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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Uma guilhotina para a razão

Por Paulo R. A. Pacheco

Aquilo a que alguns vêm chamando de "vitória jurídica", no caso da aprovação, por unanimidade, no STF, da união estável homoafetiva, só poderia ser assim chamada caso existissem duas forças jurídicas se antagonizando. O que não é, nem de longe, verdade: lembremo-nos de que a Carta Magna brasileira deixa bem claro aquilo que deve ser chamado "casamento", aquilo que deve receber o título de "família", eliminando, antes de qualquer conflito, toda e qualquer possibilidade de antagonismo - essa, por sinal, é a grande virtude de toda prescrição, vale dizer, descrever a ordenação dos fatos legais a partir da normalização, ou seja, da suposta ausência de casos contraditórios (não é preciso ser um grande sábio para saber que toda verdadeira norma, diga-se de passagem, não vem depois do delito, não é fruto do delito ou da necessidade de corrigir o delito a posteriori... a norma vem antes do delito e depois da identificação do Bem e do Justo e do Verdadeiro... é fruto da razão e não da reação). Lembremo-nos também de que não há, em parte alguma de nossa Constituição, impedimento implícito ou explícito para que, nos termos da lei, se estabelecessem contratos, de que natureza fossem, entre pares de mesmo sexo. Lembremo-nos, outrossim, de que o casamento civil ou o reconhecimento da união estável, para fins de proveito de benefícios, nada mais são que contrato registrado em cartório.
A vitória, evidentemente - e que, inclusive, é mister afirmar, fere a Constituição ao mudar o estatuto da célula social e fere o direito natural, ao estabelecer a definição de família a partir da opinião de um grupo (majoritário ou não, não interessa) - não é jurídica, mas ideológica. Vejam-se os votos proferidos pela totalidade dos senhores ministros do Supremo: não há um único caso de exercício inteligente da argumentação jurídica. Os "argumentos", quando muito, são tentativas medíocres de poetização do politicamente correto ou arremedos de justificação psicanalítica para o injustificável. Sim, a vitória foi da boçalidade e da ideologia. E não é preciso ser um jurista, um advogado, um "entendedor" de leis, basta ter um cérebro e saber usar a razão - atividade, a propósito, cada vez menos comum entre os homens na contemporaneidade.
Triste ver que o Supremo Tribunal Federal é feito de uma única voz... pior, de uma altissonante voz unida pela homologação do pensamento.
Vencendo-se essa primeira batalha ideológica, abre-se o precedente para que, aos poucos, se estabeleçam os "argumentos" (se é que se pode usar esta palavra no caso daquilo que nossos potentados do Judiciário vomitam) sobre os quais se construirão outras vitórias ideológicas, como a descriminação do aborto. Foi assim, no passado, quando a ideologia pró-divórcio venceu uma primeira batalha em prol do Estado Laico... plantando o conceito falacioso de que laicismo é sinônimo de laicidade. E o Estado, finalmente, depois de ter invadido nossos lares e mentes, invadirá nossos corpos... E as mulheres, "donas de seus corpos", descobrirão tarde demais que não dominam nada de si. E os homens e mulheres, finalmente livres para fazerem o que quiserem do "bônus" que carregam entre as pernas (metáfora usada pelo "ministro poeta" Ayres Brito), descobrirão tarde demais que o que fazem na intimidade não tem nada de privado.
Aumenta em mim o nojo por este estado de coisas. E temo pelo momento em que - talvez um pouco paranoicamente demais, é verdade - dizer do "nojo" pela mediocridade e pela patrulha do pensamento será crime passível de morte (e não exagero em dizer "morte"... porque todos sabemos que ela não precisa ser explicitamente corte de cabeças, à la iluminismo francês... basta que seja uma guilhotina usada contra a razão para que haja morte do quê de humano que define a pessoa).
Dixit.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Uma lição para Marilena

Por Paulo R. A. Pacheco

Há pouco menos de 10 anos atrás, eu acordava num hotel em Curitiba... enquanto me trocava para ir a um colóquio de filosofia no qual inscrevera um trabalho meu, liguei a televisão e me deparei com imagens que me chocaram: o WTC em chamas. Alguns minutos para me inteirar dos fatos e chegavam aos meus ouvidos as primeiras "informações" de que parecia se tratar de um atentado... pouco antes de desligar a televisão, a confirmação. Era o dia 11 de setembro de 2001.
Corri para a PUC do Paraná, onde acontecia o "IV Colóquio Internacional de Estudos Filosóficos do Século XVII - Liberdade, Necessidade e Contingência"... Estava absolutamente aturdido com tudo o que vira e ouvira. Sentei-me enquanto via a mesa da manhã se compondo. Não me lembro dos nomes de todos os membros, mas me lembro claramente de que a Prof.a Marilena Chauí coordenava a mesa e dava abertura aos trabalhos daquela manhã. Para minha surpresa, seu comentário inicial foi de uma infelicidade sem tamanho - mais tarde, entendi que comentários infelizes não são lapsos quando se trata dessa senhora, mas são traços do seu mau gosto intelectual: "Os que sempre se vangloriaram de ser a nação poderosa da liberdade aprenderam, hoje, finalmente, qual é o seu lugar no mundo". Um intertexto decorado com um sorriso cínico e o balouçar aprovador de cabeças "pensantes" deu um ar de sabedoria às palavras da ínclita personagem. Senti-me mal por participar daquilo. Ouvi duas ou três palavras do conferencista daquela manhã - um professor francês que se esforçava por mostrar a inteligência de Descartes na vitória sobre a hegemonia de pensamento da Igreja -, levantei-me e voltei para o hotel. Liguei a televisão. E telefonei para minha orientadora. Enquanto assistia à cobertura dos acontecimentos, conversava com ela, contando tudo o que ouvira pela manhã, e lhe dizia de minha vontade de não mais apresentar meu trabalho - a Prof.a Chauí, a propósito, coordenaria a mesa de comunicações da qual eu participaria na parte da tarde. Evidentemente, minha orientadora não permitiu que eu fizesse isso.
Almocei e, antes de voltar para a PUC, resolvi ir à missa... No caminho para a catedral, pensava no como podemos ser maus. Na liturgia daquele dia, se lia a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios: "E, quando tudo lhe estiver sujeito, então também o próprio Filho renderá homenagem àquele que lhe sujeitou todas as coisas, a fim de que Deus seja tudo em todos" (1Cor 15, 28)... Voltei para a PUC com aquelas palavras ressoando por dentro: "a fim de que Deus seja tudo em todos". E, aos poucos, o juízo anterior sobre a maldade, mudava em pergunta, em pedido: "como, Senhor, numa situação dessas, é possível haver Tua presença? Mostra-Te!".
De volta a Ribeirão Preto, no dia seguinte, soubera que, naquele 11 de setembro, a FFLCH/USP promovera, em São Paulo, a "Osama Bin Reagge"... Estranho? Não! Que algo do gênero tivesse sido proposto pela intelligentzia uspiana, tão bem formada por "cabeças" (?) como a de Marilena Chauí - alcunhada muito a propósito por Bruno Tolentino de Marxilena Xuxauí -, é esperado... e, o que mais assusta, é louvado naquele antro de lixo do pensamento.

Nesses dias, após o assassinato de Osama Bin Laden - o patrono do festim diabólico da Fefelech -, certamente deve estar pairando, nos ares da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, o cheiro da dor e do luto, misturado àquela maresia descolada que faz olhar para a morte de um líder do naipe do Osama como o nascimento de um novo mártir, que, muito seguramente, ocupará um lugar de destaque ao lado de ícones como o de Che Guevara. Nesses dias, após o assassinato de Osama Bin Laden - o professor que "ensinou aos EUA o seu lugar" -, me pergunto o que deve estar passando na cabeça da nossa mais aclamada pensadora: a preclara Prof.a Marilena Chauí. O que será que aprendemos disso, professora? Qual a extensão do sorriso cínico que se desenhará, agora, no seu rosto? Será feita festa sobre o cadáver do Osama com a mesma desenvoltura com a qual se fez festa sobre o cadáver de 3000 inocentes?
Não, a sua morte não é motivo de louvor, nem  de alegria... a morte de um não sacia a sede de justiça pela morte de três mil. Assim como a morte de três mil continuaria a ser insuficiente para saciar esta mesma sede infinita. Não, professora! Acredito que sua morte sirva apenas para que desperte nos corações aquela sede de justiça que, há dez anos atrás, me levou a perguntar e pedir: "como, Senhor, numa situação dessas, é possível haver Tua presença? Mostra-Te!". 
No seu Jesus de Nazaré, Bento XVI nos lembra que "somente se Jesus ressuscitou é que aconteceu algo de verdadeiramente novo, que muda o mundo e a situação do homem. Então Ele, Jesus, torna-Se o critério em que nos podemos fiar; porque, então, Deus manifestou-Se verdadeiramente". Somente Tua Presença, Senhor, muda o mundo e a situação do homem. Muda-nos, Senhor!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Não me abandone jamais

Por Simone Fortunato

Numa Inglaterra onde a expectativa de vida chegou aos 100 anos, graças a um rigoroso programa de doação de órgãos, as existências de três jovens doadores se cruzam

Um drama esplêndido, suave e sofrido, dirigido pelo diretor de um único filme, o interessante Retratos de uma obsessão, e de muitos videoclipes musicais. O seu nome é Mark Romanek e vale a pena sublinhá-lo, porque teve sucesso num empreendimento: dirigir um filme de ficção científica sem efeitos de nenhum tipo e sustentado apenas pela interpretação de três jovens atores – Keira Knightley, Andrew Garfield e Carey Mulligan –, um melhor que o outro, e sobretudo tomando da ficção científica seu verdadeiro núcleo não muito escondido: as perguntas pelo sentido. Deste ponto de vista, o filme, suspenso numa atmosfera indefinida e marcado pelas cores outonais, configura-se como um grande filme sobre a pergunta fundamental do ser humano. Quem sou eu? Qual é o meu destino? Para que sirvo? Por que viver e morrer? São as perguntas que os três protagonistas se fazem, sempre e continuamente. Eles as fazem na infância – o prólogo do filme – vivida entre os muros aparentemente quentes e acolhedores do internato Hailsham, gerido por uma diretora (Charlotte Rampling) maternal e severa quanto ao que respeita a relação com estes órfãos de pai e mãe e de destino marcado. Eles as fazem na relação que estabelecem entre si e nas contradições típicas da adolescência, quando a amizade e o amor se confundem, quando é preciso conviver com os sentimentos mais diversos e quando as pulsões sexuais parecem querer dominar tudo. Sozinhos, diante de um mundo que – exceção feita a um dos professores do internato – nem mesmo se dá conta da existência deles, os três jovens tentam, assim como conseguem, fazer companhia uns para os outros: acompanham-se no momento de enfrentarem uma dor que parece certa ou diante de um destino que parece predeterminado desde os primeiros momentos de suas vidas. No entanto, os três sonham que o amor e a amizade entre eles durarão para sempre, ou ao menos esperam obter do Poder uma prorrogação, alguns anos a mais, antes da separação inevitável. Esperam contra toda esperança.
São, pelo menos, dois os níveis através dos quais se pode ter acesso ao filme: o primeiro é eminentemente cinematográfico. Não me abandone jamais leva adiante o mesmo discurso de Gattaca, obra-prima da ficção científica das perguntas (anos 1990), e Romanek, através de um estilo sóbrio, sem frescuras, permanece fixo no essencial. Mais do que o non sense de um mundo no qual o progresso tecnológico reduziu o homem a objeto de consumo, o que conta mesmo é o coração destes jovens que amam, esperam, vivem e sofrem diante das contradições da vida que pertence a todos, de forma que amam para sempre, não obstante o amor seja, por sua natureza terrena, finito. Saint-Exupéry escreve n’O Pequeno Príncipe: “A prova de que o Pequeno Príncipe existiu está no fato de que era muito bonito, ria e queria uma ovelha. Quando alguém quer uma ovelha é a prova de que existe”. A prova de que os três jovens existem e são homens é que se amam e desejam que seja para sempre o amor que sentem. Neste sentido, Romanek, de um ponto de vista estilístico, retoma com grande respeito o cinema de Kubrick, cujo 2001, além de ser a obra-prima definitiva do cinema das perguntas fundamentais da vida, é também um dos filmes de culto do diretor de Retratos de uma obsessão. A mesma abordagem científica, a mesma aparente frieza quanto ao sofrimento dos protagonistas, que parecem deixados sozinhos, abandonados a si próprios. No entanto, a bem da verdade, assim como, no final de Glória feita de sangue, ou em alguns momentos de Barry Lyndon e do mesmo 2001, Kubrick chora silenciosamente as muitas crueldades que o Destino infringe aos seus personagens, assim também faz Romanek, nas sequências que se passam no hospital com os protagonistas doadores e no final, cheio de espera diante de um horizonte bastante sugestivo.
A segunda chave de leitura é a metafórica e simbólica. O filme, apenas a partir de uma análise inicial bastante superficial, fala do outro de nós, de outro lugar e de outro tempo. Na realidade, Não me abandone jamais fala do aqui e do agora. É possível ver isso nos tons de contos de fadas e também kafkianos do prólogo; é possível ver isso também na falta quase absoluta de referências espaço-temporais; mas, sobretudo, é possível ver isso na ideia de fundo do filme, ou seja, a de que somos todos “doadores”.
Ficha técnica
Título original: Never let me go
Gênero: drama
Duração: 1h45min (105 minutos)
Ano de lançamento: 2010
Site oficial: http://www.foxsearchlight.com/neverletmego/
Diretor: Mark Romanek
Elenco principal: Carey Mulligan, Andrew Garfield, Keira Knigtlley
Temáticas: sentido da vida, morte, doença, amizade, amor, clonagem
Censura: 12 anos
Sinopse: Ruth, Kathy e Tommy cresceram juntos em um internato, na Inglaterra. Já jovens adultos, os três são obrigados a encarar a verdade sobre a infância.
Avaliação: imperdível
* Texto extraído do site Sentieri del Cinema. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco. 

Postagens de hoje

Também eu, Pai, te louvo com todos esses meus irmãos, e eles dão voz ao meu próprio coração e ao meu próprio silêncio. Somos todos um silêncio e uma diversidade de vozes.

Deus, "Aquele que É", revelou-Se a Israel como Aquele que é "cheio de misericórdia e fidelidade" (Ex 34, 6). Estas duas palavras exprimem, de modo sintético, as riquezas do nome divino. 

Por certo, os oposicionistas para serem ouvidos precisam ter o que dizer. Não basta criar um público, uma audiência e um estilo, o conteúdo da mensagem é fundamental. Qual é a mensagem? O maior equívoco das oposições, especialmente do PSDB, foi o de haver posto à margem as mensagens de modernização, de aggiornamento do País, e de clara defesa de uma sociedade democrática comprometida com causas universais, como os direitos humanos e a luta contra a opressão, mesmo quando esta vem mascarada de progressismo, apoiada em políticas de distribuição de rendas e de identificação das massas com o Chefe.

Se nós ousamos definir a situação do homem contemporâneo como estando longe das exigências objetivas da ordem moral, longe das exigências da justiça e, ainda mais, do amor social, é porque isto é confirmado por fatos bem conhecidos e por confrontos que se podem fazer e que, por mais de uma vez, já tiveram ressonância direta nas páginas das enunciações pontifícias, conciliares e sinodais.

O belo deste livro é que estas verdades profundas e elementares não advêm de um tratado de filosofia política, mas de pessoas reais, de testemunhas do nosso tempo.

Quem é guiado pelo amor, quem vive a caridade plenamente, é guiado por Deus, porque Deus é amor. Assim, vale esta grande palavra: "Dilige et fac quod vis", "Ama e faze o que quiseres".

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Entre o esquecimento e a memória, a espera

Por Paulo R. A. Pacheco

Antes de nascer o mundo conta uma estória: cinco homens, três mulheres, um homem perdido e buscado e uma jumenta; personagens de um drama que se desenrola entre Jerusalém e o Lado-de-lá, num Moçambique que emerge, realista e poético, das mãos escrevinhadoras de Mia Couto.

Para ler mais, clique aqui.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Beagá: uma decepção...

Por Paulo Roberto de Andrada Pacheco

Sou belorizontino e, há 5 anos, por força das circunstâncias, mudei-me para São Paulo. Todos os anos, porém, no fim do ano, vou para minha terra natal, onde reencontro a família e os amigos. Ano após ano, me surpreendo com as mudanças na cidade. E também, ano após ano, sou obrigado a me lembrar de como, “antigamente”, a ideia do “progresso” era vista quase como um contra valor, escravos que éramos não de uma verdadeira tradição, mas de um artificialismo sem raízes.
No final do ano passado, pela primeira vez, eu e minha esposa tivemos o Aeroporto de Confins como meta de nossa viagem – as viagens de avião sempre tiveram Confins como ponto de partida e certeza de retorno. Ali chegando, fomos recebidos por familiares. No caminho para Belo Horizonte, à noite, a surpresa com a Linha Verde e com a Cidade Administrativa, as luzes de Natal aqui e ali. No pensamento, entre comovido, espantado e orgulhoso, se formava uma expressão: “minha cidade está crescendo”... E fui buscando sinais de um crescimento sólido, um crescimento que não fosse sinônimo de abandono de identidade, como tantas vezes se vê por aí.
Mas, os dias passaram e o que vi foi me envergonhando, foi me assustando, foi me entristecendo: na rua com calçamento de pedra, onde fica a casa da família de minha esposa, no Carlos Prates, mato com um metro e meio de altura e a queixa dos moradores de que a Prefeitura, em poucas palavras, estava pouco se importando; fezes de cachorro espalhadas por todas as ruas por onde tive a oportunidade de andar; na Savassi, esperando um ônibus, um rapaz termina sua cerveja e, na maior falta de cerimônia, lança a latinha no meio da rua, e é seguido por outro que, passando de carro, faz o mesmo enquanto o sinal estava fechado; num boteco, ao lado do Minas Centro, uma garçonete, depois de abrir cada garrafa de cerveja ou de refrigerante, joga a tampinha na calçada; pedintes e pessoas sujas e desocupadas vagabundeando pelas ruas; de dentro do ônibus, uma criança, sentada ao lado do que parecia ser sua mãe, com muita naturalidade, vai descascando as balas que come e jogando o papel pela janela; jovens e marmanjos com fone de ouvido, esculhambados, fingindo dormir, refestelados nos assentos reservados dentro dos ônibus, enquanto idosos e gestantes – como é o caso de minha esposa – fazem a viagem de pé; funcionários de bancos, atendentes de loja, grosseiros, ineficientes e mal-educados; desrespeito em todas as filas preferenciais de supermercados e de bancos que tivemos a oportunidade infeliz de enfrentar; sujeiras nas ruas e nas calçadas de todos os bairros por onde andamos; passando pela Avenida Antônio Carlos, em direção à Pampulha – em busca de algum refresco para os olhos –, a tristeza por ver sacos de lixos entulhados em gramados, papéis espalhados por todos os canteiros, lixeiras destruídas, pichações, sujeira e mais sujeira para onde os olhos se viravam; no entorno da Lagoa, asfalto descuidado, calçadas descuidadas, monumentos descuidados; no centro da cidade, o que dizer?, não encontramos uma só calçada limpa; nas ruas, motoristas sem o menor respeito, fazendo conversões sem ligar a seta, ultrapassando sinal vermelho, dirigindo de forma desrespeitosa; motoristas de ônibus que não param no ponto destinado, que arrancam o veículo atabalhoadamente; poluição visual, com placas e outdoors de gosto, no mínimo, duvidoso; faixas espalhadas pela cidade; placas de anúncio em lojas com erros absurdos de português; carrinhos de som, fazendo propaganda em altíssimo volume, no Barro Preto; cidadãos que não respeitam a lei do silêncio após às 22h; bares que invadem calçadas e que passam a noite e a madrugada atendendo clientes, que se embebedam e perdem a noção do respeito e da civilidade; manadas de adolescentes mal-educados que, durante a madrugada, se divertem, no centro da cidade, gritando e soltando fogos de artifício; igrejas pentecostais – católicas e protestantes – que se acham no direito de colocar aparelhos de som do lado de fora para fazer um proselitismo insuportável, ensurdecedor, agressivo e invasivo; uma sensação constante de insegurança ao andar no centro da cidade; tapumes imundos, cheios de cartazes imundos, invadindo calçadas imundas; cheiro de urina e de fezes no adro da Igreja São José; na Feira Hippie, muito – mas muito mesmo – lixo no chão e lixeiras enormes espalhadas por vários pontos da feira absolutamente vazias; buracos e mais buracos nas calçadas... Enfim, senti vergonha! Pela primeira vez em toda a minha vida, senti, de verdade, vergonha de ser belorizontino.
Finalmente, como a vergonha sozinha não significa muito, e como minha indignação já estava se tornando por demais irada, resolvi parar para pensar nos motivos disso tudo, resolvi tentar entender o que estava acontecendo. E me lembrei do que um amigo costumava dizer acerca do belorizontino: “vocês sempre falam de si assim: 'ah! Minha família é de...', 'meu pai nasceu em...', 'minha mãe é natural de...'. Vocês nunca falam de si como sendo 'belorizontinos' ou 'sou de Belo Horizonte'”. Essa frase esconde uma verdade que comecei a entender mais claramente: Belo Horizonte é mesmo uma cidade artificial, é uma cidade que se fundou não sobre a tradição, mas sobre tradicionalismos, é uma cidade sem raízes, é uma cidade sem história. Vejam-se nossos museus... um exemplo claro é o Museu Abílio Barreto, que deveria contar nossa “história”, e no entanto é apenas um simulacro mal-ajambrado. Ou, pergunte-se às novas gerações dados sobre essa “nossa história”. Ou ainda, procurem-se prédios históricos preservados... Por anos, vivemos obstaculizando todo e qualquer crescimento, afirmando, orgulhosos, ainda sermos a “roça iluminada”. De repente, por força das exigências e das decisões políticas de âmbito nacional e estadual e – por que não? – internacional, a cidade cresce... meio sem planejamento, meio com planos monumentais. Mas, no fundo, o “progresso” desejável que chegou, veio acompanhado de um rompimento com a única coisa que dava solidez ao ser-belorizontino, a única tradição que havia realmente fincado raízes profundamente ali (e também no meu coração)... Se o “temível progresso” era para ter chegado daquele jeito, de fato, era preferível aquela sujeição ao tradicionalismo artificial que nos movia. Para progredir, Beagá arrancou do solo aquela tradição de amor à beleza e de respeito que fizeram de mim alguém que se orgulhava em dizer “sou belorizontino”... E a ferida que se abriu no solo dessa cidade, sem dúvida não se cobrirá com asfalto e projetos monumentais... vai ser preciso reeducar o povo. A propósito, educação é, definitivamente, um tema a ser enfrentado... mas, isso é pretexto para um novo texto!

* Este texto foi enviado - com poucas diferenças - para o jornal Estado de Minas, no entanto não foi publicado.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Humm! Qualquer semelhança...

Há quase 80 anos atrás, no dia 10 de fevereiro de 1933, Joseph Goebbels, então futuro Ministro do Povo e da Propaganda do governo nazista, pronunciava o discurso abaixo (traduzido pelo Reinaldo Azevedo e que pode ser lido na íntegra aqui)... 11 dias depois, o adorável Adolf Hitler assumia como Chanceler da Alemanha...
Leiam um trecho do seu discurso... é preciso muito pouco para torná-lo um discurso que cabe muito bem na boca dos "inteliquituais" - nossos Ministros do Povo e da Propaganda (ou, para usar uma imagem bastante conhecida dos leitores de Orwell, Ministros da Verdade) - que assombram nossas universidades... Ai, ai! E a história se repete... e a impressão que tenho é que nada, ou muito pouco, se aprendeu... ou estamos de tal forma anestesiados e vacinados contra a verdade e os fatos que de nada adianta afirmá-los.

Companheiros,
Antes de o encontro começar, gostaria de chamar a atenção para alguns artigos da imprensa de Berlim que asseguram que eu não deveria merecer a atenção das rádios alemãs, uma vez que sou insignificante demais, pequeno demais e mentiroso demais para poder me dirigir ao mundo inteiro.
Nesta noite, vocês testemunharão um evento de massa como nunca aconteceu antes na história da Alemanha e, provavelmente, do mundo.(…)
Quando a imprensa judaica reclama que o movimento Nacional Socialista tem a permissão de falar em todas as rádios alemãs por causa de seu chanceler, podemos responder que só estamos fazendo o que vocês sempre fizeram no passado. Há alguns anos, não falávamos da boca pra fora quando dizíamos que vocês, judeus, são nossos professores e que só queremos ser seus alunos e aprender com vocês. Além disso, é preciso esclarecer que aquilo que esses senhores conseguiram no terreno da política de propaganda durante os últimos 14 anos foi realmente uma porcaria. Apesar de eles controlarem os meios de comunicação, tudo o que conseguiram fazer foi encobrir os escândalos parlamentares, que eram inúteis para formar uma nova base política.(…) Se hoje a imprensa judaica acredita que pode fazer ameaças veladas contra o movimento Nacional-Socialista e acredita que pode burlar nossos meios de defesa, então, não deve continuar mentindo. Um dia nossa paciência vai acabar e calaremos esses judeus insolentes, bocas mentirosas! E se outros jornais judeus acham que podem, agora, mudar para o nosso lado com as suas bandeiras, então só podemos dar uma resposta: “Por favor, não se dêem ao trabalho!”
Ademais, os nossos homens da SA e os companheiros de partido podem se acalmar: a hora do fim do terror vermelho chegará mais cedo do que pensamos. Quem pode negar que a imprensa bolchevique mente quando o [jornal] Die Rote Fahne, este exemplo da insolência judaica, se atreve a afirmar que o nosso camarada Maikowski e o policial Zauritz foram fuzilados por nossos próprios companheiros?
Esta insolência judaica tem mais passado do que terá futuro. Em pouco tempo, ensinaremos os senhores da Karl Liebnecht Haus [sede do Partido Comunista] o que é a morte, como nunca aprenderam antes. Eu só queria acertar as contas com os [nossos] inimigos na imprensa e com os partidos inimigos e dizer-lhes pessoalmente o que quero dizer em todas as rádios alemãs para milhões de pessoas.

Chesterton (2010), numa obra recentemente traduzida para o português - O homem eterno -, numa determinada altura do texto, faz uma longa sequência de argumentação acerca de uma certa tendência dos intelectuais em assumir falácias como se fossem verdades. Obviamente, que não o fazem ingenuamente... Ingênuo seria pensar que o fazem ingenuamente. Segundo ele, infelizmente há uma falácia que é muito fácil de ser assumida como verdadeira: "a falácia da suposição de que, pelo fato de uma ideia ser maior no sentido de mais ampla, ela é, por consequência, maior no sentido de mais fundamental, fixa e certa" (p. 77). Segue-se a essa afirmação um exemplo para ilustrá-la. Mas, podemos nos valer de um exemplo que nos é muito mais próximo: o lulo-petismo e toda a sua verborragia cheia de números acerca das melhorias sociais a que se chegou no país. Uma ideia, por mais ampla que seja, não é mais fundamental, fixa e certa. Converse (falo portanto daqueles com quem se pode conversar... porque há aqueles com quem é impossível um diálogo, visto que sequer levantam a cara da grama) com um petista e se entenderá o que estou dizendo: logo vem uma inundação de números para provar que, para que o miserável venha a ser pessoa, antes é necessário que tenha comida na barriga... Por mais vasta que seja a dedução a que chegam no seu "raciossímio", não passa de uma dedução... não é, portanto, uma verdade! Não é, portanto, nem fundamental, fixa nem certa, porque "embora a contradição possa lhes parecer um paradoxo, isso é exatamente o contrário da verdade. É a realidade grande que é secreta e invisível; é a realidade pequena que é evidente e enorme" (Chesterton, 2010, p. 79). Em outras palavras: enquanto se olhar para a enormidade dos números (que por verdadeiros que sejam são apenas deduções e não verdades), não se olhará para a pessoa, essa realidade "evidente e enorme", que não é aquilo que o Estado pensa dela... especialmente este Estado que se coloca acima do bem e do mal e que substitui a ontologia pelo moralismo... especialmente este Estado que, arrancando-nos o Ser e tudo que a Ele representa, arranca-nos a dignidade humana, arranca-nos a liberdade, arranca-nos o próprio ser, matando-nos aos poucos na medida em que nos imbeciliza e "mediocriza".

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O nome disso é fé?

Soube, por ouvir dizer,
da graça de experimentar tudo fazer
como que de nada depender,
sabendo que depender
é a condição do humano viver.

terça-feira, 22 de junho de 2010

De Arte Voluntatis


O "De Arte Voluntatis" também está de cara nova, pessoal! Depois de um mês sem atualização, retomei a tradução da obra do sacerdote jesuíta Juan Eusebio Nieremberg. Postei o Capítulo II do IV Prelúdio (do primeiro livro), hoje no final da manhã. Ajudem a divulgar!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Pílulas de memória 36: imagem


Almoço na Casita de Belém. P.e Aldo cercado pelas crianças.

Pílulas de memória 35: imagem


A Casa de Recuperação de Menores Virgen de Caacupé.

Pílulas de memória 34: imagem


Míriam, Rai e Quitéria escutando Pedro, na Biblioteca da Casa de Recuperação de Meninos.

Pílulas de memória 33: imagem


Pedro cercado pelos visitantes.

Pílulas de memória 32: imagem


P.e Paolino, P.e Aldo e P.e Julián, na churrascaria Acuarela.

Pílulas de memória 31: imagem


Ruben e Patrícia (assentados), nas mesmas noite e ocasião.

Pílulas de memória 30: imagem


P.e Aldo, Patrícia (assentada), Rose, Irmã Sônia e Celeste (assentada ao lado de sua mãe), na Pizzaria "O Sole Mio", depois da Procissão com o Santíssimo, na noite do segundo dia.

Pílulas de memória 29: imagem


P.e Aldo mostrando fotos no computador.

Pílulas de memória 28: imagem


Rose, Celeste e Míriam, depois da Procissão com o Santíssimo, quando P.e Aldo nos quis mostrar as fotos antigas de Celeste.

Pílulas de memória 27: imagem


Uma panorâmica do café da manhã com os responsáveis pela obra do P.e Aldo.

Pílulas de memória 26: imagem


Ao fundo, Rai e P.e Marco; em primeiro plano Renata; ao centro uma colaboradora das obras de P.e Aldo.