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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Giussani, Leopardi, Zambrano: a nossa razão “vive” de rostos e coisas

Por Laura Cioni

Todo ser humano tem necessidade de se ancorar concreta e afetivamente em alguém. Isso vale também para  faculdade da razão. A propósito, é famosa a expressão agostiniana: Nemo cognoscit nisi per amicitiam – ninguém conhece senão através da amizade, completada pela versão na voz passiva: Nemo cognoscitur nisi per amicitiam, ninguém é conhecido senão através da amizade.
Num romance de ficção política não muito influente ou famoso, Os fantoches de Deus de Morris West, há dois homens, o Papa francês obrigado a demitir-se da cúria depois de ter tido uma visão sobre o iminente fim do mundo, e o seu amigo mais caro, um teólogo alemão. O cenário no qual se passa é o mosteiro beneditino no qual o primeiro encontrou refúgio. No fim de uma conversa, ele diz ao amigo: “Aqui, vejo tudo em escala reduzida. Todo o amor e a nostalgia e o cuidado de que sou capaz estão concentrados no rosto humano que me é mais próximo. Neste momento, é o teu rosto, Carl: tu e tudo aquilo que és”.
O exemplo mais luminoso do fato que a razão funciona em estreita relação com uma situação que interessa pode ser encontrado nos escritos de Dom Giussani, não apenas porque eles nascem de ocasiões bem precisas, mas exatamente na medida em que entre as linhas podem ser reconhecidos rostos de pessoas, dificuldades, descobertas que permitiram as considerações mais gerais expostas nos seus livros. Nessa unidade de atenção ao particular e de visão metafísica está um dos aspectos mais reconhecíveis do seu pensamento e dos seus escritos.
Um único exemplo entre os tantos, extraído de Generare Tracce nella storia del mondo: “A decisão nasce como o instaurar-se de uma simpatia. Os apóstolos iam atrás de Jesus porque estavam ligados a Ele com um juízo que lhes tornava capazes de uma decisão perfeitamente racional: porque onde se gera um relacionamento que chega até a uma simpatia profunda, até à renovação de uma ligação nascida do maravilhamento incomparável, a racionalidade é um acontecimento”
De resto, um dos autores preferidos de Dom Giussani, Giacomo Leopardi, escreve os seus versos exatamente a partir de uma consonância afetiva com um elemento da natureza, a lua por exemplo, ou a sebe, ou a giesta [flor do deserto; ndt], que se torna ocasião para escrever um canto sem igual:
E tu, complacente giesta,
Que de bosques perfumados
Estes campos desataviados enfeitas,
Também tu logo à cruel pujança
Sucumbirás do subterrâneo fogo...
Também Martin Heidegger mostra que procede da mesma forma, em um pequeno livro publicado em 1965 e traduzido para o italiano em 1977, Pensamento e poesia.
Quando, no verão, os narcisos florescem e a rosa alpina resplende sob o bordo...
Suntuosidade do que é humilde.
Somente a imagem conserva um rosto.
Repousa portanto a imagem na poesia.
As mulheres são, frequentemente, mestras deste modo afetivo de pensar e se expressar. Maria Zambrano expõe esse sentimento da vida em muitas de suas páginas; em uma delas escreve: “A vida se nos aparece, no instante do despertar, como algo que já está ali e, nesse sentido, é independente de nós e, todavia, invoca a nossa presença. É algo que, acontecendo inicialmente fora de nós, nos invoca para que entremos em seu interior, já que nele há um vão que é apenas nosso, de cada um de nós”. 

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 21 de julho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Por que o ser ao invés do nada?


Por Lorenzo Albacete

Em qual jornal do establishment americano se esperaria encontrar um editorial oficial (portanto, não assinado) intitulado “O Ser de Ser”? Francamente, não me vem em mente nenhum nome. Não é à toa que eu tenha ficado tão surpreso quando encontrei um editorial deste gênero no The New York Times de alguns dias atrás (no dia 21 de maio).
Era realmente surpreendente que o Times estivesse pronto a revelar os pressupostos filosóficos que sustentam a escolha das notícias que os seus redatores consideram “adaptadas ao jornal” (como declara o mote do Times) e o modo com o qual devem ser tratadas.
O editorial começa com esta pergunta: “Por que o ser ao invés do nada?”. Obviamente, esta é a famosa pergunta de Martin Heidegger, tomada de empréstimo de Leibniz, e discutida por ele na famosa conferência sobre “O que é a Metafísica?”. Filósofos de todas as escolas de pensamento trataram da mesma questão, antes e depois de Heidegger. A resposta dada por Heidegger foi criticada, apreciada, rejeitada ou ampliada; a sua formulação foi modificada, porém a maior parte dos filósofos reconheceu que esta é a questão fundamental da filosofia ocidental.
Porém, segundo os redatores do Times, a discussão filosófica sobre a questão foi um perda de tempo, porque são os físicos e os matemáticos que a podem tratar melhor. Isto é o que eles sabem: “A matéria e a antimatéria criadas no Big Bang poderiam ter se cancelado, deixando lugar ao nada, ao invés de algo a que damos o nome de universo. Por que isso não aconteceu pode ser, em parte, explicado pelo que emergiu de um recente experimento realizado com o Tevatron, um acelerador de partículas, no Fermilab de Batávia, Illinois”.
Aparentemente, tudo se fundamenta em um “desvio muito pequeno”, “uma assimetria no comportamento de uma partícula subatômica neutra, o B-meson. Na oscilação entre os seus estados de matéria e antimatéria, ela mostra uma diminuta predileção pelo estado de matéria, um resultado previsto por Andrei Sakharov”.
Bem, fiquei muito contente por esta predileção do B-meson, da qual também compartilho. A única diferença é que a preferência do B-meson pela sobrevivência como matéria parece muito pequena, cerca de 1,1%, enquanto que a minha é de 100%! Os cientistas, todavia, creem que esta predileção de 1,1%, quase um curioso capricho, possa ser suficiente para explicar a preponderância da matéria. Os pesquisadores esperam descobrir mais sobre a questão a partir do Tevatron e do seu parente europeu, o Large Hadron Collider.
Quais são, então, as consequências antropológicas da pequena preferência do B-meson pela existência material? O que é o homem, segundo a interpretação que o The New York Times dá do significado destes experimentos?
Simplesmente isso: “Somos, como sabemos, feitos de poeira estelar e de outros elementos que se formaram a partir do Big Bang e das sucessivas criações e destruições de estrelas. A existência mesma do que, no universo, chamamos matéria pode depender de um pequeno desvio na variação frenética de uma partícula, que só se revela em um instante, em meio a um calor nunca criado pelo homem”.
Este juízo não é, seguramente, surpreendente, visto ser o resultado da perigosa redução da humanidade apenas àquilo que pode ser observado, descrito e reproduzido de modo empírico. Os físicos estão preocupados com as implicações desta redução há muito tempo. Lembro da conversa entre Werner Heisenberg e outros físicos importantes, “pais” da mecânica quântica.
A conclusão de Heisenberg é que, quando se apaga totalmente a “bússola magnética” que devemos seguir na busca do nosso caminho através da vida (na fidelidade àquela “ordem central” que define a racionalidade do universo), “coisas terríveis podem acontecer, que superam de longe os campos de concentração e a bomba atômica”. O editorial do Times reduz esta “ordem central” ao comportamento irracional, observável experimentalmente, de uma partícula elementar.
Segundo a perspectiva da fé católica, há nesse editorial uma observação que sugere o caminho a seguir, ainda que o redator não se tenha dado conta. É o comentário de que a pergunta de Heidegger é a pergunta de uma criança. De fato, é apenas através da simplicidade e da admiração de uma criança que podemos experimentar aquela ordem central chamada pelo Evangelista João de o “Logos”, que, depois, se tornou uma criança humana.

* Extraído de IlSussidiario.net, do dia 26 de maio de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.