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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Cartas do P.e Aldo 195

Asunción, 3 de junho de 2011.

Caros amigos,
É belo se surpreender sempre mais com o olhar fixo no Mistério e os pés bem plantados na realidade, não importando se devo suar as proverbiais sete camisas, porque o suor é a dramaticidade com a qual se enfrenta a vida.
De volta à casa, como acontece em toda família, a pessoa se encontra com a realidade que, no meu caso, é aquela onde a dor transborda de todos os lados: moribundos, jovens com câncer e com AIDS, velhos abandonados, meninas grávidas ou violentadas, filhos que fogem ou se opõem ao caminho educativo das Casinhas de Belém, colaboradores com tantos problemas pessoais e familiares, pessoas que com a desculpa de ajudar criam mais problemas do que soluções. Nem mesmo coloquei os pés na terra, saindo do avião, e eis o cenário. O meui coração sentiu imediatamente que Deus me pede tudo, que a realidade já é amiga e, por isso mesmo, está sempre pronta a me provocar. Não tive tempo nem mesmo para a saudade do que encontrei na Itália, porque a realidade me faz formigar de uma nostalgia muito maior, infinitamente mais bela: a nostalgia de fixar bem nos olhos do Mistério, aquele Tu que me fazes. No avião eu tinha lido a introdução dos exercícios de Carrón. Imediatamente reconheci descrito, de forma operativa, o meu eu tornado ainda mais inquieto, desejoso, saudoso de vê-Lo. Eu estava cansado, o fuso horário, as confusões... as perguntas, a súplica, a necessidade urgente de não perder de vista, um instante sequer, a alegria pascal, ou seja, a companhia dos “vivos”: Julián de la Morena, Paolino, Padre Martino do Chile e visitor da São Carlos Borromeu na América Latina.
Dor, sofrimento, suor, alegria pascal. Sim, porque a alegria pascal é uma companhia na qual é evidente, claro, luminoso, o carisma que nos foi dado. O abraço destes amigos tornou ainda mais potente para mim a pergunta pelo Infinito que trago dentro de mim.
Assim, pude, tão logo cheguei em casa e desfiz as malas de presentes para as minhas crianças, visitar os doentes, os idosos, os meus filhos mais novos, o pessoal que estava trabalhando, vendo neles, mesmo se os olhos estavam anuviados pelo cansaço, a beleza radiante do rosto de Cristo. Aquele rosto que vi, em cada dia, na Itália, em cada lugar por onde passei.
Há, de fato, em todos os lugares, uma vida que desabrocha, um surplus de vida, de vontade de viver. E é esta vontade de viver que tão logo encontrei Isabel, uma garotinha de 15 anos – e que, numa carta, se define como um “vírus” –, me coloquei de joelhos diante do Mistério, suplicando-lhe que me dê aquela paternidade necessária para comunicar a ela a alegria de ser um dom. Um fato que me obriga a estar diante dEle, se verdadeiramente amo esta filha, porque sem esta minha posição não conseguirei lhe comunicar nada, não poderei lhe mostrar que também para ela existe a possibilidade de passar da consciência de ser um “vírus” à certeza “de amei-te com um amor eterno, tendo piedade do teu nada”.
A mesma posição eu senti como necessária quando, visitando a casa onde vivem algumas garotas grávidas (uma de 12 anos está no oitavo mês) e outras que acabaram ter seus filhos, saudando-as com afeto, depois de 15 dias sem as ver, não obtive sequer um olhar delas. Uma vez mais, vi em seus rostos a raiva da vida, de todos. Senti ternura por elas, da mesma forma que o Mistério sente por mim, olhando-me continuamente, acolhendo-me, porque “antes de ser concebido no ventre de minha mãe, Ele pronunciou o meu nome, fez de mim sua propriedade, teve piedade do meu nada, amando-me de um amor eterno”. E, então, eu as saudei dizendo: “Voltarei amanhã e vamos ficar juntos”.
No dia seguinte, o milagre: uma delas, depois de três meses conosco, se aproximou e me deu um beijo. Não somente isso, mas mesmo a sua feminilidade, antes destruída, se refez. Quando ela chegou aqui, com a sua barriga maior do que ela (que tem apenas 15 anos), estava suja, desarrumada, destruída pelo crack; agora, não tem mais nem sinal daquela menina perdida. Bonita, cabelos longos bem penteados, unhas pintadas, vestida como as garotas de hoje etc. Além do mais, vive para a sua filha.
Veio-me em mente aquilo que Dom Giussani disse em “É possível viver assim?”: a moralidade é olhar no rosto a Jesus... então, tudo se torna ordenado, a pessoa se penteia de certa maneira, abotoa seus botões, tem vergonha se está com sapatos sujos e diz “perdoe-me por estar assim desarrumado”.
Hoje, chegou outra garota que está no terceiro ano do ensino médio e está no terceiro mês de gravidez. Esta noite, faremos a festa com as outras para lhe dar as boas vindas. É Jesus que chegou com uma trouxinha na barriga. Olho para ela, é pequena, magra, os olhos verdes, e sinto uma ternura infinita. Outro caso de pedofilia. Mas, tenho a certeza – porque há anos a toco com a mão – que também para ela a certeza do Cristo ressuscitado triunfará. Não existe problema, por mais violento, que não encontre em Cristo a vitória
Certamente, trata-se de uma luta e de uma dor contínuas, mas esta é a condição para estar, instante após instante, diante do Mistério. A dor é tanta (também hoje, na clínica, morreu uma jovem mãe com quatro filhos) e, às vezes, parece me arrastar, no entanto, dentro de tudo isto encontro o repetir contínuo de “eu sou Tu que me fazes”, que muda tudo, e tudo se torna motivo de letícia, porque tudo, exatamente tudo, se torna positivo, porque tudo se torna grito, reconhecimento do Ser que me faz em cada momento, e por quem bate o meu coração.
Padre Aldo

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

“Tenho a graça de ser miserável”. Padre Aldo Trento fala de si mesmo



Entrevista feita com Aldo Trento, por Marina Corradi

A entrevista de Marina Corradi feita com Padre Aldo Trento está contida no livro deste último, Os dez mandamentos, que é o primeiro título da coleção Lindau Os livros de Tempi. O volume estará a venda por € 10,00 no estande de Tempi, no Meeting pela amizade entre os povos (de 22 a 28 de agosto, na Feira de Rímini, pavilhão C3).

Abril de 2010. Padre Aldo Trento está de passagem por Milão. Eu o encontro na casa de um amigo seu, em Concorezzo. Nunca havia conversado com ele cara a cara. Fiquei tocada com o seu rosto simples e com seus olhos claríssimos, com algo de infantil. Estas são algumas das perguntas que lhe fiz e suas respostas.

O que não entendo é como você faz para falar de Cristo como se fosse de uma Presença absolutamente concreta. É algo que me maravilha. Eu não vejo Jesus Cristo. Eu O procuro, O persigo, mas não é uma Presença como você, agora, é para mim. Entendo muito bem o Barrabás de Lägerkvist, que, depois de ter rodado por muito tempo em volta do Gólgota, diz cansado: “Desejei acreditar”. Para mim, mesmo no desejo, Jesus Cristo permanece frequentemente um fantasma.
Também comigo, antes, acontecia isso que você diz. O que deu concretude a Cristo foi o modo com o qual Giussani me olhou, o modo com o qual me acolheu e acompanhou. Através do olhar de Dom Giussani, Cristo se tornou uma Presença concreta ao meu lado.

Ok! Você conheceu Giussani, porém nem todos os que encontraram Giussani chegaram a uma certeza de fé igual à sua. Enquanto que tantos homens não encontram nem Giussani nem alguma testemunha credível de Cristo. O que vai ser dessas pessoas?
Acredito que quem conhece um cristão autêntico e continua o seu caminho tranquilamente é um burguês, que, no fundo, tem sobre a vida uma pergunta modesta. Quanto àqueles que não encontram ninguém, penso que esteja em ação uma espécie de seleção natural sustentada pela intensidade da pergunta pelo sentido. Se a pergunta é, de fato, forte, um homem procura e procura: enquanto não encontrar.

E estes últimos, são prediletos? Os prediletos existem?
Que existam é a própria Escritura que o testemunha, e são aqueles que Deus mais castiga, para que não parem de procurá-Lo.

Você disse, há dois anos, no Meeting: a depressão é uma graça. A depressão, como você sabe muito bem, é também um profundo sofrimento. Graça, portanto, por quê?
Para mim, foi o que me moveu a procurar para além dos meus limites, da minha miséria, da minha ideologia juvenil. De maneira mesmo atroz: por anos eu não dormi, quase cheguei a bater a cabeça na parede de desespero, desejava morrer. Mas a depressão foi a ferida que manteve aberto o meu pedido por Cristo. Hoje, quem tem um sofrimento psicológico acredita que está doente e vai ao médico. Mas, eu não acredito que sejamos todos doentes. É que não suportamos aquilo que mantém aquela ferida aberta: seja a depressão, uma doença, ou mesmo o se apaixonar por alguém de quem não deveríamos. Queremos eliminar o mais rápido possível os problemas. Ou talvez queremos ser “bravos”, mas apenas moralisticamente. Giussani, a este respeito, era radical: nunca convidava a se retirar do problema, mas sempre a ir a fundo, a enfrentar aquilo que se nos colocava como desafio. Ele me disse: se tivesse que não dormir por ano e isto servisse para manter vivo o seu pedido por Cristo, eu lhe diria que não dormisse. Porém, a nossa tendência é sufocar as feridas, anestesiá-las, manter adormecida a pergunta.

[Este homem, pensem, é de uma radicalidade que fascina e dá medo.] Você fala e mostra que vive de uma única razão, Jesus Cristo. Mas tente olhar para a vida da maior parte dos homens de hoje, que parecem fazer de Cristo, ou seja, do sentido último, algo de menos. Como você julga alguém que, não acreditando em Deus, na dificuldade ou na velhice, ou mesmo apenas no vazio que percebe, seja mais ou menos educadamente desesperado?
Eu o julgo razoável. Em alguém que está convencido de que é sozinho no mundo e que caminha em direção ao nada, o desespero me parece um sinal de lucidez, um sinal de que a pessoa não está contando estórias.

Portanto, é um ou outro: ou se vive em Cristo, ou não há nada pelo que, de fato, viver.
Sim. É um ou outro.

Escute: mas, se há vinte anos atrás, quando você estava dramaticamente deprimido, tivessem cuidado de você com os melhores psicofármacos, se tivessem colocado você “no eixo” e você tivesse ficado mais sereno, como você seria hoje?
Não sei. Não seria como agora e acredito firmemente que Deus tenha “querido” isto para fazer o que fez. Não teria procurado como procurei. Agora, posso dizer que aquele sofrimento, que foi mesmo muito grande, teve um sentido: nos moribundos que assisto, assim como em tantos que me escrevem pedindo ajuda como a um pai. Agora, posso entender as “noites da alma” de que falam alguns santos. Entendo aquele escuro, que é um vazio tendido a provocar um pedido mais intenso.

Mas, então, quer dizer que não é preciso cuidar da depressão? Parece-me uma ideia perigosa.
Eu seria um masoquista se respondesse que não precisa. Deus nos criou para sermos felizes, não para sofrer, e muito menos para sofrer dessa doença existencial que arranca não apenas o gosto, mas também o desejo de viver. O problema é acolher essa doença, como qualquer outra, como uma possibilidade de redenção, de purificação, como ocasião para dizer com toda a própria liberdade “sim” a Cristo, olhando-O no rosto. Como a razão e a fé caminham juntas, assim também a fé não pode não favorecer e sustentar todas aquelas possibilidades que a medicina oferece para aliviar ou vencer a dor, quando é possível. Porém, sempre lembrando sempre que, neste mundo, a dor e a morte sempre acompanham o homem. De forma que o único sentido da dor só pode ser acolhido olhando para o Crucifixo e para Cristo ressuscitado.

Padre Aldo, são muitos os que escrevem para você?
Muitíssimos. Recebi, desde o Meeting de 2008, milhares de emails. Foi como se, faland de depressão naquele contexto e afirmando que a depressão poderia ter um sentido bom, uma panela de pressão estourasse. Uma explosão. Quantos foram aqueles que se sentiram autorizados a pedir uma palavra sobre o sofrimento ou pedir um conselho. Muitíssimos jovens. Os jovens me comovem: estamos habituados a dizer que os jovens são infelizes. Não, os infelizes são os pais, somos nós, que lhes demos tão pouco de bom. Eles são filhos iguais aos filhos de todas as gerações e, talvez, mais sedentos: são, pelo contrário, puro pedido.

Tem outras coisas que não entendo. Você sempre escreve sobre a sua casa em Asunción e sobre os moribundos que está internados lá. Portanto, você vê todos os dias uma quantidade de dor que, para mim, é inimaginável. Como você consegue, diante de tanta dor, sustentar que a vida seja um bem, um dom pelo qual devemos ser gratos a Deus? (Eu, desde menina, pensava que nascer fosse uma desgraça).
Também eu, por muito tempo, pensei que a vida fosse um mal e passei momentos nos quais não conseguia ficar, se não com muito esforço, diante dos meus pais, vendo neles, pelo fato de me terem colocado no mundo, o principal fator do meu sofrimento. Somente no abraço de Cristo, no abraço reconhecido, eu entendi finalmente que nascer é um dom.

Mas, no que consiste este dom? Hoje, talvez mais evidentemente, tantas pessoas duvidam que a vida seja um dom.
Que a vida seja um dom eu não entendi a priori, porque me tenham ensinado no catecismo; quando eu conheci o “mal do viver”, não suportei mais os discursos sobre o “dom da vida”, pelo contrário, os refutava. Só consegui acolher a dor como um dom para mim, quando fiz a experiência daquilo que Giussani definia como “eu sou Tu que me fazes”, ou seja, comecei a olhar para mim mesmo com os olhos do Tu, do Mistério. Via o meu eu florescer e, em torno de mim, via crescer seus frutos nas obras de caridade que enchem essa paróquia. Somente quando aquele cúmulo de entulhos, que era o meu eu, foi colocado numa unidade graças a um encontro e, depois de longos anos de paciência, comecei a rir de mim mesmo e olhar para mim com simpatia é que tudo desabrochou, como um dom imprevisto, como uma letícia que me acompanha.

Padre Aldo, você não tem medo da morte?
Espero morrer como os meus doentes: abraçado.

Mas, eu penso no depois, no que tem depois, no Além. Como você pensa nisso?
Acredito que seja uma ulterior e eterna pergunta e um ser saciados sem fim. Pedir e ser saciados, numa dinâmica contínua de desejo e satisfação. De outro modo, o Paraíso seria tedioso. Será um pedir e ser sempre abraçados de novo. Porém, sem a dor.

O que você pensa sobre o escândalo da pedofilia na Igreja?
Olha só, o fato é que eu não consigo não experimentar piedade também pelos pedófilos. Porque sei, pela minha experiência em Asunción, que frequentemente eles mesmos são filhos de violências. Porque acredito que eu também, se Deus não tivesse Sua mão sobre a minha cabeça, poderia ser capaz de grandes pecados. Quem tem plena consciência da própria miséria não sabe mais acusar, apontar o dedo e gritar pedindo o apedrejamento. Quem tem consciência da própria miséria tem piedade.

Quem é, para você, o diabo? Como ele age sobre os homens?
O Demônio é o que ensinam a Escritura e a Igreja. Porém, prefiro não falar sobre ele, não evocá-lo. É muito forte, para mim, a memória dos pesadelos e das obsessões que me perseguiram por anos. Eu peço, todos os dias, a Deus para morrer sem fazer mal a mim mesmo, aos outros e à Igreja.

Mas, você não se pergunta por que existe a dor, por que o mundo é cheio de dor?
Não acredito que algum homem possa ser santo ou atingir a sua maturidade sem a dor, sem enfrentar a sua cruz. Não tem atalho: tem que passar por ali.

Eu tenho horror da dor, desde que perdi minha irmãzinha quando ainda era uma criança. Tenho medo que meus filhos me sejam arrancados.
Pense, porém, que Deus nunca nos pede provas maiores do que aquelas que um homem é capaz de suportar, provas que aquele home não possa suportar.

Ok. Se Cristo fosse aquela Presença concreta de que você fala, isso mudaria a vida de verdade. Mas sempre tem também o fato de “não vê-Lo”.
Você diz que não vê porque não pode tocar e medir, porque você está dentro, como todos, da nossa cultura positivista. Mas, se você olha o que acontece com os nossos doentes que se convertem, em Asunción, você é obrigada a dizer que há neles uma cura autêntica. Então, se age, “existe” (é verdadeiro); se age, Cristo é verdadeiro.

O que faz bem, o que muda o homem para melhor?
Segundo penso, como minha mãe me ensinou, confessar-se frequentemente. A confissão muda e cura. E a Eucaristia muda a pessoa ontologicamente: o corpo de Cristo, em nós, nos muda.

No cotidiano, nas ações talvez banais de todos os dias, o que pode fazer bem?
O aderir à realidade. Nunca fugir dela, nunca se refugiar nos próprios pensamentos, fechar-se no próprio quarto, isolar-se. Estar diante da realidade que nos é dada, enfrentá-la. Observar muito. Para mim, fazia bem olhar para as árvores, as plantas e descrever tudo por escrito. Para sair das minhas obsessões. Estar tenazmente na realidade, que é a circunstância na qual Cristo se nos apresenta naquele momento. Quem me ensinou isso foi Giussani, e é o mesmo olhar que eu encontro em Padre Julián Carrón e em Padre Massimo Camisasca.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 29 de julho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sábado, 3 de julho de 2010

No Getsêmani, casa da Igreja, sinto-me como Pedro com a espada

Por Padre Aldo Trento

Ao diretor do Jornal Il Foglio
Aqui também chegaram as notícias do que está acontecendo na Bélgica, onde não apenas se faltou com o respeito pela Igreja, como se renovou o famoso Ultraje de Anagni [o autor refere-se a um episódio que aconteceu na cidade de Anagni (comuna da região do Lácio, na Itália), no dia 7 de setembro de 1303, quando Sciarra Colonna esbofeteou o Papa Bonifácio VIII, por causa de uma disputa entre a monarquia absolutista do rei francês Felipe, o Belo e a doutrina teocrática do Papa Bonifácio VIII; ndt], da mesma forma que aconteceu com a setença da Suprema Corte dos EUA. A Igreja e o Santo Padre são sempre mais alvo de uma campanha de ódio, diabolicamente organizada. Ferem-nos muito. Mais de um tem se perguntado com preocupação: o que será do futuro da Igreja? Certamente, esquecendo-se das palavras de Jesus: "Non praevalebunt". Para mim, tudo isto, além de ser motivo de dor imensa, confesso, suscita também uma certa raiva, uma certa reação como a de Pedro no Getsêmani quando, tomado pela paixão por Jesus e por seu temperamento, para defender o Mestre, tomou a espada e, com um golpe bem dado, cortou a orelha do servo do Sumo Sacerdote. Pensava ter feito um gesto bom, heroico, mas Jesus, cheio de angústia e com o rosto coberto de sangue, chama a sua atenção: "Pedro, recoloca a espada na bainha. Não deves beber o Cálice que o Pai me consignou?". A história continua. Aquilo que aconteceu a Jesus naquela noite, no horto do Getsêmani, é o que está acontecendo agora com a Igreja. Esta cadeia de ódio, esta concertação de acusações bem preparada, bem organizada e ainda melhor finalizado pelo poder diabólico do momento, têm como fim destruir a Igreja. Mas a Igreja, certamente, acabará na cruz, como há 2000 anos atrás, mas ressucitará no terceiro dia (e todo dia é o terceiro dia). O horto das Oliveiras é um dos lugares nos quais a Igreja e o Santo Padre têm sua residência cotidiana. Sempre existirão amigos cheios de sono que não lhe farão companhia, sempre existirá a Sua voz que pede conforto, sempre existirão capangas, policiais, magistrados que, por um motivo ou outro, encontrarão uma razão para aprisioná-la, julgá-la, condená-la; sempre existirá o Judas do momento; sempre existirá o impetuoso Pedro que chega a arrancar a espada; sempre existirão os processos, nos quais se lavam as mãos, nos quais se prefere Barrabás e ela é condenada à morte. Tudo isso é o cotidiano da Igreja.
Porém, não é este o fato definitivo, a última palavra, porque Cristo ressuscitou e, se Cristo ressuscitou, tudo isto faz parte do caminho glorioso da Igreja. A Igreja é o Mistério Pascal que se renova continuamente. Nunca, como nestes momentos, a certeza de que Cristo ressuscitou nos faz vibrar mais de alegria, de entusiasmo, disponíveis mesmo ao martírio pela Igreja, se Deus nos pedir isso. A nossa força não está nas sentenças dos tribunais ou nos compromissos judiciais ou nas barganhas. A nossa enorme energia está apenas na grande certeza: Cristo ressuscitou. Nunca, como nestes momentos, enquanto tantos estão com medo e pensam que a Igreja possa ceder; nunca, como agora, quando as forças do mal estão mais unidas no ataque feroz, a beleza do rosto de Cristo é mais viva entre nós e conosco. Enquanto todos estão com os olhos fixos nos jornais para procurar a última estupidez, nós temos os olhos fixos em Cristo, neste Tu que domina tudo. Que graça, nestas horas difíceis, poder dizer com infinita doçura: "Quem és Tu, ó Cristo, que nos dás estas provações, através das quais nos perguntas como a Simão 'Tu me amas?', e nos dás a graça e a alegria de responder-Te ainda uma vez: 'Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que eu Te amo'". Gostaria que o Santo Padre soubesse que não apenas eu, mas todos os meus hóspedes, crianças e velhos abandonados por todos, doentes terminais destas pequenas cidades da caridade, estamos oferecendo a nossa vida por Ele e pela Igreja. Amigos, quanto mais a tempestade enfurece, tanto mais o nosso olhar deve permanecer pregado ao "Tu, ó Cristo" do qual nada nos poderá separar. O que aconteceu é gravíssimo e indigno do homem, da razão, do direito; mas, onde não há Cristo - ou pior: onde se quer eliminar o fato histórico e contemporâneo de Cristo -, tudo isto é inevitável. Mas, ninguém nos impedirá de dizer "Tu, ó meu Cristo".

* Extraído do jornal Il Foglio, do dia 01 de julho de 2010 (p. 4). Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A barca de Pedro


Por Pigi Colognesi

Amanhã será a festa de São Pedro, a festa do Papa. Há muito tempo se diz que a barca, cujo timoneiro é o Primeiro dos Apóstolos, atravessa águas agitadas e é sacudida de dentro por movimentos imprudentes que a fazem balançar. Nos jornais, aparecem sucessivamente investigações e furos jornalísticos variadamente credíveis e documentados; em muitos sopra o cheiro macabro de quem – como um abutre – se satisfaz apenas quando consegue manchar e destruir. Multidões de comentaristas se exercitam em pontificar – é mesmo necessário usar este termo – sobre causas e remédios da presumida “crise”; deixando frequentemente no leitor a amarga impressão de que estão falando de algo que, no fundo, não lhes interessa, algo do que, arrogantemente, saem fora. Como o fariseu do Evangelho que olhava de alto a baixo as misérias do pobre publicano, no fundo da igreja, pedindo perdão de seus pecados.
Do seu lugar, o atual sucessor de Pedro não cessa de manter o timão da barca firmemente apontado em direção à meta. Com coragem, lembra o essencial; como quando, em Lisboa, disse: “muitas vezes nos preocupamos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista”. Sem hesitar, pede a nós, filhos da Igreja, a coragem de reconhecer o nosso pecado e fazer, seguros da misericórdia de Deus, a penitência necessária para purificar a barca da “sujeira” que nós mesmos trouxemos para ela e dos pesos que tornam difícil a sua navegação.
Um dos inúmeros comentários que os jornais dedicaram ao mundo católico tinha o seguinte título: “A Igreja do papa Ratzinger se salvará?”. Esteja tranquilo, jornalista (admitindo que isto lhe interessa, de fato): se salvará. E não tanto porque na sua história milenar tenha assistido a tempestades tão difíceis quanto a que está atravessando agora, ou porque tenha experimentado dolorosamente, no seu seio, divisões e traições muito mais graves do que as atuais. Salvar-se-á porque não é como uma multinacional que sofreu um revés nos negócios ou cujo administrador fugiu com o caixa; não é uma associação de pessoas bem intencionadas que perseguem um objetivo nobre e, de repente, se veem ultrapassados por outros naquele objetivou ou descobrem que alguns dos sócios pensas as coisas por conta própria; não é uma academia de estudiosos cujas teorias podem ser colocadas em discussão por qualquer das novas descobertas ou falhas de um experimento. Simplesmente, a Igreja – corpo de Cristo na história – está já salva e esta salvação é oferecida continuamente a todos.
Que, depois, a história tenha ido contra ela, castigando-a ou perseguindo-a, ou mesmo lhe tenha tributado triunfos e reconhecimentos, quem sabe até interessados, não muda a substância. Poderia acontecer como no final do Relato do Anticristo de Vladimir Soloviov: os habitantes da barca, reduzidos a poucos fiéis, o mundo que se desinteressa da proposta dos cristãos, os traidores que se multiplicam atraídos pelas seduções do poder ou oprimidos pelo medo. Sempre restaria a certeza inabalável no timoneiro; não por sua capacidade, mas porque foi eleito para isso. Sempre restaria alguém que teria a coragem de responder ao imperador do momento (e a seus cúmplices): “Grande soberano, o que temos de mais caro no cristianismo é Cristo mesmo. Ele mesmo e tudo o que vem dEle, já que sabemos que nEle habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 28 de junho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Cartas do P.e Aldo 148

Asunción, 16 de junho de 2010.

Caros amigos,
Nestes meses, o artigo de Carrón – “Feridos, voltamos a Cristo” – foi o coração com o qual viver tudo. Um trabalho duro, mas muito bonito que não apenas incidiu em todos nós mas também nas minhas filhas, vítimas dos pais pedófilos. Uma vez mais, toquei com a mão o fato que, trabalhando seriamente sobre aquilo que Julián nos propõe (pensem na profundidade e na beleza do artigo, que foi publicado n’O Observatório Romano, sobre nós, padres: quem jamais nos falou assim, a não ser o Gius ou, agora, Julián?), o homem velho cheio de preconceitos, de esquemas, de moralismo etc. deixa o lugar para o homem novo. O homem novo gera homens novos que olham para a realidade com os olhos de Cristo.
Outro dia, uma filha minha de 9 anos, violentada e vítima de outras perversões por parte do pai (eu o chamo  de “pai” porque sempre tive presente as palavas de Deus quando diz: “Antes de conceber-te no ventre de tua mãe, Eu pronunciei o teu nome”. De forma que, mesmo este pobre coitado foi o meio através do qual Deus se serviu para que esta menina viesse ao mundo), se aproxima e me diz: “Sabe, padre Aldo? Olhando Jesus, eu perdoo todo o mal que meu pai me fez, mas fique comigo sempre aqui. Peço também que me confesse, porque no meu comportamento sou violenta e digo todos os palavrões que aprendi antes de vir para cá, junto com o senhor. Eu não quero estas coisas, mas não consigo evitar. Ajude-me”. Amigos, vocês têm ideia do juízo que estas palavras – “perdoo meu pai que abusou de mim” – carregam sobre cada um de nós? Mas, isso não é fruto do acaso, mas do fato de nós, educadores, termos o coração cheio daquelas palavras de Carrón. Palavras que me fazem abraçar vítimas e abusadores, sem tirar nada da responsabilidade de quem é o abusador... Mas, a “misericórdia divina tem braços grandes que acolhem todos que se dirigem a ela”.
Amigos, neste momento, temos necessidade apenas de reconhecer que somos pobres coitados, porém comovidos pela ternura de Deus. Como é possível não chorar de alegria fazendo Escola de Comunidade e ouvindo com que paixão Julián nos faz vibrar? Se não fosse assim, a minha vida com toda a carga de sofrimento que me circunda, seriauma coisa absurda. Enquanto que, vivendo circundado por amigos como Marcos, Cleuza, Julián de la Morena e muitos outros que estão aqui comigo, este lugar de dor, de acolhimento de vítimas de violência de todo tipo e da morte, esse lugar se torna a evidência de que Cristo ressuscitou. É bonito ver que a obra não nasce de um projeto, mas é um parto da realidade, a quem a liberdade é chamada a responder.
De verdade, a nossa não é uma companhia das obras, mas uma companhia de rostos tendidos ao Mistério que se torna obra; tanto é verdade que, mesmo os problemas mais duros – como o educar estas crianças vítimas da violência – se tornam simples e acabam acontecendo aqueles milagres comoventes, como crianças que, mesmo que profundamente marcadas, perdoam aqueles que abusaram delas.
Um abraço,
Padre Aldo.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Encerramento do Ano Sacerdotal

Santa Missa

Homilia de Bento XVI

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus
Praça de São Pedro
Sexta-feira, 11 de junho de 2010

Prezados irmãos no ministério sacerdotal,
Amados irmãos e irmãs,

O Ano Sacerdotal que celebramos 150 anos depois da morte do Santo Cura d’Ars, modelo do ministério sacerdotal no nosso mundo, está para terminar. Deixamo-nos guiar pelo Cura d’Ars, para voltarmos a compreender a grandeza e a beleza do ministério sacerdotal. O sacerdote não é simplesmente o detentor de um ofício, como aqueles de que toda a sociedade tem necessidade para nela se realizarem certas funções. É que o sacerdote faz algo que nenhum ser humano, por si mesmo, pode fazer: pronuncia em nome de Cristo a palavra da absolvição dos nossos pecados e assim, a partir de Deus, muda a situação da nossa vida. Pronuncia sobre as ofertas do pão e do vinho as palavras de agradecimento de Cristo que são palavras de transubstanciação – palavras que O tornam presente a Ele mesmo, o Ressuscitado, o seu Corpo e o seu Sangue, e assim transformam os elementos do mundo: palavras que abrem de par em par o mundo a Deus e o unem a Ele. Por conseguinte, o sacerdócio não é simplesmente "ofício", mas sacramento: Deus serve-Se de um pobre homem a fim de, através dele, estar presente para os homens e agir em seu favor. Esta audácia de Deus – que a Si mesmo Se confia a seres humanos; que, apesar de conhecer as nossas fraquezas, considera os homens capazes de agir e estar presentes em seu nome – esta audácia de Deus é o que de verdadeiramente grande se esconde na palavra "sacerdócio". Que Deus nos considere capazes disto; que deste modo Ele chame homens para o seu serviço e Se prenda assim, a partir de dentro, a eles: isto é o que, neste ano, queríamos voltar a considerar e compreender. Queríamos despertar a alegria por termos Deus assim tão perto, e a gratidão pelo fato de Ele Se confiar à nossa fraqueza, de Ele nos conduzir e sustentar dia após dia. E queríamos assim voltar a mostrar aos jovens que esta vocação, esta comunhão de serviço a Deus e com Deus, existe; antes, Deus está à espera do nosso "sim". Juntos com a Igreja, queríamos novamente assinalar que esta vocação devemos pedi-la a Deus. Pedimos operários para a messe de Deus, mas este pedido a Deus é simultaneamente Deus que bate à porta do coração de jovens que se considerem capazes daquilo de que Deus os considera capazes. Era de esperar que este novo resplendor do sacerdócio não fosse visto com agrado pelo "inimigo"; este teria preferido vê-lo desaparecer, para que em definitivo Deus fosse posto fora do mundo. E assim aconteceu que, precisamente neste ano de alegria pelo sacramento do sacerdócio, vieram à luz os pecados dos sacerdotes – sobretudo o abuso contra crianças, no qual o sacerdócio enquanto serviço da solicitude de Deus em benefício do homem se transforma no contrário. Também nós pedimos insistentemente perdão a Deus e às pessoas envolvidas, enquanto pretendemos e prometemos fazer tudo o possível para que um tal abuso nunca mais possa suceder; prometemos que, na admissão ao ministério sacerdotal e na formação ao longo do caminho de preparação para o mesmo, faremos tudo o que pudermos para avaliar a autenticidade da vocação, e que queremos acompanhar ainda mais os sacerdotes no seu caminho, para que o Senhor os proteja e guarde em situações penosas e nos perigos da vida. Se o Ano Sacerdotal devesse ser uma glorificação do nosso serviço humano pessoal, teria ficado arruinado com estas vicissitudes. Mas, para nós, tratava-se precisamente do contrário: sentir-se agradecidos pelo dom de Deus, dom que se esconde em "vasos de argila" e que sem cessar, através de toda a fraqueza humana, concretiza neste mundo o seu amor. Assim consideramos tudo o que sucedeu como um serviço de purificação, um serviço que nos lança para o futuro e faz agradecer e amar muito mais o grande dom de Deus. Deste modo, o dom torna-se o compromisso de responder à coragem e à humildade de Deus com a nossa coragem e a nossa humildade. Nesta hora, a palavra de Cristo, que proclamamos no cântico de entrada desta liturgia, pode dizer-nos o que significa tornar-se e ser sacerdotes: "Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de Mim, que Eu sou manso e humilde de Coração" (Mt 11, 29).
Celebramos a festa do Sagrado Coração de Jesus e, com a liturgia, por assim dizer lançamos um olhar dentro do Coração de Jesus que, na morte, foi aberto pela lança do soldado romano. Sim, o seu Coração está aberto por nós e aos nossos olhos; e deste modo está aberto o Coração do próprio Deus. A liturgia dá-nos a interpretação da linguagem do Coração de Jesus, que fala sobretudo de Deus como pastor dos homens e, deste modo, manifesta-nos o sacerdócio de Jesus, que está radicado no íntimo do seu Coração; indica-nos assim o perene fundamento e também o critério válido de todo o ministério sacerdotal, que deve estar sempre ancorado no Coração de Jesus e ser vivido a partir dele. Hoje, queria meditar principalmente sobre os textos com que a Igreja em oração responde à Palavra de Deus apresentada nas leituras. Nestes cânticos, compenetram-se palavra e resposta; por um lado, são tirados da Palavra de Deus, mas, por outro e simultaneamente, são já a resposta do homem à referida Palavra, resposta na qual a própria Palavra se comunica e entra na nossa vida. O mais importante destes textos na liturgia de hoje é o Salmo 22 (23) – "O Senhor é meu pastor" –; nele Israel acolheu em oração a auto-revelação de Deus como pastor e dela fez a orientação para a sua própria vida. "O Senhor é meu pastor, nada me falta": neste primeiro versículo, exprimem-se alegria e gratidão pelo fato de Deus estar presente e Se ocupar de nós. A leitura tirada do Livro de Ezequiel começa com o mesmo tema: "Eu próprio tomarei cuidado das minhas ovelhas, Eu é que hei de olhar por elas" (Ez 34, 11). Deus, pessoalmente, cuida de mim, de nós, da humanidade. Não fui deixado sozinho, perdido no universo e numa sociedade onde se fica cada vez mais desorientado. Ele cuida de mim. Não é um Deus distante, para Quem contaria muito pouco a minha vida. As religiões da Terra, por aquilo que nos é dado ver, sempre souberam que, em última análise, só há um Deus; mas este Deus era distante. Aparentemente, Ele deixava o mundo abandonado às outras potestades e forças, às outras divindades. Com estas, era preciso encontrar um acordo. O Deus único era bom, mas distante. Não constituía um perigo, mas tampouco oferecia uma ajuda. Assim, não era necessário ocupar-se dEle. Não era Ele que dominava. Por estranho que pareça, este pensamento ressurgiu no Iluminismo. Que o mundo pressupõe um Criador, ainda se compreendia. Este Deus teria construído o mundo, mas depois, evidentemente, retirou-se dele. Agora o mundo tinha um conjunto próprio de leis, segundo as quais se desenvolvia e nas quais Deus não intervinha, nem podia intervir. Deus era apenas uma origem remota. Muitos talvez não desejassem sequer que Deus cuidasse deles. Não queriam ser incomodados por Deus. Mas, sempre que a solicitude e o amor de Deus são sentidos como incômodo, o ser humano acaba subvertido. É bom e consolador saber que há uma pessoa que me ama e cuida de mim; mas muito mais decisivo é que exista um Deus que me conhece, me ama e Se preocupa comigo. "Conheço as minhas ovelhas, e elas Me conhecem" (Jo 10, 14): diz a Igreja, antes do Evangelho, tomando uma palavra do Senhor. Deus conhece-me, preocupa-Se comigo: este pensamento deveria fazer-nos verdadeiramente felizes; deixemo-lo penetrar profundamente no nosso íntimo. Então compreenderemos também o que significa isto: Deus quer que nós, como sacerdotes, num pequenino ponto da história, compartilhemos as suas preocupações pelos homens. Como sacerdotes, queremos ser pessoas que, em comunhão com a sua solicitude pelos homens, cuidamos deles e lhes fazemos experimentar concretamente esta solicitude de Deus. E o sacerdote, no âmbito que lhe está confiado, deveria poder dizer juntamente com o Senhor: "Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem". O sentido deste "conhecer", na Sagrada Escritura, nunca é simplesmente o de um saber exterior, como quando se conhece o número do telefone de uma pessoa; mas "conhecer" significa estar interiormente próximo do outro, amá-lo. Nós havemos de procurar "conhecer" os homens por parte de Deus e em ordem a Deus; havemos de procurar caminhar com eles pela estrada da amizade de Deus.
Voltemos ao nosso Salmo. Lá se diz: "Ele me guia pelo caminho mais seguro para glória do seu nome. Passarei ravinas tenebrosas e não temo; Vós estais comigo, o vosso cajado me sossega" (22, 3-4). O pastor indica a estrada certa àqueles que lhe estão confiados. Vai à sua frente e guia-os. Por outras palavras: o Senhor mostra-nos como se realiza de modo justo o ser homens. Ensina-nos a arte de ser pessoa. Que devo fazer para não me afundar, para não desperdiçar a minha vida com o que não tem sentido? Esta é precisamente a pergunta que cada homem se deve colocar a si mesmo, válida em cada período da vida. E como é grande a escuridão à volta de tal pergunta, no nosso tempo! Vem-nos sempre de novo à mente aquela atitude de Jesus, que Se enchera de compaixão pelos homens, porque eram como ovelhas sem pastor. Senhor, tende piedade também de nós! Indicai-nos a estrada! A partir do Evangelho, sabemos isto: Ele mesmo é o caminho. Viver com Cristo, segui-Lo: isto significa encontrar o caminho certo, para que a nossa vida ganhe sentido e possamos dizer um dia: "Sim, foi bom viver". O povo de Israel sentia-se, e sente-se, agradecido a Deus, porque lhe indicou, nos Mandamentos, o caminho da vida. O longo Salmo 118 (119) é todo ele uma expressão de alegria por este fato: não titubeamos na escuridão. Deus mostrou-nos qual é o caminho, como podemos caminhar de modo certo. O que dizem os Mandamentos foi sintetizado na vida de Jesus e tornou-se um modelo vivo. Compreendemos assim que estas diretrizes de Deus não são algemas, mas o caminho que Ele nos indica. Podemos alegrar-nos por elas, e exultar porque em Cristo nos aparecem como realidade vivida. Ele mesmo nos tornou felizes. Caminhando juntamente com Cristo, fazemos a experiência da alegria da Revelação, e, como sacerdotes, devemos comunicar às pessoas a alegria pelo fato de nos ter sido indicado o caminho certo da vida.
Aparece depois a palavra que nos fala de "ravinas tenebrosas", através das quais o homem é guiado pelo Senhor. O caminho de cada um de nós nos conduzirá, um dia, às ravinas tenebrosas da morte, onde ninguém pode acompanhar-nos. Mas Ele estará lá. O próprio Cristo desceu à noite escura da morte. Mesmo lá, Ele não nos abandona. Mesmo lá, Ele nos guia. "Se descer aos abismos, ali Vos encontrais": diz o Salmo 138 (139). Sim, Vós estais presente mesmo no último transe; e assim o nosso Salmo Responsorial pode dizer: mesmo lá, nas ravinas tenebrosas, não temo mal algum. Mas, ao falar de ravinas tenebrosas, podemos pensar também nas ravinas tenebrosas da tentação, do desânimo, da provação, que cada pessoa humana tem de atravessar. Mesmo nestas ravinas tenebrosas da vida, Ele está presente. Sim, Senhor, nas trevas da tentação, nas horas de ofuscamento quando todas as luzes parecem apagar-se, mostrai-me que estais presente. Ajudai-nos, a nós sacerdotes, para podermos nessas noites escuras estar ao lado das pessoas que nos foram confiadas, para podermos mostrar-lhes a vossa luz.
"O vosso cajado me sossega": o pastor precisa de usar o cajado como um bastão contra os animais selvagens que querem irromper no meio do rebanho; contra os salteadores que procuram o seu botim. A par de bastão, o cajado serve também de apoio e ajuda para atravessar sítios difíceis. As duas coisas fazem parte também do ministério da Igreja, do ministério do sacerdote. Também a Igreja deve usar o bastão do pastor, o bastão com que protege a fé contra os falsificadores, contra as orientações que, na realidade, são desorientações. Por isso mesmo este uso do bastão pode ser um serviço de amor. Hoje, vemos que não se trata de amor, quando se toleram comportamentos indignos da vida sacerdotal. E também não se trata de amor, se se deixa proliferar a heresia, a deturpação e o descalabro da fé, como se tivéssemos nós autonomamente inventado a fé; como se já não fosse dom de Deus, a pedra preciosa que não deixaremos arrebatar. Ao mesmo tempo, porém, o bastão deve continuar a ser o cajado do pastor, cajado que ajude os homens a poderem caminhar por sendas difíceis e a seguirem o Senhor.
A parte final do Salmo fala da mesa preparada, do óleo com que se unge a cabeça, do cálice transbordante, de poder habitar junto do Senhor. No Salmo, tudo isto exprime, antes de mais nada, a dimensão da alegria pela festa de estar com Deus no templo, ser hospedados e servidos por Ele mesmo, poder habitar junto dEle. Para nós, que rezamos este Salmo com Cristo e com o seu Corpo que é a Igreja, esta dimensão de esperança adquiriu uma amplidão e profundidade ainda maiores. Por assim dizer, vemos nestas palavras uma antecipação profética do mistério da Eucaristia, no qual Deus mesmo nos acolhe como seus comensais, oferecendo-Se-nos a Si mesmo como alimento, como aquele pão e aquele vinho refinados que são os únicos capazes de constituir a derradeira resposta à fome e sede íntima do homem. Como não sentir-se feliz por poder cada dia ser hóspede à própria mesa de Deus, por habitar junto dEle? Como não sentir-se feliz pelo fato de Ele nos ter mandado: "Fazei isto em memória de Mim"? Felizes porque Ele nos concedeu preparar a mesa de Deus para os homens, dar-lhes o seu Corpo e o seu Sangue, oferecer-lhes o dom precioso da sua própria presença. Sim, com todo o coração podemos rezar juntos as palavras do Salmo: "A vossa bondade e misericórdia me acompanham no caminhar da minha vida" (22, 6).
Por último lancemos, ainda que brevemente, um olhar sobre os dois cânticos da comunhão propostos pela Igreja na sua liturgia de hoje. Em primeiro lugar, temos as palavras com que São João conclui a narração da crucifixão de Jesus: "Um dos soldados abriu o seu lado com uma lança e dele brotou sangue e água" (Jo 19, 34). O Coração de Jesus é trespassado pela lança. Aberto, torna-se uma fonte; a água e o sangue que saem remetem para os dois Sacramentos fundamentais de que vive a Igreja: o Batismo e a Eucaristia. Do lado trespassado do Senhor, do seu Coração aberto brota a fonte viva que corre através dos séculos e faz a Igreja. O Coração aberto é fonte de um novo rio de vida; neste contexto, João certamente pensou também na profecia de Ezequiel que vê brotar do novo templo um rio que dá fecundidade e vida (cf. Ez 47): o próprio Jesus é o novo templo, e o seu Coração aberto a fonte da qual jorra um rio de vida nova, que se nos comunica no Batismo e na Eucaristia.
Mas a liturgia da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus prevê como cântico de comunhão ainda outra frase, ligada à primeira, tirada do Evangelho de João: "Se alguém tem sede, venha a Mim e beba, diz o Senhor. Se alguém acredita em Mim, do seu coração brotará uma fonte de água viva" (cf. Jo 7, 37-38). Na fé, por assim dizer, bebemos da água viva da Palavra de Deus. Deste modo o próprio fiel torna-se uma fonte, dá à terra sequiosa da história água viva. Vemo-lo nos Santos. Vemo-lo em Maria que, como grande mulher de fé e de amor, se tornou, ao longo dos séculos, fonte de fé, amor e vida. Cada cristão e cada sacerdote deveriam, a partir de Cristo, tornar-se fonte que comunica vida aos outros. Devemos dar água da vida a um mundo sedento. Senhor, nós Vos agradecemos porque nos abristes o vosso Coração; porque, na vossa morte e na vossa ressurreição, Vos tornastes fonte de vida. Fazei que sejamos pessoas que vivem, que vivem da vossa fonte, e concedei-nos a possibilidade de sermos também nós fontes capazes de dar a este nosso tempo água da vida. Nós Vos agradecemos pela graça do ministério sacerdotal. Senhor, abençoai-nos a nós e abençoai todos os homens deste tempo que estão sedentos e andam à procura. Amém.

* Extraído do site do Vaticano. Adequação ao português do Brasil feita por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Antes de mais nada, autenticamente homens


por Julián Carrón

Nunca esquecerei o impacto que tive durante o retiro espiritual com alguns padres na América Latina. Havia acabado de dizer que, frequentemente, falta o humano em nossa fé, quando um sacerdote se aproximou de mim. Ele me disse que quando estava no seminário lhe haviam ensinado que era melhor esconder a sua humanidade concreta, não tê-la diante dos olhos “porque perturbava o caminho da fé”. Este episódio me deixou mais consciente de como o cristianismo pode ser reduzido e de qual é o estado de confusão no qual somos chamados a viver nossa vocação sacerdotal. Uma vez, perguntaram a Dom Giussani o que ele recomendaria a um jovem padre: “Que, antes de tudo, seja autenticamente um homem”, respondeu, suscitando a reação estupefata dos presentes. Estamos exatamente do lado oposto da indicação dada ao seminarista: de um lado, temos quem afirme a necessidade de não olhar a própria humanidade, de outro, um olhar cheio de simpatia por si mesmo.
O que é, portanto, mais decisivo para a nossa fé e para a nossa vocação? Do que precisamos? Dom Giussani indicou muitas vezes que “o supremo obstáculo ao nosso caminho humano” se encontra “na negligência do eu”, na ausência de um interesse autêntico pela própria pessoa (Cf. Em busca do rosto do homem. São Paulo: Companhia Ilimitada, 1996, p. 11). Mas é justamente o amor verdadeiro por si mesmo, a afeição verdadeira por si mesmo o que é capaz de nos levar a descobrir as nossas exigências constitutivas, as nossas necessidades originais em sua nudez e vastidão, de forma a sermos capazes de nos reconhecermos como relacionamento com o Mistério, pedido de infinito, espera estrutural. Somente um homem “ferido” pelo real dessa maneira, empenhado com a própria humanidade dessa maneira, pode se abrir totalmente ao encontro com o Senhor. “Com efeito, Cristo se propõe como resposta àquilo que ‘eu’ sou, e apenas uma tomada de consciência atenta, mas também terna e apaixonada, de mim mesmo pode fazer com que eu me escancare e me disponha a reconhecer, admirar, agradecer, e vivenciar Cristo. Sem essa consciência, até mesmo o nome de Jesus Cristo não passa de um simples nome” (Na origem da pretensão cristã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p. 11).
“Não há resposta mais absurda do que a que se dá a uma pergunta que não se fez”, escreveu Reinhold Niebuhr. Pode também valer para nós quando, acriticamente, sofremos o influxo da cultura na qual estamos imersos, que parece favorecer a redução do homem aos seus antecedentes biológicos, psicológicos e sociológicos. Mas, se o homem é, de fato, reduzido a isto, qual será, então, a nossa tarefa de sacerdotes? Para que servimos? Qual é o sentido da nossa vocação? Como resistir a uma fuga da realidade, refugiando-nos no espiritualismo, no formalismo, buscando alternativas que tornem a vida suportável? Ou ainda, não seria melhor, obedecendo ao clima cultural, nos tornarmos assistentes sociais, psicólogos, agentes culturais ou políticos? Como Bento XVI recordou em Lisboa, “muitas vezes nos preocupamos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista. Colocou-se uma confiança talvez excessiva nas estruturas e nos programas eclesiais, na distribuição de poderes e funções; mas o que acontece se o sal se tornar insípido?” (Homilia da Santa Missa no Terreiro do Paço de Lisboa, 11 de maio de 2010).
Portanto, tudo depende da percepção, sobretudo para nós, do que seja o homem e do que corresponda realmente ao seu desejo infinito. A decisão com a qual vivemos a nossa vocação deriva, por isso, da decisão com a qual vivemos o nosso ser homens. Somente com uma vibração humana autêntica podemos conhecer a Cristo e nos deixar fascinar por Ele, até o ponto de dar-Lhe a vida para fazê-Lo ser encontrado pelos outros. “Por que a fé ainda tem, em absoluto, uma possibilidade de sucesso?”, se perguntava, alguns anos atrás, o então cardeal Ratzinger, e respondia: “Eu diria que é porque encontra correspondência na natureza do homem. (...) No homem existe uma inextinguível aspiração nostálgica pelo infinito. Nenhuma das respostas que são buscadas é suficiente; somente o Deus que se tornou finito, para rasgar a nossa finitude e conduzi-la à amplidão da Sua infinitude, é capaz de responder às perguntas do nosso ser. Por isso, mesmo hoje, a fé cristã voltará a encontrar o homem” (Fé, Verdade, Tolerância: o cristianismo e as grandes religiões do mundo. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, 2007). Esta certeza que Bento XVI testemunha continuamente, mesmo diante de todo o mal que causamos a nós ou aos outros – pensemos no evento da pedofilia –, nos convida a um caminho para a redescoberta e o aprofundamento da razoabilidade da fé: “A nossa fé tem fundamento, mas é preciso que esta fé se torne vida em cada um de nós (...): só Cristo pode satisfazer plenamente os anseios profundos de cada coração humano e responder às suas questões mais inquietantes acerca do sofrimento, da injustiça e do mal, sobre a morte e a vida no Além” (Homilia da Santa Missa no Terreiro do Paço de Lisboa, 11 de maio de 2010). Somente se experimentamos a verdade de Cristo na nossa vida, teremos a coragem de comunicá-la e teremos a audácia de desafiar o coração das pessoas que encontrarmos. Assim, o sacerdócio continuará sendo uma aventura para cada um de nós e, portanto, a ocasião para testemunhar aos irmãos homens que somente Cristo é a resposta ao “mistério eterno do nosso ser” (Giacomo Leopardi).
Obrigado.

* Artigo publicado n'O Observatório Romano do dia 9 de junho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Em Roma, em comunhão com Pedro


Entrevista com Angelo Scola *

14 de maio de 2010

No próximo dia 16 de maio, no dia da Ascensão, todos os movimentos eclesiais têm um encontro marcado, na Praça São Pedro, em Roma, na hora do Regina Coeli, para rezar com o Papa e pelo Papa. IlSussidiario.net pediu ao Patriarca de Veneza, Cardeal Angelo Scola, para explicar o sentido particular de um gesto como esse.
“Se uma pessoa é cristã – disse o cardeal Scola – é uma testemunha: o espírito do Ressuscitado está com ele e transparece do seu ser, do seu agir em benefício de todos os nossos irmãos homens. Esse é o caminho decisivo para tornar Cristo contemporâneo. E apenas se Ele me for contemporâneo, me poderá salvar. O Papa tem como tarefa precípua e singular, na medida em que é sucessor de Pedro, aquilo que Jesus lhe confiou: confirmar todos os seus irmãos nesta postura de testemunho”.

Eminência, como o senhor lê o gesto que, no próximo domingo, o laicato católico vai realizar indo ao encontro do Papa Bento XVI, por ocasião da oração do Regina Coeli?
Por aquilo que ele é: um momento comum de oração e de fraternidade cristã, que assume um valor ainda mais especial, porque o Regina Coeli será guiado pelo Santo Padre.

Muitos jornais falam de um gesto de grande solidariedade pelo Papa da parte dos fiéis. São os fiéis que podem sustentar o Papa ou, talvez, são eles próprios a receberem o sustento do Pontífice?
Na vida da Igreja a palavra mais eficaz para exprimir o valor da oração é a palavra comunhão. A comunhão ou é visivelmente manifesta ou, se permanece pura intenção, se torna facilmente vã. De fato, a comunhão vive apenas na harmonia orgânica da Igreja. A Igreja, depois, é uma companhia guiada ao destino e, como toda companhia, exige o envolvimento pessoal e a docilidade a quem a guia. Na Itália, domingo, festejaremos a Ascensão, isto é o dom do Espírito de Jesus Ressuscitado. Ele é o guia da Igreja que passa, de modo irrenunciável, através da tarefa do sucessor de Pedro. Domingo, será uma festa de comunhão.

Qual é o valor do Papa na Igreja, e como torna contemporânea a figura de Cristo na história?
Para tornar contemporânea a figura de Cristo na história, devemos seguir o método da vida cristã que Ele nos indicou de uma vez por todas: “Quando dois ou três de vós estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles”. E estará conosco até o fim do mundo. O dom da fé e do batismo se expressa no encontro pessoal com Cristo e na permanência nesse encontro. Somos cristãos na medida em que nos deixamos envolver por Jesus no cotidiano. Assim como o homem não conhece uma realidade se não a comunica, o cristão, para compreender a comunhão com Jesus, deve comunicá-la. Se uma pessoa é cristã, é uma testemunha: o espírito do Ressuscitado está com ele e transparece do seu ser, do seu agir em benefício de todos os nossos irmãos homens. Esse é o caminho decisivo para tornar Cristo contemporâneo. E apenas se Ele me for contemporâneo, me poderá salvar. O Papa tem como tarefa precípua e singular, na medida em que é sucessor de Pedro, aquilo que Jesus lhe confiou: confirmar todos os seus irmãos nesta postura de testemunho

O Pontífice, na recente homilia feita em Lisboa, disse: “Buscai sempre o Senhor Jesus, crescei na amizade com Ele, recebei-O na comunhão” e, mais adiante, “testemunhai a todos a alegria por esta presença forte e suave, a começar dos vossos coetâneos. Dizei a eles que é belo ser amigo de Jesus e vale a pena segui-Lo”. Como é possível viver realmente esta amizade com Jesus?
Ainda uma vez, vivendo com humildade decidida a experiência que Ele propôs aos Seus: a grande condição é uma comunhão vivida através de uma pertença forte às comunidades cristãs bem visíveis e documentáveis. Poder-se-á, assim, repetir o convite que Ele fez aos dois discípulos, na beira do Jordão: “Vinde e vede”. O homem pós-moderno, que tem sede de felicidade e de liberdade, mesmo quando se pensa pós-cristão, na realidade pede comunidade de vida boa e de práticas virtuosas. Em cada caso, um pedido semelhante está no coração de cada cristão autêntico, exatamente porque entendeu que a fé exalta a beleza, a bondade e a verdade do humano.

O que tocou mais o senhor da recente viagem de Bento XVI a Portugal?
O convite à penitência entendida no seu verdadeiro significado: invocar o dom de saber ir até o fundo de nós mesmos, ou seja, até o coração do humano. A consignação a Maria que o Papa realizou em Fátima é a via mestra para aprender esta súplica.

* Publicado no site IlSussidario.net no dia 14 de maio de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

O magistério do Papa e a origem da esperança cristã

Apenas a fé viva e límpida nos faz superar as piores tempestades

Por Carlo Cardia*

Para a Igreja, os últimos meses foram meses de sofrimento, de reflexão, mas também de pontente direção espiritual e pastoral de Bento XVI, que, dirigindo-se aos jovens durante a Missa no Terreiro do Paço de Lisboa, pediu a eles que busquem Jesus, que nunca duvidem da Sua presença, e acrescentou: "vivei a vossa existência com alegria e entusiasmo, seguros da Sua amizade gratuita, generosa, fiel até à morte de cruz. Dizei (aos vossos coetâneos) que é belo ser amigo de Jesus e vale a pena segui-Lo". A fé e o relacionamento com Jesus são capazes de arrancar as angústias, a ansiedade, as dúvidas, que em uma fase crítica envolveram tantos fiéis, e o chamado de atenção do Papa evoca a força verdadeira dos crentes, contra a qual nem o pecado nem as suas instrumentalizações podem se impor e vencer. No encontro de domingo, Bento XVI retornou sobre o tema do pecado, onde quer que ele aconteça, coloco-o no centro da cena para indcar que este é o verdadeiro inimigo do homem e da Igreja. A fé e o pecado são respectivamente a força e o risco para os homens de todos os tempos. A fé em Jesus é o primeiro e definitivo recurso para quem quer se orientar, entender como o pecado se insinuou também na Igreja - porque ela vive na história e na realidade de todos os dias, e permanece envolvida com ele mas não contaminada por ele, sofre os seus golpes mas não se dobra a ele -, entender porque os católicos de todo o mundo estão confirmando a confiança na comunidade dos crentes e nos seus guias espirituais, que aceitaram e propuseram a penitência, ao invés do silêncio ou da defesa corporativa, e foram ao encontro das vítimas para dar a eles justiça e conforto. Sem a fé, tudo é possível, até mesmo deixar-se deter pelo mal; com a fé em Jesus, porém, a rocha continua segura e a consciência mais íntima de cada um de nós se sente em paz na prossecução do caminho de testemunho na sociedade que nos circunda. Ainda em Portugal, Bento XVI disse outra coisa que, talvez, não foi compreendida adequadamente nos comentários destes dias. Ele observou que "frequentemente nos preocupamos ansiosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por óbvio que esta fé exista, o que, infelizmente, é cada vez menos realista. Confiou-se, talvez excessivamente, nas estruturas e nos programas eclesiais, na distribuição de poderes e funções; mas o que acontecerá se o sal se torna insosso?". Trata-se de um chamado de atenção que diz respeito a todos, porque, de alguma maneira, todos estamos condicinados pela mentalidade e pela cultura que nos rodeiam, que nos impulsionam a colocar entre parênteses a fé, envolvendo-a em um invólucro no qual a utilidade, a conveniência, os reflexos externos (mesmo eclesiais) ganham a dianteira e ofuscam a consciência que deve, pelo contrário, permanecer ligada à fonte primária da espiritualidade cristã. Manter viva e límpida a fé leva à coerência dos atos e dos comportamentos, induz à humildade e ao reconhecimento da culpa, à sua reparação, obriga a considerar a Igreja como a comunidade dos crentes que testemunham a verdade, não uma realidade organizativa com leis e interesses próprios, ainda que legítimos. Bento XVI está realizando, nesse momento, a sua função pastoral universal com uma força e uma capacidade profética que mesmo os críticos da Igreja começam a reconhecer, e isto confirma a centralidade da função pontifícia que, também em momentos críticos, ajuda, conforta, direciona, recolhe os pontos essenciais dos problemas, impede que nos desencorajemos diante do mal, nos dobremos diante de tempestades que podem parecer, por um instante que seja, maiores do que nós. Não existem tempestades capazes de derrubar a fé, é Jesus mesmo que ilumina um caminho que permanece na história, mas não se confunde com a história, pede o empenho mas também o reconhecimento da realidade amarga e dolorosa do pecado, abre o coração à esperança e à confiança, mesmo quando elas parecem se ofuscar. Talvez não seja por acaso que a viagem a Fátima tenha sido a ocasião para o Papa cumprir, com tanta força e segurança, a sua missão de guia da Igreja. Maria, e tudo aquilo que ela representa no coração de cada católico e cristão, constitui-se, hoje mais do que ontem, num refúgio espiritual, numa fonte de inspiração que alimenta o magistério da Igreja e reforça a fé de todos os crentes.

* Publicado no Jornal Avvenire, do dia 19 de maio de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

No domingo, eu estava presente


Carta enviada ao Jornal Avvenire*

Eu também estava na Praça São Pedro, com a minha família e os amigos de CL de Rímini. Há muitas leituras possíveis do gesto de domingo, 16 de maio de 2010: desde a política – “prova de força dos católicos italianos” – até a psicológico-sentimental – “sermos em tantos dá coragem”.
Penso que o modo justo de compreender o que aconteceu é partir do que seja a Igreja: um povo que busca o seu destino de salvação guiado por um pastor, colocado no posto incômodo do Fundador. Então, quando os tempos se fazem difíceis, nos aproximamos do pastor, ou do pai – se soa melhor – mas, de qualquer maneira, nos aproximamos de uma pessoa; não para buscar consolação, mas porque, objetivamente, é aquela pessoa que garante que não estamos perdendo tempo, que não arriscamos nossa vida atrás de fantasmas.
E as duzentas mil pessoas que estavam na Praça São Pedro fizeram isso: para além das sensibilidades pessoais diversas, dos estilos diferentes, reconfirmaram a confiança, o abandono – eu diria – à promessa de vida eterna e feliz garantida por Aquele de quem aquele velho vestido de branco é o vigário e a testemunha. Foi perceptível especialmente nos dez minutos de espera entre a abertura da janela e o aparecimento daquela minúscula forma branca, quando, ansiosamente, se esperava poder tocar, pelo menos com o olhar, aquele a quem podemos seguir, quando todo o resto vacila. E junto com isso havia também o encorajamento – talvez teologicamente incorreto, mas muito humano – me parece: força, não hesite, estamos com você, rezamos por você, guie-nos sem desistir.
E o Papa acolheu esse encorajamento. A sua comoção era muito evidente – mesmo para nós que escutávamos apenas a sua voz – em certos estremecimentos, em certas ênfases: ouviu-se muito bem que ele estava emocionado e contente. E agora, então? Continuamos, nós e ele, reforçados na certeza de que fazemos parte – cada um no modo em que foi chamado – de uma história imensa, bela e difícil de viver.

* Escrito por Keass, sócio de SamizdatOnLine, publicado no dia 19 de maio de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

domingo, 16 de maio de 2010

Regina Coeli - 16 de maio de 2010

Jornada Mundial das Comunicações Sociais
Bento XVI
Regina Coeli

Praça São Pedro
Solenidade da Ascensão do Senhor
Domingo, 16 de maio de 2010

Caros irmãos e irmãs,
Hoje, na Itália e em outros países, se celebra a Ascensão de Jesus ao Céu, que acontece 40 dias depois da Páscoa. Neste domingo acontece também a Jornada Mundial das Comunicações Sociais, sobre o tema: “O sacerdote e a pastoral no mundo digital: as novas mídias a serviço da Palavra”. Na liturgia se narra o episódio da última separação do Senhor Jesus de seus discípulos (cf. Lc 24, 50-51; At 1, 2.9); mas não se trata de um abandono, porque Ele permanece sempre com eles – conosco – de uma maneira nova. São Bernardo de Claraval explica que a ascensão ao céu de Jesus se realiza em três graus: “o primeiro é a glória da ressurreição, o segundo o poder de julgar e o terceiro sentar-se à direita do Pai” (Sermo de Ascensione Domini, 60, 2: Sancti Bernardi Opera, t. VI, 1, 291, 20-21). Tal evento é precedido da bênção aos discípulos, que lhes prepara a receber o dom do Espírito Santo, para que a salvação seja proclamada em todos os lugares. Jesus mesmo disse a eles: “Disto vós sois testemunhas. E eis que eu envio sobre vós aquele que o meu Pai prometeu” (cf. Lc 24, 47-49).
O Senhor atrai o olhar dos Apóstolos – o nosso olhar – para o Céu, para indicar a eles como percorrer o caminho do bem durante a vida terrena. Ele, porém, permanece na trama da história humana, está próximo a cada um de nós e guia o nosso caminho cristão: é companheiro dos perseguidos por causa da fé, está no coração de quanto são marginalizados, está presente naqueles a quem é negado o direito à vida. Podemos escutar, ver e tocar o Senhor Jesus na Igreja, especialmente mediante a palavra e os sacramentos. Neste propósito, exorto os jovens que, neste tempo pascal, recebem o sacramento da Crisma, a permanecerem fiéis à Palavra de Deus e à doutrina aprendida, como também a se aproximarem assiduamente da Confissão e da Eucaristia, conscientes de terem sido escolhidos e constituídos para testemunharem a Verdade. Renovo o meu particular convite aos irmãos no Sacerdócio, para que “na suas vidas e ações se distingam por um forte testemunho evangélico” (Carta de convocação do Ano Sacerdotal) e saibam utilizar com sabedoria também os meios de comunicação, para fazer conhecer a vida da Igreja e ajudar os homens de hoje a descobrirem o rosto de Cristo (cf. Mensagem 44ª Jornada Mundial das Comunicações Sociais, 24 de janeiro de 2010).
Caros irmãos e irmãs, o Senhor, abrindo-nos o caminho do Céu, nos faz saborear já nesta terra a vida divina. Um autor russo do século passado, no seu testamento espiritual, escrevia: “Observai mais frequentemente as estrelas ou o azul do céu. Quando vos sentirdes tristes, quando vos ofenderem, ... entretende-vos... com o céu. Então, a vossa alma encontrará a quietude” (N. Valentini e L. Zák [org.s]. Pavel A. Florenski. Non dimenticatemi. Le lettere dal gulag del grande matemático, filosofo e sacerdote russo. Milano, 2000, p. 418). Agradeço à Virgem Maria que, nos dias passados, pude venerar no Santuário de Fátima, pela sua materna proteção durante a intensa peregrinação realizada em Portugal. Àquela que vela pelas testemunhas de seu dileto Filho volvamos, com fidelidade, a nossa oração.

V.: Regina coeli, laetare! Alleluia!
R.: Quia quem meruisti portare! Alleluia!
V.: Resurrexit, sicut dixit! Alleluia!
R.: Ora pro nobis Deum! Alleluia!

V.: Gaude et laetare, Virgo Maria! Alleluia!
R.: Quia surrexit Dominus vere! Alleluia!

V.: Oremus: Deus, qui per resurrectionem Filii tui, Domini nostri Iesu Christi, mundum laetificare dignatus es: praesta, quaesumus; ut per eius Genetricem Virginem Mariam, perpetuae capiamus gaudia vitae. Per eundem Christum Dominum nostrum.
R.: Amen!

Caros irmãos e irmãs,
Hoje, a minha primeira saudação é dirigida aos fiéis leigos vindos de toda a Itália – vemos presente a Itália inteira – e ao Cardeal Angelo Bagnasco que os acompanha como Presidente da Conferência Episcopal Italiana. Agradeço-vos de coração, caros irmãos e irmãs, pela vossa calorosa e forte presença! Obrigado! Aceitando o convite da Consulta Nazionale delle Aggregazioni Laicali, aderistes com entusiasmo a esta bela e espontânea manifestação de fé e de solidariedade, da qual participa também um consistente grupo de parlamentares e administradores locais. A todos gostaria de expressar o meu reconhecimento. Saúdo também os milhares de imigrantes, que nos assistem agora na Praça São João, com o Cardeal Vigário Agostino Vallini, por ocasião da “Festa dos Povos”. Caros amigos, vós hoje mostrais o grande afeto e a profunda proximidade da Igreja e do povo italiano ao Papa e aos vossos sacerdotes, que cotidianamente cuidam de vós, para que, no empenho de renovação espiritual e moral, possamos servir sempre melhor à Igreja, o Povo de Deus e todos que se voltam a nós com confiança. O verdadeiro inimigo a temer e combater é o pecado, o mal espiritual, que às vezes, infelizmente, contagia também os membros da Igreja. Vivemos no mundo, mas não somos do mundo (cf. Jo 17, 14). Nós cristãos não temos medo do mundo, mesmo que tenhamos que nos guardar das suas seduções. Devemos, pelo contrário, temer o pecado e, por isso, ser fortemente radicados em Deus, solidários no bem, no amor, no serviço. É o que a Igreja, os seus ministros, juntamente com os fiéis, fizeram e continuam a fazer com férvido empenho para o bem espiritual e material das pessoas em todas as partes do mundo. É o que especialmente vós buscais fazer habitualmente nas paróquias, nas associações e nos movimentos: servir a Deus e ao homen no nome de Cristo. Prossigamos juntos, com fidelidade, este caminho, e as provas, que o Senhor permite, nos impulsionem a uma maior radicalidade e coerência. É bonito ver, hoje, esta multidão na Praça São Pedro, como foi também emocionante, para mim, ver, em Fátima, a imensa multidão que, na escola de Maria, rezou pela conversão dos corações. Renovo, hoje, este apelo, confortado pela vossa presença tão numerosa! Obrigado! Uma vez mais, obrigado a vós todos!

* Traduzido por Paulo R. A. Pacheco

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Assim, Bento XVI defende a Igreja...

Por Adrian Pabst

Cinco anos após a sucessão de João Paulo II, que ocorreu no dia 19 de abril de 2005, Bento XVI se encontra enfrentado a crise mais grave do seu papado. O escândalo da pedofilia, que está em curso atualmente, continua a enfraquecer a credibilidade da Igreja e reforça os estereótipos tradicionais que veem o Vaticano, sob o seu comando, como uma teocracia medieval governada por um autocrata absoluto, de temperamento reacionário e intolerante.
Tal opinião não é difundida apenas por ateus como Richard Dawkins ou Christopher Hitchens. Ao lado destes acusadores habituais se encontram numerosos católicos importantes que estão desfrutando do escândalo dos abusos sexuais como pretexto para atacar o pontífice. Em uma carta aberta, endereçada aos bispos católicos, publicada no sábado passado, o teólogo suíço Hans Küng culpou Ratzinger pela “mais profunda crise de credibilidade da Igreja, desde os tempos da reforma protestante”. Substancialmente, Küng acusa o Papa de ter restaurado uma visão reacionária do catolicismo, que renega as reformas progressistas do Concílio Vaticano II (1962-1965), do qual ambos participaram como peritos (jovens conselheiros teólogos, a serviço de cardeais).
Como grande parte do ateísmo contemporâneo, a carta de Küng é devida muito mais à ideologia do que à razão. A sua subdivisão do catolicismo (e de outras tradições religiosas) em uma ala liberal e progressista e outra conservadora e reacionária é uma distinção típica do laicismo moderno, que desnaturaliza a unicidade de cada e de todas as religiões. Eis porque o principal interesse de Küng, a construção de uma “ética mundial”, é uma abstração do caráter único das diversas tradições de fé, uma instrumentalização da religião a serviço de uma dúbia moralidade que não é outra coisa que um simples “comportar-se bem na relação com outros”.
É uma notável diferença com relação à ética universal e às outras verdades que todas as religiões defendem, mas sobre as quais estão em desacordo umas com as outras, como, por exemplo, quanto ao papel do amor e da lei no Judaísmo e no Cristianismo. Negando um real universalismo, a “ética mundial” de Küng é perfeitamente compatível com o laicismo moderno e com aquela “ditadura do relativismo” que o Papa Bento XVI denunciou repetidas vezes. Não é de se estranhar que Küng prefira um catolicismo liberal que imita a cultura laica, perdendo, neste processo, a própria visão integral única.
O que é pior é que Küng não compreende a longa tradição intelectual que o Papa tenta preservar e estender, uma espécie de ortodoxia romântica que aborrece grande parte da reforma e da contra-reforma modernas, a favor da herança da patrística e da Idade Média compartilhada por cristãos do leste ao oeste. Tal herança cultural deriva dos ensinamentos de doutores e de padres da Igreja, como Santo Agostinho, Dionísio ou Santo Tomás de Aquino, sobre o tema da unidade do natural e do sobrenatural, em contraposição à separação moderna entre universo natural e graça e criatividade divina. Em poucas palavras, podemos dizer que Bento XVI refuta o dualismo moderno entre natureza e graça, ou entre fé e razão, como expôs no seu controvertido discurso em Regensburg, em 2006.
A argumentação do Papa é que tais dualismos modernos nivelaram o caminho para a desastrosa separação entre razão e fé, uma oposição que está na base do conflito cada vez mais obstinado entre a razão absoluta do laicismo (e do ateísmo) extremo e a fé cega dos fundamentalismos religiosos. Neste sentido, o apelo de Bento XVI para um retorno à “grandeza da razão”, pelo qual razão e fé necessitam uma da outra e se incrementam, é muito mais radical e progressista do que as pretensões de Küng por um diálogo mais liberal.
Efetivamente, a intervenção do Papa trouxe para um diálogo mais intenso e de maior vigor intelectuais cristãos e muçulmanos, como ficou demonstrado pelo fórum permanente para o diálogo católico-muçulmano. Ele foi estabelecido em resposta às críticas movidas pelo discurso papal em Regensburg, no qual vinculou a violência do Islã à maior importância dada ao poder e à vontade de Deus em detrimento da razão e do intelecto divino. Küng acusa Bento XVI de ter causado uma crise de confiança entre cristãos e muçulmanos, mas o Papa tem razão ao insistir que tal confiança é verdadeiramente autêntica apenas se for baseada numa recíproca compreensão das reais diferenças entre Cristianismo e Islã: a encarnação de Deus, a divina natureza de Cristo e a Santíssima Trindade.
Não é nem mesmo verdadeiro que Bento XVI tenha nostalgia da doutrina e dos concílios da Igreja das origens. Pelo contrário, ele reúne a herança cultural da patrística e da Idade Média ao Romantismo moderno, com suas ênfases comuns sobre declarações naturais do divino e sobre a atividade artística humana. É esta tradução romântica que contribuiu para criar e manter a cultura elevada pela qual briga o Papa. Isto está na base de sua defesa da liturgia tradicional (inclusive da Missa Tridentina), contra o advento do “sacro-pop”: “liturgias de festinhas paroquiais e canções banais do tipo ‘abraça-me Jesus’”, como escreve de modo um tanto apropriado Tracey Rowland no seu livro “A fé de Ratzinger”.
Além da liturgia, o Romantismo é também a chave para defender a cultura laica de si mesma. Refutando seja a razão absoluta e instrumental que a fé cega e emotiva, a tradição romântica coloca em dificuldade a convergência contemporânea entre um progresso tecnológico sem alma e uma cultura empobrecida dominada pela sexualidade e pela violência. O que é ainda mais importante, ela se opõe à confabulação cúmplice de uma liberação econômica e social sem limites que produziu a moral sexual do “laissez-faire”, com a obsessão do livre arbítrio individual em detrimento de parâmetros objetivos (mesmo que contestados) de verdade, beleza e retidão, uma preocupação compartilhada pelo arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, no seu influente livro “Os ícones perdidos”.
Permanecem abertas numerosas perguntas sobre como seria possível traduzir a visão de Bento XVI numa radical revisão da Cúria e das relações entre Roma e os bispos católicos. Mas, bem longe de ser nostálgico ou reacionário, o Papa de hoje é um obstinado romântico que está realizando um Renascimento intelectual e cultural do catolicismo.

* Publicado em Il sussidiario, no dia 22 de abril de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Comunicado da CEI

COMUNICADO

Na segunda-feira, dia 19 de abril, comemora-se o quinto aniversário da eleição de Bento XVI ao pontificado.
A Presidência da CEI (Conferência Episcopal Italiana) convida a todas as comunidades eclesiais a se reunirem, nesse dia, em oração junto dele, centro de unidade e sinal visível de comunhão. Em tal ocasião, se determinarão, em nível local, as formas mais convenientes (por exemplo, a Eucaristia, a liturgia da Palavra, vígilia de oração, a adoração eucarística e a oração do rosário) para dar graças a Deus pelo magistério iluminado e o cristalino testemunho do Papa.
Ao mesmo tempo, nesta hora de provação, a Igreja da Itália não falta com seu dever de purificação, rezando em particular pelas vítimas dos abusos sexuais e por todos aqueles que, em todo o mundo, foram manchados por esses crimes odiosos. Confiando na Sua palavra, implora do Senhor, novas energias, para que se reforce na Igreja a paixão educativa, sustentada pela dedicação e pelo generoso empenho de tantos sacerdotes que, junto aos religiosos e aos leigos, a cada dia, dão suas vidas sobretudo nas situações mais difíceis.
Roma, 12 de abril de 2010.
A Presidência
da Conferência Episcopal Italiana

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O abraço de Cristo, maior que as feridas

Por Dom Filippo Santoro

O momento presente, marcado pela acirrada discussão sobre a pedofilia, é uma grande ocasião de purificação e de conversão da Igreja, para poder comunicar a todos, com transparência, o abraço da justiça e da misericórdia de Deus , que é a razão pela qual ela existe.
O papa Bento XVI na Carta aos católicos na Irlanda, com grande humildade e coragem, afirma que: “para se recuperar desta dolorosa ferida, a Igreja na Irlanda deve em primeiro lugar reconhecer diante do Senhor e diante dos outros, os graves pecados cometidos contra jovens indefesos. Esta consciência, acompanhada de sincera dor pelo dano causado às vítimas e às suas famílias, deve levar a um esforço concentrado para garantir a proteção dos jovens em relação a semelhantes crimes no futuro” (n. 1).
E aos sacerdotes e religiosos que abusaram dos jovens diz: “deveis responder diante de Deus onipotente, assim como diante de tribunais devidamente constituídos” (n. 7). Por isso, indica-se uma perspectiva que, com toda clareza, submete estes crimes, no futuro, ao juízo dos tribunais eclesiásticos e civis. “Ao mesmo tempo, a justiça de Deus exige que prestemos contas das nossas ações sem nada esconder. Reconhecei abertamente a vossa culpa, submetei-vos às exigências da justiça, mas não desespereis da misericórdia de Deus” (n. 7).
E aos bispos acrescenta que “estabelecessem a verdade de quanto aconteceu no passado, tomassem todas as medidas adequadas para evitar que se repita no futuro, garantissem que os princípios de justiça sejam plenamente respeitados e, sobretudo, curassem as vítimas e quantos são atingidos por estes crimes horríveis” (n. 5).
“Deve-se admitir que foram cometidos graves erros de juízo e que se verificaram faltas de governo. Tudo isto minou seriamente a vossa credibilidade e eficiência. Aprecio os esforços que fizestes para remediar os erros do passado e para garantir que não se repitam. Além de pôr plenamente em prática as normas do direito canônico ao enfrentar os casos de abuso de jovens, continuai a cooperar com as autoridades civis no âmbito da sua competência. Só uma ação decidida, levada em frente com total honestidade e transparência, poderá restabelecer o respeito” (n. 11).
Algo mais claro que isso não poderia ser dito e a natureza emblemática desta carta se aplica não apenas à Irlanda como às outras nações no mundo onde estes crimes foram cometidos, manifestando o firme propósito de punir com rigor os culpados e de não esconder absolutamente nada.
Mas, com tudo isso, a onda midiática não se declara satisfeita, porque o seu objetivo é abater a autoridade moral do Papa e da Igreja. A culpa de alguns membros, uma pequena minoria, tiraria a autoridade de toda uma instituição que, atualmente, é a única que lembra, sem equívocos, a voz da consciência e a defesa total da vida e da dignidade das pessoas? Quer-se atingir a Igreja enquanto tal, na sua capacidade de falar aos homens e às mulheres de nosso tempo. É claro que os mesmos que acusam são aqueles que pregam qualquer liberdade e justificam tudo em matéria de sexo.
Essa é a tentativa de eliminação da consciência do bem e do mal deixando tudo ao arbítrio do homem e do poder. E, no fundo, trata-se da eliminação de Deus, não de um deus construído pelo sentimento e pelas opiniões - esta divindade é largamente acolhida pela mentalidade dominante -, mas de um Deus que é diferente de nós: o Altíssimo que quis se manifestar na nossa história como companheiro e salvador.
Ele já nos doou tudo, nos libertou. Não compactuou com o pecado, mas o perdoou por meio de um amor muito maior. O que não se tolera, em certa mentalidade dominante, é a Presença de um amor total, que incide e que transforma a vida e que lembra a todos o valor objetivo da consciência moral.
A partir de pecados detestáveis de alguns membros da Igreja, a partir de faltas morais, se quer destruir a origem da moral que é a presença do infinito no coração do homem, que a Igreja prega e testemunha por meio do dom generoso e total de muitos filhos seus, sacerdotes e religiosos. Chega-se a associar celibato e pedofilia, quando muitas sérias pesquisas científicas demonstraram que não tem que ver uma coisa com a outra, e que a maioria destes delitos acontece em família. Assim, se quer atingir todos os padres e negar a possibilidade de uma doação integral, isto é virgem, para Cristo e para o bem dos irmãos e irmãs.
Mas esta tentativa violenta de desmoralizar a Igreja não pode tirar a presença objetiva do bem maior que existe na História: o abraço de Cristo à humanidade ferida. A onda midiática e os gravíssimos erros não podem vencer o bem mais precioso que a Igreja tem e comunica: a esperança e a vitória da ressurreição. Esta é a fonte da qual partir novamente com humildade, transparência e rigor no serviço ao mundo de hoje.
Dom Filippo Santoro
Bispo de Petrópolis

* Extraído do site da Agência Zenit, e revisado por Paulo R. A. Pacheco.

Contra os escândalos, Bento prepara a “revolução” dos mestres e dos santos

por Massimo Introvigne

A carta de Carrón nos lembra que os padres pedófilos existem. A muitos de nós agradaria que se tratasse apenas de um sonho feio, ou de calúnias da imprensa laicista. Não é o que escreve Carrón, e não é o que nos ensina o papa. Na magnífica Carta aos Católicos da Irlanda, de 19 de março de 2010, Bento XVI denuncia com voz fortíssima os “crimes horríveis”, “a vergonha e a desonra”, a violação da dignidade das vítimas, o golpe dado à Igreja “a tal ponto ao qual nem sequer séculos de perseguição tinham chegado”. Em nome da Igreja “exprime abertamente a vergonha e o remorso”.
Certo, o papa enfrenta o problema do ponto de vista do direito canônico, confirmando com força que foi a sua “aplicação malograda”, algumas vezes da parte de bispos, não as suas normas como uma certa imprensa laicista pretenderia, a causar a “vergonha”. Certo também, o papa acena para o fato de que o problema da pedofilia não toca apenas – e tampouco principalmente – os sacerdotes, de forma que não é nem malícia que certos setores da mídia concentram o foco sobre a Igreja e sobre o pontífice. Mas, o papa, assim como Carrón, se coloca, em última instância, em um plano diferente. Fala da vida espiritual dos sacerdotes, cujo descuido está na raiz do problema, e para o qual pede que se retorne através da adoração eucarística, das missões, da prática frequente da confissão. E o retorno a Cristo não é apenas para os padres: é para todos nós.
Como uma tragédia tão terrível pode ter acontecido? Aqueles que os americanos e os ingleses chamam the Sixties (“os anos 1960”) – e nós, concentrando-nos sobre o ano emblemático, “o 1968” – aparecem sempre mais como os anos ou o tempo de uma profunda mudança de costumes, com efeitos cruciais e duradouros sobre a religião. Aconteceu, de resto, um 1968 na sociedade e também um 1968 na Igreja: exatamente o ano de 1968 é o ano do dissenso público contra a encíclica Humanae Vitae de Paulo VI.
Com muita perspicácia, um pensador católico brasileiro, Plínio Corrêa de Oliveira (1908-1995), falou de uma “4ª Revolução” – sucessiva à Reforma, à Revolução Francesa e à Soviética – mais radical do que as precedentes, porque capaz de transtornar não apenas o corpo social, mas o corpo humano. Na Igreja Católica, não houve consciência suficiente do alcance esta revolução. Pelo contrário, ela contagiou – explica, na sua carta, Bento XVI – “também sacerdotes e religiosos”, determinou “desentendimentos” na interpretação do Concílio, causou “insuficiente formação, humana, moral e espiritual nos seminários e nos noviciados”. Neste clima, certamente, nem todos os sacerdotes insuficientemente formados ou contagiados pelo clima que se seguiu aos anos 1960, e muito menos um percentual significativo, se tornou pedófilo. E, todavia, este número não é igual – como todos queremos – a zero, e justifica as severíssimas palavras do papa.
O estudo da “4ª Revolução” dos anos 1960, e de 1968, é crucial para entender o que aconteceu depois, a pedofilia inclusive. E, para encontrar remédios reais, a Igreja começou a se mexer. Se esta revolução, diferentemente das precedentes, é moral e espiritual e diz respeito à interioridade do homem, será apenas da restauração da moralidade, da vida espiritual e de uma verdade integral sobre a pessoa humana que poderão, em última instância, vir os remédios. Mas, para isto, os sociólogos, como sempre, não bastam: são necessários os pais e os mestres, os educadores e os santos.

* Extraído do Il sussidiario, do dia 12 de abril de 2010, traduzido por Paulo R. A. Pacheco, sem revisão do autor.