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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A Quaresma com os santos

A purificação espiritual por meio do jejum e da misericórdia

Dos Sermões de São Leão Magno, papa (Séc. V)
(Sermo 6 de Quadragesima, 1-2: PL 54,285-287)

Em todo tempo, amados filhos, a terra está repleta da misericórdia do Senhor (SI 32,5). A própria natureza é para todo fiel uma lição que o ensina a louvar a Deus, pois o céu, a terra, o mar e tudo o que neles existe proclamam a bondade e a onipotência de seu Criador; e a admirável beleza dos elementos postos a nosso serviço requer da criatura racional uma justa ação de graças. O retorno, porém, desses dias que os mistérios da salvação humana marcaram de modo mais especial e que precedem imediatamente a festa da Páscoa, exige que nos preparemos com maior cuidado por meio de uma purificação espiritual. Na verdade, é próprio da solenidade pascal que a Igreja inteira se alegre com o perdão dos pecados. Não é apenas nos que renascem pelo santo batismo que ele se realiza, mas também naqueles que desde há muito são contados entre os filhos adotivos. É, sem dúvida, o banho da regeneração que nos torna criaturas novas; mas todos têm necessidade de se renovar a cada dia para evitarmos a ferrugem inerente à nossa condição mortal, e não há ninguém que não deva se esforçar para progredir no caminho da perfeição; por isso, todos sem exceção, devemos empenhar-nos para que, no dia da redenção, pessoa alguma seja ainda encontrada nos vícios do passado. Por conseguinte, amados filhos, aquilo que cada cristão deve praticar em todo tempo, deve praticá-lo agora com maior zelo e piedade, para cumprir a prescrição, que remonta aos apóstolos, de jejuar quarenta dias, não somente reduzindo os alimentos, mas sobretudo abstendo-se do pecado. A estes santos e razoáveis jejuns, nada virá juntar-se com maior proveito do que as esmolas. Sob o nome de obras de misericórdia, incluem-se muitas e louváveis ações de bondade; graças a elas, todos os fiéis podem manifestar igualmente os seus sentimentos, por mais diversos que sejam os recursos de cada um. Se verdadeiramente amamos a Deus e ao próximo, nenhum obstáculo impedirá nossa boa vontade. Quando os anjos cantaram: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14), proclamavam bem-aventurado, não só pela virtude da benevolência mas também pelo dom da paz, todo aquele que, por amor, se compadece do sofrimento alheio. São inúmeras as obras de misericórdia, o que permite aos verdadeiros cristãos tomar parte na distribuição de esmolas, sejam eles ricos, possuidores de grandes bens, ou pobres, sem muitos recursos. Apesar de nem todos poderem ser iguais na possibilidade de dar, todos podem sê-lo na boa vontade que manifestam.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Quaresma: tempo propício para renovarmos nosso caminho de fé


Mensagem de Sua Santidade
Papa Bento XVI
para a Quaresma de 2012

“Prestemos atenção uns aos outros,
para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Hb 10, 24)

Irmãos e irmãs!
A Quaresma oferece-nos a oportunidade de refletir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito, este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.
Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: “Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Hb 10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor “com um coração sincero, com a plena segurança da ” (v. 22), de conservarmos firmemente “a profissão da nossa esperança” (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, “o amor e as boas obras” (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre atual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.

1. “Prestemos atenção”: a responsabilidade pelo irmão
O primeiro elemento é o convite a “prestar atenção”: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a “observar” as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objeto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a “dar-se conta” do cisco que têm na própria vista antes de reparar na trave que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também em outro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a “considerar Jesus” (Lc 3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela “esfera privada”. Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o “guarda” dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o fato de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo atual sofre sobretudo de falta de fraternidade: “O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo” (Carta enc. Populorum progressio, 66).
A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é “bom e faz o bem” (Sl 119, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de “anestesia espiritual”, que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, “seguiram adiante” do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de “prestar atenção”, de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de “ter misericórdia” por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: “O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende” (Pr 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança “dos que choram” (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.
O fato de “prestar atenção” ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje se é muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa ao bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: “Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele se tornará ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber” (Pr 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de “corrigir os que erram”. É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: “Se porventura um homem for surpreendido em alguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, para não seres surpreendido, tu também, pela tentação” (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que “sete vezes cai o justo” (Pr 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais retamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.

2. “Uns aos outros”: o dom da reciprocidade
O fato de sermos o “guarda” dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de considerá-la na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a atual pode se tornar surda tanto aos sofrimentos físicos, quanto às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que “leva à paz e à edificação mútua” (Rm 14, 19), favorecendo o “próximo no bem, visando à edificação da comunidade” (Rm 15, 2), sem buscar “o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos” (1Cor 10, 33). Esta recíproca correção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.
Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm que ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, tanto no bem quanto no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas se alegra contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que “os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros” (1Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, cada cristão pode expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e onipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a ação do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16).

3. “Para nos estimularmos ao amor e às boas obras”: caminhar juntos na santidade
Esta afirmação da Carta aos Hebreus (Hb 10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1Cor 12, 31-13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efecivo sempre maior, “como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia” (Pr 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.
Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de “colocar para render os talentos” que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre atual, para tendermos à “medida alta da vida cristã” (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: “Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima” (Rm 12, 10).
Que todos, diante de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Hb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.
Vaticano, 3 de novembro de 2011

BENEDICTUS PP. XVI

* Extraído do site do Vaticano. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Jovens, vós sois a luz do mundo...



Vigília de oração com os jovens

Discurso do Papa Bento XVI 

Feira de Freiburg
Sábado, 24 de setembro de 2011

Queridos jovens amigos!
Durante todo o dia, pensei com alegria nesta noite, quando poderia estar aqui convosco e unir-me a vós na oração. Talvez alguns de vós tenham estado presentes na Jornada Mundial da Juventude, onde pudemos experimentar a singular atmosfera de serenidade, profunda comunhão e íntima alegria que caracteriza uma vigília noturna de oração. Espero que possamos todos nós também fazer a mesma experiência neste momento em que o Senhor nos toca e faz de nós testemunhas jubilosas, que rezam juntas e servem de suporte umas às outras não só nesta noite, mas durante toda a nossa vida.
Em todas as igrejas, nas catedrais e nos conventos, em toda a parte onde se reúnem os fiéis para a celebração da Vigília Pascal, a mais santa de todas as noites começa com o acendimento do Círio Pascal, cuja luz é depois transmitida a todos os presentes. Uma minúscula chama irradia-se para muitas luzes e ilumina a casa de Deus que estava às escuras. Neste maravilhoso rito litúrgico que imitamos nesta vigília de oração, se nos desvenda, através de sinais mais eloquentes do que as palavras, o mistério da nossa fé cristã. Ele, Cristo, que diz de Si mesmo: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8, 12), faz brilhar a nossa vida, para ser verdadeiro o que acabamos de ouvir no Evangelho: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 14). Não são os nossos esforços humanos nem o progresso técnico do nosso tempo que trazem a luz a este mundo. Experimentamos sempre de novo que o nosso esforço por uma ordem melhor e mais justa tem os seus limites. O sofrimento dos inocentes e, enfim, a morte de cada homem constituem uma escuridão impenetrável que pode talvez ser momentaneamente iluminada por novas experiências, como a noite o é por um relâmpago; mas, no fim, permanece uma escuridão angustiante.
Ao nosso redor pode haver a escuridão e as trevas, e todavia vemos uma luz: uma chama pequena, minúscula, que é mais forte do que a escuridão, aparentemente tão poderosa e insuperável. Cristo, que ressuscitou dos mortos, brilha neste mundo, e o faz de modo mais claro precisamente onde tudo, segundo o juízo humano, parece lúgubre e sem esperança. Ele venceu a morte – Ele vive – e a fé nEle penetra, como uma pequena luz, tudo o que é escuro e ameaçador. Certamente quem acredita em Jesus não é que vê sempre só o sol na vida, como se fosse possível poupar-lhe sofrimentos e dificuldades, mas há sempre uma luz clara que lhe indica um caminho, o caminho que conduz à vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Os olhos de quem acredita em Cristo vislumbram, mesmo na noite mais escura, uma luz e veem já o fulgor de um novo dia.
A luz não fica sozinha. Ao seu redor, acendem-se outras luzes. Sob os seus raios, delineiam-se de tal modo os contornos do ambiente que nos podemos orientar. Não vivemos sozinhos no mundo. Exatamente nas coisas importantes da vida, temos necessidade de outras pessoas. Assim, de modo particular na fé, não estamos sozinhos, somos anéis da grande corrente dos crentes. Ninguém chega a crer, senão for sustentado pela fé dos outros; mas, por outro lado, com a minha fé contribuo para confirmar os outros na sua fé. Ajudamo-nos mutuamente a ser exemplo uns para os outros, partilhamos com os outros o que é nosso, os nossos pensamentos, as nossas ações, a nossa estima. E ajudamo-nos mutuamente a orientar-nos, a identificar o nosso lugar na sociedade.
Queridos amigos, diz o Senhor: “Eu sou a luz do mundo; vós sois a luz do mundo”. É uma coisa misteriosa e magnífica que Jesus tenha dito de Si próprio e de cada um de nós a mesma coisa, ou seja, que “somos luz”. Se acreditarmos que Ele é o Filho de Deus que curou os doentes e ressuscitou os mortos, ou mais, que Ele mesmo ressuscitou do sepulcro e está verdadeiramente vivo, então compreenderemos que Ele é a luz, a fonte de todas as luzes deste mundo. Nós, ao contrário, não cessamos de experimentar a falência dos nossos esforços e o erro pessoal, apesar das nossas boas intenções. Ao que parece, não obstante o seu progresso técnico, o mundo onde vivemos, em última análise, não se tem tornado melhor. Existem ainda guerras, terror, fome e doença, pobreza extrema e desalmada repressão. E mesmo aqueles que, na história, se consideraram “portadores de luz”, mas sem ter sido iluminados por Cristo que é a única verdadeira luz, não criaram paraíso terrestre algum, antes instauraram ditaduras e sistemas totalitários onde até a mais pequena centelha de humanismo foi sufocada.
Neste ponto, não devemos calar o fato de que o mal existe. Nós o vemos em tantos lugares deste mundo; mas o vemos também – e isto nos assusta – na nossa própria vida. Sim, no nosso próprio coração, existe a inclinação para o mal, o egoísmo, a inveja, a agressividade. Com certa autodisciplina, talvez isto possa, em certa medida, se controlar. Caso diverso e mais difícil se passa com formas de mal mais escondido, que podem envolver-nos como um nevoeiro indefinido, tais como a preguiça, a lentidão no querer e no praticar o bem. Repetidamente, ao longo da história, pessoas atentas fizeram notar que o dano para a Igreja não vem dos seus adversários, mas dos cristãos tíbios. Então, como Cristo pode dizer que os cristãos – sem ter excluído os cristãos fracos – são a luz do mundo? Compreenderíamos talvez que Ele tivesse gritado: Convertei-vos! Sede a luz do mundo! Mudai a vossa vida, tornai-a clara e resplandecente! Não será o caso de ficar maravilhados ao vermos que o Senhor não nos dirige um apelo, mas diz que somos a luz do mundo, que somos luminosos, que resplandecemos na escuridão?
Queridos amigos, o apóstolo São Paulo, em muitas das suas cartas, não tem receio de designar por “santos” os seus contemporâneos, os membros das comunidades locais. Aqui se torna evidente que cada batizado – mesmo antes de poder realizar boas obras – é santificado por Deus. No batismo, o Senhor acende, por assim dizer, uma luz na nossa vida, uma luz que o Catecismo chama a graça santificante. Quem conservar essa luz, quem viver na graça, é santo.
Queridos amigos, a imagem dos santos foi repetidamente objeto de caricatura e apresentada de modo distorcido, como se o ser santo significasse estar fora da realidade, ser ingênuo e viver sem alegria. Não é raro pensar-se que um santo seja apenas aquele que realiza ações ascéticas e morais de nível altíssimo, pelo que se pode certamente venerar mas nunca imitar na própria vida. Como é errada e desalentadora esta visão! Não há nenhum santo, com exceção da bem-aventurada Virgem Maria, que não tenha conhecido também o pecado e que não tenha caído alguma vez. Queridos amigos, Cristo não se interessa tanto de quantas vezes vacilamos e caímos na vida, como sobretudo de quantas vezes nós, com a Sua ajuda, nos erguemos. Não exige ações extraordinárias, mas quer que a sua luz brilhe em vós. Não vos chama porque sois bons e perfeitos, mas porque Ele é bom e quer tornar-vos seus amigos. Sim, vós sois a luz do mundo, porque Jesus é a vossa luz. Sois cristãos, não porque realizais coisas singulares e extraordinárias, mas porque Ele, Cristo, é a vossa, a nossa vida. Vós sois santos, nós somos santos, se deixarmos a sua graça agir em nós.
Queridos amigos, nesta noite em que nos reunimos em oração ao redor do único Senhor, vislumbramos a verdade da palavra de Cristo segundo a qual não pode ficar escondida uma cidade situada no cimo de um monte. Esta assembleia brilha nos vários significados da palavra: quer no clarão de inúmeras luzes, quer no resplendor de tantos jovens que acreditam em Cristo. Uma vela só pode dar luz, se se deixar consumir pela chama; permaneceria inútil, se a sua cera não alimentasse o fogo. Permiti que Cristo arda em vós, ainda que isto possa às vezes implicar sacrifício e renúncia. Não tenhais medo de poder perder alguma coisa, ficando, no fim, por assim dizer, de mãos vazias. Tende a coragem de empenhar os vossos talentos e os vossos dotes pelo Reino de Deus e de vos dar a vós mesmos – como a cera da vela –, para que o Senhor ilumine, por vosso meio, a escuridão. Sabei ousar ser santos ardorosos, em cujos olhos e coração brilha o amor de Cristo e que, deste modo, trazem luz ao mundo. Eu confio que vós e muitos outros jovens aqui na Alemanha sejais chamas de esperança, que não ficam escondidas. “Vós sois a luz do mundo”. “Onde há Deus, há futuro!” Amém.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 24 de setembro de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Jovens, a Igreja precisa da vossa fidelidade


Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Encontro com Jovens Religiosas

Saudação do Papa Bento XVI

Pátio de los Reyes de El Escorial
Sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Queridas jovens religiosas!
No âmbito da Jornada Mundial da Juventude que estamos celebrando, sinto uma grande alegria por poder encontrar-me convosco, que consagrastes a vossa juventude ao Senhor, e agradeço-vos a amável saudação que me dirigistes. Agradeço ao Senhor Cardeal Arcebispo de Madri por ter previsto este encontro num ambiente tão evocativo como é o do Mosteiro de São Lourenço do Escorial. Se a sua famosa Biblioteca guarda importantes edições da Sagrada Escritura e de Regras Monásticas de várias Famílias Religiosas, a vossa vida de fidelidade à vocação recebida é também uma maneira preciosa de guardar a Palavra do Senhor, que ressoa nas vossas formas de espiritualidade.
Queridas irmãs, cada carisma é uma palavra evangélica que o Espírito Santo recorda à sua Igreja (cf. Jo 14, 26). Não é em vão que a vida consagrada “nasce da escuta da Palavra de Deus e acolhe o Evangelho como sua norma de vida. Deste modo, viver no seguimento de Cristo casto, pobre e obediente é uma ‘exegese’ viva da Palavra de Deus. (…) Dela brotou cada um dos carismas e dela cada regra quer ser expressão, dando origem a itinerários de vida cristã marcados pela radicalidade evangélica” (Exort. apostólica Verbum Domini, 83).
A radicalidade evangélica é estar “enraizados e edificados em Cristo, e firmes na fé” (cf. Col 2, 7), que, na vida consagrada, significa ir à raiz do amor a Jesus Cristo com um coração sem divisão, sem nada antepor a esse amor (cf. São Bento, Regra, IV, 21), com uma doação esponsal como viveram os santos, vivida segundo o estilo de Rosa de Lima e Rafael Arnáiz, jovens patronos desta Jornada Mundial da Juventude. O encontro pessoal com Cristo que alimenta a vossa consagração deve se revelar, com toda a sua força transformadora, nas vossas vidas; e adquire uma especial relevância hoje, quando se “constata uma espécie de ‘eclipse de Deus’, uma certa amnésia, senão mesmo uma verdadeira rejeição do cristianismo e uma negação do tesouro da fé recebida, com o risco de se perder a própria identidade profunda” (Mensagem para a XXVI Jornada Mundial da Juventude de 2011, 1). Face ao relativismo e à mediocridade, surge a necessidade desta radicalidade que testemunha a consagração como uma pertença a Deus sumamente amado.
A referida radicalidade evangélica da vida consagrada exprime-se na comunhão filial com a Igreja, casa dos filhos de Deus que Cristo edificou: a comunhão com os Pastores, que propõem, em nome do Senhor, o depósito da fé recebido através dos Apóstolos, do Magistério da Igreja e da tradição cristã; a comunhão com a vossa Família Religiosa, conservando agradecidas o seu genuíno patrimônio espiritual e apreciando também os outros carismas; a comunhão com outros membros da Igreja como os leigos, chamados a testemunharem a partir da sua específica vocação o mesmo evangelho do Senhor.
Finalmente a radicalidade evangélica exprime-se na missão que Deus vos quis confiar. Desde a vida contemplativa que, na própria clausura, acolhe a Palavra de Deus em silêncio eloquente e adora a Sua beleza na solidão por Ele habitada, até aos mais diversos caminhos de vida apostólica, em cujos sulcos germina a semente evangélica na educação das crianças e jovens, no cuidado dos doentes e idosos, no acompanhamento das famílias, no compromisso em favor da vida, no testemunho da verdade, no anúncio da paz e da caridade, no trabalho missionário e na nova evangelização, e em muitos outros campos do apostolado eclesial.
Queridas irmãs, este é o testemunho da santidade a que Deus vos chama, seguindo de perto e incondicionalmente Jesus Cristo na consagração, na comunhão e na missão. A Igreja precisa da vossa fidelidade jovem, arraigada e edificada em Cristo. Obrigado pelo vosso “sim” generoso, total e perpétuo ao chamado do Amado. Que a Virgem Maria sustente e acompanhe a vossa juventude consagrada, com o ardente desejo de que interpele, encoraje e ilumine todos os jovens.
Com estes sentimentos, peço a Deus que recompense abundantemente a generosa contribuição da vida consagrada para esta Jornada Mundial da Juventude, e em seu nome vos abençoo de todo o coração. Muito obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 19 de agosto de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

São Lourenço


10 de agosto


São Lourenço,
rogai por nós!

Ó Deus todo poderoso, que concedestes a São Lourenço a graça de vencer os tormentos do fogo abrasador, apagai em nosso coração as chamas dos nossos vícios. Por Jesus Cristo Nosso Senhor, Amém.

Comentário ao evangelho do dia


São Lourenço

Evangelho - Jo 12,24-26
Naquele tempo, disse Jesus a seus discipulos: "Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me quer servir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará".

Comentário feito por Santo Agostinho (354-430)
bispo de Hipona (África do Norte) e doutor da Igreja 

As proezas gloriosas dos mártires, que por todo o lado ornam a Igreja, permitem-nos compreender a verdade daquilo que foi cantado: "É preciosa, aos olhos do Senhor, a morte dos Seus fiéis" (Sl 115,15). Com efeito, ela é preciosa aos nossos olhos e aos olhos dAquele em nome de Quem eles morreram. Mas o preço de todas aquelas mortes é a morte de um só. Quantas mortes resgatou ao morrer sozinho porque, se não tivesse morrido, o grão de trigo não se teria multiplicado? Haveis ouvido o que Ele disse quando se aproximava a Sua Paixão, isto é, quando se aproximava a nossa redenção: "Se o grão de trigo lançado à terra não morrer, fica ele só; mas se morrer dá muito fruto". Quando o Seu lado foi ferido pela lança, o que dele jorrou foi o preço do universo (cf Jo 19,34). Os fiéis e os mártires foram resgatados; mas a fé dos mártires deu provas e o seu sangue é disso testemunho. "Cristo deu a Sua vida por nós ; também nós devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos" (1Jo 3,16). E em outro lugar é dito ainda: "Quando te sentas a uma mesa magnífica, repara bem no que te servem pois terás de preparar o mesmo" (cf Pr 23,1). É uma mesa magnífica, aquela em que comemos com o Senhor do banquete. Ele é o anfitrião que convida, Ele próprio é o alimento e a bebida. Os mártires prestaram atenção ao que comiam e bebiam para poderem dar o mesmo. Mas como teriam eles podido dar o mesmo se Aquele que fez a primeira oferta não lhes tivesse dado o que eles dariam? É isso que nos recomenda o salmo de onde retirámos esta frase: "É preciosa, aos olhos do Senhor, a morte dos Seus fiéis".

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Santa Edith Stein

9 de agosto


Santa Edith Stein,
rogai por nós!

Deus de nossos pais, conduzistes Santa Edith Stein, vossa mártir, ao conhecimento e à imitação até à morte de vosso Filho crucificado; fazei que por sua intercessão todos os homens reconheçam no Cristo seu Salvador e possam, graças a Ele, contemplar sem fim a vossa face. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Não se pode adquirir a “Ciencia da Cruz”, se não sofrendo verdadeiramente o peso da cruz. Desde o primeiro instante tenho tido a convicção íntima e me digo do fundo do coração: Salve, Oh Cruz, minha única esperança (S.ta Edith Stein)

terça-feira, 12 de julho de 2011

Beatos Louis Martin e Zélie Guérin

12 de julho


Beatos Louis e Zélie,
rogai por nós!

Os pais de Santa Terezinha do Menino Jesus foram beatificados pelo Papa Bento XVI no dia 19 de outubro de 2006, numa cerimônia presidida pelo Cardeal José Saraiva Martins.

"Entre as vocações para as quais os homens são chamados pela Providência, o casameno é uma das mais nobres e das mais elevadas. Louis e Zélie compreenderam que podiam se santificar não apesar do casamento, mas através, no e pelo casamento. (...) O amor conjugal de Louis e Zélie é um puro reflexo do amor de Cristo por sua Igreja; é também um puro reflexo do amor com o qual a Igreja ama seu Esposo: o Cristo. O Pai nos escolheu antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irreprimíveis sob Seu olhar, no amor. (...) Qual é o segredo do sucesso de sua vida cristã? (...) Eles amavam a vontade do Senhor. Eles se conformaram à vontade do Senhor, sem recriminações. Para estarem seguros de caminhar na verdadeira vontade do Senhor, eles se voltaram para a Igreja, especialista em humanidade, colocando todos os aspectos de suas vidas em harmonia com os ensinamentos da Igreja. Louis e Zélie são um dom para os esposos de todas as idades, por causa da estima, do respeito e da harmonia com os quais eles se amaram durante 19 anos. Zélie escrevia a Louis: 'Eu não poderia viver sem ti, meu querido Louis'. E ele respondia: 'Sou teu marido e amigo que te ama para sempre'. Eles viveram as promessas do casamento: o compromisso de fidelidade, a indissolubilidade do vínculo, a fecundidade do amor, nas alegrias e nas provações, na saúde e na doença. Louis e Zélie são um dom para os pais. Ministros do amor e da vida, eles geraram numerosos filhos para o Senhor..." (Dom José Cardeal Saraiva Martins).

terça-feira, 21 de junho de 2011

Cartas do P.e Aldo 197

Asuncíon, 17 de junho de 2011.

Caros amigos,
Cedo ou tarde, teremos que morrer, mesmo se, frequentemente, nos esquecemos disto. Então, como vocês gostariam de morrer? Aldo, um homem de 36 anos, paciente terminal da clínica, me disse: "vim para cá porque quero me preparar bem para o encontro definitivo com Jesus. Quero morrer com dignidade, ou seja, com o Santo Rosário na mão e Jesus Eucarístico. O Rosário é a minha arma para vencer esta batalha final. Padre, me acompanhe nesta luta, porque eu quero ver Jesus".
Deus conceda a todos nós esta liberdade.
Padre Aldo

O homem não pode viver sem esta busca pela verdade sobre si mesmo

Visita Pastoral à Diocese de San Marino-Montefeltro

Encontro com os jovens da diocese de San Marino-Montefeltro

Discurso do Santo Padre Bento XVI

Praça Vittorio Emanuele – Pennabilli
Domingo, 19 de junho de 2011

Caros jovens,
Estou muito contente de estar, hoje, em vosso meio e convosco! Sinto toda a vossa alegria e o entusiasmo que caracterizam a vossa idade. Saúdo e agradeço o vosso Bispo, D. Luigi Negri, pelas cordiais palavras de acolhida, e o vosso amigo que se fez intérprete dos pensamentos e dos sentimentos de todos, e formulou algumas questões muito sérias e importantes. Espero que, durante esta minha exposição, se encontrem também os elementos para encontrar as respostas a estas perguntas. Saúdo com afeto os Sacerdotes, as Irmãs, os animadores que compartilham convosco o caminho da fé e da amizade; e naturalmente também os vossos pais, que se alegram ao ver-vos crescendo fortes no bem.
O nosso encontro aqui, em Pennabilli, diante desta Catedral, coração da Diocese, e nesta Praça, nos remete, com o pensamento, aos numerosos e diversos encontros de Jesus, que nos são contados pelos Evangelhos. Hoje, gostaria de chamar a atenção para o célebre episódio no qual o Senhor estava no caminho e um tal – um jovem – correu ao seu encontro e, se ajoelhando, lhe fez esta pergunta: “Bom Mestre, o que devo fazer para ter por herança a vida eterna” (Mc 10, 17). Talvez, nós, hoje, não diríamos assim, mas o sentido da pergunta é o mesmo: o que devo fazer, como devo viver para viver realmente, para encontrar a vida? Portanto, dentro desta interrogação podemos ver encerrada a ampla e variada experiência humana que se abre à busca do significado, do sentido profundo da vida: como viver, por que viver. A “vida eterna”, de fato, à qual se refere aquele jovem do Evangelho, não indica apenas a vida depois da morte, não quer saber apenas como se chega ao céu. Quer saber: como devo viver, agora, para ter já a vida que pode ser também, depois, a eterna. Portanto, nesta pergunta, este jovem manifesta a exigência de que a existência cotidiana encontre sentido, encontre plenitude, encontre verdade. O homem não pode viver sem esta busca pela verdade sobre si mesmo – o que sou eu, para que devo viver –, verdade que impulsione a abrir o horizonte e a ir além daquilo que é material, não para fugir da realidade, mas para vivê-la de modo ainda mais verdadeiro, mais rico de sentido e de esperança, e não apenas na superficialidade. E acredito que esta – e eu o vi e ouvi nas palavras do vosso amigo – seja também a vossa experiência. As grandes interrogações que carregamos dentro de nós permanecem sempre, renascem sempre: quem somos?, de onde viemos?, para quem vivemos? E estas questões são o sinal maior da transcendência do ser humano e da capacidade que temos de não parar na superfície das coisas. E é exatamente olhando para nós mesmos com verdade, com sinceridade e com coragem que intuímos a beleza, mas também a precariedade da vida e sentimos uma insatisfação, uma inquietude que nada de concreto consegue preencher. No fim, todas as promessas se demonstram frequentemente insuficientes.
Caros amigos, convido-vos a tomar consciência desta saudável e positiva inquietude, a não ter medo de vos colocar perguntas fundamentais sobre o sentido e sobre o valor da vida. Não parai nas respostas parciais, imediatas, certamente mais fáceis no momento e mais cômodas, que podem dar algum momento de felicidade, de exaltação, de embriaguez, mas que não vos levam à verdadeira alegria de viver, aquela que nasce de quem constrói – como disse Jesus – não sobre a areia, mas sobre a rocha sólida. Aprendei, então, a refletir, a ler de modo não superficial, mas em profundidade, a vossa experiência humana: descobrireis, com maravilhamento e com alegria, que o vosso coração é uma janela aberta para o infinito! Esta é a grandeza do homem e também a sua dificuldade. Uma das ilusões produzidas no curso da história foi a de pensar que o progresso técnico-científico, de modo absoluto, poderia dar respostas e soluções a todos os problemas da humanidade. E vemos que não é assim. Na realidade, mesmo se tivesse sido possível, nada e ninguém poderia ter cancelado as perguntas mais profundas sobre o significado da vida e da morte, sobre o significado do sofrimento, de tudo, porque estas perguntas estão inscritas no espírito humano, no nosso coração, e ultrapassam a esfera das necessidades. O homem, mesmo na era do progresso científico e tecnológico – que nos deu tanto – permanece um ser que deseja mais, mais do que a comodidade e o bem-estar, continua aberto à verdade inteira de sua existência, que não pode parar nas coisas materiais, mas se abre a um horizonte muito mais amplo. Tudo isto vós experimentais continuamente, cada vez que vos perguntais “mas, por quê?”. Quando contemplais um pôr do sol, ou uma música, movem-se em vós o coração e a mente; quando experimentais o que quer dizer amar verdadeiramente; quando sentis com força o sentido da justiça e da verdade, e quando sentis também a falta de justiça, de verdade e de felicidade.
Caros jovens, a experiência humana é uma realidade que nos acomuna a todos, mas a elas se podem dar diversos níveis de significado. E é aqui que se decide a forma como orientar a própria vida e se escolhe a quem confiá-la, a quem se confiar. O risco é sempre o de permanecer aprisionado ao mundo das coisas, do imediato, do relativo, do útil, perdendo a sensibilidade por aquilo que se refere à nossa dimensão espiritual. Não se trata, de fato, de desprezar o uso da razão ou de rejeitar o progresso científico, mas exatamente o contrário; trata-se muito mais de entender que cada um de nós não é feito somente de uma dimensão “horizontal”, mas compreende também aquela dimensão “vertical”. Os dados científicos e os instrumentos tecnológicos não podem substituir-se ao mundo da vida, aos horizontes de significado e de liberdade, à riqueza das relações de amizade e de amor.
Caros jovens, é exatamente na abertura para a verdade inteira de nós, de nós mesmos e do mundo, que vemos a iniciativa de Deus para conosco. Ele vem ao encontro de cada homem e lhe faz conhecer o mistério do Seu amor. No Senhor Jesus, que morreu e ressuscitou por nós e nos deu o Espírito Santo, somos mesmos tornados partícipes da vida de Deus, pertencemos à família de Deus. NEle, em Cristo, podeis encontrar a resposta para as perguntas que acompanham o vosso caminho, não de modo superficial, fácil, mas caminhando com Jesus, vivendo com Jesus. O encontro com Cristo não se resolve na adesão a uma doutrina, a uma filosofia, mas aquilo que Ele vos propõe é compartilhar a Sua mesma vida e, assim, aprender a viver, aprender o que é o homem, o que sou eu. Para aquele jovem, que Lhe havia perguntado o que fazer para entrar na vida eterna, ou seja, para viver verdadeiramente, Jesus responde, convidando-o a largar os seus bens e acrescenta: “Vem! Segue-me!” (Mc 10, 21). A palavra de Cristo mostra que a vossa vida encontra significado no mistério de Deus, que é Amor: um Amor exigente, profundo, que vai além da superficialidade! O que seria da vossa vida sem este amor? Deus cuida do homem desde a criação até ao final dos tempos, quando levará à realização o seu projeto de salvação. No Senhor Ressuscitado a certeza da nossa esperança! Cristo mesmo, que foi até às profundezas da morte e ressuscitou, é a esperança em pessoa, é a Palavra definitiva pronunciada sobre a nossa história, é uma palavra positiva.
Não temeis enfrentar as situações difíceis, os momentos de crise, as provações da vida, porque o Senhor vos acompanha, está convosco! Encorajo-vos a crescer na amizade com Ele, através da leitura frequente do Evangelho e de toda a Sagrada Escritura, da participação fiel à Eucaristia como encontro pessoal com Cristo, do compromisso no interior da comunidade eclesial, do caminho com uma orientação espiritual válida. Transformados pelo Espírito Santo, podereis experimentar a autêntica liberdade, que é tal quando é orientada para o bem. Deste modo, a vossa vida, animada por uma contínua busca do rosto do Senhor e da vontade sincera de dar vós mesmos, será, para tantos de vossos coetâneos, um sinal, um chamado de atenção eloquente a viver de forma tal que o desejo de plenitude que está em todos nós se realize finalmente no encontro com o Senhor Jesus. Deixai que o mistério de Cristo ilumine toda a vossa pessoa! Então, podereis levar aos diversos ambientes aquela novidade que pode mudar as relações, as instituições, as estruturas, para construir um mundo mais justo e solidário, animado pela busca do bem comum. Não cedei à lógica individualista e egoísta! Conforte-vos o testemunho de tantos jovens que atingiram a meta da santidade: pensai em Santa Teresinha do Menino Jesus, em São Domingos Sávio, em Santa Maria Gorete, no Beato Pier Giorgio Frassati, no Beato Alberto Marvelli – que é desta terra! – e em tantos outros, desconhecidos de nós, mas que viveram o seu tempo na luz e na força do Evangelho, e encontraram a resposta: como viver, o que fazer para viver.
Como conclusão deste encontro, quero confiar cada um de vós à Virgem Maria, Mãe da Igreja. Como Ela, possais pronunciar e renovar o vosso “sim” e glorificar sempre o Senhor com a vossa vida, porque Ele vos dá palavras de vida eterna! Coragem, então, caros jovens e caras jovens, no vosso caminho de fé e de vida cristã também eu estarei próximo de vós e vos acompanharei com minha Bênção. Obrigado pela vossa atenção!

* Extraído do site do Vaticano, do dia 19 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Resposta Católica

Acabo de descobrir um site espetacular: Resposta Católica. Nele, estão disponíveis centenas de livros, textos e vídeos de altíssimo nível, sobre os mais variados temas... sempre a partir de uma perspectiva católica... de verdade! Aproveitem!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Homens, não super-heróis


Por Pigi Colognesi

Peço desculpas por voltar ao tema da Beatificação de João Paulo II; sei que muito já se escreveu sobre o tema. Mas, quando estávamos em Roma, naquele dia, o que vimos? Deixemos de lado, por um momento, os elementos, por assim dizer, acessórios: a multidão enorme, o desfile de autoridades eclesiásticas e civis, as vigílias de oração e as dificuldades para chegar e conseguir lugar.
No que consistiu, em si, a beatificação? Um gesto muito simples, quase prosaico. O bispo da diocese no qual o candidato beato morreu subiu os degraus que o separavam do sólio papal, tomou o microfone e disse ao Papa que a vida de um certo batizado de nome Karol Wojtyla merecia atenção e explicou o motivo, contando os principais momentos de sua vida. Em poucas palavras, podemos dizer que foi uma vida digna de ser recordada como uma vida bem sucedida, “beata”.
E o Papa respondeu que sim, que aquela vida de homem poderia mesmo ser chamada de beata. Fim da cerimônia de beatificação. Nesta troca simplicíssima de palavras, a Igreja demonstra, no entanto, uma coragem excepcional. Diz, com isso, que é possível, hoje em dia, sermos homens autênticos, verdadeiros; ser um homem para quem se possa olhar e afirmar, sem ironia, mas como surpresa: “Feliz dele”. O santo, no fundo, não é nada além disso: um homem verdadeiro.
Quem mais poderia ousar propor uma semelhante esperança para a nossa vida? Quando tudo está bem, nos recomendam que nos contentemos com a excelência em um ou outro setor da existência, nos sugerem que nos mantenhamos em forma e que tentemos “estar bem conosco mesmos”, que evitemos muitas complicações na busca de amor, justiça, verdade. O mundo, nos dizem, é uma selva, o tempo escorre inexoravelmente, as expectativas são sistematicamente desapontadas. Não é, de fato, possível ser verdadeira e completamente homens. E, diabos, nivelemos por baixo: o verdadeiro homem é uma quimera.
A Igreja, pelo contrário, anuncia exatamente que a humanidade realizada – em todas as suas dimensões, inclusive na exigência de eternidade e de misteriosa salvação do mal de que é feita cada existência – é possível. E não o diz como presságio ou como imperativo moral; ela o diz mostrando o exemplo no qual isto aconteceu: um homem com nome e sobrenome, que viveu nos mesmos anos em que eu vivi, que respirou a mentalidade, enfrentando as dificuldades, que sofreu os dramas que eu também vivi.
Em suma, a beatificação é um grande gesto de estima pelo homem. Confirmada pelo fato de que a plenitude do humano não é considerada como o êxito de uma habilidade particular da pessoa indicada como exemplo, mas de algo muito mais simples. “Feliz de ti porque creste” é a frase com a qual o evangelho descreve Maria, a fundadora da linhagem dos santos, e que Bento XVI usou para explicar a plenitude humana do novo beato.
Não se trata de nenhum heroísmo titânico, mas da simplicidade da fé. E quando aplaudimos diante da proclamação do novo beato, no fundo, estávamos exultando pela renovada e doce esperança quanto à mísera e grande humanidade de cada um de nós.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 9 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Hoje nós te pedimos: Santo Padre, abençoa-nos!


Homilia do Papa Bento XVI
Por ocasião da Beatificação do Servo de Deus Papa João Paulo II

Átrio da Basílica Vaticana
Domingo, 1 de maio de 2011

Amados irmãos e irmãs,
Passaram já seis anos desde o dia em que nos encontrávamos nesta Praça para celebrar o funeral do Papa João Paulo II. Naquela ocasião, se a tristeza pela sua perda era profunda, maior ainda se revelava a sensação de que uma graça imensa envolvia Roma e o mundo inteiro: graça esta que era como que o fruto da vida inteira do meu amado Predecessor, especialmente do seu testemunho no sofrimento. Já naquele dia sentíamos pairar o perfume da sua santidade, tendo o Povo de Deus manifestado de muitas maneiras a sua veneração por ele. Por isso, quis que a sua Causa de Beatificação pudesse, no devido respeito pelas normas da Igreja, prosseguir com discreta celeridade. E o dia esperado chegou! Chegou depressa, porque assim aprouve ao Senhor: João Paulo II é Beato!
Desejo dirigir a minha cordial saudação a todos vós que, nesta circunstância feliz, vos reunistes, tão numerosos, aqui em Roma vindos de todos os cantos do mundo: cardeais, patriarcas das Igrejas Católicas Orientais, irmãos no episcopado e no sacerdócio, delegações oficiais, embaixadores e autoridades, pessoas consagradas e fiéis leigos; esta minha saudação estende-se também a quantos estão unidos conosco através do rádio e da televisão.
Estamos no segundo domingo de Páscoa, que o Beato João Paulo II quis intitular Domingo da Divina Misericórdia. Por isso, se escolheu esta data para a presente celebração, porque o meu Predecessor, por um desígnio providencial, entregou o seu espírito a Deus justamente ao anoitecer da vigília de tal ocorrência. Além disso, hoje tem início o mês de maio, o mês de Maria; e neste dia celebra-se também a memória de São José operário. Todos estes elementos concorrem para enriquecer a nossa oração; servem-nos de ajuda, a nós que ainda peregrinamos no tempo e no espaço; no Céu, a festa entre os Anjos e os Santos é muito diferente! E todavia Deus é um só, e um só é Cristo Senhor que, como uma ponte, une a terra e o Céu, e neste momento o sentimos muito perto, sentimo-nos quase participantes da liturgia celeste.
“Felizes os que acreditam sem terem visto” (Jo 20, 29). No Evangelho de hoje, Jesus pronuncia esta bem-aventurança: a bem-aventurança da fé. Ela chama de modo particular a nossa atenção, porque estamos reunidos justamente para celebrar uma Beatificação e, mais ainda, porque o Beato hoje proclamado é um Papa, um Sucessor de Pedro, chamado a confirmar os irmãos na fé. João Paulo II é Beato pela sua forte e generosa fé apostólica. E isto traz imediatamente à memória outra bem-aventurança: “Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que te revelaram isso, mas sim meu Pai que está nos Céus” (Mt 16, 17). O que é que o Pai celeste revelou a Simão? Que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus vivo. Por esta fé, Simão se torna “Pedro”, rocha sobre a qual Jesus pode edificar a sua Igreja. A bem-aventurança eterna de João Paulo II, que a Igreja tem a alegria de proclamar hoje, está inteiramente contida nestas palavras de Cristo: “Feliz de ti, Simão” e “felizes os que acreditam sem terem visto”. É a bem-aventurança da fé, cujo dom também João Paulo II recebeu de Deus Pai para a edificação da Igreja de Cristo.
Entretanto perpassa pelo nosso pensamento mais uma bem-aventurança que, no Evangelho, precede todas as outras. É a bem-aventurança da Virgem Maria, a Mãe do Redentor. A Ela, que acabava de conceber Jesus no seu ventre, diz Santa Isabel: “Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor” (Lc 1, 45). A bem-aventurança da fé tem o seu modelo em Maria, pelo que a todos nos enche de alegria o fato de a beatificação de João Paulo II ter lugar no primeiro dia deste mês mariano, sob o olhar materno dAquela que, com a sua fé, sustentou a fé dos Apóstolos e não cessa de sustentar a fé dos seus sucessores, especialmente de quantos são chamados a sentar-se na cátedra de Pedro. Nas narrações da ressurreição de Cristo, Maria não aparece, mas a sua presença pressente-se em toda a parte: é a Mãe, a quem Jesus confiou cada um dos discípulos e toda a comunidade. De forma particular, notamos que a presença real e materna de Maria aparece assinalada por São João e São Lucas nos contextos que precedem tanto o Evangelho como a primeira Leitura de hoje: na narração da morte de Jesus, onde Maria aparece aos pés da Cruz (Jo 19, 25); e, no começo dos Atos dos Apóstolos, que a apresentam no meio dos discípulos reunidos em oração no Cenáculo (At 1, 14).
Também a segunda Leitura de hoje nos fala da fé, e é justamente São Pedro que escreve, cheio de entusiasmo espiritual, indicando aos recém-batizados as razões da sua esperança e da sua alegria. Apraz-me observar que nesta passagem, situada na parte inicial da sua Primeira Carta, Pedro exprime-se não no modo exortativo, mas indicativo. De fato, escreve: “Isto vos enche de alegria”; e acrescenta: “Vós amais Jesus Cristo sem O terdes conhecido, e, como nEle acreditais sem O verdes ainda, estais cheios de alegria indescritível e plena de glória, por irdes alcançar o fim da vossa fé: a salvação das vossas almas” (1Ped 1, 6.8-9). Está tudo no indicativo, porque existe uma nova realidade, gerada pela ressurreição de Cristo, uma realidade que nos é acessível pela fé. “Esta é uma obra admirável – diz o Salmo (118, 23) – que o Senhor realizou aos nossos olhos”, os olhos da fé.
Queridos irmãos e irmãs, hoje diante dos nossos olhos brilha, na plena luz de Cristo ressuscitado, a amada e venerada figura de João Paulo II. Hoje, o seu nome junta-se à série dos Santos e Beatos que ele mesmo proclamou durante os seus quase 27 anos de pontificado, lembrando com vigor a vocação universal à medida alta da vida cristã, à santidade, como afirma a Constituição conciliar Lumem gentium sobre a Igreja. Os membros do Povo de Deus – bispos, sacerdotes, diáconos, fiéis leigos, religiosos e religiosas – todos nós estamos a caminho da Pátria celeste, tendo-nos precedido a Virgem Maria, associada de modo singular e perfeito ao mistério de Cristo e da Igreja. Karol Wojtyła, primeiro como Bispo Auxiliar e depois como Arcebispo de Cracóvia, participou no Concílio Vaticano II e bem sabia que dedicar a Maria o último capítulo da Constituição sobre a Igreja significava colocar a Mãe do Redentor como imagem e modelo de santidade para todo o cristão e para a Igreja inteira. Foi esta visão teológica que o Beato João Paulo II descobriu na sua juventude, tendo-a depois conservado e aprofundado durante toda a vida; uma visão, que se resume no ícone bíblico de Cristo crucificado com Maria ao pé da Cruz. Um ícone que se encontra no Evangelho de João (19, 25-27) e está sintetizado nas armas episcopais e, depois, papais de Karol Wojtyła: uma cruz de ouro, um “M” na parte inferior direita e o lema “Totus tuus”, que corresponde à conhecida frase de São Luís Maria Grignion de Monfort, na qual Karol Wojtyła encontrou um princípio fundamental para a sua vida: “Totus tuus ego sum et omnia mea tua sunt. Accipio Te in mea omnia. Praebe mihi cor tuum, Maria – Sou todo vosso e tudo o que possuo é vosso. Tomo-vos como toda a minha riqueza. Dai-me o vosso coração, ó Maria” (Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 266).
No seu Testamento, o novo Beato deixou escrito: “Quando, no dia 16 de outubro de 1978, o conclave dos cardeais escolheu João Paulo II, o Card. Stefan Wyszyński, Primaz da Polônia, disse-me: ‘A missão do novo Papa será a de introduzir a Igreja no Terceiro Milênio’”. E acrescenta: “Desejo mais uma vez agradecer ao Espírito Santo pelo grande dom do Concílio Vaticano II, do qual me sinto devedor, juntamente com toda a Igreja e sobretudo o episcopado. Estou convencido de que será concedido ainda por muito tempo, às sucessivas gerações, haurir das riquezas que este Concílio do século XX nos prodigalizou. Como Bispo que participou no evento conciliar, desde o primeiro ao último dia, desejo confiar este grande patrimônio a todos aqueles que são, e serão, chamados a realizá-lo. Pela minha parte, agradeço ao Pastor eterno que me permitiu servir esta grandíssima causa ao longo de todos os anos do meu pontificado”. E qual é esta causa? É a mesma que João Paulo II enunciou na sua primeira Missa solene, na Praça de São Pedro, com estas palavras memoráveis: “Não tenhais medo! Abri, melhor, escancarai as portas a Cristo!”. Aquilo que o Papa recém-eleito pedia a todos, começou, ele mesmo, a fazê-lo: abriu a Cristo a sociedade, a cultura, os sistemas políticos e econômicos, invertendo, com a força de um gigante – força que lhe vinha de Deus –, uma tendência que parecia irreversível. Com o seu testemunho de fé, de amor e de coragem apostólica, acompanhado por uma grande sensibilidade humana, este filho exemplar da nação polonesa ajudou os cristãos de todo o mundo a não ter medo de se dizerem cristãos, de pertencerem à Igreja, de falarem do Evangelho. Numa palavra, ajudou-nos a não ter medo da verdade, porque a verdade é garantia de liberdade. Sintetizando ainda mais: deu-nos novamente a força de crer em Cristo, porque Cristo é o Redentor do homem – Redemptor hominis: foi este o tema da sua primeira Encíclica e o fio condutor de todas as outras.
Karol Wojtyła subiu ao sólio de Pedro trazendo consigo a sua reflexão profunda sobre a confrontação entre o marxismo e o cristianismo, centrada no homem. A sua mensagem foi esta: o homem é o caminho da Igreja, e Cristo é o caminho do homem. Com esta mensagem, que é a grande herança do Concílio Vaticano II e do seu “timoneiro” – o Servo de Deus Papa Paulo VI –, João Paulo II foi o guia do Povo de Deus ao cruzar o limiar do Terceiro Milênio, que ele pôde, justamente graças a Cristo, chamar “limiar da esperança”. Na verdade, através do longo caminho de preparação para o Grande Jubileu, ele conferiu ao cristianismo uma renovada orientação para o futuro, o futuro de Deus, que é transcendente relativamente à história, mas incide na história. Aquela carga de esperança que de certo modo fora cedida ao marxismo e à ideologia do progresso, João Paulo II legitimamente reivindicou-a para o cristianismo, restituindo-lhe a fisionomia autêntica da esperança, que se deve viver na história com um espírito de “advento”, numa existência pessoal e comunitária orientada para Cristo, plenitude do homem e realização das suas expectativas de justiça e de paz.
Por fim, quero agradecer a Deus também a experiência de colaboração pessoal que me concedeu ter longamente com o Beato Papa João Paulo II. Se antes já tinha tido possibilidades de conhecê-lo e estimar, desde 1982, quando me chamou a Roma como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, pude durante 23 anos permanecer junto dele crescendo sempre mais a minha veneração pela sua pessoa. O meu serviço foi sustentado pela sua profundidade espiritual, pela riqueza das suas intuições. Sempre me impressionou e edificou o exemplo da sua oração: entranhava-se no encontro com Deus, inclusive no meio das mais variadas incumbências do seu ministério. E, depois, impressionou-me o seu testemunho no sofrimento: pouco a pouco o Senhor o foi despojando de tudo, mas permaneceu sempre uma “rocha”, como Cristo o quis. A sua humildade profunda, enraizada na união íntima com Cristo, permitiu-lhe continuar a guiar a Igreja e a dar ao mundo uma mensagem ainda mais eloquente, justamente no período em que as forças físicas definhavam. Assim, realizou de maneira extraordinária a vocação de todo o sacerdote e bispo: tornar-se um só com aquele Jesus que diariamente recebe e oferece na Igreja.
Feliz és tu, amado Papa João Paulo II, porque acreditaste! Continua do Céu – nós te pedimos – a sustentar a fé do Povo de Deus. Muitas vezes, do Palácio, tu nos abençoaste nesta Praça! Hoje nós te pedimos: Santo Padre, abençoa-nos! Amém.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 1 de maio de 2011. Revisado por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Dilige et fac quod vis

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 13 de abril de 2011

A santidade

Caros irmãos e irmãs,
Nas Audiências Gerais destes últimos dois anos a figura de tantos Santos e Santas nos acompanhou: aprendemos a conhecê-los mais de perto e a entender que toda a história da Igreja é marcada por estes homens e mulheres que, com sua fé, com sua caridade, com sua vida, foram faróis para tantas gerações, e o são ainda para nós. Os Santos manifestam, de diversas maneiras, a presença poderoso e transformadora do Ressuscitado; deixaram que Cristo tomasse conta tão plenamente de suas vida a ponto de terem podido afirmar com São Paulo que “não sou mais eu quem vive, mas é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20). Seguir o seu exemplo, recorrer à sua intercessão, entrar em comunhão com eles, “nos une a Cristo, do qual, como da Fonte e da Cabeça, emana toda a graça e toda a vida do Povo de Deus” (Conc. Ec. Vat. II, Cost. dogm. Lumen gentium 50). Ao final deste ciclo de catequese, gostaria de oferecer alguns pensamentos sobre o que significa a santidade.
O que quer dizer ser santos? Quem é chamado a ser santo? Frequentemente somos levados a pensar que a santidade seja uma meta reservada a poucos eleitos. São Paulo, pelo contrário, fala do grande ensinamento de Deus e afirma: “Nele – Cristo – (Deus) nos escolheu antes da criação do mundo para sermos santos e imaculados diante dele na caridade” (Ef 1, 4). E fala de todos nós. No centro do desígnio divino está Cristo, no qual Deus mostra o seu Rosto: o Mistério escondido nos séculos se revelou em plenitude no Verbo feito carne. E Paulo, em seguida, nos diz: “Aprouve, de fato, a Deus que habitasse nEle toda a plenitude” (Col 1, 19). Em Cristo o Deus vivo se fez próximo, visível, escutável, tocável, para que cada um pudesse chegar à sua plenitude de graça e de verdade (cf. Jo 1, 14-16). Por isso, toda a existência cristã conhece uma única e suprema lei, aquela que São Paulo expressa numa fórmula que se repete em todos os seus escritos: em Cristo Jesus. A santidade, a plenitude da vida cristã não consiste no realizar empreendimentos extraordinários, mas no unir-se a Cristo, no viver os seus mistérios, no fazer nossos as suas posturas, os seus pensamentos, os seus comportamentos. A medida da santidade é dada pela estatura que Cristo conquista em nós, por quanto, com a força do Espírito Santo, modelamos toda a nossa vida a partir da sua. É o ser conformes a Jesus, como afirma São Paulo: “Aqueles que ele conheceu desde sempre, foram predestinados a serem conformes à imagem do seu Filho” (Rm 8, 29). E Santo Agostinho exclama: “Viva será a minha vida cheia de Ti” (Confissões, 10, 28). O Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a Igreja, fala com clareza do chamado universal para a santidade, afirmando que ninguém está excluído desse chamado: “Nos vários gêneros de vida e nas várias profissões uma única santidade é praticada por todos aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus e... seguem Cristo pobre, humilde e portador da cruz, para merecerem ser partícipes da sua glória” (n. 41).
Mas, permanece a questão: como podemos percorrer a estrada da santidade, responder a este chamado? Posso fazê-lo com minhas próprias forças? A resposta é clara: uma vida santa não é fruto somente do nosso esforço, das nossas ações, porque é Deus, o três vezes Santo (cf. Is 6, 3), que nos torna santos, é a ação do Espírito Santo que nos anima a partir de dentro, é a vida mesma de Cristo Ressuscitado que nos é comunicada e que nos transforma. Para dizê-lo ainda uma vez com o Concílio Vaticano II: “os seguidores de Cristo, chamados por Deus não segundo suas obras, mas segundo o desígnio da sua graça e justificados em Jesus Senhor, no batismo da fé foram verdadeiramente feitos filhos de Deus e coparticipantes da natureza divina, por isso são realmente santos. Eles, portanto, devem, com a ajuda de Deus, manter nas suas vidas, e aperfeiçoá-la, a santidade que receberam” (ibid., 40). A santidade, portanto, tem sua raiz última na graça batismal, no ser enxertados no Mistério pascal de Cristo, com o que nos é comunicado o seu Espírito, a sua vida de Ressuscitado. São Paulo sublinha de modo muito evidente a transformação que a graça batismal opera no homem e chega a cunhar uma terminologia nova, forjada com a preposição “com”: com-mortos, com-sepultados, com-ressuscitados, com-vivificados com Cristo; o nosso destino é indissoluvelmente ligado ao seu. “Por meio do batismo – ele escreve – fomos sepultados junto com ele na morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dos mortos... assim também nós pudéssemos caminhar numa vida nova” (Rm 6, 4). Mas, Deus respeita sempre a nossa liberdade e pede que aceitemos este dom e vivamos as exigências que ele implica, pede que nos deixemos transformar pela ação do Espírito Santo, conformando a nossa vontade à vontade de Deus.
Como pode acontecer que o nosso modo de pensar e as nossas ações se tornam o pensar e o agir com Cristo e de Cristo? Qual é alma da santidade? De novo o Concílio Vaticano II explica, dizendo-nos que a santidade cristã não é outra coisa senão a caridade plenamente vivida. “‘Deus é amor; quem permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele’ (1Jo 4, 16). Ora, Deus difundiu largamente o seu amor nos nossos corações por meio do Espírito Santo, que nos foi dado (cf. Rm 5, 5); por isso, o dom primeiro e mais necessário é a caridade, com a qual amamos Deus sobre todas as coisas e o próximos por amor a Ele. Mas, para que a caridade, como uma boa semente, cresça na alma e dê frutos, todo fiel deve escutar a palavra de Deus e, com a ajuda da sua graça, realizar com obras a sua vontade, participar frequentemente dos sacramentos, sobretudo da Eucaristia e da santa liturgia; aplicar-se constantemente à oração, à abnegação de si mesmo, ao serviço ativo dos irmãos e ao exercícios de toda virtude. A caridade, de fato, vínculo da perfeição e realização da lei (cf. Col 3, 14; Rm 13, 10), dirige todos os meios de santificação, dá a eles forma e os conduz ao seu fim. Talvez esta linguagem do Concílio Vaticano II pareça a nós um pouco solene demais, de forma que seja necessário dizer essas coisas de forma mais simples. O que é essencial? Essencial é nunca deixar um domingo que seja sem um encontro com o Cristo Ressuscitado na Eucaristia; isto não pode ser um peso a mais, mas deve ser a luz para toda a semana. Nunca começar e terminar um dia sem, pelo menos, um breve contato com Deus. E, no caminho da nossa vida, seguir as “placas de sinalização” que Deus nos comunicou no Decálogo lido com Cristo, que é simplesmente a explicitação do que seja a caridade em determinadas situações. Parece-me que esta seja a verdadeira simplicidade e grandeza da vida de santidade: o encontro com o Ressuscitado no domingo, o contato com Deus no início e no fim do dia, seguir, nas decisões, as “placas de sinalização” que Deus nos comunicou, que são apenas formas de caridade. Por isso, “o verdadeiro discípulo de Cristo se caracteriza pela caridade para com Deus e para com o próximo” (Lumen gentium, 42). Esta é a verdadeira simplicidade, grandeza e profundidade da vida cristã, do ser santos.
Eis porque Santo Agostinho, comentando o capítulo quarto da Primeira Carta de São João, pôde afirmar algo tão corajoso: "Dilige et fac quod vis", "Ama e faze o que quiseres". E continua: "Seja que tu silencies, que seja por amor; seja que tu fales, que seja por amor; seja que tu corrijas, que seja por amor; seja que tu perdoes, que seja por amor; exista em ti a raiz do amor, visto que desta raiz só pode proceder o bem" (7,8: PL  35). Quem é guiado pelo amor, quem vive a caridade plenamente, é guiado por Deus, porque Deus é amor. Assim, vale esta grande palavra: "Dilige et fac quod vis", "Ama e faze o que quiseres".
Talvez, nos perguntemos: será que podemos, com nossos limites, com a nossa fraqueza, tender a algo tão alto? A Igreja, durante o Ano Litúrgico, nos convida a fazer memória de uma fileira de Santos, daqueles que viveram plenamente a caridade, souberam amar e seguir Cristo em suas vidas cotidianas. Eles nos dizem que é possível para todos percorrer esta estrada. Em cada época da história da Igreja, em cada latitude da geografia do mundo, os Santos pertencem a todas as idades e a todos os estados de vida, são rostos concretos de todos os povos, línguas e nações. E são tipos muito diferentes. Na realidade, devo dizer que também para a minha fé pessoal muitos santos, não todos, são verdadeiras estrelas no firmamento da história. E gostaria de acrescentar que, para mim, não apenas alguns grandes santos que amo e que conheço bem são “placas de sinalização”, mas também exatamente os santos simples, ou seja, as pessoas boas que vejo na minha vida, que nunca serão canonizadas. São pessoas normais, por assim dizer, sem heroísmo visível, mas na sua bondade de todo dia vejo a verdade da fé. Esta bondade, que amadureceram na fé da Igreja, é para mim a mais segura apologia do cristianismo e o sinal de onde pode estar a verdade.
Na comunhão dos Santos, canonizados e não canonizados, que a Igreja vive graças a Cristo em todos os seus membros, nós gozamos da sua presença e da sua companhia e cultivamos a firma esperança de poder imitar o seu caminho e compartilhar um dia da mesma vida bem-aventurada, a vida eterna.
Caros amigos, como é grande e bela, e também simples, a vocação cristã vista sob esta luz! Todos somos chamados à santidade: é a medida mesma da vida cristã. Uma vez mais recorro a São Paulo que expressa essa mensagem com grande intensidade quando escreve: “A cada um de nós foi dada a graça segundo a medida do dom de Cristo... Ele deu a alguns de serem apóstolos, a outros de serem profetas, a outros ainda de serem evangelistas, a outros de serem pastores e mestres, para prepararem os irmãos para cumprir o ministério, com o objetivo de edificar o corpo de Cristo, a fim de que cheguemos todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até ao homem perfeito, até atingir a medida da plenitude de Cristo” (Ef 4, 7.11-13). Gostaria de convidar a todos para se abrirem à ação do Espírito Santo, que transforma a nossa vida, para sermos também nós como peças do grande mosaico de santidade que Deus segue criando na história, para que o rosto de Cristo resplenda na plenitude do seu fulgor. Não tenhamos medo de tender para o alto, para as alturas de Deus; não tenhamos medo de que Deus nos peça muito, mas deixemo-nos guiar, em todas as ações cotidianas, pela sua Palavra, mesmo se nos sentirmos pobres, inadequados, pecadores: será Ele quem nos transformará segundo o seu amor. Obrigado. 

* Extraído do site do Vaticano, do dia 13 de abril de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Amar é dar tudo, e dar a si mesmo

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 6 de abril de 2011.

Santa Teresa de Lisieux

Caros irmãos e irmãs,
hoje gostaria de falar-vos sobre Santa Teresa de Lisieux, Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, que viveu neste mundo somente 24 anos, no final do século XIX, conduzindo uma vida muito simples e escondida, mas que, após a morte e a publicação dos seus escritos, se tornou uma das santas mais conhecidas e amadas. A “pequena Teresa” nunca deixou de ajudar as almas mais simples, os pequenos, os pobres e os sofredores que a ela rezam, mas também iluminou toda a Igreja com a sua profunda doutrina espiritual, a tal ponto que o Venerável Papa João Paulo II, em 1997, desejou dar-lhe o título de Doutora da Igreja, em acréscimo ao de Padroeira das Missões, já atribuído por Pio XI em 1939. O meu amado Predecessor a definiu “perita da scientia amoris” (Novo Milennio ineunte, 27). Teresa exprimiu essa ciência, que vê resplandecer no amor toda a verdade da fé, principalmente no relato de sua vida, publicado um ano após a sua morte sob o título História de uma alma. É um livro que teve logo um enorme sucesso, foi traduzido em muitas línguas e difundido em todo o mundo. Gostaria de convidar-vos a redescobrir esse pequeno-grande tesouro, esse luminoso comentário do Evangelho plenamente vivido! A História de uma alma, de fato, é uma maravilhosa história de Amor, narrada com tal autenticidade, simplicidade e frescor que o leitor não pode não ficar fascinado! Mas que Amor é esse que encheu toda a vida de Teresa, desde a infância até à morte? Caros amigos, esse Amor tem um Rosto, tem um Nome, é Jesus! A Santa fala continuamente de Jesus. Queremos percorrer outra vez as grandes etapas da sua vida, para entrar no coração da sua doutrina.
Teresa nasceu no dia 2 de janeiro de 1873, em Alençon, uma cidade da Normandia, na França. Foi a última filha de Luigi e Zelia Martin, esposos e pais exemplares, beatificados no dia 19 de outubro de 2008. Tiveram nove filhos; desses, quatro morreram em tenra idade. Restaram cinco filhas, que se tornaram todas religiosas. Teresa, aos quatro anos, foi profundamente ferida pela morte de sua mãe (Ms A, 13r). O pai, com as filhas, mudou-se, então, para a cidade de Lisieux, onde se passou toda a vida da Santa. Mais tarde, Teresa, atingida por uma grave doença nervosa, foi curada por uma graça divina, que ela mesma define como o “sorriso de Nossa Senhora” (ibid., 29v-30v). Depois, recebeu a Primeira Comunhão, vivida intensamente (ibid., 35r), e colocou Jesus Eucarístico no centro da sua existência.
A “Graça de Natal”, de 1886, marca a grande reviravolta por ela chamada de sua “completa conversão” (ibid., 44v-45r). Foi curada, de fato, totalmente da sua hipersensibilidade infantil e deu início a um “jornada de gigante”. Aos 14 anos, Teresa começou a se aproximar ainda mais, com grande fé, de Jesus Crucificado, e carregou no coração o caso, aparentemente sem esperanças, de um criminoso condenado à morte e impenitente (ibid., 45v-46v). “Desejei a todo custo impedir-lhe de cair no inferno”, escreveu a Santa, com a certeza de que a sua oração o teria colocado em contato com o Sangue redentor de Jesus. Foi a sua primeira e fundamental experiência de maternidade espiritual: “Tinha tanta confiança na Misericórdia Infinita de Jesus”, escreveu. Com Maria Santíssima, a jovem Teresa amou, acreditou e esperou com “um coração de mãe” (cf. PR 6/10r).
Em novembro de 1887, Teresa dirigiu-se em peregrinação a Roma, juntamente com seu pai e a irmã Celina (ibid., 55v-67r). Para ela, o momento culminante foi a Audiência com o Papa Leão XIII, ao qual pediu a permissão para entrar, com apenas 15 anos, no Carmelo de Lisieux. Um ano depois, o seu desejo se realizou: tornou-se Carmelita, “para salvar as almas e rezar pelos sacerdotes” (ibid., 69v). Ao mesmo tempo, teve início também a dolorosa e humilhante doença mental de seu pai. Foi um grande sofrimento que levou Teresa à contemplação do Rosto de Jesus na sua Paixão (ibid., 71rv). Assim, o seu nome de Religiosa – irmã Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face – expressa o programa de toda a sua vida, na comunhão com os Mistérios centrais da Encarnação e da Redenção. A sua profissão religiosa, na festa da Natividade de Maria, aos 8 de setembro de 1890, foi para ela um verdadeiro matrimônio espiritual na “pequenez” evangélica, caracterizada pelo símbolo da flor: “Que bela festa a Natividade de Maria para tornar-se esposa de Jesus!”, escreveu. “Era a pequena Virgem Santa de um dia que apresentava a sua pequena flor ao pequeno Jesus” (ibid., 77r). Para Teresa, ser religiosa significava ser esposa de Jesus e mãe das almas (cf. Ms B, 2v). No mesmo dia, a Santa escreveu uma oração que indica toda a orientação da sua vida: pedia a Jesus o dom do seu Amor infinito, de ser a menor de todas, e sobretudo pedia a salvação de todos os homens: “Que nenhuma alma seja condenada hoje” (Pr 2). Sua Oferta ao Amor Misericordioso, feita na festa da Santíssima Trindade de 1895 é de grande importância (Ms A, 83v-84r; Pr 6): uma oferta que Teresa compartilhou imediatamente com as suas coirmãs, sendo já vice-mestra de noviças.
Dez anos depois da “Graça de Natal”, em 1896, veio a “Graça de Páscoa “, que abriu o último período da vida de Teresa, com o início da sua paixão em união profunda à Paixão de Jesus; tratou-se da paixão do corpo, com a doença que a conduziu à morte através de grandes sofrimentos, mas sobretudo tratou-se da paixão da alma, com uma dolorosíssima provação da fede (Ms C, 4v-7v). Com Maria ao lado da Cruz de Jesus, Teresa viveu então a fé mais heroica, como luz nas trevas que invadiam sua alma. A Carmelitana tinha consciência de estar vivendo essa grande provação pela salvação de todos os ateus do mundo moderno, chamados por ela de “irmãos”. Viveu então ainda mais intensamente o amor fraterno (8r-33v): em relação às suas irmãs de comunidade, aos seus dois irmãos espirituais missionários, aos sacerdotes e a todos os homens, especialmente os mais afastados. Tornou-se verdadeiramente uma “irmã universal”! A sua caridade amável e sorridente era a expressão da alegria profunda, da qual ela nos revelou o segredo: “Jesus, a minha alegria é amar a Ti” (P 45/7). Nesse contexto de sofrimento, vivendo o maior amor nas pequenas coisas da vida cotidiana, a santa levou a cumprimento a sua vocação de ser o Amor no coração da Igreja (cf. Ms B, 3v).
Teresa morreu na noite de 30 de setembro de 1897, pronunciando as simples palavras “Meu Deus, vos amo!”, olhando o Crucifixo que segurava nas mãos. Essas últimas palavras da Santa são a chave de toda a sua doutrina, da sua interpretação do Evangelho. O ato de amor, expresso no seu último suspiro, era como o contínuo respiro da sua alma, como o batimento do seu coração. As simples palavras “Jesus, Te amo” estão no centro de todos os seus escritos. O ato de amor a Jesus a mergulhou na Santíssima Trindade. Ela escreveu: “Ah, Tu o sabes, Divino Jesus, Te amo, / O Espírito de Amor me inflama com o seu fogo, / É amando-Te que eu atraio o Pai” (P 17/2).
Caros amigos, também nós, com Santa Teresa do Menino Jesus, devemos poder repetir a cada dia ao Senhor que desejamos viver de amor a Ele e aos outros, aprender na escola dos santos a amar de modo autêntico e total. Teresa é um dos “pequenos” do Evangelho que se deixam conduzir por Deus na profundidade do seu Mistério. Uma guia para todos, sobretudo para aqueles que, no Povo de Deus, desempenham o ministério de teólogos. Com a humildade e a caridade, a fé e a esperança, Teresa entra continuamente no coração da Sagrada Escritura que contém o Mistério de Cristo. E tal leitura da Bíblia, nutrida pela ciência do amor, não se opõe à ciência acadêmica. A ciência dos santos, de fato, da qual ela mesma fala na última página da História de uma alma, é a ciência mais alta. “Todos os santos o compreenderam e de modo mais particular talvez aqueles que encheram o universo com a irradiação da doutrina evangélica. Não é, porventura, da oração que os Santos Paulo, Agostinho, João da Cruz, Tomás de Aquino, Francisco, Domingos e tantos outros ilustres Amigos de Deus extraíram essa ciência divina que fascina os maiores gênios?” (Ms C, 36r). Inseparável do Evangelho, a Eucaristia é, para Teresa, o Sacramento do Amor Divino que se abaixa ao extremo para elevar-nos a Ele. Na sua última Carta, sobre uma imagem que representa o Menino Jesus na Hóstia Consagrada, a Santa escreve estas simples palavras: “Não posso temer um Deus que, para mim, se fez tão pequeno! [...] Eu O amo! De fato, Ele não é senão Amor e Misericórdia!” (LT 266).
No Evangelho, Teresa descobriu sobretudo a Misericórdia de Jesus, a ponto de ter afirmado: “A mim Ele deu a sua Misericórdia infinita, através dela contemplo e adoro as outras perfeições divinas! [...] Então, todas parecem radiantes de amor, a Justiça mesma (e talvez ainda mais que qualquer outra) parece-me revestida de amor” (Ms A, 84r). Assim, se expressa nas últimas linhas da História de uma alma: “Apenas dou uma olhada no Santo Evangelho, subitamente respiro os perfumes da vida de Jesus e sei para onde correr... Não é ao primeiro lugar, mas ao último que me lanço… Sim, o sinto, mesmo se tivesse a consciência de todos os pecados que se podem cometer, iria, com o coração partido de arrependimento, para lançar-me nos braços de Jesus, porque sei o quanto ama o filho pródigo que retorna a Ele” (Ms C, 36v-37r). “Confiança e Amor” são, portanto, o ponto final da narrativa da sua vida, duas palavras que, como faróis, iluminaram todo o seu caminho de santidade, para poder guiar os outros sobre a “pequena vida da confiança e do amor”, da infância espiritual (cf. Ms C, 2v-3r; LT 226). Confiança como aquela da criança que se abandona nas mãos de Deus, inseparável do compromisso forte, radical do verdadeiro amor, que é dom total de si, para sempre, como diz a Santa contemplando Maria: “Amar é dar tudo, e dar a si mesmo” (Perché ti amo, o Maria, P 54/22). Assim, Teresa indica a todos nós que a vida cristã consiste em viver plenamente a graça do Batismo no dom total de si ao Amor do Pai, para viver como Cristo, no fogo do Espírito Santo, o Seu mesmo amor por todos os outros. Obrigado.

Apelo
Continuo acompanhando com grande apreensão os dramáticos acontecimentos que as queridas populações da Costa do Marfim e da Líbia estão vivendo nestes dias. Espero, além do mais, que o Cardeal Turkson, que eu havia encarregado de ir à Costa do Marfim para manifestar a minha solidariedade, possa entrar no país brevemente. Rezo pelas vítimas e estou próximo de todos aqueles que estão sofrendo. A violência e o ódio são sempre uma derrota! Por isto, dirijo um novo apelo a todas as partes envolvidas, para que se inicie a obra de pacificação e de diálogo e se evitem posteriores derramamentos de sangue.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 6 de abril de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.