Mostrando postagens com marcador Meeting. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Meeting. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Cartas do P.e Aldo 204


Asunción, 6 de setembro de 2011.

Caros amigos,
Um fato ocorrido nas últimas semanas me colocou diante da contemporaneidade de Cristo e, portanto, se tornaram um grande possibilidade para fixar nos olhos, de maneira intensa, Jesus.
Eu já estava com as passagens aéreas no bolso para ir à Itália, quando, numa tarde, os médicos e o diretor da clínica chegaram no meu escritório e me disseram: “Padre Aldo, seu filho Aldo [meu filho adotivo, portador de gravíssimas deformações físicas] está muito doente e não temos certeza de que conseguirá sobreviver. Gostaríamos que ele permanecesse aqui na clínica e não fosse enviado a um hospital, onde acabaria sendo deixado morrendo, enquanto que nós queremos acompanhá-lo em sua morte”. Vi-me, uma vez mais, diante de uma decisão: estão me esperando no Meeting e, aqui, os médicos me dizem que meu filho está com os dias contados. O que fazer? Fico e atraso em alguns dias a partida, a fim de ver se ele melhora, ou desisto de ir ao Meeting? Uma escolha difícil porque estavam em jogo os últimos dias do meu filho. E um filho, especialmente quando é adotivo, é a sua mesma carne, ainda mais porque é fruto de uma gratuidade total. Alguns me disseram: como é que o senhor pode ir, deixando-o sozinho, ao invés de acompanhá-lo nas suas últimas horas? Eu sentia meu coração em pedaços, sentia em mim um sentimento que me dizia: você deve ficar. Porém, uma vez mais eu me perguntei: o que Cristo pede de mim, neste momento?
E dois juízos me ajudaram a tomar a decisão de ir. O primeiro: aquele filho me foi dado e se Cristo decidiu pedi-lo de volta, quem sou eu para não devolvê-lo? O segundo: a realidade me pede para estar presente no Meeting e em La Thuile, onde acontecerá a assembleia internacional. Ou seja, a realidade me chama a estar onde estão aqueles amigos que mais me lembram que “É o Senhor”, os amigos que mais me mostram o rosto de Jesus. E eu preciso disto porque, do contrário, não consigo enfrentar a vida todos os dias e nem mesmo o dia de meu filho, que, seja como for, não morrerá sozinho, mas na companhia dos meus amigos da clínica. E assim, peguei o avião com a grata surpresa de que me filho se recuperou. É impressionante ver como Deus me educa a ser livre, ou seja, a confiar no seu desígnio que, qualquer que seja, é sempre positivo, mesmo quando, no momento, parece ser injusto e você preferiria se rebelar. Dizer “Tu, meu Cristo” nunca é algo óbvio, mas se dá sempre dentro de um abandono seu, cheio de dor, cujo resultado é uma estranha letícia.
Os filhos não são algo que nos pertence, e só o são quando amamos o desígnio de Deus sobre eles, mesmo quando isso coincide com o fato de eles nos serem tirados. É assim que me acontece todos os dias. Assim como a cada vez a dor é sempre maior, porque quanto mais Cristo o agarra, tanto mais você se descobre vulnerável, tanto mais você sofre. Se antes de encontrar Jesus nem mesmo uma “pedrada na cabeça” movia o meu coração, agora que Cristo me tomou, basta um grão de areia para que eu sinta toda a dor que me circunda.
Amar, ou seja, deixar-se tomar por Cristo é sofrer e sofrer é amar. E quanto mais você é de Cristo, tanto mais você sofre; e tanto mais você sofre, quanto mais você busca Cristo. Ou, para dizer mais claramente, Cristo nos torna mais vulneráveis, mais sensíveis, mais atentos a cada detalhe.
Rezem por mim e por meus filhos.
Com afeto,
Padre Aldo

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O eu renasce em um encontro



Rímini, 28 de agosto de 2010.

Fabrice Hadjadj nasceu em 1971, em Nanterre. É filósofo e intelectual francês, de cultura judaica, converteu-se ao cristianismo em 1988. Colabora com Figaro Littéraire e Art Press, ensina filosofia e literatura na escola católica Sainte-Jeanne-D'Arc de Brignoles. Autor de diversos livros, venceu, em 2006, o Grand Prix Catholique de literatura. O texto abaixo é a transcrição da conferência proferida pelo filósofo no âmbito do Meeting pela Amizade entre os Povos, edição de 2010, no dia 28 de agosto de 2010. A conferência pode ser assistida aqui.

Por Fabrice Hadjadj
Obrigado. Fico muito feliz de estar aqui com vocês. Retorno este ano, depois de minha participação no ano passado, tendo tido, por isso mesmo, a oportunidade de reencontrar amigos. Gostaria de agradecer especialmente ao Padre Carrón que me convidou, e também ao meu amigo Ugo Moschella que tinha traduzido para o italiano essa minha conferência, porque eu havia pensado em proferi-la em italiano, mas me dei conta de que era um exercício de ventríloquo muito difícil e que, fazendo esse exercício, não conseguiria entender quem seria o ventríloquo e quem seria a marionete. Por isso, escolhi lê-la em francês.
Seja como for, meu embaraço é grande: tenho que falar com vocês sobre um livro cujo título é L’io rinasce in un incontro [O eu renasce em um encontro, ainda não traduzido para o português; ndt], que me coloca numa situação extremamente difícil porque, se este título diz a verdade, se esta conferência neste meeting é um momento do Meeting, e portanto se esta conferência é um encontro, então devo falar de modo tal que possamos renascer, devo experimentar, de alguma maneira, fazer um exercício de ressurreição e é exatamente isso que, no fundo, todos nós estamos esperando. Por que estamos aqui? Por que tantos e de tantos lugares distantes? Será que para receber informações suplementares e encher nossa cabeça como se enche uma enciclopédia? Mas, por maior que seja a nossa cabeça, um dia, deverá cair; e não fará outra coisa melhor do que cair com o peso de todo este saber morto, que já era mortal em si mesmo desde o momento em que não nos fez nos darmos conta da esperança de uma ressurreição. Mas, uma vez dito isto, eis que um peso insustentável pesa sobre mim, ou melhor, uma insustentável leveza pesa sobre nós, porque, como fazer para ressuscitar, como fazer para que o nosso encontro seja um renascimento? Mas, pode acontecer que a pergunta tenha sido mal colocada, porque talvez não se trate tanto de fazer, pois se se tratasse de fazer a partir do meu projeto, a partir do meu discurso, um discurso brilhante, um discurso que seduz a plateia, não haveria nenhum encontro, nenhum acontecimento, porque tudo seria o efeito de um programa e perderia, portanto, o frescor exuberante de um nascimento. Então, como fazer para que não seja apenas um fazer? Como se dispor ao encontro, como permitir que o encontro aconteça de tal forma que fiquemos prontos a nos deixarmos transformar por aquilo que acontece? E como ser transformado pelo outro de tal modo que a mudança não seja uma alienação, mas uma realização, uma ressurreição? A dificuldade não é apenas a de se dispor a um renascimento, mas também é a de reconhecer aquilo que pressupõe este renascimento. Com efeito, alguém poderia objetar: “Por que renascer? Já não nasci? Já não sou eu mesmo? Por que teria necessidade de um encontro para que o meu eu possa renascer?”. De fato, para desejar renascer, é preciso, em primeiro lugar, reconhecer que se está morto. Isso, frequentemente, é esquecido, mas apenas com um bom morto é que se pode fazer um bom ressuscitado. A boa notícia, a boa nova da misericórdia infinita pressupõe a má notícia da nossa miséria infinita, e o meu embaraço – embaraço especial, vocês vão entender – é o de ter que fazer esta constatação diante de vocês: “cada um de nós está morto”. Eu estou morto, talvez não biologicamente, mas espiritualmente, lá onde não entro no encontro, não me abro ao outro, ignoro a existência do meu coração.
Usei a palavra coração. Esta mesma palavra que se encontra no centro deste Meeting. Mas, o que é o coração? Um músculo, mas um músculo estranho porque é um músculo oco, que acolhe em si outro diferente de suas próprias fibras. E também porque, diferentemente dos outros músculos, não depende diretamente da minha decisão. Os 17 músculos da minha língua se ativam em seguida à minha vontade de falar, e se escolho mover a mão é graças a músculos que obedecem ao meu querer; mas o meu coração bate sem que eu lhe ordene. Começou a bater antes mesmo que eu tivesse começado a exercitar a minha vontade, e bate numa velocidade que não fui eu que decidi. É assustador: o centro de mim mesmo não está em meu poder. Aquilo que eu tenho de mais fisicamente íntimo me escapa e, pior, o meu coração bate o seu tum-tum sem me consultar e, portanto, pode parecer para mim como uma espécie de hóspede selvagem, um membro de uma tribo primitiva que bate o ritmo de uma dança canibal. Porque eu sei que, da mesma forma que começou a bater sem que eu o quisesse, pode muito bem parar de bater daqui a pouco sem que, ao menos, nesse caso, eu o queira, e será o fim da dança, será o momento no qual a vítima deverá ser consumida. Assim, o coração é o sinal do ser recebido, mas também do ser oferecido. O sinal de que não me dei a vida, mas também de que devo oferecer a minha vida se não quero apenas perdê-la, porque, seja como for, todo o sangue que escorre deverá ser derramado, mas para quê? Para qual ressurreição? Dom Giussani escreve: “a verdade da vida é o seu relacionamento com o mistério de onde nasce, de que nasceu”. Nasce porque ninguém se dá o instante que vive. Trata-se de uma verdade muito concreta – que as batidas do nosso coração se repetem continuamente, no nosso pescoço, nas nossas têmporas, nas nossas orelhas – uma verdade que não paramos de cobrir com uma manta de ruídos para acreditar que somos os artífices da nossa existência.
O sinal de que a vida é, em cada momento, recebida para ser oferecida pode ser observado também em outro lugar, por exemplo, no nosso umbigo. Costuma-se dizer “olhar para o próprio umbigo”, para falar do egoísta, do vaidoso, também para falar daquele que se toma como o centro do universo; mas se você olha de verdade para o próprio umbigo o que descobre? Uma cicatriz, a sua primeira cicatriz que é o testemunho inefável do seu relacionamento com um outro, da sua relação com sua mãe que foi, para você, a primeira morada, e se você não a tivesse encontrado, nunca teria nascido. Assim, o nosso umbigo nos recorda a nossa dependência original de um outro, nos recorda que não somos feitos por nós mesmos e que, no meio de nós mesmos, tem esta ferida que é o sinal de um dom, esta ferida que nos chama a dar, a não temer as feridas se forem para dar a vida.
Outro sinal semelhante ao coração e ao umbigo, mas que nos remete do corporal ao espiritual e que, portanto, nos é apenas um sinal, mas é a prova de que toda a nossa pessoa, corpo e alma, vive apenas por causa do encontro e de dentro do encontro, este outro sinal é a nossa palavra. Assim como se fala em “olhar para o próprio umbigo”, em francês se diz também “escutar-se falar”; mas, ainda uma vez, se você se escutasse de verdade, o que ouviria? Entonações que você herdou do seu pai ou da sua mãe, do seu irmão, ou de um professor admirado, mas sobretudo escutaria as palavras e uma gramática, toda uma língua que você não criou, que você recebeu das vozes dos seus pais como um dom encantado das fadas que sobrevoavam o seu berço; e se você começa a dizer “não quero a comunhão com vocês”, se você diz algo assim, você se contradiz duas vezes. Contradiz-se uma primeira vez porque você se volta ainda aos outros e tem necessidade de voltar-se aos outros para afirmar a sua posição e, portanto, você demonstra, dessa forma, uma necessidade, ainda que negativa, de comunhão. E você se contradiz  uma segunda vez porque as suas palavras provêm já de uma comunhão, de uma comunidade linguística, e mesmo que você fale sozinho sempre será escuta e direção, resposta e pergunta essencialmente ao outro. Assim, a sua língua é como o seu coração: está em você, na sua boca e testemunha que você não se deu a sua vida sozinho e que a vida não é uma propriedade sua. Ela testemunha, apesar de você, um encontro; testemunha, apesar de você, uma esperança. Por exemplo, antes você disse “bom dia” e, por trás disso, havia, apesar de você, o chamado de atenção para um dia verdadeira, inteira e absolutamente bom, a invocação da glória. Ou ainda: você disse “até logo”, e isso significa que, com a sua boca, você anunciou o desejo de rever o outro e, ainda e sempre, mesmo que com o seu tu superficial você tenha achado esse outro antipático ou tenha exclamado “que vida de merda”, ainda assim, como poderia dizer isso se não tivesse em você, apesar de você, o pressentimento de uma vida melhor, mais viva, eterna e alegre? Sem este pressentimento, sem esta esperança, tal exclamação não estaria na sua boca e você encontraria a merda de que mais gostasse. É possível entender, portanto, a verdade profunda desse versículo do Deuteronômio: “Este mandamento, que hoje te ordeno, não te é encoberto, e tampouco está longe de ti (...). Esta palavra está mui perto de ti, na tua boca, e no teu coração, para a cumprires”.
Sei que muitos dos que estão aqui conheceram um renascimento através do encontro com Dom Giussani. Talvez porque Dom Giussani era um orador mais brilhante do que os outros? Não, mas porque era mais pobre, mais pobre de espírito do que muitos outros e, por isso, não conduzia simplesmente os homens a si, mas através de si os conduzia à fonte, à origem, à luz, chamando a atenção dos homens assim para eles mesmos, para a sua própria originalidade. Era suficientemente pobre para ser transparente, suficientemente pobre para não ser brilhante, mas luminoso, não capturando a luz para si mesmo mas deixando-a passar através de si. Também o fruto desse encontro – como de todo encontro verdadeiro – não é o fornecimento de novas informações, como uma reportagem sobre um país estrangeiro, mas muito mais a renovação daquilo que existe já desde sempre, o reviver de uma Presença. Isso é incomparavelmente mais importante, porque está em jogo não o saber algo a mais, sempre a mais, sem fim, para divertir-se melhor, para se distrair melhor, mas para retornar, retornar para o fato de nossa existência e descobri-lo como um fato mais fadado que fatal. Algo existe, eu sou, eu existo, eu dou testemunho. É este o primeiro fato, é este fato que é a verdadeira atualidade, o verdadeiro acontecimento, princípio de todos os outros com a sua pergunta própria: “Por que estou aqui?”. O desafio é, portanto, não o de se fabricar uma resposta imaginária e artificial, mas tomar consciência daquilo que somos, daquilo que se joga na nossa língua e no nosso coração, escutar esta palavra que está muito próxima de você, na sua boca e no seu coração para que você a viva finalmente.
Como Giussani escreve no livro L’io rinasce in un incontro, vivemos numa fragilidade de consciência maior, uma fragilidade que não é ética, mas de energia da consciência. A fragilidade não é nem ética nem científica. As soluções científicas não nos faltam, pelo contrário temos tantas que podemos vendê-la, temos até mesmo soluções finais; porém nos faltam terrivelmente não soluções, mas perguntas, chamados de atenção, um drama que nos envolva e nos dê não uma solução mas um sentido e, ainda mais, não um meio de nos protegermos mas um objetivo pelo qual nos doarmos. Também não estamos aquém dos padrões moralizantes, pelo contrário, somos incessantemente atacados por ordens e regulamentos, a publicidade, por exemplo, não para um só instante de nos dar ordens: compre isto, pegue aquilo, com a nova BMW você conhecerá a alegria, com o salame Neuroni você vai encontrar o gosto do verdadeiro, com Tiscali o caminho é aberto. A publicidade nos fala como os pregadores da Idade Média, nos propõe o céu, mas graças a um salame, a uma lava-louças ou a uma conexão com a internet. No fundo, o mundo, para seduzir, não pode fazer outra coisa senão parodiar a Igreja – Satanás é o macaco de Deus, dizia São Jerônimo – e é por isso que o mundo deve se fazer mais moralizador do que a Igreja. Mesmo quando o mundo declara que você deve gozar, é ainda um “você deve”. Porque o objetivo fundamental por trás dessa ordem de gozar imediata e cegamente – e digamos ainda mais tristemente –, a intenção que se esconde atrás dessa ordem de gozar e de fazer gozar, que antes de mais nada é uma ordem de dominação e de performance, e não uma ordem de encontro e de comunhão, a ordem de tristeza profunda que se dissimula atrás desta ordem de gozo superficial, como que um porco engorde, é o esforço para sufocar o desejo. Dom Giussani o diz muito claramente: o poder, de fato, ou a exaltação da mentira como instrumento, o que faz? Tende a reduzir o desejo, o poder tende a reduzir o desejo. A redução dos desejos ou a censura de alguma das exigências, a redução dos desejos e das exigências é a arma do poder. Eis a arma do poder; e esta redução do desejo, afirma Giussani, não é outra coisa senão a tentativa de abolir a humanidade.
Há, hoje em dia, todo um movimento extremista, bastante característico do nosso tempo, que se chama trans-humanismo. Ele admite claramente as próprias intenções, trata-se de realizar, através da chamada Paradise engineering, um super-homem: graças à biogenética, à neuroquímica, às nanotecnologias deve-se sair do humano para seguir em direção do pós-humano ou, como dizem, do trans-humano, para fabricar um super-homem livre de todo sofrimento, absolutamente competitivo, adaptado às necessidades do mercado e sempre seguro de si e do próprio bem-estar. Mas, se pensarmos sobre isso por um instante que seja, nos daremos conta de que estes super-homens são superados desde o princípio, cada progresso tecnológico sempre dará um jeito para que cada nova geração de super-homens torne obsoleta a precedente, boa apenas para ser jogada no lixo como aqueles velhos computadores que parecem tão distantes de nós como se fossem uma descoberta arqueológica. Como o homem terá sido reduzido no seu desejo e terá sido reconduzido a algo de funcional, será tão deteriorável quanto um bem de consumo, a sua perenidade será pensada em função do progresso técnico e será, portanto, frágil e fugaz como um telefone celular de última geração. Eis porque os super-homens são os dinossauros do futuro.
Vocês que são italianos na maior parte devem estar impressionados com esta palavra – trans-humanismo. De fato, o primeiro a empregar este termo como verbo, o primeiro a formar este neologismo foi Dante. Vocês conhecem aqueles versos do primeiro canto do Paraíso: “Transumanar significar per verba non sia poria”, não se pode dizer trans-humanar através das palavras, “però l’esempio basti”, mas o exemplo deve bastar, “a cui esperenzia grazie serva”, a quem, àquele ao qual a Graça conservou a experiência. Aqui, Dante é profeta, nos fala que trans-humanar é a maior coisa que o coração deseja, mas esta grande coisa se torna pequena tão logo pensamos em poder chegar até ela através de nossas próprias palavras, através de nosso poder. Para chegar até lá é preciso a onipotência de uma Graça, é preciso o encontro com um Outro. Este é o exemplo que nos dá o poeta, mas o exemplo não foi suficiente porque perdemos o senso da experiência, a graça da experiência, em benefício do orgulho e do planejamento.
Nesse ponto, podemos entender que o poder não teria nenhum poder se não existisse em nós o desejo de coisas grandes, se só existisse aquele desejo em que tão logo nos baseamos nele nos desvia, como acontece com o Calígula de Camus – ele petrifica a sua magnanimidade, pulveriza a sua grandeza em distração e, finalmente, retorce aquele desejo contra si mesmo para sufocá-lo, porque tão logo o homem pretende divinizar-se de si mesmo para além de todo encontro, para além de toda graça, se torna pesado e se asfixia como aquele que gostaria de um coração que fizesse circular o sangue num circuito fechado sem oxigená-lo, sem precisar respirar o ar que vem de fora e, portanto, recusando aquele poema da respiração como disse Rilke – “Visto que o murmúrio da nossa respiração nos canta, em cada instante, que, para viver, é preciso, em cada instante, receber e oferecer a própria respiração”. A vontade de potência não pode impedir o encontro, porque o encontro é um acontecimento, uma fratura que frustra os nossos planos. O Senhor anula os desígnios das nações, diz o Salmo. Mas a vontade de potência pode abortar o encontro, pode nos fazer acreditar que ele foi apenas uma ilusão, destruindo assim, imediatamente, a incrível aventura, a incrível fecundidade que queria nascer.
Dom Giussani escreve: o poder não pode impedir o despertar do encontro, mas busca impedir que se torne história. O poder busca impedir que o encontro se torne uma história. De qual encontro estamos falando? Daquele com Cristo certamente, mas também daquele com uma paisagem, com um concerto de Mozart, ou com uma garota. Eis, por exemplo: você se encontra com Beatriz ou com Aspásia. O que acontece no instante desse encontro? Você fica tocado com a sua beleza. Certo. A sua beleza é experimentada por você através do seu rosto, do seu corpo, mas o que lhe é oferecido através do seu rosto e do seu corpo é uma música, uma harmonia, uma dança do ser. Porque aquela beleza é como se, no fundo do ser, remontasse até à superfície e mostrasse a sua dança e a sua alegria essencial. E é, nesse momento, que a vontade de potência, o poder, nos sussurra ao ouvido: esta música é apenas uma ilusão, produzida pela sua testosterona. Pegue um preservativo, leve Aspásia para a cama, escolha um quarto e transe com Beatriz. Você verá que a miragem se dissipará. Mas, fazendo assim, você estupra Beatriz, mesmo se ela tenha aceitado, sobretudo se ela aceitou. Você a estupra porque você comete uma violência contra aquilo que entreviu, porque você cospe na música, porque você pisa na dança do ser que lhe foi manifestada no encontro. Enfim, porque você não quis reconhecer a ferida da beleza, aquela ferida que não é diminuição do seu ser, mas oferta de um ser que é maior do que o seu poder, e que levanta você humilhando-o, diviniza você destruindo o seu orgulho. Giussani chama atenção para isso. Isso é importante para o mundo: impedir ao homem alcançar a própria ferida, impedir ao homem alcançar a si mesmo. É uma frase espantosa. Como pode ser que alcançar a si mesmo coincida com o alcançar a própria ferida? É porque isso sempre acontece em um encontro, no impacto e na felicidade de uma hemorragia contínua de sangue recebido e dado. O encontro é ferida, porque é o aparecer de algo que desperta o meu desejo e, ao mesmo tempo, escapa do meu poder. Algo que, ao mesmo tempo, me exalta e me humilha. E pergunta se torna: como abraçar, de verdade, Beatriz? Como entrar em contato com a fonte inacessível da sua beleza? Atenção, não se trata de se servir de Beatriz para ir até a Deus. Isto é o que acreditaram alguns falsos cristãos. Disseram “sigam em direção a Deus e, para fazer isso, desprezem as suas criaturas”. Mas, é como dizer “vá até Dante e diga-lhe que sua Comédia não vale nada”. Não vale nada. O Criador ama a sua criatura. Por isso, ir em direção a Ele é ir em direção dela mais profundamente. Vocês conhecem aquele versículo da carta aos Colossenses que Giussani repetia muito frequentemente, e que exprime sem dúvida a intuição fundamental de todo o seu percurso. Ele, antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem nEle. Tudo subsiste em Cristo, e portanto ir em direção a Cristo não exclui nada. Pelo contrário, deve-se ir em direção a Cristo para ir em direção de Beatriz, porque é nEle que ela subsiste, é através dEle que ela é salva, é com Ele que a música da sua beleza pode se desdobrar numa inefável sinfonia.
Então, eis a ressurreição que se aproxima. Mas, é preciso que lutemos contra a mentira de uma autenticidade fabricada pelo nosso próprio poder, que arrisquemos a nossa vida pela beleza, a verdade do encontro e do desejo. Dom Giussani disse isso de modo claro. A luta contra essa mentira pode justamente nos levar a dizer que, talvez, fosse melhor para o homem ser assassinado que perder a própria humanidade. Este é o exercício da nossa ressurreição: preferir mais ser assassinados do que perder o próprio coração. Tal é o testemunho em favor da beleza: preferir mais ser esmagado, desfigurado, cortado em pedaços do que renegar a glória à qual todos somos chamados, mesmo os mais pequenos, mesmo os mais inimigos, mesmo aquele que me faz em pedaços. Como Giussani disse, Cristo não é apenas para os cristãos, não é para os cristãos, é para todos os homens. É o salvador do marxista, do berlusconiano e mesmo do aderente à democracia-cristã. Assim, o cristianismo não é apenas para a paróquia, mas para tudo aquilo que nos circunda, porque tudo subsiste nEle. E é também esta a ressurreição. Não apenas preferir ser morto do que renegar o nosso desejo mais profundo, mas também não acreditar que a ressurreição seja para amanhã e apenas para os fiéis da nossa paróquia, mas que ela começa já hoje e para todos. O nosso trabalho não tem sentido, a não ser que seja voltado para o trabalho de ressuscitar, como diz a poesia de Norwich citada por João Paulo II e por Dom Giussani. Este trabalho de ressurreição não consiste em uma nova aquisição. A ressurreição se encontra numa energia de consciência maior. Ela não é o mesmo que ter algo de outro, mas, finalmente, ser si mesmos, o que não quer dizer fechar-se em si mesmo, mas aceitar as próprias feridas e entrar numa comunhão. Uma maior energia de consciência quer dizer viver amorosamente aquilo que nos é dado. Que você não atravesse a vida como se fosse um vídeo-game, uma cena de fantasmas sem profundidade, mas que você tome consciência daquilo que é agora, e que você esteja presente à presença que funda tudo aquilo que é. Para que você possa dizer, como Nietzsche dizia, melhor do que como Nietzsche dizia, eu sou um destino. Porque você respondeu ao chamado que lhe foi feito de viver até ao fundo a única aventura da sua vida, escutando aquilo que já está na sua boca e no seu coração. Está aqui o coração do mistério cristão. Devemos fazer memória disso. Deus é Trindade, eternamente o Pai gera o Filho na unidade do Espírito. De tal forma que Deus é, em si mesmo, sempre nascimento e encontro, é, em si mesmo, comunhão de pessoas. E cada uma das pessoas divinas tem o seu eu que nasce de um encontro infinito. Portanto, oferecer-se a Deus não é ser absorvido como uma gota d’água no oceano imenso. É encontrar a própria origem e, portanto, a própria originalidade. E, portanto, o próprio nome e o próprio rosto, porque Deus quer que nós O conheçamos face a face, quer que a face de cada um de nós não se perca, mas que seja radiante singularmente, de modo divino e, então, começaremos a ressuscitar, começaremos a ressuscitar quando começarmos a crer que Beatriz ou Aspásia, mas também o Fulano de Tal, ou seja, vocês, eu, o seu vizinho de cadeira, quando começarmos a acreditar que cada um é tal que, como disse Dante, “Dio parea nel suo volto gioire”, que “Deus pareça, no seu rosto, se alegrar”.


* Conferência proferida por Fabrice Hadjadj, no âmbito do Meeting 2010. A tradução - realizada por Paulo R. A. Pacheco - foi feita a partir da transcrição, não revisada pelo autor, da tradução simultânea para o italiano. A conferência foi proferida originalmente em francês.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Eis porque o nosso “terrível” desejo de felicidade não é vão


Entrevista com Fabrice Hadjadj, feita por Federico Ferraù

“Basta encostar a mão contra a própria garganta para sentir a pulsação do sangue nas nossas artérias. É o sinal de que a nossa vida deve se tornar como que um rio: entrar em relação com a fonte através de todos os córregos da nossa história e fluir sem parar numa oferta”. Nesta longa entrevista, o filósofo francês Fabrice Hadjadj, hoje no Meeting de Rímini para apresentar o livro de Dom Giussani L’io rinasce in un incontro, fala com o Il Sussidiario sobre o coração humano, continuamente em equilíbrio entre o absurdo e a graça.

“Aquela natureza que nos impulsiona a desejar coisas grandes é o coração”. Segundo o senhor, em que sentido o título do Meeting deste ano é um desafio para os nossos dias?
O desafio é reconhecer em si um desejo que não vem de si. O coração é muito surpreendente, sobretudo para um individualista. Não falo em nível espiritual ou sentimental. Falo exatamente do miocárdio. Temos, em nós, este órgão que bate por um tempo que não decidimos, uma espécie de maestro a quem está ligada toda a nossa vida fisiológica. Trata-se de oxigenar o nosso sangue certamente, o que associa o coração à respiração, o “poema da respiração” diz Rilke, visto que a inspiração e a expiração nos outorgam este ensinamento admirável: a vida não está na independência, no isolamento, na autonomia, está num movimento (um teólogo diria que está em uma “pericoresi”) onde nunca se para de receber e de dar. Eis que se reduzem a nada, imediatamente, todas as pretensões de independência!

Dom Giussani diz que o simples fato de que o nosso coração existe é já uma provocação.
Ele tem razão. Basta encostar a mão contra a própria garganta para sentir a pulsação do sangue nas nossas artérias. É o sinal de que a nossa vida deve se tornar como que um rio: entrar em relação com a fonte através de todos os córregos da nossa história e fluir sem parar numa oferta. A promessa se encontra em Isaías: Eis que vou fazer a paz correr para ela como um rio (Is 66, 12). E também o Evangelho: Quem crê em mim, do seu interior manarão rios de água viva (Jo 7, 38). Certamente esta promessa pode dar medo. Alguns prefeririam reduzir-se aos seus pequenos barris de água parada. Em todo caso, o que é certo é que o cristianismo não é uma série de normas sufocantes, é ao contrário o “desejo de coisas grandes”, de tal forma grandes que superam a capacidade humana. Para acolher é preciso aceitar ser dilatados, ser até mesmo rasgados.

É mesmo necessario chamar a atenção da “natureza” para definir o coração do homem?
O termo “natureza” vem de “nascer”. Nascer é ter recebido a existência e, portanto, não ser a origem do próprio ser. Ter uma natureza é ter recebido, no nascimento, uma certa estrutura de existência, um dinamismo, uma tendência que está em mim e da qual eu não sou o artífice. É aquilo que dissemos sobre o coração: o centro do meu ser não está sob o meu controle, aquilo que tenho de mais íntimo me remete a um outro que não sou eu. Eu me desperto com os meus desejos: beber um café, folhear o jornal, ganhar mais dinheiro, beijar Caterina Murino, mas há em mim também outra coisa: este terrível desejo de felicidade.

Por que o senhor o chama “terrível”?
O dinheiro pode dar-me a felicidade? Caterina pode fazer isso? Se este desejo de felicidade não encontra vias de escape, acaba por me fazer destruir aquilo que eu, no início, havia desejado: como esse algo não é a “coisa grande”, acabo por jogar fora ou dizer isso na sua cara. Ou então me destruo a mim mesmo: como me contento com coisas pequenas, acordo a elas um valor que não têm e sufoco o meu coração. Atenção, não quero dizer que Caterina Murino, criada a imagem de Deus (e que imagem!), seja algo de pequeno. Mas, para poder estar de acordo com o meu coração, seria preciso que Caterina fosse cheia de graça, de verdade, de eternidade até (como a sua frágil beleza me deixa entrever). Seria necessário que Caterina fosse divina. Não posso fazer nada a este respeito. Está na minha natureza (na natureza de todo homem por pouco que escute o próprio coração). Dante entendeu isso muito bem. Há em nós o desejo da Coisa Grande que é Deus mesmo. Mas este desejo de Deus não deve nos levar a desprezar as criaturas (desprezar as criaturas seria necessariamente desprezar o seu Criador). Pelo contrário: o desejo de Deus nos faz desejar a divinização das criaturas. Portanto, desejar “coisas grandes” não significa rejeitar uma Beatriz anã, nem fantasiar uma Beatriz de dois metros e quarenta, mas desejar uma Beatriz tal “che Dio parea nel suo volto gioire” [“que Deus pareça, no seu rosto, se alegrar” (Paraíso XXVII, 105)].

Hoje em dia, estamos convencidos de que as ideias “fortes” não têm nenhum direito ou poder sobre nós. No melhor dos casos, se elas têm algum, é reservado ao âmbito privado, não ao público. É o mesmo também para o cristianismo? Deve ele limitar a sua “pretensão” sobre o homem?
Afirmar que as ideias fortes não têm nenhum poder sobre nós, eis aqui uma ideia, e uma ideia fraca. O homem não é um animal governado pelos instintos. Aquilo que, para o homem, cumpre o papel do instinto é a sua razão. Ele é sempre orientado por ideias, boas ou más, ideias de todas as formas (e de todas as falsificações). O homem inicia, portanto, sempre com o ser um ideólogo (pelo menos depois do pecado original). Utiliza termos abstratos. Por exemplo, diz “tudo bem”. Assim, numa conversa qualquer. Mas, “tudo bem” é algo de abstrato e enorme, é uma questão imensa na sua boca e ele não se dá conta porque é um ideólogo. De fato, deveria sair da ideologia e ir em direção à realidade, ou seja, perguntar-se: o que é verdadeiramente, realmente, “bem”? Trata-se simplesmente de tomar consciência das palavras que já estão ali, na nossa língua, entre as nossas palavras mais cotidianas e descobrir o seu peso concreto.

Qual é este peso?
Dom Giussani amava repetir estas palavras do salmista: Tu, Senhor, és meu único bem (Sl 16, 2). Esta é a concretude! Isso traça um caminho, afirma concretamente no que consiste o meu bem, e me conduz a atos que empenham a minha vida. Mas esta palavra possui algo de exorbitante. É a razão pela qual Dom Giussani acrescentava: “Uma frase assim carregada e assim peremptória, assim definitiva e totalizante, que a pode repetir?” (L’io rinasce in un incontro, p. 59).

E quanto ao que diz respeito à esfera privada, que goza de um direito absoluto?
Quanto ao que concerne à “convicções privadas”, trata-se de uma invenção burguesa: o pequeno possuidor quer afirmar que possui uma propriedade que é mesmo sua e que não pertence a nenhum outro. Mas, ao mesmo tempo, acaba por se dar conta: esta propriedade é morta se ele não acolher ninguém nela. Cada espaço privado se realiza somente na hospitalidade. E assim se torna público. Pelo contrário, peguem um jardim publico: ele assume todo o seu valor quando, por exemplo, vocês estão com uma garota, sentados num banco, ou com um velho amigo, numa conversa íntima. Cada espaço público se realiza somente no encontro entre pessoas. E assim se torna privado. Trago esses exemplos para mostrar que a separação público/privado é uma ficção muito artificial. É literalmente uma mutilação, visto que tal ficção declara: aquilo que vocês têm em no coração não deve ser gritado nas praças. Mas, se não há mais comunicação entre seus corações e suas palavras, quer dizer que não são mais homens. São uma carpa. E acabam por abocanhar todos os anzóis.

O senhor escreveu que a pretensão cristão é “tomar o poder sobre o teu coração, ou seja conquistar-te sem danificar nem a tua inteligência, nem a tua vontade, mas, pelo contrário, reforçando-o”. Como podemos viver a “pretensão” total da verdade encontrada sem renunciar a nós mesmos?
A resposta se encontra na sua pergunta: só existe encontro se existirem dois seres bem distintos. Então, encontrar a verdade não é uma alienação mas uma realização. Se lhe digo “Deus quer tudo de você”,o senhor se assustará porque comparará o desejo de Deus com o seu, e o seu é estreito, possessivo, redutivo. Mas, repito-lhe o que eu disse: “Deus quer tudo de você”, sublinho, “tudo de você”, ou seja você mesmo completamente, sem mutilações, sem diminuições, sem alienação, e portanto você mesmo com a sua alma e o seu corpo, com a sua inteligência e a sua vontade, com toda a sua liberdade, e até mesmo com uma liberdade infinitamente maior, porque desembaraçada de tudo o que pode haver de impedimento. Isso nos reconduz às palavras do salmo que se canta nas vésperas do domingo: O Senhor estenderá desde Sião teu cetro poderoso: Dominarás, disse ele, até no meio de teus inimigos (Sl 109, 2). Se forço o inimigo, se o dobro mesmo que seja com uma pequena sedução psicológica, dominarei talvez o seu corpo, mas não o seu coração. Dominar até o coração é a pretensão mais terrível e, ao mesmo tempo, a intenção mais doce. Porque não existem outros meios para dominar até o coração senão fazer-se amar livre e inteligentemente, ou seja, respondendo às “exigências do coração”. O catecismo da Igreja católica o diz claramente: “Viver no céu é estar com Cristo. Os eleitos vivem nEle, mas conservando, mais, encontrando a sua verdadeira identidade, o seu próprio nome” (Catecismo, §1025). Por que isso? Porque “o eu renasce e renasce em um encontro”. Porque eu sou eu mesmo apenas na minha relação com o meu Criador e, através dEle, com as outras criaturas. Ser originais não é ser excêntrico. É voltar-se para a origem e viver sempre no jorro da fonte.

A maravilha parece ser a dimensão mais adequada à forma original da nossa razão. Como podemos reencontrar esta dimensão para salvar a razão?
A grandeza da inteligência é efetivamente a de saber sentir-se estupefata. Atenção: sentir-se estupefata não significa ser estúpida. De fato, aquele que é verdadeiramente estúpido é, pelo contrário, aquele que crê saber tudo, que tem resposta para tudo. Quem se sente estupefeito coloca-se em posição de escuta e aprende. Um provérbio hebraico diz: “Quem é sábio? Quem sabe aprender de cada coisa”. Há, portanto, um vínculo entre estupor e estupefação. É aqui – estupefazendo-se, sentindo-se estupefeita – que a razão se abre a tudo o que a supera, àquilo que é encontro vivo, que está para além do cálculo (mas não desprezemos o cálculo, esta capacidade de pesar o real que é também um mistério – devemos apenas submeter o cálculo ao louvor, como na música). O problema não é, portanto, como fazer para redescobrir esta dimensão.

Por que o senhor diz isso?
Porque não se trata de fazer. Se nos limitamos ao “fazer” permanecemos no âmbito do nosso poder, das nossas capacidades, e nos fechamos ao estupor. Não se trata de fazer, mas de ser. O ser é, de fato, no fundo, estupor. Para dar-se conta disso é preciso saber-se abandonar ao repouso, viver – pelo menos um dia por semana, um momento no dia – a bênção do shabbat, que se poderia também chamar a nossa essência dominical. Parem tudo (Parai! Sabei que eu sou Deus, diz o salmo 45) e olhem uma flor, uma paisagem, escutem um quarteto de Mozart (ou de Haydn), contemplem o rosto de uma criança... Admirem mesmo uma garrafa, uma simples garrafa, como Morandi sabe admirá-la, não com uma genialidade especial, mas como um respiro amplo, com o coração aberto e disponível (o que é ainda melhor do que a genialidade), e eis que o mistério aparecerá, a incompreensibilidade da presença de uma garrafa... Mesmo a menor das garrafas é uma garrafa jogada ao mar, que esconde uma mensagem do criador de todas as coisas.

No ano passado, o senhor concluiu a sua entrevista no Il Sussidiario com estas palavras: “É preciso que a ação começa com um gesto de gratuidade. Se esta gratuidade não está presente, nunca estarei na direção do ser”. De onde pode vir esta gratuidade?
Não me lembro de ter dito isso. Talvez porque era exatamente um “gesto de gratuidade”... A gratuidade pode ter dois sentidos. Há a gratuidade do absurdo. E há a gratuidade da graça. Tudo aquilo que fazemos, todos os nossos cálculos, todos os nossos projetos, devem desembocar em uma ou outra dessas gratuidades. Encontrou um bom trabalho, e depois? Casa-se com uma mulher, e depois? Tem filhos, e depois? Ou não há nenhum sentido e você se encontra na gratuidade do absurdo. Ou então, tudo isso tem o sentido de um amor, um amor que dá a vida, e você se encontra na gratuidade da graça. Ou uma ou a outra. Mas antes ainda de entender a gratuidade quanto à finalidade da existência, ela pode ser entendida a partir da sua presença mesma: como é possível que eu esteja aqui? De onde me vem esse dom? É um presente envenenado? Também aqui: ou reconheço a graça de ser, ou então acho absurda a existência (mas nesse último caso me contradigo, porque desfruto da existência para desprezar a existência – esta é a minha própria absurdidade). O ato de render graças é o fundamento de toda ação porque, se não reconheço a graça de ser, então tudo aquilo que poderei fazer será da ordem do desprezo do ser, da regressão, da negação. Isso poderá assumir uma aparência humanista, apresentar-se como uma utopia de sociedade perfeita; na verdade, já que não vejo a existência como uma graça, essa utopia será o triunfo do nada: o seu fundamento será o ressentimento. Sob o pretexto de construir um super-homem ou uma super-sociedade, o empreendimento seria a destruição da sociedade e do homem.

O senhor vai apresentar o livro de Dom Giussani L’io rinasce in un incontro. O que lhe sugeriu a leitura desse livro? O senhor compartilha a escolha do título?
Saibam que se eu encontrei o pessoal de CL é porque aquelas pessoas encontraram afinidade entre o meu modo de colocar as questões e o de Dom Giussani. Eu não o conhecia. Travei contato com sua obra apenas há dois anos atrás. Depois, me pediram para fazer a apresentação, em Paris, do livro É possível viver assim? (em abril de 2009). Naquele momento, pude experimentar aquela afinidade de pensamento. Aquele foi um verdadeiro encontro, precisamente. Fiquei tocado com a simplicidade, a força, a tangibilidade concreta das suas palavras. Assim, a leitura de L’io rinasce in un incontro foi a continuação da mesma onda. Cada vez que leio Dom Giussani não é que encontre ideias novas, porque temos o mesmo enraizamento em Santo Tomás e na poesia e, sobretudo (eu devo isso ao teatro), um senso análogo do drama. Não, aquilo que eu acho, o que é muito melhor, é a novidade das ideias que eu já possuo, uma espécie de energia, de envio missionário, de impulsão no sentido de comunicar e viver na “dramaticidade e letícia...”. Quanto ao título do livro, tem a sua evidência. Uma evidência que imerge na profundidade de Deus. O que sabemos nós dessa profundidade? Deus é Trindade. Ele é único em três Pessoas. O Pai gera o Filho na comunhão do Espírito. De tal forma que Deus mesmo é eternamente nascimento e encontro. Um nascimento e um encontro infinito...

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 28 de agosto de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Rezar é aprender a desejar

Mensagem do Secretário de Estado Cardeal  Tarcisio Bertone,
em nome do Santo Padre Bento XVI,
por ocasião da 31ª edição do Meeting pela Amizade entre os Povos
(Rímini, 22 a 28 de agosto de 2010)

A Sua Excelência Reverendíssima
Dom Francesco Lambiasi
Bispo de Rímini

Excelência Reverendíssima,
com alegria tenho o prazer de transmitir a saudação cordial do Santo Padre a Vossa Excelência, aos organizadores e a todos os participantes do Meeting pela Amizade entre os Povos, que acontece em Rímini.
Este ano, o título da vossa importante manifestação – “Aquela natureza que nos impulsiona a desejar coisas grandes é o coração” – nos recorda que, no fundo da natureza de todo homem, se encontra uma irreprimível inquietude que o impulsiona na busca de algo que satisfaça esse seu desejo. Todo homem intui que é exatamente na realização dos desejos mais profundos do seu coração que se pode encontrar a possibilidade de realização de si, de cumprimento de si, de se tornar verdadeiramente si mesmo.
O homem sabe que não pode responder sozinho às próprias necessidades. Por mais que se iluda de ser autossuficiente, ele experimenta que não é capaz de bastar a si mesmo. Tem necessidade de se abrir ao outro, a algo ou a alguém, que possa doar-lhe aquilo que lhe falta. Deve, por assim dizer, sair de si mesmo em direção daquilo que seja capaz de preencher a amplidão do seu desejo.
Como o título do Meeting sublinha, a meta última do coração do homem não é qualquer coisa, mas apenas as “coisas grandes”. O homem é frequentemente tentado a parar nas coisas pequenas, naquelas que dão uma satisfação e um prazer “baratos”, naquelas que gratificam por apenas um momento, coisas tão fáceis de se obter, quanto ilusórias em última instância. No relato evangélico das tentações de Jesus (cf. Mt 4, 1-4), o diabo insinua que seja “o pão”, ou seja, a satisfação material, aquilo que será capaz de saciar o homem. Esta é uma mentira perigosa, porque contém apenas uma parte de verdade. O homem, de fato, vive também de pão, mas não só de pão. A resposta de Jesus revela a falsidade última dessa posição: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4, 4). Somente Deus basta. Somente Ele sacia a fome profunda do homem. Quem encontrou a Deus, encontrou tudo. As coisas finitas podem dar vislumbres de satisfação ou de alegria, mas somente o Infinito pode preencher o coração do homem: “inquietum est cor nostrum, donec requiescat in te – o nosso coração permanece inquieto enquanto não repousa em Ti” (Santo Agostinho, Confissões, I, 1). O homem, no fundo, tem necessidade de uma única coisa que contenha tudo, mas antes deve aprender a reconhecer, mesmo que seja através de seus desejos e anseios superficiais, aquilo de que realmente precisa, aquilo que quer verdadeiramente, aquilo que é capaz de satisfazer a capacidade do próprio coração. 
Deus veio ao mundo para despertar em nós a sede pelas “coisas grandes”. É possível ver isso muito bem naquela página do Evangelho, de riqueza inesgotável, que narra o encontro de Jesus com a mulher samaritana (cf Jo 4, 5-42), da qual Santo Agostinho deixou um comentário luminoso. A samaritana vivia a insatisfação existencial de quem não encontrara ainda aquilo que procurava:  tinha tido “cinco maridos” e, naquele momento, convivia com outro homem. Aquela mulher, como fazia habitualmente, tinha ido buscar água no poço de Jacó e encontrou Jesus, sentado, “cansado da viagem”, no calor do meio-dia. Depois de lhe ter pedido água, é Jesus mesmo quem lhe oferece água, e não uma água qualquer, mas uma “água viva”, capaz de extinguir a sua sede. E assim ele abria espaço, “pouco a pouco [...] no coração dela” (Santo Agostinho, Comentário ao Evangelho de João, XV, 12), fazendo emergir o desejo de algo de mais profundo do que a simples necessidade de satisfazer a sede material. Santo Agostinho comenta: “Aquele que pedia de beber, tinha sede da fé daquela mulher” (Ibid., XV, 11). Deus tem sede da nossa sede dEle. O Espírito Santo, simbolizado pela “água viva” de que falava Jesus, é exatamente aquele poder vital que aplaca a sede mais profunda do homem e lhe doa a vida total, aquela vida que ele busca e espera sem conhecer. A samaritana deixou, então, por terra o jarro “que, a partir de então, não lhe servia mais, e se havia tornado um peso: estava ávida, desde então, por saciar sua sede apenas com aquela água” (Ibid., XV, 30).
Mesmo os discípulos de Emaús, diante de Jesus, vivem a mesma experiência. É ainda o Senhor que faz “arder o coração” dos dois, enquanto caminhavam “com o rosto triste” (cf. Lc 24, 13-35). Mesmo sem reconhecerem Jesus ressuscitado, durante o trajeto seguido junto com Ele, eles sentiam o coração “arder no peito”, retomar a vida, tanto que, chegados em casa, “insistiram” para que Ele permanecesse com eles. “Fica conosco, Senhor”: é a expressão do desejo que palpita no coração de todo ser humano. Este desejo de “coisas grandes” deve se transformar em oração. Os Padres sustentavam que rezar não é outra coisa senão a conversão de si em desejo insistente do Senhor. Num belíssimo texto, Santo Agostinho define a oração como a expressão do desejo, e afirma que Deus responde alargando nosso coração para Ele: “Deus [...], suscitando o desejo em nós, estende o nosso ânimo; e estendendo-o, o torna capaz de acolhê-Lo” (Comentário à Primeira Carta de João, IV, 6). De nossa parte, devemos purificar os nossos desejos e as nossas esperanças para poder acolher a doçura de Deus. “Esta – continua Santo Agostinho – é a nossa vida: exercitarmo-nos no desejo” (Ibid.). Rezar diante de Deus é um caminho, uma escalada: é um processo de purificação dos nossos pensamentos, dos nossos desejos. Podemos pedir tudo a Deus. Tudo o que há de bom. A bondade e a potência de Deus não conhecem um limite entre coisas grandes e pequenas, entre coisas materiais e espirituais, entre coisas terrenas e celestiais. No diálogo com Ele, levando toda nossa vida diante de Seus olhos, aprendemos a desejar coisas boas, a desejar, no fundo, a Deus mesmo. Narra-se que, em um de seus momentos de oração, Santo Tomás de Aquino ouviu o Senhor Crucificado lhe dizer: “Escreveste bem de mim, Tomás; o que desejas?”. “Nada além de Ti”, foi a resposta do Santo doutor. “Nada além de Ti”. Aprender a rezar é aprender a desejar e, assim, aprender a viver.
Cinco anos depois da morte de Mons. Luigi Giussani, o Sumo Pontífice se une espiritualmente aos membros de Comunhão e Libertação. Como recordou na Audiência do dia 24 de março de 2007, na Praça São Pedro, “Dom Giussani se empenhou [...] em despertar nos jovens o amor por Cristo, ‘Caminho, Verdade e Vida’, repetindo que apenas Ele é o caminho para a realização dos desejos mais profundos do coração do homem”.
Ao confiar aos participantes do Meeting essas reflexões, desejando que sejam de ajuda para conhecer, encontrar e amar sempre mais ao Senhor, e testemunhar no nosso tempo que as “grandes coisas” a que o coração humano anseia se encontram em Deus, Sua Santidade Bento XVI assegura a sua oração e, de muito bom grado, envia a Vossa Excelência, aos responsáveis e organizadores e a todos os presentes, a Benção Apostólica.
Uno, cordialmente, também o meu desejo e me valho dessa circunstância para confirmar-me, com sentimentos de especial obséquio, como, de Vossa Excelência Reverendíssima, devotíssimo no Senhor.
Tarcisio Cardeal Bertone
Secretário de Estado

Do Vaticano, 10 de agosto de 2010.

* Extraído do site do Vaticano, no dia 23 de agosto de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Somente o coração conhece

Por John Waters

Usualmente falamos dele como se fosse uma metáfora. Boa, no máximo, para evocar o sentimento. E desviar a razão do (verdadeiro) conhecimento. Mas, no que consiste, de fato, “aquela natureza que nos impulsiona a desejar coisas grandes”? O Meeting de Rímini tem alguma ideia a esse respeito. Eis o motivo

O coração é tratado com condescendência e liquidado como uma metáfora. Não é estranho que se encontrem rimas em canções e poesias que tentam trazer à luz o nível mais profundo da emoção humano, mas em certo sentido não acreditamos que ele seja verdadeiramente a bússola do sentir. Simplesmente sem pensar a respeito, colocamos o coração na extremidade inferior do eixo da razão, onde a cabeça reina soberana.
Quando “pensamos” no coração, pensamos em uma bomba hidráulica a que atribuímos, curiosamente, esta função emocional. Segundo essa convicção, o coração se torna um sinal gráfico, um “coração apaixonado” que evoca a paixão, a dor e a confusão de uma ligação sentimental nostalgicamente romântica.
A nossa confusa percepção do coração reflete a confusão sobre a nossa natureza. De um lado, não podemos fugir ao dado que é esse órgão indispensável, um motor que continua a bombear e a alimentar – por sua natureza – o início de todas as coisas. Mas a nossa mentalidade racionalista torna sempre mais necessário que mantenhamos vivas pelo menos duas concepções incompatíveis de coração. A ideia de que as nossas vidas emocionais estejam ligadas a algo de mais banal, um dispositivo que regula funções, parece um resíduo cultural do tempo no qual se entendia menos este “mecanismo” humano. Esperamos que, um dia – se continuarmos no caminho no qual nos encontramos –, cheguemos a uma fórmula elétrica na qual as coisas que nos incomodam (amor, medo, desejo, paixão) serão identificadas como impulsos lançados aqui e ali no circuito da máquina humana. Nesse meio tempo, continuamos seguindo em frente com as nossas pesquisas, como se eses conhecimentos já fossem adequados.
A razão – fomos nós que decidimos – é uma consultora segura e confiável, como um contabilista ou um advogado. Se olharmos bem, parece que a razão decidiu assumir esse papel por sua livre e espontânea vontade, o que soa como um conflito de interesses um pouco estranho no qual o advogado e o contabilista arriscam ser tirados fora. Mas o dado de fato é que, enquanto isso, o coração parece um pouco como um incômodo, que nos sacode de todos os lados, incapaz de se decidir.
Entre as duas orelhas. Há uma teoria segundo a qual a mente não existe ou, se existe, não se sabe onde está. Damos por óbvio que ela esteja entre as nossas orelhas, mas não sabemos ainda identificá-la com precisão. Não parece que a mente existe não espaço, como um processo químico ou mecânico. Não pode ser pesada, ouvida ou vista, e isso parece nos conduzir sempre a um ponto morto na mensuração e na objetivação. A mente só pode ser observada por dentro ou em termos de efeitos dos seus processos. Em certo sentido, a mente parece mais adaptada que o coração a se tornar metáfora, mais sujeita a ser tratada com condescendência, porque nada foi encontrado nas suas profundezas que corresponda ao seu significado em meio a um mundo de processos mecânicos.
O coração que bate a todo instante, que pulsa ano após ano, se tornou a principal vítima dessa concepção dualista. De um lado, é concebido “por dentro” como um instrumento mecânico, essencial mas de qualquer forma adequado, e de outro, é falsa e superficialmente culpado de todos aqueles comportamentos excêntricos que fazem com que as nossas mentes percam a esperança de conseguir entender aquilo que o homem realmente deseja ou de que tem necessidade. O coração é uma espécie de bode expiatório da incapacidade da razão de compreender plenamente a si mesma. Visto que a razão olha as coisas de modo determinista, ela define a si mesma e ao coração como sistemas deterministas, mas descarta os elementos que não sabe explicar, apontando o dedo contra eles de forma meio irônica. A razão culpa o coração de desviá-la.
Quem comanda? Se o coração é reduzido a uma entidade mecânica em ação, e apenas algo a que é atribuída curiosamente a culpa de todos aqueles desejos e exigências que a razão se recusa a assumir como responsabilidade sua, então, obviamente, eu uma parte do ser humano, e não a sua inteireza, que toma a decisão e a põe em prática. A razão efetuou uma “revolução” na qual o coração é conservado para tarefas funcionais e simbólicas, mas é despojado de toda autoridade nas tomadas de decisão. A ideia segundo a qual o coração é capaz de “conhecer” algo que escapa à razão é, hoje, julgada anacrônica e delirante, restos de um obscuro passado. Ainda hoje, “culpamos” o coração, brincando um pouco menos.
É uma espécie de confusão na qual não está claro “o que” ou “quem” comanda. Quem é o “quem” que decide tudo isso? Onde está a sede do conhecimento? Há um inteligência central ou algo parecido? Essa inteligência central pode, admitido que exista, ser responsável pelas coisas sensatas que fazemos e pelas que não têm sentido, pelas respostas inteligentes e pelas estúpidas, pelos comportamentos racionais ou pelos irracionais? Em outros termos, aquilo que antes era a “tempestade” do coração é apenas um modo para descrever características da razão muito mais complexas e talvez que não funcionem tão bem? E quando nos colocamos esta pergunta, o que, dentro de nós, nos permite fazê-la? A razão é capaz de objetivar o coração? A razão é capaz de objetivar a si mesma? Como conhecemos? E se conhecemos algo, qual “parte” de nós realiza tal conhecimento?
Deve existir outro modo de considerar a questão.
Se algo não volta. E de fato há: trata-se de aceitar o fato que a razão não é nossa, que o coração não é nosso, mas que ambos são dados, que ambos não são projeções do nosso interior – não o podem ser na medida em que não é possível rastrear a sua origem – mas provêm de algum outro lugar; trata-se de aceitar que o nosso modelo mecanicista da realidade – que deriva de uma concepção objetivada da racionalidade, implícita no mundo criado pelo homem – não tem sentido se aplicado ao homem mesmo. Ilusoriamente, tem um sentido parcial, nos torna capazes de alcançar um certo conhecimento de base sobre nós mesmos, ou um mediante o qual – se aceitamos nos comportar como as máquinas que criamos – nos tornamos capazes de formular uma teoria aceitável sobre a realidade e sobre nosso viver nela.
Na realidade, é isso que Dom Giussani tenta criticar quando diz, com insistência e quase com uma ponta de irritação, que nós não nos fazemos por nós mesmos; que nenhuma das explicações a que chegamos sobre a nossa origem e sobre o nosso agir “momento após momento” é totalmente persuasiva; que nenhuma “inteligência central” pode ser identificada a não ser como uma metáfora similar àquela que, na cultura moderna, a razão humana reduziu as funções extra-mecânicas atribuídas ao coração. Eu não me faço por mim mesmo; não há um “eu” que funcione dessa forma. Se procuro o “eu” como autor de si mesmo, é como se remexesse em um pacote e só encontrasse o invólucro. Obviamente, há algo dentro, um “eu” de algum gênero, que não parece ter originado a si mesmo. Somente se se considera o “eu” que bate e que pensa como a projeção de algo outro, tudo começa a adquirir um sentido. Se o ser humano é considerado apenas como um conjunto de processos mecanicistas e deterministas nos quais a razão sobressai, torna-se necessário um processo de censura para excluir a ideia de um “fantasma” que deve se encontrar no centro da máquina: o coração. Este fantasma é o verdadeiro “eu”, aquele elemento essencial e originário do coração humano, que o cirurgião não pode encontrar.
Esse “eu” não está apenas lá dentro, mas parece se associar com algo outro. No coração de cada um de nós há ainda algo que não se explica. Mais: parece que existe algo que não pode ser reduzido, nem compreendido segundo os métodos que parecem funcionar para todas as outras coisas, ou pelo menos para a maior parte das coisas que enfrentamos na nossa vida de todos os dias. Talvez poderíamos dizer que, por definição, o coração é definível como incapaz de compreender a si mesmo.
O início da humanidade. E aqui o coração s revela na sua verdadeira natureza; o lugar daquilo que no homem não pode ser reduzido do anseio por uma explicação, um desejo que parece emergir no coração mesmo. Talvez o coração não tenha mais direito do que a razão de afirmar a si mesmo como centro do ser humano. Talvez ela seja, de fato, uma metáfora. Mas se é assim, é uma metáfora para além da qual não parece que existam possibilidades ulteriores. Consequentemente, parece que o coração torna dramático o mistério do dilema central do homem, mas parece oferecer também um início de razão que se pode explorar e na qual se pode confiar. O coração é a entidade na qual a minha humanidade parece, pela primeira vez, emergir, começar, ter origem. Portanto, se se trata de uma metáfora, é através dela que descobrimos o único fundamento verdadeiramente adequado. Mas também ele, se examinarmos bem, não é capaz de dar a origem a si mesmo, à sua voz interior, ao impulso que gera o seu pulsar.
Assim sendo, há este paradoxo: aquele “eu” que se encontra no centro de todo ser humano não é uma espécie de autoridade autônoma, separada e bem localizada, mas apenas um tipo de “sociedade” entre aquilo que é evidente e algo que parece não existir. O meu “eu” sou eu – certo –, mas também algo de misteriosamente outro. Os “meus” desejos não são completamente “meus” no sentido que não são o resultado de uma equação clara entre as minhas óbvias exigências e aquilo que descobri ser as minhas possibilidades imediatas. Eles derivam também desta alteridade e isso leva àquela confusão que a razão humana chamou de irracionalidade. O coração, fonte de um desejo que me acompanha desde aquele além de onde eu vim, me fala a todo instante daquilo que eu procura de verdade, daquilo que quer verdadeiramente, daquilo que verdadeiramente é.
Um ponto de partida. Aqui, devemos parar para evitar um curto circuito. A ideia daquilo que o coração desejaria não pode, e não deve, soar como uma injunção sentimental ou moral, ou sugerir uma direção já estabelecida. Trata-se de um ponto de partida, não de uma indicação de arrependimento. Se pularmos imediatamente para as conclusões, fecharemos a discussão, criaremos um curto circuito, mortal como todas as reduções deterministas que consideramos acima. Não. Neste ponto, devemos respirar profundamente e nos prepararmos para a verdadeira viagem. O coração nos fará entender a natureza e o verdadeiro alcance do nosso desejo. A busca deve ser profunda e total. Ela começa com a verdadeira pergunta que marca, com o seu ritmo, cada dia de nossa vida.

* Extraído do site oficial da revista Tracce - Litterae Communionis. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

“Tenho a graça de ser miserável”. Padre Aldo Trento fala de si mesmo



Entrevista feita com Aldo Trento, por Marina Corradi

A entrevista de Marina Corradi feita com Padre Aldo Trento está contida no livro deste último, Os dez mandamentos, que é o primeiro título da coleção Lindau Os livros de Tempi. O volume estará a venda por € 10,00 no estande de Tempi, no Meeting pela amizade entre os povos (de 22 a 28 de agosto, na Feira de Rímini, pavilhão C3).

Abril de 2010. Padre Aldo Trento está de passagem por Milão. Eu o encontro na casa de um amigo seu, em Concorezzo. Nunca havia conversado com ele cara a cara. Fiquei tocada com o seu rosto simples e com seus olhos claríssimos, com algo de infantil. Estas são algumas das perguntas que lhe fiz e suas respostas.

O que não entendo é como você faz para falar de Cristo como se fosse de uma Presença absolutamente concreta. É algo que me maravilha. Eu não vejo Jesus Cristo. Eu O procuro, O persigo, mas não é uma Presença como você, agora, é para mim. Entendo muito bem o Barrabás de Lägerkvist, que, depois de ter rodado por muito tempo em volta do Gólgota, diz cansado: “Desejei acreditar”. Para mim, mesmo no desejo, Jesus Cristo permanece frequentemente um fantasma.
Também comigo, antes, acontecia isso que você diz. O que deu concretude a Cristo foi o modo com o qual Giussani me olhou, o modo com o qual me acolheu e acompanhou. Através do olhar de Dom Giussani, Cristo se tornou uma Presença concreta ao meu lado.

Ok! Você conheceu Giussani, porém nem todos os que encontraram Giussani chegaram a uma certeza de fé igual à sua. Enquanto que tantos homens não encontram nem Giussani nem alguma testemunha credível de Cristo. O que vai ser dessas pessoas?
Acredito que quem conhece um cristão autêntico e continua o seu caminho tranquilamente é um burguês, que, no fundo, tem sobre a vida uma pergunta modesta. Quanto àqueles que não encontram ninguém, penso que esteja em ação uma espécie de seleção natural sustentada pela intensidade da pergunta pelo sentido. Se a pergunta é, de fato, forte, um homem procura e procura: enquanto não encontrar.

E estes últimos, são prediletos? Os prediletos existem?
Que existam é a própria Escritura que o testemunha, e são aqueles que Deus mais castiga, para que não parem de procurá-Lo.

Você disse, há dois anos, no Meeting: a depressão é uma graça. A depressão, como você sabe muito bem, é também um profundo sofrimento. Graça, portanto, por quê?
Para mim, foi o que me moveu a procurar para além dos meus limites, da minha miséria, da minha ideologia juvenil. De maneira mesmo atroz: por anos eu não dormi, quase cheguei a bater a cabeça na parede de desespero, desejava morrer. Mas a depressão foi a ferida que manteve aberto o meu pedido por Cristo. Hoje, quem tem um sofrimento psicológico acredita que está doente e vai ao médico. Mas, eu não acredito que sejamos todos doentes. É que não suportamos aquilo que mantém aquela ferida aberta: seja a depressão, uma doença, ou mesmo o se apaixonar por alguém de quem não deveríamos. Queremos eliminar o mais rápido possível os problemas. Ou talvez queremos ser “bravos”, mas apenas moralisticamente. Giussani, a este respeito, era radical: nunca convidava a se retirar do problema, mas sempre a ir a fundo, a enfrentar aquilo que se nos colocava como desafio. Ele me disse: se tivesse que não dormir por ano e isto servisse para manter vivo o seu pedido por Cristo, eu lhe diria que não dormisse. Porém, a nossa tendência é sufocar as feridas, anestesiá-las, manter adormecida a pergunta.

[Este homem, pensem, é de uma radicalidade que fascina e dá medo.] Você fala e mostra que vive de uma única razão, Jesus Cristo. Mas tente olhar para a vida da maior parte dos homens de hoje, que parecem fazer de Cristo, ou seja, do sentido último, algo de menos. Como você julga alguém que, não acreditando em Deus, na dificuldade ou na velhice, ou mesmo apenas no vazio que percebe, seja mais ou menos educadamente desesperado?
Eu o julgo razoável. Em alguém que está convencido de que é sozinho no mundo e que caminha em direção ao nada, o desespero me parece um sinal de lucidez, um sinal de que a pessoa não está contando estórias.

Portanto, é um ou outro: ou se vive em Cristo, ou não há nada pelo que, de fato, viver.
Sim. É um ou outro.

Escute: mas, se há vinte anos atrás, quando você estava dramaticamente deprimido, tivessem cuidado de você com os melhores psicofármacos, se tivessem colocado você “no eixo” e você tivesse ficado mais sereno, como você seria hoje?
Não sei. Não seria como agora e acredito firmemente que Deus tenha “querido” isto para fazer o que fez. Não teria procurado como procurei. Agora, posso dizer que aquele sofrimento, que foi mesmo muito grande, teve um sentido: nos moribundos que assisto, assim como em tantos que me escrevem pedindo ajuda como a um pai. Agora, posso entender as “noites da alma” de que falam alguns santos. Entendo aquele escuro, que é um vazio tendido a provocar um pedido mais intenso.

Mas, então, quer dizer que não é preciso cuidar da depressão? Parece-me uma ideia perigosa.
Eu seria um masoquista se respondesse que não precisa. Deus nos criou para sermos felizes, não para sofrer, e muito menos para sofrer dessa doença existencial que arranca não apenas o gosto, mas também o desejo de viver. O problema é acolher essa doença, como qualquer outra, como uma possibilidade de redenção, de purificação, como ocasião para dizer com toda a própria liberdade “sim” a Cristo, olhando-O no rosto. Como a razão e a fé caminham juntas, assim também a fé não pode não favorecer e sustentar todas aquelas possibilidades que a medicina oferece para aliviar ou vencer a dor, quando é possível. Porém, sempre lembrando sempre que, neste mundo, a dor e a morte sempre acompanham o homem. De forma que o único sentido da dor só pode ser acolhido olhando para o Crucifixo e para Cristo ressuscitado.

Padre Aldo, são muitos os que escrevem para você?
Muitíssimos. Recebi, desde o Meeting de 2008, milhares de emails. Foi como se, faland de depressão naquele contexto e afirmando que a depressão poderia ter um sentido bom, uma panela de pressão estourasse. Uma explosão. Quantos foram aqueles que se sentiram autorizados a pedir uma palavra sobre o sofrimento ou pedir um conselho. Muitíssimos jovens. Os jovens me comovem: estamos habituados a dizer que os jovens são infelizes. Não, os infelizes são os pais, somos nós, que lhes demos tão pouco de bom. Eles são filhos iguais aos filhos de todas as gerações e, talvez, mais sedentos: são, pelo contrário, puro pedido.

Tem outras coisas que não entendo. Você sempre escreve sobre a sua casa em Asunción e sobre os moribundos que está internados lá. Portanto, você vê todos os dias uma quantidade de dor que, para mim, é inimaginável. Como você consegue, diante de tanta dor, sustentar que a vida seja um bem, um dom pelo qual devemos ser gratos a Deus? (Eu, desde menina, pensava que nascer fosse uma desgraça).
Também eu, por muito tempo, pensei que a vida fosse um mal e passei momentos nos quais não conseguia ficar, se não com muito esforço, diante dos meus pais, vendo neles, pelo fato de me terem colocado no mundo, o principal fator do meu sofrimento. Somente no abraço de Cristo, no abraço reconhecido, eu entendi finalmente que nascer é um dom.

Mas, no que consiste este dom? Hoje, talvez mais evidentemente, tantas pessoas duvidam que a vida seja um dom.
Que a vida seja um dom eu não entendi a priori, porque me tenham ensinado no catecismo; quando eu conheci o “mal do viver”, não suportei mais os discursos sobre o “dom da vida”, pelo contrário, os refutava. Só consegui acolher a dor como um dom para mim, quando fiz a experiência daquilo que Giussani definia como “eu sou Tu que me fazes”, ou seja, comecei a olhar para mim mesmo com os olhos do Tu, do Mistério. Via o meu eu florescer e, em torno de mim, via crescer seus frutos nas obras de caridade que enchem essa paróquia. Somente quando aquele cúmulo de entulhos, que era o meu eu, foi colocado numa unidade graças a um encontro e, depois de longos anos de paciência, comecei a rir de mim mesmo e olhar para mim com simpatia é que tudo desabrochou, como um dom imprevisto, como uma letícia que me acompanha.

Padre Aldo, você não tem medo da morte?
Espero morrer como os meus doentes: abraçado.

Mas, eu penso no depois, no que tem depois, no Além. Como você pensa nisso?
Acredito que seja uma ulterior e eterna pergunta e um ser saciados sem fim. Pedir e ser saciados, numa dinâmica contínua de desejo e satisfação. De outro modo, o Paraíso seria tedioso. Será um pedir e ser sempre abraçados de novo. Porém, sem a dor.

O que você pensa sobre o escândalo da pedofilia na Igreja?
Olha só, o fato é que eu não consigo não experimentar piedade também pelos pedófilos. Porque sei, pela minha experiência em Asunción, que frequentemente eles mesmos são filhos de violências. Porque acredito que eu também, se Deus não tivesse Sua mão sobre a minha cabeça, poderia ser capaz de grandes pecados. Quem tem plena consciência da própria miséria não sabe mais acusar, apontar o dedo e gritar pedindo o apedrejamento. Quem tem consciência da própria miséria tem piedade.

Quem é, para você, o diabo? Como ele age sobre os homens?
O Demônio é o que ensinam a Escritura e a Igreja. Porém, prefiro não falar sobre ele, não evocá-lo. É muito forte, para mim, a memória dos pesadelos e das obsessões que me perseguiram por anos. Eu peço, todos os dias, a Deus para morrer sem fazer mal a mim mesmo, aos outros e à Igreja.

Mas, você não se pergunta por que existe a dor, por que o mundo é cheio de dor?
Não acredito que algum homem possa ser santo ou atingir a sua maturidade sem a dor, sem enfrentar a sua cruz. Não tem atalho: tem que passar por ali.

Eu tenho horror da dor, desde que perdi minha irmãzinha quando ainda era uma criança. Tenho medo que meus filhos me sejam arrancados.
Pense, porém, que Deus nunca nos pede provas maiores do que aquelas que um homem é capaz de suportar, provas que aquele home não possa suportar.

Ok. Se Cristo fosse aquela Presença concreta de que você fala, isso mudaria a vida de verdade. Mas sempre tem também o fato de “não vê-Lo”.
Você diz que não vê porque não pode tocar e medir, porque você está dentro, como todos, da nossa cultura positivista. Mas, se você olha o que acontece com os nossos doentes que se convertem, em Asunción, você é obrigada a dizer que há neles uma cura autêntica. Então, se age, “existe” (é verdadeiro); se age, Cristo é verdadeiro.

O que faz bem, o que muda o homem para melhor?
Segundo penso, como minha mãe me ensinou, confessar-se frequentemente. A confissão muda e cura. E a Eucaristia muda a pessoa ontologicamente: o corpo de Cristo, em nós, nos muda.

No cotidiano, nas ações talvez banais de todos os dias, o que pode fazer bem?
O aderir à realidade. Nunca fugir dela, nunca se refugiar nos próprios pensamentos, fechar-se no próprio quarto, isolar-se. Estar diante da realidade que nos é dada, enfrentá-la. Observar muito. Para mim, fazia bem olhar para as árvores, as plantas e descrever tudo por escrito. Para sair das minhas obsessões. Estar tenazmente na realidade, que é a circunstância na qual Cristo se nos apresenta naquele momento. Quem me ensinou isso foi Giussani, e é o mesmo olhar que eu encontro em Padre Julián Carrón e em Padre Massimo Camisasca.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 29 de julho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O trabalho é para ressuscitar

Por Pigi Colognesi

Em uma rápida reunião de redação do IlSussidiario.net decidimos que o editorial de hoje tenha como tema o trabalho, visto que amanhã é primeiro de maio. Comecei a pensar a respeito enquanto ia para a biblioteca - uma importante biblioteca pública de Milão - para procurar um livro que me seja útil para o meu trabalho.
Enquanto preenchia os formulários necessários para o ingresso, a empregada que estava diante de mim diz, entre deprimida e rancorosa, para a sua colega: "Não é o trabalho que me cansa. São as pessoas que me irritam". Pareceu-me falso e redutivo e quis, então, entender por quê. Decidi, assim, que o editorial iria começar daqui.
Antes de mais, volta-me à mente o fato que quando, esperando um volume qualquer, aconteceu de eu escutar as conversas dos empregados daquela biblioteca, o argumento era, frequentemente, a lamentação quanto a um colega qualquer, ausente obviamente, ou quanto ao chefe: alguém que deixou o lugar em desordem, ou aquela que chegou atrasada, o chefe que definiu as férias injustamente, e por aí vão as lamentações. Mas, somando tudo, isso me parece suficientemente normal. Cada convivência, sobretudo quando não é escolhida, tem seus espinhos e asperezas.
Depois, pensei que também eu, como usuário, no fundo, sou alguém que irrita, porque coloco problemas, tenho uma exigência, interrompo uma leitura ou um discurso, sou um fator de distúrbio quando se pensa no programa estabelecido. Mas isso se pode dizer de cada relacionamento de trabalho.
E se uma pessoa cansa e a tratamos mal, imaginemos o que possa acontecer com as coisas que, diferentemente dos homens, sequer se lamentam. Entendo bem, então, de onde vem o descuido de tantos ambientes de trabalho, aquela desordem feia que denota falta de respeito pelas coisas e pela beleza dos seus relacionamentos equilibrados.
Volta à minha mente a grande conferência que François Michelin proferiu no Meeting [de Rímini; ndt] de alguns anos atrás. O dono da fábrica de pneus surpreendeu a todos ao expor o princípio sobre o qual ele fazia todas as suas escolhas econômicas e organizativas: o respeito pelo dado. Cada trabalho, ele dizia, é um relacionamento que se assume com algo de diferente de você, algo de preexistente às nossas próprias imaginações, cálculos, previsões.
Trabalhar - e ter sucesso no trabalho - significa dobrar-se a esta irredutível e fecunda alteridade: o colega, o operário, o fornecedor, o cliente. Até mesmo a matéria-prima; sim, porque o homem não é criador, como Deus, e pode modelar a matéria segundo os seus objetivos tão somente se lhes respeitar as características.
É evidente, então, que a verdadeira dificuldade que frequentemente encontramos no trabalho, aquela insatisfação que se torna o fundo do cotidiano que somos obrigados a carregar, provêm diretamente da não aceitação do dado - pessoas e coisas -, da pretensão de assumir apenas uma realidade selecionada pelos nossos gostos, prazeres e desejos.
E assim nos condenamos à esterilidade de quem não encontra nunca algo de novo. Condenamos-nos a não fazer nunca a experiência descrita pelo poeta polonês Kiprian Norwid: "A beleza existe para suscitar admiração que, depois, leva ao trabalho: o trabalho é para ressuscitar".

* Publicado no IlSussidiario.net, do dia 30 de abril de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Cartas do P.e Aldo 104

Asunción, 12 de setembro de 2009.

Caros amigos,
nas verdes colinas de São Paulo, primeiro com 70 sacerdotes e 4 bispos, agora com quase 200 do Grupo Adulto, estou, de verdade, repousando depois do Meeting.
Repousando, imergindo na gigantesca humanidade de Carrón. “Nunca escutamos alguém como ele”, diziam os 70 padres presentes e, particularmente, os mais de 20 que, pela primeira vez, o escutavam.
A sua palestra magistral sobre a figura humana do padre foi arrepiante, comoveu a todos. Digo “comoveu” no sentido literal do termo. Que as mulheres chorem não nos surpreende (o dizia bem Péguy). Que os homens se comovam, talvez quando se tornem mais velhos, também não nos surpreende tanto assim. Que padres se comovam acontece às vezes durante um funeral (quando eu era pequeno, não conseguia entender por que o meu pároco não chorava nunca, quer enterrasse uma criança, uma mãe ou um velho... e me perguntava sempre o porquê daquela impassibilidade... só muito mais tarde na vida é que consegui entender: Cristo existe, mas não existe o humano... pobre celibato!), porém que um bispo se comova até as lágrimas pelo dom da fé, não só nunca havia visto, como também nunca poderia ter imaginado algo do gênero.
Ontem, dia 09 de setembro, no encerramento dos Exercícios (Espirituais dos Padres da América Latina; ndt), a Santa Missa foi celebrada por um caro amigo, bispo de CL, na Argentina. Um homem! Cinco meses atrás, ele veio encontrar este asno, seu amigo, e ver as obras de Deus. Fez 3 mil quilômetros – ida e volta – de carro, ficando conosco dois dias de um calor infernal. Nunca havia visto, na minha vida, um bispo – de uma humildade e de uma humanidade raras – que me testemunhasse tanto afeto.
Ontem, durante a homelia, agradecendo a Carrón pela maneira como nos conduzira naqueles dias e pela maneira como nos havia falado da humanidade dos sacerdotes, da misericórdia, da liberdade, comoveu-se até as lágrimas. Deixo a vocês imaginar a surpresa que isso causou nos 70 padres presentes. Um bispo comovido até as lágrimas pela graça da fé e por Carrón nos ter falado do sacerdote naqueles dias, neste ano sacerdotal. Um bispo, sucessor dos apóstolos! Amigos, vocês entendem o que é o humano, o que é a humanidade de um homem – padre ou bispo –, o que significa olhar e seguir a Carrón?
Nem mesmo nos encontros com Giussani acontecia que se visse um bispo chorar de comoção pelo que o Gius nos dizia, nos testemunhava e que, hoje, Carrón, com uma genialidade humana própria e exclusiva de quem é, de fato, o filho predileto e herdeiro de Giussani, nos comunica. Vi o que significa que Giussani está mais vivo hoje do que há 20 anos, quando vinha para esses lados de cá do oceano. A sua presença era fisicamente presente entre nós, no modo com o qual Carrón nos fez vibrar, gozar do nosso ser homens – padres ou bispos. Cada um de nós, voltou para o seu lugar – ou na selva ou nas grandes metrópoles deste continente, ou nos campos perdidos –, alguns sozinhos, outros em dois... mas todos a milhares de quilômetros de distância uns dos outros... porém, com aquilo que nos foi dado de presente nesses dias, com o suficiente para viver intensamente, até o próximo ano, cada circunstância.
Que bonito!
Finalmente, um pequeno detalhe de casa – quer dizer, de amizade, de atenção à pessoa: quem veio buscar Paolino e eu no aeroporto, apesar de todos os empenhos, foram Marcos e Cleuza... e nos trouxeram até aqui onde estamos (num hotel em Atibaia; ndt). Praticamente nos deram toda a sua tarde. Mas, não foi só isso. No dia seguinte, às 5 da manhã, foram buscar Carrón para trazê-lo ao hotel. Quando me levantei, Padre Ignazio, que está em Salvador da Bahia, me disse: “dá um pulo na recepção do hotel... a Cleuza, sabendo que você é diabético, mandou uma cesta de coisas para comer que respeitam a sua dieta”. Vou até lá e encontro o presente. Colocaram até mesmo guardanapos, copos e faca... além de uma diversidade enorme de frutas. Fiquei surpreso, tornando-me ainda mais consciente do que quer dizer uma humanidade mudada por Cristo, atenta a cada detalhe. Mas também me dei mais conta do que é uma fraternidade.
Padre Aldo