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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O que resta do Pai?



Por Jonah Lynch

Impressiona pela profundidade das intuições o último trabalho do psicanalista Massimo Recalcati, Cosa resta del padre? (O que resta do pai?, em tradução livre; ndt), na livrarias pela editora de Raffaello Cortina. 
Vai muito além das minhas competências avaliar a interpretação de Lacan que nutre e sustenta o pensamento do autor. O que gostaria de considerar é apenas uma pequena parte do livro, que porém é uma janela útil para se chegar ao conjunto da proposta de Recalcati. Trata-se de um dos exemplos literários tomados como “testemunhos” ao final do livro: a figura do pai em A estrada, de Cormac McCarthy. Recalcati sintetiza assim a lição que aquele pai nos dá, através do seu testemunho da esperança, do seu “levar o fogo”: “A vida não é abuso, não é luta para o triunfo do mais forte, não é violência cega. A vida é dedicação, cuidado, presença. A dedicação de um pai a um filho. O amor não é amor da vida, não é amor pelo mundo. O amor é amor do nome, é amor por um nome próprio, pelo mais particular, é amor de um pai por um filho. Nunca é amor pelo universal” (p. 162). Na página seguinte, o autor afirma nas entrelinhas uma novidade desta posição quanto ao que diz respeito à tradição cristã: “O verbo existe apenas através de uma criança. Não é mais aquilo que redime e justifica a vida, não é mais aquilo que pode salvar o mundo, mas é aquilo que pode continuar a existir somente através da singularidade de uma vida” (p. 163). O autor conclui a sua interpretação de McCarthy com um decálogo minimalista: “... algo que resiste, que não cede diante do próprio desejo, a algo, uma sobra de pai que, mesmo no esfacelamento e na decomposição niilista de todos os valores, insiste em transmitir com o fogo a vida como possível. Não matar, não comer, não violentar o outro homem. O que sobra do pai é o ser portador do fogo na noite escura de um mundo sem Deus” (p. 168).
Foi exatamente isto que me comoveu em A estrada. O mundo é mais feio quando vivido sem doação. O egoísmo não nos realiza. Com Recalcati, estou convicto de que seja melhor, mais conveniente para si e para os outros, viver a gratuidade, mesmo que seja na ausência de alguma justificativa transcendente.
Mas, me pergunta se a beleza sedutora de afirmar o outro não obstante tudo, “na noite escura de um mundo sem Deus”, não possa também esconder uma falsidade sutil. Este altruísmo parece ter necessidade da cenografia de um mundo desesperado e brutal. De outra forma, o seu esforço nobre e trágico não ressaltaria. Mas quem me garante que o sacrifício e o meu fazer as vezes do Pai-eterno ausente não seja, na realidade, a minha necessidade de me sentir um herói?
A resposta a esta pergunta está na experiência do sacrifício por amor, tema pouco valorizado no livro de Recalcati. Ele chega à soleira do problema, nas últimas páginas, dedicadas ao filme de Clint Eastwood, Gran Torino, mas não o enfrenta.
Não insisto sobre este ponto apenas por um senso de conservadorismo militante, mas porque é estranho como Recalcati recusa o Deus cristão e, ao mesmo tempo, acaba fazendo um retrato Seu em muitos aspectos preciso, comovente e desejável.
Parece que o axioma tantas vezes repetido do “céu vazio” seja simplesmente uma opinião do autor que tem pouco que ver com o conteúdo da sua proposta. Estamos de acordo praticamente em tudo: graças a Deus que o céu não contém a terrível presença do deus de Sartre ou de um pai-tirano como Zeus. Tem razão, é muito sugestivo descrever o pai, com Lacan, como aquele que une desejo e Lei. É fundamental a experiência do limite e da falha, assim como é fundamental experimentar a vida como mistério superabundante, e viver tanto a errância quanto a pertença, trazidas à tona pelo autor com uma referência ao filho pródigo.
Mas quem foi que disse que não há um vínculo forte e real entre a doação de um pobre pai perdido nas cinzas pós-apocalípticas e a suma gratuidade do Pai criador? Por que não afirmar também esta possibilidade? Ela exalta, não elimina, a beleza da “singularidade de uma vida”.
Fico tocado que aquilo que Recalcati propõe e deseja seja justamente aquilo que Jesus fez. Ele não resolveu os problemas. O Onipotente não dominou com seu poder, mas se humilhou e se comunicou a poucas vidas singulares, aos apóstolos.
Não iluminou a noite com uma mágica solução deus ex machina. Mais do que isso: ele transmitiu o fogo da caridade, que rende a vida possível e belíssima, mesmo quando é inteiramente vivida no vale escuro do mundo hiper-moderno. Tu estás comigo: não temerei mal algum. Sobretudo, não temerei que amanhã seja inevitavelmente pior do que hoje. Aquele fogo que Tu me acendeste poderá passar não apenas a um filho, mas a dois, talvez três. Será preciso o tempo, mas assim nascerá um povo luminoso.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 12 de outubro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sábado, 9 de abril de 2011

Cartas do P.e Aldo 187

Asunción, 8 de abril de 2011.

Caros amigos,
“Deus ama mais a nossa liberdade do que a nossa salvação”, nos dizia Dom Giussani. Nestes dias, não apenas Paolino e eu, mas todos experimentamos o que significa esta provocação que desmascara a nossa possessividade, a nossa pretensão sobre os outros, talvez até com a sutil desculpa de que seja pelo bem deles. Anna Maria é uma garota muito bonita de quinze anos, e tenho sua adoção judicial... no domingo à noite, ela fugiu da “Casinha de Belém” com Marta, de dezessete anos, a mãe da pequena Lúcia, a menina que morreu alguns meses atrás na nossa clínica. Imaginem o que significou para mim e para Paolino em particular. Pensem no que vocês experimentariam se uma filha fugisse de casa. A dor foi grande, porém cheia de uma liberdade desconhecida antes, aquela liberdade que é uma total entrega ao Mistério e que se torna oração. Nós a procuramos, mas nada...
Às três da madrugada, Marta retornou e foi acolhida com alegria pela “mãe adotiva”, mas não tínhamos ainda nenhuma notícia de Anna Maria. No dia seguinte, segunda-feira, avisamos a polícia e o juiz responsável pelo caso, que emitiu uma ordem de captura.
Foram dias, horas sem fim, cheios de preocupação e também de uma certa raiva, devida aos mil porquês e pretensões que trazíamos dentro do coração. É o humano em todas as suas dimensões que, porém, não cessa de ser grito, oração, súplica. A impotência é total. A primeira noite, para mim, foi um pesadelo, mas as confiança na Providência era total. Na total impotência, eu sentia que o meu amor devia prestar contas com a liberdade de Anna Maria. Mas, que desafio! Que dureza! Amar a liberdade dos próprios filhos mais do que sua salvação... se você não for tomado pelo Mistério, isso não é possível; se o seu eu não é um “eu sou Tu que me fazes”, não é nem mesmo hipotetizável uma posição assim. Mas, graças a Nossa Senhora, para mim, esta certeza é dura como uma pedra, de forma que vence sempre. E, hoje, quarta-feira, a bela notícia: Marcelo, seu professor, a viu numa rua. Imediatamente, sai para buscá-la. Quando cheguei, agarrou-se, literalmente, à minha pobre pessoa e eu a levei para casa, para a nossa casa. Eu a olhava e acariciava. Estava muito bonita no seu cansaço. Somente algumas palavras, com as quais eu perguntei se alguém lhe havia feito mal. Depois, dei-lhe um chocolate, como Giussani fez comigo naquele dia, rezamos uma Ave Maria. Chamei Paolino, que a abraçou com uma grande ternura. Em seguida, chamamos Diana, a mãe adotiva, da “Casinha de Belém” número 2, para que a levasse para um banho e para dormir, deixando para o dia seguinte todo o resto. A psicólogo a esperava com as perguntas de sempre, mas Paolino, brigando, disse: “os psicólogos somos nós, por isso, vamos fazer festa e, agora, ela deve dar uma boa dormida”. Quando demos boa noite, perguntamos: “você está feliz de voltar?”. E ela: “sim, Padre”.
Ela andou, caminhou por três dias... mas, quando já estava cansada, resolveu voltar para casa. A liberdade de Deus e a sua liberdade venceram nossos medos, nossas pretensões, nossa posse. Ainda uma vez aquele “eu sou Tu que me fazes”, que aos poucos entra até no fundo dos ossos dos meus filhos, triunfou. Dias muito duros, mas hoje, ver o triunfo da liberdade é, de fato, comovente, porque Anna Maria voltou, está salva. E somente quem ama a liberdade se alegra, porque vê também a salvação dos seus filhos.
Certo, amigos, não é fácil... porque, todos os dias, o Senhor me pede tudo neste oásis de dor... e, às vezes, parece que não darei conta... e, frequentemente, a pessoa pode experimentar aquele sentimento que faz dizer “mas, Senhor, o que queres de mim?”. Mas, no mesmo instante, aquele Tu que domina tudo vence.
Todos os momentos são uma batalha como aquela de Jacó com o Anjo... e é bonito que seja assim, porque é a vida que o exige, porém é necessário que a minha liberdade, no fim, se renda sempre à evidência do Mistério que me quer Seu.
Obrigado, amigos, porque quando rezam por mim e por meus filhos, vocês contribuiram para a volta da nossa Marta e de Anna Maria.
Amigos, desafiem e deixem-se sempre desafiar pela liberdade dos filhos de vocês.
Padre Aldo

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A pergunta pelo sentido: um “discurso inútil” e, por isso, mais verdadeiro

por Francesco Ventorino

Elogio del discorso inutile (Elogio do discurso inútil; ndt) é a obra que melhor do que qualquer outra caracteriza a virada cultural e espiritual que marcou os últimos vinte anos da vida de Pietro Barcellona. Desde a sua militância no Partido Comunista, depois da queda do muro de Berlim e a consequente e dramática evidência das degenerações dos regimes comunistas estruturalmente ligados à luta do proletariado, através do trabalho de uma revisão profunda da sua personalidade, Barcellona chegou, como uma certa “ressurreição da consciência de si”, a um ponto no qual tudo é recuperado, sobretudo o seu passado, nos desejos mais profundos que o haviam marcado. Importantes – diria decisivos – foram para ele os encontros feitos.
“Não se pode comprar a nenhum preço a alegria de estar vivos depois de uma noite de tempestuosa cruzada no céu. O ‘sem preço’ do excedente é o valor das relações entre o eu e o mundo, entre si e o outro, que não se pode reduzir a valor de troca e que não é calculável com critérios de medida utilitários” (p. 16) 
Poder-se-ia dizer que a história de si que Barcellona quer contar é uma exaltação do incalculável, como sentido e fundamento de esperança pela existência humana, da “irrupção do impensado” e da “experiência do excedente”, que podem ser descritos apenas com a “linguagem incomensurável da alegria da vida” ou, se quisermos, do discurso inútil.
É uma oposição clara contra a pretensão de reconduzir tudo àquilo que é explicável e à linguagem científica como algo que a tudo compreende que, na época atual, parece ser a única via de acesso a uma verdade qualquer. A subjetividade humana na sua exigência de compreender e falar da realidade não se deixa constranger por uma descrição ou explicação científica. É necessário, portanto, dar espaço a discursos “alternativos”. Em primeiro lugar ao discurso psicanalítico.
“Amadureci, no curso da minha vida e das minhas experiências, a profunda convicção de que o discurso psicanalítico não é capaz de responder aos cânones da razão de cálculo e que não existem resultados práticos causalmente imputáveis a alguma modificação fisiobiológica. (...) Por isso, acredito que a psicanálise tenda a realizar uma compreensão do mundo e de si mesma não como aprendizado de técnicas comportamentais úteis para agir em uma determinada situação” (p. 68).
Se a psicanálise tende a realizar “uma compreensão do mundo e de si mesma”, ela se abre inevitavelmente ao discurso filosófico ou à busca do originário. Aquele discurso – confessa Barcellona – que, desde quando era um garoto, o atraiu, com uma modalidade quase “socrática”, e que o marcou, em seguida, por toda a vida.
Neste ponto, o autor se pergunta por que a filosofia no curso da história tenha parado de ser um discurso inútil, isto é, “tendido a compreender a si mesmo” e se tenha transformado em discurso instrumental, isto é, voltado “a explicar o porquê dos eventos que acontecem ao longo do caminho da nossa existência”. Eis a resposta:
“A trágica experiência da falência da possa da verdade absoluta, sem sombras nem mistérios, impulsionou os filósofos a substitui-la pela ‘certeza’ adquirida através da experimentação das hipóteses, como resultado de um método ‘científico’, fundado sobre regras precisas. Enquanto o discurso filosófico acaba coincidindo completamente com a filosofia da ciência, seria preciso, pelo contrário, recomeçar da derrubada da relação entre pensamento e vida efetiva, e voltar a recuperar a ‘inútil’ elementariedade da filosofia como ‘vida que se sabe’, para compreender que a ‘verdade’ está na experiência imediata que cada um faz do relacionamento entre si, os outros e o mundo” (p. 104).
O que há, portanto, por trás da redução da pergunta pelo especificamente humano a lógica, epistemologia e teoria do conhecimento?
“É um trabalho de remoção do problema da finitude dos ‘seres mortais’”.
É a negação da parte do homem da pertença originária e constitutiva do seu ser que nos levou à época da “morte de Deus” que é seguida da época da “morte do homem”.
“Como consequência extrema da vontade de matar a deus, hoje, com as teorias pós-humanas, neuro-científicas e cognitivistas, estamos diante de uma tentativa de ‘matar o homem’, colocando em crise a dimensão da ‘subjetividade espiritual’ que o acompanhou durante o caminho histórico” (p. 125).
E no entanto, no coração de cada ser humano, permanece “o sentido profundo da dimensão religiosa” como “busca de um caminho de salvação, que não é apenas a esperança de um perdão das próprias culpas, mas sobretudo é o desejo de conservar, para além da soleira do obscuro silêncio, os afetos e o sentido da própria existência” (p. 131).
Vem ao encontro desta exigência, de modo impensado e impensável, o cristianismo, graças à sua extraordinária inovação introduzida por Cristo na história da condição humana.
“O evento do nascimento de Cristo é um sobressalto do Universo que se rebela contra o próprio destino mortal; é uma energia que não reenvia a nada mais do que à própria manifestação,que irrompe na história humana e suspende o seu fluxo, porque a sua presença plena só é pensável na medida em que é compreendida como evento instantâneo, sem pressupostos” (pp. 134-135).
Na conclusão da obra, o autor confessa que o discurso religioso, que encontro no anúncio do evento cristão o seu cume de significado para a existência humana e a sua salvação do nada, é aquele discurso inútil no qual se realizam todos os outros discursos, porque
“o ser humano não pode saber-se, no seu ser ‘fora de medida’, no seu ser submetido às leis do tempo e da morte, se não encontra na própria existência a explosão do Evento absoluto, no qual o filho do homem e o filho de Deus se reúnem no amor” (p. 148).
Confissão que me comove porque diz respeito a mim pessoalmente. Barcellona, de fato, reconhece que este encontro, para ele, aconteceu através de “um padre, de quem me tornei amigo nestes últimos anos” (p. 147).

* Extraído de IlSussidiario.net, do dia 15 de junho de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Educação superior: imperativo?

Recentemente, a revista Dicta & Contradicta, em seu blog, publicou um texto de Joel Pinheiro intitulado "Universidade para todos?". Na ocasião, escrevi um longo comentário ao texto, descrevendo uma experiência pela qual acabara de passar. Relendo o comentário, lendo algumas coisas nos últimos dias, conversando com algumas pessoas, e repensando o episódio que me levara a escrever o que escrevi, achei por bem publicá-lo aqui, com algumas ligeiras modificações/atualizações e alguns acréscimos.

Veio bem a calhar a reflexão proposta por Joel Pinheiro, especialmente levando-se em conta os espaços de trabalho com os quais estou envolvido atualmente. Valho-me não apenas de minha experiência docente em uma instituição privada de ensino superior da cidade de São Paulo, como também da minha experiência como psicólogo dentro desta mesma instituição (lidando diretamente com os problemas de ensino-aprendizagem, as relações professor-aluno, as relações instituição-clientes, e as questões vocacionais que emergem tanto antes da entrada na universidade, como depois da entrada), mas também de minha atuação junto à Associação Educar para Vida, como professor de língua portuguesa, lógica, gramática e retórica para alunos pré-universitários associados.
Em minha curta carreira como professor universitário, já passei por universidades públicas (federais e estaduais) e privadas confessionais. Há uma semana, porém, aconteceu, numa sala de aula de sétimo semestre de Pedagogia da instituição na qual trabalho atualmente, o que considero a "gota d’água" de um processo de reflexão pelo qual vinha passando há alguns meses… Há muito, vinha me perguntando e discutindo com colegas e amigos, se a universidade é mesmo para todos. Se não haveria um abismo entre o pretenso direito à educação e essa quase obrigatoriedade a uma educação de nível superior. Se a queda na qualidade em todos os níveis do que se oferece nessas instituições medíocres não seria um preço alto demais a se pagar por essa suposta democratização (que me cheira mais a uma ditadura imbecil do consenso mancomunada com uma lógica financeira perversa que prescinde de qualquer Valor em nome de dígitos depois da vírgula).
Vejamos alguns fatos: as alunas que cursam Pedagogia nesta instituição têm idades que variam entre 20 e 60 anos. A escolha pelo curso foi motivada, em sua grande maioria, pelas justificativas – bastante conhecidas de muitos – da "facilidade para encontrar um emprego público em escolas municipais e estaduais", além da de "ser um curso mais fácil". A história educativa dessas alunas – pode-se dizer sem muita chance de erro – é a história do estudante típico da maioria das universidades privadas que por aí estão: sem um emprego adequado; há anos distante dos bancos escolares; muitas vezes com apenas o ensino fundamental concluído regularmente (quando muito!); com um ensino médio feito em esquema de supletivo; passa, um belo dia, na frente de uma das tantas instituições de ensino superior que – como botecos – se espalham pela cidade, e resolve, confiado na promessa de uma melhora no nível salarial, se inscrever para um vestibular que não separa mais do que o apto do não apto a marcar com um "X" uma entre várias alternativas em uma prova absolutamente medíocre (já viram a qualidade dessas provas? não consegue vencer sequer o nível baixíssimo da qualidade das provas do ENEM), além de pretender verificar, em 10 (ou no máximo 20) linhas, a capacidade lógica argumentativa (?) do pretenso aluno, em uma redação cujo tema é incapaz sequer de verificar o nível de conhecimentos gerais do candidato... A descrição poderia ir mais longe, mas, já com esse pequeno quadro, tem-se o pano de fundo do episódio que tive que encarar na semana passada: deparei-me com uma aluna que se queixava de não ter sido aprovada num processo seletivo para estagiar – vejam bem, "estagiar"! – em uma escola privada de São Paulo; investigando o motivo da não aprovação, descobri que a aluna, na carta de apresentação (de oito linhas, manuscritas) que escreveu para a escola, conseguiu a proeza de grafar a palavra "encino" três vezes e a palavra "serviso" duas vezes, sem falar nos erros de pontuação etc. Já escutei discursos suficientes sobre a "opressão da gramática" ou sobre as relações de poder que se escondem por trás da norma culta etc. Mas, uma aluna de sétimo semestre de Pedagogia, certamente, em três anos e meio de curso, deveria ter lido uma boa centena de vezes a palavra "ensino"... não se trata pois de uma crítica que vem a corroborar o argumento da "opressão da gramática" contra o valor do desejo de se expressar, mas de se perguntar se essa aluna, alguma vez, leu a palavra que está ou estará em sua boca cotidianamente, se trata de se perguntar se podemos nos valer apenas do argumento da experiência (tão comum entre as alunas da Pedagogia: "eu tenho 30 anos de Estado"...) quando o que está em jogo é a formação (e não uso essa palavra banalmente...) das gerações que vêm por aí. Sou até mesmo capaz de dizer que escrever "encino" é, dos males, o menor… Porque a gota d’água mesmo não foi o "encino"… foi bem outra.
Depois desse aperitivo, entrei em sala e me deparei com uma algazarra digna de uma feira livre (não fosse a algazarra, a cena por si mesma descreveria o mesmo ambiente: soutiens e calcinhas espalhados nas mesas, revistas da Natura e da Avon circulando entre as mãos, maquilagens sendo exibidas aqui e ali, um grupo de "meninas" penteando outra...). Pedi licença para entrar, disse bom-dia, ajeitei-me para dar uma aula (nessa instituição, eu era - porque não sou mais - o que o professor eventual é nas escolas públicas: substituía professores que, por algum motivo, se ausentavam ou se atrasavam. Com um agravante, porém: eu era pago para enganar os alunos... segundo me informaram, a "filosofia da proposta" justificava o erro moral que a sustentava), tentei um novo bom-dia e, finalmente, notei alguns movimentos que se pareciam com movimentos de interesse por parte das alunas... até descobrir que não: não eram de interesse, mas de indiferença manifesta claramente nas caras e bocas que me foram dirigidas. Tentei, então, uma medida um pouco mais contundente: "não querem assistir à aula, mas querem ficar aqui para garantir a presença... peço, em nome ao menos da boa condução, que se assentem viradas para cá… em sinal de um mínimo de respeito... visto que, em nome dele, não me parece possível pedir muita coisa". Resultado? Mais caras feias, comentários ofendidos, zombarias e… uma gritaria que eu nunca havia visto, em toda a minha vida, dentro de uma universidade. Fui caluniado, fui agredido, fui impedido de falar... E a cena toda tomou formas inesperadas. Vou resumir toda a ópera apresentando apenas os últimos movimentos, do último ato, a partir das falas de algumas personagens: "professor, se o senhor quer a nossa atenção, não devia estar dando aula" (Ah, não! O que eu deveria estar fazendo, então?... Não souberam responder), "professor, eu tenho uma vida muito cheia – tenho família para cuidar, tenho meu trabalho, saio cedo de casa todos os dias e volto tarde… aqui é o único lugar que eu tenho para bater papo" (Ah! então você paga universidade para bater papo, assinar a lista de presença cotidianamente e pegar seu diploma no final de 4 anos? Novo silêncio), "professor, a gente está quase se formando, não dá para ficar perdendo tempo com aulas, né?" ("Perdendo tempo com aula"? O que vocês esperam desse lugar – além de ser um espaço para bater papo, assinar listas de presença e receber um papel mágico que pretensamente lhes abrirá portas? Novo silêncio), "professor, o dinheiro que eu gasto com a universidade é meu… se eu não estou interessada, é problema meu"… Uma depois da outra, frases grotescas como essas foram sendo regurgitadas daquelas gargantas. O pior de tudo isso foi ver que eu estava vislumbrando, ali, numa sala de aula de ensino superior, um retrato das salas de aula dos ensinos fundamental e médio… sem nenhuma reflexão, sem nenhum espaço para reflexão, sem nenhuma intenção de reflexão, sem nenhum respeito, sem nenhuma crítica ou autocrítica… pura reação, caótica, mecânica ("pago-e-recebo-pelo-que-pago"), histérica, digna de uma descrição dantesca dos círculos infernais. Tentar propor um olhar reflexivo sobre o que me diziam, como metralhadoras ensandecidas, parecia – olhando-me de fora e de longe – com jogar pérolas a porcos. Enojado, peguei minhas coisas, dirigi-me à porta e, num ímpeto de esperança, voltei o olhar a espera de, pelo menos, um rosto envergonhado. Não havia vergonha em nenhum rosto. Finda a vergonha, findos os valores. Findos os valores, o que resta?
Essas mulheres, daqui a seis meses, estarão dando aulas para os "nossos" filhos, com um diploma assinado pela coordenação do curso de Pedagogia dessa instituição, pelo "reitor", e com um carimbo do MEC. É a mediocridade fazendo escola!
Não, a universidade não pode ser para todos! Definitivamente… sobretudo se esse "para todos" for um imperativo!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Cartas do P.e Aldo 124

Asunción, 01 de dezembro de 2009.

Caros amigos,
“EX UNO OMNIA ET OMNIA LOQUUNTUR UNUM” (de uma coisa apenas e todas as coisas falam daquela única coisa). Se aqueles que me escrevem, recebendo os meus emails de amigos, levassem a sério esta provocação da Imitação de Cristo, não se agitariam tão facilmente, preocupando-se em fazer mil precisões sobre cada frase que digo e que nasce da minha experiência.
Refiro-me, particularmente, aos psicólogos, psicoterapeutas, psicanalistas que se preocupam com o que escrevo e se angustiam em tentar me explicar a necessidade ou a importância da sua profissão. E quem colocou, alguma vez, isso em discussão? O problema, amigos, é outro: o que quer dizer, para vocês, a provocação da Imitação de Cristo? O que quer dizer, para vocês, que o homem não é e nunca será o êxito do passado, que o homem não pode ser reduzido aos seus antecedentes biológicos, hereditários, psicológicos? MAS, O HOMEM É RELAÇÃO COM O INFINITO: o que quer dizer “EU SOU TU QUE ME FAZES”?
Amigos, sobre este ponto se joga tudo e não estou disposto a voltar atrás em nem mesmo uma vírgula, porque seria negar o meu EU e tudo aquilo que, aqui, a Providência me mostra. E exatamente porque, para mim, o homem é apenas relação com o Mistério, que eu vivo comovido com o capítulo X d’O Senso Religioso. Então, uma pessoa que vive assim ama a matemática, a física, a química, a astronomia, a psicologia, a psicanálise... assim como também ama a boa cozinha, o bom vinho, e se comove diante da beleza de uma montanha ou de uma mulher. Então, também, com os doentes, se preocupa que tenham os melhores médicos, os melhores psicólogos, os melhores psiquiatras etc. Então, como é o meu caso, usa, se for necessário, também os psicofármacos etc.
Vocês entendem, agora, porque no meu hospital, vivendo de joelhos diante de cada doente, porque é Cristo, se uma pessoa tem necessidade de um especialista, não ficamos preocupados com o custo, nós lhe damos uma especialista... e vivemos de caridade? Vocês entendem porque um doente terminal, que pode morrer no dia seguinte, se precisa, recebe, ao seu lado, o fisioterapeuta para que consiga mover o dedo ou para que consiga um mínimo de bem-estar no leito? “Padre, olha... consigo mover o dedo, graças ao fiseioterapeuta. Estou contente... está melhor”. E, no dia seguinte, o paciente morre. Vocês entendem o que acontece – e acontece apenas quando o “eu sou Tu que me fazes” se torna carne cotidiana, respiro cotidiano?
Amigos, as sutilezas de vocês, as preocupações que vocês têm de especificar, esclarecer – desculpem-me – me parecem falação de quem ão leva a sério quem é e quem é o homem. Para mim, graças a tanto sofrimento, isto é mais evidente do que o sol: o homem, eu, é. “Eu sou Tu que me fazes”.
Quando alguém faz uma experiência disso, então a frase da Imitação de Cristo enche a vida, porque a pessoa só vive por aquele “UNUM”, e o contragolpe é que começa a abraçar a todos: razão e fé são irmãs.
Permitam-me dizer que, nos anos mais “desesperados”, eu também fui a um psiquiatra... mas apenas para pedir-lhe pílulas (anti-depressivos etc.), que ainda uso. Mas apenas por isso, porque no meu DNA está gravado profundamente “EU SOU TU QUE ME FAZES”. Certamente que eu vi estrelas durante o dia e não apenas durante a noite, mas Cristo venceu e continua vencendo qualquer noite que me surpreender pelo caminho.
“Tudo, tudo [entendem?] posso nAquele e somente nEle que me dá a força”.
De Giussani eu herdei esta certeza de pedra, e peço a Nossa Senhora que me ajude a levar esta certeza até o túmulo, porque, por menos do que isso, não vale a pena respirar.
Bom Natal.
P.S.: Por favor, para entenderem ainda mais, leiam na Bíblia Eclo 38, 1-14. Boa meditação, senhores experts da mente.