Quarta-feira, Julho 15, 2009

Peregrinação a Aparecida do Norte - 15 a 19 de julho


Hoje, cerca de 300 jovens universitários do Brasil inteiro e alguns colegiais do Paraguai sairão em peregrinação, de Campos do Jordão, para Aparecida do Norte. Serão 60 km de caminhada. A chegada está prevista para domingo, às 10h, na Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Acompanhemos, com nossas orações, esses jovens e peçamos a Nossa Senhora para iluminar e proteger o seu caminho. Aproveito a ocasião para postar esse texto de dom Gius, que é uma saudação feita aos participantes da peregrinação de Macerata a Loreto, na Itália, dia 14 de junho de 2003.


Por que nos reunimos? Para libertar-nos do mal! Quem nos liberta é Cristo
por Luigi Giussani

Todas as vezes que nos reunimos, por que é que o fazemos? Para arrancar os amigos, e, se for possível, o mundo inteiro, do nada em que todo homem se encontra. Nosso relacionamento é “vocacional”. O relacionamento vocacional é nada menos do que isto: que, ao nos encontrar, a pessoa - que pode até ser nossa mãe, ou melhor, nossa mãe em primeiro lugar -, uma pessoa que pode ser mulher ou homem, pode ter a nossa idade ou ser mais nova, que essa pessoa se sinta como que abraçada em seu íntimo, resgatada de sua aparente nulidade, fraqueza, mesquinhez ou confusão, e se sinta como se de repente tivesse sido convidada para as núpcias de um príncipe. Nossa Senhora é como o convite de um príncipe.E quanto mais aceita reconhecer em si mesma esse golpe profundo, mais a pessoa descobre que passa a sentir seu coração, sua carne e, mais além, seu pensamento como coração, carne, alma de todo o povo no qual fica emaranhada, cheia de dor e confusão, mas nunca tão esquecida de si ou tão incapacitada a ponto de se perder e de se esquecer totalmente: e é nos piores momentos - quando o eu parece ter a certeza de sua impotência e de seu nada -, é justamente aí que o sangue no qual nasce o povo veicula, até violentamente, sua exigência de desejo, de liberdade e de felicidade.
“Serás profeta do Altíssimo, ó menino”: esse profeta do Altíssimo já não tem paz, graças à paixão pela vida que obriga um homem a nascer, a olhar, a sentir, a ter fome e sede. O trabalho é o tempo que se transforma em coisas, empenho e esforço diuturno, pois é andar à frente do Senhor para “preparar os seus caminhos”, os caminhos da nova terra para um povo que seja realmente povo.
Como é que todos esses sobressaltos da alma se tornam celebração indômita de uma novidade de vida, que é nascer como pessoas novas? Nos turnos de alternância dessa vicissitude, há uma figura na qual a aridez do indivíduo se sente sufocada, mas não apagada, nem mesmo por uma disparidade que se deve trabalhar. A figura de Nossa Senhora é o veículo da novidade, graças ao qual o antigo não ousa mais dizer: “Abaixo tudo!”. Esse convite deve ser lembrado todas as manhãs, essa deve ser a primeira figura, amanhã de manhã, de toda e qualquer tentativa, de toda e qualquer certeza re-elaborada, revivida, como a reconstrução de um povo: devemos imaginar Nossa Senhora percorrida por essa paixão pelo humano que uma reconstrução santifica. “Irás andando à frente do Senhor para aplainar e preparar os seus caminhos.” E assim a vida humana não é mais o vazio de algo através do qual os membros do homem tateiam, oferecendo razões inexplicáveis.
Que o pensamento de Nossa Senhora e o afeto humano em que ele se veicula e se intensifica nos tornem todos os dias capazes de encantadora caridade.

* Extraído de Passos nº 41 / julho 2003. Traduzido por Durval Cordas.

Outro modelo de desenvolvimento


Ilaria Schnyder von Wartensee estudou o modelo de desenvolvimento dos Sem Terra, no Brasil, um modelo liderado por Cleuza Ramos e Marcos Zerbini, hoje deputado de São Paulo. Publica em Páginas Digital as principais conclusões de seu trabalho, coincidindo com a publicação da encíclica Caritas in veritate, que Bento XVI dedicou à questão do desenvolvimento.


Atualmente, existe um forte debate no seio da comunidade científica e das instituições financeiras internacionais acerca da eficácia da ajuda internacional aos países em vias de desenvolvimento, das políticas que favorecem o crescimento e a redução da pobreza, além dos instrumentos mais adequados para desenhar e colocar em prática este tipo de medidas. De fato, as políticas (e as ajudas) de capital físico e humano (educação) não obtiveram os resultados esperados, o que evidencia que o problema é complexo e compreende dimensões diferentes e complementares (econômica, social, institucional etc.). Podem haver vários motivos que expliquem a escassez de resultados: desde razões de tipo técnico-metodológico (qualidade dos dados, indicadores utilizados, problemas endógenos…) até a relação entre diversos fatores que influem no crescimento de um país a longo prazo, como a qualidade do contexto macroeconômico, institucional e social dos países beneficiados.
A complexidade do problema e sua multidimensionalidade requerem estratégias de ação mais atentas à especificidade das situações, dos contextos e dos atores implicados. Ainda que todos estejam de acordo com o fato de que é necessário um enfoque country specific e country ownership, as opiniões se chocam no momento de colocar em prática este novo enfoque. Para alguns, complexidade e especificidade podem ser enfrentadas apenas a partir de planos globais e compreensivos que sigam simultaneamente as diferentes dimensões necessárias para alcançar a eficácia na atividade e que partam da ideia de que quem administra sabe e conhece as necessidades das pessoas. Porém, a ineficiência e a corrupção dos aparatos burocrátios fez emergir com força a idéia de “dar voz” e “favorecer a participação” dos pobres na definição e na atuação, segundo seu próprio sentido de crescimento e desenvolvimento. A ideia de que as pessoas – individualmente ou como grupo social – são os melhores conhecedoras de suas próprias necessidades é a base da proposta liberal que sustenta a necessidade de proporcionar algumas regras básicas, assegurar certos direitos fundamentais e dar as ajudas justas para que os indivíduos se movam para melhorar suas condições de vida.
Ainda assim, em ambas as posições, o problema de como os indivíduos e os grupos sociais de determinados contextos econômicos e culturais respondem às ajudas e aproveitam as oportunidades fica desvalorizado. Concebe-se o “sujeito” como predefinido, autosuficiente, capaz de responder eficaz e mecanicamente ao dado da realidade, de reconhecer e valorizar as ajudas que se lhe oferecem (como a possibilidade de ir para a escola, por exemplo) e desfrutar delas ao máximo. Nas políticas baseadas em grandes planos, mas nas quais a presução de “saber” é o que move os sujeitos e que os faz responsável, é enorme a tentação de substitui-los e convertê-los em um dado “passivo” de atividades que respondam a suas necessidades.

Recentemente, pude estudar dois casos de experiências de desenvolvimento em ato, nas quais se pode reconhecer as dinâmicas de mudança nas posições de alguns sujeitos com relação aos objetivos que perseguem na vida e sua capacidade de atuar (pessoas que passam de uma posição passiva/reivindicativa/resignada a um protagonismo construtivo). Ambos os casos estão relacionados a tentativas de solucionar um problema de moradia no Brasil, ainda que em dois contextos extremamente diferentes. Em Salvador, trata-se de um problema de subúrbios, onde se tenta melhorar as condições de vida de quase 135 mil pessoas em situação de pobreza extrema, que vivem em condições muito precárias e perigosas, através do Projeto de Asistência Técnica e Social (PATS) do Programa Ribeira Azul (PARA) do Estado da Bahia. Do projeto PATS, iniciado em setembro de 2001 e terminado em março de 2006, participaram a Fundação AVSI e outros atores nacionais e internacionais, como o Banco Mundial. Em São Paulo, conheci a experiência da Associação dos Trabalhadores Sem Terra (ATST), uma associação local nascida em meados dos anos 1980, com o objetivo de ajudar pessoas e famílias com poucos recursos, que vivem em condições precárias ou têm que gastar uma grande parte de sua renda familiar com aluguel de um lugar para viver. A Associação não se limita apenas a oferecer apoio técnico, mas ajuda as pessoas a tomarem consciência de seu potencial e facilita a formação de relações sociais e humanas baseadas na confiança. O objetivo desta análise foi verificar até que ponto a participação no projeto PATS ou nas atividades da Associação modificou a atitude das pessoas, aumentando sua capacidade de assumir riscos e de empreender novas iniciativas.
Apesar das profundas diferenças entre os dois casos, coincidem os fatores que permitiram às pessoas perceberem uma possibilidade de mudança de sua própria condição e persegui-la. Esses fatores foram: o encontro com pessoas que deixavam ver uma possibilidade positiva para a própria vida ou um olhar diferente, e que mudaram a percepção do próprio valor e das próprias possibilidades; a disponibilidade para se esforçar pessoalmente para conseguir os objetivos; a experiência de uma relação com essas pessoas que não se limita a uma necessidade específica, mas que implica todos os aspectos da vida cotidiana no caminho de confiança recíproca (acompanhamento, em outros termos, um caminho educativo); a progressiva realização de algo que parecia impossível.
Em resumo, as experiências examinadas indicam que, sendo necessário o esforço dos sócios e beneficiários para perceber o valor de qualquer forma de ajuda, esse esforço está intimamente vinculado à trama de relações de confiança que rodeia a pessoa, como indica a presidente da ATST: “(o desenvolvimento) é ensinar à pessoa a olhar para si mesma, a querer-se bem, a olhar sua beleza… só uma companhia – não o dinheiro, mas apenas a companhia – pode ajudar o outro a mudar... enquanto não mudar, a pessoa não alcança um desenvolvimento econômico. Antes de mais nada, o desenvolvimento é para a pessoa. Se você quer ajudar alguém, primeiro tem que ajudar a você mesmo a se olhar como pessoa. Depois, posso ajudar a encontrar uma casa” (Cleuza Ramos, extraído de uma entrevista realizada em São Paulo, em abril de 2009).

Ilaria Schnyder von Wartensee é pesquisadora do Departamento de Desenvolvimento e Cooperação Internacional, na Fundação para a Subsidiariedade.

* Texto extraído de PáginasDigital.es, 15 de julho de 2009. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Evangelho do dia (Mt 11, 25-27)

Naquela ocasião, Jesus tomou a palavra e disse: "Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar" (Mt 11, 25-27).

Comentário feito por São Vicente de Paula (1581-1660)
Presbítero, fundador de comunidades religiosas
A simplicidade é tão agradável a Deus! Sabeis que a Escritura diz que o Seu prazer é estar com os simples, os simples de coração, que vivem de boa fé e com simplicidade: "Reserva a sua intimidade para com os justos" (Pr 3, 32). Quereis encontrar a Deus? Falai com os simples. Ó meu Salvador! Ó meus irmãos que sentis o desejo de ser simples, que felicidade! Que felicidade! Coragem, uma vez que tendes a promessa de que o prazer de Deus é permanecer com os homens simples. Outra coisa que nos recomenda maravilhosamente a simplicidade, são estas palavras do nosso Senhor: "Bendigo-Te, ó Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos". Reconheço, meu Pai, e por isso Vos agradeço, que a doutrina que aprendi de Vossa divina Majestade e que difundo entre os homens é conhecida apenas dos simples, e que permitis que os entendidos do mundo não a entendam; a eles a escondestes, se não em palavras, pelo menos no espírito. Ó Salvador! Ó meu Deus! Isso deve amedrontar-nos. Corremos atrás da ciência como se dela dependesse a nossa felicidade. Mal de nós se a não temos! É necessário tê-la, mas apenas a essencial; é preciso estudar, mas sobriamente. Uns simulam conhecimento, fazendo-se passar exteriormente por gente de posição e de condição. A esses, aos sábios e entendidos do mundo, Deus tira o entendimento das verdades cristãs. A quem o dá então? Às gentes do povo, às pessoas de bem. [...] Senhores, a verdadeira religião está entre os pobres. Deus enche-os de uma fé viva; eles crêem, alcançam, experimentam as palavras de vida. [...] Normalmente, conservam a paz no meio das preocupações e dos sofrimentos. Por que razão? Devido à sua fé. Por quê? Porque são simples, Deus fez abundar neles as graças que recusa aos ricos e sábios do mundo.

Cartas do P.e Aldo 88

Asunción, 14 de julho de 2009.

Caros amigos,
Estou precisando de um trabalhador rural disposto a viver na nossa fazenda a 40 km de Asunción, onde temos uma casa de acolhida para doentes recuperados de AIDS. São 14 hectares de mata, campo e riachos: um paraíso de beleza.
O trabalhador deve ser um homem com culhões, porque por aqui não se brinca, além do mais é importante que eduque os meus camponeses e os ensine a trabalhar. Pede-se, porém, que seja obediente, porque é uma outra cultura, um outra mentalidade. Se alguém está disponível – pode ser um casal – me escreva (o email do P.e Aldo é: padretrento@rieder.net.py; ndt).
P.e Aldo

Terça-feira, Julho 14, 2009

Evangelho do dia (Mt 11, 20-24)

Jesus começou então a censurar as cidades onde tinha realizado a maior parte dos seus milagres, por não se terem convertido: "Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se os milagres realizados entre vós, tivessem sido feitos em Tiro e em Sídon, há muito já teriam se convertido, vestindo-se de saco e com cinza. Em verdade, Eu vos digo: No dia do juízo, haverá mais tolerância para Tiro e Sídon do que para vós. E tu, Cafarnaúm, julgas que serás exaltada até ao céu? Serás precipitada no abismo. Porque, se os milagres que em ti se realizaram tivessem sido feitos em Sodoma, ela ainda hoje existiria. Em verdade, Eu vos digo: No dia do juízo, haverá mais tolerância para os de Sodoma do que para ti" (Mt 11, 20-24).

Comentário feito por Paulo VI
Papa de 1963-1978
Cristo, que ao longo de toda a Sua vida fez sempre aquilo que ensinava, jejuou e rezou quarenta dias e quarenta noites antes de começar o Seu ministério. Inaugurou a sua missão pública com esta jubilosa mensagem: "O Reino de Deus está próximo", acrescentando imediatamente este mandamento: "Arrependei-vos e acreditai no Evangelho" (Mc 1, 15). De certa maneira, é toda a vida cristã que se encontra resumida nestas palavras. Não se pode alcançar o Reino anunciado por Cristo a não ser pela "metanóia", ou seja, pela mudança e pela renovação íntima e total de todo o homem. [...] O convite do Filho de Deus à metanóia obriga-nos a isso, tanto mais que Ele não a pregou apenas, mas Se ofereceu a Si mesmo como exemplo. Com efeito, Cristo é o modelo supremo dos penitentes. Quis sofrer, não pelos Seus pecados, mas pelos dos outros. Com Cristo, o homem é iluminado com uma luz nova: reconhece a santidade de Deus e a gravidade do pecado. Pela palavra de Cristo, é transmitida ao homem a mensagem que convida à conversão e que concede o perdão dos pecados. Recebe em plenitude estes dons no batismo, que o configura com a paixão, morte e ressurreição do Senhor. Toda a vida futura do batizado é colocada sob o sinal deste mistério. Por conseguinte, todo o cristão deve seguir o Mestre renunciando a si próprio, levando a sua cruz e participando nos sofrimentos de Cristo. Assim, transfigurado na imagem da Sua morte, torna-se capaz de merecer a glória da ressurreição. Seguindo o Mestre, não poderá já viver para si próprio, mas para Quem o amou e se entregou por ele (Gal 2, 20), e tenderá também a viver para os seus irmãos, completando "na sua carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo Seu Corpo, que é a Igreja" (Col 1, 24).

Segunda-feira, Julho 13, 2009

Educar é propor o gosto pela vida

Por P.e Aldo Trento

Todas as crianças das Casinhas de Belém gostam muito de comer maçãs verdes, particularmente as cascas que Padre Aldo deixa no prato, depois de as ter descascado com a faca.
Por que estas crianças gostam deste dipo de maçãs, que muitos adultos não suportam porque são ácidas? Por que as crianças das Casinhas de Belém não comem maças vermelhas, que são mais doces, mais correspondentes ao gosto das crianças?
A resposta é simples. Qualquer criança cresce na medida em que pertence, é abraçada por seus pais. É somente dentro de uma experiência de pertença que, não apenas as crianças, mas todos nós, crescemos, amadurecemos.
As crianças aprendem, a partir de uma pertença, o gosto pelo comer, o modo de falar, de se vestir, de caminar, de tomar banho, de cumprimentar, de cuidar dos detalhes, de amar a realidade em todos os seus aspectos.
Quando alguém vem à paróquia encontra as gaiolas com os pássaros, as flores, as plantas e se pregunta: mas, por que o Padre Aldo colocou todo este verde aqui e mantém estes animais? “Porque os meus pais gostavam de pássaros, de plantas, de flores, do verde, mesmo sendo humildes camponeses.”
É o que acontece nas Casinhas de Belém. Os meus filhos das Casinhas, que reconhecem em Cristina e em mim os seus pais, evidentemente nos imitam, até no comer maças verdes, porque eu gosto muito delas e as como porque tenho diabete.
A criança age por imitação, mas a imitação surge como desejo na medida em que a pessoa se sente amada.
A educação é a introdução da criança ao conhecimento da realidade na sua totalidade. Por este motivo, por exemplo, estando agora de férias, nós as levamos, por dois dias, para um passeio, visitando as Reduções jesuíticas e a fazenda Padre Pio. Quando estão em casa, têm muito tempo livre e, portanto, é necessário que cada instante seja vivido dentro de uma proposta clara, de outra maneira as crianças acabam fazendo uma grande bagunça.
Assim, nasceram diferentes atividades de recreação, de trabalho e de estudo, de modo que as crianças não ficam vítimas do ócio. Os armários das crianças estão sempre em orden, porque a mamãe Cristina o exige e eles entendem, conhecendo o seu amor por eles. Quando acabam de comer, cada um leva seus pratos e talheres para a pia, porque aprenderam assim conosco. Enfim, a educação é uma proposta humana, que entra em todos os detalhes que suscitam nas crianças o desejo de imitar aqueles que reconhecem como pais.
O que vale para as crianças, portanto, vale também para os adultos e para os idosos. Quando recolhemos os idosos abandonados na Casinha São Joaquim, eles não sabiam o que era o banheiro, não sabiam nada da realidade.
Tinha aqueles que “cagavam” enquanto caminhavam pela belíssima casa. Tinha aqueles que urinavam do lado da cama, quem cuspia nas paredes ou no chão, quem não comia, quem comia com as mãos sem usar os talheres, quem não sabia o que era um prato e, pior ainda, quem não sabia para que servia o papel higiênico. Dois meses se passaram e, agora, são – como se diz em guarani – Karai, ou seja, verdadeiros homens. A presença de Carlos e de seus colaboradores fez um milagre.
Lembro-me do quanto foi difícil para eles aprenderem a usar o banheiro. No início, parecia que não era possível. Depois, aprenderam a usar o vaso sanitário, depois aprenderam a dar descarga. Também aprender a lavar as mãos foi um belo trabalho. Uma vez feitas as necessidades e aprendido o uso do papel higiênico (outro trabalho difícil!), devagar, os ajudamos a entender a importância de lavar as mãos.
O primeiro grande sucesso foi aprender a abrir a torneira, o segundo passo foi aprender a usar o sabão. O problema era que, depois de lavarem as mãos, ao invés de secá-las na toalha, as secavam nas calças. Com paciência, acabaram aprendendo que não deviam fazer mais isso, mesmo aqueles que ao invés de usarem a toalha ou as calças, sacodiam as mãos. Finalmente, depois de muitas semanas, conseguiram entender por que usar as toalhas e, agora, este tipo de problema não existe mais.
São, de fato, autênticos Karai: comem à mesa, usam o guardanapo, os talheres, ficam assentados adequadamente, lavam as mãos, usam o banheiro, tomam banho, vestem o pijama...
Na verdade, o único problema é educar e encontrar educadores.
A beleza da experiência que vivemos na nossa comunidade é o fruto milagroso da educação.

* Artigo publicado no último número do boletim paroquial da Paróquia São Rafael. Enviado pelo secretário do P.e Aldo, no dia 13 de julho de 2009. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Cartas do P.e Aldo 87


Asunción, 13 de julho de 2009.

Caros amigos,
Mando para vocês a foto de Fabiana. Está na companhia de uma amiga sua (Fabiana é a da esquerda), há um ano atrás, quando vivia como podia e não sabia que tinha AIDS. Hoje, é uma outra pessoa, mesmo que fisicamente esteja marcada pelo mal.
“Padre, estou feliz de estar aqui. Agradeço a Deus por esta doença, porque sem ela eu não estaria aqui com vocês e não teria nunca conhecido Jesus. Tenho 19 anos e uma filha de 2 anos. Fui brutalmente expulsa do vilarejo onde vivia e pelos meus parentes, quando souberam da minha doença, que é como a lepra nos tempos de Jesus”.
Amigos queridos, vocês entendem que graça é o que o Carrón nos disse sobre as circunstâncias? Os 60 brasileiros, os nossos amigos de São Paulo, escutando Fabiana falar, ficaram comovidos como eu. Vocês entendem que uma garota de 19 anos de idade que diga algo assim do meu Jesus é comovente? Porque Ele disse: “as prostitutas e os publicanos vos precederão nos reino do céu”.
Boas férias!
P.e Aldo

Evangelho do dia (Mt 10,34–11,1)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: “Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas sim a espada. De fato, vim separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe, a nora de sua sogra. E os inimigos do homem serão os seus próprios familiares. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim. Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. Quem procura conservar a sua vida vai perdê-la. E quem perde a sua vida por causa de mim vai encontrá-la. Quem vos recebe a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou. Quem recebe um profeta, por ser profeta, receberá a recompensa de profeta. E quem recebe um justo, por ser justo, receberá a recompensa de justo.Quem der, ainda que seja apenas um copo de água fresca, a um desses pequeninos, por ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa”. Quando Jesus acabou de dar essas instruções aos doze discípulos, partiu daí, a fim de ensinar e pregar nas cidades deles (Mt 10,34–11,1).

Comentário feito por São Patrício (c. 385 - c. 461)
Monge missionário, Bispo
Vede: eu encomendo a minha alma ao Criador, que é fiel (1 Pe 4, 19), de Quem "eu sou embaixador" (Ef 6,20), apesar da minha baixeza; porque Ele não faz acepção de pessoas e escolheu-me para este serviço, para que seja Seu servo, a mim, um dos Seus "irmãos mais pequeninos" (Mt 25,40). "Como retribuirei ao Senhor todos os Seus benefícios para comigo?" (Sl 115,12). Mas que posso eu dizer ou prometer a meu Senhor, visto não ter mais capacidades para além das que Ele próprio me deu? Que, por vontade de Deus, nunca me aconteça perder o povo que Ele formou para si nos confins da terra! (Is 43,21) Peço a Deus que me dê a perseverança e a vontade de dEle dar sempre um testemunho fiel, até ao dia da minha partida. Se me acontecer realizar uma boa obra para o meu Deus, que tanto amo, peço-Lhe que me conceda derramar o meu sangue com os estrangeiros e cativos, em honra do Seu nome [...]. Tenho a certeza de que, se tal me acontecesse, ganharia como recompensa a minha alma com o meu corpo, pois nesse dia ressuscitaremos sem dúvida na claridade do sol, isto é, na glória de Cristo Jesus, nosso Redentor [...]. Dirijo uma prece aos homens crentes e tementes a Deus que se dignarem acolher este escrito que Patrício, um tão ignorante pregador, compôs em terras da Irlanda: se alguma coisa fiz ou disse de acordo com a vontade de Deus, ninguém diga que foi este ignorante quem a fez, antes pensai – e tende-o mesmo por certo – que tal foi um verdadeiro dom de Deus. Esta é a minha confissão antes de morrer.

Domingo, Julho 12, 2009

Evangelho do dia (Mc 6, 7-13)

Naquele tempo, Jesus chamou a si os doze, e começou a enviá-los dois a dois, e deu-lhes poder sobre os espíritos imundos; e ordenou-lhes que nada tomassem para o caminho, somente um cajado; nem alforje, nem pão, nem dinheiro no cinto; mas que calçassem sandálias e que não levassem duas túnicas. E dizia-lhes: "Na casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali. E tantos quantos não vos receberem, nem vos ouvirem, saindo dali, sacudi o pó que estiver debaixo dos vossos pés, em testemunho contra eles. Em verdade vos digo que haverá mais tolerância no dia de juízo para Sodoma e Gomorra, do que para os daquela cidade". E, saindo eles, pregavam que se arrependessem. E expulsavam muitos demônios, e ungiam muitos enfermos com óleo, e os curavam (Mc 6, 7-13).

Comentário feito por São Gregório Magno (c. 540-604)
Papa e Doutor da Igreja
O nosso Senhor e Salvador, caros irmãos, ensina-nos tanto pelas Suas palavras como pelas Suas ações. Em si mesmas, as Suas ações são ordens porque, quando Ele faz qualquer coisa sem dizer nada, mostra-nos como devemos agir. Eis que Ele envia os Seus discípulos a pregar dois a dois, porque os mandamentos da caridade são dois: o amor de Deus e do próximo. O Senhor envia os Seus discípulos a pregar dois a dois para nos sugerir, sem o dizer, que aquele que não tem caridade para com outrem não deve de modo nenhum dedicar-se ao ministério da pregação.
Diz-se, e muito bem, que "Ele os enviou dois a dois à Sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir" (Lc 10, 1). Com efeito, o Senhor vem após os Seus pregadores, porque a pregação é um preliminar; o Senhor vem habitar a nossa alma depois de as palavras de exortação terem vindo e terem feito acolher a verdade na alma. É por isso que Isaías dizia aos pregadores: "Preparai o caminho do Senhor, aplainai uma estrada para o nosso Deus" (40, 3). E o autor dos salmos também lhes diz: "Abri caminho Ao que cavalga ao pôr-do-sol" (Sl 67, 5 Vulg). O Senhor cavalga ao pôr-do-sol porque, tendo adormecido pela Sua Paixão, manifestou-Se com maior glória na Sua Ressurreição. Ele cavalgou ao pôr-do-sol porque, ao ressuscitar, esmagou aos Seus pés a morte que sofrera. Nós abrimos caminho Àquele que cavalga ao pôr-do-sol quando pregamos a Sua glória às vossas almas para que, ao chegar em seguida, Ele as ilumine pela presença do Seu amor.

Sábado, Julho 11, 2009

Evangelho do dia (Mt 19, 27-29)

Naquele tempo, Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: Eis que nós deixamos tudo, e te seguimos; que receberemos? E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou terras, por amor de meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna (Mt 19, 27-29).

Comentário feito por Pio XII,
Papa
Enquanto o mundo envelhecia no vício, enquanto a Itália e a Europa ostentavam o tremendo espectáculo de um campo de batalha para os povos em conflito, e as instituiçõs monásticas [...] eram menos fortes que o necessário para conseguirem resistir [...], Bento testemunhou, através da sua notável ação e da sua santidade, a eterna juventude da Igreja. Pela palavra e pelo exemplo da disciplina dos costumes, restaurou a vida religiosa e rodeou-a de uma muralha de leis mais eficazes e mais santificadoras. Mais ainda: ele próprio e os seus discípulos fizeram passar os povos bárbaros, de um gênero de vida selvagem, a uma cultura humana e cristã. Convertendo-os à virtude, ao trabalho, às ocupações pacíficas das artes e das letras, uniram-os entre si pelos laços das relações sociais e da caridade fraterna. [...]
No Monte Cassino brilhou uma nova luz que, alimentada pelos ensinamentos e a civilização dos antigos, e principalmente aquecida pela doutrina cristã, iluminou os povos e as nações que erravam sem destino, congregando-os e dirigindo-os para a verdade e para o bom caminho. [...]
Foi aí que Bento levou a instituição monástica a um gênero de perfeição que se esforçava há muito por alcançar pessoalmente através da oração, da meditação e da experiência. Parece ter sido esse, com efeito, o papel especial e essencial que lhe foi confiado pela Divina Providência: não tanto levar o ideal da vida monástica do Oriente para o Ocidente, quanto harmonizá-lo e adaptá-lo com alegria ao temperamento, às necessidades e aos hábitos dos povos de Itália e de toda a Europa. Foi, pois, através dos seus cuidados que, à serena doutrina ascética que florescia nos mosteiros do Oriente, veio juntar-se a prática de uma actividade incessante, que permitia "comunicar aos outros as verdades contempladas", e que, para além de tornar férteis terras incultas, produzia frutos espirituais pelo trabalho do apostolado.

Cartas do P.e Aldo 86

Asunción, 10 de julho de 2009.

Caros amigos,
Vocês, que estão de férias ou estão trabalhando, olhem a febre de vida que têm os meus moribundos nestes dois testemunhos.

O Senhor, trazendo-me para cá, quis a minha glória
Sou natural de Ciudad del Este e há três anos luto contra a minha doença. Sempre rezava muito ao Senhor para que, com a intercessão do Espírito Santo, pudesse descobrir a Sua vontade para a minha vida. Um dia, sentia uma forte dor e, junto com meu marido, fui pegar os resultados de um exame. Fiquei no carro, naquele dia, esperando meu marido, lendo um livro de Padre Rufo. Quando ele voltou, me encontrou em lágrimas e me perguntou por que eu estava chorando. Naquele momento, era um choro de alegria, para agradecer ao Senhor que me tinha dado a resposta que eu buscava para a minha vida. Descobri que o desígnio de Deus para a minha vida era maravilhoso, e significava “aceitar a minha doença”.
Vivi uma experiência de felicidade total quando descobri o desígnio de Deus. Nós, homens, com as nossas forças, não conseguimos sustentar o desígnio de Deus.
No momento em que eu não tinha mais nenhuma esperança, com surpresa o médico da clínica Divina Providência me anunciou que estava tudo pronto para que eu pudesse ser internada ali.
Numa terça-feira, às 6h da tarde, chegamos à clínica e, antes de entrar, disse à minha família: “O Senhor, trazendo-me para cá, desejou a minha Glória”. Quando entrei, tive a confirmação daquilo que se estava preparando para mim: o meu desejo maior era o de estar sempre com Ele. De fato, tão logo entrei, me encontrei diante do Santíssimo. Não podia oferecer-Lhe nada, apenas as minhas misérias, os meus limites, os meus pecados. Não obstante isso, Ele está sempre perto de mim, está comigo, me dá a Sua força para lutar com letícia. Agradeço ao Senhor que me ajudou a descobrir o Seu desígnio para mim.
Padre Aldo me perguntou, um dia: “Qual é a coisa que mais lhe agrada neste lugar?”. Eu respondi: “Para entender o que existe aqui, é preciso viver aqui, fazer experiência... não existem palavras para descrever a paz desse lugar. Os meus filhos me fazem falta e, antes, eu não conseguia me separar do meu marido mais do que cinco minutos, mas, desde que estou aqui, digo a ele: ‘vai descansar um pouco, fica com os nossos filhos; eu estou em paz, estou bem’. Quando ele foi embora, fiquei sozinha e não tive nenhum remorso, não chorei! Até o ponto em que não estou mais preocupada com eles, porque, neste lugar, existe aquilo que me deixa feliz e em paz, que é a coisa mais importante para mim. Peço sempre ao Senhor para me sustentar nesta letícia”.
Nestes dias, rezando, dizia ao Senhor: “Eis-me aqui, Senhor, estou pronta se Tu quiseres me levar contigo para a eternidade” e o meu rosto estava cheio de felicidade.
Eu tinha tanto medo da morte, chorava muito, porque pensava nos meus filhos: o que farão sem mim? Que vida terão? Mas, desde que aceitei o Seu desígnio para mim, penso apenas em cumprir a Sua vontade... Ele me deu a vida e apenas Ele pode tirar ela de mim.
Hoje, estou em um lugar de paz e de amor... sinto vontade de chorar quando o P.e Aldo me traz o Santíssimo e penso: “quem sou eu, para receber tanto amor e tantas coisas belas?”.
Fiquei muito comovida com um trecho da carta do mês de julho que Padre Aldo escreveu para os paroquianos. Dizia: “Nós vivemos com a consciência festiva do real? Gozamos o real? Desfrutamos tudo aquilo que nos circunda? Somos fascinados pela beleza? Cuidamos de tudo aquilo que o Senhor nos dá? Trabalhamos com letícia, ou trabalhamos como os animais? Para que trabalhamos? Para comer e para vestir, ou para a Glória de Deus? Todo o resto nos será dado por acréscimo”.
Desejo que vocês possam descobrir o desígnio de Deus para as vidas de vocês. O Senhor me deu tanto tempo de vida – 4 anos já!!! Vinte dois anos de vida matrimonial para que, desta maneira, pudesse entender tantas coisas. Mas a coisa mais bonita foi a possibilidade de descobrir e experimentar o Seu amor e a Sua misericórdia.
Eu rezo muito o rosário da Divina Providência, tanto que, um dia, o meu marido me disse: “Você rezou tanto o rosário e olha só onde a gente veio parar!!! Na clínica ‘Divina Providência’”.
Sim, é este o momento da minha vida, que pertence ao desígnio de Deus, que quero viver com todo o meu amor.
Lilian

Voltei a dizer “Cristo”
Eu tinha medo do escuro, até o dia em que uma luz me surpreendeu e me tomou inteiro. A sensação da minha morte, a sensação de estar em um lugar obscuro, um lugar onde tudo acabava, me dava medo e eu ficava desiludido. Tantas vezes não somos conscientes da morte, pelo contrário, a afastamos dos nossos pensamentos. Eu tinha medo do desconhecido, pensava que depois da morte não existisse mais nada. Lembro-me de uma canção que dizia aquilo que, hoje, eu peço para entender: “Depois de ti não existe nada”. Mas Deus me fez entender que, depois do escuro da morte, existe algo: a felicidade existe.
Ontem, enquanto cantava na missa, pensava que é possível dar para vocês afeto cantando uma canção. Por isso, antes de cantar, queria pedir perdão ao Senhor, porque sou desafinado. Queria que vocês sentissem tudo o que eu sinto, na maneira mais bonita possível, cantando às pessoas e às crianças.
A consciência que eu antes tinha de Cristo não é como a de hoje. As pessoas me diziam: “Não faça isso, porque Deus vai punir você”. Fizeram-me entender que existe um Cristo que promete e, depois, te pune. Depois que cantei, ontem, para todas aquelas pessoas na missa, entendi que Cristo, pelo contrário, dá tanto amor!!! Um sorriso ao doente e à criança. Ontem, enquanto cantava, eu tinha medo de fazer um papelão diante de P.e Aldo e dos outros, mas a maneira como me receberam me tocou tanto. Receberam-me apenas porque sou um filho de Deus. Fiquei comovido até o ponto de ver que também eles estavam comovidos comigo. Tinha uma perfume de familiaridade no ar. Graças àquele momento comecei a encontrar o que eu não conhecia. Como o que diz aquele canto: “Como não acreditar em Deus, se me deu as mãos abertas de um amigo, se me deu a tristeza e a alegria de saber que existe um amanhã a cada dia?...”.
Desde pequeno me fizeram ter medo da morte; agora, eu tenho uma outra ideia dela. De um só golpe a minha vida mudou. Voltei a dizer a palavra “Cristo” depois de tanto tempo. Algo me está acontecendo que me preenche, e isto é belíssimo.
Não tenho nenhuma necessidade materila, somente preciso do Espírito. Tenho fé, mas quero que seja um tesouro ainda maior. Lendo a Bíblica, escrevendo uma canção com todos estes momentos que estou passando e falam do amor de Deus, quero cnatar para o verdadeiro amor!!
Foi bonito reencontrar-me com Cristo. Fez-me chorar, porque foi um encontro como aquele entre dois amigos que há anos não se veem, ou melhor, que, conhecendo-se, nunca se encontraram.
Antes, eu pensava que para me encontrar com Cristo era preciso morrer. A única condição era morrer. Hoje, pelo contrário, agradeço por este encontro. Sem o câncer eu continuaria a ser um aproveitador de mulheres. Assim, doente como estou, tudo ainda pode ser diferente. Agora, eu vivo na luz, e a escuridão de que eu tinha medo, hoje, é fonte da minha felicidade.
Não foi um re-encontro com Cristo, foi um verdadeiro encontro, que nunca havia feito. Encontrei a força do meu destino, o infinito. O meu futuro é o meu presente, é um futuro que já começou.
Queria gritar para todo mundo que não tenham medo da morte, mas do tempo perdido sem Jesus. Peço perdão à vida pelos tantos erros, mas sei que Cristo me espera, para além de mim mesmo.
Carlos

Carlos compôs estes versos, que narram a sua experiência de vida. Vai musicá-los para fazer uma canção que quer cantar para os quatro ventos!

Perdão à vida
Circunda-me o escuro
Com seu obscuro manto
Uma sensação de medo
fez tremer os passos meus

Tentei me afastar
E fugir de suas mãos
Mas uma luz potente
me arrancou o pranto

Veio ao meu encontro
E iluminou os meus anos
Volto a dizer Cristo
com olhos humildes

Sinto um amor diferente
Por aquele que abraço em prantos,
Depois da noite
sei que existe algo

Aquelas trevas
Que eu tanto temia
eram uma luz viva
era Deus por perto

Um encontro amigável
Que me está dando
Felicidade verdadeira
Alegria e canto

Já estou na luz
E com Cristo, salvo
Meu futuro, um presente
Que está passando

Não fujas da morte
Não temas suas correntes
Temas apenas estar sozinho
sem Cristo, irmão

Perdão à vida
Errei tanto
Perdão ao amor
Cristo me encontrou

P.e Aldo

Sexta-feira, Julho 10, 2009

A lição de Adam Smith

por Giorgio Vittadini

Se, como diz Adam Smith, não é benevolência do mestre cervejeiro que produz a riqueza, é preciso lembrar que o mesmo autor afirma que o valor de troca de um bem equivale ao seu valor de uso, à sua real utilidade. Para intuir a necessidade de um produto para alguém, mesmo hoje em dia, não basta um empresário que repita de modo esquemático determinados procedimentos. É preciso um empresário que intua as necessidades de uso de um determinado público e coloque em ação a sua capacidade criativa, de transformação da realidade, o seu desejo de construir, de melhorar a própria condição e a de sua família, do seu território.
Isto, contrariamente a uma certa literatura sócio-econômica, é proporcional à forma como ele vive a sua natureza profunda, feita do desejo de justiça, verdade, beleza – como recordava muito frequentemente Luigi Giussani –, e à forma como tal desejo é educado nas realidades sociais, territoriais, ideais, às quais pertence. Isto não significa negar o papel determinante do proveito, indicador indispensável de toda atividades econômica. Significa mostrar a importância da razão, que está na base da criação de riqueza, sem a qual toda descrição do sistema econômico é uma interpretação do funcionamento daquilo que existe, mas não explica porque se gerou.
Relendo a história de empresas que se tornaram colossos multinacionais, analisando as dificuldades de tantas pequenas e médias empresas de sucesso, se vê como o homem é o recurso da empresa. Se um proveito desvinculado do desejo de trabalhar e construir dominasse a ação, por que, na atual crise, as pequenas e médias empresas italianas, que produzem 70% da fatura e dão trabalho para 80% dos ocupados italianos, deveriam resistir à tentação de vender a empresa, ficar com o dinheiro na família sem reinvesti-lo e viver de renda? Como ensinam os grandes autores da economia empresarial italiana, uma empresa, sobretudo as pequenas e médias, que queira se manter no longo prazo deve ser movida por um conjunto de princípios e ideais ligados à valorização dos seus trabalhadores considerados como pessoas. Do relatório Subsidiariedade e... pequenas e médias empresas (Mondadori Università, 2009) emergiu como os pequenos e médios empreendedores são, na sua grande maioria, movidos, mais do que pela busca de proveito, pelo desejo de criar postos de trabalho e de tornar a empresa, mesmo que a custas pessoais, um lugar onde os trabalhadores estejam bem.
No que diz respeito à concorrência, prevalece sobre a competição darwinista de tipo neoclássico uma tendência ao compartilhamento com os concorrentes da atividade de pesquisas e de desenvolvimento, de internacionalização, de estratégia para melhorar a competitividade. Quem pensa que estas são divagações poéticas, reflita sobre como a sorte inesperada dos distritos italianos nasceu desta estranha concepção de concorrência criativa e colaboradora entre empresas.
Definitivamente, aquilo que importa é o capital humano, quase esquecido na embriaguez pelas teorias financeiras, como instrumento para promover, no mundo da empresa, aquela atenção à pessoa na sua globalidade e, em nível macro-econômico, aquele desenvolvimento que vem de baixo, “subsidiário”, como sublinha a Doutrina Social da Igreja.
Augura-se que se chegue a compreender como a educação a viver profundamente as próprias perguntas humanas, através de critérios ideais, é muito mais determinante e compreensivo do que a simples instrução, do que a ética aplicada à economia ou do que um proveito por si mesmo, para a geração de capacidades empreendedoras, de trabalho e de riqueza dos povos e dos Estados.

* Extraído do jornal Il Sole – 24 ore, do dia 10 de julho de 2009 (p. 18). Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Evangelho do dia (Mt 10, 16-23)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: “Eis que eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, portanto, prudentes como as serpentes e simples como as pombas. Cuidado com os homens, porque eles vos entregarão aos tribunais e vos açoitarão nas suas sinagogas. Vós sereis levados diante de governadores e reis, por minha causa, para dar testemunho diante deles e das nações. Quando vos entregarem, não fiqueis preo­cupados como falar ou o que dizer. Então naquele momento vos será indicado o que deveis dizer. Com efeito, não sereis vós que havereis de falar, mas sim o Espírito do vosso Pai é que falará através de vós. O irmão entregará à morte o próprio irmão; o pai entregará o filho; os filhos se levantarão contra seus pais, e os matarão. Vós sereis odiados por todos, por causa do meu nome. Mas quem perseverar até o fim, esse será salvo. Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra. Em verdade vos digo, vós não acabareis de percorrer as cidades de Israel, antes que venha o Filho do Homem (Mt 10, 16-23).

Comentário feito por Beato João XXIII (1881-1963)
Papa
"Quando vos entregarem, não vos preocupeis". Refletindo sobre mim e sobre as muitas vicissitudes da minha humilde vida, devo reconhecer que o Senhor me dispensou até agora dessas tribulações que, a muitas almas, tornam difícil e ingrato o serviço da verdade, da justiça e da caridade. [...] Como agradecerei, meu Deus, o bom tratamento que recebi sempre em todos os lugares aonde cheguei em Teu nome, e sempre em pura obediência, não por minha vontade, mas pela Tua? "Como retribuirei ao Senhor todo o bem que Ele me fez?" (Sl 115, 12). Vejo muito bem que a minha resposta, a mim próprio e ao Senhor, é sempre: "Erguerei o cálice da salvação, invocando o nome do Senhor" (v. 13). Como já insinuei nestas páginas, quando me assaltar a grande tribulação, devo recebê-la bem: "A nossa tribulação momentânea é leve, em relação com o peso extraordinário da glória eterna que ela nos prepara" (2Cor 4, 17). E, se se fizer esperar algum tempo, terei de continuar a saciar-me com o sangue de Jesus, com o cortejo de pequenas e grandes tribulações de que a bondade do Senhor quiser rodear-me. Sempre me senti, e continuo a sentir-me muito impressionado por estas palavras do pequeno Salmo 130: "Senhor, o meu coração não se orgulha, nem os meus olhos são altivos; não vou atrás de grandezas nem de prodígios que me excedam. Ao contrário, aquieto e sossego a minha alma, como uma criança saciada no colo de sua mãe, assim está a minha alma dentro de mim". Como amo estas palavras! Mas, se vier a perturbar-me no final da vida, Senhor Jesus, Tu me fortificarás na tribulação. O Teu sangue, o Teu sangue que continuarei a beber do Teu cálice, quer dizer, do Teu coração, será para mim um penhor de salvação e de alegria eterna. "A nossa tribulação momentânea é leve, em relação com o peso extraordinário da glória eterna que ela nos prepara".

Cartas do P.e Aldo 85


Asunción, 09 de julho de 2009.

Caros amigos,
Marciana está morrendo. Na sua bolsa, o seu pai encontrou este escrito:


A minha viagem
A todos aqueles que me conheceram. Estou esperando o meu trem sem volta, com as malas cheias de belas recordações vividas. Nestas malas, não levo angústia, nem ódio, nem rancores; apenas coisas belas: o amor de meus caros, dos amigos, os carinhos recebidos nas noites de inverno.
Na minha partida, não quero choro, mas o adeus com um simples lencinho.
Quem me ama, me encontrará nos meus irmãos doentes, nas crianças, nos velhos abandonados e nos pobres sem pão.

Marciana Elizabeth
20/01/2009


Anexo a foto da mostra que fizemos, domingo passado, com seus quadros.
Como vocês podem ler, ela está vencida pela Alegria de Viver.
P.e Aldo

Quinta-feira, Julho 09, 2009

Dos artesãos às cooperativas: a Itália perto da Encíclica

Entrevista realizada por Gian Guido Vecchi com Giorgio Vittadini, presidente da Fundação para a Subsidiariedade, quinta-feira, 9 de julho de 2009, publicada Corriere della Sera.

Giorgio Vittadini é fundarod da Companhia das Obras, é presidente da Fundação para Subsidiariedade, tema central da Encíclica Caritas in veritate. Para ele, a idéia de mercado do Papa é mais rica e real. Parte da nossa economia já tem um objetivo ideal.


Na Encíclica de Bento XVI existe uma idéia de que o desenvolvimento deve dar espaço para o “princípio da gratuidade”. Utopia?
Mesmo uma máquina de polir ou uma máquina para fresar madeira podem ser um aspecto da gratuidade.

Não entendi, professor.
Pense nas pequena e média empresas, em tantos que querem sim o proveito, mas como instrumento: para viver e fazer viver melhor, mas também para o bem comum. São aqueles a quem agrada a ideia de criar empresas e coisas para o bem, que cuidam do produto final porque se interessam por ele e desejam criar um ambiente confortável, aliar-se com o trabalhador, tornar rico o território. Penso na tradição do mercado italiano, nos movimentos católico e operário...

E o que isso tem que ver?
Tem que ver... tem que ver. Para dar um exemplo da Itália: são movimentos que tornaram o capitalismo permeado pelos ideais de justiça e de busca do bem comum, para além do injuriado liberalismo finaceiro. De resto, no início do século passado, as poupanças rurais e ou os bancos populares faziam finanças criando o bem comum.

Não é uma utopia, portanto?
Não. Há uma leitura profética, fundada na realidade. A subsidiariedade e o mercado são enfrentados a partir de uma concepção de homem. Anos atrás, falava-se muito de “recursos humanos”, aqui, porém, se coloca o homem no centro da economia: caridade na verdade. É revolucionário: a caridade – o “dom de si comovido”, dizia dom Giussani – é a verdade do homem feito a imagem de Deus, que é caridade. Portanto, o homem é responsável pelos outros homens.

E então?
E então, a subsidiariedade é a valorização deste homem que não está sozinho e é capaz de fazer o bem. Nasce de uma pergunta: como posso levar o bem comum? Com o Estado? A partir de cima? Ou, melhor ainda, dando valro a todas aquelas pessoas, movimentos e grupos intermédios da sociedade que, de baixo, sendo expressão do homem, só podem agir para o bem?

O Papa se refere à globalização...
O governo do alto, como união de Estados, arrisca-se a não ter efeito porque não valoriza sujeitos capazes de fazer o bem. No mundo existem comunidades locais, associações, movimentos, realidades que operam para a liberdade e a justiça, para o ambiente ou contra o trabalho infantil, existem pessoas como o economista Muhammad Yunus que se envolvem. Existe uma interconexão de realidades virtuosas que diz muito mais do que os modelos teóricos.

E a realidade italiana pode ser um modelo?
Na Itália, existe já um mercado muito mais próximo daquele de que fala a Encíclica. Das pequenas e médias empresas às associações de artesãos, à Liga das Cooperativas, à Companhia das Obras... temos uma economia que aceita o mercado, tendo, porém, um objetivo ideal.

A ética na economia?
O mercado pode ser entendido como lugar de puro egoísmo ou como lugar de compartilhamento, ou como oferta de bens que melhorem a vida das pessoas. Um dos maiores méritos da Encíclica é o de não dizer “não” ao mercado e à empresa, e “sim” apenas ao non profit e voluntariado. Redefine empresa e finança de um modo menos histérico, ofere uma ideia de mercado mais multifacetada. Representa o fim da ideologia segundo a qual a economia, para definir-se, não tem necessidade do homem.

Tudo bem... mas e a máquina de polir?
Adam Smith distinguia valor de uso de valor de troca. E o valor de troca existe porque esta é uma coisa útil, feita de modo adequado e bela, portanto vivo melhor. Se o proveito é um instrumento, qual é o objetivo? O “dom de si comovido”: o empresário olha para o proveito mas, junto disso, busca tornar o seu produto melhor. A idéia de economia do Papa é mais rica, colorida e real.

* Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Evangelho do dia (Mt 10, 7-15)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: “Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar! Não leveis ouro nem prata nem dinheiro nos vossos cintos; nem sacola para o caminho, nem duas túnicas nem sandálias nem bastão, porque o operário tem direito a seu sustento. Em qualquer cidade ou povoado onde entrardes, informai-vos para saber quem ali seja digno. Hospedai-vos com ele até a vossa partida. Ao entrardes numa casa, saudai-a. Se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; se ela não for digna, volte para vós a vossa paz. Se alguém não os receber, nem escutar vossa palavra, saí daquela casa ou daquela cidade, e sacudi a poeira dos vossos pés. Em verdade vos digo, as cidades de Sodoma e Gomorra serão tratadas com menos dureza do que aquela cidade, no dia do juízo (Mt 10, 7-15).

Comentário feito por Santo Efrém (c. 306-373)
Diácono na Síria, Doutor da Igreja
"Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: A paz esteja nesta casa" (Lc 10, 5) para que o próprio Senhor lá entre e lá resida, como junto a Maria. [...] Esta saudação é o mistério da fé que brilha no mundo; por ela, o ódio é asfixiado, a guerra interrompida e os homens compreendem-se mutuamente. O efeito desta saudação estava escondido por um véu, apesar da prefiguração do mistério da ressurreição [...] que ocorre sempre que a luz aparece e a aurora expulsa a noite. A partir do momento em que Cristo enviou os seus discípulos pela primeira vez, os homens começaram a dar e a receber esta saudação, fonte de cura e de bênção. [...] Esta saudação, com o seu poder escondido [...], é amplamente suficiente para todos os homens. Foi por isso que Nosso Senhor a enviou prenunciadoramente com os Seus discípulos, para que ela realize a paz e para que, levada pela voz dos apóstolos, Seus enviados, ela lhes prepare o caminho. Ela foi semeada em todas as casas [...]; ela entrou em todos os corações que a entenderam, para separar e pôr à parte os seus filhos, que reconhecia. Ela permanecia neles, mas denunciava os que lhe eram estranhos, porque não a acolhiam. Esta saudação de paz não secava, jorrava dos apóstolos para os seus irmãos, desvendando os tesouros inesgotáveis do Senhor [...]. Presente naqueles que a davam e nos que a acolhiam, este anúncio da paz não sofria nem diminuição nem divisão. Sobre o Pai, anunciava que Ele está perto de todos e em todos; sobre a missão do Filho, revelava que Ele está por inteiro junto de todos, mesmo que o Seu fim seja estar junto de Seu Pai. Ela não cessa de proclamar que doravante as figurações são realizadas e que a verdade expulsa enfim as sombras.

Bento XVI apresenta a Encíclica Caritas in veritate

Queridos irmãos e irmãs:
Minha nova encíclica, Caritas in veritate, que foi apresentada oficialmente ontem, inspira-se, em sua visão fundamental, em uma passagem da carta de São Paulo aos Efésios, na qual o apóstolo fala sobre agir segundo a verdade na caridade: “Vivendo – acabamos de escutar – segundo a verdade, no amor, cresceremos sob todos os aspectos em relação a Cristo, que é a cabeça” (4, 15). A caridade na verdade é, portanto, a principal força propulsora para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e de toda a humanidade. Por isso, toda a doutrina social da Igreja gira em torno do princípio caritas in veritate.
Somente com a caridade, iluminada pela razão e pela fé, é possível alcançar objetivos de desenvolvimento com um valor humano e humanizador. A caridade na verdade “é um princípio em torno do qual gira a doutrina social da Igreja, princípio que ganha forma operativa em critérios orientadores da ação moral” (n. 6). A encíclica alude imediatamente, na introdução, a dois critérios fundamentais: a justiça e o bem comum. A justiça é parte integrante desse amor “com ações e de verdade” (1Jo 3, 18), à qual exorta o apóstolo João (cf. n.6). E “amar alguém é querer o seu bem e trabalhar eficazmente pelo mesmo. Ao lado do bem individual, existe um bem ligado à vida social das pessoas (...). Ama-se tanto mais eficazmente o próximo, quanto mais se trabalha em prol de um bem comum”. Portanto, dois são os critérios operativos: a justiça e o bem comum; graças a este último, a caridade adquire uma dimensão social. A encíclica diz que todo cristão está chamado a esta caridade e acrescenta: “este é o caminho institucional (...) da caridade” (cf. n. 7).
Como outros documentos do Magistério, também esta encíclica retoma, continua e aprofunda a análise e a reflexão da Igreja sobre questões de vital interesse para a humanidade do nosso tempo. De modo especial, enlaça-se com aquilo que Paulo VI escreveu, há mais de 40 anos, na Populorum progressio, pedra angular do ensinamento social da Igreja, na qual o grande pontífice traça algumas linhas decisivas – e sempre atuais – para o desenvolvimento integral do homem e do mundo moderno. A situação mundial, como amplamente demonstra a crônica dos últimos meses, continua apresentando muitos problemas e o “escândalo” de desigualdades clamorosas, que permanecem apesar dos compromissos adotados no passado.
Por um lado, registram-se sinais de graves desequilíbrios sociais e econômicos; por outro, invocam-se, de muitos lugares, reformas que não podem demorar mais tempo para superar a brecha no desenvolvimento dos povos. O fenômeno da globalização pode, neste sentido, constituir uma oportunidade real, mas por isso é importante que se chegue a uma profunda renovação moral e cultural e a um discernimento responsável sobre as escolhas que precisam ser feitas para o bem comum. Um futuro melhor para todos é possível quando se funda na descoberta dos valores éticos fundamentais. É necessária, portanto, uma nova projeção econômica que volte a desenhar o desenvolvimento de forma global, baseando-se no fundamento ético da responsabilidade diante de Deus e diante do ser humano como criatura de Deus.
A encíclica certamente não visa a oferecer soluções técnicas para as grandes problemáticas sociais do mundo atual – não é da competência do magistério da Igreja (cf. n. 9). Esta recorda, no entanto, os grandes princípios que se revelam indispensáveis para construir o desenvolvimento humano nos próximos anos. Entre estes, em primeiro lugar, a atenção à vida do homem, considerada como centro de todo verdadeiro progresso; o respeito do direito à liberdade religiosa, sempre unido intimamente ao desenvolvimento do homem; a rejeição de uma visão prometeica do ser humano, que o considera artífice absoluto do seu próprio destino. Uma ilimitada confiança nas potencialidades da tecnologia seria finalmente ilusória. É preciso contar com homens retos, tanto na política quanto na economia, que estejam sinceramente atentos ao bem comum.
Em particular, vendo as emergências mundiais, é urgente chamar a atenção da opinião pública diante do drama da fome e da segurança alimentar, que afeta uma parte considerável da humanidade. Um drama de tais dimensões interpela nossa consciência: é necessário enfrentá-lo com decisão, eliminando as causas estruturais que o provocam e promovendo o desenvolvimento agrícola dos países mais pobres. Tenho certeza de que esta via solidária ao desenvolvimento dos países mais pobres ajudará a elaborar um projeto de solução da crise global atual.
Sem dúvida, é preciso revalorizar atentamente o papel e o poder político dos Estados, em uma época em que existem, de fato, limitações à sua soberania por causa do novo contexto econômico-comercial e financeiro internacional. E por outro lado, não deve faltar a participação dos cidadãos na política nacional e internacional, graças também a um compromisso renovado das associações dos trabalhadores chamados a instaurar novas sinergias no âmbito local e internacional. Um papel de primeiro nível desempenha, também neste campo, a mídia, para a potencialização do diálogo entre culturas e tradições diversas.
Querendo, portanto, programar um desenvolvimento não viciado pelas disfunções e distorções hoje amplamente presentes, impõe-se, por parte de todos, uma séria reflexão sobre o sentido da economia e sobre suas finalidades. Exige-o o estado de saúde ecológica do planeta; pede-o a crise cultural e moral do homem, que aparece com evidência em cada lugar do globo. A economia tem necessidade da ética para seu funcionamento correto; precisa recuperar a importante contribuição do princípio de gratidão e da “lógica do dom” na economia do mercado, em que a regra não pode ser o próprio proveito. Mas isso só é possível graças ao compromisso de todos, economistas e políticos, produtores e consumidores, e pressupõe uma formação das consciências que dê força aos critérios morais na elaboração dos projetos políticos e econômicos.
Justamente, de muitas partes se apela ao fato de que os direitos pressupõem deveres correspondentes, sem os quais os direitos correm o risco de transformar-se em livre arbítrio. É necessário – repete-se cada vez mais – um estilo diferente de vida por parte de toda a humanidade, no qual os deveres de cada um com relação ao ambiente se unam aos da pessoa considerada em si mesma e em relação com os demais. A humanidade é uma só família e o diálogo fecundo entre fé e razão não pode senão enriquecê-la, tornando mais eficaz a obra da caridade no social, constituindo, além disso, o marco apropriado para incentivar a colaboração entre crentes e não-crentes, na perspectiva compartilhada de trabalhar pela justiça e pela paz no mundo.
Como critérios-guia para esta interação fraterna, na encíclica indico os princípios de subsidiariedade e de solidariedade, em íntima conexão entre si. Sublinhei, finalmente, frente a problemáticas tão vastas e profundas do mundo de hoje, a necessidade de uma autoridade política mundial regulada pelo direito, que se atenha aos mencionados princípios de subsidiariedade e solidariedade e que esteja firmemente orientada pela realização do bem comum, no respeito às grandes tradições morais e religiosas da humanidade.
O Evangelho nos recorda que não só de pão vive o homem: não só com bens materiais se pode satisfazer a profunda sede do seu coração. O horizonte do homem é, sem dúvida, mais alto e mais vasto; por isso, todo programa de desenvolvimento deve ter presente, junto ao material, o crescimento espiritual da pessoa humana, que está dotada de alma e corpo. Este é o desenvolvimento integral, ao que constantemente se refere a doutrina social da Igreja, desenvolvimento que tem seu critério orientador na força propulsora da “caridade na verdade”.
Queridos irmãos e irmãs, oremos para que também esta encíclica possa ajudar a humanidade a sentir-se uma única família comprometida em realizar um mundo de justiça e paz. Oremos para que os crentes, que trabalham nos setores da economia e da política, advirtam quão importante é a coerência do seu testemunho evangélico no serviço que oferecem à sociedade. Particularmente, convido-vos a rezar pelos chefes de Estado e do governo do G8, que se reúnem nestes dias em L’Aquila. Que desta importante cúpula mundial brotem decisões e orientações úteis para o verdadeiro progresso de todos os povos, especialmente dos mais pobres. Confiamos estas intenções à maternal intercessão de Maria, Mãe da Igreja e da humanidade.
* Extraído da Agência Zenit.