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domingo, 4 de março de 2012

A Quaresma com os santos

As interrogações mais profundas do gênero humano

Da Constituição pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo de hoje, do Concílio Vaticano II (Séc.XX)
(N.9-10)

O mundo moderno apresenta-se simultaneamente poderoso e fraco, capaz do melhor e do pior; abre-se diante dele o caminho da liberdade ou da escravidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade e do ódio. Por outro lado, o homem toma consciência de que depende dele a boa orientação das forças por ele despertadas e que podem oprimi-lo ou servi-lo. Eis por que se interroga a si mesmo. Na verdade, os desequilíbrios que atormentam o mundo moderno estão ligados a um desequilíbrio mais profundo, que se enraíza no coração do homem. No íntimo do próprio homem, muitos elementos lutam entre si. De um lado, ele experimenta, como criatura, suas múltiplas limitações; por outro, sente-se ilimitado em seus desejos e chamado a uma vida superior. Atraído por muitas solicitações, é continuamente obrigado a escolher e a renunciar. Mais ainda: fraco e pecador, faz muitas vezes o que não quer e não faz o que desejaria. Em suma, é em si mesmo que o homem sofre a divisão que dá origem a tantas e tão grandes discórdias na sociedade. Muitos, sem dúvida, que levam uma vida impregnada de materialismo prático, não podem ter uma clara percepção desta situação dramática; ou, oprimidos pela miséria, sentem-se incapazes de prestar-lhe atenção. Outros, em grande número, julgam encontrar satisfação nas diversas interpretações da realidade que lhes são propostas. Alguns, porém, esperam unicamente do esforço humano a verdadeira e plena libertação da humanidade, e estão persuadidos de que o futuro domínio do homem sobre a terra dará satisfação a todos os desejos de seu coração. Não faltam também os que, desesperando de encontrar o sentido da vida, louvam a audácia daqueles que, julgando a existência humana vazia de qualquer significado próprio, se esforçam por encontrar todo o seu valor apoiando-se apenas no próprio esforço. Contudo, diante da atual evolução do mundo, cresce o número daqueles que formulam as questões mais fundamentais ou as percebem com nova acuidade. Que é o homem? Qual é o sentido do sofrimento, do mal e da morte que, apesar de tão grandes progressos, continuam a existir? Para que servem semelhantes vitórias,  conseguidas a tanto custo? Que pode o homem dar à sociedade e dela esperar? Que haverá depois desta vida terrestre? A Igreja, porém, acredita que Jesus Cristo, morto e ressuscitado por todo o gênero humano, oferece ao homem, pelo Espírito Santo, luz e forças que lhe permitirão corresponder à sua vocação suprema; ela crê que não há debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual possam ser salvos. Crê igualmente que a chave, o centro e o fim de toda a história humana encontra-se em seu Senhor e Mestre. A Igreja afirma, além disso, que, subjacente a todas as transformações, permanecem imutáveis muitas coisas que têm seu fundamento último em Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Porta fidei


Carta Apostólica
sob forma de Motu Proprio
Porta fidei
Do Sumo Pontífice
Bento XVI
com a qual se proclama o Ano da Fé.

1. A PORTA DA FÉ (cf. At 14, 27), que introduz na vida de comunhão com Deus e permite a entrada na Sua Igreja, está sempre aberta para nós. É possível cruzar este limiar, quando a Palavra de Deus é anunciada e o coração se deixa plasmar pela graça que transforma. Atravessar esta porta implica embrenhar-se em um caminho que dura a vida inteira. Este caminho tem início no Batismo (cf. Rm 6, 4), pelo qual podemos nos dirigir a Deus com o nome de Pai, e se conclui com a passagem através da morte para a vida eterna, fruto da ressurreição do Senhor Jesus, que, com o dom do Espírito Santo, quis fazer participantes da Sua própria glória aqueles que creem nEle (cf. Jo 17, 22). Professar a fé na Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – equivale a crer num só Deus que é Amor (cf. 1Jo 4, 8): o Pai, que na plenitude dos tempos enviou seu Filho para a nossa salvação; Jesus Cristo, que redimiu o mundo no mistério da Sua morte e ressurreição; o Espírito Santo, que guia a Igreja através dos séculos enquanto aguarda o regresso glorioso do Senhor.
2. Desde o princípio do meu ministério como Sucessor de Pedro, lembrei a necessidade de redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo. Durante a homilia da Santa Missa no início do pontificado, disse: “A Igreja no seu conjunto, e os Pastores nela, como Cristo devem pôr-se a caminho para conduzir os homens para fora do deserto, para lugares de vida, de amizade com o Filho de Deus, para Aquele que dá a vida, a vida em plenitude” [1]. Acontece não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Ora, tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado [2]. Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes setores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas.
3. Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique escondida (cf. Mt 5, 13-16). O homem contemporâneo também pode sentir de novo a necessidade de ir como a samaritana ao poço, para ouvir Jesus que convida a crer nEle e a beber na Sua fonte, de onde jorra água viva (cf. Jo 4, 14). Devemos readquirir o gosto de nos alimentar da Palavra de Deus, transmitida fielmente pela Igreja, e do Pão da vida, oferecidos como sustento daqueles que são Seus discípulos (cf. Jo 6, 51). De fato, em nossos dias ressoa ainda, com a mesma força, este ensinamento de Jesus: “Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna” (Jo 6, 27). E a questão, então posta por aqueles que O escutavam, é a mesma que colocamos nós também hoje: “Que havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?” (Jo 6, 28). Conhecemos a resposta de Jesus: “A obra de Deus é esta: crer nAquele que Ele enviou” (Jo 6, 29). Por isso, crer em Jesus Cristo é o caminho para se poder chegar definitivamente à salvação.
4. À luz de tudo isto, decidi proclamar um Ano da Fé. Este terá início a 11 de outubro de 2012, no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, e terminará na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, a 24 de novembro de 2013. Na referida data de 11 de outubro de 2012, completar-se-ão também vinte anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica, texto promulgado pelo meu Predecessor, o Beato Papa João Paulo II [3], com o objetivo de ilustrar a todos os fiéis a força e a beleza da fé. Esta obra, verdadeiro fruto do Concílio Vaticano II, foi desejada pelo Sínodo Extraordinário dos Bispos de 1985 como instrumento ao serviço da catequese [4] e foi realizado com a colaboração de todo o episcopado da Igreja Católica. E uma Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos foi convocada por mim, precisamente para o mês de outubro de 2012, tendo por tema A nova evangelização para a transmissão da fé cristã. Será uma ocasião propícia para introduzir o complexo eclesial inteiro num tempo de particular reflexão e redescoberta da fé. Não é a primeira vez que a Igreja é chamada a celebrar um Ano da Fé. O meu venerado Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI, proclamou um ano semelhante, em 1967, para comemorar o martírio dos apóstolos Pedro e Paulo no décimo nono centenário do seu supremo testemunho. Idealizou-o como um momento solene, para que houvesse, em toda a Igreja, “uma autêntica e sincera profissão da mesma fé”; quis ainda que esta fosse confirmada de maneira “individual e coletiva, livre e consciente, interior e exterior, humilde e franca” [5]. Pensava que a Igreja poderia assim retomar “exata consciência da sua fé para a reavivar, purificar, confirmar, confessar” [6]. As grandes convulsões, que se verificaram naquele Ano, tornaram ainda mais evidente a necessidade de uma celebração como tal. Esta terminou com a Profissão de Fé do Povo de Deus [7], para atestar como os conteúdos essenciais, que há séculos constituem o patrimônio de todos os crentes, necessitam de ser confirmados, compreendidos e aprofundados de maneira sempre nova para se dar testemunho coerente deles em condições históricas diversas das do passado.
5. Sob alguns aspectos, o meu venerado Predecessor viu este Ano como uma “consequência e exigência pós-conciliar” [8], bem ciente das graves dificuldades daquele tempo sobretudo no que se referia à profissão da verdadeira fé e da sua reta interpretação. Pareceu-me que fazer coincidir o início do Ano da Fé com o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II poderia ser uma ocasião propícia para compreender que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato João Paulo II, “não perdem o seu valor nem a sua beleza. É necessário fazê-los ler de forma tal que possam ser conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magistério, no âmbito da Tradição da Igreja. Sinto hoje ainda mais intensamente o dever de indicar o Concílio como a grande graça de que se beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa” [9]. Quero aqui repetir com veemência as palavras que disse a propósito do Concílio poucos meses depois da minha eleição para Sucessor de Pedro: “Se o lermos e recebermos guiados por uma justa hermenêutica, o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja” [10].
6. A renovação da Igreja realiza-se também através do testemunho prestado pela vida dos crentes: de fato, os cristãos são chamados a fazer brilhar, com a sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou. O próprio Concílio, na Constituição dogmática Lumen gentium, afirma: “Enquanto Cristo ‘santo, inocente, imaculado’ (Hb 7, 26), não conheceu o pecado (cf. 2Cor 5, 21), mas veio apenas expiar os pecados do povo (cf. Hb 2, 17), a Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação. A Igreja ‘prossegue a sua peregrinação no meio das perseguições do mundo e das consolações de Deus’, anunciando a cruz e a morte do Senhor até que Ele venha (cf. 1Cor 11, 26). Mas é robustecida pela força do Senhor ressuscitado, de modo a vencer, pela paciência e pela caridade, as suas aflições e dificuldades tanto internas como externas, e a revelar, velada mas fielmente, o seu mistério, até que por fim se manifeste em plena luz” [11].
Nesta perspectiva, o Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo. No mistério da Sua morte e ressurreição, Deus revelou plenamente o Amor que salva e chama os homens à conversão de vida por meio da remissão dos pecados (cf. At 5, 31). Para o apóstolo Paulo, este amor introduz o homem em uma vida nova: “Pelo Batismo fomos sepultados com Ele na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos em uma vida nova” (Rm 6, 4). Em virtude da fé, esta vida nova plasma toda a existência humana segundo a novidade radical da ressurreição. Na medida da sua livre disponibilidade, os pensamentos e os afetos, a mentalidade e o comportamento do homem vão sendo pouco a pouco purificados e transformados, ao longo de um itinerário jamais completamente terminado nesta vida. A “fé, que atua pelo amor” (Gl 5, 6), torna-se um novo critério de entendimento e de ação, que muda toda a vida do homem (cf. Rm 12, 2; Cl 3, 9-10; Ef 4, 20-29; 2Cor 5, 17).
7. “Caritas Christi urget nos – o amor de Cristo nos impele” (2Cor 5, 14): é o amor de Cristo que enche os nossos corações e nos impele a evangelizar. Hoje, como outrora, Ele envia-nos pelas estradas do mundo para proclamar o Seu Evangelho a todos os povos da terra (cf. Mt 28, 19). Com o Seu amor, Jesus Cristo atrai a Si os homens de cada geração: em todo o tempo, Ele convoca a Igreja confiando-lhe o anúncio do Evangelho, com um mandato que é sempre novo. Por isso, também hoje é necessário um empenho eclesial mais convicto a favor de uma nova evangelização, para descobrir de novo a alegria de crer e reencontrar o entusiasmo de comunicar a fé. Na descoberta diária do Seu amor, ganha força e vigor o compromisso missionário dos crentes, que jamais pode faltar. Com efeito, a fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria. A fé torna-nos fecundos, porque alarga o coração com a esperança e permite oferecer um testemunho que é capaz de gerar: de fato, abre o coração e a mente dos ouvintes para acolherem o convite do Senhor a aderir à Sua Palavra a fim de se tornarem Seus discípulos. Os crentes – atesta Santo Agostinho – “fortificam-se acreditando” [12]. O Santo Bispo de Hipona tinha boas razões para falar assim. Como sabemos, a sua vida foi uma busca contínua da beleza da fé enquanto o seu coração não encontrou descanso em Deus [13]. Os seus numerosos escritos, onde se explica a importância de crer e a verdade da fé, permaneceram até aos nossos dias como um patrimônio de riqueza incomparável e consentem ainda que tantas pessoas à procura de Deus encontrem o justo percurso para chegar à “porta da fé”.
Por conseguinte, só acreditando é que a fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a sua origem em Deus.
8. Nesta feliz ocorrência, pretendo convidar os Irmãos Bispos de todo o mundo para que se unam ao Sucessor de Pedro, no tempo de graça espiritual que o Senhor nos oferece, a fim de comemorar o dom precioso da fé. Queremos celebrar este Ano de forma digna e fecunda. Deverá intensificar-se a reflexão sobre a fé, para ajudar todos os crentes em Cristo a se tornarem mais conscientes e a revigorarem a sua adesão ao Evangelho, sobretudo em um momento de profunda mudança como este que a humanidade está vivendo. Teremos oportunidade de confessar a fé no Senhor Ressuscitado nas nossas catedrais e nas igrejas do mundo inteiro, nas nossas casas e no meio das nossas famílias, para que cada um sinta fortemente a exigência de conhecer melhor e de transmitir às gerações futuras a fé de sempre. Neste Ano, tanto as comunidades religiosas como as comunidades paroquiais e todas as realidades eclesiais, antigas e novas, encontrarão forma de fazer publicamente profissão do Credo.
9. Desejamos que este Ano suscite, em cada crente, o anseio de confessar a fé plenamente e com renovada convicção, com confiança e esperança. Será uma ocasião propícia também para intensificar a celebração da fé na liturgia, particularmente na Eucaristia, que é “a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força” [14]. Simultaneamente esperamos que o testemunho de vida dos crentes cresça na sua credibilidade. Descobrir novamente os conteúdos da fé professada, celebrada, vivida e rezada [15] e refletir sobre o próprio ato com que se crê, é um compromisso que cada crente deve assumir, sobretudo neste Ano.
Não foi sem razão que, nos primeiros séculos, os cristãos eram obrigados a aprender de memória o Credo. É que este lhes servia de oração diária, para não esquecerem o compromisso assumido com o Batismo. Recorda-o, com palavras densas de significado, Santo Agostinho quando afirma numa homilia sobre a redditio symboli (a entrega do Credo): “O símbolo do santo mistério, que recebestes todos juntos e que hoje proferistes um a um, reúne as palavras sobre as quais está edificada com solidez a fé da Igreja, nossa Mãe, apoiada no alicerce seguro que é Cristo Senhor. E vós o recebestes e proferistes, mas deveis tê-lo sempre presente na mente e no coração, deveis repeti-lo nos vossos leitos, pensar nele nas praças e não o esquecer durante as refeições; e, mesmo quando o corpo dorme, o vosso coração continue de vigília por ele” [16].
10. Queria agora delinear um percurso que ajude a compreender de maneira mais profunda os conteúdos da fé e, juntamente com eles, também o ato pelo qual decidimos, com plena liberdade, entregar-nos totalmente a Deus. Com efeito, existe uma unidade profunda entre o ato com que se crê e os conteúdos a que damos o nosso assentimento. O apóstolo Paulo permite entrar nesta realidade quando escreve: “Acredita-se com o coração e, com a boca, faz-se a profissão de fé” (Rm 10, 10). O coração indica que o primeiro ato, pelo qual se chega à fé, é dom de Deus e ação da graça que age e transforma a pessoa até ao mais íntimo dela mesma.
A este respeito é muito eloquente o exemplo de Lídia. Narra São Lucas que o apóstolo Paulo, encontrando-se em Filipos, num sábado foi anunciar o Evangelho a algumas mulheres; entre elas, estava Lídia. “O Senhor abriu-lhe o coração para aderir ao que Paulo dizia” (At 16, 14). O sentido contido na expressão é importante. São Lucas ensina que o conhecimento dos conteúdos que se deve acreditar não é suficiente, se depois o coração – autêntico sacrário da pessoa – não for aberto pela graça, que consente ter olhos para ver em profundidade e compreender que o que foi anunciado é a Palavra de Deus.
Por sua vez, o professar com a boca indica que a fé implica um testemunho e um compromisso públicos. O cristão não pode jamais pensar que o crer seja um fato privado. A fé é decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. E este “estar com Ele” introduz na compreensão das razões pelas quais se acredita. A fé, precisamente porque é um ato da liberdade, exige também assumir a responsabilidade social daquilo que se acredita. No dia de Pentecostes, a Igreja manifesta, com toda a clareza, esta dimensão pública do crer e do anunciar sem temor a própria fé a toda as pessoas. É o dom do Espírito Santo que prepara para a missão e fortalece o nosso testemunho, tornando-o franco e corajoso.
A própria profissão da fé é um ato simultaneamente pessoal e comunitário. De fato, o primeiro sujeito da fé é a Igreja. É na fé da comunidade cristã que cada um recebe o Batismo, sinal eficaz da entrada no povo dos crentes para obter a salvação. Como atesta o Catecismo da Igreja Católica, “‘Eu creio’: é a fé da Igreja, professada pessoalmente por cada crente, principalmente por ocasião do Batismo. ‘Nós cremos’: é a fé da Igreja, confessada pelos bispos reunidos em Concílio ou, de modo mais geral, pela assembleia litúrgica dos crentes. ‘Eu creio’: é também a Igreja, nossa Mãe, que responde a Deus pela sua fé e nos ensina a dizer: ‘Eu creio’, ‘Nós cremos’” [17].
Como se pode notar, o conhecimento dos conteúdos de fé é essencial para se dar o próprio assentimento, isto é, para aderir plenamente com a inteligência e a vontade ao que é proposto pela Igreja. O conhecimento da fé introduz na totalidade do mistério salvífico revelado por Deus. Por isso, o assentimento prestado implica que, quando se acredita, se aceita livremente todo o mistério da fé, porque a garantia da sua verdade é o próprio Deus, que Se revela e permite conhecer o Seu mistério de amor [18].
Por outro lado, não podemos esquecer que, no nosso contexto cultural, há muitas pessoas que, embora não reconhecendo em si mesmas o dom da fé, todavia vivem uma busca sincera do sentido último e da verdade definitiva acerca da sua existência e do mundo. Esta busca é um verdadeiro “preâmbulo” da fé, porque move as pessoas pela estrada que conduz ao mistério de Deus. Com efeito, a própria razão do homem traz inscrita em si mesma a exigência “daquilo que vale e permanece sempre” [19]. Esta exigência constitui um convite permanente, inscrito indelevelmente no coração humano, para caminhar ao encontro dAquele que não teríamos procurado se Ele mesmo não tivesse já vindo ao nosso encontro [20]. É precisamente a este encontro que nos convida e abre plenamente a fé.
11. Para chegar a um conhecimento sistemático da fé, todos podem encontrar um subsídio precioso e indispensável no Catecismo da Igreja Católica. Este constitui um dos frutos mais importantes do Concílio Vaticano II. Na Constituição apostólica Fidei depositum – não sem razão assinada na passagem do trigésimo aniversário da abertura do Concílio Vaticano II – o Beato João Paulo II escrevia: “Este catecismo dará um contributo muito importante à obra de renovação de toda a vida eclesial (...). Declaro-o norma segura para o ensino da fé e, por isso, instrumento válido e legítimo ao serviço da comunhão eclesial” [21].
É precisamente nesta linha que o Ano da Fé deverá exprimir um esforço generalizado em prol da redescoberta e do estudo dos conteúdos fundamentais da fé, que têm no Catecismo da Igreja Católica a sua síntese sistemática e orgânica. Nele, de fato, sobressai a riqueza de doutrina que a Igreja acolheu, guardou e ofereceu durante os seus dois mil anos de história. Desde a Sagrada Escritura aos Padres da Igreja, desde os Mestres de teologia aos Santos que atravessaram os séculos, o Catecismo oferece uma memória permanente dos inúmeros modos em que a Igreja meditou sobre a fé e progrediu na doutrina para dar certeza aos crentes na sua vida de fé.
Na sua própria estrutura, o Catecismo da Igreja Católica apresenta o desenvolvimento da fé até chegar aos grandes temas da vida diária. Repassando as páginas, descobre-se que o que ali se apresenta não é uma teoria, mas o encontro com uma Pessoa que vive na Igreja. Na verdade, em seguida à profissão de fé, vem a explicação da vida sacramental, na qual Cristo está presente e operante, continuando a construir a Sua Igreja. Sem a liturgia e os sacramentos, a profissão de fé não seria eficaz, porque faltaria a graça que sustenta o testemunho dos cristãos. Na mesma linha, a doutrina do Catecismo sobre a vida moral adquire todo o seu significado, se for colocada em relação com a fé, a liturgia e a oração.
12. Assim, no Ano em questão, o Catecismo da Igreja Católica poderá ser um verdadeiro instrumento de apoio da fé, sobretudo para os que se comprometem com a formação dos cristãos, tão determinante no nosso contexto cultural. Com tal finalidade, convidei a Congregação para a Doutrina da Fé a redigir, de comum acordo com os competentes Organismos da Santa Sé, uma Nota, através da qual se ofereçam à Igreja e aos crentes algumas indicações para viver, nos moldes mais eficazes e apropriados, este Ano da Fé ao serviço do crer e do evangelizar.
De fato, em nossos dias mais do que no passado, a fé vê-se sujeita a uma série de interrogações, que provêm de uma mentalidade diversa que, hoje de uma forma particular, reduz o âmbito das certezas racionais ao das conquistas científicas e tecnológicas. Mas, a Igreja nunca teve medo de mostrar que não é possível haver qualquer conflito entre fé e ciência autêntica, porque ambas, embora por caminhos diferentes, tendem para a verdade [22].
13. Será decisivo repassar, durante este Ano, a história da nossa fé, que faz ver o mistério insondável da santidade entrelaçada com o pecado. Enquanto a primeira põe em evidência a grande contribuição que homens e mulheres prestaram para o crescimento e o progresso da comunidade com o testemunho da sua vida, o segundo deve provocar em todos uma sincera e contínua obra de conversão para experimentar a misericórdia do Pai, que vem ao encontro de todos.
Ao longo deste tempo, manteremos o olhar fixo sobre Jesus Cristo, “autor e consumador da fé” (Hb 12, 2): nEle encontra plena realização toda a ânsia e aspiração do coração humano. A alegria do amor, a resposta ao drama da tribulação e do sofrimento, a força do perdão face à ofensa recebida e a vitória da vida sobre o vazio da morte, tudo isto encontra plena realização no mistério da Sua Encarnação, do Seu fazer-Se homem, do partilhar conosco a fragilidade humana para a transformar com a força da Sua ressurreição. NEle, morto e ressuscitado para a nossa salvação, encontram plena luz os exemplos de fé que marcaram estes dois mil anos da nossa história de salvação.
Pela fé, Maria acolheu a palavra do Anjo e acreditou no anúncio de que seria Mãe de Deus na obediência da sua dedicação (cf. Lc 1, 38). Ao visitar Isabel, elevou o seu cântico de louvor ao Altíssimo pelas maravilhas que realizava naqueles que a Ele se confiavam (cf. Lc 1, 46-55). Com alegria e tremor, deu à luz o seu Filho unigênito, mantendo intacta a sua virgindade (cf. Lc 2, 6-7). Confiando em José, seu Esposo, levou Jesus para o Egito a fim de salvá-Lo da perseguição de Herodes (cf. Mt 2, 13-15). Com a mesma fé, seguiu o Senhor na Sua pregação e permaneceu ao Seu lado mesmo no Gólgota (cf. Jo 19, 25-27). Com fé, Maria saboreou os frutos da ressurreição de Jesus e, conservando no coração a memória de tudo (cf. Lc 2, 19.51), transmitiu-a aos Doze reunidos com Ela no Cenáculo para receberem o Espírito Santo (cf. At 1, 14; At 2, 1-4).
Pela fé, os Apóstolos deixaram tudo para seguir o Mestre (cf. Mc 10, 28). Acreditaram nas palavras com que Ele anunciava o Reino de Deus presente e realizado na Sua Pessoa (cf. Lc 11, 20). Viveram em comunhão de vida com Jesus, que os instruía com a Sua doutrina, deixando-lhes uma nova regra de vida pela qual haveriam de ser reconhecidos como Seus discípulos depois da morte dEle (cf. Jo 13, 34-35). Pela fé, foram pelo mundo inteiro, obedecendo ao mandato de levar o Evangelho a toda a criatura (cf. Mc 16, 15) e, sem temor algum, anunciaram a todos a alegria da ressurreição, de que foram fiéis testemunhas.
Pela fé, os discípulos formaram a primeira comunidade reunida em torno do ensinamento dos Apóstolos, na oração, na celebração da Eucaristia, pondo em comum aquilo que possuíam para acudir às necessidades dos irmãos (cf. At 2, 42-47).
Pela fé, os mártires deram a sua vida para testemunhar a verdade do Evangelho que os transformara, tornando-os capazes de chegar até ao dom maior do amor com o perdão dos seus próprios perseguidores.
Pela fé, homens e mulheres consagraram a sua vida a Cristo, deixando tudo para viver em simplicidade evangélica a obediência, a pobreza e a castidade, sinais concretos de quem aguarda o Senhor, que não tarda a vir. Pela fé, muitos cristãos se fizeram promotores de uma ação em prol da justiça, para tornar palpável a palavra do Senhor, que veio anunciar a libertação da opressão e um ano de graça para todos (cf. Lc 4, 18-19).
Pela fé, no correr dos séculos, homens e mulheres de todas as idades, cujos nomes estão escritos no Livro da vida (cf. Ap 7, 9; Ap 13, 8), confessaram a beleza de seguir o Senhor Jesus nos lugares onde eram chamados a dar testemunho do seu ser cristão: na família, na profissão, na vida pública, no exercício dos carismas e ministérios a que foram chamados.
Pela fé, vivemos também nós, reconhecendo o Senhor Jesus vivo e presente na nossa vida e na história.
14. O Ano da Fé será uma ocasião propícia também para intensificar o testemunho da caridade. Recorda São Paulo: “Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade” (1Cor 13, 13). Com palavras ainda mais incisivas – que não cessam de empenhar os cristãos –, afirmava o apóstolo Tiago: “De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento cotidiano, e um de vós lhes disser: ‘Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome’, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta. Mais ainda! Poderá alguém alegar sensatamente: ‘Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé’” (Tg 2, 14-18). 
A fé sem a caridade não dá fruto, e a caridade sem a fé seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida. Fé e caridade reclamam-se mutuamente, de tal modo que uma consente à outra realizar o seu caminho. De fato, não poucos cristãos dedicam amorosamente a sua vida a quem vive sozinho, marginalizado ou excluído, considerando-o como o primeiro a quem atender e o mais importante a socorrer, porque é precisamente nele que se espelha o próprio rosto de Cristo. Em virtude da fé, podemos reconhecer naqueles que pedem o nosso amor o rosto do Senhor ressuscitado. “Sempre que fizestes isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes” (Mt 25, 40): estas palavras de Jesus são uma advertência que não se deve esquecer e um convite perene a devolvermos aquele amor com que Ele cuida de nós. É a fé que permite reconhecer Cristo, e é o Seu próprio amor que impele a socorrê-Lo sempre que Se faz nosso próximo no caminho da vida. Sustentados pela fé, olhamos com esperança o nosso serviço no mundo, aguardando “novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça” (2Pd 3, 13; cf. Ap 21, 1).
15. Já no termo da sua vida, o apóstolo Paulo pediu ao discípulo Timóteo que “procure a fé” (cf. 2Tm 2, 22) com a mesma constância de quando era novo (cf. 2Tm 3, 15). Sintamos este convite dirigido a cada um de nós, para que ninguém se torne indolente na fé. Esta é companheira de vida, que permite perceber, com um olhar sempre novo, as maravilhas que Deus realiza por nós. Solícita a identificar os sinais dos tempos no hoje da história, a fé obriga cada um de nós a tornar-se sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo. Aquilo de que o mundo tem hoje particular necessidade é o testemunho credível de quantos, iluminados na mente e no coração pela Palavra do Senhor, são capazes de abrir o coração e a mente de muitos outros ao desejo de Deus e da vida verdadeira, aquela que não tem fim.
Que “a Palavra do Senhor avance e seja glorificada” (2Ts 3, 1)! Possa este Ano da Fé tornar cada vez mais firme a relação com Cristo Senhor, dado que só nEle temos a certeza para olhar o futuro e a garantia de um amor autêntico e duradouro. As seguintes palavras do apóstolo Pedro lançam um último jorro de luz sobre a fé: “É por isso que exultais de alegria, se bem que, por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas provações; deste modo, a qualidade genuína da vossa fé – muito mais preciosa do que o ouro perecível, por certo também provado pelo fogo – será achada digna de louvor, de glória e de honra, na altura da manifestação de Jesus Cristo. Sem O terdes visto, vós O amais; sem O ver ainda, credes nEle e vos alegrais com uma alegria indescritível e irradiante, alcançando assim a meta da vossa fé: a salvação das almas” (1Pd 1, 6-9). A vida dos cristãos conhece a experiência da alegria e a do sofrimento. Quantos Santos viveram na solidão! Quantos crentes, mesmo em nossos dias, provados pelo silêncio de Deus, cuja voz consoladora queriam ouvir! As provas da vida, ao mesmo tempo que permitem compreender o mistério da Cruz e participar nos sofrimentos de Cristo (cf. Cl 1, 24) , são prelúdio da alegria e da esperança a que a fé conduz: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12, 10). Com firme certeza, acreditamos que o Senhor Jesus derrotou o mal e a morte. Com esta confiança segura, confiamo-nos a Ele: Ele, presente no meio de nós, vence o poder do maligno (cf. Lc 11, 20); e a Igreja, comunidade visível da sua misericórdia, permanece nEle como sinal da reconciliação definitiva com o Pai.
À Mãe de Deus, proclamada “feliz porque acreditou” (cf. Lc 1, 45), confiamos este tempo de graça.
Dado em Roma, em São Pedro, no dia 11 de outubro do ano 2011, sétimo de Pontificado.

BENEDICTUS PP. XVI

Notas
[1] Homilia no início do ministério petrino do Bispo de Roma (24 de Abril de 2005): AAS 97 (2005), 710.
[2] Cf. Bento XVI, Homilia da Santa Missa no Terreiro do Paço (Lisboa – 11 de Maio de 2010): L’Osservatore Romano (ed. port. de 15/V/2010), 3.
[3] Cf. João Paulo II, Const. ap. Fidei depositum (11 de Outubro de 1992): AAS 86 (1994), 113-118.
[4] Cf. Relação final do Sínodo Extraordinário dos Bispos (7 de Dezembro de 1985), II, B, a, 4: L’Osservatore Romano (ed. port. de 22/XII/1985), 650.
[5] Paulo VI, Exort. ap. Petrum et Paulum Apostolos, no XIX centenário do martírio dos Apóstolos São Pedro e São Paulo (22 de Fevereiro de 1967): AAS 59 (1967), 196.
[6] Ibid.: o.c., 198.
[8] Paulo VI, Audiência Geral (14 de Junho de 1967): Insegnamenti, V (1967), 801.
[9] João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de Janeiro de 2001), 57: AAS 93 (2001), 308.
[10] Discurso à Cúria Romana (22 de Dezembro de 2005): AAS 98 (2006), 52.
[11] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 8.
[12] De utilitate credendi, 1, 2.
[13] Cf. Confissões, 1, 1.
[14] Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 10.
[15] Cf. João Paulo II, Const. ap. Fidei depositum (11 de Outubro de 1992): AAS 86 (1994), 116.
[16] Santo Agostinho, Sermo 215, 1.
[18] Cf. Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, cap. III: DS 3008-3009; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 5.
[19] Bento XVI, Discurso no “Collège des Bernardins” (Paris, 12 de Setembro de 2008): AAS 100 (2008), 722.
[20] Cf. Santo Agostinho, Confissões, 13, 1.
[21] Const. ap. Fidei depositum (11 de Outubro de 1992): AAS 86 (1994), 115 e 117.
[22] Cf. João Paulo II, Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 34.106: AAS 91 (1999), 31-32.86-87.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 11 de outubro de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Igreja deve se "desmundanizar"...



Encontro com os católicos comprometidos com a Igreja e a sociedade

Discurso do Papa Bento XVI 

Freiburg, Konzerthaus
Domingo, 25 de setembro de 2011.

Caros confrades no ministério episcopal e sacerdotal!
Senhoras e Senhores!
Estou feliz com este encontro convosco que sois comprometidos de múltiplas maneiras com a Igreja e a sociedade. Isto me oferece uma ocasião especial para vos agradecer, aqui, pessoalmente, de todo o meu coração, por vosso serviço e vosso testemunho como “valorosos arautos da fé naquelas realidades que esperamos” (Lumen gentium, n. 35). Dessa maneira, o Concílio Vaticano II designa as pessoas que, como vós, se preocupam com o presente e o futuro da fé. No vosso meio de trabalho vós defendeis a causa da vossa fé e da Igreja, como sabemos, o que não é nada fácil nesses tempos atuais.
Há décadas, assistimos a uma diminuição da prática religiosa, constatamos um crescente distanciamento da vida da Igreja por uma parte notável de batizados. Eis então a pergunta: será que, por acaso, a Igreja não deveria mudar? Será que, por acaso, em seus serviços e estruturas, ela não deveria se adaptar ao tempo presente, para alcançar as pessoas de hoje que estão a procura e em dúvida?
Um dia, perguntaram à Beata Madre Teresa de Calcutá qual deveria ser, segundo ela, a primeira coisa a ser modificada na Igreja. Sua resposta foi: você e eu!
Este pequeno episódio evidencia duas coisas. De um lado, a religiosa quer dizer a seu interlocutor que a Igreja não é unicamente os outros, a hierarquia, o Papa e os Bispos; a Igreja somos todos nós: nós, os batizados. Além do mais, ela parte efetivamente do pressuposto: sim, há motivo para uma mudança. Há a necessidade de uma mudança. Cada cristão e a comunidade dos crentes no seu conjunto são chamados a uma conversão contínua.
Como deve se configurar concretamente esta mudança? Será que se trata de uma renovação tal como, por exemplo, o proprietário de uma casa realiza através da reestruturação ou de uma nova pintura de seu imóvel? Ou será que se trata de uma correção, para retornar aos trilhos ou percorrer um caminho de maneira mais alegre e direta? Estes aspectos e outros mais certamente têm sua importância, e não é o caso de levar todos em consideração neste momento. Mas, quanto àquilo que diz respeito ao motivo fundamental da mudança, trata-se de uma missão apostólica dos discípulos e da própria Igreja.
Com efeito, a Igreja sempre deve verificar sua fidelidade a esta missão. Os três evangelhos sinóticos realçam diferentes aspectos do mandato desta missão: a missão se fundamenta, inicialmente, sobre a experiência pessoal – “Vós sois testemunhas” (Lc 24, 48); ela se exprime em relação – “Fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28, 19); ela transmite uma mensagem universal – “Proclamai o Evangelho a toda a criação” (Mc 16, 15). No entanto, por causa das pretensões e dos condicionamentos do mundo, este testemunho é cada vez mais obscurecido, as relações são alienadas e a mensagem é relativizada. Se, logo em seguida, a Igreja, como o diz o Papa Paulo VI, “procura modelar-se em conformidade com o tipo proposto por Cristo, não poderá deixar de distinguir-se profundamente do ambiente humano, em que afinal vive ou do qual se aproxima” (Encíclica Ecclesiam suam, n. 34). Para realizar sua missão, ela deverá continuamente se distanciar de seu meio, se “desmundanizar” por assim dizer.
A missão da Igreja, com efeito, brota do mistério do Deus uno e trino, do mistério de seu amor criador. E o amor não apenas está presente de qualquer forma em Deus: Ele é amor; por Sua natureza, Ele é amor. E o amor divino não quer ser apenas para si, quer se derramar em conformidade com sua natureza. Na encarnação e no sacrifício do Filho de Deus, o amor alcançou a humanidade de maneira particular. E foi da seguinte maneira: o Cristo, o Filho de Deus, saiu da esfera de seu ser Deus, Ele se fez carne e Se tornou homem; e isto não apenas para confirmar o mundo no seu ser terrestre, e partilhar Sua condição que – a deixando imutável – a transforma. Do evento crístico faz parte o fato incompreensível que existe – como dizem os Padres da Igreja – um sacrum commercium, uma troca entre Deus e os homens. Os Padres a explicam desta maneira: não temos nada para dar a Deus, só podemos Lhe apresentar nossos pecados. Ele os aceita e os faz Seus, e Ele nos dá a si mesmo e à Sua glória em troca. Este é, verdadeiramente, um comércio desigual que se desenrola na vida e nos sofrimentos de Cristo. Ele se torna pecador, se encarrega do pecado; Ele toma aquilo que é nosso e nos dá aquilo que é Seu. Mas, continuando a refletir e a viver na fé, torna-se evidente que nós não Lhe damos apenas o pecado, mas que Ele nos autoriza, Ele nos dá uma força interior para Lhe dar igualmente algo positivo: nosso amor Lhe dá, de maneira positiva, a humanidade. É claro, naturalmente, que é somente graças à bondade de Deus, que o homem, o mendigo, recebe a riqueza divina, que Deus pode dar qualquer coisa, que Deus torna nossa oferta aceitável nos tornando capazes de ser, para Ele, oferentes. 
A Igreja se conforma totalmente com este comércio desigual. Ela não possui nada por ela mesma diante dAquele que a fundou, de sorte que ela poderia dizer: Fizemos isto muito bem! Seu sentido consiste em ser um instrumento da redenção, deixar-se penetrar pela palavra de Deus e transformar o mundo introduzindo-o na união de amor com Deus. A Igreja imerge na atenção complacente do Redentor pelos homens. Ela está lá onde ela é ela mesma, sempre em movimento, colocando-se continuamente a serviço da missão, que ela recebeu do Senhor. É por isto que ela deve sempre se abrir às preocupações do mundo – ao qual ela pertence –, consagrar-se sem reservas a estas preocupações, para continuar e tornar presente o comércio sagrado que teve início com a Encarnação.
No entanto, no desenvolvimento histórico da Igreja se manifesta também uma tendência contrária: é a de uma Igreja que se satisfaz consigo mesma, que se instala neste mundo, que é autossuficiente e se adapta aos critérios do mundo. Muito frequentemente, ela dá à organização e à institucionalização uma importância maior do que a seu apelo à abertura para Deus, que tem a esperança do mundo para o outro.
Para corresponder à sua verdadeira tarefa, a Igreja deve sempre se esforçar por se destacar de sua “mundanidade” para se abrir a Deus. Desta forma, ela segue as palavras de Jesus: “Eles não são deste mundo, como eu não sou deste mundo” (Jo 17, 16), e é assim que ela se dá ao mundo. Num certo sentido, a história vem em socorro da Igreja, através dos diversos períodos de secularização, que contribuíram, de modo essencial, para a sua purificação e para a sua reforma interior.
Com efeito, a secularização – que foram a expropriação dos bens da Igreja ou a supressão dos privilégios ou de coisas parecidas – significaram, a cada vez, uma profunda libertação da Igreja das formas de “mundanidade”: ela se despoja, por assim dizer, de sua riqueza terrestre e volta para abraçar plenamente sua pobreza terrestre. Assim, a Igreja partilha o destino da tribo de Levi que, segundo a afirmação do Antigo Testamento, era a única tribo em Israel que não possuía patrimônio terrestre, mas que havia tomado exclusivamente a Deus, Sua palavra e Seus sinais como parte da herança. Como esta tribo, a Igreja partilhava nesses momentos históricos a exigência de uma pobreza que se abria para o mundo, para se desligar de seus vínculos materiais, e assim seu agir missionário voltava a ser igualmente credível. 
Os exemplos históricos mostram que o testemunho missionário de uma Igreja “desmundanizada” é mais claro. Libertada do fardo e dos privilégios materiais e políticos, a Igreja pode se consagrar melhor e de maneira verdadeiramente cristã ao mundo inteiro; ela pode ser verdadeiramente aberta ao mundo. Ela pode, de novo, viver com mais facilidade seu chamado ao ministério de adoração a Deus e de serviço ao próximo. A tarefa missionária que está ligada à adoração cristã, e que deveria determinar a estrutura da Igreja, se torna visível mais claramente. A Igreja se abre ao mundo não para obter a adesão dos homens a uma instituição com suas próprias pretensões de poder, mas para fazê-los entrar em si mesmos e, dessa maneira, conduzi-los Àquele de quem todas as pessoas podem dizer com Agostinho: Ele é mais íntimo de mim do que eu mesmo (cf. Conf. 3, 6, 11). Ele, que é infinitamente acima de mim, está de tal forma em mim até ao ponto de ser a minha verdadeira interioridade. Por este estilo de abertura da Igreja ao mundo, é traçada, ao mesmo tempo, a forma na qual a abertura para o mundo por parte de cada cristão pode se realizar de maneira eficaz e apropriada.
Não se trata, aqui, de encontrar uma nova estratégia para ressuscitar a Igreja. Trata-se muito mais de deixar de lado tudo aquilo que é unicamente tático, e buscar a plena sinceridade, que não negligencia nem reprime nada da verdade de nosso hoje, mas que a realiza plenamente no hoje, vivendo-a justamente, totalmente na sobriedade do hoje, levando-a à sua plena identidade, tirando dela aquilo que é somente aparência de fé, mas que, na verdade, é apenas convenção e hábito.
Digamos com outras palavras: a fé cristã é sempre, para o homem, um escândalo, e isto não é apenas no nosso tempo. Que o Deus eterno se preocupe conosco, seres humanos, que Ele nos conheça; que o Inapreensível tenha se tornado, num determinado momento, apreensível; que o Imortal tenha sofrido e morrido numa cruz; que para nós, seres mortais, sejam prometidas a ressurreição e a vida eterna – acreditar em tudo isto é, para os homens, uma verdadeira exigência. 
Este escândalo, que não pode ser abolido se não se quiser abolir o cristianismo, foi, infelizmente, colocado à sombra, recentemente, por outros escândalos dolorosos que envolveram os anunciadores da fé. Uma situação perigosa é criada quando esses escândalos tomam o lugar do skandalon primeiro da Cruz e, desta forma, o tornam inacessível, quer dizer, quando eles escondem a verdadeira exigência cristã por trás da inadequação de seus mensageiros.
Há uma razão a mais para acreditar novamente atual a retomada da verdadeira “desmundanização”, de arrancar corajosamente aquilo que há de “mundano” da Igreja. Naturalmente, isto não significa se retirar do mundo, muito pelo contrário. Uma Igreja aliviada dos elementos “mundanos” é capaz de comunicar aos homens – àqueles que sofrem e àqueles que os ajudam – justamente também na esfera sócio-caritativa, a força vital particular da fé cristã. “A caridade não é, para a Igreja, uma espécie de atividade de assistência social que se poderia também deixar para outras pessoas, mas ela pertence à sua natureza mesma, ela é uma expressão de sua essência, à qual ela não pode renunciar” (Deus caritas est, n. 25). Certamente, as obras caritativas da Igreja devem também continuamente prestar atenção às exigências de um distanciamento apropriado do mundo para evitar que, diante de um afastamento crescente da Igreja, suas raízes não sequem. Somente a relação profunda com Deus torna possível uma plena atenção ao homem, da mesma forma que sem a atenção ao próximo a relação com Deus empobrece.
Ser abertos aos acontecimentos do mundo significa, portanto, para a Igreja “desmundanizada”, testemunhar, segundo o Evangelho, o domínio do amor de Deus, em palavras e ações, aqui e agora. E além do mais, esta tarefa vai para além do mundo presente. Com efeito, a vida presente inclui o vínculo com a vida eterna. Como indivíduos, e como comunidade da Igreja, vivemos a simplicidade de um grande amor que, no mundo, é ao mesmo tempo a coisa mais fácil e a mais difícil, porque ela exige nada mais nada menos do que o dom de si mesmo.
Caros amigos, resta-me apenas implorar para nós todos a bênção de Deus e a força do Espírito Santo, para que possamos, cada um no seu próprio campo de ação, reconhecer sempre outra vez o amor de Deus e Sua misericórdia e testemunhar isso. Agradeço-vos a atenção.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 25 de setembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Que na Universidade haja uma autêntica paixão pela Verdade...

Discurso do Santo Padre Bento XVI
aos dirigentes, docentes e estudantes
da Universidade Católico do Sagrado Coração

Aula Paulo VI
Sábado, 21 de maio de 2011

Senhores Cardeais,
Magnífico Reitor, ilustres Docentes,
Distintos representantes do pessoal,
Caros estudantes!
Estou muito feliz de poder ter este encontro com vós que formais a grande família da Universidade Católica do Sagrado Coração, nascida há noventa anos sob a iniciativa do Instituto Giuseppe Toniolo de Estudos Superiores, entidade fundadora e garantidora do Ateneu, pela feliz intuição de Padre Agostino Gemelli. Agradeço ao Cardeal Tettamanzi e ao Prof. Ornaghi, pelas calorosas palavras que me dirigiram em nome de todos.
O nosso tempo é um tempo de grandes e rápidas transformações, que se refletem também sobre a vida universitária: a cultura humanista parece atingida por um progressivo desgaste, enquanto se acentua o valor das disciplinas ditas “produtivas”, de âmbito tecnológico e econômico; esbarramos com a tendência a reduzir o horizonte humano ao nível daquilo que é mensurável, a eliminar do saber sistemático e crítico a questão fundamental sobre o sentido. A cultura contemporânea, por isso, tende a confinar a religião fora dos espaços da racionalidade: na medida em que as ciências empíricas monopolizam os territórios da razão, não parece haver mais espaço para as razões do crer, de forma que a dimensão religiosa é relegada à esfera da opinião e do privado. Neste contexto, as motivações e as características mesmas da instituição universitária são radicalmente questionadas.
Noventa anos depois de sua fundação, a Universidade Católica do Sagrado Coração se encontra vivendo esta virada histórica, na qual é importante consolidar e incrementar as razões pelas quais nasceu, levando àquela conotação eclesial que é evidenciada pelo adjetivo “católica”; a Igreja, de fato, “especialista em humanidade”, é promotora de humanismo autêntico. Emerge, nesta perspectiva, a vocação original da Universidade, nascida da busca pela verdade, de toda a verdade, de toda a verdade do nosso ser. E com a sua obediência à verdade e às exigências do seu conhecimento ela se torna escola de humanitas na qual se cultiva um saber vital, se forjam personalidades fortes e se transmitem conhecimentos e competências de valor. A perspectiva cristã, como quadro do trabalho intelectual da Universidade, não se contrapõe ao saber científico e às conquistas da engenhosidade humana, mas, pelo contrário, a fé alarga o horizonte do nosso pensamento, é caminho para a verdade plena, guia de autêntico desenvolvimento. Sem orientação para a verdade, sem uma postura de procura humilde e audaz, toda cultura se desfaz, decai no relativismo e se perde no efêmero. Tirada, pelo contrário, das garras de um reducionismo que a mortifica e a circunscreve, pode se abrir a uma interpretação verdadeiramente iluminada do real, desempenhando assim um autêntico serviço para a vida.
Caros amigos, fé e cultura são grandezas indissoluvelmente ligadas, manifestações daquele desiderium naturale videndi Deum que está presente em todo homem. Quando esta união se quebra, a humanidade tende a dobrar-se e fechar-se sobre suas próprias capacidades criativas. É necessário, então, que na Universidade haja uma autêntica paixão pela questão do Absoluto, a Verdade mesma, e portanto também pelo saber teológico, que no vosso Ateneu é parte integrante do currículo. Unindo em si a audácia da pesquisa e a paciência do amadurecimento, o horizonte teológico pode e deve valorizar todos os recursos da razão. A questão da Verdade e do Absoluto – a questão de Deus – não é uma investigação abstrata, separada da realidade do cotidiano, mas é a pergunta crucial, da qual depende radicalmente a descoberta de sentido do mundo e da vida. No Evangelho se funda uma concepção do mundo e do homem que não cessa de desencadear significados culturais, humanistas e éticos. O saber da fé, portanto, ilumina a pesquisa do homem, a interpreta humanizando-a, a integra em projetos de bem, arrancando-a da tentação do pensamento calculador, que instrumentaliza o saber e faz das descobertas científicas meios de poder e de escravização do homem.
O horizonte que anima o trabalho universitário pode e deve ser a paixão autêntica pelo homem. Somente no serviço ao homem a ciência se desenvolve como verdadeiro cultivo e custódia do universo. E servir ao homem é fazer a verdade na caridade, é amar a vida, respeitá-la sempre, a começar das situações nas quais ela é mais frágil e indefesa. É esta a nossa tarefa, especialmente nos tempos de crise: a história da cultura mostra como a dignidade do homem foi reconhecida verdadeiramente na sua integralidade à luz da fé cristã. A Universidade Católica é chamada a ser lugar no qual toma forma de excelência aquela abertura ao saber, aquela paixão pela verdade, aquele interesse pela história do homem caracterizam a autêntica espiritualidade cristã. De fato, colocar-se numa postura de fechamento ou de distanciamento diante da perspectiva da fé significa esquecer que ela foi ao longo da história, e o é ainda, fermento de cultura e luz para a inteligência, estímulo para que se desenvolvessem todas as suas potencialidades positivas para o bem autêntico do homem. Como afirma o Concílio Vaticano II, a fé é capaz de dar luz à existência. Diz o Concílio que a fé “vê todas as coisas sob um luz nova, e revela as intenções de Deus sobre a vocação integral do homem, e por isso guia a inteligência para soluções plenamente humanas” (Gaudium et spes, 11).
A Universidade Católica é lugar no qual isto deve acontecer com eficácia singular, sob o perfil seja científico, seja didático. Este peculiar serviço para a Verdade é dom de graça e expressão qualificante de caridade evangélica. A atestação da fé e o testemunho da caridade são incindíveis (cf. 1Jo 3, 23). O núcleo profundo da verdade de Deus, de fato, é o amor com o qual Ele se inclinou sobre o homem e, em Cristo, lhe ofereceu dons infinitos de graça. Em Jesus, descobrimos que Deus é amor e que somente no amor podemos conhecê-Lo: “todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus (...), porque Deus é amor” (1Jo 4, 7.8), diz São João. E Santo Agostinho afirma: “Non intratur in veritatem nisi per caritatem” (Contra Faustum, 32). O vértice do conhecimento de Deus se atinge no amor; aquela amor que sabe ir até à raiz, que não se contenta com ocasionais expressões filantrópicas, mas ilumina o sentido da vida com a Verdade de Cristo, que transforma o coração do homem e o arranca dos egoísmos que geram miséria e morte. O homem precisa de amor, homem precisa de verdade, para não desperdiçar o frágil tesouro da liberdade e ser exposto à violência das paixões e aos condicionamentos abertos e ocultos (cf. João Paulo II, Enc. Centesimus annus, 46). A fé cristã não faz da caridade um sentimento vago e piedoso, mas uma força capaz de iluminar os caminhos da vida em todas as suas expressões. Sem esta visão, sem esta dimensão teologal originária e profunda, a caridade se contenta com a ajuda ocasional e renuncia à tarefa profética, que lhe é própria, de transformar a vida da pessoa e as estruturas mesmas da sociedade. Este é um compromisso específico que a missão na Universidade vos chama a realizar como protagonistas apaixonados, convictos de que a força do Evangelho é capaz de renovar as relações humanas e penetrar no coração da realidade.
Caros jovens universitários da “Católica”, sois a demonstração viva daquele caráter da fé que muda a vida e salva o mundo, com os problemas e as esperanças, com as interrogações e as certezas, com as aspirações e os compromissos que o desejo de uma vida melhor gera e a oração alimenta. Caros representantes do pessoal técnico-administrativo sede orgulhosos das tarefas que vos são confiadas no contexto da grande família universitária no suporte da multiforme atividade formativa e profissional. E a vós, caros Docentes, é confiado um papel decisivo: mostrar como a fé cristã é fermento de cultura e luz para a inteligência, estímulo para que se desenvolva todas as suas potencialidades positivas, para o bem autêntico do homem. Aquilo que razão vê, a fé ilumina e manifesta. A contemplação da obra de Deus abre o saber à exigência da investigação racional, sistemática e crítica; a busca por Deus reforça o amor pelas letras e pelas ciências profanas: “Fides ratione adiuvatur et ratio fide perficitur”, aifrma Hugo de São Victor (De sacramentis, I, III, 30: PL 176, 232). Nesta perspectiva, a Capela é o coração pulsante e o alimento constante da vida universitária, à qual se une o Centro Pastoral onde os Assistentes Espirituais das diversas sedes são chamados a desenvolverem sua preciosa missão sacerdotal que é imprescindível para a identidade da Universidade Católica. Como ensina o Beato João Paulo II, a Capela “é lugar do espírito, onde pausam em oração e encontram alimento, orientação e sustento os crentes em Cristo, que vivem com modalidades diversas a vida intensa da Universidade; é academia de virtudes cristãs, onde cresce e se desenvolve a vida batismal, e se expressa com ardor apostólico; é casa acolhedora e aberta, para todos aqueles que, escutando o Mestre interior, se fazem buscadores de verdade e servem o homem na dedicação diuturna a um saber não satisfeito com horizontes estreitos e pragmáticos. No contexto da modernidade em declínio, ela se torna, com forte ênfase, centro vivo e propulsor de animação cristã da cultura: no diálogo respeitoso e franco, na proposta clara e motivada (cf. 1Pd 3, 15), no testemunho que interroga e convence” (Discurso aos Capelães europeus, 1 de maio de 1998). Assim dizia o Papa João Paulo II, em 1998.
Caros amigos, espero que a Universidade Católica do Sagrado Coração, em sintonia com as intenções do Instituto Toniolo, prossiga com renovada confiança o seu caminho, mostrando de forma eficaz que a luz do Evangelho é fonte de verdadeira cultura capaz de desencadear energias de um humanismo novo, integral, transcendente. Confio-vos a Maria Sedes Sapientiae e, com afeto, vos transmito de coração minha Bênção Apostólica

* Extraído do site do Vaticano, do dia 21 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O Evangelho é a maior força de transformação do mundo


Encontro com o mundo da cultura,
da arte e da economia

Discurso do Santo Padre Bento XVI

Pólo da Saúde – Veneza
Domingo, 8 de maio de 2011.

Caros amigos,
Estou feliz por poder saudar-vos cordialmente, a vós representantes do mundo da cultura, da arte e da economia de Veneza e de seu território. Agradeço-vos a presença e vossa simpatia. Expresso meu reconhecimento ao Patriarca e ao Reitor que, em nome do Studium Generale Marcianum, se fez intérprete dos sentimentos de todos vós e introduziu este nosso encontro, o último de minha intensa visita começada ontem, em Aquileia. Gostaria de deixar-vos algumas ideias muito sintéticas, que espero sejam úteis para a reflexão e para o compromisso comum. Estas ideias me vieram de três palavras que são metáforas sugestivas: três palavras ligadas a Veneza e, particularmente, ao lugar no qual nos encontramos. A primeira é água; a segunda é Saúde, a terceira é Sereníssima.
Comecemos pela água – como parece lógico, sob muitos aspectos. A água é símbolo ambivalente: de vida, mas também de morte; as populações atingidas por enchentes e maremotos o sabem muito bem. Mas a água, antes de mais, é elemento essencial para a vida. Veneza é chamada a “Cidade d’água”. Mesmos para vós, habitantes de Veneza, esta condição tem um duplo sentido, negativo e positivo: traz muitos problemas e, ao mesmo tempo, é fruto de um fascínio extraordinário. Que Veneza seja “Cidade d’água” faz pensar num célebre sociólogo contemporâneo que definiu a nossa sociedade e a cultura europeia como “líquida”: uma cultura “líquida”, para exprimir a “fluidez”, a sua pouca estabilidade ou, talvez, a sua ausência de estabilidade, a inconstância, a inconsistência que, às vezes, parece caracterizá-la. E aqui gostaria de inserir a primeira proposta: Veneza não como cidade “líquida” – no sentido que acabo de acenar –, mas como cidade “da vida e da beleza”. Certamente que se trata de uma escolha, mas na história é preciso escolher: o homem é livre para interpretar, para dar um sentido à realidade, e exatamente nesta liberdade é que consiste a sua grande dignidade. No âmbito de uma cidade, qualquer que seja, também as escolhas de caráter administrativo, cultural e econômico dependem, no fundo, desta orientação fundamental, que podemos chamar “política” na sua acepção mais nobre e mais alta. Trata-se de escolher entre uma cidade “líquida”, pátria de uma cultural que parece sempre mais aquela do relativo e do efêmero, e uma cidade que renova constantemente a sua beleza, a partir de fontes benéficas para a arte, para o saber, para as relações entre os homens e os povos. 
Passemos à segunda palavra: “Saúde”. Encontramos no “Pólo da Saúde”: uma realidade nova, que, porém, tem raízes antigas. Aqui, na Punta della Dogana, surgiu uma das igrejas mais célebres de Veneza, obra de Longhena, edificada como voto a Nossa Senhora pela libertação da peste de 1630: Santa Maria da Saúde. Ao lado dela, o célebre arquiteto construiu o Convento dos Somaschi, que se tornou Seminário Patriarcal. “Unde origo, inde salus”, diz o mote gravado no centro da cúpula maior da Basílica, expressão que indica como a origem da Cidade de Veneza – fundada, segundo a tradição, no dia 25 de março de 421, dia da Anunciação – é estreitamente ligada à Mãe de Deus. E exatamente por intercessão de Maria veio a saúde, a salvação contra a peste. Mas, refletindo sobre este mote, podemos extrair dele também um significado ainda mais profundo e mais amplo. Da Virgem de Nazaré teve origem Aquele que nos dá a “saúde”. A “saúde” é uma realidade abrangente, integral: vai desde o “estar bem”, que nos permite viver serenamente um dia de estudo e de trabalho, ou de férias, até à salus animae, de que depende o nosso destino eterno. Deus cuida de tudo isso, sem excluir nada. Cuida da nossa saúde em sentido pleno. Jesus, no Evangelho, nos fala disso: Ele curou doentes de todos os tipos, mas também libertou endemoninhados, perdoou pecados, ressuscitou mortos. Jesus revelou que Deus ama a vida e quer libertá-la de toda negação, até àquela radical, que é o mal espiritual, o pecado, raiz venenosa que contamina tudo. Por isto, Jesus pode mesmo ser chamado “Saúde” do homem: Salus nostra Dominus Iesus. Jesus salva o homem, colocando-o novamente numa relação salutar com o Pai, na graça do Espírito Santo; imerge-o nesta corrente pura e vivificante que arranca o homem das suas “paralisias” físicas, psíquicas e espirituais; cura-o da dureza de coração, do fechamento egocêntrico e o faz saborear a possibilidade de encontrar verdadeiramente a si mesmo, perdendo-se por amor a Deus e ao próximo. Unde origo, inde salus. Este mote lembra múltiplas referências; limito-me a recordar uma, a célebre expressão de Santo Irineu: “Gloria Dei vivens homo, vita autem hominis visio Dei [est]” (Adv. haer. IV, 20, 7). Que poderia ser parafraseada assim: a glória de Deus é a plena saúde do homem, e ela consiste no estar em profunda relação com Deus. Podemos dizê-lo também com os termos caros ao neo-Beato João Paulo II: o homem é o caminho da Igreja, e o Redentor do homem é Cristo.
Finalmente, a terceira palavra: “Sereníssima”, o nome da República de Veneza. Um título, de fato, estupendo, poder-se-ia dizer utópico, se pensássemos na realidade terrena, todavia capaz de suscitar não apenas memórias de glórias passadas, mas também ideais que impulsionam projetos de hoje e de amanhã, nesta grande região. “Sereníssima”, em sentido pleno, é somente a Cidade Celeste, a Nova Jerusalém, que aparece no final da Bíblia, no Apocalipse, como uma visão maravilhosa (Cf. Ap 21, 1 e 22, 5). No entanto, o cristianismo concebe esta Cidade Santa, completamente transfigurada pela glória de Deus, como uma meta que move os corações dos homens e impulsiona seus passos, anima o compromisso cheio de fadiga e paciência no sentido de melhorar a cidade terrena. É preciso sempre lembrar, a este propósito, as palavras do Concílio Vaticano II: “Nenhum proveito tem o homem se ganha o mundo inteiro, mas perde a si mesmo. Todavia, a espera por uma terra nova não deve enfraquecer, mas muito mais estimular a solicitude no trabalho relativo à terra presente, onde cresce aquele corpo da humanidade que já consegue oferecer algum prenúncio do mundo novo” (Cost. Gaudium et spes, 39). Escutamos estas expressões num tempo no qual havia exaurido a força das utopias ideológicas e não apenas o otimismo havia obscurecido, mas também a esperança entrou em crise. Não devemos, então, esquecer que os Padres conciliares, que nos deixaram este ensinamento, viveram a época das duas guerras mundiais e dos totalitarismos. A perspectiva deles não era, certamente, ditada por um otimismo fácil, mas pela fé cristã, que anima a esperança ao mesmo tempo grande e paciente, aberta para o futuro e atenta às situações históricas. Nesta mesma perspectiva, o nome “Sereníssima” nos fala de uma civilização da paz, fundada sobre o respeito mútuo, sobre o conhecimento recíproco, sobre as relações de amizade. Veneza tem uma longa história e um rico patrimônio humano, espiritual e artístico para ser capaz, também hoje, de oferecer uma preciosa contribuição na ajuda aos homens no sentido de crerem num futuro melhor e se empenharem em sua construção. Mas, para isto, não se pode ter medo de outro elemento emblemático, contido no brasão de São Marcos: o Evangelho. O Evangelho é a maior força de transformação do mundo, mas não é uma utopia, nem uma ideologia. As primeiras gerações cristãs chamavam-no o “caminho”, ou seja, o modo de viver que Cristo praticou, por primeiro, e que nos convida a seguir. Chega-se à cidade “sereníssima” através desse caminho, que é o caminho da caridade na verdade, sabendo bem, como nos recorda ainda o Concílio, que não se deve “caminhar na estrada da caridade somente nas grandes coisas, mas também e sobretudo nas circunstâncias ordinárias da vida” e que, a exemplo de Cristo, “é preciso também carregar a cruz; aquela que, pela carne e pelo mundo, é colocada nas costas dos que buscam a paz e a justiça” (Cost. Gaudium et spes, 38).
Eis, caros amigos, as ideias para uma reflexão que gostaria de compartilhar convosco. Para mim, foi uma alegria poder concluir a minha visita na vossa companhia. Agradeço mais uma vez o Cardeal Patriarca, o Auxiliar e todos os colaboradores, por esta magnífica acolhida. Saúdo a Comunidade Judaica de Veneza – que tem antigas raízes e é uma presença importante no tecido social – com o seu Presidente, Prof. Amos Luzzatto. Também dirijo meu pensamento aos muçulmanos que vivem nesta cidade. Deste lugar tão significativo, dirijo minha cordial saudação a Veneza, à igreja que aqui peregrina e a todas as Dioceses do Triveneto, deixando, como sinal de minha perene recordação, a Bênção Apostólica. Obrigado pela vossa atenção.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 8 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Comentário ao evangelho do dia

Cátedra de São Pedro

Evangelho - Mt 16,13-19
Naquele tempo, Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: "Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?". Eles responderam: "Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias. Outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas". Então Jesus lhes perguntou: "E vós, quem dizeis que eu sou?". Simão Pedro respondeu: "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo". Respondendo, Jesus lhe disse: "Feliz es tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra  será desligado nos céus".

Comentário tirado do Concílio Vaticano II 
Constituição Dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium, § 22

Assim como, por instituição do Senhor, São Pedro e os restantes Apóstolos formam um colégio apostólico, assim de igual modo estão unidos entre si o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, e os Bispos, sucessores dos Apóstolos. A natureza colegial da ordem episcopal, claramente comprovada pelos Concílios ecumênicos celebrados no decurso dos séculos, manifesta-se já na disciplina primitiva, segundo a qual os Bispos de todo o orbe comunicavam entre si e com o Bispo de Roma no vínculo da unidade, da caridade e da paz; e também na reunião de Concílios, nos quais se decidiram em comum coisas importantes, depois de ponderada a decisão pelo parecer de muitos; o mesmo é claramente demonstrado pelos Concílios Ecumênicos, celebrados no decurso dos séculos. E o uso já muito antigo de chamar vários Bispos a participarem na elevação do novo eleito ao ministério do sumo sacerdócio insinua-a já também. É, pois, em virtude da sagração episcopal e pela comunhão hierárquica com a cabeça e os membros do colégio que alguém é constituído membro do corpo episcopal. Porém, o colégio ou corpo episcopal não tem autoridade a não ser em união com o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, entendido com sua cabeça, permanecendo inteiro o poder do seu primado sobre todos, quer pastores quer fiéis. Pois o Romano Pontífice, em virtude do seu cargo de vigário de Cristo e pastor de toda a Igreja, tem nela pleno, supremo e universal poder que pode sempre exercer livremente. A Ordem dos Bispos, que sucede ao colégio dos Apóstolos no magistério e no governo pastoral, e, mais ainda, na qual o corpo apostólico se continua perpetuamente, é também, juntamente com o Romano Pontífice, sua cabeça, e nunca sem a cabeça, sujeito do supremo e pleno poder sobre toda a Igreja, poder este que não se pode exercer senão com o consentimento do Romano Pontífice. Só a Simão colocou o Senhor como pedra e clavário da Igreja (cf. Mt 16, 18-19), e o constituiu pastor de todo o Seu rebanho (cf. Jo 21, 15 ss.); mas é sabido que o encargo de ligar e desligar conferido a Pedro (Mt 16,19) foi também atribuído ao colégio dos Apóstolos unido à sua cabeça (Mt.18,18; 28, 16-20). Este colégio, enquanto composto por muitos, exprime a variedade e universalidade do Povo de Deus e, enquanto reunido sob uma só cabeça, revela a unidade do redil de Cristo.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Audiência Geral - Santo Tomás de Aquino (2)

Papa Bento XVI

Praça São Pedro
Quarta-feira, 16 de junho de 2010 

Santo Tomás de Aquino

Caros irmãos e irmãs,
Hoje, gostaria de continuar a apresentação de Santo Tomás de Aquino, um teólogo de tamanho valor que o estudo do seu pensamento foi explicitamente recomendado pelo Concílio Vaticano II em dois documentos, o decreto Optatam totius, sobre a formação para o sacerdócio, e a declaração Gravissimum educationis, que trata da educação cristã. De resto, já em 1880 o Papa Leão XIII, seu grande estimador e promotor dos estudos tomistas, quis declarar Santo Tomás Patrono das Escolas e das Universidades Católicas.
O principal motivo dessa apreciação reside não apenas no conteúdo do seu ensinamento, mas também no método adotado por ele, sobretudo a sua nova síntese e distinção entre filosofia e teologia. Os Padres da Igreja se encontravam confrontados com diversas filosofias de tipo platônico, nas quais se apresentava uma visão completa do mundo e da vida, incluindo a questão de Deus e da religião. No confronto com estas filosofias, eles mesmos tinham elaborado uma visão completa da realidade, partindo da fé e usando elementos do platonismo, para responder às questões essenciais dos homens. Esta visão, baseada na revelação bíblica e elaborada com um platonismo corrigido à luz da fé, era por eles chamada a “nossa filosofia”. A palavra “filosofia” não era, portanto, expressão de um sistema puramente racional e, como tal, distinto da fé, mas indicava uma visão complexa da realidade, construída na luz da fé, mas feita e pensada pela razão; uma visão que, certamente, ia além das capacidades próprias da razão, mas que, como tal, era também satisfatória para ela. Para Santo Tomás, o encontro com a filosofia pré-cristã de Aristóteles (que morreu por volta do ano 322 a.C.) abria uma perspectiva nova. A filosofia aristotélica era, obviamente, uma filosofia elaborada sem o conhecimento do Antigo e do Novo Testamento, uma explicação do mundo sem revelação, apenas a partir da razão. E esta racionalidade consequente era convincente. Assim, a velha forma da “nossa filosofia” dos Padres não funcionava mais. A relação entre filosofia e teologia, entre fé e razão, devia ser repensada. Existia uma “filosofia” completa e convincente em si mesma, uma racionalidade que precedia a fé, e depois a “teologia”, um pensar com a fé e na fé. A questão urgente era essa: o mundo da racionalidade, a filosofia pensada sem Cristo, e o mundo da fé são compatíveis? Ou se excluem? Não faltavam elementos que afirmavam a incompatibilidade entre os dois mundos, mas Santo Tomás estava firmemente convencido da sua compatibilidade – mais do que isso, estava convencido de que a filosofia elaborada sem o conhecimento de Cristo praticamente era como se esperasse a luz de Jesus para ser completa. Esta foi a grande “surpresa” de Santo Tomás, que determinou o seu caminho de pensador. Mostrar esta independência entre filosofia e teologia e, ao mesmo tempo, a sua recíproca relação foi a missão histórica do grande mestre. E assim se entende que, no século XIX, quando se declarava fortemente a incompatibilidade entre razão moderna e fé, Papa Leão XIII indicou Santo Tomás como guia no diálogo entre um e outra. No seu trabalho teológico, Santo Tomás supõe e concretiza esta relação. A fé consolida, integra e ilumina o patrimônio de verdade que a razão humana adquire. A confiabilidade que Santo Tomás acorda a estes dois instrumentos de conhecimento – a fé e a razão – pode ser reconduzida à convicção de que ambas provêm da única fonte de toda verdade, o Logos divino, que age tanto no âmbito da criação como no âmbito da redenção.
Junto com o acordo entre razão e fé, deve-se reconhecer, de outro lado, que elas implicam procedimentos cognoscitivos diferentes. A razão acolhe uma verdade por força de sua evidência intrínseca, mediata ou imediata; a fé, por sua vez, aceita uma verdade exclusivamente pela autoridade da Palavra de Deus que se revela. Santo Tomás, no princípio da Summa Theologiae, escreve: “A ordem das ciências é dupla; algumas procedem a partir de princípios conhecidos, através da luz natural da razão, como  matemática, a geometria e outras semelhantes; outras procedem a partir de princípios conhecidos através de uma ciência superior: como a perspectiva procede dos princípios conhecidos através da geometria e a música dos princípios conhecidos através da matemática. Deste modo, a sagrada doutrina (isto é, a Teologia) é ciência porque procede dos princípios conhecidos através da luz de uma ciência superior, isto é, da ciência de Deus e dos santos” (I, q. 1, a. 2).
Esta distinção assegura a autonomia tanto das ciências humanas, quanto das ciências teológicas. Isso, porém, não equivale a uma separação, mas implica muito mais uma recíproca e vantajosa colaboração. A fé, de fato, protege a razão de toda tentação de desconfiança nas próprias capacidades, a estimula a se abrir a horizontes sempre mais vastos, mantém viva nela a busca pelos fundamentos e, quando a razão mesma se aplica à esfera sobrenatural da relação entre Deus e o homem, enriquece o seu trabalho. Segundo Santo Tomás, por exemplo, a razão humana pode, sem dúvida alguma, chegar a afirmar a existência de um único Deus, mas apenas a fé, que acolhe a Revelação divina, é capaz de atingir o mistério do Amor de Deus Uno e Trino.
De outro lado, não é apenas a fé que ajuda a razão. Também a razão, com seus meios, pode fazer algo de importante para a fé, servindo a ela de três formas diferentes, conforme Santo Tomás resume no proêmio do seu comentário ao De Trinitate de Boécio: “Demonstrar os fundamentos da fé; explicar, através de similaridades, as verdades da fé; afastar as objeções que se levantam contra a fé” (q. 2, a. 2). Toda a história da teologia é, no fundo, o exercício deste empenho da inteligência, que mostra a inteligibilidade da fé, a sua articulação e harmonia interna, a sua razoabilidade e a sua capacidade de promover o bem do homem. A correção dos raciocínios teológicos e o seu significado cognoscitivo real se fundamentam no valor da linguagem teológica, que é, segundo Santo Tomás, principalmente uma linguagem analógica. A distância entre Deus, o Criador, e o ser das suas criaturas é infinita; a dessemelhança é sempre maior do que a semelhança (cf. DS 806). Não obstante isso, em toda a diferença entre Criador e criatura existe uma analogia entre o ser criado e ser do Criador que nos permite falar sobre Deus com palavras humanas.
Santo Tomás fundou a doutrina da analogia, mais do que em argumentações extravagantemente filosóficas, também no fato que, com a Revelação, Deus mesmo nos falou e nos autorizou, portanto, a falar dEle. Acredito que seja importante chamar a atenção sobre esta doutrina. Ela, de fato, nos ajuda a superar algumas objeções do ateísmo contemporâneo, que nega que a linguagem religiosa tenha significado objetivo, e sustenta, pelo contrário, que tenha apenas um valor subjetivo ou simplesmente emotivo. Esta objeção nasce do fato de o pensamento positivista estar convencido de que o homem não conhece o ser, mas apenas as funções experimentáveis da realidade. Com Santo Tomás e com a grande tradição filosófica estamos convencidos de que, na realidade, o homem não conhece apenas as funções, objeto das ciências naturais, mas conhece algo do ser mesmo – por exemplo, conhece a pessoa, o Tu do outro, e não apenas o aspecto físico e biológico do ser.
À luz deste ensinamento de Santo Tomás, a teologia afirma que, ainda que limitada, a linguagem religiosa é dotada de sentido – porque tocamos o ser –, como uma flecha que se dirige para a realidade que significa. Este acordo fundamental entre razão humana e fé cristã é reconhecido também em outro princípio basilar do pensamento do Aquinate: a Graça divina não anula, mas supõe e aperfeiçoa a natureza humana. Esta última, de fato, mesmo depois do pecado, não é completamente corrupta, mas ferida e enfraquecida. A Graça, outorgada por Deus e comunicada através do Mistério do Verbo encarnado, é um dom absolutamente gratuito com o qual a natureza é curada, potencializada e ajudada a perseguir o desejo inato no coração de cada homem e mulher: a felicidade. Todas as faculdades do ser humano são purificadas, transformadas e elevadas pela Graça divina.
Uma importante aplicação desta relação entre a natureza e a Graça se reconhece na teologia moral de Santo Tomás de Aquino, que é bastante atual. No centro do seu ensinamento a este respeito ele coloca a lei nova, que é a lei do Espírito Santo. Com um olhar profundamente evangélico, insiste sobre o fato de que esta lei é a Graça do Espírito Santo dada a todos aqueles que acreditam em Cristo. A tal Graça se une o ensinamento escrito e oral das verdades doutrinais e morais, transmitido pela Igreja. Santo Tomás, sublinhando o papel fundamental, na vida moral, da ação do Espírito Santo, da Graça, de onde brotam as virtudes teologais e morais, ajuda a compreender que todo cristão pode atingir as altas perspectivas do “Sermão da Montanha” na medida em que vive um relacionamento de fé autêntico em Cristo, se se abre à ação do seu Santo Espírito. Porém – acrescenta o Aquinate –, “mesmo que a graça seja mais eficaz do que a natureza, todavia a natureza é mais essencial para o homem” (Summa Theologiae, Ia, 1. 29, a. 3), de forma que, na perspectiva moral cristã, há um lugar para a razão que é capaz de discernir a lei moral natural. A razão pode reconhecê-la considerando o que é bem agir e o que é bem evitar para conseguir aquela felicidade que está cada um deseja, e que impõe também uma responsabilidade pelos outros, e, portanto, a busca do bem comum. Em outras palavras, as virtudes do homem, teologais e morais, estão radicadas na natureza humana. A Graça divina acompanha, sustenta e impulsiona o empenho ético mas, por si só, segundo Santo Tomás, todos os homens, crentes e não crentes, são chamados a reconhecer as exigências da natureza humana expressas na lei natural e a inspirar-se nela na formulação das leis positivas, isto é, aquelas emanadas das autoridades civis e políticas para regular a convivência humana.
Quando a lei natural e a responsabilidade que ela implica são negadas, abre-se dramaticamente o caminho ao relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo do Estado no plano político. A defesa dos direitos universais do homem e a afirmação do valor absoluto da dignidade da pessoa postulam um fundamento. Este fundamento não seria exatamente a lei natural, com os valores não negociáveis que ela indica? O Venerável João Paulo II escrevia, na sua encíclica Evangelium vitae, palavras que ainda são de grande atualidade: “Urge, portanto, para o futuro da sociedade e para o desenvolvimento de uma democracia saudável, redescobrir a existência dos valores humanos e morais essenciais e nativos, que brotam da verdade mesma do ser humano, e exprimem e tutelam a dignidade da pessoa: valores, portanto, que nenhum indivíduo, nenhuma maioria e nenhum Estado nunca poderão criar, modificar ou destruir, mas deverão apenas reconhecer, respeitar e promover” (n. 71).
Para concluir, Tomás nos propõe um conceito da razão humana largo e confiante: largo porque não é limitado aos espaços da dita razão empírico-científica, mas aberto a todo o ser e, portanto, também às questões fundamentais e irrenunciáveis do viver humano; e confiante porque a razão humana, sobretudo se acolhe as inspirações da fé cristã, é promotora de uma civilização que reconhece a dignidade da pessoa, a inviolabilidade dos seus direitos e a obrigatoriedade dos seus deveres. Não surpreende que a doutrina sobre a dignidade da pessoa, fundamental para o reconhecimento da intangibilidade dos direitos do homem, tenha amadurecido em ambientes de pensamento que acolheram a herança de Santo Tomás de Aquino, que tinha a criatura humana em elevada estima. Ele a definiu, com a sua linguagem rigorosamente filosófica, como “aquilo que de mais perfeito se encontra em toda a natureza, isto é, um sujeito subsistente em uma natureza racional” (Summa Theologiae, Ia, q. 29, a. 3).
A profundidade do pensamento de Santo Tomás de Aquino emana – não nos esqueçamos disso nunca – da sua fé viva e da sua piedade fervorosa, que exprimia em orações inspiradas, como esta na qual pede a Deus: “Concede-me, te peço, uma vontade que te busque, uma sabedoria que te encontre, uma vida que te agrade, uma perseverança que te espere com confiança e uma confiança que, no fim, chegue a te possuir”.

* Extraído do Site do Vaticano. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco. 

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Assim, Bento XVI defende a Igreja...

Por Adrian Pabst

Cinco anos após a sucessão de João Paulo II, que ocorreu no dia 19 de abril de 2005, Bento XVI se encontra enfrentado a crise mais grave do seu papado. O escândalo da pedofilia, que está em curso atualmente, continua a enfraquecer a credibilidade da Igreja e reforça os estereótipos tradicionais que veem o Vaticano, sob o seu comando, como uma teocracia medieval governada por um autocrata absoluto, de temperamento reacionário e intolerante.
Tal opinião não é difundida apenas por ateus como Richard Dawkins ou Christopher Hitchens. Ao lado destes acusadores habituais se encontram numerosos católicos importantes que estão desfrutando do escândalo dos abusos sexuais como pretexto para atacar o pontífice. Em uma carta aberta, endereçada aos bispos católicos, publicada no sábado passado, o teólogo suíço Hans Küng culpou Ratzinger pela “mais profunda crise de credibilidade da Igreja, desde os tempos da reforma protestante”. Substancialmente, Küng acusa o Papa de ter restaurado uma visão reacionária do catolicismo, que renega as reformas progressistas do Concílio Vaticano II (1962-1965), do qual ambos participaram como peritos (jovens conselheiros teólogos, a serviço de cardeais).
Como grande parte do ateísmo contemporâneo, a carta de Küng é devida muito mais à ideologia do que à razão. A sua subdivisão do catolicismo (e de outras tradições religiosas) em uma ala liberal e progressista e outra conservadora e reacionária é uma distinção típica do laicismo moderno, que desnaturaliza a unicidade de cada e de todas as religiões. Eis porque o principal interesse de Küng, a construção de uma “ética mundial”, é uma abstração do caráter único das diversas tradições de fé, uma instrumentalização da religião a serviço de uma dúbia moralidade que não é outra coisa que um simples “comportar-se bem na relação com outros”.
É uma notável diferença com relação à ética universal e às outras verdades que todas as religiões defendem, mas sobre as quais estão em desacordo umas com as outras, como, por exemplo, quanto ao papel do amor e da lei no Judaísmo e no Cristianismo. Negando um real universalismo, a “ética mundial” de Küng é perfeitamente compatível com o laicismo moderno e com aquela “ditadura do relativismo” que o Papa Bento XVI denunciou repetidas vezes. Não é de se estranhar que Küng prefira um catolicismo liberal que imita a cultura laica, perdendo, neste processo, a própria visão integral única.
O que é pior é que Küng não compreende a longa tradição intelectual que o Papa tenta preservar e estender, uma espécie de ortodoxia romântica que aborrece grande parte da reforma e da contra-reforma modernas, a favor da herança da patrística e da Idade Média compartilhada por cristãos do leste ao oeste. Tal herança cultural deriva dos ensinamentos de doutores e de padres da Igreja, como Santo Agostinho, Dionísio ou Santo Tomás de Aquino, sobre o tema da unidade do natural e do sobrenatural, em contraposição à separação moderna entre universo natural e graça e criatividade divina. Em poucas palavras, podemos dizer que Bento XVI refuta o dualismo moderno entre natureza e graça, ou entre fé e razão, como expôs no seu controvertido discurso em Regensburg, em 2006.
A argumentação do Papa é que tais dualismos modernos nivelaram o caminho para a desastrosa separação entre razão e fé, uma oposição que está na base do conflito cada vez mais obstinado entre a razão absoluta do laicismo (e do ateísmo) extremo e a fé cega dos fundamentalismos religiosos. Neste sentido, o apelo de Bento XVI para um retorno à “grandeza da razão”, pelo qual razão e fé necessitam uma da outra e se incrementam, é muito mais radical e progressista do que as pretensões de Küng por um diálogo mais liberal.
Efetivamente, a intervenção do Papa trouxe para um diálogo mais intenso e de maior vigor intelectuais cristãos e muçulmanos, como ficou demonstrado pelo fórum permanente para o diálogo católico-muçulmano. Ele foi estabelecido em resposta às críticas movidas pelo discurso papal em Regensburg, no qual vinculou a violência do Islã à maior importância dada ao poder e à vontade de Deus em detrimento da razão e do intelecto divino. Küng acusa Bento XVI de ter causado uma crise de confiança entre cristãos e muçulmanos, mas o Papa tem razão ao insistir que tal confiança é verdadeiramente autêntica apenas se for baseada numa recíproca compreensão das reais diferenças entre Cristianismo e Islã: a encarnação de Deus, a divina natureza de Cristo e a Santíssima Trindade.
Não é nem mesmo verdadeiro que Bento XVI tenha nostalgia da doutrina e dos concílios da Igreja das origens. Pelo contrário, ele reúne a herança cultural da patrística e da Idade Média ao Romantismo moderno, com suas ênfases comuns sobre declarações naturais do divino e sobre a atividade artística humana. É esta tradução romântica que contribuiu para criar e manter a cultura elevada pela qual briga o Papa. Isto está na base de sua defesa da liturgia tradicional (inclusive da Missa Tridentina), contra o advento do “sacro-pop”: “liturgias de festinhas paroquiais e canções banais do tipo ‘abraça-me Jesus’”, como escreve de modo um tanto apropriado Tracey Rowland no seu livro “A fé de Ratzinger”.
Além da liturgia, o Romantismo é também a chave para defender a cultura laica de si mesma. Refutando seja a razão absoluta e instrumental que a fé cega e emotiva, a tradição romântica coloca em dificuldade a convergência contemporânea entre um progresso tecnológico sem alma e uma cultura empobrecida dominada pela sexualidade e pela violência. O que é ainda mais importante, ela se opõe à confabulação cúmplice de uma liberação econômica e social sem limites que produziu a moral sexual do “laissez-faire”, com a obsessão do livre arbítrio individual em detrimento de parâmetros objetivos (mesmo que contestados) de verdade, beleza e retidão, uma preocupação compartilhada pelo arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, no seu influente livro “Os ícones perdidos”.
Permanecem abertas numerosas perguntas sobre como seria possível traduzir a visão de Bento XVI numa radical revisão da Cúria e das relações entre Roma e os bispos católicos. Mas, bem longe de ser nostálgico ou reacionário, o Papa de hoje é um obstinado romântico que está realizando um Renascimento intelectual e cultural do catolicismo.

* Publicado em Il sussidiario, no dia 22 de abril de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.