"Devolver às pessoas aquilo que elas são verdadeiramente é o primeiro passo para o desenvolvimento, porque o eu é descoberto em um encontro. Por isso, o Senhor faz com que nos apaixonemos: porque é a modalidade mais simples para que todos os fatores constitutivos do eu venham à tona. E a paixão é um pequeno reflexo do grande encontro, que é o encontro com Cristo, porque ninguém como Ele é capaz de fazer emergir todos os fatores constitutivos do eu: somente o divino pode salvar o humano, todos os fatores do homem." (Julián Carrón)
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segunda-feira, 5 de março de 2012
Somente o divino pode salvar todos os fatores do homem
"Devolver às pessoas aquilo que elas são verdadeiramente é o primeiro passo para o desenvolvimento, porque o eu é descoberto em um encontro. Por isso, o Senhor faz com que nos apaixonemos: porque é a modalidade mais simples para que todos os fatores constitutivos do eu venham à tona. E a paixão é um pequeno reflexo do grande encontro, que é o encontro com Cristo, porque ninguém como Ele é capaz de fazer emergir todos os fatores constitutivos do eu: somente o divino pode salvar o humano, todos os fatores do homem." (Julián Carrón)
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
A Quaresma com os santos
Manifestemos uns para com os outros a bondade do Senhor
Dos Sermões de São Gregório de Nazianzo, bispo (Séc.IV)
(Oratio 14, De pauperum amore, 23-24:PG35 889-890)
Considera de onde te vem a existência, a respiração, a inteligência, a sabedoria, e, acima de tudo, o conhecimento de Deus, a esperança do reino dos céus e a contemplação da glória que, no tempo presente, é ainda imperfeita como num espelho e em enigma, mas que um dia haverá de ser mais plena e mais pura. Considera de onde te vem a graça de seres filho de Deus, herdeiro com Cristo e, falando com mais ousadia, de teres também sido elevado à condição divina. De onde e de quem vem tudo isso?
Ou ainda, – se quisermos falar de coisas menos importantes e que podemos ver com os nossos olhos – quem te concedeu a felicidade de contemplar a beleza do céu, o curso do sol, a órbita da lua, a multidão dos astros e aquela harmonia e ordem que se manifestam em tudo isso como uma lira afinada? Quem te deu as chuvas, as lavouras, os alimentos, as artes, a morada, as leis, a sociedade, a vida tranquila e civilizada, a amizade e a alegria da vida familiar? De onde te vem poderes dispor dos animais, os domésticos para teu serviço e os outros para teu alimento? Quem te constituiu senhor e rei de todas as coisas que há na face da terra? E, porque não é possível enumerar uma a uma todas as coisas, pergunto finalmente: quem deu ao homem tudo aquilo que o torna superior a todos os outros seres vivos? Porventura não foi Deus?
Pois bem, agora, o que Ele te pede em compensação por tudo, e acima de tudo, não é o teu amor para com Ele e para com o próximo? Sendo tantos e tão grandes os dons que recebemos ou esperamos dEle, não nos envergonharemos de não Lhe oferecer nem mesmo esta única retribuição que pede, isto é, o amor? E se Ele, embora sendo Deus e Senhor, não Se envergonha de ser chamado nosso Pai, poderíamos nós fechar o coração aos nossos irmãos?
De modo algum, meus irmãos e amigos, de modo algum sejamos maus administradores dos bens que nos foram concedidos pela graça divina, a fim de não ouvirmos a repreensão de Pedro: “Envergonhai-vos, vós que vos apoderais do que não é vosso; imitai a justiça de Deus e assim ninguém será pobre”. Não nos preocupemos em acumular e conservar riquezas, enquanto outros padecem necessidade, para não merecermos aquelas duras e ameaçadoras palavras do profeta Amós: Tomai cuidado, vós que andais dizendo: “Quando passará o mês para vendermos; e o sábado, para abrirmos nossos celeiros?” (cf. Am 8,5).
Imitemos aquela excelsa e primeira lei de Deus, que faz chover sobre os justos e os pecadores e faz o sol igualmente levantar-se para todos; que oferece aos animais que vivem na terra a extensão dos campos, as fontes, os rios e as florestas; que dá às aves a amplidão dos céus, e aos animais aquáticos, a vastidão das águas; que proporciona a todos, liberalmente, os meios necessários para a sua subsistência, sem restrições, sem condições, sem fronteiras; que põe tudo em comum, à disposição de todos eles, com abundância e generosidade, de modo que nada falte a ninguém. Assim procede Deus para com as suas criaturas, a fim de conceder a cada um os bens de que necessita segundo a sua natureza e dignidade, e manifestar a todos a riqueza da Sua bondade.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
A Quaresma com os santos
A amizade de Deus
Do Tratado contra as heresias, de Santo Irineu, bispo (Séc. II)
(Lib. 4,13,4-14,1: Sch 100, 534-540)
Nosso Senhor, o Verbo de Deus, que primeiro atraiu os homens para serem servos de Deus, libertou em seguida os que lhe estavam submissos, como Ele próprio disse a Seus discípulos: Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai (Jo 15, 15). A amizade de Deus concede a imortalidade aos que a obtém.
No princípio, Deus formou Adão, não porque tivesse necessidade do homem, mas para ter alguém que pudesse receber os Seus benefícios. De fato, não só antes de Adão, mas antes da criação, o Verbo glorificava Seu Pai, permanecendo nEle, e era também glorificado pelo Pai, como Ele mesmo declara: Pai, glorifica-me com a glória que eu tinha junto de Ti antes que o mundo existisse (Jo 17, 5). Não foi também por necessitar do nosso serviço que Deus nos mandou segui-Lo, mas para dar-nos a salvação. Pois seguir o Salvador é participar da salvação, e seguir a luz é receber a luz.
Quando os homens estão na luz, não são eles que a iluminam, mas são iluminados e tornam-se resplandecentes por ela. Nada lhe proporcionam, mas dela recebem o benefício e a iluminação. Do mesmo modo, o serviço que prestamos a Deus nada acrescenta a Deus, porque Ele não precisa do serviço dos homens. Mas aos que O seguem e servem, Deus concede a vida, a incorruptibilidade e a glória eterna. Ele dá Seus benefícios aos que O servem precisamente porque O servem e aos que O seguem precisamente porque O seguem; mas não recebe deles nenhum benefício, porque é rico, perfeito e de nada precisa.
Se Deus requer o serviço dos homens é porque, sendo bom e misericordioso, deseja conceder os Seus dons aos que perseveram no Seu serviço. Com efeito, Deus de nada precisa, pois o homem é que precisa da comunhão com Deus. É esta, pois, a glória do homem: perseverar e permanecer no serviço de Deus. Por esse motivo dizia o Senhor a Seus discípulos: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi (Jo 15, 16), dando assim a entender que não eram eles que O glorificavam seguindo-O, mas, por terem seguido o Filho de Deus, eram por Ele glorificados. E disse ainda: Quero que estejam comigo onde eu estiver, para que eles contemplem a minha glória (Jo 17, 24).
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
A Quaresma com os santos
A purificação espiritual por meio do jejum e da misericórdia
Dos Sermões de São Leão Magno, papa (Séc. V)
(Sermo 6 de Quadragesima, 1-2: PL 54,285-287)
Em todo tempo, amados filhos, a terra está repleta da misericórdia do Senhor (SI 32,5). A própria natureza é para todo fiel uma lição que o ensina a louvar a Deus, pois o céu, a terra, o mar e tudo o que neles existe proclamam a bondade e a onipotência de seu Criador; e a admirável beleza dos elementos postos a nosso serviço requer da criatura racional uma justa ação de graças.
O retorno, porém, desses dias que os mistérios da salvação humana marcaram de modo mais especial e que precedem imediatamente a festa da Páscoa, exige que nos preparemos com maior cuidado por meio de uma purificação espiritual.
Na verdade, é próprio da solenidade pascal que a Igreja inteira se alegre com o perdão dos pecados. Não é apenas nos que renascem pelo santo batismo que ele se realiza, mas também naqueles que desde há muito são contados entre os filhos adotivos.
É, sem dúvida, o banho da regeneração que nos torna criaturas novas; mas todos têm necessidade de se renovar a cada dia para evitarmos a ferrugem inerente à nossa condição mortal, e não há ninguém que não deva se esforçar para progredir no caminho da perfeição; por isso, todos sem exceção, devemos empenhar-nos para que, no dia da redenção, pessoa alguma seja ainda encontrada nos vícios do passado.
Por conseguinte, amados filhos, aquilo que cada cristão deve praticar em todo tempo, deve praticá-lo agora com maior zelo e piedade, para cumprir a prescrição, que remonta aos apóstolos, de jejuar quarenta dias, não somente reduzindo os alimentos, mas sobretudo abstendo-se do pecado.
A estes santos e razoáveis jejuns, nada virá juntar-se com maior proveito do que as esmolas. Sob o nome de obras de misericórdia, incluem-se muitas e louváveis ações de bondade; graças a elas, todos os fiéis podem manifestar igualmente os seus sentimentos, por mais diversos que sejam os recursos de cada um.
Se verdadeiramente amamos a Deus e ao próximo, nenhum obstáculo impedirá nossa boa vontade. Quando os anjos cantaram: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14), proclamavam bem-aventurado, não só pela virtude da benevolência mas também pelo dom da paz, todo aquele que, por amor, se compadece do sofrimento alheio.
São inúmeras as obras de misericórdia, o que permite aos verdadeiros cristãos tomar parte na distribuição de esmolas, sejam eles ricos, possuidores de grandes bens, ou pobres, sem muitos recursos. Apesar de nem todos poderem ser iguais na possibilidade de dar, todos podem sê-lo na boa vontade que manifestam.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
A memória se torna força da esperança
Bento XVI
Audiência Geral
Praça São Pedro
Quarta-feira, 19 de outubro de 2011
O homem em oração
Caros irmãos e irmãs,
Hoje, gostaria de meditar convosco um Salmo que resume toda a história da salvação de que o Antigo Testamento nos dá testemunho. Trata-se de um grande hino de louvor que celebra o Senhor nas múltiplas, repetidas manifestações da Sua bondade ao longo da história dos homens; é o Salmo 136 – ou 135 segundo a tradição greco-latina.
Oração solene de ação de graças, conhecido como o “Grande Hallel”, este Salmo é tradicionalmente cantado ao final da ceia pascal hebraica e, provavelmente, foi rezado também por Jesus na última Páscoa celebrada com os discípulos; a ele, de fato, parece se referir a anotação dos Evangelistas: “Depois de ter cantado o hino, saíram para o monte das Oliveiras” (cf. Mt 26, 30; Mc 14, 26). O horizonte do louvor ilumina assim a difícil estrada do Gólgota. Todo o Salmo 136 se desenrola em forma de uma litania, marcada pela repetição antifonal “porque eterno é Seu amor”. Ao longo da composição, são enumerados os muitos prodígios de Deus na história dos homens e Suas contínuas intervenções em favor de Seu povo; e a cada proclamação da ação salvífica do Senhor a antífona responde com a motivação fundamental do louvor: o amor eterno de Deus, um amor que, segundo o termo hebraico utilizado, implica fidelidade, misericórdia, bondade, graça, ternura. É este o motivo unificante de todo o Salmo, repetido de forma sempre igual, enquanto mudam as suas manifestações pontuais e paradigmáticas: a criação, a libertação do êxodo, o dom da terra, a ajuda providente e constante do Senhor para com Seu povo e cada criatura.
Depois de um tríplice convite à ação de graças ao Deus soberano (vv. 1-3), celebra-se o Senhor como Aquele que realiza “maravilhosos prodígios” (v. 4), o primeiro dos quais é a criação: o céu, a terra, os astros (vv. 5-9). O mundo criado não é um simples cenário sobre o qual se insere a ação salvífica de Deus, mas é o início mesmo daquela ação maravilhosa. Com a criação, o Senhor se manifesta em toda a Sua bondade e beleza, compromete-se com a vida, revelando uma vontade de bem da qual brota cada um dos atos de salvação. E no nosso Salmo, ecoando o primeiro capítulo do Gênesis, o mundo criado é sintetizado no seus elementos principais, insistindo particularmente nos astros, no sol, na lua, nas estrelas, criaturas magníficas que governam o dia e a noite. Não se fala aqui da criação do ser humano, mas ele está sempre presente; o sol e a lua são para ele – para o homem – para marcar o tempo do homem, colocando-o em relação com o Criador, sobretudo através das indicações dos tempos litúrgicos.
E é exatamente a festa da Páscoa que é evocada logo depois, quando, passando para a manifestação de Deus na história, começa-se evocando o grande evento da libertação da escravidão egípcia, do êxodo, traçado a partir de seus elementos mais significativos: a libertação do Egito com a chaga dos primogênitos egípcios, a saída do Egito, a passagem pelo Mar Vermelho, o caminho no deserto até a entrada na terra prometida (vv. 10-20). Estamos no momento originário da história de Israel. Deus interveio com poder para levar o Seu povo para a liberdade; através de Moisés, Seu enviado, impôs-Se ao faraó revelando-Se em toda a Sua grandeza e, finalmente, dobrou a resistência dos egípcios com o terrível flagelo da morte dos primogênitos. Assim, Israel pôde deixar o país da escravidão, com o ouro de seus opressores (cf. Ex 12, 35-36), “com as mãos levantadas” (Ex 14, 8), no sinal exultante da vitória. Também no Mar Vermelho o Senhor agiu com potência misericordiosa. Diante de um Israel assustado com a vista dos egípcios que o perseguiam, a ponto de lamentar haver deixado o Egito (cf. Ex 14, 10-12), Deus, como diz o nosso Salmo, “dividiu em dois o mar Vermelho [...], fez passar Israel pelo meio dele [...], precipitou no mar Vermelho o faraó e seu exército” (vv. 13-15). A imagem do Mar Vermelho “dividido” em dois parece evocar a ideia do mar como um grande monstro que é cortado em dois pedaços e, assim, tornado inofensivo. O poder do Senhor vence o perigo das forças das natureza e daqueles militares: o mar, que parece impedir o caminho do povo de Deus, deixa Israel passar de pés enxutos e, em seguida, se derrama sobre os egípcios derrubando-os. “A mão poderosa e o braço forte” (cf. Dt 5, 15; Dt 7, 19; Dt 26, 8) se mostram, dessa maneira, em toda a sua força salvífica: o opressor injusto foi vencido, engolido pelas águas, enquanto que o povo de Deus “passa pelo meio” para continuar o seu caminho em direção à liberdade.
Neste ponto, o nosso Salmo faz referência a este caminho, com uma frase brevíssima, recordando a longa peregrinação de Israel para a terra prometida: “conduziu Seu povo através do deserto, porque eterno é Seu amor” (v. 16). Estas poucas palavras encerram uma experiência de quarenta anos, um tempo decisivo para Israel que, deixando-se guiar pelo Senhor, aprende a viver de fé, na obediência e na docilidade à lei de Deus. São anos difíceis, marcados pela dureza da vida no deserto, mas também anos felizes, de confiança no Senhor, de confiança filial; é o tempo da “juventude”, como é definido pelo profeta Jeremias, falando a Israel, em nome do Senhor, com expressões cheias de ternura e de nostalgia: “Lembro-me de tua afeição quando eras jovem, de teu amor de noivado, no tempo em que me seguias ao deserto, à terra sem sementeiras” (Jr 2, 2). O Senhor, como o pastor do Salmo 23 que contemplamos numa de nossas catequeses, por quarenta anos guiou o Seu povo, o educou e amou, conduzindo-o até a terra prometida, vencendo mesmo as resistências e a hostilidade de povos inimigos que querias impedir o seu caminho de salvação (cf. vv. 17-20).
No desenrolar-se das “grandes maravilhas” que o nosso Salmo enumera, chega-se assim ao momento do dom final, a realização da promessa divina feita aos Pais: “e deu a terra deles em herança, porque eterno é Seu amor; como patrimônio de Israel, Seu servo, porque eterno é Seu amor” (vv. 21-22). Na celebração do amor eterno do Senhor, nesse momento se faz memória do dom da terra, um dom que o povo deve receber sem nunca se apossar dela, vivendo continuamente numa postura de acolhida reconhecida e grata. Israel recebe o território no qual poderá habitar como “herança”, um termo que designa de modo genérico a posse de um bem recebido de outro, um direito de propriedade que, de modo específico, faz referência ao patrimônio paterno. Uma das prerrogativas de Deus é de “doar”; e agora, no fim do caminho do êxodo, Israel, destinatário do dom, como um filho, entra no país da promessa realizada. É terminado o tempo do nomadismo, sob tendas, numa vida marcada pela precariedade. Agora tem início o tempo feliz da estabilidade, da alegria de construir as casas, de plantar as vinhas, de viver na segurança (cf. Dt 8, 7-13). Mas é também o tempo da tentação da idolatria, da contaminação com os pagãos, da autosuficiência que faz esquecer a Origem do dom. Por isso, o Salmista menciona a humilhação e os inimigos, uma realidade de morte na qual o Senhor, uma vez mais, Se revela como Salvador: “Em nossa humilhação Ele se lembrou de nós, porque eterno é Seu amor; e nos livrou de nossos inimigos, porque eterno é Seu amor” (vv. 23-24).
Neste ponto nasce a pergunta: como podemos fazer deste Salmo uma oração nossa? Como podemos nos apropriar, para a nossa oração, deste Salmo? O importante é o contexto do Salmo, apresentado no início e no fim: a criação. Retornaremos sobre este ponto: a criação, como o grande dom de Deus do qual vivemos, no qual Ele se revela na Sua bondade e grandeza. Portanto, ter presente a criação como dom de Deus é um ponto comum para todos nós. Depois, segue a história da salvação. Naturalmente, podemos dizer: esta libertação do Egito, o tempo no deserto, a entrada na Terra Santa e depois todos os outros problemas, estão muito distantes de nós, não são a nossa história. Mas temos que ficar atentos à estrutura fundamental desta oração. A estrutura fundamental é que Israel se recorda da bondade do Senhor. Nesta história há tantos vales tenebrosos, há tantas passagens de dificuldade e de morte, mas Israel se recorda que Deus era bom e que pode sobreviver neste vale tenebroso, neste vale de morte, porque se recorda. Há a memória da bondade do Senhor, do Seu poder; a Sua misericórdia vale para sempre. E isto é importante também para nós: ter uma memória da bondade do Senhor. A memória se torna força da esperança. A memória nos diz: Deus existe, Deus é bom, eterna é a Sua misericórdia. E assim a memória abre, mesmo na obscuridade de um dia, de um tempo, o caminho para o futuro: é luz e estrela que nos guia. Também nós temos uma memória do bem, do amor misericordioso, eterno de Deus. A história de Israel é uma memória também para nós, como Deus se mostrou, criou um povo para Si. Depois, Deus se fez homem, um de nós: viveu conosco, sofreu conosco, morreu por nós. Permanece conosco no Sacramento e na Palavra. É uma história, uma memória da bondade de Deus que nos assegura a Sua bondade: o Seu amor é eterno. E também, mesmo nestes dois mil anos da história da Igreja, sempre há, uma vez mais, a bondade do Senhor. Depois do período obscuro da perseguição nazista e comunista, Deus nos libertou, mostrou que é bom, que tem força, que a Sua misericórdia vale para sempre. E, como na história comum, coletiva, está presente esta memória da bondade de Deus, que nos ajuda, se torna estrela da esperança para nós, assim também cada um de nós tem a sua história pessoal de salvação, e temos realmente que estimar esta história, ter sempre presente a memória das grandes coisas que fez também na minha vida, para ter confiança: a Sua misericórdia é eterna. E se hoje eu estou na noite escura, amanhã Ele me liberta porque eterno é Seu amor.
Voltemos ao Salmo, porque, no fim, ele retorna à criação. O Senho – é assim que diz – “dá alimento a todos os seres vivos, porque eterno é Seu amor” (v. 25). A oração do Salmo se conclui com um convite ao louvor: “Louvai o Deus do céu, porque eterno é Seu amor”. O Senhor é Pai bom e providente, que dá a herança aos Seus filhos e concede a todos o alimento para viver. O Deus que criou os céus e a terra e as grandes luzes celestes, que entra na história dos homens para levar à salvação todos os Seus filhos é o Deus que enche o universo com a Sua presença de bem, cuidando da vida e dando o pão. A invisível potência do Criador e Senhor cantada no Salmo se revela na pequena visibilidade do pão que nos dá, com o qual nos faz viver. E assim este pão cotidiano simboliza e sintetiza o amor de Deus como Pai, e nos abre para a realização neotestamentária, para aquele “pão da vida”, a Eucaristia, que nos acompanha na nossa existência de crentes, antecipando a alegria definitiva do banquete messiânico no Céu.
Irmãos e irmãs, o louvor bendito do Salmo 136 nos fez repercorrer as etapas mais importantes da história da salvação, até chegar ao mistério pascal, no qual a ação salvífica de Deus chega ao seu ponto alto. Com alegria cheia de reconhecimento celebremos portanto o Criador, Salvador e Pai fiel, que “de tal modo amou o mundo, que lhe deu Seu Filho unigênito, para que todo o que nEle crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). Na plenitude dos tempos, o Filho de Deus se faz homem para dar a vida, para a salvação de cada um de nós, e Se dá como pão no mistério eucarístico para fazer-nos entrar na Sua aliança que nos torna filhos. Para isso, alcança-nos a bondade misericordiosa de Deus e a sublimidade do Seu “amor eterno”.
Quero, por isso, concluir esta catequese fazendo minhas as palavras que São João escreve na sua Primeira Carta e que devemos sempre ter presentes na nossa oração: “Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato” (1Jo 3, 1). Obrigado.
* Extraído do site do Vaticano, do dia 19 de outubro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Comentário ao Evangelho do dia - Advento
3ª Semana do Advento - Quarta-feira
São João da Cruz
1ª Leitura - Is 45, 6b-8.18.21b-25
"Eu sou o Senhor, não há outro, eu formei a luz e criei as trevas, crio o bem-estar e as condições de mal-estar: sou o Senhor que faço todas estas coisas. Céus, deixai cair orvalho das alturas, e que as nuvens façam chover justiça; abra-se a terra e germine a salvação; brote igualmente a justiça: eu, o Senhor, a criei." Isto diz o Senhor que criou os céus, o próprio Deus que fez a terra, a conformou e consolidou; não a criou para ficar vazia, formou-a para ser habitada: "Sou eu o Senhor, e não há outro. Quem vos fez ouvir os fatos passados e soube predizê-los desde então? Acaso não sou eu o Senhor? E não há deus além de mim. Não há um Deus justo, e que salve, a não ser eu. Povos de todos os confins da terra, voltai-vos para mim e sereis salvos, eu sou Deus e não há outro. Juro por mim mesmo: de minha boca sai o que é justo, a palavra que não volta atrás; todo joelho há de dobrar-se para mim, por mim há de jurar toda língua, dizendo: Somente no Senhor residem justiça e força". Comparecerão perante Ele, envergonhados, todos os que Lhe resistem; no Senhor será justificada e glorificada toda a descendência de Israel.
Salmo - Sl 84 (85)
R. Que os céus lá do alto derramem o orvalho,
que chova das nuvens o Justo esperado! (Is 45,8)
Quero ouvir o que o Senhor irá falar:*
é a paz que Ele vai anunciar;
a paz para o Seu povo e Seus amigos,*
para os que voltam ao Senhor seu coração.
Está perto a salvação dos que O temem,*
e a glória habitará em nossa terra. R.
A verdade e o amor se encontrarão,*
a justiça e a paz se abraçarão;
da terra brotará a fidelidade,*
e a justiça olhará dos altos céus. R.
O Senhor nos dará tudo o que é bom,*
e a nossa terra nos dará suas colheitas;
a justiça andará na sua frente*
e a salvação há de seguir os passos seus. R.
Evangelho - Lc 7, 19-23
Naquele tempo, João convocou dois de seus discípulos, e mandou-os perguntar ao Senhor: "És Tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?". Eles foram ter com Jesus, e disseram: "João Batista nos mandou a Ti para perguntar: 'És Tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?'". Nessa mesma hora, Jesus curou de doenças, enfermidades e espíritos malignos a muitas pessoas, e fez muitos cegos recuperarem a vista. Então, Jesus lhes respondeu: "Ide contar a João o que vistes e ouvistes: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, e a Boa Nova é anunciada aos pobres. E feliz é aquele que não se escandaliza por causa de mim!".
Comentário feito por Beato João Paulo II (1920-2005)
papa
Diante dos Seus conterrâneos, em Nazaré, Cristo expõe as palavras do profeta Isaías: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor" (Lc 4, 18-19). [...] Mediante tais fatos e palavras, Cristo torna o Pai presente no meio dos homens. É muito significativo que estes homens sejam sobretudo os pobres, carecidos dos meios de subsistência, os que estão privados da liberdade, os cegos que não veem a beleza da criação, os que vivem com a amargura no coração, ou então os que sofrem por causa da injustiça social e, por fim, os pecadores. Em relação a estes últimos, de modo especial, o Messias torna-Se sinal particularmente visível de Deus que é amor, torna-Se sinal do Pai. [...] É igualmente significativo que, quando os mensageiros enviados por João Batista foram ter com Jesus e Lhe perguntaram: "Tu és Aquele que está para vir, ou temos de esperar outro?", Ele, referindo-Se ao mesmo testemunho com que havia inaugurado o Seu ensino em Nazaré, lhes tenha respondido: "Ide contar a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciada a Boa-Nova"; e é ainda significativo que tenha depois concluído: "Bem-aventurado aquele que não se escandalizar a Meu respeito". Jesus revelou, sobretudo pelo Seu estilo de vida e as Suas ações, como o Amor está presente no mundo em que vivemos, Amor operante, Amor que se dirige ao homem e abraça tudo quanto constitui a sua humanidade. Tal amor transparece especialmente no contato com o sofrimento, a injustiça e a pobreza, no contato com toda a "condição humana" histórica que, de vários modos, manifesta as limitações e a fragilidade, tanto físicas como morais, do homem. Precisamente o modo e o âmbito em que Se manifesta o Amor são chamados, na linguagem bíblica, "misericórdia". Cristo, portanto, revela Deus que é Pai, que é "Amor", como referiria João na sua primeira epístola (IJo 4, 16); revela Deus "rico em misericórdia" (Ef 2, 4).
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Na oração, permanecer abertos à esperança e firmes na fé em Deus
Bento XVI
Audiência Geral
Praça São Pedro
Quarta-feira, 12 de outubro de 2011
O homem em oração
Caros irmãos e irmãs,
Nas catequeses anteriores meditamos sobre alguns Salmos de lamento e de confiança. Hoje gostaria de refletir convosco sobre um Salmo das noites de festa, uma oração que, na alegria, canta as maravilhas de Deus. É o Salmo 126 – segundo a numeração greco-latina é o 125 –, que celebra as grandes coisas que o Senhor operou com o seu povo e que continuamente opera com cada crente.
O Salmista, em nome de toda Israel, começa a sua oração recordando a experiência da salvação:
“Quando o Senhor reconduzia os cativos de Sião, estávamos como sonhando. Em nossa boca só havia expressões de alegria, e em nossos lábios canto de triunfo.” (vv. 1-2a).
O Salmo fala de uma “recondução”, ou seja de uma sorte restituída ao estado original, em toda a sua positividade anterior. Parte-se, portanto, de uma situação de sofrimento e de necessidade à qual Deus responde operando salvação e levando o orante de volto à condição inicial, enriquecida e mudada para melhor. É o que acontece com Jó, quando o Senhor lhe dá de volta tudo o que havia perdido, duplicando e derramando uma bênção ainda maior (cf. Jó 42, 10-13), e é o que experimenta o povo de Israel voltando para a pátria vindo do exílio na Babilônia. É exatamente em referência ao fim da deportação em terra estrangeira que este Salmo é interpretado: a expressão “reconduzir os cativos de Sião” é lida e compreendida pela tradição como um “fazer retornar os prisioneiros de Sião”. Com efeito, o retorno do exílio é paradigma de toda intervenção divina de salvação, porque a queda de Jerusalém e a deportação para a Babilônia foram uma experiência devastante para o povo eleito, não apenas no plano político e social, mas também e sobretudo no plano religioso e espiritual. A perda da terra, o fim da monarquia davídica e a destruição do Templo são vistos como uma negação das promessas divinas, e o povo da aliança, disperso entre os pagãos, se interroga dolorosamente sobre um Deus que parece tê-lo abandonado. Por isso, o fim da deportação e o retorno para a pátria são experimentados como um maravilhoso retorno à fé, à confiança, à comunhão com o Senhor; é uma “restauração da sorte” que implica também conversão do coração, perdão, reencontro da amizade com Deus, consciência da sua misericórdia e renovada possibilidade de louvá-Lo (cf. Jr 29, 12-14; Jr 30, 18-20; Jr 33, 6-11; Ez 39, 25-29). Trata-se de uma experiência de alegria transbordante, de sorrisos e de gritos de júbilo, de tal forma bela que “parece que estávamos sonhando”. As intervenções divinas, frequentemente, têm formas inesperadas, que vão além do que homem possa imaginar; eis então a maravilha e a letícia que se exprimem no louvor: “O Senhor fez grandes coisas”. É o que dizem as nações, e é o que Israel proclama:
“Entre os pagãos se dizia: O Senhor fez por eles grandes coisas. Sim, o Senhor fez por nós grandes coisas; ficamos exultantes de alegria!” (vv. 2b-3).
Deus faz maravilhas na história dos homens. Operando a salvação, se revela a todos como Senhor poderoso e misericordioso, refúgio do oprimido, que não esquece o grito do pobre (cf. Sl 9, 10.13), que ama a justiça e o direito e cujo amor enche a terra (cf. Sl 32, 5). Por isso, diante da libertação do povo de Israel, todas as gentes reconhecem as coisas grandes e estupendas que Deus realiza pelo seu povo e celebram o Senhor na sua realidade de Salvador. E Israel ecoa a proclamação das nações, e a retoma repetindo-a, mas como protagonista, como destinatário direto da ação divina: “o Senhor fez por nós grandes coisas”; “por nós”, ou ainda mais precisamente, “conosco”, em hebraico ‘immanû, afirmando assim aquele relacionamento privilegiado que o Senhor mantém com seus eleitos e que encontrará no nome Emanuel, “Deus conosco”, com o qual Jesus é chamado, o seu ponto alto e a sua plena manifestação (cf. Mt 1, 23).
Caros irmãos e irmãs, na nossa oração devemos olhar mais frequentemente para como, nos acontecimentos da nossa vida, o Senhor no protegeu, guiou, ajudou e louvá-Lo pelo que fez e faz por nós. Devemos ser mais atentos às coisas boas que o Senhor nos dá. Estamos sempre atentos aos problemas, às dificuldades e quase não queremos perceber que existem coisas belas que vêm do Senhor. Esta atenção, que se torna gratidão, é muito importante para nós e cria em nós uma memória do bem que nos ajuda mesmo nas horas difíceis. Deus realiza coisas grandes, e quem faz experiência disso – atento à bondade do Senhor com a atenção do coração – fica cheio de alegria. É com essa nota de festa que se conclui a primeira parte do Salmo. Ser salvos e voltar para a pátria, saindo do exílio, é como voltar à vida: a libertação abre ao sorriso, mas também à espera de uma realização ainda desejada e pedida. É esta a segunda parte do nosso Salmo que soa assim:
“Mudai, Senhor, a nossa sorte, como as torrentes nos desertos do sul. Os que semeiam entre lágrimas, recolherão com alegria. Na ida, caminham chorando, os que levam a semente a espargir. Na volta, virão com alegria, quando trouxerem os seus feixes.” (vv. 4-6).
Se no início da oração, o Salmista celebrava a alegria de uma sorte restaurada pelo Senhor, agora, pelo contrário, ele a pede como algo que ainda precisa se realizar. Se este Salmo se aplica à volta do exílio, esta aparente contradição se explicaria com a experiência histórica, feita por Israel, de um retorno difícil para a pátria, somente parcial, que induz o orante a solicitar ainda outra intervenção divina, para levar à plenitude a restauração do povo.
Mas, o Salmo vai além do dado puramente histórico para se abrir a dimensões mais amplas, de tipo teológico. A experiência consoladora da libertação da Babilônia é, de toda forma, ainda incompleta, “já” ocorrida, mas “ainda não” marcada pela plenitude definitiva. Assim, enquanto que na alegria celebra a salvação recebida, a oração se abre para a espera da plena realização. Por isto, o Salmo utiliza imagens particulares, que, com a sua complexidade, remetem à realidade misteriosa da redenção, em que se entrelaçam o dom recebido e o que ainda se espera, vida e morte, alegria sonhadora e lágrimas dolorosas. A primeira imagem faz referência às torrentes secas do deserto do Negev, que com as chuvas se enchem de água impetuosa que dá vida outra vez para o terreno seco e o faz reflorescer. A solicitação do Salmista é, portanto, que a restauração da sorte do povo e o retorno do exílio sejam como aquela água, irresistível e irrefreável, e capaz de transformar o deserto numa imensa extensão de ervas verdes e flores.
A segunda imagem se desloca das colinas áridas e rochosas do Negev para os campos que os camponeses cultivam para tirar deles o alimento. Para falar da salvação, se remete neste ponto à experiência que a cada ano se renova no mundo agrícola: o momento difícil e cansativo da semeadura e depois a alegria irresistível da colheita. Uma semeadura que é acompanhada por lágrimas, porque se joga aquilo que ainda poderia servir para fazer pão, expondo-se a uma espera cheia de incertezas: o camponês trabalha, prepara o terreno, lança a semente, mas, como ilustra bem a parábola do semeador, não sabe onde esta semente vai cair, se os pássaros a comerão, se vai se firmar, se conseguirá lançar raízes, se se tornará espiga (cf. Mt 13, 3-9; Mc 4, 2-9; Lc 8, 4-8). Jogar a semente é um gesto de confiança e de esperança é necessária a operosidade do homem, mas também é preciso se colocar numa espera impotente, sabendo bem que muitos fatores serão determinantes para o bom êxito da colheita e que o risco de uma falha está sempre à espreita. E no entanto, ano após ano, o camponês repete o seu gesto e lança a sua semente. E quando ela se torna espiga, e os campos se enchem com a lavoura, eis a alegria de quem está diante de um prodígio extraordinário. Jesus conhecia bem esta experiência e falava sobre ela com os seus: “Dizia também: O Reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra. Dorme, levanta-se, de noite e de dia, e a semente brota e cresce, sem ele o perceber.” (Mc 4, 26-27). É o mistério escondido da vida, são as maravilhosas “grandes coisas” da salvação que o Senhor opera na história dos homens e de que os homens ignoram o segredo. A intervenção divina, quando se manifesta em plenitude, mostra uma dimensão impetuosa, como as torrentes do Negev e como o grão nos campos, este último evoca inclusive uma desproporção típica das coisas de Deus: desproporção entre a fadiga da semeadura e a imensa alegria da colheita, entre a ânsia da espera e a serena visão dos celeiros cheios, entre as pequenas sementes lançadas na terra e os grandes feixes dourados pelo sol. Na colheita, tudo se transforma, o pranto acaba, dando lugar ao grito de alegria exultante.
O Salmista se refere a tudo isto para falar da salvação, da libertação, da restauração da sorte, do retorno do exílio. A deportação para a Babilônia, assim como toda situação de sofrimento ou de crise, com sua escuridão feita de dúvidas e de aparente distância de Deus, na realidade, é como uma semeadura, diz o nosso Salmo. No Mistério de Cristo, à luz do Novo Testamento, a mensagem se faz ainda mais explícita e clara: o crente que atravessa aquela escuridão é como o grão de trigo caído na terra que morre, mas para dar muitos frutos (cf. Jo 12, 24); ou então, retomando uma outra imagem cara a Jesus, é como a mulher que sofre as dores do parto para poder chegar à alegria de ter dado à luz uma nova vida (cf. Jo 16, 21).
Caros irmãos e irmãs, este Salmo nos ensina que, na nossa oração, devemos permanecer sempre abertos à esperança e firmes na fé em Deus. A nossa história, ainda que marcada frequentemente pela dor, pelas incertezas, por momentos de crise, é uma história de salvação e de “restauração das sortes”. Em Jesus, todo exílio porque passamos acaba, e toda lágrima é enxugada, no mistério da Sua Cruz, da morte transformada em vida, como o grão de trigo que se rompe na terra e se transforma em espiga. Também para nós esta descoberta de Jesus Cristo é a grande alegria do “sim” de Deus, do restabeleciento da nossa sorte. Mas como aqueles que – voltando da Babilônia cheios de alegria – encontraram uma terra empobrecida, devastada, assim como a dificuldade da semeadura e sofreram chorando sem saber se realmente, no fim, haveria alguma colheita, assim também nós, depois da grande descoberta de Jesus Cristo – a nossa vida, a verdade, o caminho –, entrando no terreno da fé, na “terra da fé”, encontramos também frequentemente uma vida escura, dura, difícil, uma semeadura com lágrimas, mas seguros de que a luz de Cristo nos dá, no fim, realmente, a grande colheita. E devemos aprender isto mesmo nas noites escuras; não esquecer que a luz existe, que Deus já está em nossa vida e que podemos semear com grande confiança de que o “sim” de Deus é mais forte do que todos nós. É importante não perder esta recordação da presença de Deus na nossa vida, esta alegria profunda porque Deus entrou na nossa vida, libertando-nos: é a gratidão pela descoberta de Jesus Cristo, que veio até nós. E esta gratidão se transforma em esperança, é estrela da esperança que nos dá a confiança, é a luz, porque exatamente as dores da semeadura são o início da nova vida, da grande e definitiva alegria de Deus.
* Extraído do site do Vaticano, do dia 12 de outubro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
O Evangelho é a maior força de transformação do mundo
Encontro com o mundo da cultura,
da arte e da economia
Discurso do Santo Padre Bento XVI
Pólo da Saúde – Veneza
Domingo, 8 de maio de 2011.
Caros amigos,
Estou feliz por poder saudar-vos cordialmente, a vós representantes do mundo da cultura, da arte e da economia de Veneza e de seu território. Agradeço-vos a presença e vossa simpatia. Expresso meu reconhecimento ao Patriarca e ao Reitor que, em nome do Studium Generale Marcianum, se fez intérprete dos sentimentos de todos vós e introduziu este nosso encontro, o último de minha intensa visita começada ontem, em Aquileia. Gostaria de deixar-vos algumas ideias muito sintéticas, que espero sejam úteis para a reflexão e para o compromisso comum. Estas ideias me vieram de três palavras que são metáforas sugestivas: três palavras ligadas a Veneza e, particularmente, ao lugar no qual nos encontramos. A primeira é água; a segunda é Saúde, a terceira é Sereníssima.
Comecemos pela água – como parece lógico, sob muitos aspectos. A água é símbolo ambivalente: de vida, mas também de morte; as populações atingidas por enchentes e maremotos o sabem muito bem. Mas a água, antes de mais, é elemento essencial para a vida. Veneza é chamada a “Cidade d’água”. Mesmos para vós, habitantes de Veneza, esta condição tem um duplo sentido, negativo e positivo: traz muitos problemas e, ao mesmo tempo, é fruto de um fascínio extraordinário. Que Veneza seja “Cidade d’água” faz pensar num célebre sociólogo contemporâneo que definiu a nossa sociedade e a cultura europeia como “líquida”: uma cultura “líquida”, para exprimir a “fluidez”, a sua pouca estabilidade ou, talvez, a sua ausência de estabilidade, a inconstância, a inconsistência que, às vezes, parece caracterizá-la. E aqui gostaria de inserir a primeira proposta: Veneza não como cidade “líquida” – no sentido que acabo de acenar –, mas como cidade “da vida e da beleza”. Certamente que se trata de uma escolha, mas na história é preciso escolher: o homem é livre para interpretar, para dar um sentido à realidade, e exatamente nesta liberdade é que consiste a sua grande dignidade. No âmbito de uma cidade, qualquer que seja, também as escolhas de caráter administrativo, cultural e econômico dependem, no fundo, desta orientação fundamental, que podemos chamar “política” na sua acepção mais nobre e mais alta. Trata-se de escolher entre uma cidade “líquida”, pátria de uma cultural que parece sempre mais aquela do relativo e do efêmero, e uma cidade que renova constantemente a sua beleza, a partir de fontes benéficas para a arte, para o saber, para as relações entre os homens e os povos.
Passemos à segunda palavra: “Saúde”. Encontramos no “Pólo da Saúde”: uma realidade nova, que, porém, tem raízes antigas. Aqui, na Punta della Dogana, surgiu uma das igrejas mais célebres de Veneza, obra de Longhena, edificada como voto a Nossa Senhora pela libertação da peste de 1630: Santa Maria da Saúde. Ao lado dela, o célebre arquiteto construiu o Convento dos Somaschi, que se tornou Seminário Patriarcal. “Unde origo, inde salus”, diz o mote gravado no centro da cúpula maior da Basílica, expressão que indica como a origem da Cidade de Veneza – fundada, segundo a tradição, no dia 25 de março de 421, dia da Anunciação – é estreitamente ligada à Mãe de Deus. E exatamente por intercessão de Maria veio a saúde, a salvação contra a peste. Mas, refletindo sobre este mote, podemos extrair dele também um significado ainda mais profundo e mais amplo. Da Virgem de Nazaré teve origem Aquele que nos dá a “saúde”. A “saúde” é uma realidade abrangente, integral: vai desde o “estar bem”, que nos permite viver serenamente um dia de estudo e de trabalho, ou de férias, até à salus animae, de que depende o nosso destino eterno. Deus cuida de tudo isso, sem excluir nada. Cuida da nossa saúde em sentido pleno. Jesus, no Evangelho, nos fala disso: Ele curou doentes de todos os tipos, mas também libertou endemoninhados, perdoou pecados, ressuscitou mortos. Jesus revelou que Deus ama a vida e quer libertá-la de toda negação, até àquela radical, que é o mal espiritual, o pecado, raiz venenosa que contamina tudo. Por isto, Jesus pode mesmo ser chamado “Saúde” do homem: Salus nostra Dominus Iesus. Jesus salva o homem, colocando-o novamente numa relação salutar com o Pai, na graça do Espírito Santo; imerge-o nesta corrente pura e vivificante que arranca o homem das suas “paralisias” físicas, psíquicas e espirituais; cura-o da dureza de coração, do fechamento egocêntrico e o faz saborear a possibilidade de encontrar verdadeiramente a si mesmo, perdendo-se por amor a Deus e ao próximo. Unde origo, inde salus. Este mote lembra múltiplas referências; limito-me a recordar uma, a célebre expressão de Santo Irineu: “Gloria Dei vivens homo, vita autem hominis visio Dei [est]” (Adv. haer. IV, 20, 7). Que poderia ser parafraseada assim: a glória de Deus é a plena saúde do homem, e ela consiste no estar em profunda relação com Deus. Podemos dizê-lo também com os termos caros ao neo-Beato João Paulo II: o homem é o caminho da Igreja, e o Redentor do homem é Cristo.
Finalmente, a terceira palavra: “Sereníssima”, o nome da República de Veneza. Um título, de fato, estupendo, poder-se-ia dizer utópico, se pensássemos na realidade terrena, todavia capaz de suscitar não apenas memórias de glórias passadas, mas também ideais que impulsionam projetos de hoje e de amanhã, nesta grande região. “Sereníssima”, em sentido pleno, é somente a Cidade Celeste, a Nova Jerusalém, que aparece no final da Bíblia, no Apocalipse, como uma visão maravilhosa (Cf. Ap 21, 1 e 22, 5). No entanto, o cristianismo concebe esta Cidade Santa, completamente transfigurada pela glória de Deus, como uma meta que move os corações dos homens e impulsiona seus passos, anima o compromisso cheio de fadiga e paciência no sentido de melhorar a cidade terrena. É preciso sempre lembrar, a este propósito, as palavras do Concílio Vaticano II: “Nenhum proveito tem o homem se ganha o mundo inteiro, mas perde a si mesmo. Todavia, a espera por uma terra nova não deve enfraquecer, mas muito mais estimular a solicitude no trabalho relativo à terra presente, onde cresce aquele corpo da humanidade que já consegue oferecer algum prenúncio do mundo novo” (Cost. Gaudium et spes, 39). Escutamos estas expressões num tempo no qual havia exaurido a força das utopias ideológicas e não apenas o otimismo havia obscurecido, mas também a esperança entrou em crise. Não devemos, então, esquecer que os Padres conciliares, que nos deixaram este ensinamento, viveram a época das duas guerras mundiais e dos totalitarismos. A perspectiva deles não era, certamente, ditada por um otimismo fácil, mas pela fé cristã, que anima a esperança ao mesmo tempo grande e paciente, aberta para o futuro e atenta às situações históricas. Nesta mesma perspectiva, o nome “Sereníssima” nos fala de uma civilização da paz, fundada sobre o respeito mútuo, sobre o conhecimento recíproco, sobre as relações de amizade. Veneza tem uma longa história e um rico patrimônio humano, espiritual e artístico para ser capaz, também hoje, de oferecer uma preciosa contribuição na ajuda aos homens no sentido de crerem num futuro melhor e se empenharem em sua construção. Mas, para isto, não se pode ter medo de outro elemento emblemático, contido no brasão de São Marcos: o Evangelho. O Evangelho é a maior força de transformação do mundo, mas não é uma utopia, nem uma ideologia. As primeiras gerações cristãs chamavam-no o “caminho”, ou seja, o modo de viver que Cristo praticou, por primeiro, e que nos convida a seguir. Chega-se à cidade “sereníssima” através desse caminho, que é o caminho da caridade na verdade, sabendo bem, como nos recorda ainda o Concílio, que não se deve “caminhar na estrada da caridade somente nas grandes coisas, mas também e sobretudo nas circunstâncias ordinárias da vida” e que, a exemplo de Cristo, “é preciso também carregar a cruz; aquela que, pela carne e pelo mundo, é colocada nas costas dos que buscam a paz e a justiça” (Cost. Gaudium et spes, 38).
Eis, caros amigos, as ideias para uma reflexão que gostaria de compartilhar convosco. Para mim, foi uma alegria poder concluir a minha visita na vossa companhia. Agradeço mais uma vez o Cardeal Patriarca, o Auxiliar e todos os colaboradores, por esta magnífica acolhida. Saúdo a Comunidade Judaica de Veneza – que tem antigas raízes e é uma presença importante no tecido social – com o seu Presidente, Prof. Amos Luzzatto. Também dirijo meu pensamento aos muçulmanos que vivem nesta cidade. Deste lugar tão significativo, dirijo minha cordial saudação a Veneza, à igreja que aqui peregrina e a todas as Dioceses do Triveneto, deixando, como sinal de minha perene recordação, a Bênção Apostólica. Obrigado pela vossa atenção.
* Extraído do site do Vaticano, do dia 8 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.
Homens, não super-heróis
Por Pigi Colognesi
Peço desculpas por voltar ao tema da Beatificação de João Paulo II; sei que muito já se escreveu sobre o tema. Mas, quando estávamos em Roma, naquele dia, o que vimos? Deixemos de lado, por um momento, os elementos, por assim dizer, acessórios: a multidão enorme, o desfile de autoridades eclesiásticas e civis, as vigílias de oração e as dificuldades para chegar e conseguir lugar.
No que consistiu, em si, a beatificação? Um gesto muito simples, quase prosaico. O bispo da diocese no qual o candidato beato morreu subiu os degraus que o separavam do sólio papal, tomou o microfone e disse ao Papa que a vida de um certo batizado de nome Karol Wojtyla merecia atenção e explicou o motivo, contando os principais momentos de sua vida. Em poucas palavras, podemos dizer que foi uma vida digna de ser recordada como uma vida bem sucedida, “beata”.
E o Papa respondeu que sim, que aquela vida de homem poderia mesmo ser chamada de beata. Fim da cerimônia de beatificação. Nesta troca simplicíssima de palavras, a Igreja demonstra, no entanto, uma coragem excepcional. Diz, com isso, que é possível, hoje em dia, sermos homens autênticos, verdadeiros; ser um homem para quem se possa olhar e afirmar, sem ironia, mas como surpresa: “Feliz dele”. O santo, no fundo, não é nada além disso: um homem verdadeiro.
Quem mais poderia ousar propor uma semelhante esperança para a nossa vida? Quando tudo está bem, nos recomendam que nos contentemos com a excelência em um ou outro setor da existência, nos sugerem que nos mantenhamos em forma e que tentemos “estar bem conosco mesmos”, que evitemos muitas complicações na busca de amor, justiça, verdade. O mundo, nos dizem, é uma selva, o tempo escorre inexoravelmente, as expectativas são sistematicamente desapontadas. Não é, de fato, possível ser verdadeira e completamente homens. E, diabos, nivelemos por baixo: o verdadeiro homem é uma quimera.
A Igreja, pelo contrário, anuncia exatamente que a humanidade realizada – em todas as suas dimensões, inclusive na exigência de eternidade e de misteriosa salvação do mal de que é feita cada existência – é possível. E não o diz como presságio ou como imperativo moral; ela o diz mostrando o exemplo no qual isto aconteceu: um homem com nome e sobrenome, que viveu nos mesmos anos em que eu vivi, que respirou a mentalidade, enfrentando as dificuldades, que sofreu os dramas que eu também vivi.
Em suma, a beatificação é um grande gesto de estima pelo homem. Confirmada pelo fato de que a plenitude do humano não é considerada como o êxito de uma habilidade particular da pessoa indicada como exemplo, mas de algo muito mais simples. “Feliz de ti porque creste” é a frase com a qual o evangelho descreve Maria, a fundadora da linhagem dos santos, e que Bento XVI usou para explicar a plenitude humana do novo beato.
Não se trata de nenhum heroísmo titânico, mas da simplicidade da fé. E quando aplaudimos diante da proclamação do novo beato, no fundo, estávamos exultando pela renovada e doce esperança quanto à mísera e grande humanidade de cada um de nós.
* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 9 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Comentário ao evangelho do dia
Evangelho - Lc 17,11-19
Aconteceu que, caminhando para Jerusalém, Jesus passava entre a Samaria e a Galiléia. Quando estava para entrar num povoado, dez leprosos vieram ao seu encontro. Pararam à distância, e gritaram: "Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!". Ao vê-los, Jesus disse: "Ide apresentar-vos aos sacerdotes". Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. Então Jesus lhe perguntou: "Não foram dez os curados? E os outro nove, onde estão? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?". E disse-lhe: "Levanta-te e vai! Tua fé te salvou".
Comentário feito por São Francisco de Assis (1182-1226)
fundador dos Frades Menores
Todo-poderoso, santíssimo, altíssimo e soberano Deus, Pai santo e justo, Senhor, Rei do céu e da terra, por Ti a Ti damos graças, pois que, por Tua santa vontade, e por Teu Filho unigênito, com o Espírito Santo, criaste todas as coisas espirituais e corporais. À Tua imagem e semelhança nos fizeste, o paraíso por morada nos deste, donde, por nossa culpa, caímos.
A Ti damos graças pois que, como por Teu Filho nos criaste, assim também, pelo santo amor com que nos amaste, fizeste que Teu Filho, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nascesse da gloriosa Virgem Santa Maria, e, pela Sua cruz, Seu sangue e Sua morte, quiseste resgatar-nos a nós, os cativos.
E a Ti damos graças porque esse mesmo Teu Filho de novo há de vir na glória da Sua majestade para lançar ao fogo eterno os malditos que recusaram converter-se e conhecer-Te e para dizer a todos quantos Te conheceram, Te adoraram e Te serviram em penitência: "Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo" (Mt 25, 34).
E porque somos, nós todos, indigentes e pecadores, dignos não somos de pronunciar o Teu nome; aceita pois, Te suplicamos, que Nosso Senhor Jesus Cristo, Teu Filho muito amado, em Quem puseste todo o Teu agrado, com o Santo Espírito Paráclito Te dê graças por tudo, como a Ti e a Ele agradar, Ele, que é Quem sempre em tudo Te basta, Ele, por Quem tanto fizeste por nós. Aleluia!
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