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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Comentário ao Evangelho do dia - Tríduo Pascal


Sexta-feira da Paixão do Senhor
     
1ª Leitura - Is 52,13 - 53,12
Ei-lo, o meu Servo será bem sucedido; Sua ascensão será ao mais alto grau. Assim como muitos ficaram pasmados ao vê-Lo - tão desfigurado Ele estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano -, do mesmo modo Ele espalhará sua fama entre os povos. Diante dEle os reis se manterão em silêncio, vendo algo que nunca lhes foi narrado e conhecendo coisas que jamais ouviram. "Quem de nós deu crédito ao que ouvimos? E a quem foi dado reconhecer a força do Senhor? Diante do Senhor Ele cresceu como renovo de planta ou como raiz em terra seca. Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por Ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso dEle. A verdade é que Ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, Ele mesmo, nossas dores; e nós pensávamos fosse um chagado, golpeado por Deus e humilhado! Mas ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes; a punição a Ele imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas, o preço da nossa cura. Todos nós vagávamos como ovelhas desgarradas, cada qual seguindo seu caminho; e o Senhor fez recair sobre ele o pecado de todos nós". Foi maltratado, e submeteu-Se, não abriu a boca; como cordeiro levado ao matadouro ou como ovelha diante dos que a tosquiam, Ele não abriu a boca. Foi atormentado pela angústia e foi condenado. Quem se preocuparia com Sua história de origem? Ele foi eliminado do mundo dos vivos; e por causa do pecado do meu povo foi golpeado até morrer. Deram-Lhe sepultura entre ímpios, um túmulo entre os ricos, porque Ele não praticou o mal nem se encontrou falsidade em Suas palavras. O Senhor quis macerá-Lo com sofrimentos. Oferecendo Sua vida em expiação, Ele terá descendência duradoura, e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor. Por esta vida de sofrimento, alcançará luz e uma ciência perfeita. Meu Servo, o justo, fará justos inúmeros homens, carregando sobre Si suas culpas. Por isso, compartilharei com Ele multidões e Ele repartirá Suas riquezas com os valentes seguidores, pois entregou o corpo à morte, sendo contado como um malfeitor; Ele, na verdade, resgatava o pecado de todos e intercedia em favor dos pecadores.

Salmo - Sl 30
R. Ó Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito.

Senhor, eu ponho em vós minha esperança;*
que eu não fique envergonhado eternamente!
Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito,*
porque vós me salvareis, ó Deus fiel! R.

Tornei-me o opróbrio do inimigo,*
o desprezo e zombaria dos vizinhos,
e objeto de pavor para os amigos;*
fogem de mim os que me veem pela rua.
Os corações me esqueceram como um morto,*
e tornei-me como um vaso espedaçado. R.

A Vós, porém, ó meu Senhor, eu me confio,*
e afirmo que só Vós sois o meu Deus!
Eu entrego em Vossas mãos o meu destino;*
libertai-me do inimigo e do opressor! R.

Mostrai serena a Vossa face ao Vosso servo,*
e salvai-me pela Vossa compaixão!
Fortalecei os corações, tende coragem,*
todos vós que ao Senhor vos confiais! R

2ª Leitura - Hb 4,14-16; 5,7-9
Irmãos, temos um sumo sacerdote eminente, que entrou no céu, Jesus, o Filho de Deus. Por isso, permaneçamos firmes na fé que professamos. Com efeito, temos um sumo sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois Ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado. Aproximemo-nos então, com toda a confiança, do trono da graça, para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de um auxílio no momento oportuno. Cristo, nos dias de Sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, Àquele que era capaz de salvá-Lo da morte. E foi atendido, por causa de Sua entrega a Deus. Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que Ele sofreu. Mas, na consumação de Sua vida, tornou-Se causa de salvação eterna para todos os que Lhe obedecem.

Evangelho - Jo 18,1-19,42
Naquele tempo, Jesus saiu com os discípulos para o outro lado da torrente do Cedron. Havia aí um jardim, onde Ele entrou com os discípulos. Também Judas, o traidor, conhecia o lugar, porque Jesus costumava reunir-Se aí com os Seus discípulos. Judas levou consigo um destacamento de soldados e alguns guardas dos sumos sacerdotes e fariseus, e chegou ali com lanternas, tochas e armas. Então Jesus, consciente de tudo o que ia acontecer, saiu ao encontro deles e disse: "A quem procurais?". Responderam: "A Jesus, o nazareno". Ele disse: "Sou eu". Judas, o traidor, estava junto com eles. Quando Jesus disse: "Sou eu", eles recuaram e caíram por terra. De novo lhes perguntou: "A quem procurais?". Eles responderam: "A Jesus, o nazareno". Jesus respondeu: "Já vos disse que sou eu. Se é a mim que procurais, então deixai que estes se retirem". Assim se realizava a palavra que Jesus tinha dito: "Não perdi nenhum daqueles que me confiaste". Simão Pedro, que trazia uma espada consigo, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O nome do servo era Malco. Então Jesus disse a Pedro: "Guarda a tua espada na bainha. Não vou beber o cálice que o Pai me deu?". Então, os soldados, o comandante e os guardas dos judeus prenderam Jesus e O amarraram. Conduziram-nO primeiro a Anás, que era o sogro de Caifás, o sumo sacerdote naquele ano. Foi Caifás que deu aos judeus o conselho: "É preferível que um só morra pelo povo". Simão Pedro e um outro discípulo seguiam Jesus. Esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio do sumo sacerdote. Pedro ficou fora, perto da porta. Então o outro discípulo, que era conhecido do sumo sacerdote, saiu, conversou com a encarregada da porta e levou Pedro para dentro. A criada que guardava a porta disse a Pedro: "Não pertences também tu aos discípulos desse homem?". Ele respondeu: "Não". Os empregados e os guardas fizeram uma fogueira e estavam-se aquecendo, pois fazia frio. Pedro ficou com eles, aquecendo-se. Entretanto, o sumo sacerdote interrogou Jesus a respeito de seus discípulos e de seu ensinamento. Jesus lhe respondeu: "Eu falei às claras ao mundo. Ensinei sempre na sinagoga e no Templo, onde todos os judeus se reúnem. Nada falei às escondidas. Por que me interrogas? Pergunta aos que ouviram o que  falei; eles sabem o que eu disse". Quando Jesus falou isso, um dos guardas que ali estava deu-lhe uma bofetada, dizendo: "É assim que respondes ao sumo sacerdote?". Respondeu-lhe Jesus: "Se respondi mal, mostra em quê; mas, se falei bem, por que me bates?". Então, Anás enviou Jesus amarrado para Caifás, o sumo sacerdote. Simão Pedro continuava lá, em pé, aquecendo-se. Disseram-lhe: "Não és tu, também, um dos discípulos dele?". Pedro negou: "Não!". Então um dos empregados do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro tinha cortado a orelha, disse: "Será que não te vi no jardim com ele?". Novamente Pedro negou. E na mesma hora, o galo cantou. De Caifás, levaram Jesus ao palácio do governador. Era de manhã cedo. Eles mesmos não entraram no palácio, para não ficarem impuros e poderem comer a páscoa. Então Pilatos saiu ao encontro deles e disse: "Que acusação apresentais contra este homem?". Eles responderam: "Se não fosse malfeitor, não o teríamos entregue a ti!". Pilatos disse: "Tomai-o vós mesmos e julgai-o de acordo com a vossa lei". Os judeus lhe responderam: "Nós não podemos condenar ninguém à morte". Assim se realizava o que Jesus tinha dito, significando de que morte havia de morrer. Então Pilatos entrou de novo no palácio, chamou Jesus e perguntou-lhe: "Tu és o rei dos judeus?". Jesus respondeu: "Estás dizendo isto por ti mesmo, ou outros te disseram isto de mim?". Pilatos falou: "Por acaso, sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?". Jesus respondeu: "O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui". Pilatos disse a Jesus: "Então tu és rei?". Jesus respondeu: "Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz". Pilatos disse a Jesus: "O que é a verdade?". Ao dizer isso, Pilatos saiu ao encontro dos judeus, e disse-lhes: "Eu não encontro nenhuma culpa nele. Mas existe entre vós um costume, que pela Páscoa eu vos solte um preso. Quereis que vos solte o rei dos Judeus?". Então, começaram a gritar de novo: "Este não, mas Barrabás!". Barrabás era um bandido. Então Pilatos mandou flagelar Jesus. Os soldados teceram uma coroa de espinhos e colocaram-na na cabeça de Jesus. Vestiram-nO com um manto vermelho, aproximavam-se dEle e diziam: "Viva o rei dos judeus!". E davam-Lhe bofetadas. Pilatos saíu de novo e disse aos judeus: "Olhai, eu O trago aqui fora, diante de vós, para que saibais que não encontro nEle crime algum". Então Jesus veio para fora, trazendo a coroa de espinhos e o manto vermelho. Pilatos disse-lhes: "Eis o homem!". Quando viram Jesus, os sumos sacerdotes e os guardas começaram a gritar: "Crucifica-O! Crucifica-O!". Pilatos respondeu: "Levai-O vós mesmos para O crucificar, pois eu não encontro nEle crime algum". Os judeus responderam: "Nós temos uma Lei, e, segundo esta Lei, Ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus". Ao ouvir estas palavras, Pilatos ficou com mais medo ainda. Entrou outra vez no palácio e perguntou a Jesus: "De onde és Tu?". Jesus ficou calado. Então Pilatos disse: "Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para Te soltar e autoridade para Te crucificar?". Jesus respondeu: "Tu não terias autoridade alguma sobre mim, se ela não te fosse dada do alto. Quem me entregou a ti, portanto, tem culpa maior". Por causa disso, Pilatos procurava soltar Jesus. Mas os judeus gritavam: "Se soltas este homem, não és amigo de César. Todo aquele que se faz rei, declara-se contra César". Ouvindo estas palavras, Pilatos trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar chamado "Pavimento", em hebraico "Gábata". Era o dia da preparação da Páscoa, por volta do meio-dia. Pilatos disse aos judeus: "Eis o vosso rei!". Eles, porém, gritavam: "Fora! Fora! Crucifica-o!". Pilatos disse: "Hei de crucificar o vosso rei?". Os sumos sacerdotes responderam: "Não temos outro rei senão César". Então Pilatos entregou Jesus para ser crucificado, e eles O levaram. Jesus tomou a cruz sobre Si e saiu para o lugar chamado "Calvário", em hebraico "Gólgota". Ali O crucificaram, com outros dois: um de cada lado, e Jesus no meio. Pilatos mandou ainda escrever um letreiro e colocá-lo na cruz; nele estava escrito: "Jesus o Nazareno, o Rei dos Judeus". Muitos judeus puderam ver o letreiro, porque o lugar em que Jesus foi crucificado ficava perto da cidade. O letreiro estava escrito em hebraico, latim e grego. Então os sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: "Não escrevas 'O Rei dos Judeus', mas sim o que Ele disse: 'Eu sou o Rei dos judeus'". Pilatos respondeu: "O que escrevi, está escrito". Depois que crucificaram Jesus, os soldados repartiram a Sua roupa em quatro partes, uma parte para cada soldado. Quanto à túnica, esta era tecida sem costura, em peça única de alto a baixo. Disseram então entre si: "Não vamos dividir a túnica. Tiremos a sorte para ver de quem será". Assim se cumpria a Escritura que diz: "Repartiram entre si as minhas vestes e lançaram sorte sobre a minha túnica". Assim procederam os soldados. Perto da cruz de Jesus, estavam de pé a sua mãe, a irmã da sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que Ele amava, disse à mãe: "Mulher, este é o teu filho". Depois disse ao discípulo: "Esta é a tua mãe". Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo. Depois disso, Jesus, sabendo que tudo estava consumado, e para que a Escritura se cumprisse até o fim, disse: "Tenho sede". Havia ali uma jarra cheia de vinagre. Amarraram numa vara uma esponja embebida de vinagre e levaram-na à boca de Jesus. Ele tomou o vinagre e disse: "Tudo está consumado". E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. Era o dia da preparação para a Páscoa. Os judeus queriam evitar que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque aquele sábado era dia de festa solene. Então pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas aos crucificados e os tirasse da cruz. Os soldados foram e quebraram as pernas de um e depois do outro que foram crucificados com Jesus. Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava morto, não Lhe quebraram as pernas; mas um soldado abriu-Lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que viu, dá testemunho e seu testemunho é verdadeiro; e ele sabe que fala a verdade, para que vós também acrediteis. Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura, que diz: "Não quebrarão nenhum dos seus ossos". E outra Escritura ainda diz: "Olharão para aquele que transpassaram". Depois disso, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus - mas às escondidas, por medo dos judeus - pediu a Pilatos para tirar o corpo de Jesus. Pilatos consentiu. Então José veio tirar o corpo de Jesus. Chegou também Nicodemos, o mesmo que antes tinha ido a Jesus de noite. Trouxe uns trinta quilos de perfume feito de mirra e aloés. Então tomaram o corpo de Jesus e envolveram-nO, com os aromas, em faixas de linho, como os judeus costumam sepultar. No lugar onde Jesus foi crucificado, havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado. Por causa da preparação da Páscoa, e como o túmulo estava perto, foi ali que colocaram Jesus.

Comentário feito por Salviano de Marselha (c. 400-c. 480)
presbítero 

O amor de Deus por nós é bem maior que o de um pai. É isso que comprovam as palavras do Salvador no Evangelho: "Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o Seu Filho Unigênito" (Jo 3,16). E o apóstolo Paulo também refere: "Ele, que nem sequer poupou o Seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós, como não havia de nos oferecer tudo juntamente com Ele?" (Rm 8,32). Por isso nos ama Deus mais do que um pai ama o seu filho. É evidente que Deus nos estima para além da afeição paternal: por nós, não poupou o Seu Filho ─ e que Filho! Esse Filho justo, este Filho único, este Filho que é Deus. Poder-se-á dizer mais? Sim! Foi por nós, quer dizer, pelos maus, pelos culpados, que Ele não O poupou. [...] Por isso o apóstolo Paulo, para nos advertir, em certa medida, da imensidade da misericórdia de Deus, exprime-se assim: "De fato, quando ainda éramos fracos é que Cristo morreu pelos ímpios. Dificilmente alguém morrerá por um justo" (Rm 5,6-7). Com golpe certeiro, basta esta passagem para ele nos mostrar o amor de Deus. Porque, se dificilmente alguém morreria por um grande justo, Cristo provou-nos ser superior, morrendo pelos culpados que nós somos. Mas por que o Senhor agiu assim? O apóstolo Paulo explica-no-lo imediatamente pelo que se segue: "mas é assim que Deus demonstra o Seu amor para conosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós. E, agora que fomos justificados pelo Seu sangue, com muito mais razão havemos de ser salvos da ira, por meio dele" (v. 8-9). A prova que Ele nos deu foi o ter morrido pelos culpados: uma mercê tem mais valor quando é feita a indignos. [...] Porque, se Ele a tivesse concedido a santos e a homens de mérito não teria demonstrado que é Aquele que dá o que não deveria ser dado ─ teria demonstrado ser Aquele que não faz mais do que render o que é devido. Que Lhe retribuiremos, então, por tudo isto?

domingo, 4 de março de 2012

A Quaresma com os santos

O amor fraterno a exemplo de Cristo

Do “Espelho da Caridade”, do Bem-aventurado Elredo, abade (Séc.XI)
(Lib. 3,5: PL 195,582)

Nada nos impele tanto ao amor dos inimigos – e é nisso que consiste a perfeição do amor fraterno – do que considerar com gratidão a admirável paciência de Cristo, o mais belo dos filhos dos homens (Sl 44,3). Ele apresentou seu rosto cheio de beleza aos ultrajes dos ímpios; deixou-os velar Seus olhos que governam o universo com um sinal; expôs Seu corpo aos açoites; submeteu às pontadas dos espinhos Sua cabeça, que faz tremer os principados e as potestades; entregou-Se aos opróbrios e às injúrias; finalmente,suportou com paciência a cruz, os cravos, a lança, o fel e o vinagre, conservando em tudo a doçura, a mansidão e a serenidade. Depois, como cordeiro levado ao matadouro ou como ovelha diante dos que a tosquiam, Ele não abriu a boca (Is 53,7). Ao ouvir esta palavra admirável, cheia de doçura, cheia de amor e de imperturbável serenidade: Pai, perdoa-lhes! (Lc 23,34), quem não abraçaria logo com todo o afeto os seus inimigos? Pai, perdoa-lhes!, disse Jesus. Poderá haver oração que exprima maior mansidão e caridade? Entretanto, Jesus não se contentou em pedir; quis ainda desculpar, e acrescentou: Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem! (Lc 23,34). São, na verdade, grandes pecadores, mas não sabem avaliar a gravidade de seu pecado. Por isso, Pai, perdoa-lhes! Crucificaram-Me, mas não sabem a quem crucificaram, porque, se soubessem, não teriam crucificado o Senhor da glória (1Cor 2,8). Por isso, Pai, perdoa-lhes! Julgaram-Me um transgressor da lei, um usurpador da divindade, um sedutor do povo. Ocultei-lhes a minha face, não reconheceram a Minha majestade. Por isso, Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem! Por conseguinte, se o homem quer amar-se a si mesmo com amor autêntico, não se deixa corromper por nenhum prazer da carne. Para não sucumbir a essa concupiscência da carne, dirija todo o seu afeto à admirável humanidade do Senhor. Para encontrar mais perfeito e suave repouso nas delícias da caridade fraterna, abrace também com verdadeiro amor os seus inimigos. Mas, para que esse fogo divino não arrefeça diante das injúrias, contemple sem cessar, com os olhos do coração, a serena paciência de seu amado Senhor e Salvador.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Comentário ao Evangelho do dia - Advento


3º Domingo do Advento

1ª Leitura - Is 61, 1-2a.10-11
O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me para dar a boa-nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a liberdade para os que estão presos; para proclamar o tempo da graça do Senhor. Exulto de alegria no Senhor e minh'alma regozija-se em meu Deus; Ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me como um noivo com sua coroa, ou uma noiva com suas jóias. Assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Senhor Deus fará germinar a justiça e a sua glória diante de todas as nações.

Salmo - Lc 1, 46-48.49-50.53-54
R. A minh'alma se alegra no meu Deus (Is 61, 10b).
A minha alma engrandece o Senhor,*
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,
porque olhou para a humildade de Sua serva.* 
Doravante as gerações me chamarão bem-aventurada. R.

porque o Todo-poderoso fez grandes coisas 
em meu favor.* O Seu nome é santo,
e Sua misericórdia se estende, de geração em geração,*
a todos os que O respeitam. R.

Encheu de bens os famintos,*
e despediu os ricos de mãos vazias.
Socorreu Israel, Seu servo,*
lembrando-se de Sua misericórdia. R.

2ª Leitura - 1Ts 5, 16-24
Irmãos, estai sempre alegres! Rezai sem cessar. Dai graças em todas as circunstâncias, porque esta é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo. Não apagueis o espírito! Não desprezeis as profecias, mas examinai tudo e guardai o que for bom. Afastai-vos de toda espécie de maldade! Que o próprio Deus da paz vos santifique totalmente, e que tudo aquilo que sois - espírito, alma, corpo - seja conservado sem mancha alguma para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo! Aquele que vos chamou é fiel; Ele mesmo realizará isso.

Evangelho - Jo 1, 6-8.19-28
Surgiu um homem enviado por Deus; seu nome era João. Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz: Este foi o testemunho de João, quando os judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar: "Quem és tu?". João confessou e não negou. Confessou: "Eu não sou o Messias". Eles perguntaram: "Quem és, então? És tu Elias?". João respondeu: "Não sou". Eles perguntaram: "És o Profeta?". Ele respondeu: "Não". Perguntaram então: "Quem és, afinal? Temos que levar uma resposta para aqueles que nos enviaram. O que dizes de ti mesmo?". João declarou: "Eu sou a voz que grita no deserto: 'Aplainai o caminho do Senhor' - conforme disse o profeta Isaías". Ora, os que tinham sido enviados pertenciam aos fariseus e perguntaram: "Por que então andas batizando, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?". João respondeu: "Eu batizo com água; mas no meio de vós está Aquele que vós não conheceis, e que vem depois de mim. Eu não mereço desamarrar a correia de Suas sandálias". Isso aconteceu em Betânia além do Jordão, onde João estava batizando.

Comentário feito por São Gregório Magno (c. 540-604)
papa e doutor da Igreja

"Eu batizo com água, mas no meio de vós está Quem vós não conheceis." Não é no espírito, mas em água que João batiza. Incapaz de perdoar os pecados, ele lava pela água o corpo dos batizados, mas não lava o espírito pelo perdão. Então por que é que ele batiza, se não perdoa os pecados pelo seu batismo? Por que, a não ser para permanecer no seu papel de precursor? Tal como, nascendo, precedeu o Senhor que ia nascer, assim também, batizando, precede o Senhor que ia batizar. Precursor de Cristo pela sua pregação, ele o foi também dando um batismo que era uma imagem do sacramento que estava para vir. João anunciou um mistério quando declarou que Cristo estava no meio dos homens e que eles não O conheciam, pois o Senhor, quando Se revelou na carne, era ao mesmo tempo visível no Seu corpo e invisível na Sua majestade. E João acrescenta: "O que vem depois de mim passou à minha frente" (Jo 1, 15) [...]; e explica as causas da superioridade de Cristo quando precisa: "Porque existia antes de mim", como que para dizer claramente: "Se é superior a mim, tendo nascido depois de mim, é porque o tempo do Seu nascimento não o restringe dentro dos seus limites. Nascido de uma mãe no tempo, foi gerado pelo Pai fora do tempo". João manifesta o humilde respeito que Lhe deve, prosseguindo: "Não sou digno de desatar as correias das Suas sandálias". Era costume entre os antigos que, se alguém se recusasse a desposar uma jovem que lhe estava prometida, desatasse a sandália do que viesse a ser seu marido. Ora Cristo manifestou-Se como Esposo da santa Igreja. [...] Mas porque os homens pensavam que João era o Cristo – coisa que o próprio João negou –, ele declara-se indigno de desatar a correia da Sua sandália. É como se dissesse claramente [...]: "Eu não adoto incorretamente o nome de esposo" (cf Jo 3, 29).

sábado, 15 de outubro de 2011

Santa Teresa de Ávila

15 de outubro


Santa Teresa de Ávila,
rogai por nós!

Nada te turbe 
Nada te espante 
Dios no muda 
Todo se pasa 
La paciencia 
Todo lo alcanza 
Quien a Dios tiene 
Nada le falta 
Solo Dios basta


Nada te perturbe 
Nada te espante 
Tudo passa, 
Só Deus não muda. 
A paciência 
Tudo alcança 
Quem tem a Deus, 
Nada lhe falta. 
Só Deus basta

“Uma prova de que Deus esteja conosco não é o fato de que não venhamos a cair, mas que nos levantemos depois de cada queda”

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Cartas do P.e Aldo 206


Assunción, 5 de outubro de 2011.

Caros amigos,
Acabei de me confessar e, finalmente, depois de uma semana muito dura, o céu voltou a ser azul. Que graça grande a confissão semanal ou até mesmo quando é mais frequente. E olhem que a confissão não tem nada que ver com a direção espiritual ou com a procura por algum conselho. O meu confessor é essencial: escuta os meus pecados, me dá a penitência, me faz dizer o Ato de Contrição e, em seguida, me dá a absolvição. Tudo em três minutos. E, no entanto, que Acontecimento, que encontro com o olhar de Jesus que, com os pecadores, nunca perdeu mais do que alguns minutos. A Zaqueu disse: “desce porque, nesta noite, vou jantar com você”. Para a adúltera: “Mulher, quem te condenou?”. “Ninguém, Senhor” “Eu também não te condeno. Vai e não peques mais”, ou seja, permanece sempre comigo. Para Mateus, “segue-me”, e ele O seguiu. Alguns minutos a mais ele dedicou à Samaritana, mas tinha as suas razões pedagógicas. O meu confessor também é assim. A essencialidade do Sacramento: reconhecer a Presença, confiar o meu nada e me sentir abraçado na minha loucura porque, como nos lembra Giussani no seu livro Ciò che abbiamo di più caro (O que temos de mais caro, sem tradução para o português; ndt), “quem comete pecado odeia a si mesmo” e esta é a loucura.
Esta foi uma semana dura, na qual Jesus me manteve próximo dEle na cruz e, em certos momentos, eu O teria deixado sozinho. É a tentação para a qual a minha liberdade responde com a confissão. Ou seja, com a prática daquilo que Péguy, que Giussani cita no seu último livro, chama: VERDADE HIGIÊNICA, de que a confissão é, na minha experiência de 22 anos de missão, o coração. Péguy fala de verdade cirúrgica que é aquela mais cômoda: cortar. E de verdade higiênica: “não procurem um milagre, mas um caminho”. Giussani me educou muito bem a viver esta esperança da verdade higiênica tanto no modo com o qual ele me educou a viver a minha afetividade, quanto no modo com o qual viver cada detalhe. Enquanto que sempre seremos inclinados à verdade cirúrgica: cortar. E assim, experimentaremos a alegria de ser homens, a alegria que nasce do fato que nada daquilo que é humano nos será estranho. É um grande desafio para a liberdade, porque a verdade higiênica exige que você inteiro entre no jogo e exige um trabalho paciente como o trabalho de um parto, para recordar o cartaz de Páscoa de 1989, que trazia a famosa frase de Mounier. Esta semana eu quis cortar tantas coisas, tantos relacionamentos, porque eu estava cansado, mas a obediência à realidade me fez ficar dentro daquilo que acontecia sem cortar nada, sem censurar nada e, no fim, graças à companhia sacramental e à confissão, me descubro, agora, mais livre, mais feliz. Pensava nisso ontem à noite, quando fui ao médico para ver como anda minha diabetes e ele também aplicou em mim uma terapia higiênica mais do que cirúrgica. E esta terapia, a higiênica, depende totalmente da minha liberdade, porém, no fim, salva tudo.
Meus amigos... mesmo que vocês se apaixonem repentinamente e queiram fugir dessa paixão ou tirá-la do meio do caminho, como muitos me escrevem, acredito que ela deva ser motivo para que vocês prestem contas gritando e pedindo ajuda. Espero que vocês leiam o que Giussani disse em Ciò che abbiamo di più caro, para que possam entender o quanto é necessário um trabalho, um caminho, porque o verdadeiro milagre é a verdade higiênica de que a confissão freqüente é o sinal de uma liberdade, verdadeiramente, comprometida com um caminho de conversão. A semana foi dura, como cada dia é duro, porque, aqui, eu sempre vivo no mesmo instante a morte e a ressurreição de Jesus. Não há intervalos!
Um abraço,
Padre Aldo

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Comentário ao evangelho do dia


São Mateus

1ª Leitura - Ef 4,1-7.11-13
Irmãos, eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes: Com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor. Aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança à qual fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos. Cada um de nós recebeu a graça na medida em que Cristo lha deu. E foi ele quem instituiu alguns como apóstolos, outros como profetas, outros ainda como evangelistas, outros, enfim, como pastores e mestres. Assim, ele capacitou os santos para o ministério, para edificar o corpo de Cristo, até que cheguemos todos juntos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado do homem perfeito e à estatura de Cristo em sua plenitude.

Evangelho - Mt 9,9-13
Naquele tempo, partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: "Segue-me!". Ele se levantou e seguiu a Jesus. Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: "Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?". Jesus ouviu a pergunta e respondeu: "Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Aprendei, pois, o que significa: 'Quero misericórdia e não sacrifício'. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores".

Comentário feito por Rupert de Deutz (c. 1075-1130)
monge beneditino

Mateus, o publicano, recebeu por alimento "o pão da vida e da inteligência" (Eclo 15, 3); e dessa mesma inteligência, fez em sua casa um grande banquete para o Senhor Jesus, pois tinha recebido uma graça abundante, em conformidade com o seu nome [que quer dizer "dom do Senhor"]. Um presságio desse banquete de graças havia sido preparado por Deus: tendo sido chamado enquanto estava no seu posto de cobrança, seguiu a Cristo e "ofereceu-Lhe, em sua casa, um grande banquete" (Lc 5, 29). Ofereceu-Lhe portanto um banquete, dos grandes – um banquete real, diríamos. Mateus é de fato o evangelista que nos mostra Cristo Rei através da Sua família e dos Seus atos. Logo no início da obra, declara que se trata do livro da "Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi" (Mt 1, 1). Em seguida, comenta como o recém-nascido é adorado pelos magos como rei dos judeus; depois, tecendo o resto da narração com régios feitos e parábolas do reino, termina por fim com as próprias palavras de um Rei que já está coroado pela glória da ressurreição: "Foi-Me dado todo o poder no Céu e na Terra" (28, 18). Se examinarmos bem o conjunto da sua redação, reconheceremos portanto que toda ela respira os mistérios do Reino de Deus. Nada de espantoso há nisto; Mateus tinha sido publicano, lembrava-se de ter sido chamado do serviço público do reino de pecado para a liberdade do Reino de Deus, do Reino de justiça. Como homem verdadeiramente grato para com o grande Rei que o tinha libertado, serviu portanto com fidelidade as leis do Seu Reino.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Comentário ao evangelho do dia


Santa Clara

Evangelho - Mt 18,21-19,1
Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: "Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?". Jesus respondeu: "Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. Quando começou o acerto, trouxeram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. O empregado, porém, caíu aos pés do patrão, e, prostrado, suplicava: 'Dá-me um prazo! e eu te pagarei tudo'. Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida. Ao sair dali, aquele empregado encontrou um dos seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: 'Paga o que me deves'. O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: 'Dá-me um prazo! e eu te pagarei'. Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia. Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo. Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: 'Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. Não devias tu também, ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?'. O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão". Ao terminar estes discursos, Jesus deixou a Galileia e veio para o território da Judéia além do Jordão. 

Comentário feito por Beato João Paulo II
Papa

Se Paulo VI por mais de uma vez indicou que a "civilização do amor" é o fimpara o qual devem tender todos os esforços, tanto no campo social e cultural, como no campo econômico e político, é preciso acrescentar que este fim nunca será alcançado se, nas nossas concepções e nas nossas atuações, relativas às amplas e complexas esferas da convivência humana, nos detivermos no critério do "olho por olho e dente por dente" (Ex 21, 24; Mt 5, 38) e, ao contrário, não tendermos para transformá-lo essencialmente, completando-o com outro espírito. É nesta direção que nos conduz também o Concílio Vaticano II quando, ao falar repetidamente da necessidade de "tornar o mundo mais humano" (GS 40), centraliza a missão da Igreja no mundo contemporâneo precisamente na realização desta tarefa. O mundo dos homens só se tornará mais humano se introduzirmos, no quadro multiforme das relações interpessoais e sociais, juntamente com a justiça, o "amor misericordioso" que constitui a mensagem messiânica do Evangelho. O mundo dos homens só poderá se tornar "cada vez mais humano" quando introduzirmos, em todas as relações recíprocas que formam a sua fisionomia moral, o momento do perdão, tão essencial no Evangelho. O perdão atesta que, no mundo, está presente o amor que é mais forte que o pecado. O perdão, além disso, é a condição fundamental para a reconciliação, não só nas relações de Deus com o homem, mas também nas relações dos homens entre si. Um mundo do qual se eliminasse o perdão seria apenas um mundo de justiça fria e pouco respeitosa, em nome da qual cada um reivindicaria os direitos próprios em relação aos demais. Deste modo, as várias espécies de egoísmo, latentes no homem, poderiam transformar a vida e a convivência humana num sistema de opressão dos mais fracos pelos mais fortes, ou até numa arena de luta permanente de uns contra os outros. Com razão a Igreja considera seu dever e objetivo da sua missão assegurar a autenticidade do perdão, tanto na vida e no comportamento concreto, como na educação e na pastoral. Não o protege de outro modo senão guardando a sua fonte, isto é, o mistério da misericórdia de Deus, revelado em Jesus Cristo.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Indulgência de Santa Maria dos Anjos da Porciúncula


Começou hoje, às 12h, a "Festa do Perdão de Assis"... que se estenderá até amanhã, ao entardecer.

Antigamente, a Indulgência da Porciúncula somente era concedida a quem visitasse a Igreja de Santa Maria dos Anjos, entre a tarde do dia 1 agosto e o pôr-do-sol do dia 2 agosto. Em 9 de julho de 1910, o Papa Pio X concedeu autorização aos Bispos de todo o mundo, só naquele ano de 1910, para que designassem qualquer igreja pública das suas Dioceses, a fim de que também nelas as pessoas recebessem a Indulgência da Porciúncula (Acta Apostolicae Sedis, II, 1910, 443 sq.; Acta Ord. Frat. Min., XXIX, 1910, 226). Este privilégio foi renovado por um tempo indefinido por decreto da Sagrada Congregação de Indulgências, em 26 março de 1911 (Acta Apostolicae Sedis, III, 1911, 233-4). O que quer dizer que, atualmente, qualquer Igreja Católica de qualquer país, tem o benefício da Indulgência que São Francisco conseguiu de Jesus para toda humanidade. Assim ganharão a Indulgência, todas as pessoas que, estando em "estado de graça", visitarem uma Igreja nos dias mencionados, rezarem um Credo, um Pai-Nosso e um Glória, suplicando ao Criador o benefício da indulgência, e rezando também um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória pelas intenções do Santo Padre. Poderão utilizar a Indulgência em seu próprio benefício, ou em favor de pessoas falecidas ou daquelas que necessitam ajuda para a conversão do coração. É preciso estar sinceramente arrependido de todos os pecados e ter se confessado e recebido a absolvição.
Além do mais a Indulgência é toties quoties, ou seja, pode ser recebida tantas vezes quantas a pessoa desejar, isto é, em cada ano, fazendo visitas a diversas Igrejas das 12 horas do dia 1 de agosto até ao entardecer do dia 2 de agosto.

Para saber sobre a história da Indulgência da Porciúncula, clique aqui.

domingo, 3 de julho de 2011

Comentário ao evangelho do dia

São Pedro e São Paulo

1ª Leitura - At 12,1-11
Naqueles dias, o rei Herodes prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João. E, vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender a Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos. Depois de prender Pedro, Herodes colocou-o na prisão, guardado por quatro grupos de soldados, com quatro soldados cada um. Herodes tinha a intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa. Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele. Herodes estava para apresentá-lo. Naquela mesma noite, Pedro dormia entre dois soldados, preso com duas correntes; e os guardas vigiavam a porta da prisão. Eis que apareceu o anjo do Senhor e uma luz iluminou a cela. O anjo tocou o ombro de Pedro, acordou-o e disse: "Levanta-te depressa!". As corrrentes caíram-lhe das mãos. O anjo continuou: "Coloca o cinto e calça tuas sandálias!". Pedro obedeceu e o anjo lhe disse: "Põe tua capa e vem comigo!". Pedro acompanhou-o, e não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão. Depois de passarem pela primeira e segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade. O portão abriu-se sozinho. Eles saíram, caminharam por uma rua e logo depois o anjo o deixou. Então Pedro caiu em si e disse: "Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava!".

2ª Leitura - 2Tm 4,6-8.17-18
Caríssimo, quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos que esperam com amor a sua manifestação gloriosa. Mas o Senhor esteve a meu lado e me deu forças; ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e eu fui libertado da boca do leão. O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste. A ele a glória, pelos séculos dos séculos! Amém.

Evangelho - Mt 16,13-19
Naquele tempo, Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: "Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?". Eles responderam: "Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; Outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas". Então Jesus lhes perguntou: "E vós, quem dizeis que eu sou?". Simão Pedro respondeu: "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo". Respondendo, Jesus lhe disse: "Feliz es tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus".

Comentário feito por São Bernardo (1091-1153)
monge cisterciense e doutor da Igreja

É com razão, irmãos, que a Igreja aplica aos santos apóstolos Pedro e Paulo estas palavras do Sábio: "Aqueles foram homens de misericórdia, cujas obras de piedade não foram esquecidas. Na sua descendência permanecem os seus bens, e a sua herança passa à sua posteridade" (Eclo 44, 10-11). Sim, podemos, com propriedade, chamar-lhes homens de misericórdia; porque eles obtiveram misericórdia para eles próprios, porque estão cheios de misericórdia, e porque foi na Sua misericórdia que Deus no-los deu. Vede, com efeito, que misericórdia eles obtiveram. Se interrogardes o apóstolo São Paulo sobre este assunto [...], ele vos dirá estas palavras acerca de si mesmo: "Antes fora blasfemo, perseguidor e violento. Mas alcancei misericórdia, porque agi por ignorância, sem ter fé ainda" (1 Tm 1,13). De fato, não sabemos nós o mal que ele fez aos cristãos de Jerusalém [...] e até aos de toda a Judeia? [...] Quanto ao bem-aventurado Pedro, tenho outra coisa a dizer-vos, e coisa sublime quanto única. Com efeito, se Paulo pecou, fê-lo sem o saber, porque não tinha fé; Pedro, pelo contrário, tinha os olhos bem abertos no momento da queda (Mt 26,69ss). Mas "onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Rm 5,20). [...] Se São Pedro pôde elevar-se a um tal grau de santidade depois de uma queda tão pesada, quem poderá desesperar a partir de então, por pouco que persevere em sair de seus pecados? Atentai no que diz o Evangelho: "E Pedro [...], saindo para fora, chorou amargamente" (v. 75) [...]. Ouvistes que misericórdia obtiveram os apóstolos, e daí em diante ninguém dentre vós será esmagado pelas faltas passadas mais do que for preciso [...]. Se pecaste, não pecou Paulo ainda mais? Se caíste, não caiu Pedro de maneira bem mais grave do que tu? Ora, um e outro, pela penitência, não só obtiveram a salvação como se tornaram grandes santos, e tornaram-se mesmo ministros da salvação, mestres da santidade. Faz portanto o mesmo, irmão, pois é por ti que a Escritura lhes chama "homens de misericórdia".

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Resposta Católica

Acabo de descobrir um site espetacular: Resposta Católica. Nele, estão disponíveis centenas de livros, textos e vídeos de altíssimo nível, sobre os mais variados temas... sempre a partir de uma perspectiva católica... de verdade! Aproveitem!

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Jo 21,15-19
Jesus manifestou-se aos seus discípulos e, depois de comerem, perguntou a Simão Pedro: "Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?". Pedro respondeu:  "Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo". Jesus disse: "Apascenta os meus cordeiros". E disse de novo a Pedro: "Simão, filho de João, tu me amas?". Pedro disse: "Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo". Jesus disse-lhe: "Apascenta as minhas ovelhas". Pela terceira vez, perguntou a Pedro: "Simão, filho de João, tu me amas?". Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se ele o amava. Respondeu: "Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo". Jesus disse-lhe:  "Apascenta as minhas ovelhas. Em verdade, em verdade te digo: quando eras jovem, tu te cingias e ias para onde querias. Quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres ir". Jesus disse isso, significando com que morte Pedro iria glorificar a Deus. E acrescentou : "Segue-me".

Comentário feito por Beato João Paulo II
papa

Na hora da prova, Pedro renegou o Mestre três vezes. E a voz tremia-lhe quando respondeu: "Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo" (Jo 21,15). Contudo, não respondeu "Todavia, Senhor, eu Te enganei", mas: "Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo". Dizendo isto, já sabia que Cristo é a pedra angular sobre a qual, apesar de toda a fraqueza humana, pôde crescer nele, Pedro, esta construção que terá a forma do amor. Através de todas as situações e todas as provas. Até ao fim. Por isso ele escreverá um dia [...]: "Vós mesmos, como pedras vivas, entrais na construção de um edifício espiritual, por meio de um sacerdócio santo, cujo fim é oferecer sacrifícios espirituais que serão agradáveis a Deus tão só por Jesus Cristo" (1 Ped 2,5). Tudo isto significa tão só responder sempre e constantemente, com tenacidade e de maneira consequente, a esta única pergunta: Amas-Me? Tu Me amas? Tu Me amas mais? É com efeito esta resposta, quer dizer, este amor, que faz com que sejamos "raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido" (1 Ped 2,9). Ela é que faz que proclamemos as obras maravilhosas dAquele que nos "chamou das trevas para a Sua luz admirável" (1 Ped 2,9). Tudo isto soube-o Pedro na absoluta certeza da sua fé. E sabe tudo isto e continua a confessá-lo também nos seus sucessores. 

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A oração de intercessão

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 1 de junho de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Lendo o Antigo Testamento, uma figura salta às vistas em meio às outras: a de Moisés, exatamente como homem de oração. Moisés, o grande profeta e condutor do tempo do Êxodo, cumpriu sua função de mediador entre Deus e Israel, fazendo-se portador, junto do povo, das palavras e dos mandamentos divinos, conduzindo-o para a liberdade da Terra Prometida, ensinando aos israelitas como viver na obediência e na confiança em Deus, durante a longa permanência no deserto, mas também, e diria sobretudo, rezando. Ele reza pelo Faraó quando Deus, com suas pragas, tentava converter o coração dos egípcios (cf. Ex 8-10); pede ao Senhor a cura da irmã Maria atingida pela lepra (cf. Nm 12, 9-13), intercede pelo povo que tinha se rebelado, assustado com o relato dos exploradores (cf. Nm 14, 1-19), reza quando o fogo estava por devorar o acampamento (cf. Nm 11, 1-2) e quando serpentes venenosas fizeram massacres (cf. Nm 21, 4-9); dirige-se ao Senhor e reage protestando quando o peso da sua missão tinha se tornado muito difícil (cf. Nm 11, 10-15); vê Deus e fala com Ele “face a face, como se fala com um amigo” (cf. Ex 24, 9-17; 33, 7-23; 34, 1-10.28-35).
Mesmo quando o povo, no Sinai, pede a Aarão que se faça um bezerro de ouro, Moisés reza, explicando de modo emblemático a sua função própria de intercessor. O episódio é narrado no capítulo 32 do Livro do Êxodo e tem um relato paralelo em Deuteronômio, no capítulo 9. É sobre este episódio que gostaria de me dedicar na catequese de hoje, particularmente na questão da oração de Moisés que encontramos na narrativa do Êxodo. O povo de Israel se encontrava aos pés do Sinai, enquanto que Moisés, no monte, esperava o dom das tábuas da Lei, jejuando por quarenta dias e quarenta noites (cf. Ex 24, 18; Dt 9, 9). O número quarenta tem valor simbólico e significa a totalidade da experiência, enquanto que o jejum indica que a vida vem de Deus, é Ele quem a sustenta. O ato de comer, de fato, envolve o tomar o alimento que nos sustenta; por isso, jejuar, renunciando à comida, adquire, neste caso, um significado religioso: é um modo para indicar que não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca do Senhor (cf. Dt 8, 3). Jejuando, Moisés mostra estar esperando o dom da Lei divina como fonte de vida: ela revela a vontade de Deus e nutre o coração do homem, fazendo-o entrar numa aliança com o Altíssimo, que é fonte da vida, é a vida mesma. 
Mas, enquanto o Senhor, no monte, dá a Moisés a Lei, aos pés do monte o povo a transgride. Incapazes de resistir à espera e à ausência do mediador, os israelitas pedem a Aarão: “Vamos: faze-nos um deus que marche à nossa frente, porque esse Moisés, que nos tirou do Egito, não sabemos o que é feito dele” (Ex 32, 1). Cansado de um caminho feito com um Deus invisível, agora que também Moisés, o mediador, desapareceu, o povo pede uma presença tangível, tocável, do Senhor, e encontra no bezerro de metal fundido feito por Aarão, um deus que se tornou acessível, manobrável, ao alcance do homem. Esta é uma tentação constante no caminho de fé: escamotear o divino construindo um deus compreensível, correspondente aos próprios esquemas, aos próprios projetos. Quando chega ao Sinai mostra toda a estupidez e ilusória vaidade desta pretensão porque, como o Salmo 106 afirma ironicamente, “trocaram a sua glória pela figura de um touro que come ervas” (Sl 106, 20). Por isso, o Senhor reage e ordena que Moisés desça do monte, revelando a ele aquilo que o povo estava fazendo e terminando com estas palavras: “Deixa, pois, que se acenda minha cólera contra eles e os reduzirei a nada; mas de ti farei uma grande nação” (Ex 32, 10). Como com Abraão a propósito de Sodoma e Gomorrra, também agora Deus revela a Moisés o que pretende fazer, quase como se não quisesse agir sem o seu consentimento (cf. Am 3, 7). Disse: “deixa que se acenda a minha cólera”. Na realidade, este “deixa que se acenda a minha cólera” é dito exatamente para que Moisés intervenha e Lhe peça para não fazer isso, revelando assim que o desejo de Deus é sempre de salvação. Assim como para as duas cidades do tempo de Abraão a punição e a destruição, na qual se expressa a ira de Deus como recusa do mal, indicam a gravidade do pecado cometido; ao mesmo tempo, o pedido da intercessão pretende manifestar a vontade de perdão do Senhor. Esta é a salvação de Deus, que implica misericórdia, mas também implica denúncia da verdade do pecado, do mal que existe, de forma que o pecador, reconhecido e recusado o próprio mal, possa deixar-se perdoar e transformar por Deus. A oração de intercessão, dessa forma, torna operante, dentro da realidade corrompida do homem pecador, a misericórdia divina, que encontra voz na súplica do orante e se faz presente através dele naquele lugar que mais precisa de salvação.
A súplica de Moisés é toda centrada na fidelidade e na graça do Senhor. Ele se refere, primeiro, à história de redenção que Deus começou com a saída de Israel do Egito, para, depois, fazer memória da antiga promessa feita aos Pais. O Senhor operou salvação livrando o seu povo da escravidão egípcia; “não é bom que digam os egípcios – fala Moisés –: com um mau desígnio os levou, para matá-los nas montanhas e suprimi-los da face da terra” (Ex 32, 12). A obra de salvação começada deve ser completada; se Deus fizesse o seu povo perecer, isso poderia ser interpretado como o sinal de uma incapacidade divina de levar a bom termo o projeto de salvação. Deus não pode permitir isto: Ele é o Senhor bom que salva, o garantidor da vida, é o Deus de misericórdia e perdão, de libertação do pecado que mata. E assim Moisés apela a Deus, à vida interior de Deus, contra a sentença exterior. Mas, então, Moisés argumenta com o Senhor, dizendo que, se os seus eleitos perecessem, ainda que culpados, Ele pareceria incapaz de vencer o pecado. E isto não pode ser aceito. Moisés fez experiência concreta do Deus de salvação, foi enviado como mediador da libertação divina e, agora, com a sua oração, faz-se intérprete de uma dupla inquietude, preocupado com a sorte do seu povo, mas também preocupado com a honra que se deve ao Senhor, pela verdade do Seu nome. O intercessor, de fato, quer que o povo de Israel seja salvo, porque é o rebanho que lhe foi confiado, mas também para que, naquela salvação, se manifeste a verdadeira realidade de Deus. Amor aos irmãos e amor a Deus se compenetram na oração de intercessão, são incindíveis. Moisés, o intercessor, é o homem tendido entre dois amores, que na oração se sobrepõem num único desejo de bem.
Em seguida, Moisés apela à fidelidade de Deus, lembrando-lhe de Suas promessas: “Lembrai-vos de Abraão, de Isaac e de Israel, vossos servos, aos quais jurastes por vós mesmo de tornar sua posteridade tão numerosa como as estrelas do céu e de dar aos seus descendentes essa terra de que falastes, como uma herança eterna” (Ex 32, 13). Moisés faz memória da história fundadora das origens, dos Pais do povo e da sua eleição, totalmente gratuita, na qual apenas Deus teve a iniciativa. Não foi por causa de seus méritos que eles receberam a promessa, mas por causa da livre escolha de Deus e do seu amor (cf. Dt 10, 15). E então, Moisés pede que o Senhor continue na fidelidade à sua história de eleição e de salvação, perdoando o seu povo. O intercessor não se prende em desculpas pelo pecado da sua gente, não enumera méritos presumíveis nem seus nem do povo, mas apela à gratuidade de Deus: um Deus livre, totalmente amor, que não cessa de buscar quem se afastou, que permanece sempre fiel a si mesmo e oferece ao pecador a possibilidade de voltar para Ele e se tornar, com o perdão, justo e capaz de fidelidade. Moisés pede a Deus que se mostre mais forte mesmo que o pecado e que a morte, e com a sua oração provoca esta revelação divina. Mediador de vida, o intercessor se solidariza com o povo; desejoso apenas da salvação que Deus mesmo deseja, ele renuncia à perspectiva de se tornar um novo povo agradável ao Senhor. A frase que Deus lhe dirigiu, “de ti, porém, farei uma grande nação”, não é nem mesmo levada em consideração pelo “amigo” de Deus, que, pelo contrário, está pronto a assumir sobre si não apenas a culpa da sua gente, como também todas as suas consequências. Quando, depois da destruição do bezerro de ouro, voltará para o monte para pedir outra vez a salvação para Israel, dirá ao Senhor: “Rogo-vos que lhes perdoeis agora esse pecado! Senão, apagai-me do livro que escrevestes” (v. 32). Com a oração, desejando o desejo de Deus, o intercessor entra cada vez mais profundamente no conhecimento do Senhor e da sua misericórdia se torna capaz de um amor que chega até ao dom total de si. Em Moisés, que está no alto do monte face a face com Deus e se faz intercessor pelo seu povo e se oferece a si mesmo – “apagai-me” –, os Padres da Igreja viram uma prefiguração de Cristo, que, no alto da cruz, realmente está diante de Deus, não apenas como amigo, mas como Filho. E não apenas se oferece – “apagai-me” –, mas com o seu coração traspassado se faz apagar, se torna, como diz São Paulo, pecado, carrega sobre si os nossos pecados para nos tornar salvos; a sua intercessão é não apenas solidariedade, mas identificação conosco: carrega todos nós no seu corpo. E assim toda a sua existência de homem e de Filho é grito ao coração de Deus, é perdão, mas perdão que transforma e renova.
Penso que devemos meditar sobre esta realidade. Cristo está diante do rosto de Deus e reza por mim. A sua oração na Cruz é contemporânea a todos os homens, contemporânea a mim: Ele reza por mim, sofreu e sofre por mim, identificou-se comigo tomando o nosso corpo e a alma humana. E nos convida a entrar nesta sua identidade, fazendo-nos um corpo, um espírito com Ele, porque, do alto da Cruz, Ele trouxe não novas leis, tábuas, mas a si mesmo, o seu corpo e o seu sangue, como nova aliança. Assim, nos faz consanguíneos com Ele, um corpo com Ele, identificando-te com Ele. Convida-nos a entrar nesta identificação, a sermos unidos com Ele no nosso desejo de ser um corpo, um espírito com Ele. Rezemos ao Senhor para que esta identificação nos transforme, nos renove, porque o perdão é renovação, é transformação.
Gostaria de concluir esta catequese com as palavras do apóstolo Paulo aos cristãos de Roma: “Quem poderia acusar os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? Cristo Jesus, que morreu, ou melhor, que ressuscitou, que está à mão direita de Deus, é quem intercede por nós! Quem nos separará do amor de Cristo? [...] Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, [...] nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8, 33-35.38.39).

* Extraído do site do Vaticano, do dia 1 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Que nas nossas cidades se encontre um germe de bem...

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 18 de maio de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Nas duas últimas catequeses, refletimos sobre a oração como fenômeno universal, que – mesmo em formas diversas – se encontra presente nas culturas de todos os tempos. Hoje, pelo contrário, gostaria de começar um percurso bíblico sobre este ema, que nos guiará rumo ao aprofundamento do diálogo de aliança entre Deus e o homem que anima a história da salvação, até ao cume, à palavra definitiva que é Jesus Cristo. Este caminho nos levará a parar sobre alguns importantes textos e figuras paradigmáticas do Antigo e do Novo Testamentos. Será Abraão, o grande Patriarca, pai de todos os crentes (cf. Rm 4, 11-12.16-17), que nos oferecerá um primeiro exemplo de oração, no episódio da intercessão pelas cidades de Sodoma e Gomorra. E gostaria também de vos convidar a aproveitar o percurso que faremos nas próximas catequeses para aprender a conhecer mais a Bíblia, que espero tenhais em vossas casas, e, durante a semana, dediqueis um tempo para lê-la e meditá-la na oração, para conhecer a maravilhosa história do relacionamento entre Deus e o homem, entre Deus que se comunica a nós e o homem que responde, que reza.
O primeiro texto sobre o qual queremos refletir se encontra no capítulo 18 do Livro do Gênesis; narra-se que a maldade dos habitantes de Sodoma e Gomorra tinha chegado ao ápice, a ponto de ser necessária uma intervenção de Deus a fim de realizar um ato de justiça e parar o mal, destruindo aquelas cidades. É nesse ponto que aparece Abraão com a sua oração de intercessão. Deus decide revelar a ele aquilo que está para acontecer e lhe faz conhecer a gravidade do mal e suas terríveis consequências, porque Abraão é o seu eleito, escolhido para se tornar um grande povo e fazer chegar a bênção divina a todo o mundo. A sua missão é de salvação, e deve responder ao pecado que invadiu a realidade do homem; através dele o Senhor quer trazer a humanidade de volta para a fé, para a obediência, para a justiça. E agora, este amigo de Deus se abre para a realidade e para necessidade do mundo, reza por aqueles que estão para ser punidos e pede que sejam salvos.
Abraão assume imediatamente o problema em toda a sua gravidade, e diz ao Senhor: “Fareis o justo perecer com o ímpio? Talvez haja cinqüenta justos na cidade: fá-los-eis perecer? Não perdoaríeis antes a cidade, em atenção aos cinqüenta justos que nela se poderiam encontrar? Não, vós não poderíeis agir assim, matando o justo com o ímpio, e tratando o justo como ímpio! Longe de vós tal pensamento! Não exerceria o juiz de toda a terra a justiça?” (Gn 18, 23-25). Com estas palavras, com grande coragem, Abraão coloca diante de Deus a necessidade de evitar uma justiça sumária: se a cidade é culpada, é justo condenar o seu crime e infligir a pena, mas – afirma o grande Patriarca – seria injusto punir de modo indiscriminado todos os habitantes. Se na cidade há inocentes, estes não podem ser tratados como os culpados. Deus, que é um justo juiz, não pode agir assim, diz Abraão muito justamente a Deus.
Se lemos, porém, mais atentamente o texto, nos daremos conta de que a solicitação de Abraão é ainda mais séria e profunda, porque não se limita a pedir a salvação para os inocentes. Abraão pede o perdão para toda a cidade e o faz apelando à justiça de Deus; de fato, ele diz ao Senhor: “Não perdoaríeis antes a cidade, em atenção aos cinqüenta justos que nela se poderiam encontrar?” (v. 24b). Fazendo assim, coloca em jogo uma nova ideia de justiça: não aquela que se limita a punir os culpados, como fazem os homens, mas uma justiça diferente, divina, que busca o bem e o cria através do perdão que transforma o pecador, o converte e o salva. Com a sua oração, portanto, Abraão não invoca uma justiça meramente retributiva, mas uma intervenção de salvação que, levando em conta os inocentes, livre da culpa também os ímpios, perdoando-os. O pensamento de Abraão, que parece quase paradoxal, poderia ser sintetizado assim: obviamente não se pode tratar os inocentes como os culpados, isto seria injusto, é preciso, pelo contrário, tratar os culpados como os inocentes, colocando em ação uma justiça “superior”, oferecendo a eles uma possibilidade de salvação, porque se os malfeitores aceitam o perdão de Deus e confessam a culpa, deixando-se salvar, não continuarão mais a fazer o mal, se tornarão também eles justos, sem mais necessidade de serem punidos.
É este o pedido de justiça que Abraão expressa na sua intercessão, um pedido que se funda sobre a certeza de que o Senhor é misericordioso. Abraão não pede a Deus uma coisa contrária à Sua essência, bate à porta do coração de Deus conhecendo Sua verdadeira vontade. É certo que Sodoma é uma cidade grande, de forma que cinquenta justos parecem poucos, mas a justiça de Deus e o Seu perdão não são, talvez, a manifestação da força do bem, mesmo que pareça menor e mais frágil do que o mal? A destruição de Sodoma deveria fazer parar o mal presente na cidade, mas Abraão sabe que Deus tem outros modos e outros meios para impedir a difusão do mal. É o perdão que interrompe a espiral do pecado, e Abraão, no seu diálogo com Deus, apela justamente a isto. E quando o Senhor aceita perdoar a cidade se encontrar nela os cinquenta justos, a sua oração de intercessão começa a descer em direção aos abismos da misericórdia divina. Abraão – como recordamos – diminui progressivamente o número de inocentes necessários para a salvação: se não existirem cinquenta, poderia bastar quarenta e cinco? Depois, desce sempre mais até chegar a dez, continuando a sua súplica, que se torna quase audaciosa na insistência: “Talvez só haja aí quarenta... trinta... vinte... dez” (cf. vv. 29.30.31.32). E quanto menor é o número, maior se revela e se manifesta a misericórdia de Deus, que escuta com paciência a oração, a acolhe e repete a cada súplica: “Perdoarei... não destruirei...não farei” (cf. vv. 26.28.29.30.31.32).
Assim, por intercessão de Abraão, Sodoma poderá ser salva, se nela se encontrarem apenas dez inocentes. É esta a potência da oração. Porque, através da intercessão, a oração a Deus pela salvação dos outros, se manifesta e se expressa o desejo de salvação que Deus nutre sempre pelo homem pecador. O mal, de fato, não pode ser aceito, deve ser assinalado e destruído através da punição: a destruição de Sodoma tinha exatamente esta função. Mas, o Senhor não quer a morte do malvado, mas que ele se converta e viva (cf. Ez 18, 23; 33, 11); o Seu desejo é sempre o de perdoar, salvar, dar vida, transformar o mal em bem. Pois bem, é exatamente este desejo divino que, na oração, se torna desejo do homem e se expressa através das palavras de intercessão. Com a sua súplica, Abraão está dando a própria voz, mas também o próprio coração, à vontade divina: o desejo de Deus é misericórdia, amor e vontade de salvação, e este desejo de Deus encontrou em Abraão e na sua oração a possibilidade de se manifestar de modo concreto no meio da história dos homens, para estar presente onde há necessidade de graça. Com a voz da sua oração, Abraão está dando voz ao desejo de Deus, que não é o de destruir, mas o de salvar Sodoma, de dar vida ao pecadores convertidos. 
É isto que o Senhor quer, e o Seu diálogo com Abraão é uma prolongada e inequívoca manifestação do seu amor misericordioso. A necessidade de encontrar homens justos no meio da cidade se torna cada vez menos exigente e, no fim, bastariam dez para salvar a totalidade da população. Por qual motivo Abraão para em dez, não é dito no texto. Talvez seja um número que indica um núcleo comunitário mínimo (ainda hoje, dez pessoas é o quórum necessário para a oração pública judaica). Seja como for, trata-se de um número exíguo, uma pequena partícula de bem de onde partir para salvar um grande mal. Mas, nem mesmo dez justos são encontrados em Sodoma e Gomorra, e as cidades são destruídas. Uma destruição paradoxalmente testemunhada como necessária exatamente pela oração de intercessão de Abraão. Porque exatamente aquela oração revelou a vontade salvífica de Deus: o Senhor estava disposto a perdoar, desejava fazê-lo, mas as cidades estavam fechadas num mal totalizante e paralisante, sem nem mesmo alguns poucos inocentes de onde partir para transformar o mal em bem. Porque é exatamente este o caminho da salvação que Abraão também pedia: sermos salvos não quer dizer simplesmente escaparmos da punição, mas sermos livres do mal que nos habita. Não é o castigo que deve ser eliminado, mas o pecado, aquela recusa de Deus e do amor que já traz em si o castigo. O profeta Jeremias dirá ao povo rebelde: “Valeu-te este castigo tua malícia, e tuas infidelidades atraíram sobre ti a punição. Sabe, portanto, e vê quanto te foi funesto e amargo abandonar o Senhor teu Deus” (Jr 2, 19). É desta tristeza e amargura que o Senhor quer salvar o homem, livrando-o do pecado. É necessária, porém, uma transformação a partir de dentro, um certo pretexto de bem, um início de onde partir para transmutar o mal em bem, o ódio em amor, a vingança em perdão. Por isto, os justos devem estar dentro da cidade, e Abraão continuamente repete: “talvez encontremos lá...”. “Lá”: é dentro da realidade doente que deve existir algum germe de bem que pode recuperar a saúde e dar a vida outra vez. É uma palavra dirigida também a nós: que nas nossas cidades se encontre o germe de bem; que façamos de tudo para que existam não apenas dez justos, para fazer com que vivam e sobrevivam realmente as nossas cidades e para que sejamos salvos desta amargura interior que é a ausência de Deus. E na realidade doente de Sodoma e Gomorra aquele germe de bem não se encontrava.
Mas, a misericórdia de Deus na história do seu povo se alarga depois. Se, para salvar Sodoma eram necessários dez justos, o profeta Jeremias dirá, em nome do Onipotente, que basta um só justo para salvar Jerusalém: “Percorrei as ruas de Jerusalém, olhai, perguntai; procurai nas praças, vede se nelas encontrais um homem, um só homem que pratique a justiça e que seja leal; então eu perdoarei a cidade” (Jr 5, 1). O número desceu mais, a bondade de Deus se mostra ainda maior. E no entanto isto ainda não basta, a superabundante misericórdia de Deus não encontra a resposta de bem que busca, e Jerusalém cai sob o assédio do inimigo. Será preciso que Deus mesmo se torne aquele justo. E este é o mistério da Encarnação: para garantir um justo, Ele mesmo se faz homem. O justo sempre existirá, porque é Ele: é preciso, porém, que Deus mesmo se torne aquele justo. O infinito e surpreendente amor divino será plenamente manifesto quando o Filho de Deus se fizer homem, o Justo definitivo, o perfeito Inocente, que levará a salvação ao mundo inteiro, morrendo na cruz, perdoando e intercedendo por aqueles que “não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Então, a oração de todo homem encontrará a sua resposta, então todas as nossas intercessões serão plenamente respondidas.
Caros irmãos e irmãs, a súplica de Abraão, nosso pai na fé, nos ensine a abrir sempre mais o coração para a misericórdia superabundante de Deus, para que, na oração cotidiana, saibamos desejar a salvação da humanidade e pedi-la com perseverança e com confiança ao Senhor que é grande no amor. Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 18 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Que Cristo Ressuscitado nos abra o caminho da liberdade, da justiça e da paz

Mensagem Urbi et Orbi
Do Santo Padre Bento XVI

Páscoa de 2011

“In resurrectione tua, Christe, coeli et terra laetentur – Na vossa Ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra” (Liturgia das Horas).

Amados irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro!
A manhã de Páscoa trouxe-nos este anúncio antigo e sempre novo: Cristo ressuscitou! O eco deste acontecimento, que partiu de Jerusalém há vinte séculos, continua a ressoar na Igreja, que traz viva no coração a fé vibrante de Maria, a Mãe de Jesus, a fé de Madalena e das primeiras mulheres que viram o sepulcro vazio, a fé de Pedro e dos outros Apóstolos.
Até hoje – mesmo na nossa era de comunicações supertecnológicas – a fé dos cristãos se encontra fundada naquele anúncio, no testemunho daquelas irmãs e daqueles irmãos que viram, primeiro, a pedra removida e o túmulo vazio e, depois, os misteriosos mensageiros que atestavam que Jesus, o Crucificado, ressuscitara; em seguida, o Mestre e Senhor em pessoa, vivo e palpável, apareceu a Maria Madalena, aos dois discípulos de Emaús e, finalmente, aos onze, reunidos no Cenáculo (cf. Mc 16, 9-14).
A ressurreição de Cristo não é fruto de uma especulação, de uma experiência mística: é um acontecimento, que ultrapassa certamente a história, mas verifica-se num momento concreto da história e deixa nela uma marca indelével. A luz, que encandeou os guardas de sentinela ao sepulcro de Jesus, atravessou o tempo e o espaço. É uma luz diferente, divina, que fendeu as trevas da morte e trouxe ao mundo o esplendor de Deus, o esplendor da Verdade e do Bem.
Tal como os raios do sol, na primavera, fazem brotar e desabrochar os rebentos nos ramos das árvores, assim também a irradiação que dimana da Ressurreição de Cristo dá força e significado a cada esperança humana, a cada expectativa, desejo, projeto. Por isso, hoje, o universo inteiro se alegra, implicado na primavera da humanidade, que se faz intérprete do tácito hino de louvor da criação. O aleluia pascal, que ressoa na Igreja peregrina no mundo, exprime a exultação silenciosa do universo e sobretudo o anseio de cada alma humana aberta sinceramente a Deus, mais ainda, agradecida pela sua infinita bondade, beleza e verdade.
“Na vossa ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra”. A este convite ao louvor, que hoje se eleva do coração da Igreja, os “céus” respondem plenamente: as multidões dos anjos, dos santos e dos beatos unem-se unânimes à nossa exultação. No Céu, tudo é paz e alegria. Mas, infelizmente, não é assim sobre a terra! Aqui, neste nosso mundo, o aleluia pascal contrasta ainda com os lamentos e gritos que provêm de tantas situações dolorosas: miséria, fome, doenças, guerras, violências. E todavia foi por isto mesmo que Cristo morreu e ressuscitou! Ele morreu também por causa dos nossos pecados de hoje, e também para a redenção da nossa história de hoje Ele ressuscitou. Por isso, esta minha mensagem quer chegar a todos e, como anúncio profético, sobretudo aos povos e às comunidades que estão a sofrer uma hora de paixão, para que Cristo Ressuscitado lhes abra o caminho da liberdade, da justiça e da paz.
Possa alegrar-se aquela Terra que, primeiro, foi inundada pela luz do Ressuscitado. O fulgor de Cristo chegue também aos povos do Oriente Médio para que a luz da paz e da dignidade humana vença as trevas da divisão, do ódio e das violências. Na Líbia, que as armas cedam o lugar à diplomacia e ao diálogo e se favoreça, na situação atual de conflito, o acesso das ajudas humanitárias a quantos sofrem as consequências da luta. Nos países da África do Norte e do Oriente Médio, que todos os cidadãos – e de modo particular os jovens – se esforcem por promover o bem comum e construir um sociedade, onde a pobreza seja vencida e cada decisão política seja inspirada pelo respeito da pessoa humana. A tantos prófugos e aos refugiados, que provêm de diversos países africanos e se vêem forçados a deixar os afetos dos seus entes mais queridos, chegue a solidariedade de todos; os homens de boa vontade sintam-se inspirados a abrir o coração ao acolhimento, para se torne possível, de maneira solidária e concorde, acudir às necessidades prementes de tantos irmãos; a quantos se prodigalizam com generosos esforços e dão exemplares testemunhos nesta linha chegue o nosso conforto e apreço.
Possa recompor-se a convivência civil entre as populações da Costa do Marfim, onde é urgente empreender um caminho de reconciliação e perdão, para curar as feridas profundas causadas pelas recentes violências. Possa encontrar consolação e esperança a terra do Japão, enquanto enfrenta as dramáticas consequências do recente terremoto, e demais países que, nos meses passados, foram provados por calamidades naturais que semearam sofrimento e angústia.
Alegrem-se os céus e a terra pelo testemunho de quantos sofrem contrariedades ou mesmo perseguições pela sua fé no Senhor Jesus. O anúncio da sua ressurreição vitoriosa neles infunda coragem e confiança.
Queridos irmãos e irmãs! Cristo ressuscitado caminha à nossa frente para os novos céus e a nova terra (cf. Ap 21, 1), onde finalmente viveremos todos como uma única família, filhos do mesmo Pai. Ele está conosco até ao fim dos tempos. Sigamos as suas pegadas, neste mundo ferido, cantando o aleluia. No nosso coração, há alegria e sofrimento; na nossa face, sorrisos e lágrimas. A nossa realidade terrena é assim. Mas Cristo ressuscitou, está vivo e caminha conosco. Por isso, cantamos e caminhamos, fiéis ao nosso compromisso neste mundo, com o olhar voltado para o Céu.
Boa Páscoa a todos!

* Extraído do site do Vaticano. Revisado por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Cartas do P.e Aldo 188

Asunción, 11 de abril de 2011.

Caros amigos,
O sofrimento é a condição para a letícia do coração. E, não é que primeiro vem um e depois a outra, mas, desde aquele dia em que Cristo ressuscitou, eles caminham juntos. Porém, isto não acontece se o meu eu não estiver dominado por aquele “Tu, meu Cristo”, por aquele rosto que é a doce presença daquele “Tu que me fazes” agora.
Vivi esta experiência nestes dias quando, tendo minhas duas filhas voltado e tendo sido feitas as análises médicas, descobrimos que uma delas foi brutalmente violentada. Ela se lembra apenas de ter tomado um coquetel e ter acordado no quarto de um barraco. Dois dias depois de ter retomado a consciência de si e do que aconteceu, ela se agarrou à minha pessoa, contando-me os seus terríveis medos. E, depois, a resposta médica. “Se não fosse Teu, ó Jesus, eu seria uma criatura finita”. Eu estava, naquela noite, sentado com ela, os meus olhos vermelhos... eu não sabia o que dizer. Apenas olhava para aquele Tu. Num certo momento, lhe disse: “rezemos um Pai-Nosso” e ela aceitou. Porém, de repente, me vieram à mente as palavras: “perdoai as nossas ofensas, ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS A QUEM NOS TEM OFENDIDO”. Ela, brutalmente violentada, era chamada a decidir, naquele momento, acerca de algo humanamente impensável e, quem sabe, absurda para a capacidade humana. Falei-lhe com o meu coração na mão, com a certeza daquele Tu que morreu por nós, e lhe disse: “Olhando para como Jesus nos ama, você quer dizer comigo aquelas palavras?”. E, chorando, ela disse todo o Pai-Nosso. Que comoção, depois, rezando a Ave-Maria, como gratidão por uma energia humanamente impossível, como é a energia necessária para perdoar a quem, algumas horas antes, a violentou de forma tão brutal.
Não é que a raiva em mim e nela, como estado de ânimo, tivesse desaparecido, mas aquele juízo – e é o juízo que move a vida –, “eu sou Tu que me fazes agora”, no meio de tudo o que havia acontecido, é mais forte do que qualquer violência, e que “Tu, meu Cristo”, que morreste por nós e também por quem violentou minha filha, vence toda resistência emotiva, psicológica, dando espaço a uma grande letícia, na qual a dor permanece apenas como grito, como pedido: “Vem, Senhor Jesus”.
Padre Aldo

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Comentário ao evangelho do dia

2ª-feira da 5ª Semana Quaresma

1ª Leitura - Dn 13,1-9.15-17.19-30.33-62
Naqueles dias, na Balilônia vivia um homem chamado Joaquim. Estava casado com uma mulher chamada Susana, filha de Helcias, que era muito bonita e temente a Deus. Também os pais dela eram pessoas justas e tinham educado a filha de acordo com a lei de Moisés. Joaquim era muito rico e possuía um pomar junto à sua casa. Muitos judeus costumavam visitá-lo, pois era o mais respeitado de todos. Ora, naquele ano, tinham sido nomeados juízes dois anciãos do povo, a respeito dos quais o Senhor havia dito: "Da Babilônia brotou a maldade de anciãos-juízes, que passavam por condutores do povo". Eles frequentavam a casa de Joaquim, e todos os que tinham alguma questão se dirigiam a eles. Ora, pelo meio-dia, quando o povo se dispersava, Susana costumava entrar e passear no pomar de seu marido. Os dois anciãos viam-na todos os dias entrar e passear, e acabaram por se apaixonar por ela. Ficaram desnorteados, a ponto de desviarem os olhos para não olharem para o céu, e se esqueceram dos seus justos julgamentos. Assim, enquanto os dois estavam à espera de uma ocasião favorável, certo dia, Susana entrou no pomar como de costume, acompanhada apenas por duas empregadas. E sentiu vontade de tomar banho, por causa do calor. Não havia ali ninguém, exceto os dois velhos que estavam escondidos, e a espreitavam. Então ela disse às empregadas: "Por favor, ide buscar-me óleo e perfumes e trancai as portas do pomar, para que eu possa tomar banho". Apenas as empregadas tinham saído, os dois velhos levantaram-se e correram para Susana, dizendo: "Olha, as portas do pomar estão trancadas e ninguém nos está vendo. Estamos apaixonados por ti: concorda conosco e entrega-te a nós! Caso contrário, deporemos contra ti, que um moço esteve aqui, e que foi por isso que mandaste embora as empregadas". Gemeu Susana, dizendo: "Estou cercada de todos os lados! Se eu fizer isto, espera-me a morte; e, se não o fizer, também não escaparei das vossas mãos; mas é melhor para mim, não o fazendo, cair nas vossas mãos do que pecar diante do Senhor!". Então ela pôs-se a gritar em alta voz, mas também os dois velhos gritaram contra ela. Um deles correu para as portas do pomar e as abriu. As pessoas da casa ouviram a gritaria no pomar e precipitaram-se pela porta do fundo, para ver o que estava acontecendo, Quando os velhos apresentaram sua versão dos fatos, os empregados ficaram muito constrangidos, porque jamais se dissera coisa semelhante a respeito de Susana. No dia seguinte, o povo veio reunir-se em casa de Joaquim, seu marido. Os dois anciãos vieram também, com a intenção criminosa de conseguir sua condenação à morte. Por isso, assim falaram ao povo reunido: "Mandai chamar Susana, filha de Helcias, mulher de Joaquim!". E foram chamá-la. Ela compareceu em companhia dos pais, dos filhos e de todos os seus parentes. Os que estavam com ela e todos os que a viam, choravam. Os dois velhos levantaram-se no meio do povo e puseram as mãos sobre a cabeça de Susana. Ela, entre lágrimas, olhou para o céu, pois seu coração tinha confiança no Senhor. Entretanto, os dois anciãos deram este depoimento: "Enquanto estávamos passeando a sós no pomar, esta mulher entrou com duas empregadas. Depois, fechou as portas do pomar e mandou as servas embora. Então, veio ter com ela um moço que estava escondido, e com ela se deitou. Nós, que estávamos num canto do pomar, vimos esta infâmia. Corremos para eles e os surpreendemos juntos. Quanto ao jovem, não conseguimos agarrá-lo, porque era mais forte do que nós e, abrindo as portas, fugiu. A ela, porém, agarramos, e perguntamos quem era aquele moço. Ela, porém, não quis dizer. Disto nós somos testemunhas". A assembleia acreditou neles, pois eram anciãos do povo e juízes. E condenaram Susana à morte. Susana, porém, chorando, disse em voz alta: "Ó Deus eterno, que conheces as coisas escondidas e sabes tudo de antemão, antes que aconteça! Tu sabes que é falso o testemunho que levantaram contra mim! Estou condenada a morrer, quando nada fiz do que estes maldosamente inventaram a meu respeito!". O Senhor escutou sua voz. Enquanto a levavam para a execução, Deus excitou o santo espírito de um adolescente, de nome Daniel. E ele clamou em alta voz: "Sou inocente do sangue desta mulher!". Todo o povo então voltou-se para ele e perguntou: "Que palavra é esta, que acabas de dizer?". De pé, no meio deles, Daniel respondeu: "Sois tão insensatos, filhos de Israel? Sem julgamento e sem conhecimento da causa verdadeira, vós condenais uma filha de Israel? Voltai a repetir o julgamento, pois é falso o testemunho que levantaram contra ela!". Todo o povo voltou apressadamente, e outros anciãos disseram ao jovem: "Senta-te no meio de nós e dá-nos o teu parecer, pois Deus te deu a honra da velhice". Falou então Daniel: "Mantende os dois separados, longe um do outro, e eu os julgarei". Tendo sido separados, Daniel chamou um deles e lhe disse: "Velho encarquilhado no mal! Agora aparecem os pecados que estavas habituado a praticar. Fazias julgamentos injustos, condenando inocentes e absolvendo culpados, quando o Senhor ordena: 'Tu não farás morrer o inocente e o justo!'. Pois bem, se é que viste, dize-me à sombra de que árvore os viste abraçados?". Ele respondeu: "É sombra de uma aroeira". Daniel replicou: "Mentiste com perfeição, contra a tua própria cabeça. Por isso o anjo de Deus, tendo recebido já a sentença divina, vai rachar-te pelo meio!". Mandando sair este, ordenou que trouxessem o outro: "Raça de Canaã, e não de Judá, a beleza fascinou-te e a paixão perverteu o teu coração. Era assim que procedíeis com as filhas de Israel, e elas por medo sujeitavam-se a vós. Mas uma filha de Judá não se submeteu a essa iniquidade. Agora, pois, dize-me debaixo de que árvore os surpreendeste juntos?". Ele respondeu: "Debaixo de uma azinheira". Daniel retrucou: "Também tu mentiste com perfeição, contra a tua própria cabeça. Por isso o anjo de Deus já está à espera, com a espada na mão, para cortar-te ao meio e para te exterminar!". Toda a assistência pôs-se a gritar com força, bendizendo a Deus, que salva os que nele esperam. E voltaram-se contra os dois velhos, pois Daniel os tinha convencido, por suas próprias palavras, de que eram falsas testemunhas. E, agindo segundo a lei de Moisés, fizeram com eles aquilo que haviam tramado perversamente contra o próximo. E assim os mataram, enquanto, naquele dia, era salva uma vida inocente.

Evangelho - Jo 8,1-11
Naquele tempo, Jesus foi para o monte das Oliveiras. De madrugada, voltou de novo ao Templo. Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los. Entretanto, os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles, disseram a Jesus: "Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?". Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão. Como persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: "Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra". E tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. E eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio do povo. Então Jesus se levantou e disse: "Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?". Ela respondeu: "Ninguém, Senhor". Então Jesus lhe disse: "Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais".

Comentário feito por Santo Agostinho (354-430)
bispo de Hipona (Norte de África) e doutor da Igreja

Há um salmo que diz: "Deixai-vos instruir, juízes da terra!" (Sl 2,10). Os que julgam a terra são os reis, os governantes, os príncipes, os juízes propriamente ditos. [...] Que eles se instruam, porque se trata da terra que julga a terra, mas ela deve temer Aquele que está no céu. Eles julgam os seus iguais: o homem julga um homem, o mortal, um mortal, o pecador, um pecador. Se Nosso Senhor fizesse ressoar, no meio desses juízes, esta sentença divina: "Que o primeiro que estiver sem pecado, atire a primeira pedra", não começariam a tremer todos aqueles que julgam a terra? Aos fariseus que, para O tentar, Lhe tinham trazido uma mulher surpreendida em adultério [...], Jesus disse: "Vós quereis lapidar esta mulher como está prescrito na Lei. Pois bem, que aquele de vós que estiver sem pecado lhe atire a primeira pedra". Enquanto O questionavam, escrevia na terra, para "instruir a terra"; mas, quando lhes deu esta resposta, levantou os olhos, "olhou para a terra e ela estremeceu" [Sl 104 (103), 32]. Os fariseus, confusos e a tremer, vão-se embora, um após outro. [...] A pecadora ficou só com o Salvador: a doente com o médico, a grande miséria com a grande misericórdia. Olhando para esta mulher, Jesus diz-lhe: "Ninguém te condenou? ─ Ninguém Senhor" [...]. Mas ela permanece diante de um juiz que não tem pecado. «Ninguém te condenou? ─ Ninguém Senhor, e, se Tu próprio não me condenares, estou em segurança". Silenciosamente, o Senhor responde a esta inquietação: "Também Eu não te condeno. [...] A voz da consciência impediu os acusadores de te punirem; a misericórdia incita-Me a vir em teu socorro". Meditai nestas verdades e "deixai-vos instruir, juízes da terra".