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quarta-feira, 6 de abril de 2011

Os dois “inimigos” e o crime perfeito que assassinou a paixão dos estudantes


Por Dario Nicoli

O dilema da escola – A escola se encontra diante de um dilema de relevância histórica, que diz respeito à resposta que se deve dar à progressiva queda de motivação dos estudantes quanto aos estudos. De um lado existe a solução que vem prevalecendo e que pode ser definida como “cômoda”, e consiste no abaixar progressivamente as metas, reduzir a carga de trabalho, concordar as verificações, dar peso às condições psicossociais dos estudantes na hora de emitir juízo, conceder novas chances, aumentar as recuperações; de outro lado se percebe uma resposta de tipo “neo-rigorista”que aposta na circunscrição do papel da escola apenas à instrução, livrando-se de todas as “educações” que, nos últimos anos, foram acrescentadas aí, aumentar a importância e a gravidade da disciplina escolar, enfatizar a carga de trabalho dos estudantes, sustentar (ou, para dizer melhor, “armar”) o papel do docente com notas e sanções, estigmatizar lacunas e inobservâncias, selecionar.
Enquanto que a primeira estratégia tendencialmente transforma a escola numa espécie de serviço de animação cuja finalidade é cuidar dos problemas juvenis, a segunda acredita poder restabelecer o princípio de autoridade e de compromisso da forma como existiam no passado, ou seja, antes de 1968.
A bem dizer, ambas as respostas parecem inadequadas: a solução cômoda, com a intenção de “ir ao encontro dos jovens”, acaba por esvaziar a experiência escolar, transformando-a num tempo tedioso no qual nada acontece de interessante, reduzindo a cultura a formulazinhas e esquemas de valor ambíguo; a solução neo-rigorista, iludindo-se de poder desenterrar um tempo superado, só consegue fazer aumentar o mal-estar dos estudantes e sua aversão quanto aos estudos, aumentando a dispersão e a mudança para locais de estudo tidos como mais fáceis. Trata-se de uma alternativa entre duas visões, nenhuma das quais se revela, na prática, aceitável.
Elas apresentam um elemento comum decisivo: consideram indiscutível uma metodologia de ensino centrada na epistemologia das disciplinas, realizada segundo micro-sequências de horários divididas entre aula e exercícios, fundada em tarefas de tipo escolar não retiradas da realidade, com a finalidade não tanto de amadurecer a personalidade do estudante através da cultura, mas de dar notas. Ambas assumem como inevitável a “visão dos dois tempos”: primeiro, é preciso estudar, depois do diploma será possível aplicar na realidade aquilo que se apreendeu. Uma escola assim, cuja principal marca é a inércia, não é, de forma alguma, capaz de enfrentar os desafios do tempo presente e, particularmente, a irrupção no mundo juvenil da irrealidade, ou seja, da estética da aparência e do consumismo.
O desafio da hiperrealidade – A desmotivação dos jovens para o estudo não é sintoma de enfraquecimento das capacidades intelectivas de uma geração inteira, mas encontra sua explicação naquele “crime perfeito” de que Jean Baudrillard falou de modo convincente: a realidade teria sido substituída pelas representações fictícias que se mostram mais interessantes e envolventes do que os conteúdos dos estudos apresentados de modo inerte.
A hiperrealidade, feita de objetos, mídia, informação, espetáculo, ilusão, é feita de experiências intensas e envolventes, que povoam o mundo dos jovens e constituem um formidável competidor da escola. Esta realidade virtual solicita a imersão total, uma fingida participação em causas que, se fossem realmente enfrentadas, seriam beneméritas, uma espécie de relação imediata com tudo e com todos realizada através da anulação das distâncias dentro de um espaço que engloba tudo no instante.
Disso advém a impressão de uma juventude desmotivada para os estudos, amorfa diante das solicitações escolares, que tende a considerar o estudo como um desempenho dirigido apenas à aquisição da nota e do boletim. Diante do perigo de uma “selvageria” da juventude, resultado da ação da poderosa agência antieducativa constituída pelo mundo das mídias e dos consumos, com seu sedutor mito de uma vida fácil, leve, prazerosa e voluntariosa, faz-se urgente que a vida escolar adquira o valor de experiência cultural, através da qual os jovens possam ampliar a própria capacidade de visão da realidade, experimentar o gosto da descoberta e da conquista pessoal do saber.
De tal modo, experimentando a dimensão real própria da cultura, eles poderão se tornar conscientes dos valores da civilização a que pertencem, desejar as metas mais altas ligadas às próprias atitudes e potencialidades, adquirir uma disciplina que permita a eles perseguir essas atitudes e potenciais com convicção, superando as dificuldades que, necessariamente, se encontram nesse caminho, a ponto de se tornarem protagonistas da própria história pessoal e capazes de contribuir com a própria ação para o bem de todos.
Portanto, a teoria dos dois tempos se mostra fraca: a escola não pode se limitar a uma transferência de noções, mas deve, através do encontro com a cultura, habilitar os jovens a entrar de forma positiva no mundo real, fornecendo a eles pontos de referência, tornando-os conscientes de suas potencialidades, aproveitando as possibilidades de bem, de justiça, de beleza que insistem na realidade, ensinando a eles a conectar o presente com o passado e imaginar o futuro de modo razoável, agindo nele como verdadeiros caçadores e construtores de sentido.
Mas, para fazer isto, assim como ensina Edgar Morin, é preciso superar um sistema didático que aposta no isolamento dos objetos de seu ambiente, na separação das disciplinas, na disjunção dos problemas, mais do que na vinculação e na integração, através de uma abordagem que ajude os jovens a interconectar os conhecimentos separados, sair do local e do particular concebendo conjuntos, capaz de prolongar-se numa ética de solidariedade entre os homens. Assim sendo, será sustentada a atitude para organizar o conhecimento, o ensino da condição humana, o aprendizado da vida e da incerteza, a educação para a cidadania.
Da escola depositária do saber à maiêutica do real – Esta nova abordagem solicita que se passe da informação para a formação, encorajando uma postura ativa quanto ao conhecimento, mais do que uma postura passiva que recorre à mera autoridade. Impulsiona a reencontrar na realidade, de modo seletivo, o material sobre o qual dar sequência à obra da educação.
A União Europeia se faz porta-voz desta passagem, sobretudo quando solicita que se considere como “cultura” todo aprendizado, seja lá qual for o modo como é adquirido (formal, não formal, informal), e propõe que se dote cada cidadão com competências-chave que lhe permitam viver como protagonista na sociedade do conhecimento.
As conseqüências desta mudança consistem no envolvimento da comunidade na tarefa educativa e formativa, e na superação dos currículos formais para optar decisivamente por uma pedagogia do real. Para a Itália, trata-se, particularmente, de evitar cair numa espécie de autoritarismo vazio, para enfrentar a educação para a verdade e, ao mesmo tempo, a educação moral partindo de experiências que permitam uma descoberta pessoal e, portanto, uma relação vital com o saber.
Isto obriga a um modo de fazer experiência do saber que permita à pessoa mobilizar-se diante da realidade, a ponto de poder ser capaz de compreender, se orientar e agir. É preciso mobilizar a pessoa de modo ativo na sua relação com as tarefas-problema, de modo a estimular nela a autonomia, a iniciativa concreta, o definitivo desejo de aprender através do envolvimento pessoal. É isso que se entende por “competências” (Fim da parte 1).

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 29 de março de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

domingo, 11 de julho de 2010

Educação: sabedoria humana e sabedoria de Deus

Pelo Cardeal Jean-Louis Tauran

Publicamos a conferência que o cardeal presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso proferiu no dia 21 de junho passado, por ocasião da reunião, em Beirute, do Comitê científico internacional Oasis. A conferência, dedicada ao tema "Cristãos e muçulmanos diante do desafio da educação", está, ainda hoje, disponível na newsletter da fundação Oasis (www.oasiscenter.eu).

Immanuel Kant afirmava que o homem se torna homem apenas através da educação. Ensinar significa transmitir um saber, uma arte, uma técnica, uma série de habilidades diversas. Educar significa empenhar-se no garantir o desenvolvimento de todas as faculdades (físicas, intelectuais e morais) da pessoa. Ensinar, portanto, é sempre educar, mas educar não equivale automaticamente a ensinar! O que é essencial na educação é tornar cada indivíduo capaz de enfrentar, em particular através da cultura, sozinho ou com outros, os desafios que a sua existência pessoal ou coletiva lhes propuserem.
O artigo 26 da Declaração Universal dos Direitos do Homem fala de um "direito à instrução". Tal direito é mencionado também nos artigos 10, 13 e 14 do Pacto Internacional sobre direitos econômicos, sociais e culturais. Estes artigos reconhecem os seguintes princípios: a família como "elemento natural e fundamental da sociedade" ao qual cabe o provimento da "manutenção e da educação dos filhos que dela dependem" (artigo 10); o objetivo da educação é o pleno desenvolvimento da personalidade humana e do seu senso de dignidade, e o reforço do respeito dos direitos do homem e das liberdades fundamentais (artigo 13); é tarefa da educação tornar cada um capaz de assumir um papel útil em uma sociedade livre e "favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e os grupos raciais, étnicos ou religiosos", contribuindo assim para a paz (artigo 13).
As mesmas ideias estão contidas na Convenção sobre direitos da infância (artigos 23, 28, 29, 40). Se educar é transmitir valores e saberes, o seu vínculo com a religião é evidente e absolutamente natural. De fato, também as religiões ensinam, educam, transmitem: dogmas, livros sagrados, liturgia. Geralmente, elas chamam a atenção ao respeito da pessoa humana, ao respeito dos seus bens (materiais ou morais), além da proteção da natureza... Mesmo se nos dias de  hoje os valores das religiões não são sempre considerados como valores fundamentais, eles inspiram muitos projetos de sociedade, e os crentes, mesmo nos lugares em que são minoria, constituem, porém, minorias que agem e que contam.

Religiões e modernidade
Diria que, hoje, nos encontramos diante de duas crises fundamentais. Uma é a crise da inteligência. Estamos super informados, mas sabemos raciocinar? O rumor, a mobilidade, a selva de mensagens virtuais nos submetem a um verdadeiro e próprio estresse. Muitos encontram dificuldades para organizar os seus conhecimentos. Domina a regra do "tudo e já", a tal ponto que aquilo que se chamava "vida interior" se tornou uma raridade.
A segunda é a crise da transmissão geracional. Os valores familiares, morais e religiosos não são patrimônio óbvio. A ignorância em matéria religiosa cresce na sociedade ocidental. À força de dar ouvidos à famosa pichação nos muros da Sorbonne, em maio de 1968, "Proibido proibir" -, transformamos a nossa terra em uma jangada à deriva. Em uma fase na qual o nosso mundo se apresenta como um espaço globalizado e todas as culturas, nas quais em todos os cantos se encontram os traços do elemento religioso, são colocadas em discussão, não se pode deixar de lado aquela chave de leitura que é constituída da religião: sem ela não é possível compreender a consciência, a história, a fraternidade. Hoje, encontramos muitos jovens que são herdeiros sem herança e construtores sem projeto. Por isso, há quem volte a perorar pela causa do ensino da temática religiosa na escola. 

O retorno
Sob a pressão destas duas crises, assistimos a um retorno do religioso (não falo de um retorno do cristianismo). No Ocidente, os muçulmanos reclamam para si lugares de culto e visibilidade. Atos de violência e homicídios perpetrados em nome de convicções religiosas torna as religiões terríveis. Interrogamo-nos a este respeito. Quer-se saber. Tanto mais que a globalização favorece o diálogo inter-religioso. Algumas iniciativas concretas destruíram os estereótipos: penso na Festa da Anunciação que cai no dia 25 de março de cada ano, como festa nacional, aqui, no Líbano, ou na formação (não religiosa) dos imames da França, garantida pelo Instituto Católico de paris.
Daqui a algumas décadas é provável que o homem dominará a matéria inerte (o globo terrestre, para não falar dos espaços siderais). Sabemos que o domínio da matéria viva progride dia após dia. Mas quando tudo tiver sido explicado, restará ainda por saber quem é, de fato, o homem. Quando dispusermos de todos os instrumentos mais sofisticados, colocar-se-á ainda o problema de seu uso. E depois há ainda o mal e a morte. Todos nos colocamos, cedo ou tarde, sem falta, o problema do sentido e, cedo ou tarde, o "sagrado" se impõe como componente essencial da alma humana.

Os cristãos e a educação
As primeiras escolas monásticas que apareceram no continente europeu foram inspiradas em Platão e Aristóteles, para propor uma educação intelectual e uma formação moral que se fecundassem mutuamente.
Através da elaboração dos conceitos de dever e sacrifício, temperados pelo amor divino (Bergson) e pela conversão do coração, os cristãos foram conduzidos a se ocuparem da liberdade. Assim, a tensão entre liberdade, razão e verdade se colocou no centro da vida intelectual da Idade Média. Dialética e disputatio constituíam o núcleo vital da universitas medieval. Foram os clérigos da Idade Média que difundiram uma educação voltada para a totalidade da pessoa: para eles, não se tratava tanto de aprender uma profissão, mas de formar pessoas capazes de autonomia e de espírito crítico.
A educação cristã também quis ser enciclopédica (totalidade do saber humano). Os mosteiros ordenaram hierarquicamente tudo aquilo que se conhecia das coisas divinas e humanas (mais tarde, Descartes formulará a imagem da árvore do saber). Tudo isso constituía uma preparação para acolher a Revelação do Verbo e da verdade na História. Os cristãos sempre cultivaram a ambição de conciliar razão e fé: "compreender para crer e crer para compreender" (Santo Agostinho).

Muçulmanos e educação
Parece-me que se pode dizer que, para o Islã, a educação consista em uma modelação da alma que deve realizar-se desde a mais tenra idade. São transmitidos valores fundamentais para a criança: a fé e o conhecimento contidos no Corão. Quando a sua alma estiver de tal forma preenchida, não haverá mais espaço para a falsidade. É o papel assinalado à razão, o seu espaço, que diferencia a concepção cristã da educação da muçulmana.

A vida interior
Qual é, portanto, o papel específico das religiões na educação? Transmitir o gosto da vida interior. No fundo, todas as religiões dizem que "o homem não vive somente de pão". Trata-se de desenvolver a capacidade, que há em cada um, de refletir, de organizar o próprio pensamento, de raciocinar (de se servir da razão para conhecer e julgar). "Toda a infelicidade do homem deriva de uma só coisa: o não saber estar tranquilo em um quarto", já escrevia o meu compatriota Pascal. Promover, além do mais, a consciência da própria identidade: o homem é a única criatura que interroga e se interroga. A única que busca "o sentido do sentido" (segundo a fórmula de Ricoeur). O homem se revela a si mesmo como um mistério, o mistério daquilo que ele é, das suas potencialidades, do seu lugar no universo e é, por isso, seu revelar-se a si mesmo como mistério, que a dimensão religiosa aparece inevitavelmente no horizonte.
As religiões favorecem uma pedagogia do encontro. Ajudam a viver a diferença no respeito. Afirmando a minha identidade, descubro que a pessoa que está diante de mim possui igualmente uma identidade, muito diferente da minha. Elas facilitam a aceitação da pluralidade, sustentando, no quadro da família, a mistura das gerações, e promovendo na escola a atenção aos ensinamentos da história e, portanto, às contribuições das diversas civilizações.
Para terminar, as religiões contribuem para a garantia do respeito da pessoa humana e dos seus direitos. Cada um de nós é único, cada um é sagrado. Por isso, ouvimos, aprendemos a exprimir as respectivas identidades não com os punhos e as armas mas com argumentos racionais e razoáveis.

Um desafio comum
Consideremos a juventude no seu conjunto. No âmbito cristão: nas sociedades ocidentais, os jovens frequentemente vivem o cristianismo como uma forma de deísmo mas recentemente aquelas que são chamadas "as novas comunidades" têm dado vida a forma de espiritualidade que produzem uma prática cristã mais motivada e mais missionária, e o afirmar-se de um desejo de receber uma formação doutrinal completa.
No âmbito muçulmano: não se pode não ficar tocado com a visibilidade da prática religiosa, com o modo no qual a religião impregna todas as dimensões da vida de um muçulmano, comunitária e pessoal. Todavia, sublinha-se o fato de o clima de indiferença produzir, entre os muçulmanos jovens, algumas consequências: o secularismo do ambiente pode impulsionar a uma afirmação da identidade religiosa agressiva; o mesmo secularismo pode conduzir ao abandono de todas as práticas religiosas.
É desejável que constatações deste gênero induzam cristãos e muçulmanos a rivalizarem em iniciativas: no nível das elites, estimulando o desejo de se conhecer e se reconhecer. Visto que o diálogo não pode se fundar nas ambiguidades, a educação mostra aqui a sua função fundamental. Os jovens de hoje (cristãos e muçulmanos) deveriam dialogar num plano de igualdade. Por isso, deveria ter as mesmas possibilidades de aceder ao ensino das religiões assim como deveriam conhecer a religião dos outros (é este o problema da religião na escola). As autoridades religiosas deveria ser melhor informadas sobre as outras religiões, de forma a abater os temores e promover um enriquecimento recíproco, compartilhando o melhor das várias tradições espirituais. Não se trata de fazer concessões no terreno da verdade, mas conhecer aquilo que temos em comum. Este conhecimento profundo do outro pode acontecer em vários campos, como o da literatura e da música, para chegar a um aprofundamento da cultural bíblica, corânica, teológica.
Desta maneira, o encontro cuja finalidade é o diálogo permite agir juntos pelo bem comum. Todos juntos podemos agir pelo bem da família, da escola, da Universidade, da empresa.
Não deveria ser impossível, a partir de hoje, que os chefes religiosos cristãos e muçulmanos sensibilizem os legisladores e os professores acerca da oportunidade de fixar regras de conduta como: o respeito pela pessoa que busca a verdade diante do enigma do humano; o senso crítico que permite escolher entre o verdadeiro e o falso; o ensino de uma filosofia humanista que consinta em dar respostas humanas às perguntas relativas ao homem, ao mundo, a Deus; a valorização e a difusão das grandes tradições culturais abertas para a transcendência, que exprimem a nossa aspiração pela liberdade e pela verdade.
Todos juntos, cristãos e muçulmanos (mas eu diria: todos os crentes), temos a possibilidade de compartilhar convicções que tiramos dos nossos respectivos patrimônios espirituais e culturais: a solidariedade que induz a se empenhar a favor dos pobres e dos excluídos; a responsabilidade que nos adverte a não esquecer que responderemos diante de Deus por aquilo que tivermos feito ou omitido fazer pela justiça e pela paz; a liberdade que pressupõe uma consciência firme e uma fé iluminada (fé e razão!); a espiritualidade que chama a atenção para a dimensão religiosa da pessoa humana e ilumina por si a aventura humana; a sede de conhecimentos que torna atentos àquilo que o homem, dotado como é de uma consciência e de uma inteligência, realiza (de bem e de mal); a pluralidade que nos solicita a nos considerarmos diferentes mas iguais, recusando todas as formas de exclusão, particularmente aquelas que invocam, para se justificarem, uma religião ou uma convicção. Podemos fazer todas estas afirmações porque cremos que o homem e a mulher, em todos tempo e em todas as circunstâncias, tenham uma dignidade inalienável e tenham direito à liberdade, ao respeito da sua pessoa e também a uma existência decente.

O patrimônio do homem
A educação no sentido mais amplo da palavra não pode ser avara quanto à dimensão religiosa da pessoa humana. O ensinamento científico e técnico nas últimas décadas se desenvolveu de maneira exponencial assim como as matérias ditas humanistas (filosofia, história, literatura) se tornaram marginais na transmissão cultural. Mas os povos da terra acumularam, por milênios, um patrimônio artístico e literário que é comum a toda a humanidade e que sempre exprimiu crenças religiosas (não existe civilização que não tenha voltado suas atenções para a presença do religioso).
Nós, os cristãos, sabemos que Deus quis fazer-Se conhecer pelo homem em Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Mas, sabemos também que Deus age no coração dos crentes de outras religiões, como o é em cada pessoa humana. Eis porque todos juntos, no respeito às nossas especificidades e nossos itinerários, temos o dever de purificar a nossa memória, não para impor mas para indicar o sentido a ser atribuído para a aventura humana. O homem, encarregado a gestão do planeta, o homem capaz das maiores descobertas, este homem "carnal" é também o mesmo homem que se organiza para levar socorro a todas as vítimas de todas as violências e das catástrofes naturais. Mesmo no meio de todas as contradições da história, o homem é capaz de generosidade! Cristãos e muçulmanos, unamos os nossos esforços para que, no futuro, nunca faltem aqueles homens e aquelas mulheres que, graças a sua coragem, a sua doçura, a sua perseverança, sejam capazes de purificar a sua memória e o seu coração, de modo a agir para que a sabedoria humana se encontre com a sabedoria de Deus. E se fosse essa a educação?

* Texto extraído do L'Osservatore Romano, do dia 07 de julho de 2010 (p. 6). Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Contra os escândalos, Bento prepara a “revolução” dos mestres e dos santos

por Massimo Introvigne

A carta de Carrón nos lembra que os padres pedófilos existem. A muitos de nós agradaria que se tratasse apenas de um sonho feio, ou de calúnias da imprensa laicista. Não é o que escreve Carrón, e não é o que nos ensina o papa. Na magnífica Carta aos Católicos da Irlanda, de 19 de março de 2010, Bento XVI denuncia com voz fortíssima os “crimes horríveis”, “a vergonha e a desonra”, a violação da dignidade das vítimas, o golpe dado à Igreja “a tal ponto ao qual nem sequer séculos de perseguição tinham chegado”. Em nome da Igreja “exprime abertamente a vergonha e o remorso”.
Certo, o papa enfrenta o problema do ponto de vista do direito canônico, confirmando com força que foi a sua “aplicação malograda”, algumas vezes da parte de bispos, não as suas normas como uma certa imprensa laicista pretenderia, a causar a “vergonha”. Certo também, o papa acena para o fato de que o problema da pedofilia não toca apenas – e tampouco principalmente – os sacerdotes, de forma que não é nem malícia que certos setores da mídia concentram o foco sobre a Igreja e sobre o pontífice. Mas, o papa, assim como Carrón, se coloca, em última instância, em um plano diferente. Fala da vida espiritual dos sacerdotes, cujo descuido está na raiz do problema, e para o qual pede que se retorne através da adoração eucarística, das missões, da prática frequente da confissão. E o retorno a Cristo não é apenas para os padres: é para todos nós.
Como uma tragédia tão terrível pode ter acontecido? Aqueles que os americanos e os ingleses chamam the Sixties (“os anos 1960”) – e nós, concentrando-nos sobre o ano emblemático, “o 1968” – aparecem sempre mais como os anos ou o tempo de uma profunda mudança de costumes, com efeitos cruciais e duradouros sobre a religião. Aconteceu, de resto, um 1968 na sociedade e também um 1968 na Igreja: exatamente o ano de 1968 é o ano do dissenso público contra a encíclica Humanae Vitae de Paulo VI.
Com muita perspicácia, um pensador católico brasileiro, Plínio Corrêa de Oliveira (1908-1995), falou de uma “4ª Revolução” – sucessiva à Reforma, à Revolução Francesa e à Soviética – mais radical do que as precedentes, porque capaz de transtornar não apenas o corpo social, mas o corpo humano. Na Igreja Católica, não houve consciência suficiente do alcance esta revolução. Pelo contrário, ela contagiou – explica, na sua carta, Bento XVI – “também sacerdotes e religiosos”, determinou “desentendimentos” na interpretação do Concílio, causou “insuficiente formação, humana, moral e espiritual nos seminários e nos noviciados”. Neste clima, certamente, nem todos os sacerdotes insuficientemente formados ou contagiados pelo clima que se seguiu aos anos 1960, e muito menos um percentual significativo, se tornou pedófilo. E, todavia, este número não é igual – como todos queremos – a zero, e justifica as severíssimas palavras do papa.
O estudo da “4ª Revolução” dos anos 1960, e de 1968, é crucial para entender o que aconteceu depois, a pedofilia inclusive. E, para encontrar remédios reais, a Igreja começou a se mexer. Se esta revolução, diferentemente das precedentes, é moral e espiritual e diz respeito à interioridade do homem, será apenas da restauração da moralidade, da vida espiritual e de uma verdade integral sobre a pessoa humana que poderão, em última instância, vir os remédios. Mas, para isto, os sociólogos, como sempre, não bastam: são necessários os pais e os mestres, os educadores e os santos.

* Extraído do Il sussidiario, do dia 12 de abril de 2010, traduzido por Paulo R. A. Pacheco, sem revisão do autor.