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domingo, 8 de abril de 2012

Feliz Páscoa!



O imperador interrogou os cristãos: “Homens estranhos... Dizei-me vós mesmos, ó cristãos, abandonados pela maioria de vossos irmãos e de vossos chefes, o que vos é mais caro no cristianismo?”. Levantou-se, então, o starets João e respondeu com doçura: “Ó grande rei, o que nos é mais caro no cristianismo é o próprio Cristo. Ele próprio e tudo o que dEle vem, porque sabemos que nEle habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”.
(SOLOVIEV, Vladimir. Breve conto sobre o Anticristo)

* MASACCIO. O tributo da moeda (detalhe). Florença: Capela Brancacci, 1427.

sábado, 7 de abril de 2012

Comentário ao Evangelho do dia - Tríduo Pascal



Sábado Santo
    
1ª Leitura - Gn 1,1-2,2
No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra estava deserta e vazia, as trevas cobriam a face do abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Deus disse: “Faça-se a luz!” E a luz se fez. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. E à luz Deus chamou “dia” e às trevas, “noite”. Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia. Deus disse: “Faça-se um firmamento entre as águas, separando umas das outras”. E Deus fez o firmamento, e separou as águas que estavam embaixo, das que estavam em cima do firmamento. E assim se fez. Ao firmamento Deus chamou “céu”. Houve uma tarde e uma manhã: segundo dia. Deus disse: “Juntem-se as águas que estão debaixo do céu num só lugar e apareça o solo enxuto!”. E assim se fez. Ao solo enxuto Deus chamou “terra” e ao ajuntamento das águas, “mar”. E Deus viu que era bom. Deus disse: “A terra faça brotar vegetação e plantas que deem semente, e árvores frutíferas que deem fruto segundo a sua espécie, que tenham nele a sua semente sobre a terra”. E assim se fez. E a terra produziu vegetação e plantas que trazem semente segundo a sua espécie, e árvores que dão fruto tendo nele a semente da sua espécie. E Deus viu que era bom. Houve uma tarde e uma manhã: terceiro dia. Deus disse: “Façam-se luzeiros no firmamento do céu, para separar o dia da noite. Que sirvam de sinais para marcar as épocas os dias e os anos, e que resplandeçam no firmamento do céu e iluminem a terra”. E assim se fez. Deus fez os dois grandes luzeiros: o luzeiro maior para presidir ao dia,e o luzeiro menor para presidir à noite, e as estrelas. Deus colocou-os no firmamento do céu para alumiar a terra, 18para presidir ao dia e à noite e separar a luz das trevas. E Deus viu que era bom. E houve uma tarde e uma manhã: quarto dia. Deus disse: “Fervilhem as águas de seres animados de vida e voem pássaros sobre a terra, debaixo do firmamento do céu”. Deus criou os grandes monstros marinhos e todos os seres vivos que nadam, em multidão, nas águas, segundo as suas espécies, e todas as aves, segundo as suas espécies. E Deus viu que era bom. E Deus os abençoou, dizendo: “Sede fecundos e multiplicai-vos e enchei as águas do mar, e que as aves se multipliquem sobre a terra”. Houve uma tarde e uma manhã: quinto dia. Deus disse: “Produza a terra seres vivos segundo as suas espécies, animais domésticos, répteis e animais selvagens, segundo as suas espécies”. E assim se fez. Deus fez os animais selvagens, segundo as suas espécies, os animais domésticos segundo as suas espécies e todos os répteis do solo segundo as suas espécies. E Deus viu que era bom. Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e segundo à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra”. E Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou: homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a! Dominai sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu e sobre todos os animais que se movem sobre a terra”. E Deus disse: “Eis que vos entrego todas as plantas que dão semente  sobre a terra, e todas as árvores que produzem fruto com sua semente, para vos servirem de alimento. E a todos os animais da terra, e a todas as aves do céu, e a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou todos os  vegetais para alimento”. E assim se fez. E Deus viu tudo quanto havia feito, e eis que tudo era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã: sexto dia. E assim foram concluídos o céu e a terra com todo o seu exército. No sétimo dia, Deus considerou acabada toda a obra que tinha feito; e no sétimo dia descansou de toda a obra que fizera.

Salmo - Sl 103
R. Enviai o vosso Espírito Senhor,
e da terra toda a face renovai.

Bendize, ó minha alma, ao Senhor!*
Ó meu Deus e meu Senhor, como sois grande!
De majestade e esplendor vos revestis*
e de luz vos envolveis como num manto. R.

A terra vós firmastes em suas bases,*
ficará firme pelos séculos sem fim;
os mares a cobriam como um manto,*
e as águas envolviam as montanhas. R.

Fazeis brotar em meio aos vales as nascentes*
que passam serpeando entre as montanhas;
às suas margens vêm morar os passarinhos,*
entre os ramos eles erguem o seu canto. R.

De vossa casa as montanhas irrigais,*
com vossos frutos saciais a terra inteira;
fazeis crescer os verdes pastos para o gado*
e as plantas que são úteis para o homem. R.

Quão numerosas, ó Senhor, são vossas obras,*
e que sabedoria em todas elas!
Encheu-se a terra com as vossas criaturas!*
Bendize, ó minha alma, ao Senhor! R.

2ª Leitura - Gn 22,1-18
Naqueles dias, Deus pôs Abraão à prova. Chamando-o, disse: “Abraão!”. E ele respondeu: “Aqui estou”. E Deus disse: “Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um monte que eu te indicar”. Abraão levantou-se bem cedo, selou o jumento, tomou consigo dois dos seus servos e seu filho Isaac. Depois de ter rachado lenha para o holocausto, pôs-se a caminho, para o lugar que Deus lhe havia ordenado. No terceiro dia, Abraão, levantando os olhos, viu de longe o lugar. Disse, então, aos seus servos: “Esperai aqui com o jumento, enquanto eu e o menino vamos até lá. Depois de adorarmos a Deus, voltaremos a vós”. Abraão tomou a lenha para o holocausto e a pôs às costas do seu filho Isaac, enquanto ele levava o fogo e a faca. E os dois continuaram caminhando juntos. Isaac disse a Abraão: “Meu pai”. “Que queres, meu filho?”, respondeu ele. E o menino disse: “Temos o fogo e a lenha, mas onde está a vítima para o holocausto?”. Abraão respondeu: “Deus providenciará a vítima para o holocausto, meu filho”. E os dois continuaram caminhando juntos. Chegados ao lugar indicado por Deus, Abraão ergueu um altar, colocou a lenha em cima, amarrou o filho e o pôs sobre a lenha em cima do altar. Depois, estendeu a mão, empunhando a faca para sacrificar o filho. E eis que o anjo do Senhor gritou do céu, dizendo: “Abraão! Abraão!”. Ele respondeu: “Aqui estou!”. E o anjo lhe disse: “Não estendas a mão contra teu filho e não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu filho único”. Abraão, erguendo os olhos, viu um carneiro preso num espinheiro pelos chifres; foi buscá-lo e ofereceu-o em holocausto no lugar do seu filho. Abraão passou a chamar aquele lugar: “O Senhor providenciará”. Donde até hoje se diz: “Sobre o monte o Senhor providenciará”. O anjo do Senhor chamou Abraão, pela segunda vez, do céu, e lhe disse: “Juro por mim mesmo - oráculo do Senhor -, uma vez que agiste deste modo e não me recusaste teu filho único, eu te abençoarei e tornarei tão numerosa tua descendência como as estrelas do céu e como as areias da praia do mar. Teus descendentes conquistarão as cidades dos inimigos. Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque me obedeceste”.

Salmo - Sl 15
R. Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio!

Ó Senhor, sois minha herança e minha taça,*
meu destino está seguro em vossas mãos!
Tenho sempre o Senhor ante meus olhos,*
pois se o tenho a meu lado não vacilo. R.

Eis por que meu coração está em festa,
minha alma rejubila de alegria,*
e até meu corpo no repouso está tranqüilo;
pois não haveis de me deixar entregue à morte,*
nem vosso amigo conhecer a corrupção. R.

Vós me ensinais vosso caminho para a vida;
junto a vós, felicidade sem limites,*
delícia eterna e alegria ao vosso lado! R.

3ª Leitura - Ex 14,15-15,1
Naqueles dias, o Senhor disse a Moisés: “Por que clamas a mim por socorro? Dize aos filhos de Israel que se ponham em marcha. Quanto a ti, ergue a vara, estende o braço sobre o mar e divide-o, para que os filhos de Israel caminhem em seco pelo meio do mar. De minha parte, endurecerei o coração dos egípcios, para que sigam atrás deles, e eu seja glorificado às custas do Faraó, e de todo o seu exército, dos seus carros e cavaleiros. E os egípcios saberão que eu sou o Senhor, quando eu for glorificado às custas do Faraó, dos seus carros e cavaleiros”. Então, o anjo do Senhor, que caminhava à frente do acampamento dos filhos de Israel, mudou de posição e foi para trás deles; e com ele, ao mesmo tempo, a coluna de nuvem, que estava na frente, colocou-se atrás, 20inserindo-se entre o acampamento dos egípcios e o acampamento dos filhos de Israel. Para aqueles a nuvem era tenebrosa, para estes, iluminava a noite. Assim, durante a noite inteira, uns não puderam aproximar-se dos outros. Moisés estendeu a mão sobre o mar, e durante toda a noite o Senhor fez soprar sobre o mar um vento leste muito forte; e as águas se dividiram. Então, os filhos de Israel entraram pelo meio do mar a pé enxuto, enquanto as águas formavam como que uma muralha à direita e à esquerda. Os egípcios puseram-se a persegui-los, e todos os cavalos do Faraó, carros e cavaleiros os seguiram mar adentro. Ora, de madrugada, o Senhor lançou um olhar, desde a coluna de fogo e da nuvem, sobre as tropas egípcias e as pôs em pânico. Bloqueou as rodas dos seus carros, de modo que só a muito custo podiam avançar. Disseram, então, os egípcios: “Fujamos de Israel! Pois o Senhor combate a favor deles, contra nós”. O Senhor disse a Moisés: “Estende a mão sobre o mar, para que as águas se voltem contra os egípcios, seus carros e cavaleiros”. Moisés estendeu a mão sobre o mar e, ao romper da manhã, o mar voltou ao seu leito normal, enquanto os egípcios, em fuga, corriam ao encontro das águas, e o Senhor os mergulhou no meio das ondas. As águas voltaram e cobriram carros, cavaleiros e todo o exército do Faraó, que tinha entrado no mar em perseguição de Israel. Não escapou um só. Os filhos de Israel, ao contrário, tinham passado a pé enxuto pelo meio do mar, cujas águas lhes formavam uma muralha à direita e à esquerda. Naquele dia, o Senhor livrou Israel da mão dos egípcios, e Israel viu os egípcios mortos nas praias do mar, e a mão poderosa do Senhor agir contra eles. O povo temeu o Senhor, e teve fé no Senhor e em Moisés, seu servo. Então, Moisés e os filhos de Israel cantaram ao Senhor este cântico.

Salmo - Ex 15, 1-5.17-18
R. O Senhor é rei para sempre.

“Cantarei ao Senhor, porque ele manifestou sua glória.
Precipitou no mar cavalos e cavaleiros.         
O Senhor é a minha força e o objeto do meu cântico;
foi ele quem me salvou.

Ele é o meu Deus – eu o celebrarei;
o Deus de meu pai – eu o exaltarei.   
O Senhor é o herói dos combates, seu nome é Javé.
Lançou no mar os carros do faraó e o seu exército;
a elite de seus combatentes afogou-se no mar Vermelho;

o abismo os cobriu; afundaram-se nas águas como pedra.
Conduzi-lo-eis e o plantareis na montanha que vos pertence,
no lugar que preparastes para vossa habitação,
Senhor, no santuário, Senhor, que vossas mãos fundaram.
O Senhor é rei para sempre, sem fim!”.

4ª Leitura - Is 54,5-14
Teu esposo é aquele que te criou, seu nome é Senhor dos exércitos; teu redentor, o Santo de Israel, chama-se Deus de toda a terra. O Senhor te chamou, como a mulher abandonada e de alma aflita; como a esposa repudiada na mocidade, falou o teu Deus. Por um breve instante eu te abandonei, mas com imensa compaixão volto a acolher-te. Num momento de indignação, por um pouco ocultei de ti minha face, mas com misericórdia eterna compadeci-me de ti, diz teu salvador, o Senhor. Como fiz nos dias de Noé, a quem jurei nunca mais inundar a terra, assim juro que não me irritarei contra ti nem te farei ameaças. Podem os montes recuar e as colinas abalar-se, mas minha misericórdia não se apartará de ti, nada fará mudar a aliança de minha paz, diz o teu misericordioso Senhor. Pobrezinha, batida por vendavais, sem nenhum consolo, eis que assentarei tuas pedras sobre rubis, e tuas bases sobre safiras; revestirei de jaspe tuas fortificações, e teus portões, de pedras preciosas, e todos os teus muros, de pedra escolhida. Todos os teus filhos serão discípulos do Senhor, teus filhos possuirão muita paz; terás a justiça por fundamento. Longe da opressão, nada terás a temer; serás livre do terror, porque ele não se aproximará de ti.

Salmo - Sl 29
R. Eu vos exalto, ó Senhor, porque vós me livrastes!

Eu vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes,*
e não deixastes rir de mim meus inimigos!
Vós tirastes minha alma dos abismos*
e me salvastes, quando estava já morrendo! R.

Cantai salmos ao Senhor, povo fiel,*
dai-lhe graças e invocai seu santo nome!
Pois sua ira dura apenas um momento,*
mas sua bondade permanece a vida inteira;
se à tarde vem o pranto visitar-nos,*
de manhã vem saudar-nos a alegria. R.

Escutai-me, Senhor Deus, tende piedade!*
Sede, Senhor, o meu abrigo protetor!
Transformastes o meu pranto em uma festa,*
Senhor meu Deus, eternamente hei de louvar-vos! R.

5ª Leitura - Is 55,1-11
Assim diz o Senhor, “Ó vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga. Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-me com atenção, e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento do vosso corpo. Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida; farei convosco um pacto eterno, manterei fielmente as graças concedidas a Davi. Eis que fiz dele uma testemunha para os povos, chefe e mestre para as nações. Eis que chamarás uma nação que não conhecias, e acorrerão a ti povos que não te conheciam, por causa do Senhor, teu Deus, e do Santo de Israel, que te glorificou. Buscai o Senhor, enquanto pode ser achado; invocai-o, enquanto ele está perto. Abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações; volte para o Senhor, que terá piedade dele, volte para nosso Deus, que é generoso no perdão. Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor. Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da terra. Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e fecundar a terra, e fazê-la germinar e dar semente, para o plantio e para a alimentação, assim a palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”.

Salmo - Is 12, 2.4-6
R. Com alegria bebereis do manancial da salvação.

Eis o Deus, meu Salvador, eu confio e nada temo;*
o Senhor é minha força, meu louvor e salvação.
Com alegria bebereis do manancial da salvação. R.

e direis naquele dia: “Dai louvores ao Senhor,
invocai seu santo nome, anunciai suas maravilhas,*
entre os povos proclamai que seu nome é o mais sublime. R.

Louvai cantando ao nosso Deus, que fez prodígios e portentos,*
publicai em toda a terra suas grandes maravilhas!
Exultai cantando alegres, habitantes de Sião,*
porque é grande em vosso meio o Deus Santo de Israel!”. R.

6ª Leitura - Br 3,9-15.32-4,4
Ouve, Israel, os preceitos da vida; presta atenção, para aprenderes a sabedoria. Que se passa, Israel? Como é que te encontras em terra inimiga? Envelheceste num país estrangeiro, te contaminaste com os mortos, foste contado entre os que descem à mansão dos mortos. Abandonaste a fonte da sabedoria! Se tivesses continuado no caminho de Deus, viverias em paz para sempre. Aprende onde está a sabedoria, onde está a fortaleza e onde está a inteligência, e aprenderás também onde está a longevidade e a vida, onde está o brilho dos olhos e a paz. Quem descobriu onde está a sabedoria? Quem penetrou em seus tesouros? Aquele que tudo sabe, conhece-a, descobriu-a com sua inteligência; aquele que criou a terra para sempre e a encheu de animais e quadrúpedes; aquele que manda a luz, e ela vai, chama-a de volta, e ela obedece tremendo. As estrelas cintilam em seus postos de guarda e alegram-se; ele chamou-as, e elas respondem: “Aqui estamos”; e alumiam com alegria o que as fez. Este é o nosso Deus, e nenhum outro pode comparar-se com ele. Ele revelou todo o caminho da sabedoria a Jacó, seu servo, e a Israel, seu bem-amado. Depois, ela foi vista sobre a terra e habitou entre os homens. A sabedoria é o livro dos mandamentos de Deus, é a lei, que permanece para sempre. Todos os que a seguem, têm a vida, e os que a abandonam, têm a morte. Volta-te, Jacó, e abraça-a; marcha para o esplendor, à sua luz. Não dês a outro a tua glória nem cedas a uma nação estranha teus privilégios. Ó Israel, felizes somos nós, porque nos é dado conhecer o que agrada a Deus.

Salmo - Sl 18
R. Senhor, tens palavras de vida eterna.

Alei do Senhor Deus é perfeita,*
conforto para a alma!
O testemunho do Senhor é fiel,*
sabedoria dos humildes. R.

Os preceitos do Senhor são precisos,*
alegria ao coração.
O mandamento do Senhor é brilhante,*
para os olhos é uma luz. R.

É puro o temor do Senhor,*
imutável para sempre.
Os julgamentos do Senhor são corretos*
e justos igualmente. R.

Mais desejáveis do que o ouro são eles,*
do que o ouro refinado.
Suas palavras são mais doces que o mel,*
que o mel que sai dos favos. R.

7ª Leitura - Ez 36,16-17a.18-28
A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: “Filho do homem, os da casa de Israel estavam morando em sua terra. Mancharam-na com sua conduta e suas más ações. Então derramei sobre eles a minha ira, por causa do sangue que derramaram no país e dos ídolos com os quais o mancharam. Eu dispersei-os entre as nações, e eles foram espalhados pelos países. Julguei-os de acordo com sua conduta e suas más ações. Quando eles chegaram às nações para onde foram, profanaram o meu santo nome; pois deles se comentava: ‘Esse é o povo do Senhor; mas tiveram de sair do seu país!’. Então eu tive pena do meu santo nome que a casa de Israel estava profanando entre as nações para onde foi. Por isso, dize à casa de Israel: Assim fala o Senhor Deus: Não é por causa de vós que eu vou agir, casa de Israel, mas por causa do meu santo nome, que profanastes entre as nações para onde fostes. Vou mostrar a santidade do meu grande nome, que profanastes no meio das nações. As nações saberão que eu sou o Senhor - oráculo do Senhor Deus - quando eu manifestar minha santidade à vista delas por meio de vós. Eu vos tirarei do meio das nações,  vos reunirei de todos os países, e vos conduzirei para a vossa terra. Derramarei sobre vós uma água pura, e sereis purificados. Eu vos purificarei de todas as impurezas e de todos os ídolos. Eu vos darei um coração novo e porei um espírito novo dentro de vós. Arrancarei do vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne; porei o meu espírito dentro de vós e farei com que sigais a minha lei e cuideis de observar os meus mandamentos. Habitareis no país que dei a vossos pais. Sereis o meu povo e eu serei o vosso Deus.

Salmo - Sl 41
R. A minh’alma tem sede de Deus.

A minh’alma tem sede de Deus,*
e deseja o Deus vivo.
Quando terei a alegria de ver*
a face de Deus? R.

Peregrino e feliz caminhando*
para a casa de Deus,
entre gritos, louvor e alegria*
da multidão jubilosa. R.

Enviai vossa luz, vossa verdade:*
elas serão o meu guia;
que me levem ao vosso Monte santo,*
até a vossa morada! R.

Então irei aos altares do Senhor,*
Deus da minha alegria.
Vosso louvor cantarei, ao som da harpa,*
meu Senhor e meu Deus! R.

Evangelho - Mc 16,1-7
Quando passou o sábado, Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus. E bem cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, elas foram ao túmulo. E diziam entre si: “Quem rolará para nós a pedra da entrada do túmulo?”. Era uma pedra muito grande. Mas, quando olharam, viram que a pedra já tinha sido retirada. Entraram, então, no túmulo e viram um jovem, sentado do lado direito, vestido de branco. E ficaram muito assustadas. Mas o jovem lhes disse: “Não vos assusteis! Vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou. Não está aqui. Vede o lugar onde o puseram. Ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele irá à vossa frente, na Galileia. Lá vós o vereis, como ele mesmo tinha dito”.

Comentário feito por São Cromácio de Aquileia (?-407)
bispo

O mundo inteiro, que celebra a Vigília Pascal durante toda esta noite, testemunha a grandeza e a solenidade da mesma. E com razão: nesta noite a morte foi vencida, a Vida está viva, Cristo ressuscitou dos mortos. Outrora, Moisés dissera ao povo, a propósito desta Vida: “Sentireis a vossa vida suspensa e tremereis noite e dia” (Dt 28,66). [...] Que aqui se trata de Cristo Senhor, é Ele próprio que no-lo mostra no Evangelho, quando diz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Ele Se diz o caminho, porque conduz ao Pai; a verdade, porque condena a mentira; e a vida, porque comanda a morte [...]: “Onde está, ó morte, a tua vitória?  Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Cor 15,55). Porque a morte, que sempre fora vitoriosa, foi vencida pela morte dAquele que a venceu. A Vida aceitou morrer para desconcertar a morte. Da mesma forma que, ao nascer do dia, as trevas desaparecem, assim foi a morte aniquilada, quando se ergueu a Vida eterna. [...] Eis, pois, o Tempo Pascal. Outrora, Moisés falou ao seu povo dizendo: “Este mês será para vós o primeiro dos meses; ele será para vós o primeiro dos meses do ano” (Ex 12,2). [...] O primeiro mês do ano não é, portanto, janeiro, em que tudo está morto, mas o Tempo Pascal, em que tudo retorna à vida. Porque é agora que a erva dos prados, de certa forma, ressuscita da morte, é agora que há flores nas árvores e que as vinhas têm rebentos, é agora que o próprio ar parece feliz com o início de um novo ano. [...] Este Tempo Pascal é, assim, o primeiro mês, o tempo novo [...] e, também neste dia, o gênero humano é renovado. Pois hoje, no mundo inteiro, inumeráveis povos ressuscitam, pela água do batismo, para uma vida nova. [...] E nós, que acreditamos que o Tempo Pascal é, na verdade, o ano novo, devemos celebrar esse santo dia com toda a alegria e exultação e júbilo espiritual, para podermos dizer, verdadeiramente, este refrão do salmo: “Este é o dia da vitória do Senhor: cantemos e alegremo-nos nele!” (117,24).

sábado, 25 de junho de 2011

Da Eucaristia deriva o sentido profundo da presença social da Igreja

Santa Missa na Solenidade do Corpus Christi

Homilia do Santo Padre Bento XVI

Basílica de São João de Latrão
Quinta-feira, 23 de junho de 2011

Caros irmãos e irmãs,
A festa do Corpus Christi é inseparável da Quinta-feira Santa, da Missa de Lava-pés, na qual se celebra solenemente a instituição da Eucaristia. Enquanto que na noite de Quinta-feira Santa se revive o mistério de Cristo que se oferece a nós no pão partido e no vinho derramado, hoje, na festa do Corpus Christi, este mesmo mistérios é proposta para a adoração e para a meditação do Povo de Deus, e o Santíssimo Sacramento é levado em procissão pelas ruas das cidades e dos vilarejos, para manifestar que Cristo ressuscitado caminha em meio a nós e nos guia para o Reino dos céus. Aquilo que Jesus nos deu na intimidade do Cenáculo, hoje é manifestado abertamente, porque o amor de Cristo não é reservado a alguns, mas é destinado a todos. Na Missa do Lava-pés da última Quinta-feira Santa sublinhei que, na Eucaristia, acontece a transformação dos dons desta terra – o pão e o vinho – com a finalidade de transformar a nossa vida e inaugurar assim a transformação do mundo. Nesta noite, gostaria de retomar esta perspectiva.
Tudo parte, se poderia dizer, do coração de Cristo, que, na Última Ceia, na vigília da Sua paixão, agradeceu e louvou a Deus e, fazendo assim, com a potência do Seu amor, transformou o sentido da morte para a qual se encaminhava. O fato de o Sacramento do Altar ter assumido o nome “Eucaristia” – “ação de graças” – exprime exatamente isto: que a mudança da substância do pão e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo é fruto do dom que Cristo fez de si mesmo, dom de um Amor mais forte do que a morte, Amor divino que o fez ressuscitar dos mortos. Eis porque a Eucaristia é alimento de vida eterna, Pão da vida. Do coração de cristo, da sua “oração eucarística” até a vigília da paixão, brota aquele dinamismo que transforma a realidade nas suas dimensões cósmica, humana e histórica. Tudo procede de Deus, da onipotência do Seu Amor Uno e Trino, encarnado em Jesus. Neste Amor está imerso o coração de Cristo; por isso, Ele sabe agradecer e louvar a Deus mesmo diante da traição e da violência, e deste modo muda as coisas, as pessoas e o mundo.
Esta transformação é possível graças a uma comunhão mais forte do que a divisão, a comunhão de Deus mesmo. A palavra “comunhão”, que usamos também para designar a Eucaristia, resume em si a dimensão vertical e a horizontal do dom de Cristo. É bela e muito eloquente a expressão “receber a comunhão” referida no ato de comer o Pão eucarístico. Com efeito, quando realizamos este ato, entramos em comunhão com a vida mesma de Jesus, no dinamismo desta vida que se doa a nós e para nós. De Deus, através de Jesus, até a nós: uma única comunhão se transmite na Santa Eucaristia. Escutamos isto há pouco, na segunda Leitura, das palavras do apóstolo Paulo dirigidas aos cristãos de Corinto: “O cálice de bênção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão” (1Cor 10, 16-17).
Santo Agostinho nos ajuda a compreender a dinâmica da comunhão eucarística quando faz referência a uma espécie de visão que teve, na qual Jesus lhe disse: “Eu sou o alimento dos fortes. Cresce e me terás. Tu não me transformarás em ti, como o alimento do corpo, mas serás tu que serás transformado em mim” (Conf. VII, 10, 18). Enquanto, portanto, o alimento corporal é assimilado pelo nosso organismo e contribui para o nosso sustento, no caso da Eucaristia trata-se de um Pão diferente: não somos nós a assimilá-lo, mas ele nos assimila a si, de forma que nos tornamos conformes a Jesus Cristo, membro do seu corpo, uma coisa só com Ele. Esta passagem é decisiva. De fato, exatamente porque é Cristo que, na comunhão eucarística, nos transforma em Si, a nossa individualidade, neste encontro, é aberta, liberada do seu egocentrismo e inserida na Pessoa de Jesus, que, por sua vez, é imersa na comunhão trinitária. Assim, a Eucaristia, na medida em que nos une a Cristo, nos abre também aos outros, nos torna membros uns dos outros: não somos mais divididos, mas uma única coisa nEle. A comunhão eucarística me une à pessoa que tenho ao meu lado, e com a qual talvez não tenho nem mesmo um bom relacionamento, mas também aos irmãos distantes, em todas as partes do mundo. Disto, da Eucaristia, deriva portanto o sentido profundo da presença social da Igreja, como testemunham os grandes Santos sociais, que foram sempre grandes almas eucarísticas. Quem reconhece Jesus na Hóstia Santa, O reconhece no irmão que sofre, que tem fome e sede, que é estrangeiro, que está nu, doente, preso; e fica atento a toda pessoa, se compromete, de modo concreto, com todos aqueles que estão em necessidade. Do dom de amor de Cristo provém portanto a nossa especial responsabilidade de cristãos na construção de uma sociedade solidária, justa, fraterna. Especialmente no nosso tempo, no qual a globalização nos torna cada vez mais dependentes uns dos outros, o Cristianismo pode e deve agir de modo que esta unidade não se construa sem Deus, ou seja, sem o verdadeiro Amor, o que daria espaço para confusão, para o individualismo, para o abuso de todos contra todos. O Evangelho mira, desde sempre, para a unidade da família humana, uma unidade não imposta de fora, nem por interesses ideológicos ou econômicos, mas a partir do sentido de responsabilidade de uns pelos outros, porque nos reconhecemos membros de um mesmo corpo, do corpo de Cristo, porque aprendemos e continuamos a aprender constantemente do Sacramento do Altar que a partilha, o amor é a vida da verdadeira justiça.
Voltemos, agora, ao ato de Jesus na Última Ceia. O que aconteceu naquele momento? Quando Ele disse: Este é o meu corpo que é dado por vós, este é o meu sangue derramado por vós e por todos, o que acontece? Jesus, neste gesto, antecipa o evento do Calvário. Ele aceita, por amor, toda a paixão, com o sofrimento e a violência que ela carrega, até à morte de cruz; aceitando-a deste modo a transforma num ato de doação. Esta é a transformação de que o mundo mais precisa, porque o redime por dentro, o abre às dimensões do Reino dos céus. Mas esta renovação do mundo Deus quer realizar sempre através do mesmo caminho seguido por Cristo, aquele caminho, antes, que é Ele mesmo. Não há nada de mágico no Cristianismo. Não há atalhos, mas tudo passa através da lógica humilde e paciente do grão de trigo que morre para dar vida, a lógica da fé que transporta montanhas com a força suave de Deus. Por isto, Deus quer continuar a renovar a humanidade, a história e o cosmo através desta cadeia de transformações, de que a Eucaristia é o sacramento. Mediante o pão e o vinho consagrados, nos quais está realmente presente o Seu Corpo e Sangue, Cristo nos transforma, assimilando-nos a Ele: nos envolve na Sua obra de redenção, tornando-nos capazes, pela graça do Espírito Santo, de viver segundo a mesma lógica de doação, como grãos de trigo unidos a Ele e nEle. Assim, semeia-se e amadurecem nos sulcos da história a unidade e a paz, que são o fim para o qual tendemos, segundo o desígnio de Deus.
Sem ilusões, sem utopias ideológicas, caminhamos pelas estradas do mundo, carregando dentro de nós o Corpo do Senhor, como a Virgem Maria no mistério da Visitação. Com a humildade de nos sabermos simples grãos de trigo, custodiemos a firme certeza de que o amor de Deus, encarnado em Cristo, é mais forte do que o mal, do que a violência e do que a morte. Saibamos que Deus prepara para todos os homens céus novos e terra nova, nos quais reinam a paz e a justiça – e na fé entrevemos o mundo novo, que é a nossa verdadeira pátria. Também nesta noite, enquanto o sol se põe nesta nossa amada cidade de Roma, coloquemo-nos em caminho: conosco está Jesus Eucaristia, o Ressuscitado, que disse “Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28, 20). Obrigado, Senhor Jesus! Obrigado pela Tua fidelidade, que sustenta a nossa esperança. Fica conosco, porque a noite já está caindo. “Bom Pastor, verdadeiro Pão, ó Jesus, piedade de nós; nutre-nos, defende-nos, leva-nos aos bens eternos, na terra dos viventes!”. Amém.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 23 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Cartas do P.e Aldo 194

Asunción, 27 de maio de 2011.

Caros amigos,
De volta da Itália, agradeço de coração a todas as pessoas que encontrei e, particularmente, os tantos, tantíssimos testemunhos da Ressurreição de Cristo, tanto de doentes como de pessoas em outras condições difíceis. De fato, como nos lembrava Carrón, citando São Paulo, “nenhum dom de Graça nos falta mais”.
A alegria de ver pessoas mudadas, seguindo Carrón, me enche o coração de esperança e de energia. Uma vez mais se confirmou que o problema não é ir para o Paraguai, para o Brasil ou para a África, mas seguir aquela companhia na qual Deus o colocou e na qual é evidente a experiência do carisma, com o mundo do coração.
Não há condição privilegiada, é a realidade nas circunstâncias na qual Deus nos colocou e nos coloca. Eu vim para o Paraguai porque Giussani me mandou, mas não para o mal do Paraguai ou da América Latina como tantos têm.
Uma pessoa que viva aí o carisma, seguindo Carrón, não sente saudade do Paraguai. Vi coisas do outro mundo e frequentemente me perguntei: mas, quantos veem isso? Vi os sinais da vitória de Cristo em todos os lugares por onde passei e uma pessoa estaria ali sempre, olhando para esses sinais, desejando pertencer àqueles lugares. De verdade, me senti em casa, porque se a pessoa olha para onde Carrón olha, identificando-se com a sua experiência, a vida floresce, as obras se tornam a presença dos “vivos” num mundo de mortos.
Obrigado de coração, porque vi um movimento de pessoas vivas que me marcaram. E quem vive assim aí na Itália, vive aqui comigo mesmo se nunca vier me ver. E vice-versa: ninguém escapa daquilo que não existe. Agradeço também àqueles que, com seu sacrifício, continuam ajudando a Providência, para poder terminar o hospital e a escola, particularmente às crianças das escolas que visitei.
Em nome dos meus doentes e de todos, agradeço a vocês de coração. Para mim, mendigar é mendigar Cristo, mendigar o Seu amor, porque o objetivo da vida é ser dada.
Rezamos por todos vocês, caros amigos e benfeitores que nos ajudam. Obrigado.
Padre Aldo

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O Novo Testamento deu fim à invisibilidade do Pai

Bento XVI

Regina Coeli

Praça São Pedro
Domingo, 22 de maio de 2011

Caros irmãos e irmãs!
O Evangelho deste domingo, o Quinto da Páscoa, propõe um duplo mandamento sobre a fé: crer em Deus e crer em Jesus. O Senhor, de fato, disse ao seus discípulos: “Tenhais fé em Deus e tenhais fé também em mim” (Jo 14, 1). Não são dois atos separados, mas um único ato de fé, a plena adesão à salvação operada por Deus Pai através de seu Filho Unigênito. O Novo Testamento deu fim à invisibilidade do Pai. Deus mostrou o seu rosto, como confirma a resposta de Jesus ao apóstolo Felipe: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 9). O Filho de Deus, com a sua encarnação, morte e ressurreição, nos libertou da escravidão do pecado para nos dar a liberdade dos filhos de Deus e nos fez conhecer o rosto de Deus que é amor: Deus pode ser visto, é visível em Cristo. Santa Teresa d’Ávila escreve que “não devemos nos distanciar daquilo que constitui todo o nosso bem e o nosso remédio, ou seja, da santíssima humanidade de nosso Senhor Jesus Cristo” (Castelo interior, 7, 6). Portanto, apenas crendo em Cristo, permanecendo unidos a Ele, os discípulos, entre os quais estamos também nós, podem continuar a sua ação permanente na história: “Em verdade, em verdade, eu vos digo – disse o Senhor –, quem crê em mim, também ele realizará as obras que eu realizo” (Jo 14, 12).
A fé em Jesus comporta segui-Lo cotidianamente, nas ações simples que compõem o nosso dia-a-dia. “É próprio do mistério de Deus agir de modo submisso. Somente aos poucos Ele constrói na grande história da humanidade a sua história. Torna-se homem, mas de modo a poder ser ignorado pelos seus contemporâneos, pelas forças de poder da história. Padece e morre e, como Ressuscitado, quer chegar à humanidade apenas através da fé dos seus aos quais se manifesta. Continuamente, Ele bate submissamente às portas dos nossos corações e, se lhe abrimos, lentamente nos torna capazes de ‘ver’” (Jesus de Nazaré II, 2011, p. 206). Santo Agostinho afirma que “era necessário que Jesus dissesse: ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida’ (Jo 14, 6), para que uma vez conhecido o caminho, se conhecesse a meta” (Tractatus in Ioh., 69, 2: CCL 36, 500), e a meta é o Pai. Para os cristãos, para cada um de nós, portanto, o Caminho para o Pai é deixar-se guiar por Jesus, por sua palavra de Verdade, e acolher o dom da sua Vida. Façamos nosso o convite de São Boaventura: “Abre pois os olhos, dispõe o ouvido espiritual, abre os teus lábios e dispõe o teu coração, para que possas, em todas as criaturas, ver, escutar, louvar, amar, venerar, glorificar, honrar o teu Deus” (Itinerarium mentis in Deum, I, 15).
Caros amigos, o compromisso de anunciar Jesus Cristo, “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6), constitui a tarefa principal da Igreja. Invoquemos a Virgem Maria para que assista sempre os Pastores e aqueles que, nos diversos ministérios, anunciam a feliz Mensagem de salvação, para que a Palavra de Deus se difunda e o número dos discípulos se multiplique (cf. At 6, 7)

* Extraído do site do Vaticano, do dia 22 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Em Maria reflete-se o rosto luminoso de Cristo


Bento XVI

Regina Coeli

Parque San Giuliano – Mestre
Domingo, 8 de maio de 2011.

Caros irmãos e irmãs!
Ao final desta solene Celebração Eucarística, voltamos o olhar a Maria, Regina Coeli. Na aurora da Páscoa, Ela se torna a Mãe do Ressuscitado e a sua união com Ele se torna tão profunda que, onde o Filho estiver presente não poderá faltar a Mãe. Nestes vossos esplêndidos lugares, dom e sinal da beleza de Deus, quantos Santuários, igrejas e capelas são dedicados a Maria! NEla reflete-se o rosto luminoso de Cristo. Se a seguirmos docilmente, a Virgem nos conduzirá a Ele. Nestes dias do Tempo Pascal, deixemo-nos conquistar por Cristo ressuscitado. NEle tem início o mundo novo de amor e de paz que constitui a profunda aspiração de cada coração humano. O Senhor conceda a vós, habitantes destas ricas terras, de uma longa tradição cristã, viver o Evangelho como se vivia na Igreja nascente, na qual “a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. ” (At 4, 32). Invoquemos Maria Santíssima, que sustentou as primeiras testemunhas de Seu Filho na pregação da Boa Nova, para que sustente também hoje as fadigas apostólicas dos Sacerdotes; torne fecundo o testemunho dos Religiosos e das Religiosas; anime a obra cotidiana dos pais na primeira transmissão da fé aos seus filhos; ilumine a estrada dos jovens para que caminhem confiantes sobre a via traçada pela fé dos pais; encha de firme esperança os corações dos anciãos; conforte com sua proximidade os doentes e todos os sofredores; reforce a obra dos numerosos leigos que colaboram ativamente com a nova evangelização, nas Paróquias, nas Associações, como os escoteiros e a Ação Católica, tão enraizada e presente nestas terras, nos Movimentos, que, com a variedade de seus carismas e de suas ações, são um sinal da riqueza do tecido eclesial – penso em realidades como o Movimento dos Focolares, Comunhão e Libertação ou no Caminho Neocatecumenal, para citar apenas algumas. Encorajo a todos a trabalharem com verdadeiro espírito de comunhão nesta grande vinha para a qual o Senhor nos chamou a agir. Maria, Mãe do Ressuscitado e da Igreja, ora por nós!

* Extraído do site do Vaticano, do dia 8 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Uma lição para Marilena

Por Paulo R. A. Pacheco

Há pouco menos de 10 anos atrás, eu acordava num hotel em Curitiba... enquanto me trocava para ir a um colóquio de filosofia no qual inscrevera um trabalho meu, liguei a televisão e me deparei com imagens que me chocaram: o WTC em chamas. Alguns minutos para me inteirar dos fatos e chegavam aos meus ouvidos as primeiras "informações" de que parecia se tratar de um atentado... pouco antes de desligar a televisão, a confirmação. Era o dia 11 de setembro de 2001.
Corri para a PUC do Paraná, onde acontecia o "IV Colóquio Internacional de Estudos Filosóficos do Século XVII - Liberdade, Necessidade e Contingência"... Estava absolutamente aturdido com tudo o que vira e ouvira. Sentei-me enquanto via a mesa da manhã se compondo. Não me lembro dos nomes de todos os membros, mas me lembro claramente de que a Prof.a Marilena Chauí coordenava a mesa e dava abertura aos trabalhos daquela manhã. Para minha surpresa, seu comentário inicial foi de uma infelicidade sem tamanho - mais tarde, entendi que comentários infelizes não são lapsos quando se trata dessa senhora, mas são traços do seu mau gosto intelectual: "Os que sempre se vangloriaram de ser a nação poderosa da liberdade aprenderam, hoje, finalmente, qual é o seu lugar no mundo". Um intertexto decorado com um sorriso cínico e o balouçar aprovador de cabeças "pensantes" deu um ar de sabedoria às palavras da ínclita personagem. Senti-me mal por participar daquilo. Ouvi duas ou três palavras do conferencista daquela manhã - um professor francês que se esforçava por mostrar a inteligência de Descartes na vitória sobre a hegemonia de pensamento da Igreja -, levantei-me e voltei para o hotel. Liguei a televisão. E telefonei para minha orientadora. Enquanto assistia à cobertura dos acontecimentos, conversava com ela, contando tudo o que ouvira pela manhã, e lhe dizia de minha vontade de não mais apresentar meu trabalho - a Prof.a Chauí, a propósito, coordenaria a mesa de comunicações da qual eu participaria na parte da tarde. Evidentemente, minha orientadora não permitiu que eu fizesse isso.
Almocei e, antes de voltar para a PUC, resolvi ir à missa... No caminho para a catedral, pensava no como podemos ser maus. Na liturgia daquele dia, se lia a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios: "E, quando tudo lhe estiver sujeito, então também o próprio Filho renderá homenagem àquele que lhe sujeitou todas as coisas, a fim de que Deus seja tudo em todos" (1Cor 15, 28)... Voltei para a PUC com aquelas palavras ressoando por dentro: "a fim de que Deus seja tudo em todos". E, aos poucos, o juízo anterior sobre a maldade, mudava em pergunta, em pedido: "como, Senhor, numa situação dessas, é possível haver Tua presença? Mostra-Te!".
De volta a Ribeirão Preto, no dia seguinte, soubera que, naquele 11 de setembro, a FFLCH/USP promovera, em São Paulo, a "Osama Bin Reagge"... Estranho? Não! Que algo do gênero tivesse sido proposto pela intelligentzia uspiana, tão bem formada por "cabeças" (?) como a de Marilena Chauí - alcunhada muito a propósito por Bruno Tolentino de Marxilena Xuxauí -, é esperado... e, o que mais assusta, é louvado naquele antro de lixo do pensamento.

Nesses dias, após o assassinato de Osama Bin Laden - o patrono do festim diabólico da Fefelech -, certamente deve estar pairando, nos ares da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, o cheiro da dor e do luto, misturado àquela maresia descolada que faz olhar para a morte de um líder do naipe do Osama como o nascimento de um novo mártir, que, muito seguramente, ocupará um lugar de destaque ao lado de ícones como o de Che Guevara. Nesses dias, após o assassinato de Osama Bin Laden - o professor que "ensinou aos EUA o seu lugar" -, me pergunto o que deve estar passando na cabeça da nossa mais aclamada pensadora: a preclara Prof.a Marilena Chauí. O que será que aprendemos disso, professora? Qual a extensão do sorriso cínico que se desenhará, agora, no seu rosto? Será feita festa sobre o cadáver do Osama com a mesma desenvoltura com a qual se fez festa sobre o cadáver de 3000 inocentes?
Não, a sua morte não é motivo de louvor, nem  de alegria... a morte de um não sacia a sede de justiça pela morte de três mil. Assim como a morte de três mil continuaria a ser insuficiente para saciar esta mesma sede infinita. Não, professora! Acredito que sua morte sirva apenas para que desperte nos corações aquela sede de justiça que, há dez anos atrás, me levou a perguntar e pedir: "como, Senhor, numa situação dessas, é possível haver Tua presença? Mostra-Te!". 
No seu Jesus de Nazaré, Bento XVI nos lembra que "somente se Jesus ressuscitou é que aconteceu algo de verdadeiramente novo, que muda o mundo e a situação do homem. Então Ele, Jesus, torna-Se o critério em que nos podemos fiar; porque, então, Deus manifestou-Se verdadeiramente". Somente Tua Presença, Senhor, muda o mundo e a situação do homem. Muda-nos, Senhor!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Hoje nós te pedimos: Santo Padre, abençoa-nos!


Homilia do Papa Bento XVI
Por ocasião da Beatificação do Servo de Deus Papa João Paulo II

Átrio da Basílica Vaticana
Domingo, 1 de maio de 2011

Amados irmãos e irmãs,
Passaram já seis anos desde o dia em que nos encontrávamos nesta Praça para celebrar o funeral do Papa João Paulo II. Naquela ocasião, se a tristeza pela sua perda era profunda, maior ainda se revelava a sensação de que uma graça imensa envolvia Roma e o mundo inteiro: graça esta que era como que o fruto da vida inteira do meu amado Predecessor, especialmente do seu testemunho no sofrimento. Já naquele dia sentíamos pairar o perfume da sua santidade, tendo o Povo de Deus manifestado de muitas maneiras a sua veneração por ele. Por isso, quis que a sua Causa de Beatificação pudesse, no devido respeito pelas normas da Igreja, prosseguir com discreta celeridade. E o dia esperado chegou! Chegou depressa, porque assim aprouve ao Senhor: João Paulo II é Beato!
Desejo dirigir a minha cordial saudação a todos vós que, nesta circunstância feliz, vos reunistes, tão numerosos, aqui em Roma vindos de todos os cantos do mundo: cardeais, patriarcas das Igrejas Católicas Orientais, irmãos no episcopado e no sacerdócio, delegações oficiais, embaixadores e autoridades, pessoas consagradas e fiéis leigos; esta minha saudação estende-se também a quantos estão unidos conosco através do rádio e da televisão.
Estamos no segundo domingo de Páscoa, que o Beato João Paulo II quis intitular Domingo da Divina Misericórdia. Por isso, se escolheu esta data para a presente celebração, porque o meu Predecessor, por um desígnio providencial, entregou o seu espírito a Deus justamente ao anoitecer da vigília de tal ocorrência. Além disso, hoje tem início o mês de maio, o mês de Maria; e neste dia celebra-se também a memória de São José operário. Todos estes elementos concorrem para enriquecer a nossa oração; servem-nos de ajuda, a nós que ainda peregrinamos no tempo e no espaço; no Céu, a festa entre os Anjos e os Santos é muito diferente! E todavia Deus é um só, e um só é Cristo Senhor que, como uma ponte, une a terra e o Céu, e neste momento o sentimos muito perto, sentimo-nos quase participantes da liturgia celeste.
“Felizes os que acreditam sem terem visto” (Jo 20, 29). No Evangelho de hoje, Jesus pronuncia esta bem-aventurança: a bem-aventurança da fé. Ela chama de modo particular a nossa atenção, porque estamos reunidos justamente para celebrar uma Beatificação e, mais ainda, porque o Beato hoje proclamado é um Papa, um Sucessor de Pedro, chamado a confirmar os irmãos na fé. João Paulo II é Beato pela sua forte e generosa fé apostólica. E isto traz imediatamente à memória outra bem-aventurança: “Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que te revelaram isso, mas sim meu Pai que está nos Céus” (Mt 16, 17). O que é que o Pai celeste revelou a Simão? Que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus vivo. Por esta fé, Simão se torna “Pedro”, rocha sobre a qual Jesus pode edificar a sua Igreja. A bem-aventurança eterna de João Paulo II, que a Igreja tem a alegria de proclamar hoje, está inteiramente contida nestas palavras de Cristo: “Feliz de ti, Simão” e “felizes os que acreditam sem terem visto”. É a bem-aventurança da fé, cujo dom também João Paulo II recebeu de Deus Pai para a edificação da Igreja de Cristo.
Entretanto perpassa pelo nosso pensamento mais uma bem-aventurança que, no Evangelho, precede todas as outras. É a bem-aventurança da Virgem Maria, a Mãe do Redentor. A Ela, que acabava de conceber Jesus no seu ventre, diz Santa Isabel: “Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor” (Lc 1, 45). A bem-aventurança da fé tem o seu modelo em Maria, pelo que a todos nos enche de alegria o fato de a beatificação de João Paulo II ter lugar no primeiro dia deste mês mariano, sob o olhar materno dAquela que, com a sua fé, sustentou a fé dos Apóstolos e não cessa de sustentar a fé dos seus sucessores, especialmente de quantos são chamados a sentar-se na cátedra de Pedro. Nas narrações da ressurreição de Cristo, Maria não aparece, mas a sua presença pressente-se em toda a parte: é a Mãe, a quem Jesus confiou cada um dos discípulos e toda a comunidade. De forma particular, notamos que a presença real e materna de Maria aparece assinalada por São João e São Lucas nos contextos que precedem tanto o Evangelho como a primeira Leitura de hoje: na narração da morte de Jesus, onde Maria aparece aos pés da Cruz (Jo 19, 25); e, no começo dos Atos dos Apóstolos, que a apresentam no meio dos discípulos reunidos em oração no Cenáculo (At 1, 14).
Também a segunda Leitura de hoje nos fala da fé, e é justamente São Pedro que escreve, cheio de entusiasmo espiritual, indicando aos recém-batizados as razões da sua esperança e da sua alegria. Apraz-me observar que nesta passagem, situada na parte inicial da sua Primeira Carta, Pedro exprime-se não no modo exortativo, mas indicativo. De fato, escreve: “Isto vos enche de alegria”; e acrescenta: “Vós amais Jesus Cristo sem O terdes conhecido, e, como nEle acreditais sem O verdes ainda, estais cheios de alegria indescritível e plena de glória, por irdes alcançar o fim da vossa fé: a salvação das vossas almas” (1Ped 1, 6.8-9). Está tudo no indicativo, porque existe uma nova realidade, gerada pela ressurreição de Cristo, uma realidade que nos é acessível pela fé. “Esta é uma obra admirável – diz o Salmo (118, 23) – que o Senhor realizou aos nossos olhos”, os olhos da fé.
Queridos irmãos e irmãs, hoje diante dos nossos olhos brilha, na plena luz de Cristo ressuscitado, a amada e venerada figura de João Paulo II. Hoje, o seu nome junta-se à série dos Santos e Beatos que ele mesmo proclamou durante os seus quase 27 anos de pontificado, lembrando com vigor a vocação universal à medida alta da vida cristã, à santidade, como afirma a Constituição conciliar Lumem gentium sobre a Igreja. Os membros do Povo de Deus – bispos, sacerdotes, diáconos, fiéis leigos, religiosos e religiosas – todos nós estamos a caminho da Pátria celeste, tendo-nos precedido a Virgem Maria, associada de modo singular e perfeito ao mistério de Cristo e da Igreja. Karol Wojtyła, primeiro como Bispo Auxiliar e depois como Arcebispo de Cracóvia, participou no Concílio Vaticano II e bem sabia que dedicar a Maria o último capítulo da Constituição sobre a Igreja significava colocar a Mãe do Redentor como imagem e modelo de santidade para todo o cristão e para a Igreja inteira. Foi esta visão teológica que o Beato João Paulo II descobriu na sua juventude, tendo-a depois conservado e aprofundado durante toda a vida; uma visão, que se resume no ícone bíblico de Cristo crucificado com Maria ao pé da Cruz. Um ícone que se encontra no Evangelho de João (19, 25-27) e está sintetizado nas armas episcopais e, depois, papais de Karol Wojtyła: uma cruz de ouro, um “M” na parte inferior direita e o lema “Totus tuus”, que corresponde à conhecida frase de São Luís Maria Grignion de Monfort, na qual Karol Wojtyła encontrou um princípio fundamental para a sua vida: “Totus tuus ego sum et omnia mea tua sunt. Accipio Te in mea omnia. Praebe mihi cor tuum, Maria – Sou todo vosso e tudo o que possuo é vosso. Tomo-vos como toda a minha riqueza. Dai-me o vosso coração, ó Maria” (Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 266).
No seu Testamento, o novo Beato deixou escrito: “Quando, no dia 16 de outubro de 1978, o conclave dos cardeais escolheu João Paulo II, o Card. Stefan Wyszyński, Primaz da Polônia, disse-me: ‘A missão do novo Papa será a de introduzir a Igreja no Terceiro Milênio’”. E acrescenta: “Desejo mais uma vez agradecer ao Espírito Santo pelo grande dom do Concílio Vaticano II, do qual me sinto devedor, juntamente com toda a Igreja e sobretudo o episcopado. Estou convencido de que será concedido ainda por muito tempo, às sucessivas gerações, haurir das riquezas que este Concílio do século XX nos prodigalizou. Como Bispo que participou no evento conciliar, desde o primeiro ao último dia, desejo confiar este grande patrimônio a todos aqueles que são, e serão, chamados a realizá-lo. Pela minha parte, agradeço ao Pastor eterno que me permitiu servir esta grandíssima causa ao longo de todos os anos do meu pontificado”. E qual é esta causa? É a mesma que João Paulo II enunciou na sua primeira Missa solene, na Praça de São Pedro, com estas palavras memoráveis: “Não tenhais medo! Abri, melhor, escancarai as portas a Cristo!”. Aquilo que o Papa recém-eleito pedia a todos, começou, ele mesmo, a fazê-lo: abriu a Cristo a sociedade, a cultura, os sistemas políticos e econômicos, invertendo, com a força de um gigante – força que lhe vinha de Deus –, uma tendência que parecia irreversível. Com o seu testemunho de fé, de amor e de coragem apostólica, acompanhado por uma grande sensibilidade humana, este filho exemplar da nação polonesa ajudou os cristãos de todo o mundo a não ter medo de se dizerem cristãos, de pertencerem à Igreja, de falarem do Evangelho. Numa palavra, ajudou-nos a não ter medo da verdade, porque a verdade é garantia de liberdade. Sintetizando ainda mais: deu-nos novamente a força de crer em Cristo, porque Cristo é o Redentor do homem – Redemptor hominis: foi este o tema da sua primeira Encíclica e o fio condutor de todas as outras.
Karol Wojtyła subiu ao sólio de Pedro trazendo consigo a sua reflexão profunda sobre a confrontação entre o marxismo e o cristianismo, centrada no homem. A sua mensagem foi esta: o homem é o caminho da Igreja, e Cristo é o caminho do homem. Com esta mensagem, que é a grande herança do Concílio Vaticano II e do seu “timoneiro” – o Servo de Deus Papa Paulo VI –, João Paulo II foi o guia do Povo de Deus ao cruzar o limiar do Terceiro Milênio, que ele pôde, justamente graças a Cristo, chamar “limiar da esperança”. Na verdade, através do longo caminho de preparação para o Grande Jubileu, ele conferiu ao cristianismo uma renovada orientação para o futuro, o futuro de Deus, que é transcendente relativamente à história, mas incide na história. Aquela carga de esperança que de certo modo fora cedida ao marxismo e à ideologia do progresso, João Paulo II legitimamente reivindicou-a para o cristianismo, restituindo-lhe a fisionomia autêntica da esperança, que se deve viver na história com um espírito de “advento”, numa existência pessoal e comunitária orientada para Cristo, plenitude do homem e realização das suas expectativas de justiça e de paz.
Por fim, quero agradecer a Deus também a experiência de colaboração pessoal que me concedeu ter longamente com o Beato Papa João Paulo II. Se antes já tinha tido possibilidades de conhecê-lo e estimar, desde 1982, quando me chamou a Roma como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, pude durante 23 anos permanecer junto dele crescendo sempre mais a minha veneração pela sua pessoa. O meu serviço foi sustentado pela sua profundidade espiritual, pela riqueza das suas intuições. Sempre me impressionou e edificou o exemplo da sua oração: entranhava-se no encontro com Deus, inclusive no meio das mais variadas incumbências do seu ministério. E, depois, impressionou-me o seu testemunho no sofrimento: pouco a pouco o Senhor o foi despojando de tudo, mas permaneceu sempre uma “rocha”, como Cristo o quis. A sua humildade profunda, enraizada na união íntima com Cristo, permitiu-lhe continuar a guiar a Igreja e a dar ao mundo uma mensagem ainda mais eloquente, justamente no período em que as forças físicas definhavam. Assim, realizou de maneira extraordinária a vocação de todo o sacerdote e bispo: tornar-se um só com aquele Jesus que diariamente recebe e oferece na Igreja.
Feliz és tu, amado Papa João Paulo II, porque acreditaste! Continua do Céu – nós te pedimos – a sustentar a fé do Povo de Deus. Muitas vezes, do Palácio, tu nos abençoaste nesta Praça! Hoje nós te pedimos: Santo Padre, abençoa-nos! Amém.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 1 de maio de 2011. Revisado por Paulo R. A. Pacheco.

sábado, 30 de abril de 2011

... o caminho não apenas para transformar a nós mesmos, mas também para transformar o mundo

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 27 de abril de 2011.

A Oitava de Páscoa

Caros irmãos e irmãs,
Nestes primeiros dias do Tempo Pascal, que se prolonga até ao Pentecostes, estamos ainda cheios do frescor e da alegria nova que as celebrações litúrgicas trouxeram para os nossos corações. Por isso, hoje, gostaria de refletir convosco, brevemente, sobre a Páscoa, coração do mistério cristão. Tudo, de fato, tem início aqui: Cristo ressuscitado dos mortos é o fundamento da nossa fé. Da Páscoa se irradia, como de um centro luminosos, incandescente, toda a liturgia da Igreja, tirando dela conteúdo e significado. A celebração litúrgica da morte e ressurreição de Cristo não é uma simples comemoração deste evento, mas é a sua atualização no mistério, para a vida de cada cristão e de cada comunidade eclesial, para a nossa vida. De fato, a fé no Cristo ressuscitado transforma a existência, operando em nós uma contínua ressurreição, como escrevia São Paulo aos primeiros crentes: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor: comportai-vos como verdadeiras luzes. Ora, o fruto da luz é bondade, justiça e verdade” (Ef 5, 8-9).
Como podemos, então, tornar a Páscoa uma “vida”? Como a nossa existência interior e exterior pode assumir uma “forma” pascal? Temos que partir da compreensão autêntica da ressurreição de Jesus: tal evento não é um simples retorno à vida precedente, como foi para Lázaro, para a filha de Jairo ou para o jovem de Nain, mas é algo de completamente novo e diferente. A ressurreição de Cristo é a porta para uma vida não mais submetida à caducidade do tempo, uma vida imersa na eternidade de Deus. Na ressurreição de Jesus tem início uma nova condição do ser homens, que ilumina e transforma o nosso caminho de todo dia e abre um futuro qualitativamente diverso e novo para a humanidade inteira. Por isto, São Paulo não apenas liga, de maneira incindível, a ressurreição dos cristãos à de Jesus (cf. 1Cor 15, 16.20), mas indica também como se deve viver o mistério pascal na cotidianidade da nossa vida.
Na Carta aos Colossenses ele escreve: “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra” (3, 1-2). À primeira vista, lendo este texto, poderia parecer que o Apóstolo pretenda favorecer o desprezo das realidades terrenas, convidando a esquecermo-nos deste mundo de sofrimentos, de injustiças, de pecados, para viver antecipadamente num paraíso celeste. O pensamento do “céu” seria, nesse caso, uma espécie de alienação. Mas, para entender o sentido verdadeiro destas afirmações paulinas, basta que não as separemos do contexto. O Apóstolo precisa muito bem aquilo que pretende pelas “coisas lá de cima” que o cristão deve buscar, e as “da terra”, das quais deve ser guardar. Eis, antes de mais nada, quais são “as coisas da terra” que é preciso evitar: “Mortificai, pois – escreve São Paulo –, os vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria” (3, 5). Fazer morrer em nós o desejo insaciável de bens materiais, o egoísmo, raiz de todo pecado. Portanto, quando o Apóstolo convida os cristãos a separar-se decididamente das “coisas da terra”, quer claramente que entendamos que se trata das coisas que pertencem ao “homem velho” de que o cristão deve se despir, para se revestir de Cristo.
Assim como foi claro ao dizer quais são as coisas em direção aos quais não devemos fixar o nosso coração, com a mesma clareza São Paulo nos indica quais são as “coisas lá de cima”, que o cristão devem, pelo contrário, buscar e saborear. Elas dizem respeito àquilo que pertence ao “homem novo”, que se revestiu de Cristo uma vez por todas no Batismo, mas que sempre precisa renovar-se “à imagem dAquele que o criou” (Col 3, 10). Eis como o Apóstolo dos Gentios descreve estas “coisas lá de cima”: “Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente (...). Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição” (Col 3, 12-14). São Paulo está, portanto, muito distante de querer convidar os cristãos, cada um de nós, a evadirem do mundo no qual Deus nos colocou. É verdade que somos cidadãos de uma outra “cidade”, onde se encontra a nossa verdadeira pátria, mas o caminho em direção a esta meta deve ser percorrido por nós cotidianamente nesta terra. Participando desde agora da vida de Cristo ressuscitado devemos viver como homens novos neste mundo, no coração da cidade terrena.
E este é o caminho não apenas para transformar a nós mesmos, mas também para transformar o mundo, para dar à cidade terrena um rosto novo que favoreça o desenvolvimento do homem e da sociedade segundo da lógica da solidariedade, da bondade, no profundo respeito pela dignidade própria de cada um. O Apóstolo nos recorda quais são as virtudes que devem acompanhar a vida cristã; no vértice está a caridade, à qual todas as outras estão ligadas como que à fonte e à matriz. Ela resume e compendia “as coisas do céu”: a caridade que, com a fé e a esperança, representa a grande regra de vida do cristão e define sua natureza profunda.
A Páscoa, portanto, leva a novidade de uma passagem profunda e total de um vida sujeita à escravidão do pecado a uma vida de liberdade, animada pelo amor, força que abate toda barreira e constrói uma nova harmonia no próprio coração e no relacionamento com os outros e com as coisas. Todo cristão, assim como toda comunidade, se vive a experiência desta passagem de ressurreição, deve ser fermento novo no mundo, dando-se sem reservas para as causas mais urgentes e mais justas, como demonstram os testemunhos dos Santos em todas as épocas e todos os lugares. São tantas as expectativas do nosso tempo: nós cristãos, crendo firmemente que a ressurreição de Cristo renovou o homem, sem tirá-lo do mundo no qual constrói a sua história, devemos ser as testemunhas luminosas desta vida nova que a Páscoa trouxe. A Páscoa é, portanto, dom para ser acolhido sempre mais profundamente na fé, para poder operar em toda situação, com a graça de Cristo, segundo a lógica de Deus, a lógica do amor. A luz da ressurreição de Cristo deve penetrar este nosso mundo, deve atingir, como mensagem de verdade e de vida, a todos os homens através do nosso testemunho cotidiano.
Caros amigos, sim, Cristo ressurgiu verdadeiramente! Não podemos manter só para nós a vida e a alegria que Ele nos deu na sua Páscoa, mas devemos dá-la a todos que se aproximam de nós. É a nossa tarefa e a nossa missão: fazer ressurgir no coração do próximo a esperança onde há desespero, a alegria onde há tristeza, a vida onde há morte. Testemunhar todos os dias a alegria do Senhor ressuscitado significa viver sempre de “modo pascal” e fazer ressoar o feliz anúncio de que Cristo não é uma ideia ou uma recordação do passado, mas uma Pessoa que vive conosco, para nós e em nós, e com Ele, por e nEle podemos fazer novas todas as coisas (cf. Ap 21, 5).

* Extraído do site do Vaticano, do dia 27 de abril de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.