sobre mistérios até agora insolúveis, como o da matéria escura, da energia escura, da geometria do espaço, da formação das galáxias e das estruturas cósmicas. E se tivermos sorte, as características de polarização dos mapas de Planck poderão  revelar a marca de processos acontecidos no primeiro sopro da história cósmica (um centésimo de milésimo de bilionésimo de bilionésimo de bilionésimo de segundo), quando a expansão pode ter sofrido uma dilatação exponencial, a "inflação".
Mas, observemos atentamente a imagem. O fundo da figura, de cor vermelho-alaranjada, representa o fundo cósmico: a primeira luz do Universo. São visíveis leves ondulações, que representam os embriões das galáxias e das outras estruturas em formação. Nunca a luz primordial tinha sido mapeada com tanta precisão: é como ver ao vivo o nosso passado cósmico. A imagem, além do mais, mostra uma vasta nebulosidade branco-violeta que, em parte, ofusca a luz primordial: trata-se de emissões provenientes do Universo "local", principalmente devidas ao gás e à poeira interestelar na nossa galáxia. Ainda que, do ponto de vista cosmológico, estas emissões constituam um incômodo, contêm dados astrofísicos tão preciosos que, sozinhas, justificariam uma missão. A sua presença não é, certamente, uma supresa e Planck foi projetado para separá-las do fundo cósmico com extrema precisão, desfrutando das informações condificadas nos nove diferentes comprimentos de onda revelados por seus instrumentos.
Esta imagem é apenas uma primeira etapa. Mas, é um daqueles pontos nos quais, depois de uma longa marcha de aproximação, se entrevê uma antecipação do panorama que nos espera no cume. E, certamente, não é uma escalada solitária. Atrás desta imagem há uma vida, ou melhor muitas vidas, um mundo feito de trabalho, sacrifícios, tensões, riscos, paixões, amizade. Na equipe internacional o contingente italiano tem um papel de liderança, particularmente com a PI-ship do Low Frequency Instrument (um dos dois instrumentos de Planck), com o auxílio da ASI [Agenzia Spaziale Italiana - Agência Espacial Italiana; ndt] e, sobretudo, graças a uma nova geração de pesquisadores e jovens professores de várias universidades e institutos de pesquisa entre os quais IASF-INAF [Istituto di Astrofisica Spaziale e Fisica Cosmica/Italian National Institute for Astrophysics - Instituto de Astrofísica Espacial e Física Cósmica/Instituto Nacional Italiano para Astrofísicos; ndt] de Bolonha, Università di Milano [Universidade de Milão; ndt], SISSA [Scuola Internazionale Superiore di Studi Avanzati - Escola Internacional Superior de Estudos Avançados; ndt] e Observatório de Trieste, Università La Sapienza [Universidade La Sapienza; ndt] e Roma 2, Observatório e Università di Padova [Universidade de Pádua; ndt]: cientistas de altíssimo nível e que, esperamos, encontrem perspectivas de trabalho também em nosso País.
A análise dos dados prossegue. Os instrumentos de Planck estão funcionando magnificamente bem e continuarão a sondar o céu até o início de 2012. O belo está ainda por vir.

* Marco Bersanelli é professor na Università degli Studi di Milano e Instrument Scientist do Plank-LFI. Texto extraído do jornal La Stampa, do dia 06 de julho de 2010 (pp. 1-2). Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A nossa razão? Pode descobrir o Mistério porque entende o mundo

Por Costantino Esposito

O problema da racionalidade pareceria um daqueles argumentos que não excitam mais um real interesse, visto que todos (ou quase todos) pensam tê-lo, de alguma maneira, definido e resolvido. A quem, no debate cultural e político dos nossos dias, viria ainda em mente a ideia de verificar a razoabilidade de uma posição ou de uma escolha? Ou melhor, todos (ou quase todos) parecem dar como óbvio que a razão de um argumento ou de uma perspectiva consista na sua coerência, de partida, com alguns pressupostos culturais, ideológicos, políticos, científicos, religiosos. Mas o problema da razão raramente é reaberto a partir daqueles mesmos pressupostos, os quais são assumidos como “válidos” em virtude dos “valores” que os sustentam e que eles exprimem.
Mas, dessa forma, a racionalidade acaba por ser identificada com a capacidade de obter consequências eficazes a partir de posições (e de interesses) assumidas, no mais das vezes, de maneira preconceituosa e, portanto, com a nossa habilidade de medir os efeitos a partir das causas ou (re)modelar as causas em relação aos efeitos. Em suma, a racionalidade seria um procedimento de controle das nossas estratégias cognoscitivas e morais, um instrumento nas mãos de sujeitos (individuais mas também públicos, econômicos, políticos, ideológicos etc.), os quais o utilizam segundo os conteúdos e os objetivos que estabelecem para si a cada vez. Basta pensar em como usamos de forma óbvia – isto é, sem verificar a razoabilidade ou o significado essencial – algumas palavras fundamentais nos nossos discursos públicos, tais como nascimento e morte, vida e natureza, direito e justiça, democracia e mercado,  liberalismo e igualdade, e muitas outras.
Mas é exatamente aqui que se evidencia o problema: o sujeito que detém e usa a razão como uma faculdade sua ou um “poder” seu lhe dará também a orientação que ele já antecipadamente decidiu adotar. É a vontade de que quem a usa que decide qual é a natureza da razão, revirando assim toda uma longa e gloriosa história, segundo a qual é, pelo contrário, a natureza “objetiva” da razão que decide sobre a vontade do sujeito, abrindo, diante dele, todo o horizonte da sua pergunta pelo significado e arrastando a trajetória tendencialmente infinita da sua espera por uma resposta adequada.
Com a consequência que, se a razão (como faculdade humana) ou a racionalidade (como característica dos discursos e das ações dos homens) constituem o domínio da capacidade de mensuração e da produtividade das decisões preconceituosas, elas são condenadas a deixar fora de si todo aquilo que chamamos o “sentimental” ou o “emocional”, o “vital”, ou simplesmente “natural”, tidos “obviamente” como irracionais ou, na melhor das hipóteses, como a-racional, no sentido duplo de que excedem as nossas capacidades de controle natural e não têm uma origem e um fim diferentes do mero acontecimento natural.
Mas, há outra consequência relevante nesta perspectiva da razão como procedimento estratégico decidido pelo sujeito, e é que ela se joga inteira na “delimitação” do seu campo. Certamente,  discurso dos limites da razão (Kant docet!) é absolutamente central, exatamente porque compreende de forma realista o alcance da nossa faculdade cognoscitiva, e evita que ela pretenda definir ou agarrar, de forma idolátrica, aquilo que ultrapassa seus poderes. Mas esta cautela realística, no fim, foi tornada no seu exato contrário, ou seja na convicção de que exista razoavelmente, isto é verdadeiramente, somente aquilo que consegue entrar nos esquemas a priori da nossa mente, enquanto que aquilo que os supera, mesmo que exista, não poderá nunca ser objeto de um conhecimento ou de uma escolha racional.
O problema que se acredita que foi resolvido foi, na realidade, apenas evitado: quando reconheço que a realidade me supera, que o mundo é sempre maior do que os meus esquemas mentais, que os fatores em jogo são sempre mais numerosos do que eu sou capaz de contar, que o ser tem um sentido tendencialmente infinito, realizo um ato racional ou irracional? A razão funciona apenas quando mede e predetermina o mundo, ou também age quando descobre a existência do “mistério”? E vice-versa: esta realidade misteriosa é apenas aquilo que, por definição, escapa da razão humana (pelo menos por enquanto!), ou pode se tornar, enquanto tal, o objeto de um olhar racional que reconheça o outro de si?
Exatamente por isso, é preciso reabrir – desafiando a aparência de ingenuidade ou o veredicto de impossibilidade – a questão da razão. Não se trata, todavia, de perseguir um conceito unívoco de racionalidade, no qual se possa homologar a multiplicidade de perspectivas e a pluralidade dos métodos com os quais, a cada vez, a razão se aplica nos diversos campos do saber e do agir. Porém, não se trata também de repetir o velho auspício de uma integração entre racionalidade “instrumental” da tecno-ciência e a razão “meditativa” da filosofia ou da poesia. Muito mais do que isso, se trata de verificar se pode existir uma “natureza” ou uma “constituição” da razão humana que permita a suas múltiplas e diversificadas aplicações; e também verificar se tais aplicações exaurem, em si mesmas, a função da racionalidade ou necessitam – exatamente para poderem funcionar – um horizonte maior de referência.
A hipótese que pretendo verificar é a seguinte: a razão se apresenta como a experiência de um relacionamento, como um espaço de abertura do sujeito humano (uma abertura que tem o nome de “eu”) no qual a realidade emerge como um “dado”. Antes de todo o subjetivismo e antes de todo objetivismo, os “dois” – o eu e a realidade – não apenas entram em relação entre si, como também eles mesmos são um relacionamento. Deste ponto de vista, cada um de nossos limites, a inevitável delimitação no uso da nossa razão, pode ser entendido também como um confim, uma soleira ou um lugar de abertura a uma “razão” (ou logos) maior da nossa mesma faculdade. A razão é, portanto, uma faculdade cognoscitiva e valorativa, mas também – e indissociavelmente – é um princípio de inteligibilidade, ou seja, é um sentido do mundo, diria quase uma dimensão constitutiva do real.
Tentarei documentar esta hipótese através de quatro casos que, no meu entender, são emblemáticos. Trata-se de “figuras” nas quais está em ação uma verdadeira e própria experiência de pensamento, e que podemos reter deliciosamente como “filosóficas”, ainda que não se trate de filósofos profissionais, mas de individualidades criativas que buscam dar-se conta e comunicar a razoabilidade do seu relacionamento com o ser.
O primeiro caso é o do pintor Paul Cézanne, que, trabalhando sobre nossa capacidade de “perceber” visivelmente a natureza (e de torná-la, assim, uma pintura), chega à descoberta de que o nosso olhar, a nossa visão mesma da realidade que nos circunda, constitui o modo primário no qual a realidade chega à sua mais própria “realização”. Não porque a reduzamos ao nosso modo de ver, mas porque, pelo contrário, o nosso ver coincide com o modo mais próprio de dar-se ao mundo.
O segundo caso é o do poeta e escritor Thomas S. Eliot, e diz respeito àquela estranha “modificação” da história que acontece a cada vez que é criada uma nova obra literária, graças à qual toda a tradição precedente não apenas cresce, continua ou é interrompida, mas também é completamente reformulada. O que acontece com a criação de uma nova obra de arte acontece “contemporaneamente” a todas as obras do passado, e o sentido histórico se realiza exatamente na medida em que se descobre que o passado não “é” apenas passado, mas “é” também presente.
O terceiro caso é o do compositor Igor Stravinski, com a sua teoria da música como o único domínio no qual o homem “realiza” o seu presente, visto que, enquanto em todas as suas outras expressões e atividades, ele é obrigado a sofrer o passar irrevogável do tempo, na experiência musical ele o torna, pelo contrário, “real” e “estável”, na medida em que é capaz de colher e de “construir” a ordem do presente.
O quarto caso, finalmente, é o do físico Erwin Schrödinger, com as suas reflexões sobre o relacionamento entre os objetos da natureza, conhecidos através da pesquisa científica, e a consciência do eu, isto é do autor de todo o complexo de representações que formam a cena da ciência. Enquanto, de fato, esta última tem progressivamente “objetivado” o mundo, ela se revela sempre mais incapaz de conhecer o “sujeito” de tal objetivação. E assim o eu fica como um ponto de fuga, sem o qual toda a ciência não seria possível, mas que a ciência mesma não poderá nunca reduzir totalmente às suas explicações.
Este é, portanto, o enigma fascinante da racionalidade humana: algo totalmente “nosso”, que, porém, nunca poderemos reduzir a nós mesmos. 

* Extraído de IlSussidiario.net, do dia 25 de junho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Audiência Geral - Santo Tomás de Aquino (2)

Papa Bento XVI

Praça São Pedro
Quarta-feira, 16 de junho de 2010 

Santo Tomás de Aquino

Caros irmãos e irmãs,
Hoje, gostaria de continuar a apresentação de Santo Tomás de Aquino, um teólogo de tamanho valor que o estudo do seu pensamento foi explicitamente recomendado pelo Concílio Vaticano II em dois documentos, o decreto Optatam totius, sobre a formação para o sacerdócio, e a declaração Gravissimum educationis, que trata da educação cristã. De resto, já em 1880 o Papa Leão XIII, seu grande estimador e promotor dos estudos tomistas, quis declarar Santo Tomás Patrono das Escolas e das Universidades Católicas.
O principal motivo dessa apreciação reside não apenas no conteúdo do seu ensinamento, mas também no método adotado por ele, sobretudo a sua nova síntese e distinção entre filosofia e teologia. Os Padres da Igreja se encontravam confrontados com diversas filosofias de tipo platônico, nas quais se apresentava uma visão completa do mundo e da vida, incluindo a questão de Deus e da religião. No confronto com estas filosofias, eles mesmos tinham elaborado uma visão completa da realidade, partindo da fé e usando elementos do platonismo, para responder às questões essenciais dos homens. Esta visão, baseada na revelação bíblica e elaborada com um platonismo corrigido à luz da fé, era por eles chamada a “nossa filosofia”. A palavra “filosofia” não era, portanto, expressão de um sistema puramente racional e, como tal, distinto da fé, mas indicava uma visão complexa da realidade, construída na luz da fé, mas feita e pensada pela razão; uma visão que, certamente, ia além das capacidades próprias da razão, mas que, como tal, era também satisfatória para ela. Para Santo Tomás, o encontro com a filosofia pré-cristã de Aristóteles (que morreu por volta do ano 322 a.C.) abria uma perspectiva nova. A filosofia aristotélica era, obviamente, uma filosofia elaborada sem o conhecimento do Antigo e do Novo Testamento, uma explicação do mundo sem revelação, apenas a partir da razão. E esta racionalidade consequente era convincente. Assim, a velha forma da “nossa filosofia” dos Padres não funcionava mais. A relação entre filosofia e teologia, entre fé e razão, devia ser repensada. Existia uma “filosofia” completa e convincente em si mesma, uma racionalidade que precedia a fé, e depois a “teologia”, um pensar com a fé e na fé. A questão urgente era essa: o mundo da racionalidade, a filosofia pensada sem Cristo, e o mundo da fé são compatíveis? Ou se excluem? Não faltavam elementos que afirmavam a incompatibilidade entre os dois mundos, mas Santo Tomás estava firmemente convencido da sua compatibilidade – mais do que isso, estava convencido de que a filosofia elaborada sem o conhecimento de Cristo praticamente era como se esperasse a luz de Jesus para ser completa. Esta foi a grande “surpresa” de Santo Tomás, que determinou o seu caminho de pensador. Mostrar esta independência entre filosofia e teologia e, ao mesmo tempo, a sua recíproca relação foi a missão histórica do grande mestre. E assim se entende que, no século XIX, quando se declarava fortemente a incompatibilidade entre razão moderna e fé, Papa Leão XIII indicou Santo Tomás como guia no diálogo entre um e outra. No seu trabalho teológico, Santo Tomás supõe e concretiza esta relação. A fé consolida, integra e ilumina o patrimônio de verdade que a razão humana adquire. A confiabilidade que Santo Tomás acorda a estes dois instrumentos de conhecimento – a fé e a razão – pode ser reconduzida à convicção de que ambas provêm da única fonte de toda verdade, o Logos divino, que age tanto no âmbito da criação como no âmbito da redenção.
Junto com o acordo entre razão e fé, deve-se reconhecer, de outro lado, que elas implicam procedimentos cognoscitivos diferentes. A razão acolhe uma verdade por força de sua evidência intrínseca, mediata ou imediata; a fé, por sua vez, aceita uma verdade exclusivamente pela autoridade da Palavra de Deus que se revela. Santo Tomás, no princípio da Summa Theologiae, escreve: “A ordem das ciências é dupla; algumas procedem a partir de princípios conhecidos, através da luz natural da razão, como  matemática, a geometria e outras semelhantes; outras procedem a partir de princípios conhecidos através de uma ciência superior: como a perspectiva procede dos princípios conhecidos através da geometria e a música dos princípios conhecidos através da matemática. Deste modo, a sagrada doutrina (isto é, a Teologia) é ciência porque procede dos princípios conhecidos através da luz de uma ciência superior, isto é, da ciência de Deus e dos santos” (I, q. 1, a. 2).
Esta distinção assegura a autonomia tanto das ciências humanas, quanto das ciências teológicas. Isso, porém, não equivale a uma separação, mas implica muito mais uma recíproca e vantajosa colaboração. A fé, de fato, protege a razão de toda tentação de desconfiança nas próprias capacidades, a estimula a se abrir a horizontes sempre mais vastos, mantém viva nela a busca pelos fundamentos e, quando a razão mesma se aplica à esfera sobrenatural da relação entre Deus e o homem, enriquece o seu trabalho. Segundo Santo Tomás, por exemplo, a razão humana pode, sem dúvida alguma, chegar a afirmar a existência de um único Deus, mas apenas a fé, que acolhe a Revelação divina, é capaz de atingir o mistério do Amor de Deus Uno e Trino.
De outro lado, não é apenas a fé que ajuda a razão. Também a razão, com seus meios, pode fazer algo de importante para a fé, servindo a ela de três formas diferentes, conforme Santo Tomás resume no proêmio do seu comentário ao De Trinitate de Boécio: “Demonstrar os fundamentos da fé; explicar, através de similaridades, as verdades da fé; afastar as objeções que se levantam contra a fé” (q. 2, a. 2). Toda a história da teologia é, no fundo, o exercício deste empenho da inteligência, que mostra a inteligibilidade da fé, a sua articulação e harmonia interna, a sua razoabilidade e a sua capacidade de promover o bem do homem. A correção dos raciocínios teológicos e o seu significado cognoscitivo real se fundamentam no valor da linguagem teológica, que é, segundo Santo Tomás, principalmente uma linguagem analógica. A distância entre Deus, o Criador, e o ser das suas criaturas é infinita; a dessemelhança é sempre maior do que a semelhança (cf. DS 806). Não obstante isso, em toda a diferença entre Criador e criatura existe uma analogia entre o ser criado e ser do Criador que nos permite falar sobre Deus com palavras humanas.
Santo Tomás fundou a doutrina da analogia, mais do que em argumentações extravagantemente filosóficas, também no fato que, com a Revelação, Deus mesmo nos falou e nos autorizou, portanto, a falar dEle. Acredito que seja importante chamar a atenção sobre esta doutrina. Ela, de fato, nos ajuda a superar algumas objeções do ateísmo contemporâneo, que nega que a linguagem religiosa tenha significado objetivo, e sustenta, pelo contrário, que tenha apenas um valor subjetivo ou simplesmente emotivo. Esta objeção nasce do fato de o pensamento positivista estar convencido de que o homem não conhece o ser, mas apenas as funções experimentáveis da realidade. Com Santo Tomás e com a grande tradição filosófica estamos convencidos de que, na realidade, o homem não conhece apenas as funções, objeto das ciências naturais, mas conhece algo do ser mesmo – por exemplo, conhece a pessoa, o Tu do outro, e não apenas o aspecto físico e biológico do ser.
À luz deste ensinamento de Santo Tomás, a teologia afirma que, ainda que limitada, a linguagem religiosa é dotada de sentido – porque tocamos o ser –, como uma flecha que se dirige para a realidade que significa. Este acordo fundamental entre razão humana e fé cristã é reconhecido também em outro princípio basilar do pensamento do Aquinate: a Graça divina não anula, mas supõe e aperfeiçoa a natureza humana. Esta última, de fato, mesmo depois do pecado, não é completamente corrupta, mas ferida e enfraquecida. A Graça, outorgada por Deus e comunicada através do Mistério do Verbo encarnado, é um dom absolutamente gratuito com o qual a natureza é curada, potencializada e ajudada a perseguir o desejo inato no coração de cada homem e mulher: a felicidade. Todas as faculdades do ser humano são purificadas, transformadas e elevadas pela Graça divina.
Uma importante aplicação desta relação entre a natureza e a Graça se reconhece na teologia moral de Santo Tomás de Aquino, que é bastante atual. No centro do seu ensinamento a este respeito ele coloca a lei nova, que é a lei do Espírito Santo. Com um olhar profundamente evangélico, insiste sobre o fato de que esta lei é a Graça do Espírito Santo dada a todos aqueles que acreditam em Cristo. A tal Graça se une o ensinamento escrito e oral das verdades doutrinais e morais, transmitido pela Igreja. Santo Tomás, sublinhando o papel fundamental, na vida moral, da ação do Espírito Santo, da Graça, de onde brotam as virtudes teologais e morais, ajuda a compreender que todo cristão pode atingir as altas perspectivas do “Sermão da Montanha” na medida em que vive um relacionamento de fé autêntico em Cristo, se se abre à ação do seu Santo Espírito. Porém – acrescenta o Aquinate –, “mesmo que a graça seja mais eficaz do que a natureza, todavia a natureza é mais essencial para o homem” (Summa Theologiae, Ia, 1. 29, a. 3), de forma que, na perspectiva moral cristã, há um lugar para a razão que é capaz de discernir a lei moral natural. A razão pode reconhecê-la considerando o que é bem agir e o que é bem evitar para conseguir aquela felicidade que está cada um deseja, e que impõe também uma responsabilidade pelos outros, e, portanto, a busca do bem comum. Em outras palavras, as virtudes do homem, teologais e morais, estão radicadas na natureza humana. A Graça divina acompanha, sustenta e impulsiona o empenho ético mas, por si só, segundo Santo Tomás, todos os homens, crentes e não crentes, são chamados a reconhecer as exigências da natureza humana expressas na lei natural e a inspirar-se nela na formulação das leis positivas, isto é, aquelas emanadas das autoridades civis e políticas para regular a convivência humana.
Quando a lei natural e a responsabilidade que ela implica são negadas, abre-se dramaticamente o caminho ao relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo do Estado no plano político. A defesa dos direitos universais do homem e a afirmação do valor absoluto da dignidade da pessoa postulam um fundamento. Este fundamento não seria exatamente a lei natural, com os valores não negociáveis que ela indica? O Venerável João Paulo II escrevia, na sua encíclica Evangelium vitae, palavras que ainda são de grande atualidade: “Urge, portanto, para o futuro da sociedade e para o desenvolvimento de uma democracia saudável, redescobrir a existência dos valores humanos e morais essenciais e nativos, que brotam da verdade mesma do ser humano, e exprimem e tutelam a dignidade da pessoa: valores, portanto, que nenhum indivíduo, nenhuma maioria e nenhum Estado nunca poderão criar, modificar ou destruir, mas deverão apenas reconhecer, respeitar e promover” (n. 71).
Para concluir, Tomás nos propõe um conceito da razão humana largo e confiante: largo porque não é limitado aos espaços da dita razão empírico-científica, mas aberto a todo o ser e, portanto, também às questões fundamentais e irrenunciáveis do viver humano; e confiante porque a razão humana, sobretudo se acolhe as inspirações da fé cristã, é promotora de uma civilização que reconhece a dignidade da pessoa, a inviolabilidade dos seus direitos e a obrigatoriedade dos seus deveres. Não surpreende que a doutrina sobre a dignidade da pessoa, fundamental para o reconhecimento da intangibilidade dos direitos do homem, tenha amadurecido em ambientes de pensamento que acolheram a herança de Santo Tomás de Aquino, que tinha a criatura humana em elevada estima. Ele a definiu, com a sua linguagem rigorosamente filosófica, como “aquilo que de mais perfeito se encontra em toda a natureza, isto é, um sujeito subsistente em uma natureza racional” (Summa Theologiae, Ia, q. 29, a. 3).
A profundidade do pensamento de Santo Tomás de Aquino emana – não nos esqueçamos disso nunca – da sua fé viva e da sua piedade fervorosa, que exprimia em orações inspiradas, como esta na qual pede a Deus: “Concede-me, te peço, uma vontade que te busque, uma sabedoria que te encontre, uma vida que te agrade, uma perseverança que te espere com confiança e uma confiança que, no fim, chegue a te possuir”.

* Extraído do Site do Vaticano. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco. 

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Por que o ser ao invés do nada?


Por Lorenzo Albacete

Em qual jornal do establishment americano se esperaria encontrar um editorial oficial (portanto, não assinado) intitulado “O Ser de Ser”? Francamente, não me vem em mente nenhum nome. Não é à toa que eu tenha ficado tão surpreso quando encontrei um editorial deste gênero no The New York Times de alguns dias atrás (no dia 21 de maio).
Era realmente surpreendente que o Times estivesse pronto a revelar os pressupostos filosóficos que sustentam a escolha das notícias que os seus redatores consideram “adaptadas ao jornal” (como declara o mote do Times) e o modo com o qual devem ser tratadas.
O editorial começa com esta pergunta: “Por que o ser ao invés do nada?”. Obviamente, esta é a famosa pergunta de Martin Heidegger, tomada de empréstimo de Leibniz, e discutida por ele na famosa conferência sobre “O que é a Metafísica?”. Filósofos de todas as escolas de pensamento trataram da mesma questão, antes e depois de Heidegger. A resposta dada por Heidegger foi criticada, apreciada, rejeitada ou ampliada; a sua formulação foi modificada, porém a maior parte dos filósofos reconheceu que esta é a questão fundamental da filosofia ocidental.
Porém, segundo os redatores do Times, a discussão filosófica sobre a questão foi um perda de tempo, porque são os físicos e os matemáticos que a podem tratar melhor. Isto é o que eles sabem: “A matéria e a antimatéria criadas no Big Bang poderiam ter se cancelado, deixando lugar ao nada, ao invés de algo a que damos o nome de universo. Por que isso não aconteceu pode ser, em parte, explicado pelo que emergiu de um recente experimento realizado com o Tevatron, um acelerador de partículas, no Fermilab de Batávia, Illinois”.
Aparentemente, tudo se fundamenta em um “desvio muito pequeno”, “uma assimetria no comportamento de uma partícula subatômica neutra, o B-meson. Na oscilação entre os seus estados de matéria e antimatéria, ela mostra uma diminuta predileção pelo estado de matéria, um resultado previsto por Andrei Sakharov”.
Bem, fiquei muito contente por esta predileção do B-meson, da qual também compartilho. A única diferença é que a preferência do B-meson pela sobrevivência como matéria parece muito pequena, cerca de 1,1%, enquanto que a minha é de 100%! Os cientistas, todavia, creem que esta predileção de 1,1%, quase um curioso capricho, possa ser suficiente para explicar a preponderância da matéria. Os pesquisadores esperam descobrir mais sobre a questão a partir do Tevatron e do seu parente europeu, o Large Hadron Collider.
Quais são, então, as consequências antropológicas da pequena preferência do B-meson pela existência material? O que é o homem, segundo a interpretação que o The New York Times dá do significado destes experimentos?
Simplesmente isso: “Somos, como sabemos, feitos de poeira estelar e de outros elementos que se formaram a partir do Big Bang e das sucessivas criações e destruições de estrelas. A existência mesma do que, no universo, chamamos matéria pode depender de um pequeno desvio na variação frenética de uma partícula, que só se revela em um instante, em meio a um calor nunca criado pelo homem”.
Este juízo não é, seguramente, surpreendente, visto ser o resultado da perigosa redução da humanidade apenas àquilo que pode ser observado, descrito e reproduzido de modo empírico. Os físicos estão preocupados com as implicações desta redução há muito tempo. Lembro da conversa entre Werner Heisenberg e outros físicos importantes, “pais” da mecânica quântica.
A conclusão de Heisenberg é que, quando se apaga totalmente a “bússola magnética” que devemos seguir na busca do nosso caminho através da vida (na fidelidade àquela “ordem central” que define a racionalidade do universo), “coisas terríveis podem acontecer, que superam de longe os campos de concentração e a bomba atômica”. O editorial do Times reduz esta “ordem central” ao comportamento irracional, observável experimentalmente, de uma partícula elementar.
Segundo a perspectiva da fé católica, há nesse editorial uma observação que sugere o caminho a seguir, ainda que o redator não se tenha dado conta. É o comentário de que a pergunta de Heidegger é a pergunta de uma criança. De fato, é apenas através da simplicidade e da admiração de uma criança que podemos experimentar aquela ordem central chamada pelo Evangelista João de o “Logos”, que, depois, se tornou uma criança humana.

* Extraído de IlSussidiario.net, do dia 26 de maio de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Encontro com o mundo da cultura

Discurso do Papa Bento XVI

Centro Cultural de Belém - Lisboa
Quarta-feira, 12 de maio de 2010

Venerados Irmãos no Episcopado,
Distintas Autoridades,
Ilustres Cultores do Pensamento, da Ciência e da Arte,
Queridos amigos,
Sinto grande alegria em ver aqui reunido o conjunto multiforme da cultura portuguesa, que vós tão dignamente representais: mulheres e homens empenhados na pesquisa e edificação dos vários saberes. A todos testemunho a mais alta amizade e consideração, reconhecendo a importância do que fazem e do que são. Às prioridades nacionais do mundo da cultura, com benemérito incentivo das mesmas, pensa o Governo, aqui representado pela Senhora Ministra da Cultura, para quem vai a minha deferente e grata saudação. Obrigado a quantos tornaram possível este nosso encontro, nomeadamente à Comissão Episcopal da Cultura com o seu Presidente, Dom Manuel Clemente, a quem agradeço as expressões de cordial acolhimento e a apresentação da realidade polifônica da cultura portuguesa, aqui representada por alguns dos seus melhores protagonistas, de cujos sentimentos e expectativas se fez porta-voz o cineasta Manoel de Oliveira, de veneranda idade e carreira, a quem saúdo com admiração e afeto juntamente com vivo reconhecimento pelas palavras que me dirigiu, deixando transparecer ânsias e disposições da alma portuguesa no meio das turbulências da sociedade atual.
De fato, a cultura reflete hoje uma "tensão", que por vezes toma formas de "conflito", entre o presente e a tradição. A dinâmica da sociedade absolutiza o presente, isolando-o do patrimônio cultural do passado e sem a intenção de delinear um futuro. Mas uma tal valorização do "presente" como fonte inspiradora do sentido da vida, individual e em sociedade, confronta-se com a forte tradição cultural do povo português, muito marcada pela milenária influência do cristianismo, com um sentido de responsabilidade global, afirmada na aventura dos Descobrimentos e no entusiasmo missionário, partilhando o dom da fé com outros povos. O ideal cristão da universalidade e da fraternidade inspiravam esta aventura comum, embora a influência do iluminismo e do laicismo se tivesse feito sentir também. A referida tradição originou aquilo a que podemos chamar uma "sabedoria", isto é, um sentido da vida e da história, de que fazia parte um universo ético e um "ideal" a cumprir por Portugal, que sempre procurou relacionar-se com o resto do mundo.
A Igreja aparece como a grande defensora de uma sã e alta tradição, cujo rico contributo coloca ao serviço da sociedade; esta continua a respeitar e a apreciar o seu serviço ao bem comum, mas afasta-se da referida "sabedoria" que faz parte do seu patrimônio. Este "conflito" entre a tradição e o presente exprime-se na crise da verdade, pois só esta pode orientar e traçar o rumo de uma existência realizada, como indivíduo e como povo. De fato, um povo, que deixa de saber qual é a sua verdade, fica perdido nos labirintos do tempo e da história, sem valores claramente definidos, sem objetivos grandiosos claramente enunciados. Prezados amigos, há toda uma aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo, levando a sociedade a perceber que, proclamando a verdade, é um serviço que a Igreja presta à sociedade, abrindo horizontes novos de futuro, de grandeza e dignidade. Com efeito, a Igreja "tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do ser humano, da sua dignidade, da sua vocação. [...] A fidelidade à pessoa humana exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade de um desenvolvimento humano integral. É por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade é irrenunciável" (Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 9). Para uma sociedade composta na sua maioria por católicos e cuja cultura foi profundamente marcada pelo cristianismo, é dramático tentar encontrar a verdade sem ser em Jesus Cristo. Para nós, cristãos, a Verdade é divina; é o "Logos" eterno, que ganhou expressão humana em Jesus Cristo, que pôde afirmar com objetividade: "Eu sou a verdade" (Jo 14, 6). A convivência da Igreja, na sua adesão firme ao caráter perene da verdade, com o respeito por outras "verdades" ou com a verdade dos outros é uma aprendizagem que a própria Igreja está a fazer. Nesse respeito dialogante, podem abrir-se novas portas para a comunicação da verdade.
"A Igreja – escrevia o Papa Paulo VI – deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, a Igreja torna-se mensagem, a Igreja faz-se diálogo" (Enc. Ecclesiam suam, 67). De fato, o diálogo sem ambiguidades e respeitoso das partes nele envolvidas é hoje uma prioridade no mundo, à qual a Igreja não se subtrai. Disso mesmo dá testemunho a presença da Santa Sé em diversos organismos internacionais, nomeadamente no Centro Norte-Sul do Conselho da Europa instituído há 20 anos aqui em Lisboa, tendo como pedra angular o diálogo intercultural a fim de promover a cooperação entre a Europa, o Sul do Mediterrâneo e a África e construir uma cidadania mundial fundada sobre os direitos humanos e as responsabilidades dos cidadãos, independentemente da própria origem étnica e adesão política, e respeitadora das crenças religiosas. Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza.
Esta é uma hora que reclama o melhor das nossas forças, audácia profética, capacidade renovada de "novos mundos ao mundo ir mostrando", como diria o vosso Poeta nacional (Luís de Camões, Os Lusíadas, II, 45). Vós, obreiros da cultura em todas as suas formas, fazedores do pensamento e da opinião, "tendes, graças ao vosso talento, a possibilidade de falar ao coração da humanidade, de tocar a sensibilidade individual e coletiva, de suscitar sonhos e esperanças, de ampliar os horizontes do conhecimento e do empenho humano. [...] E não tenhais medo de vos confrontar com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes, com quem, como vós, se sente peregrino no mundo e na história rumo à Beleza infinita" (Discurso no encontro com os Artistas, 21/XI/2009).
Foi para "pôr o mundo moderno em contato com as energias vivificadoras e perenes do Evangelho" (João XXIII, Const. ap. Humanae salutis, 3) que se fez o Concílio Vaticano II, no qual a Igreja, a partir de uma renovada consciência da tradição católica, assume e discerne, transfigura e transcende as críticas que estão na base das forças que caracterizaram a modernidade, ou seja, a Reforma e o Iluminismo. Assim a Igreja acolhia e recriava por si mesma, o melhor das instâncias da modernidade, por um lado, superando-as e, por outro, evitando os seus erros e becos sem saída. O evento conciliar colocou as premissas de uma autêntica renovação católica e de uma nova civilização – a "civilização do amor" - como serviço evangélico ao homem e à sociedade.
Caros amigos, a Igreja sente como sua missão prioritária, na cultura atual, manter desperta a busca da verdade e, consequentemente, de Deus; levar as pessoas a olharem para além das coisas penúltimas e porem-se à procura das últimas. Convido-vos a aprofundar o conhecimento de Deus tal como Ele Se revelou em Jesus Cristo para a nossa total realização. Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza. Interceda por vós Santa Maria de Belém, venerada há séculos pelos navegadores do oceano e hoje pelos navegantes do Bem, da Verdade e da Beleza.