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quinta-feira, 1 de março de 2012

A Quaresma com os santos

Imitemos o exemplo de Cristo como pastor 

Das Homilias de Santo Astério de Amaséia, bispo (Séc.V)
(Hom. 13:PG40,355-358.362)

Se quereis parecer-vos com Deus porque fostes criados à Sua imagem, imitai o Seu exemplo. Se sois cristãos, nome que já é uma proclamação de caridade, imitai o amor de Cristo. Considerai as riquezas de Sua bondade. Estando para vir como homem ao meio dos homens, enviou à Sua frente João, como pregoeiro e exemplo de penitência; e antes de João, tinha enviado todos os profetas para ensinarem aos homens o arrependimento, a volta ao bom caminho e a conversão a uma vida melhor. Vindo, pouco depois, Ele mesmo em pessoa, proclamou com a Sua voz: Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados e eu vos darei descanso (Mt 11,28). Como acolheu Ele os que ouviram a sua voz? Concedeu-lhes sem dificuldade o perdão dos pecados e a imediata libertação de seus sofrimentos. O Verbo os santificou, o Espírito os confirmou; o velho homem foi sepultado nas águas do batismo e o novo, regenerado, resplandeceu pela graça. Que conseguimos ainda? De inimigos de Deus, nos tornamos amigos; de estranhos, filhos; e de pagãos, santos e piedosos. Imitemos o exemplo de Cristo como pastor. Contemplemos os evangelhos e vendo neles, como num espelho, o exemplo de sua solicitude e bondade, aprendamos a praticá-las. Vejo ali, em parábolas e figuras, um pastor de cem ovelhas que, ao verificar que uma delas se afastara do rebanho e andava sem rumo, não permaneceu com as outras que pastavam tranquilamente. Saiu à sua procura, atravessando vales e florestas, transpondo altos e escarpados montes, percorrendo desertos, num esforço incansável até encontrá-la. Tendo-a encontrado, não a castigou nem a obrigou com violência a voltar para o rebanho; pelo contrário, tomando-a nos ombros e tratando-a com doçura, levou-a para o aprisco, alegrando-se mais por esta única ovelha recuperada do que por todas as outras. Consideremos a realidade oculta na obscuridade da parábola. Nem esta ovelha nem este pastor são propriamente uma ovelha e um pastor; são imagem de uma realidade mais profunda. Há nesses exemplos um ensinamento sagrado: nunca devemos considerar os homens como perdidos e sem esperança de salvação, nem deixar de ajudar com todo empenho os que se encontram em perigo nem demorar em prestar-lhes auxílio. Pelo contrário, reconduzamos ao bom caminho os que se afastaram da verdadeira vida e alegremo-nos com a sua volta à comunhão daqueles que vivem reta e piedosamente.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Quaresma: tempo propício para renovarmos nosso caminho de fé


Mensagem de Sua Santidade
Papa Bento XVI
para a Quaresma de 2012

“Prestemos atenção uns aos outros,
para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Hb 10, 24)

Irmãos e irmãs!
A Quaresma oferece-nos a oportunidade de refletir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito, este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.
Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: “Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Hb 10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor “com um coração sincero, com a plena segurança da fé” (v. 22), de conservarmos firmemente “a profissão da nossa esperança” (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, “o amor e as boas obras” (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre atual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.

1. “Prestemos atenção”: a responsabilidade pelo irmão
O primeiro elemento é o convite a “prestar atenção”: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a “observar” as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objeto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a “dar-se conta” do cisco que têm na própria vista antes de reparar na trave que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também em outro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a “considerar Jesus” (Lc 3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela “esfera privada”. Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o “guarda” dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o fato de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo atual sofre sobretudo de falta de fraternidade: “O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo” (Carta enc. Populorum progressio, 66).
A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é “bom e faz o bem” (Sl 119, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de “anestesia espiritual”, que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, “seguiram adiante” do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de “prestar atenção”, de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de “ter misericórdia” por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: “O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende” (Pr 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança “dos que choram” (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.
O fato de “prestar atenção” ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje se é muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa ao bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: “Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele se tornará ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber” (Pr 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de “corrigir os que erram”. É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: “Se porventura um homem for surpreendido em alguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, para não seres surpreendido, tu também, pela tentação” (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que “sete vezes cai o justo” (Pr 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais retamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.

2. “Uns aos outros”: o dom da reciprocidade
O fato de sermos o “guarda” dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de considerá-la na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a atual pode se tornar surda tanto aos sofrimentos físicos, quanto às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que “leva à paz e à edificação mútua” (Rm 14, 19), favorecendo o “próximo no bem, visando à edificação da comunidade” (Rm 15, 2), sem buscar “o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos” (1Cor 10, 33). Esta recíproca correção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.
Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm que ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, tanto no bem quanto no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas se alegra contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que “os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros” (1Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, cada cristão pode expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e onipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a ação do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16).

3. “Para nos estimularmos ao amor e às boas obras”: caminhar juntos na santidade
Esta afirmação da Carta aos Hebreus (Hb 10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1Cor 12, 31-13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efecivo sempre maior, “como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia” (Pr 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.
Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de “colocar para render os talentos” que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre atual, para tendermos à “medida alta da vida cristã” (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: “Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima” (Rm 12, 10).
Que todos, diante de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Hb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.
Vaticano, 3 de novembro de 2011

BENEDICTUS PP. XVI

* Extraído do site do Vaticano. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Cartas do P.e Aldo 206


Assunción, 5 de outubro de 2011.

Caros amigos,
Acabei de me confessar e, finalmente, depois de uma semana muito dura, o céu voltou a ser azul. Que graça grande a confissão semanal ou até mesmo quando é mais frequente. E olhem que a confissão não tem nada que ver com a direção espiritual ou com a procura por algum conselho. O meu confessor é essencial: escuta os meus pecados, me dá a penitência, me faz dizer o Ato de Contrição e, em seguida, me dá a absolvição. Tudo em três minutos. E, no entanto, que Acontecimento, que encontro com o olhar de Jesus que, com os pecadores, nunca perdeu mais do que alguns minutos. A Zaqueu disse: “desce porque, nesta noite, vou jantar com você”. Para a adúltera: “Mulher, quem te condenou?”. “Ninguém, Senhor” “Eu também não te condeno. Vai e não peques mais”, ou seja, permanece sempre comigo. Para Mateus, “segue-me”, e ele O seguiu. Alguns minutos a mais ele dedicou à Samaritana, mas tinha as suas razões pedagógicas. O meu confessor também é assim. A essencialidade do Sacramento: reconhecer a Presença, confiar o meu nada e me sentir abraçado na minha loucura porque, como nos lembra Giussani no seu livro Ciò che abbiamo di più caro (O que temos de mais caro, sem tradução para o português; ndt), “quem comete pecado odeia a si mesmo” e esta é a loucura.
Esta foi uma semana dura, na qual Jesus me manteve próximo dEle na cruz e, em certos momentos, eu O teria deixado sozinho. É a tentação para a qual a minha liberdade responde com a confissão. Ou seja, com a prática daquilo que Péguy, que Giussani cita no seu último livro, chama: VERDADE HIGIÊNICA, de que a confissão é, na minha experiência de 22 anos de missão, o coração. Péguy fala de verdade cirúrgica que é aquela mais cômoda: cortar. E de verdade higiênica: “não procurem um milagre, mas um caminho”. Giussani me educou muito bem a viver esta esperança da verdade higiênica tanto no modo com o qual ele me educou a viver a minha afetividade, quanto no modo com o qual viver cada detalhe. Enquanto que sempre seremos inclinados à verdade cirúrgica: cortar. E assim, experimentaremos a alegria de ser homens, a alegria que nasce do fato que nada daquilo que é humano nos será estranho. É um grande desafio para a liberdade, porque a verdade higiênica exige que você inteiro entre no jogo e exige um trabalho paciente como o trabalho de um parto, para recordar o cartaz de Páscoa de 1989, que trazia a famosa frase de Mounier. Esta semana eu quis cortar tantas coisas, tantos relacionamentos, porque eu estava cansado, mas a obediência à realidade me fez ficar dentro daquilo que acontecia sem cortar nada, sem censurar nada e, no fim, graças à companhia sacramental e à confissão, me descubro, agora, mais livre, mais feliz. Pensava nisso ontem à noite, quando fui ao médico para ver como anda minha diabetes e ele também aplicou em mim uma terapia higiênica mais do que cirúrgica. E esta terapia, a higiênica, depende totalmente da minha liberdade, porém, no fim, salva tudo.
Meus amigos... mesmo que vocês se apaixonem repentinamente e queiram fugir dessa paixão ou tirá-la do meio do caminho, como muitos me escrevem, acredito que ela deva ser motivo para que vocês prestem contas gritando e pedindo ajuda. Espero que vocês leiam o que Giussani disse em Ciò che abbiamo di più caro, para que possam entender o quanto é necessário um trabalho, um caminho, porque o verdadeiro milagre é a verdade higiênica de que a confissão freqüente é o sinal de uma liberdade, verdadeiramente, comprometida com um caminho de conversão. A semana foi dura, como cada dia é duro, porque, aqui, eu sempre vivo no mesmo instante a morte e a ressurreição de Jesus. Não há intervalos!
Um abraço,
Padre Aldo

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Comentário ao evangelho do dia

Santa Maria Madalena

1ª Leitura - Ct 3,1-4a
Eis o que diz a noiva: "Em meu leito, durante a noite, busquei o amor de minha vida. Procurei-o, e não o encontrei. Vou levantar-me e percorrer a cidade, procurando pelas ruas e praças, o amor de minha vida. Procurei-o, e não o encontrei. Encontraram-me os guardas que faziam a ronda pela cidade. 'Vistes por ventura o amor de minha vida?'. E logo que passei por eles, encontrei o amor de minha vida".

Evangelho - Jo 20,1-2.11-18
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: "Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram". Maria estava do lado de fora do túmulo, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se e olhou para dentro do túmulo. Viu, então, dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Os anjos perguntaram: "Mulher, por que choras?". Ela respondeu: "Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram". Tendo dito isto, Maria voltou-se para trás e viu Jesus, de pé. Mas não sabia que era Jesus. Jesus perguntou-lhe: "Mulher, por que choras? A quem procuras?". Pensando que era o jardineiro, Maria disse: "Senhor, se foste tu que o levaste dize-me onde o colocaste, e eu o irei buscar". Então Jesus disse: "Maria!". Ela voltou-se e exclamou, em hebraico: "Rabunni" (que quer dizer: Mestre). Jesus disse: "Não me segures. Ainda não subi para junto do Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus". Então Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: "Eu vi o Senhor!", e contou o que Jesus lhe tinha dito. 

Comentário feito por São Gregório Palamas (1296-1359)
monge, bispo e teólogo

Entre as que trouxeram perfumes ao túmulo de Cristo, Maria Madalena é a única de cuja memória celebramos. Cristo tinha expulsado dela sete espíritos (Lc 8,2), para dar lugar às sete operações da graça do Espírito. A sua perseverança em ficar perto do túmulo valeu-lhe a visão dos anjos e a conversa com eles; depois, após ter visto o Senhor, tornou-se Sua apóstola junto dos apóstolos. Instruída e plenamente assegurada pela boca de Deus, vai anunciar-lhes que viu o Senhor e repetir-lhes o que Ele lhe disse. Consideremos, meus irmãos, quanto Maria Madalena cedia em dignidade a Pedro, o chefe dos Apóstolos, a João, o teólogo bem-amado por Cristo, e quanto ela foi, no entanto, mais favorecida que eles. Eles, quando acorreram ao sepulcro, apenas viram as ligaduras e o sudário; mas ela, que permanecera com firme perseverança até ao fim à porta do túmulo, viu, antes dos apóstolos, não só os anjos, mas o próprio Senhor dos Anjos, ressuscitado na carne. Ela ouviu a Sua voz e assim Deus, pela Sua própria palavra, a pôs ao Seu serviço.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O objetivo primeiro da oração é a conversão

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 15 de junho de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Na história religiosa do antigo Israel, os profetas com seu ensinamento e sua pregação tiveram grande relevância. Entre eles, emerge a figura de Elias, suscitado por Deus para levar o povo à conversão. O seu nome significa “o Senhor é meu Deus” e é de acordo com este nome que se desenrola a sua vida, toda consagrada a provocar no povo o reconhecimento do Senhor como único Deus. Acerca de Elias, o Livro do Eclesiástico diz: “Elias, o profeta, levantou-se em breve como um fogo. Suas palavras queimavam como uma tocha ardente” (Eclo 48, 1). Com esta tocha Israel reencontrou o seu caminho em direção a Deus. No seu ministério, Elias reza: invoca o Senhor para que traga à vida o filho de uma viúva que o tinha hospedado (cf. 1Re 17, 17-24), grita a Deus o seu cansaço e a sua angústia enquanto foge para o deserto procurado pela rainha Jezabel (cf. 1Re 19, 1-4), mas é sobretudo no Monte Carmelo que se mostra em toda a sua potência de intercessor quando, diante de todo Israel, reza ao Senhor para que se manifeste e converta o coração do povo. É o episódio narrado no capítulo 18 do Primeiro Livro de Reis, sobre o qual, hoje, nos deteremos.
Encontramo-nos no reino do norte, no século IX a.C., no tempo do Rei Acab, num momento no qual em Israel se havia criado uma situação de aberto sincretismo. Ao lado do Senhor, o povo adorava Baal, o ídolo tranquilizador do qual se acreditava que viesse o dom da chuva e a quem, por isso mesmo, se atribuía o poder de dar fertilidade aos campos e vida aos homens e animais. Mesmo pretendendo seguir o Senhor, Deus invisível e misterioso, o povo procurava segurança também num deus compreensível e previsível, de quem pensava poder obter fecundidade e prosperidade em troca de sacrifícios. Israel estava cedendo à sedução da idolatria, a contínua tentação do crente, iludindo-se de poder “servir a dois senhores” (cf. Mt 6, 24; Lc 16, 13), e de facilitar os caminhos impenetráveis da fé no Onipotente, colocando sua fidelidade também num deus impotente feito pelos homens.
É exatamente para desmascarar a estupidez enganadora desta postura que Elias manda o povo de Israel se reunir no Monte Carmelo e o coloca diante da necessidade de fazer uma escolha: “Se o Senhor é Deus, segui-o, mas se é Baal, segui a Baal!” (1Re 18, 21). E o profeta, portador do amor de Deus, não deixa sozinho o povo diante desta escolha, mas o ajuda indicando o sinal que revelará a verdade: tanto ele quanto os profetas de Baal prepararão um sacrifício e rezaram, e o verdadeiro Deus se manifestará respondendo com o fogo que consumirá a oferta. Começa assim o confronto entre o profeta Elias e os seguidores de Baal, que na realidade é entre o Senhor de Israel, Deus de salvação e de vida, e o ídolo mudo e sem consistência, que não pode fazer nada, nem o bem nem o mal (cf. Jer 10, 5). E começa também o confronto entre dois modos completamente diversos de se dirigir a Deus e de rezar.
Os profetas de Baal, de fato, gritam, se agitam, dançam saltando, entram num estado de exaltação chegando mesmo a fazer cortes no corpo, “com espadas e lanças, até se cubrirem de sangue” (1Re 18, 28). Eles recorrem a si mesmos para interpelar o seu deus, confiando nas próprias capacidades a fim de provocar nele a resposta. Revela-se assim a realidade enganadora do ídolo: ele é pensado pelo homem como algo de que se possa dispor, que é possível gerir com as próprias forças, a quem se pode chegar a partir de si mesmos e da própria força vital. A adoração do ídolo ao invés de abrir o coração humano para a Alteridade, para uma relação libertadora que permita sair do espaço fechado do próprio egoísmo para chegar a dimensões de amor e de dom recíproco, fecha a pessoa no círculo exclusivo e desesperante da busca de si. E o engano é tal que, adorando o ídolo, o homem se descobre obrigado a ações extremas, na ilusória tentativa de submetê-lo à própria vontade. Por isso, os profetas de Baal chegam até ao ponto de se fazerem mal, de infligir a si mesmos feridas nos corpos, num gesto dramaticamente irônico: para ter uma resposta, um sinal de vida do seu deus, eles se recobrem de sangue, recobrindo-se simbolicamente de morte.
Postura de oração bem diferente é, pelo contrário, a de Elias. Ele pede ao povo que se aproxime, envolvendo-o assim na sua ação e na sua súplica. O objetivo do desafio que ele dirige aos profetas de Baal era levar o povo que se havia perdido seguindo os ídolos de volta para Deus; por isso, ele quer que Israel se uma a ele, se tornando partícipe e protagonista da sua oração e daquilo que está acontecendo. Em seguida, o profeta erige um altar, utilizando, como diz o texto, “doze pedras, segundo o número das doze tribos saídas dos filhos de Jacó, a quem o Senhor dissera: Tu te chamarás Israel” (1Re 18, 31). Aquelas pedras representam toda Israel e são a memória tangível da história de eleição, de predileção e de salvação de que o povo foi objeto. O gesto litúrgico de Elias tem um alcance decisivo; o altar é lugar sagrado que indica a presença do Senhor, mas aquelas pedras que o compõem representam o povo, que agora, pela mediação do profeta, está simbolicamente colocado diante de Deus, se torna “altar”, lugar de oferta e de sacrifício.
Mas, é necessário que o símbolo se torne realidade, que Israel reconheça o verdadeiro Deus e reencontre a própria identidade de povo do Senhor. Por isso, Elias pede a Deus que se manifeste, e aquelas doze pedras que deveriam recordar a Israel a sua verdade servem também para recordar ao Senhor a sua fidelidade, à qual o profeta apela na sua oração. As palavras da sua invocação são densas de significado e de fé: “Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, saibam todos hoje que sois o Deus de Israel, que eu sou vosso servo e que por vossa ordem fiz todas estas coisas. Ouvi-me, Senhor, ouvi-me: que este povo reconheça que vós, Senhor, sois Deus, e que sois vós que converteis os seus corações!” (1Re 18, 36-37; cf. Gen 32, 36-37). Elias se dirige ao Senhor chamando-o Deus dos Pais, fazendo assim memória implícita das promessas divinas e da história de eleição e de aliança que uniu indissoluvelmente o Senhor ao seu povo. O envolvimento de Deus na história dos homens é tal que, desde então, o seu Nome é inseparavelmente unido ao dos Patriarcas e o profeta pronuncia aquele Nome santo para que Deus se recorde e se mostre fiel, mas também para que Israel se sinta chamado pelo nome e reencontre a sua fidelidade. O título divino pronunciado por Elias, de fato, parece um pouco surpreendente. Ao invés de usar a fórmula habitual, “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”, ele utiliza um apelativo menos comum: “Deus de Abraão, de Isaac e de Israel”. A substituição do nome “Jacó” por “Israel” evoca a luta de Jacó nas margens do Yabboq, com a mudança de nome a que o narrador se refere explicitamente (cf. Gen 32, 31) e sobre a qual falei numa das últimas catequeses. Tal substituição adquire um significado pungente na invocação de Elias. O profeta esá rezando pelo povo do reino do norte, que se chamava Israel, diferente de Judá, que indicava o reino do sul. E agora, este povo, que parece ter esquecido a própria origem e o próprio relacionamento privilegiado com o Senhor, se sente chamar pelo nome enquanto e pronunciado o Nome de Deus, Deus do Patriarca e Deus do povo: “Senhor, Deus [...] de Israel, saibam todos hoje que sois o Deus de Israel”.
O povo para o qual Elias reza é recolocado diante da própria verdade, e o profeta pede que também a verdade do Senhor se manifeste e que Ele intervenha para converter Israel, retirando-o do engano da idolatria e levando-o assim à salvação. O seu pedido é para que o povo saiba, conheça em plenitude quem, de verdade, é o  seu Deus, e faça a escolha decisiva de seguir somente a Ele, o verdadeiro Deus. Porque somente assim Deus é reconhecido por aquilo que é, Absoluto e Transcendente, sem a possibilidade de colocá-Lo ao lado de outros deuses, que O renegariam como absoluto, relativizando-O. É esta a fé que faz de Israel o povo de Deus; é a fé proclamada no conhecido texto do Shemà Israel: “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 4-5). Ao absoluto de Deus, o crente deve responder com um amor absoluto, total, que comprometa toda a sua vida, as suas forças, o seu coração. E é exatamente para o coração do seu povo que o profeta, com sua oração, está implorando conversão: “que este povo reconheça que vós, Senhor, sois Deus, e que sois vós que converteis os seus corações!” (1Re 18, 37). Elias, com a sua intercessão, pede a Deus aquilo que Deus mesmo deseja fazer, manifestar-se em toda a sua misericórdia, fiel à própria realidade de Senhor da vida que perdoa, converte, transforma.
E é o que acontece: “Então, subitamente, o fogo do Senhor baixou do céu e consumiu o holocausto, a lenha, as pedras, a poeira e até mesmo a água da valeta. Vendo isso, o povo prostrou-se com o rosto por terra, e exclamou: O Senhor é Deus! O Senhor é Deus!” (1Re 18, 38-39). O fogo, este elemento ao mesmo tempo necessário e terrível, ligado às manifestações divinas da sarça ardente e do Sinai, agora serve para assinalar o amor de Deus que responde à oração e se revela ao seu povo. Baal, o deu mudo e impotente, não tinha respondido às invocações dos seus profetas; o Senhor, pelo contrário, responde, e de modo inequívoco, não apenas queimando o holocausto, mas até mesmo secando a água que tinha sido derramada ao redor do altar. Israel não pode mais ter dúvidas; a misericórdia divina veio ao encontro da sua fraqueza, de suas dúvidas, de sua falta de fé. Agora, Baao, o ídolo vão, é vencido, e o povo, que parecia perdido, reencontrou o caminho da verdade e reencontrou-se a si mesmo.
Caros irmãos e irmãs, o que esta história do passado diz para nós? Qual é o presente desta história? Em primeiro lugar está em questão a prioridade do primeiro mandamento: adorar apenas a Deus. Onde Deus desaparece, o homem cai na escravidão das idolatrias, como mostraram, no nosso tempo, os regimes totalitários e como mostram também diversas formas de niilismo, que tornam o homem dependente de ídolos, da idolatria; o escravizam. Segundo. O objetivo primeiro da oração é a conversão: o fogo de Deus que transforma o nosso coração e nos faz capazes de ver a Deus e, assim, de viver segundo Deus e de viver para o outro. E o terceiro ponto. Os Padres nos dizem que mesmo esta história de um profeta é profética, se – dizem – é sombra do futuro, do futuro Cristo; é um passo no caminho em direção a Cristo. E nos dizem que aqui vemos o verdadeiro fogo de Deus: o amor que guia o Senhor até à cruz, até ao dom total de si. A verdadeira adoração de Deus, então, é dar a si mesmo a Deus e aos homens, a verdadeira adoração é o amor. E a verdadeira adoração de Deus não destrói, mas renova, transforma. Certamente o fogo de Deus, o fogo do amor, queima, transforma, purifica, mas exatamente por isso não destrói, mas cria a verdade do nosso ser, recria o nosso coração. E assim, realmente vivos pela graça do fogo do Espírito Santo, do amor de Deus, somos adoradores em espírito e verdade. Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 15 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Caro ateu, não ceda aos novos ídolos...


Entrevista realizada por Lorenzo Fazzini

Um “desafio” saudável lançado aos ateus para que sejam, de verdade, sem ídolos. E continuem capazes de se abrir a “uma espera do inesperado” que pode ter o rosto de Cristo, o Deus recusado pelos crentes de seu tempo. Fabrice Hadjadj, filósofo francês, convertido ao cristianismo, vai falar esta noite na Universidade Católica de Milão (na Aula Magna, às 21h), sobre “Modernidade e modernismo. A propósito do senso religioso”

Deus. Podemos falar disso com os não crentes?
É preciso reconhecer que a primeira dificuldade consiste no discutir a esse respeito com os crentes. É o Evangelho que nos ensina: Jesus não se dirige aos ateus, mas aos especialistas da fé, escribas e fariseus. Ele quer revelar a eles o mistério do Pai. Mas, eles não o compreendem, e acabam por crucificá-lo. É difícil para nós admitir que foram alguns crentes que levaram o Filho de Deus à morte. Quando se acredita, seria necessário lutar para não reduzir Deus a um pequeno ídolo doméstico. Este nome deveria nos abrir a garganta como um abismo. E, no entanto, nós o pronunciamos como uma banalidade conceitual. Se o pronunciássemos com a vertigem do apaixonado! Antes da minha conversão, não suportava que se pronunciasse a palavra “Deus”: eu a considerava como um coringa jogado sobre a mesa, traiçoeiramente, durante uma partida de cartas. Soava-me como um modo de evitar os problemas e entender mal a tragédia da vida.

Como “verificar” a ideia, frequentemente confusa, de Deus?
Ele não abole o drama da existência, mas o realiza. É o que revela o mistério da Cruz. Os crentes o crucificam acima de Deus, e no entanto Deus clama a Deus: Por que me abandonaste? Não é algo de abissal? Não é, talvez, verdade que isto destrói todos os nossos ídolos e nos leva ao drama do “amor forte como a morte”? É preciso que os crentes reconheçam tal drama e vivam o segundo mandamento, que nos pede para não pronunciar em vão o nome de Deus. Os não crentes poderiam entendê-lo melhor.

O senhor fala por experiência?
Sim. A minha conversão foi também “linguística”. Descobri que o significante “Deus” correspondia à verdade do “Sim” de Friedrich Nietzsche e do “Aberto” de Rainer M. Rilke. E que não era uma postura poética ou um conceito filosófico, mas a realidade de uma Pessoa que me havia precedido no fundo da obscuridade. “Deus” não significava mais uma solução, mas uma aventura. Não uma resposta, mas um apelo. Não se trata de uma estratégia de marketing. Quando encontrarmos o melhor modo de falar de Deus, não será mais seguro que o outro, nos escutando, se converta. Se falarmos de Deus imitando a força de Jesus, alguns se converterão, outros acabarão nos crucificando. É o sinal de que, finalmente, falamos bem.

O senhor definiu a espiritualidade como “um truque do diabo”. Sobre o que discutir com os ateus?
Sobre a sexualidade. No meu Mística da Carne mostro que o sexo nos remete à profundidade autêntica, até às vísceras de Deus. No princípio, Deus cria o homem à sua imagem, homem e mulher, de modo que a sua relação sexual, com a sua fecundidade natural, se torne a imagem da Trindade. Qualquer que seja o ponto de partida – uma margarida ou um caramujo –, se falarmos corretamente, chegaremos inevitavelmente a Deus: ele não é relegado às alturas, mas comparece no mais “baixo”. O cristianismo é o contrário do espiritualismo, é espiritualidade da encarnação: o Verbo se fez carne e se dá a nós através de um ato espiritual e carnal, a eucaristia. Os sacramentos são os toques de Cristo. Para ir em direção a Deus temos que nos aproximar daquele padre que nos é antipático, daquele cristão que nos enche a paciência na cadeira ao lado, daquele pobre para convidá-lo à mesa.

Recentemente, a apologética se recuperou. Mas o senhor não escreveu palavras ternas a esse respeito...
Não tenho nada contra a apologética. Pois é o que eu mesmo tento fazer agora. Mas tem o perigo de permanecer no nível do debate de ideias. O cristianismo não diz respeito a uma ideologia: é uma vida. E a sua alma se encontra no amor. Quando separamos o amor da verdade caímos no sentimentalismo. E se afastamos a verdade do amor, terminamos no dogmatismo. A Verdade própria do cristianismo é uma Pessoa, não uma teoria. E Deus mesmo não é uma natureza anônima, mas uma comunhão de Pessoas. Muitas sabedorias filosóficas pretendem que a realização do homem consista num conhecimento teórico ou num estado de serenidade. O cristianismo propõe outra coisa: um encontro. Para fazer boa apologética é preciso isto: antes do confronto ideal, maravilhemo-nos com o rosto do nosso interlocutor; e mesmo se ele não entender nada e, no fim, nos encher a paciência, continuemos a admirar nele a maravilha que Deus contempla e que ele mesmo, o ateu, ignora.

No seu livro-entrevista, Bento XVI sublinha a relação, positiva e fecunda, entre cristianismo e modernidade. Quais são os aspectos dessa relação que enriquecem a fé?
A modernidade traz duas exigências. A primeira é de natureza crítica: o homem moderno recusa receber algo tão somente porque seja transmitido por seus pais. Reclama razões e quer compreender. Mas pode ser ambígua: ou conduz a um dobrar-se mortal sobre si mesma ou conduz a uma maior inteligência da fé. Segundo: o homem moderno deseja uma plenitude “aqui e agora”. Por isso, rompe com o além. Ora, o nó é que nunca estamos “aqui e agora” para nós mesmos. O tempo foge e, quando estamos em algum lugar, projetamos ir para outro. Faltamos à presença. Nunca estamos uns com os outros. Para estarmos completamente presentes, temos que coincidir com o ser e poder dizer: “Eu sou aquele que sou”. Este é o privilégio do Eterno. Por isso, voltar-se para Ele não é fugir do “aqui e agora”, mas nos aproximarmos dele e buscar ser mais presentes a tudo e a todos.

No seu A fé dos demônios o senhor critica os “novos ateus” como Michel Onfray, exemplo do ateu “enganado” que “não busca mais”. Os não crentes são todos assim?
Chamo a atenção daqueles ateus que não são aquilo que pretendem ser. Um ateu é alguém “sem deus”, alguém que de se desfazer de todos os ídolos, esforçando-se para não tornar o próprio ateísmo um ídolo. Seria triste libertar-se da religião de Cristo para fabricar para si mesmo uma religião do ateísmo. É o que acontece na maior parte dos casos. Ser verdadeiramente ateus representa algo de verdadeiramente difícil. Quando se abandona o Deus transcendente, confecciona-se para si mesmo outros ídolos: razão, raça, revolução, mercado... Visto que não somos Deus, mas seres de desejo, temos necessidade de um princípio para polarizar as nossas vidas. Tentei ser o mais ateu possível. Ao fim, desembaraçando-me de todos os ídolos, restou em mim a disponibilidade para acolher aquilo que não vinha de mim, aquilo que, para alguns, é a transcendência e que o catecismo chama Revelação. Tal disponibilidade consiste numa abertura para o encontro. Heráclito a definia como “a espera do inesperado”, uma abertura que se oferecer num acontecimento que nos alcança através de uma multidão de testemunhas: a “tradição apostólica”. Uma série de encontros que partiram de Jesus e me alcançaram.

* Extraído do jornal Avvenire, do dia 3 de março de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Comentário ao evangelho do dia

São João da Cruz

Evangelho - Mt 21,28-32
Naquele tempo, Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo: "Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: 'Filho, vai trabalhar hoje na vinha!'. O filho respondeu: 'Não quero'. Mas depois mudou de opinião e foi. O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: 'Sim, senhor, eu vou'. Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?". Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: "O primeiro" . Então Jesus lhes disse: "Em verdade vos digo, que os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os publicanos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele".

Comentário feito por Beato Guerric d'Igny (c. 1080-1157)
abade cisterciense

Esta lamparina destinada a iluminar o mundo traz-me uma alegria nova, pois foi graças a ela que reconheci a verdadeira Luz que brilha nas trevas, mas que as trevas não receberam (Jo 1, 5). [...] Podemos admirar-te, João, a ti que és o maior de todos os santos; mas imitar a tua santidade, disso já não somos capazes. Dado que te apressas a preparar para o Senhor um povo perfeito de publicanos e pecadores, é urgente que lhes fales, não tanto através da tua vida, mas com uma linguagem mais ao seu alcance. Propõe-lhes um modelo de perfeição que não seja tanto segundo a tua maneira de viver, mas que esteja adaptado à fraqueza das forças humanas. "Produzi dignos frutos de penitência" (Mt 3, 8), exorta ele. Ora nós, irmãos, gloriamo-nos de falar melhor do que vivemos. Quanto a João, cuja vida é de uma sublimidade que os homens não podem compreender, coloca a sua linguagem ao alcance da inteligência destes: "Fazei dignos frutos de penitência!". "Falo-vos de maneira humana, em razão da fraqueza da carne. Se ainda não conseguis fazer o bem em plenitude, que se encontre em vós, ao menos, um arrependimento verdadeiro daquilo que está mal. Se não podeis ainda produzir os frutos de uma justiça perfeita, que a vossa perfeição consista para já em produzir dignos frutos de penitência."

domingo, 5 de setembro de 2010

Alessandro Manzoni e Enrichetta Blondel: o caminho do amor cristão


Por Laura Cioni

Há bem pouco de romântico no casamento entre Alessandro Manzoni e Enrichetta Blondel. Conheceram-se em 1807; ele escreve sobre isso para o seu amigo Fauriel, descrevendo a jovenzinha de excelente coração, não nobre, protestante, bem-quista por Giulia Beccaria. As coisas correram bem rápido: o casamento foi celebrado no dia 6 de fevereiro de 1808 no rito calvinista. Mas, as más-línguas milanesas perturbaram a proverbial reserva dos Manzoni: “Todos se interessam pelos meus fatos que me acontecem como se fossem meus pais”, escreve ao amigo e, assim, em junho, retorno a Paris com a mulher e a mãe, hospedes de Fauriel e da sua companheira, a viúva do filósofo Condorcet.
Era aquele o ambiente no qual Manzoni tinha vivido desde 1805, quando havia encontrado Giulia Beccaria, que, há pouco, havia ficado sozinha depois da morte de Carlo Imbonati, com o qual convivia. Alessandro tinha vinte anos e ficou fascinado com o clima intelectual dos amigos de sua mãe. As ideias iluministas já se tinham enraizado no seu pensamento; a sua personalidade tinha sofrido com a ausência materna e com a rigidez da educação recebida pelos barnabitas; tinha acabado de voltar de cinco anos de uma vida dissipada.
Em Paris, encontrou o terreno adequado para cultivar relações frutuosas do ponto de vista dos estudos. Por isso, ele, inicialmente, se estabeleceu na capital francesa. Mas, a personalidade da mulher não se adaptava bem ao ambiente despreocupado da casa de Fauriel; assim, os Manzoni mudam-se para uma outra casa mais recolhida e mais sóbria. É a primeira vitória de Enrichetta, que se segue da conquista do afeto de uma sogra arrogante e difícil.
No Natal de 1808, nasceu a primogênita Giulietta, a quem Enrichetta assistia com ternura e religiosidade: ela escreveu ao irmão contando que lhe havia ajuntando as mãozinhas para agradecer a Deus. Mas, em qual fé cresce a pequena? Ainda que indiferente e anticlerical, o pai decide pelo batismo no rito católico.
Enrichetta sofreu por aquela decisão tão distante da aspiração do seu coração. O escritor pediu também à Igreja a validação do matrimônio calvinista, e isso levou sua mulher a reconsiderar as crenças religiosas absorvidas na infância.
A graça a guiou por caminhos misteriosos; instruída com discrição e bondade pelo abade Degola, em 1810 abjurou publicamente do calvinismo e entrou para a Igreja católica. Se a conversão tirou o véu de incompreensão na relação com o marido, por outro lado erigiu um muro na relação com a família de origem, que não a perdoou a traição: tratada com frieza, ela foi inclusive impedida de entrar em casa, mesmo por ocasião da morte de seu pai.
Também o escritor prosseguiu no caminho da fé: a sua honestidade intelectual e a humilde fortaleza que via em sua mulher se soldaram num pensamento que ainda hoje aparece como um sistema racional e uma atitude moral de altíssimo nível. Exatamente para encontrar um ambiente mais adequado para suas novas orientações espirituais, eles deixaram Paris e estabeleceram em Brusuglio. Naquela solidão, Enrichetta acompanhou o marido com terna dedicação e lhe deu outros oito filhos. O nascimento de Matilde, em 1830, revelou-se fatal para a resistência do seu físico: a febre não a deixou mais e, no dia do Natal de 1833, apagou-se, deixando o marido inconsolável.
Poucos anos antes, sentindo que as suas forças estavam acabando, ela lhe escreveu: “Tu que formaste a felicidade daquela que quiseste como tua companheira, reza pelo seu repouso e não te deixes abater. Peço-te em nome do amor que sempre tivemos por nossos filhos e daquela terna afeição que sempre nos aproximou um ao outro”. Manzoni encontrou essa força mais tarde, mas o contorno da ode O Natal, de 1833, indica o desconcerto do escritor com a fraqueza daquela companheira, cujos traços emergem nas duas figuras femininas que saíram de seu coração, Ermengarda e Lucia Mondella.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 5 de setembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.