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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cartas do P.e Aldo 198


Asunción, 21 de junho de 2011.

Caríssimos,
Eis a foto de recordação das 11 crianças da Casinha de Belém batizadas neste domingo. A maioria delas não tem ninguém, mas agora podem dizer “Pai” para o Mistério. Que responsabilidade, para mim e os amigos, nos foi presenteada com o batismo delas! Uma responsabilidade possível de viver apenas se o meu eu é definido, momento após momento, pela certeza “eu sou Tu que me fazes”. Desta certeza depende todo o caminho educativo e a sua maturidade.
Olho-os e vejo a grandeza e a beleza do Mistério que permitiu que nascessem em condições desumanas e violentas para, depois, retomá-los e levá-los para onde Sua Presença é evidente.
Olho-os e, comovido, penso naquilo que o profeta disse: “antes de te formares no ventre de tua mãe, pronunciei o teu nome”.
Que bonito: eu, como os meus pequenos, fomos pensados, desde sempre, por Deus! Que bonito: eu, como as minhas crianças, fomos chamados pelo nome, ou seja, somos Seus, pertencemos-Lhe desde sempre. Então, o modo com o qual fomos concebidos é secundário (não porque não seja importante... pelo contrário), porque a nossa identidade vem antes, vem da eternidade. Então, mesmo se concebido na violência, isto não define mais a minha personalidade. 
O aborto é terrível porque elimina um nome que Deus pronunciou desde sempre. Então, entendem porque as meninas grávidas são, para mim, tesouros, mesmo que tenham 12 anos de idade. Elas moram conosco, salvas daquelas diabólicas ONGs que fazem de tudo para que abortem.
Uma garotinha da favela, vítima do crack desde os 9 anos de idade, não queria a criança de que estava grávida e chegou aqui em condições indescritíveis. Deu à luz uma menina lindíssima (hoje, a mãe tem 15 anos) e, no início não a queria. Três meses se passaram e ela, a mãe, é outra pessoa, é uma verdadeira mulher, uma verdadeira mãe. Mesmo o seu aspecto físico mudou: está bonita, bem vestida, limpa, orgulhosa da sua feminilidade. Vê-la amamentando a sua menina é de uma ternura enorme.
Não mais o passado como “piranha” (é como são chamadas essas crianças), mas um início de consciência de ser fruto do SER, daquele “Tu que me fazes”. Mas, dentro de uma companhia de 24 horas por dia. Porém, é assim que o Mistério nos faz companhia. Lucilla, a filha do meu amigo Luigi Amiconi, dizia: “Tudo o que eu faço é dizer ‘sim’ a Liz (uma menina com gravíssimos problemas psíquicos, físicos e de mobilidade), e este ‘SIM’ mudou Liz e me mudou. E dizer ‘SIM’ quer dizer responder às suas necessidades, quer dizer estar sempre com ela. E este ‘SIM’ que digo a ela, eu o digo a todas as crianças. Mas, posso dizê-lo porque um outro o diz para mim”.
E é mesmo bonito ver esta garota de 12 anos, que parece ter a metade, e que não fala, é mesmo bonito vê-la feliz e fazendo de tudo para responder às provocações de Lucilla. E Lucilla que a olha, a olha para perceber o que quer, o que a realidade lhe pede para poder responder “SIM”. Educar é apenas dizer “SIM” à realidade.
Padre Aldo

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Cartas do P.e Aldo 176

Asunción, 06 de janeiro de 2011.

Há nove anos, na paróquia São Rafael, seguindo a liturgia natalícia, celebramos a família de modo solene, no dia da Sagrada Família. Uma tradição que quisemos colocar como alternativa àquelas iniciativas maçônicas e laicistas que festejam o dia das mães no mês de maio e o dia – quase não observado – dos pais em junho.
Não existe “maternidade” ou “paternidade” sem família, sem aquele lugar original, criado pelo mesmo Deus, como é contado no Gêneses, quando o Onipotente afirma “façamos o homem à nossa imagem e semelhança... homem e mulher. (...) O homem abandonará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne”. E foi assim. O matrimônio monogâmico e heterossexual foi uma iniciativa divina que nem mesmo o pecado original conseguiu destruir.
Todavia, as consequências do pecado original se tornaram evidentes imediatamente: nem o homem nem a mulher sozinhos conseguiram viver mais naquela comunhão original. Por esse motivo, foi necessária a Encarnação de Jesus que instituiu o Sacramento do Matrimônio, ou seja, a possibilidade tanto para o homem como para a mulher de voltar a viver aquela experiência única e original – a de ser uma só carne – que Deus mesmo havia dado de presente a eles, os criando.
O matrimônio está na origem da família como único lugar onde acontece o milagre da paternidade e da maternidade. Por esse motivo, na cultura niilista de hoje, como sua dupla visada de relativismo e de hedonismo, eliminou-se a festa da família, substituindo-a com o dia das mães e o dia dos pais. Pai não é quem fecunda uma mulher, nem mãe é aquela que expele uma criatura do seu ventre. Também os animais fazem essas coisas. Pai e mãe é um dom do Alto, fruto de uma vocação divina que chama o homem e a mulher a formarem um lar no qual se louve o nome do Senhor e se permite a Deus, através dos filhos, levar adiante o seu plano de salvação.
Num mundo que festeja até o dia do agente funerário, somente a Igreja festeja a família, recordando a Sagrada Família de Nazaré. No Paraguai não há categoria de pessoas que não tenham um dia dedicado à sua profissão... e pobre da pessoa que não cumprimenta o festejado!
Por isso, todos os anos, no primeiro domingo depois do Natal, na nossa paróquia, celebramos este dia benzendo e entregando às crianças a vassoura.
Por que a vassoura? Porque é o símbolo da limpeza, da ordem na casa, porque é o instrumento doméstico mais antigo e comum. Porque São Martinho de Porres chegou à santidade usando a vassoura com amor, oferecendo a Cristo o seu trabalho. Para as crianças, como lhes expliquei, lembrando de minha infância, é o primeiro contato com o trabalho físico da casa, é a modalidade para que compreendam a ordem, a limpeza, a beleza.
Por isso, foi bonito, no domingo dia 26 de dezembro, quando pedi às crianças para subirem ao altar para me mostrarem se sabiam usar uma vassoura. Muitos sim, outros não. Então, peguei a vassoura e, diante de todos, expliquei a eles como se pega e como se usa. Há 20 anos sou fiel a este gesto.
Aprenderam rápido o uso e o significado do gesto. Depois, rindo, expliquei a eles como os meus pais usavam a vassoura na minha bunda, quando eu fazia alguma má-criação, para que eu pudesse entender como viver.
Foi, de fato, bonito esse gesto, porque me agrada pensar ainda em Jesus que, desde pequeno, aprendeu a amar e a usar a vassoura ajudando os seus pais, antes de usar a serra e o martelo etc.
Creio que a vassoura seja um dos instrumentos mais antigos e familiares do mundo. Por isso, disse às crianças que merece muito respeito, explicando também como recolocá-la no seu lugar, com a ponta do cabo para baixo e “os cabelos” para cima.
O novo Paraguai, aquele que nasce do encontro com Cristo, não passa em primeiro lugar pela política nem pela economia, mas pela vassoura. Ou seja, pela família que educa os seus filhos.
Padre Aldo.

domingo, 24 de outubro de 2010

Cartas do P.e Aldo 167



Asunción, 19 de outubro de 2010.

Caros amigos,
não é natural beijar a própria mãe, ou melhor não é óbvio. Sem a experiência concreta de se olhar como nos olha o Mistério, a máxima expressão afetiva é uma atração natural, uma simpatia, uma generosidade que, no tempo, nos chantageia. Somente dentro de uma experiência de gratuidade, como é descrita por Dom Giussani, é possível que uma mãe e o próprio filho se beijem como o coração – não o instinto – deseja.
Hoje, batizei Isabel. Uma mulher recolhida da rua com o seu filho de 6 anos. A sua história é horrível e indescritível: violentada quando era pequena, abusada continuamente. De um dos tantos pobres Cristos que enchem as ruas, agora na prisão, teve um filho, o mais novo, que vocês podem ver na foto abraçado a mim durante a Missa. Assim que chegou a nós com o seu filho, nós a acolhemos: e Cristo-mãe e Cristo-filhinho. A primeira coisa que me disse foi: “Padre, eu nunca dei um beijo no meu filho, porque eu via, nele, a violência que sempre sofri”. Passaram-se muitos meses. Não conto para vocês todas as reações do menino na relação com todos. Diante de quem lhe queria dar um beijo escapava ou reagia batendo. Hoje, terminado o batismo da mãe, amada e bem querida por nós, ficamos esperando o beijo entre mãe e filho. Para a mãe foi um milagre: ela o beijou pela primeira vez. Mas, nós esperávamos a mesma coisa da parte do menino. Na foto, vocês podem ver a mãe que busca o beijo do seu “finalmente” filho. Mas, tudo parecia inútil. Porém, quando todos começamos a dizer juntos “Beija! Beija!”, o pequeno, depois de nos ter olhado, se jogou no pescoço da mãe dando-lhe – não importa que tenha durado apenas um segundo – um beijo. A pobre mulher começou a chorar e não parou mais de repetir: “é a primeira vez, é a primeira vez...”.
Amigos, o pequeno recuperou o relacionamento natural – diríamos nós – apenas graças à certeza que trago em mim com os meus amigos educadores: “eu sou Tu que me fazes”. O menino, desde o princípio, me chama de vovô, porque aqui, praticamente, o pai não existe e a figura afetiva mais importante são os avós. Tanto é verdade que muitas vezes ensino o “Pai Nosso” às crianças substituindo a palavra “Pai” por “Avô”. Sempre pergunto às crianças, antes de explicar que Deus é Pai: “Quem são as pessoas que mais nos querem bem?”. E a maioria absoluta delas responde: “os avós” ou “a mamãe”. Raras vezes escuto “o papai”, que aqui tem apenas a função de fecundar a mulher e, depois, vai embora ou, se vive com a mulher, é violento. De forma que, que outra imagem podem ter do pai?
Por isso, “Vovô nosso que estais no céu...”. Assim, as crianças sentem que vibra nelas a beleza que cria em cada instante a vida: “amei-te com amor eterno, tendo piedade do teu nada”.
Amigos, se o Mistério, se Cristo não nos é familiar, estes milagres não acontecem. Hoje, eu vi o milagre da maternidade e da filiação, e como acontece o milagre do reconhecimento daquela mulher como “minha mãe”, daquele menino  como “meu filho”. Se, com os nossos filhos, não acontece o que aconteceu hoje diante dos meus olhos, quer dizer que ainda estamos distantes da paternidade, da maternidade, ou seja, distantes da graça da gratuidade.
Rezemos a Nossa Senhora para que possamos fazer esta experiência, a experiência de Isabel, que, depois de 40 anos de violência, de vida na rua, finalmente conseguiu dizer “Eu”. E a alegria do seu rosto, e o seu repetir constante “é a primeira vez, a primeira vez que beijo e sou beijada pelo meu filhinho de 6 anos”, era a manifestação da sua dignidade recuperada, sem que fosse preciso a intervenção de especialistas de profissão. “Eu sou Tu que me fazes”. Aqui e somente aqui se jogo o próprio eu.
Padre Aldo