Sexta-feira, Janeiro 01, 2010

Te Deum

Te Deum laudamus: te Dominum confitemur.

Te æternum Patrem omnis terra veneratur.

Tibi omnes Angeli, tibi Cæli, et universæ Potestates: Tibi Cherubim et Seraphim incessabili voce proclamant: Sanctus, Sanctus, Sanctus Dominus Deus Sabaoth.

Pleni sunt cæli et terra majestatis gloriæ tuæ.

Te gloriosus Apostolorum chorus, Te Prophetarum laudabilis numerus, Te Martyrum candidatus laudat exercitus.

Te per orbem terrarum sancta confitetur Ecclesia, Patrem immensæ majestatis: Venerandum tuum verum et unicum Filium: Sanctum quoque Paraclitum Spiritum. Tu Rex gloriæ, Christe.

Tu Patris sempiternus es Filius, Tu, ad liberandum suscepturus hominem, non horruisti Virginis uterum.

Tu, devicto mortis aculeo, aperuisti credentibus regna cælorum. Tu ad dexteram, Dei sedes, in gloria Patris. Iudex crederis esse venturus.

Te ergo quæsumus, tuis famulis subveni, quos pretioso sanguine redemisti.

Æterna fac cum Sanctis tuis in gloria munerari.

Salvum fac populum tuum, Domine, et benedic hereditati tuæ.

Et rege eos, et extolle illos usque in æternum.

Per singulos dies benedicimus te; Et laudamus Nomen tuum in sæculum, et in sæculum sæculi.

Dignare, Domine, die isto sine peccato nos custodire.

Miserere nostri domine, miserere nostri.

Fiat misericordia tua, Domine, super nos, quemadmodum speravimus in te.

In te, Domine, speravi: non confundar in æternum.



Nós Vos louvamos, ó Deus,

nós Vos bendizemos, Senhor.

Toda a terra Vos adora,

Pai eterno e omnipotente.

Os Anjos, os Céus

e todas as Potestades,

os Querubins e os Serafins

Vos aclamam sem cessar:

Santo, Santo, Santo,

Senhor Deus do Universo,

o céu e a terra proclamam a vossa glória.

O coro glorioso dos Apóstolos,

a falange venerável dos Profetas,

o exército resplandecente dos Mártires

cantam os vossos louvores.

A santa Igreja anuncia por toda a terra

a glória do vosso nome:

Deus de infinita majestade,

Pai, Filho e Espírito Santo.

Senhor Jesus Cristo, Rei da glória,

Filho do Eterno Pai,

para salvar o homem, tomastes

a condição humana no seio da Virgem Maria.

Vós despedaçastes as cadeias da morte

e abristes as portas do céu.

Vós estais sentado à direita de Deus,

na glória do Pai,

e de novo haveis de vir para julgar

os vivos e os mortos.

Socorrei os vossos servos, Senhor,

que remistes com vosso Sangue precioso;

e recebei-os na luz da glória,

na assembleia dos vossos Santos.

Salvai o vosso povo, Senhor,

e abençoai a vossa herança;

sede o seu pastor e guia através dos tempos

e conduzi-o às fontes da vida eterna.

Nós Vos bendiremos todos os dias da nossa vida

e louvaremos para sempre o vosso nome.

Dignai-Vos, Senhor, neste dia, livrar-nos do pecado.

Tende piedade de nós,

Senhor, tende piedade de nós.

Desça sobre nós a vossa misericórdia,

Porque em Vós esperamos.

Em Vós espero, meu Deus,

não serei confundido eternamente.

Angelus do dia 1o de Janeiro de 2010


Hoje, o Senhor nos permite iniciar um novo ano no Seu Nome e sob o olhar de Maria Santíssima, de quem celebramos a Solenidade da Divina Maternidade. Estou feliz de vos encontrar neste primeiro Angelus de 2010. Dirijo-me a vós, reunidos na Praça São Pedro, e também a todos os que se unem à nossa oração através do rádio e da televisão: desejo a todos vós que o ano apenas começado seja um tempo no qual, com a ajuda do Senhor, possamos ir ao encontro de Cristo e da vontade de Deus, e assim também melhorar a nossa casa comum que é o mundo.
Um objetivo compartilhado com todos, condição indispensável para a paz, é administrar com justiça e sabedoria os recursos naturais da Terra. “Se quiserdes cultivar a paz, custodiai a criação”: a este tema de grande atualidade dediquei a minha mensagem pelo 43º Dia Mundial da Paz. Enquanto a mensagem era publicada, os Chefes de Estado e de Governo estavam reunidos em Copenhagen no encontro sobre o clima, onde emergiu ainda uma vez a urgência de medidas de plano global. Todavia, neste momento, gostaria de sublinhar a importância que, no cuidado com o ambiente, têm também as escolhas dos indivíduos, das famílias e das administrações locais. “Torna-se, agora, indispensável uma efetiva mudança de mentalidade que induza a todos a adotar novos estilos de vida” (cf. Messaggio, n. 11). Todos, de fato, somos responsáveis pela proteção e pelo cuidado com a criação. Por isso, mesmo neste campo, é fundamental a educação: para aprender a respeitar a natureza; orientar-se sempre mais para a “construção da paz a partir das escolhas mais amplas em nível pessoal, familiar, comunitário e político” (ibid.).
Se devemos ter cuidado com as criaturas que nos rodeiam, quanta consideração não devemos ter pelas pessoas, nossos irmãos e irmãs! Quanto respeito pela vida humana! No primeiro dia do ano, gostaria de dirigir um apelo às consciências daqueles que fazem parte dos grupos armados de todo tipo. A todos e a cada um, eu digo: parai, refleti e abandonai a via da violência! Neste momento, este passo poderá parecer-vos impossível, mas, se tiverdes a coragem de dá-lo, Deus vos ajudará, e sentireis voltar para os vossos corações a alegria da paz, que talvez há muito já esquecestes. Confio este apelo à intercessão da Santíssima Mãe de Deus, Maria. Hoje, a liturgia nos lembra que, oito dias depois do nascimento do Menino, ela, junto com seu esposo José, o fizeram circuncidar, segundo as leis de Moisés, e lhe deram o nome de Jesus, como tinha sido chamado pelo anjo (cf. Lc 2,21). Este nome, que significa “Deus salva”, é a realização da revelação de Deus. Jesus é o rosto de Deus, é a benção para cada homem e para todos os povos, é a paz para o mundo. Obrigado, Mãe Santa, porque deste à luz o Salvador, o Príncipe da paz!
Depois do Angelus
Nestes dias, recebi numerosos votos: agradeço a todos com afeto, sobretudo pelo dom da oração. Gostaria de dirigir um voto especial ao Senhor Presidente da República Italiana. A ele, às outras Autoridades de Estado e a todo o povo italiano desejo os melhores votos neste ano apenas começado.
Neste Dia Mundial da Paz, dirijo uma cordial saudação aos participantes da marcha intitulada “Paz em todas as terras”, promovida pela Comunidade de Santo Egídio, em Roma e em muitos outros Países do mundo. Estendo a expressão da minha proximidade espiritual às múltiplas iniciativas pela paz organizadas pelas Igrejas particulares, pelas associações e pelos movimentos eclesiais; penso, de modo especial, naquelas de caráter nacional que aconteceram ontem em Terni e em Áquila.
Mensagem em português: A todos os povos e nações de língua portuguesa - nominalmente aos peregrinos vindos de Angola - aos seus lares e comunidades, aos seus governantes e instituições, desejo a paz do Céu, que hoje vemos reclinada nos braços da Virgem Mãe. Feliz Ano Novo!


* Extraído da Radio Vaticana, traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Segunda-feira, Dezembro 28, 2009

Cartas do P.e Aldo 127





Asunción, 26 de dezembro de 2009.

Caros amigos,
Hoje, dia do Natal, meu filho Aldo Trento completa 13 anos. Estou feliz porque é muito bonito, e é bonito porque é o esplendor da verdade, da evidência de que é relação com o Mistério. A minha consciência de ser “eu sou Tu que me fazes” é a sua consciência e, por isso, ele ri, chora e faz seus caprichos. Mas, se eu não estivesse certo de ser unicamente relação com o Mistério, não poderia, absolutamente, definir-me como pai, e esta criança toda deformada (é a imagem de Hermano, o Coxo) não se conceberia como meu filho e, portanto, não poderia se sentir feliz. Uma das maiores dores que eu vivo é encontrar pais, mesmo do movimento, que me dizem: “padre, o ginecologista me disse que muito provavelmente nosso filho nascerá com um defeito etc.”. Deixam-me louco... e respondo: “mas que pais são vocês para quem basta um defeito possível do filho ainda não nascido para ficarem em crise? O filho de vocês vale pelo defeito que tem ou pode ter, ou porque é filho de vocês e, mais verdadeiramente, relação direta com o Mistério?”. E, depois, vêm falar de fé, esperança e caridade! Vocês entendem que qualquer filho, deformado ou violentado como as minhas crianças, são de qualquer maneira “eu sou Tu que me fazes”? Por que olhar para o limite? E, depois, temos a audácia de nos escandalizar com o que fez Hitler. Não somos diferentes quando escolhemos o aborto para uma má-formação ou quando voltamos do ginecologista em crise porque ele nos disse que nosso filho não será, provavelmente, como o concebemos na nossa mente tão Euclidiana. Eu dizia a um pai que se lamentava da possibilidade de que seu filho nascesse com problemas: “amigo, você se dá conta de que esta pequena hóstia branca é relação com o Mistério, foi designada assim por Deus?... Então, fixe os olhos nesta beleza e louve Àquele que fez grandes coisas na sua vida, dando para você um filho que é uma obra prima, que vai lembrar a você sempre, enquanto você viver, que também você é ‘eu sou Tu que me fazes’”.
O que queremos: pequenas barbies ou deixar que Deus nos dê aquilo que Ele sabe que será de maior ajuda para entender que somos relação com o Mistério?
Eu, sem este filho, estes filhos (tenho também Lúcia, de 6 meses, que nasceu sem olhos e sem nariz... mas que é bela, é um tesouro... move-se como uma topeira, coloca a língua para fora todo o tempo porque se incomoda com a sonda que a alimenta), não teria a alegria e a graça de viver vibrando na certeza de poder dizer, em cada momento: “Tu, meu Cristo!”.
Comovam-se com a foto dos meus dois filhos mais provados fisicamente nesse momento.
Aldo Trento faz 13 anos porque, quando eu o adotei, o juiz me disse: “quanto anos quer que ele tenha e quando deseja que ele tenha nascido?”. Faz dois anos, e eu lhe respondi: “nascido no dia 25 de dezembro, como o menino Jesus... e no ano de 1996, um ano muito significativo para mim”.
Rezem por mim e por ele.
Obrigado
Aldo

Sábado, Dezembro 26, 2009

Cartas do P.e Aldo 126






Asunción, 23 de dezembro de 2009.

Caros amigos,
Obrigado de coração e Bom Natal.
A comoção que vivo só de pensar no fato de que o Mistério se fez carne está na origem do milagre de ver as minhas crianças felizes apesar de vítimas das piores violências.
Como presente, mando para vocês algumas fotos: três nas quais se vêem Rosinha e Camila (dois anos cada uma e doentes) comendo. São bonitas. São filhas do Mistério e de nós que dependemos dEle. Neste mundo têm a mim e à mamãe Cristina.
As outras fotos mostram as minhas crianças no jantar que fizemos para festejar a entrega dos boletins escolares. Vocês se lembram do ano passado? Todos tinha nota 1 e eu, naquela ocasião, disse a eles que a coisa mais difícil que havia era passar de 0 para 1, de ninguém a alguém. Este ano, com exceção de duas crianças, todos tiveram média 4 (a nota máxima aqui é 5). Somente Gabriel e Roberto (que estão tristes nas fotos) tiveram nota 1 e deverão repetir de ano. Porém, depois de alguns minutos de tristeza, ambos se recuperaram... mesmo porque o pai deles era um burro na escola. Mas, o orgulho de Gabriel, que era um garoto muito violento, é poder dizer que a todos que, agora, eles se chama Gabriel Trento. Finalmente, tem uma identidade, depois de 8 anos de vida.
As crianças são a evidência de que somente a certeza de que o eu é relação com o Mistério é capaz de lançar um olhar positivo sobre tudo. Olhando para ele, eu entendo que a pergunta verdadeira não é “quem sou?”, mas “de quem sou?”. Assim, Gabriel, ontem de noite, durante a Missa (na qual ele foi meu coroinha), quando lhe perguntei “quem é você?”, ele respondeu diante da igreja lotada “Sou Gabriel Trento”.
Isto é, para mim, o Natal: “eu sou Tu que me fazes”... e poder dizer “Tu, Cristo, eu amo”.
Obrigado.
Padre Aldo

Aquela saudade do infinito...

por Julián Carrón

Caro Diretor,
existe uma frase de Dostoievsky que me acompanha nestes tempos, tendo de falar do cristianismo para as mais diversas pessoas na Itália e no exterior: “Um homem culto de nossos dias pode crer, crer realmente, na divindade do filho de Deus, Jesus Cristo?”. Esta pergunta soa como um desafio para cada um de nós. É precisamente da resposta a ela que depende a possibilidade de sucesso da fé hoje. Num discurso de 1996, o então cardeal Ratzinger respondeu que a fé pode esperar isso “porque ela corresponde à natureza do homem. No homem vive indelével o anseio do infinito”. E com isso indicava também a condição necessária: que o cristianismo tem necessidade de encontrar o homem que vibra em cada um de nós para mostrar todo o alcance da sua pretensão.
Mesmo assim, em quantas ocasiões somos tentados a olhar para a humanidade concreta que temos – por exemplo, a dificuldade, a insatisfação, a tristeza, o tédio – como um obstáculo, uma complicação, um empecilho para a realização daquilo que desejamos. E assim ficamos com raiva de nós mesmos e da realidade, sucumbindo sob o peso das circunstâncias, na ilusão de ir avante cortando alguns pedaços de nós. Mas dificuldade, insatisfação, tristeza, tédio não são sintomas de uma doença sobre a qual intervir com remédios, como acontece cada vez mais numa sociedade que confunde a inquietação do coração com o pânico e com a ansiedade. São mais sinais de qual seja a natureza do eu. O nosso desejo é maior do que todo o universo. A percepção do vazio em nós e ao nosso redor, do qual fala Leopardi (“falta e vazio”), e o tédio, do qual fala Heidegger, são a prova da inexorabilidade do nosso coração, do caráter desmedido do nosso desejo – nada é capaz de nos dar satisfação e paz -; podemos esquecer, trair, enganar, mas não podemos tirar isso de nós.
Por isso o verdadeiro obstáculo ao caminho não é a nossa concreta humanidade, mas o descuido dela. Tudo em nós grita a exigência de algo que preencha o vazio. Até Nietzsche intuía isso, tanto que não pôde evitar dirigir-se ao “deus desconhecido” que faz todas as coisas: “Elevo, só, minhas mãos (...) ‘Ao Deus desconhecido’.(...) Eu quero Te conhecer, desconhecido. Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida. Tu, o incompreensível, mas meu semelhante” (1864).

O Natal é o anúncio de que esse desconhecido Mistério tornou-se uma presença familiar, sem a qual nenhum de nós poderia permanecer homem por muito tempo, findaria arrastado pela confusão, vendo decompor-se o próprio rosto, porque “somente o divino pode ‘salvar’ o homem, isto é, as dimensões verdadeiras e essenciais da figura humana e do seu destino” (D. Giussani).
O sinal mais persuasivo de que Cristo é Deus, o milagre maior com o qual todos ficavam tocados - mais ainda do que as pernas endireitadas e a cura da cegueira – era um olhar sem comparações. O sinal de que Cristo não é uma teoria ou um conjunto de regras é aquele olhar, do qual o Evangelho está repleto: o Seu modo de tratar o humano, de se relacionar com aqueles que encontrava pelo caminho. Pensemos em Zaqueu e em Madalena: não lhes pediu para mudar, abraçou-os assim como eram, na sua humanidade ferida, ensanguentada, necessitada de tudo. E a vida deles, abraçada, despertava naquele instante em toda a sua profundidade original.
Quem não desejaria ser alcançado por um semelhante olhar agora? Na realidade “não é possível permanecer no amor a si próprio sem que Cristo seja uma presença como é uma presença uma mãe para o filho. Sem que Cristo seja presença agora – agora! –, eu não me posso amar a mim agora e não te posso amar a ti agora” (D. Giussani). Seria a única forma para responder como homens do nosso tempo, razoável e criticamente, à pergunta de Dostoievsky.

Mas como sabemos que Cristo está vivo agora? Porque o Seu olhar não é um acontecimento do passado. Continua tal e qual no mundo: desde o dia da Sua ressurreição a Igreja existe só para tornar experiência a afeição de Deus, por meio de pessoas que são o Seu corpo misterioso, testemunhas hoje da história daquele olhar capaz de abraçar todo o humano.

Obrigado.

* Publicado no Corriere della Sera, 24 de dezembro de 2009

Segunda-feira, Dezembro 21, 2009

Cartas do P.e Aldo 125




Asunción, 17 de dezembro de 2009.

Caros amigos,
Milagre e graça caminham juntos. Olhem para a minha Celeste. Chegou há mais de um ano para morrer no nosso hospital. Suplicamos a Giussani e continuamos fazendo isso, para que cumpra até o fim o milagre da sua cura completa.
Mas, já é um milagre... está belíssima: trabalha, joga bola, nada. Deus é mesmo grande. Todos chegam aqui para morrer... e no meio dos 700 que já se internaram, mais de 100 voltaram para a casa... e alguns dos abandonados, hoje, estão na nossa fazenda, onde vivem juntos.
De fato “eu sou Tu que me fazes” está na origem de tudo.
Com afeto
Padre Aldo

P.S.: Anexo três fotos da minha menina Rocio, que também chegou em estado terminal. Olhem como ela está bonita. Não tem ninguém e me chama de papai. Amigos, o homem é apenas relação com o Mistério e, olhando a história dramática e ao mesmo tempo desesperada das minhas crianças, é possível tocar isso com a mão.

Quinta-feira, Dezembro 17, 2009

Mensalão...


Olha aí uma charge feita por um cara ligado à imprensa realmente livre.
Foi publicada no jornal A Cidade, de Ribeirão Preto. O nome do cara? Renato. Valeu, Renato!

Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

Por que agora?

Por César Benjamin

DEIXO de lado os insultos e as versões fantasiosas sobre os “verdadeiros motivos” do meu artigo “Os Filhos do Brasil”. Creio, porém, que devo esclarecer uma indagação legítima: “por quê?”, ou, em forma um pouco expandida, “por que agora?”. A rigor, a resposta já está no artigo, mas de forma concisa. Eu a reitero: o motivo é o filme, o contexto que o cerca e o que ele sinaliza.
Há meses a Presidência da República acompanha e participa da produção desse filme, financiado por grandes empresas que mantêm contratos com o governo federal.
Antes de finalizado, ele foi analisado por especialistas em marketing, que propuseram ajustes para torná-lo mais emotivo.
O timing do lançamento foi calculado para que ele gire pelo Brasil durante o ano eleitoral. Recursos oriundos do imposto sindical -ou seja, recolhidos por imposição do Estado- estão sendo mobilizados para comprar e distribuir gratuitamente milhares de ingressos. Reativam-se salas pelo interior do país e fala-se na montagem de cines volantes para percorrerem localidades que não têm esses espaços. O objetivo é que o filme seja visto por cerca de 5 milhões de pessoas, principalmente pobres.
Como se fosse pouco, prepara-se uma minissérie com o mesmo título para ser exibida em 2010 pela nossa maior rede de televisão que, como as demais, também recebe publicidade oficial. Desconheço que uma operação desse tipo e dessa abrangência tenha sido feita em qualquer época, em qualquer país, por qualquer governante. Ela sinaliza um salto de qualidade em um perigoso processo em curso: a concentração pessoal do poder, a calculada construção do culto à personalidade e a degradação da política em mitologia e espetáculo. Em outros contextos históricos isso deu em fascismo.
O presidente Lula sabe o que faz. Mais de uma vez declarou como ficou impressionado com o belo “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore, que narra o impacto dos primeiros filmes na mente de uma criança. “O Filho do Brasil” será a primeira -e talvez a única- oportunidade de milhões de pessoas irem a um cinema. Elas não esquecerão.
Em quase oito anos de governo, o loteamento de cargos enfraqueceu o Estado. A generalização do fisiologismo demoliu o Congresso Nacional. Não existem mais partidos. A política ficou diminuída, alienada dos grandes temas nacionais. Nesse ambiente, o presidente determinou sozinho a candidata que deverá sucedê-lo, escolhendo uma pessoa que, se eleita, será porque ele quis. Intervém na sucessão em cada Estado, indicando, abençoando e vetando. Tudo isso porque é popular. Precisa, agora, do filme.
Embalado pelas pré-estreias, anunciou que “não há mais formadores de opinião no Brasil”. Compreendi que, doravante, ele reserva para si, com exclusividade, esse papel. Os generais não ambicionaram tanto poder. A acusação mais branda que tenho recebido é a de que mudei de lado. Porém os que me acusam estão preparando uma campanha milionária para o ano que vem, baseada em cabos eleitorais remunerados e financiada por grandes grupos econômicos. Em quase todos os Estados, estarão juntos com os esquemas mais retrógrados da política brasileira. E o conteúdo de sua pregação, como o filme mostra, estará centrado no endeusamento de um líder.
Não há nada de emancipatório nisso. Perpetuar-se no poder tornou-se mais importante do que construir uma nação. Quem, afinal, mudou de lado? Aos que viram no texto uma agressão, peço desculpas. Nunca tive essa intenção. Meu artigo trata, antes de tudo, de relações humanas e é, antes de tudo, uma denúncia do círculo vicioso da extrema pobreza e da violência que oprime um sem-número de filhos do Brasil. Pois o Brasil não tem só um filho.
Reitero: o que escrevi está além da política. Recuso-me a pensar o nosso país enquadrado pela lógica da disputa eleitoral entre PT e PSDB. Mas, se quiserem privilegiar uma leitura política, que também é legítima, vejam o texto como um alerta contra a banalização do culto à personalidade com os instrumentos de poder da República. O imaginário nacional não pode ser sequestrado por ninguém, muito menos por um governante.
Alguns amigos disseram-me que, com o artigo, cometi um ato de imolação. Se isso for verdadeiro, terá sido por uma boa causa.

* Extraído da Folha de São Paulo, de 02 de dezembro de 2009.

Terça-feira, Dezembro 01, 2009

Cartas do P.e Aldo 124

Asunción, 01 de dezembro de 2009.

Caros amigos,
“EX UNO OMNIA ET OMNIA LOQUUNTUR UNUM” (de uma coisa apenas e todas as coisas falam daquela única coisa). Se aqueles que me escrevem, recebendo os meus emails de amigos, levassem a sério esta provocação da Imitação de Cristo, não se agitariam tão facilmente, preocupando-se em fazer mil precisões sobre cada frase que digo e que nasce da minha experiência.
Refiro-me, particularmente, aos psicólogos, psicoterapeutas, psicanalistas que se preocupam com o que escrevo e se angustiam em tentar me explicar a necessidade ou a importância da sua profissão. E quem colocou, alguma vez, isso em discussão? O problema, amigos, é outro: o que quer dizer, para vocês, a provocação da Imitação de Cristo? O que quer dizer, para vocês, que o homem não é e nunca será o êxito do passado, que o homem não pode ser reduzido aos seus antecedentes biológicos, hereditários, psicológicos? MAS, O HOMEM É RELAÇÃO COM O INFINITO: o que quer dizer “EU SOU TU QUE ME FAZES”?
Amigos, sobre este ponto se joga tudo e não estou disposto a voltar atrás em nem mesmo uma vírgula, porque seria negar o meu EU e tudo aquilo que, aqui, a Providência me mostra. E exatamente porque, para mim, o homem é apenas relação com o Mistério, que eu vivo comovido com o capítulo X d’O Senso Religioso. Então, uma pessoa que vive assim ama a matemática, a física, a química, a astronomia, a psicologia, a psicanálise... assim como também ama a boa cozinha, o bom vinho, e se comove diante da beleza de uma montanha ou de uma mulher. Então, também, com os doentes, se preocupa que tenham os melhores médicos, os melhores psicólogos, os melhores psiquiatras etc. Então, como é o meu caso, usa, se for necessário, também os psicofármacos etc.
Vocês entendem, agora, porque no meu hospital, vivendo de joelhos diante de cada doente, porque é Cristo, se uma pessoa tem necessidade de um especialista, não ficamos preocupados com o custo, nós lhe damos uma especialista... e vivemos de caridade? Vocês entendem porque um doente terminal, que pode morrer no dia seguinte, se precisa, recebe, ao seu lado, o fisioterapeuta para que consiga mover o dedo ou para que consiga um mínimo de bem-estar no leito? “Padre, olha... consigo mover o dedo, graças ao fiseioterapeuta. Estou contente... está melhor”. E, no dia seguinte, o paciente morre. Vocês entendem o que acontece – e acontece apenas quando o “eu sou Tu que me fazes” se torna carne cotidiana, respiro cotidiano?
Amigos, as sutilezas de vocês, as preocupações que vocês têm de especificar, esclarecer – desculpem-me – me parecem falação de quem ão leva a sério quem é e quem é o homem. Para mim, graças a tanto sofrimento, isto é mais evidente do que o sol: o homem, eu, é. “Eu sou Tu que me fazes”.
Quando alguém faz uma experiência disso, então a frase da Imitação de Cristo enche a vida, porque a pessoa só vive por aquele “UNUM”, e o contragolpe é que começa a abraçar a todos: razão e fé são irmãs.
Permitam-me dizer que, nos anos mais “desesperados”, eu também fui a um psiquiatra... mas apenas para pedir-lhe pílulas (anti-depressivos etc.), que ainda uso. Mas apenas por isso, porque no meu DNA está gravado profundamente “EU SOU TU QUE ME FAZES”. Certamente que eu vi estrelas durante o dia e não apenas durante a noite, mas Cristo venceu e continua vencendo qualquer noite que me surpreender pelo caminho.
“Tudo, tudo [entendem?] posso nAquele e somente nEle que me dá a força”.
De Giussani eu herdei esta certeza de pedra, e peço a Nossa Senhora que me ajude a levar esta certeza até o túmulo, porque, por menos do que isso, não vale a pena respirar.
Bom Natal.
P.S.: Por favor, para entenderem ainda mais, leiam na Bíblia Eclo 38, 1-14. Boa meditação, senhores experts da mente.

Cartas do P.e Aldo 123






Asunción, 01 de dezembro de 2009.

Caros amigos,
Ontem, fomos presenteados com um piano de 1860, fabricado em Berlim. Assim, agora, Irmã Sônia – artista que toca órgão, piano, harpa e é poetisa e pintora –, todo sábado à noite, com os doentes terminais que conseguem, organiza, depois da janta, um pequeno concerto.
É muito bonito: comemos juntos, escutamos o piano, a harpa e o pequeno coro. E é comovente, porque sabemos bem que, no sábado seguinte, alguém já estará no Paraíso.
Olhem a foto: vejam como são belos os meus doentes, enquanto comemos e escutamos a música do piano, que é uma jóia antiga.
Amigos, quando vivemos com a certeza de sermos feitos – “eu sou Tu que me fazes” –, mesmo que estejamos “moribundos, podemos saborear a música e a companhia.
Ciao
Padre Aldo

Cartas do P.e Aldo 122



Asunción, 30 de novembro de 2009.

Caros amigos
Impressiona-me a insistência com a qual Carrón nos chama atenção para aquilo que mais me comoveu de Giussani, quando, me abraçando no meu nada, me disse: “Você não é e nunca será o fruto do seu passado, das suas misérias, dos seus antecedentes biológicos, psicológicos, hereditários etc., porque você é relação com o infinito”. Que comoção – há vinte anos aqui – viver dramaticamente cada instante com esta certeza: “eu sou Tu que me fazes”. Não há depressão, momento difícil, obsessão, tentação, dor, acusação, ódio, morte que possa me definir, me bloquear, me paralizar. “Eu sou Tu que me fazes” não elimina nada, não me tira da lama, não elimina a dor, não me arranca a insônia, não me resolve os problemas (de outra maneira, que liberdade seria a minha?), porém ilumina a minha vida, me dá um critério, me indica um caminho, de forma que tudo se torna ocasião para experimentar o que significa “dizer Tu ao Mistério”, o que significa dizer “meu Cristo”.
Nestes dias, ficou claro que este é um juízo, é um ponto de não retorno. Alguns exemplos:
1. Com respeito aos meus filhos violentados. Olhem para este desenho. É de uma menina, violentada sistematicamente pelo “pai” de 60 anos. A mãe, de 18 anos, se sucidou há alguns anos atrás. Em casa (uma cabana), o “pai”, com outros homens, abusavam desta menina e, além de tudo, mantinha relações sexuais com animais. A menina viu e sofreu todas essas violências. Também o seu irmãozinho, que está aqui comigo. O desenho me fez sofrer muito, porque descreve o seu estado de destroçamento. Ela me deu quando eu voltei do México, dizendo-me: “Papai, tenho uma cartinha para você”. Quando, antes de dormir, eu a abri e vi este desenho, fiquei com os cabelos em pé. Depois, olhei para o verso da página e, com surpresa que me comoveu, li estas palavras: “Oi, papai Aldo. Você é o melhor pai, papai Aldo. Nunca me abandone. Eu amo você. Espero que você seja sempre assim e nunca mude. Por favor, continue sendo como é, lutando por um amanhã mais bonito. OBRIGADA POR ME PROTEGER. Obrigada. Amo você demais”. É inútil qualquer comentário. O texto é sublinhado de amarelo e verde. Uma semana depois, ela me deu outra cartinha (meus filhos gostam de me escrever, a cada vez que parto ou retorno), e surpresa: “Amo você demais e fiquei feliz porque passarei o Natal na Casinha de Belém. Proteja-me muito com o seu coração”. E, atrás da página, no lugar do monstro, havia um cavalo desenhado a lápis, sem nenhuma cor. Um passo a frente na consciência de si. O que permitiu que isto acontecesse? O nosso afeto, o meu afeto que nasce da certeza de que “eu sou Tu que me fazes agora” e que se transmite por osmose.
2. Gabriel é como o sacerdote Melquisedec da Bíblia, de quem não se conhecem as generalidades. Sabemos apenas que veio de Deus. Não tem sobrenome. Parece que tem 8 anos. De um orfanato a outro, de uma violência a outra. Chegou aqui depois de ter sido expulso, porque é violento, de todas as instituições por onde passou. Quando chegou, era impossível chegar perto dele. A sua resposta a tudo era apenas a violência. Uma coisa terrível e humanamente insuportável. Quantas vezes, olhando para ele, eu pensava na frase de Pavese: “Toda violência nasce da falta de ternura”. Mas a ternura não se inventa, não é um fator hereditário, é um fruto da consciência de que “eu sou Tu que me fazes”. E, assim, o meu relacionamento com ele se tornou, para ele, o início da mudança. vejam o que ele me escreveu debaixo da imagem de um homem-robô desenhado por ele: “Oi, Padre Aldo. Quero que você me dê o seu sobrenome, assim eu serei feliz. Amo você muitíssimo, Padre Aldo. Eu [é importante este “eu” na sua boca... ele que não tinha identidade], Gabriel, amo você com todo o meu coração”. Aqui está toda a pedagogia, toda a psicologia... melhor: aqui está a evidência da absoluta verdade daquilo que Carrón, incansavelmente, nos repete: o homem é relação com o Mistério, ou entendemos isto e fazemos experiência disto, ou nos tornaremos “velhos vazios”, que se confiam aos experts para resolver a vida.
Caros amigos, aqui, tudo grita “eu sou Tu que me fazes”, e as piores violências se tornam a possibilidade para uma vida nova, mais bela, mais humana, até mesmo para os meus bebês, todos concebidos violentamente. Mas, quando entram em contato físico com alguém em quem é evidente “eu sou Tu que me fazes”, tudo muda e o bebê sorri. Como eu gostaria que, neste Advento, cada um fizesse esta experiência de pertença.
Com afeto
Padre Aldo