quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Olhar para Cristo para compreender o sentido do viver no serviço e no dom de si

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro

Quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Gostaria hoje de terminar as minhas catequeses sobre a oração do Saltério, meditando um dos mais famosos “Salmos reais”, um Salmo que Jesus mesmo citou e que os autores do Novo Testamento retomaram e leram amplamente em referência ao Messias, a Cristo. Trata-se do Salmo 110 segundo a tradição hebraica, 109 segundo a greco-latina; um Salmo muito amado pela Igreja antiga e pelos crentes de todos os tempos. Esta oração estava, talvez, vinculada à entronização de um rei davídico; todavia, o seu sentido vai além da específica contingência do fato histórico abrindo-se a dimensões mais amplas e se tornando assim celebração do Messias vitorioso, glorificado à direita de Deus.
O Salmo começa com uma declaração solene: “Oráculo do Senhor ao meu senhor: ‘Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés’” (v. 1).
Deus mesmo entroniza o rei na glória, fazendo-o sentar à Sua direita, um sinal de honra grandiosa e de privilégio absoluto. Desta maneira, o rei é admitido à participação da senhoria divina, da qual é mediador junto do povo. Tal senhoria do rei se concretiza também na vitória sobre os adversários, que são colocados aos seus pés por Deus mesmo; a vitória sobre os inimigos é do Senhor, mas o rei é feito participante desta vitória e o seu triunfo se torna testemunho e sinal do poder divino.
A glorificação real expressa neste início do Salmo foi assumida pelo Novo Testamento como profecia messiânica; por isso, o versículo está entre os mais usados pelos autores neotestamentários, seja como citação explícita, que como alusão. Jesus  mesmo mencionou este versículo a propósito do Messias, para mostrar que o Messias é mais do que Davi, é o Senhor de Davi (cf. Mt 22, 41-45; Mc 12, 35-37; Lc 20, 41-44). E Pedro o retoma no seu discurso no Pentecostes, anunciando que, na ressurreição de Cristo, realiza-se esta entronização do rei e que, a partir de então, Cristo está à direita do Pai, participa da Senhoria de Deus sobre o mundo (cf. At 2, 29-35). É o Cristo, de fato, o Senhor entronizado, o Filho do homem sentado à direita de Deus que vem sobre as nuvens do céu, como Jesus mesmo se define durante o processo diante do Sinédrio (cf. Mt 26, 63-64; Mc 14, 61-62; cf. também Lc 22, 66-69). É Ele o verdadeiro rei que, com a ressurreição, entrou na glória à direita do Pai (cf. Rm 8, 34; Ef 2, 5; Col 3, 1; Hb 8, 1; Hb 12, 2), superior aos anjos, sentado nos céus acima de toda potência e com todos os adversários aos seus pés, até que aquela última inimiga, a morte, seja vencida definitivamente por Ele (cf. 1Cor 15, 24-26; Ef 1, 20-23; Hb 1, 3-4.13; Hb 2, 5-8; Hb 10, 12-13; 1Pd 3, 22). E se entende imediatamente que este rei está à direita de Deus e participa da Sua Senhoria, não é um desses homens sucessores de Davi, mas somente o novo Davi, o Filho de Deus que venceu a morte e participa realmente da glória de Deus. É o nosso rei, que nos dá mesmo a vida eterna.
Entre o rei celebrado pelo nosso Salmo e Deus existe, portanto, uma relação incindível; os dois governam juntos um único governo, até o ponto que o Salmista pode afirmar que é Deus mesmo que estende o cetro do soberano dando-lhe a missão de dominar sobre seus adversários, como recita o versículo 2:
“De Sião o Senhor estende o cetro do teu poder: Domina no meio de teus inimigos!”
O exercício do poder é um encargo que o rei recebe diretamente do Senhor, uma responsabilidade que deve viver na dependência e na obediência, se tornando assim sinal, no meio do povo, da presença poderosa e providente de Deus. O domínio sobre os inimigos, a glória e a vitória são dons recebidos, que fazem do soberano um mediador do triunfo divino sobre o mal. Ele domina sobre os inimigos transformando-os, os vence com o seu amor.
Por isso, no versículo seguinte, se celebra a grandeza do rei. O versículo 3, na realidade, apresenta algumas dificuldades de interpretação. No texto original hebraico faz-se referência à convocação do exército, para a qual o povo responde generosamente, colocando-se em torno do seu soberano no dia da sua coroação. A tradução grega dos LXX, que remonta ao século III ou II a.C., faz referência, pelo contrário, à filiação divina do rei, ao seu nascimento ou geração da parte do Senhor, e é esta a escolha interpretativa de toda a tradição da Igreja, de forma que o versículo soa da seguinte forma:
“Tu és príncipe desde o dia do teu nascimento, entre santos esplendores; antes da aurora, como orvalho, eu te gerei.”
Este oráculo divino sobre o rei afirmaria, portanto, uma geração divina inundada de esplendor e de mistérios, uma origem secreta e imperscrutável, ligada à beleza arcana da aurora e à maravilha do orvalho que, na luz da primeira manhã, brilha sobre os campos e os torna fecundos. Delineia-se, assim, indissoluvelmente ligada à realidade celeste, a figura do rei que vem realmente de Deus, do Messias que leva ao povo a vida divina e é mediador de santidade e de salvação. Também aqui vemos que tudo isto não é realizado pela figura de um rei davídico, mas pelo Senhor Jesus Cristo, que realmente vem de Deus; Ele é a luz que traz a vida divina para o mundo.
Com esta imagem sugestiva e enigmática termina a primeira estrofe do Salmo, que dá lugar a outro oráculo, que abre uma nova perspectiva, na linha de uma dimensão sacerdotal ligada à realeza. Recita assim o versículo 4:
“O Senhor jurou e não se arrepende: ‘Tu és sacerdote para sempre à maneira de Melquisedec’.”
Melquisedec era o sacerdote rei de Salém que havia abençoado Abraão e oferecido pão e vinho depois da vitoriosa campanha militar conduzida pelo patriarca para salvar o neto Ló das mãos dos inimigos que o haviam capturado (cf. Gn 14). Na figura de Melquisedec, poder real e sacerdotal convergem e, nesse ponto, são proclamados pelo Senhor numa declaração que promete eternidade: o rei celebrado pelo Salmo será sacerdote para sempre, mediador da presença divina no meio do seu povo, através da bênção que vem de Deus e que, na ação litúrgica, se encontra com a resposta bendita do homem.
A Carta aos Hebreus faz uma referência explícita a este versículo (cf. Hb 5, 5-6.10; Hb 6, 19-20) e sobre ele centra todo o capítulo 7, elaborando a sua reflexão sobre o sacerdócio de Cristo. Jesus, assim nos diz a Carta aos Hebreus à luz do Salmo 110 (109), Jesus é o verdadeiro e definitivo sacerdote, que leva à plena realização os traços do sacerdócio de Melquisedec tornando-os perfeitos.
Melquisedec, como diz a Carta aos Hebreus, era “sem pai, sem mãe, sem genealogia” (Hb 7, 3a), sacerdote, portanto, não segundo as regras dinásticas do sacerdócio levítico. Ele, por isso, “permanece sacerdote para sempre” (Hb 7, 3b), prefiguração de Cristo, sumo sacerdote perfeito que “foi constituído não por prescrição de uma lei humana, mas pela Sua imortalidade” (Hb 7, 16). No Senhor Jesus ressuscitado e ascendido ao céu, onde senta à direita do Pai, realiza-se a profecia do nosso Salmo e o sacerdócio de Melquisedec é levado à perfeição, porque se tornou absoluto e eterno, se tornou uma realidade que não conhece fim (cf. Hb 7, 24). E a oferta do pão e do vinho, realizada por Melquisedec nos tempos de Abraão, encontra a sua realização no gesto eucarístico de Jesus, que no pão e no vinho oferece a Si mesmo e, vencida a morte, leva todos os crentes à vida. Sacerdote perene, “santo, inocente, imaculado” (Hb 7, 26), Ele, como diz ainda a Carta aos Hebreus, pode “levar a termo a salvação daqueles que por Ele vão a Deus, porque vive sempre para interceder em seu favor” (Hb 7, 25).
Depois deste oráculo divino do versículo 4, com seu solene juramento, a cena do Salmo muda e o poeta, dirigindo-se diretamente ao rei, proclama: “O Senhor está à tua direita!” (v. 5a). Se, no versículo 1 era o rei que se assentava à direita de Deus em sinal de sumo prestígio e de honra, agora é o Senhor que Se coloca à direita do soberano para protegê-lo com o escudo na batalha e para salvá-lo de todo perigo. O rei está protegido, Deus é o seu defensor e juntos combatem e vencem todo o mal.
Desta maneira, se abrem os versículos finais do Salmo com a visão do soberano triunfante que, apoiado pelo Senhor, tendo recebido dEle poder e glória (cf. v. 2), se opõe aos inimigos, fazendo os adversários baterem em retirada, e julgando as nações. A cena é pintada com cores fortes, a fim de significar a dramaticidade do combate e a plenitude da vitória real. O soberano, protegido pelo Senhor, abate todos os obstáculos e segue seguro em direção à vitória. Diz-nos: sim, no mundo existe tanto mal, há uma batalha permanente entre o bem e o mal, e parece que o mal seja o mais forte. Não, mais forte é o Senhor, o nosso verdadeiro rei e sacerdote Cristo, porque combate com toda a força de Deus e, não obstante todas as coisas que nos fazem duvidar do êxito positivo da história, Cristo vence e o bem vence, o amor vence e não o ódio.
É aqui que se insere a sugestiva imagem com a qual o nosso Salmo se finaliza, que é também uma palavra enigmática.
“Ao longo do caminho ele bebe da torrente, por isso levantará a cabeça.” (v. 7)
No meio da descrição da batalha, se destaca a figura do rei que, num momento de trégua e de repouso, mata a sede numa torrente d’água, encontrando nele restauro e novo vigor, de forma a poder retomar o seu caminho triunfante, com a cabeça erguida, em sinal de vitória definitiva. É óbvio que esta palavra muito enigmática era um desafio para os Padres da Igreja devido às diversas interpretações que se podiam dar. Assim, por exemplo, Santo Agostinho disse: esta torrente é o ser humano, a humanidade, e Cristo bebeu desta torrente fazendo-se homem, e assim, entrando na humanidade do ser humano, levantou Sua cabeça e, agora, é a cabeça do Corpo Místico, é o nosso chefe, é o vencedor definitivo (cf.  Enarratio in Psalmum CIX, 20: PL 36, 1462).
Caros amigos, seguindo a linha interpretativa do Novo Testamento, a tradição da Igreja teve grande consideração por este Salmo como um dos textos messiânicos mais significativos. E, de modo eminente, os Padres fizeram referência contínua a ele sempre em chave cristológica: o rei cantado pelo Salmista é, definitivamente, Cristo, o Messias que instaura o Reino de Deus e vence as potências do mundo, é o Verbo gerado pelo Pai antes de toda criatura, antes da aurora, o Filho encarnado morto e ressuscitado e sentado nos céus, o sacerdote eterno que, no mistério do pão e do vinho, doa a remissão dos pecados e a reconciliação com Deus, o rei que ergue a cabeça triunfando sobre a morte com a Sua ressurreição. Bastaria recordar, uma vez mais, um trecho do comentário de Santo Agostinho a este Salmo: “Era necessário conhecer o único Filho de Deus, que estava para vir entre os homens, para assumir o homem e para se tornar homem através da natureza assumida: Ele morreu, ressuscitou, ascendeu ao céu, está sentado à direita do Pai e cumpriu entre os povos tudo o que havia prometido... Tudo isto, portanto, deveria ser profetizado, deveria ser prenunciado, deveria ser assinalado como destinado a ocorrer, para que, acontecendo de repente, não causasse medo, mas fosse prenunciado, ou mais ainda aceito com fé, alegria e espera. No âmbito destas promessas recai este Salmo, que profetiza, em termos seguros e explícitos, o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, de quem não devemos ter a menor dúvida de que nEle seja realmente  anunciado o Cristo (cf. Enarratio in Psalmum CIX, 20: PL 36, 1447).
O evento pascal de Cristo se torna assim a realidade para a qual o Salmo nos convida a olhar, olhar para Cristo para compreender o sentido da verdadeira realeza, do viver no serviço e no dom de si, num caminho de obediência e de amor levado “até o fim” (cf. Jo 13, 1 e Jo 19, 30). Rezando com este Salmo, pedimos ao Senhor, portanto, que possamos, também nós, seguir sobre Seus caminhos, no seguimento de Cristo, o rei Messias, dispostos a subir com Ele sobre o monte da cruz para chegarmos, também com Ele, à glória, e contemplá-Lo sentado à direita do Pai, rei vitorioso e sacerdote misericordioso que doa perdão e salvação a todos os homens. E também nós, tornados, por graça de Deus, “gente escolhida, sacerdócio régio, nação santa” (cf. 1Pd 2, 9), poderemos chegar com alegria às fontes da salvação (cf. Is 12, 3) e proclamar a todo o mundo as maravilhas dAquele que nos “chamou das trevas para a Sua luz maravilhosa” (cf. 1Pd 2, 9).
Caros amigos, nestas últimas Catequeses quis vos apresentar alguns Salmos, preciosas orações que encontramos na Bíblia e que refletem as várias situações da vida e os vários estados de espírito que podemos ter para com Deus. Gostaria, agora, de renovar a todos o convite a rezar com os Salmos, habituando-se talvez a usar a Liturgia das Horas da Igreja, as Laudes pela manhã, as Vésperas à tarde, as Completas antes de dormirem. O nosso relacionamento com Deus será, com isso, enriquecido no caminho cotidiano em direção a Ele, e realizado com maior alegria e confiança. Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 16 de novembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

É na família que a pessoa se abre ao mundo e à vida


Discurso do Papa Bento XVI
ao Corpo Diplomático 
acreditado junto da Santa Sé 
para a troca de bons votos de início de ano

Sala Régia
Segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Senhoras e Senhores Embaixadores,
É, para mim, sempre um grande prazer poder receber-vos, ilustres Membros do Corpo Diplomático acreditados junto da Santa Sé, neste esplêndido cenário da Sala Régia, a fim de vos formular os meus ardentes votos para o ano que inicia. Desejo, em primeiro lugar, agradecer ao vosso Decano, o Embaixador Alejandro Valladares Lanza, bem como ao Vice-Decano, o Embaixador Jean-Claude Michel, pelas palavras deferentes com que se fizeram intérpretes dos vossos sentimentos e dirijo uma saudação especial a todos os que participam pela primeira vez no nosso encontro. E os meus votos estendem-se, por vosso intermédio, a todas as nações de que sois representantes e com as quais a Santa Sé mantém relações diplomáticas. Motivo de alegria para nós é o fato de a Malásia ter se juntado a esta comunidade no decurso do último ano. O diálogo que mantendes com a Santa Sé favorece a partilha de impressões e informações, bem como a colaboração em âmbitos de caráter bilateral ou multilateral de particular interesse. A vossa presença aqui hoje recorda a importante contribuição dada pela Igreja às vossas sociedades em setores como a educação, a saúde e a assistência. Sinais da cooperação entre a Igreja Católica e os Estados são os Acordos que foram assinados, em 2011, com o Azerbaijão, Montenegro e Moçambique. O primeiro já foi ratificado; espero que em breve ocorra o mesmo com os outros dois, e cheguem a bom termo aqueles que estão em fase de negociação. De igual modo, a Santa Sé deseja estabelecer um diálogo profícuo com as Organizações internacionais e regionais; e, nesta linha, apraz-me sublinhar o fato de os países membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) terem acolhido a nomeação de um Núncio Apostólico acreditado junto da organização. Não posso deixar de mencionar que a Santa Sé reforçou a sua longa colaboração com a Organização Internacional para as Migrações ao tornar-se membro pleno da mesma, no passado mês de dezembro. Isto dá testemunho do empenho da Santa Sé e da Igreja Católica ao lado da comunidade internacional na busca de soluções adequadas para este fenômeno que se reveste de muitos aspectos, desde a proteção da dignidade das pessoas até à solicitude pelo bem comum das comunidades que os recebem e daquelas de onde provêm.
Durante o ano que terminou, encontrei-me pessoalmente com numerosos Chefes de Estado e de Governo e também com destacados representantes das vossas nações que participaram na cerimônia da Beatificação do meu bem-amado Predecessor, o Papa João Paulo II. Também por ocasião do sexagésimo aniversário da minha Ordenação Sacerdotal houve diversos representantes dos vossos países que tiveram a amabilidade de estar presentes. A todos eles e a quantos encontrei nas minhas viagens apostólicas à Croácia, San Marino, Espanha, Alemanha e Benim, renovo a minha gratidão pela delicadeza manifestada. Além disso, dirijo uma saudação especial aos países da América Latina e das Caraíbas que festejaram, em 2011, o bicentenário da sua independência. No passado dia 12 de dezembro, quiseram sublinhar a sua ligação à Igreja Católica e ao Sucessor do Príncipe dos Apóstolos com a participação de eminentes representantes da comunidade eclesial e de autoridades institucionais na solene celebração que teve lugar na Basílica de São Pedro, durante a qual dei a conhecer a minha intenção de visitar em breve o México e Cuba. Desejo, por fim, saudar o Sudão do Sul que, no passado mês de julho, se constituiu como um Estado soberano. Lamentando as tensões e confrontos que se foram sucedendo nestes últimos meses, espero que todos unam os seus esforços para que se abra finalmente um período de paz, liberdade e progresso para as populações do Sudão e do Sudão do Sul.
Senhoras e Senhores Embaixadores,
O encontro de hoje desenrola-se tradicionalmente no termo das festas do Natal, quando a Igreja celebra a vinda do Salvador. Ele vem na obscuridade da noite, e no entanto a Sua presença torna-se imediatamente fonte de luz e alegria (cf. Lc 2, 9-10). Verdadeiramente torna-se sombrio o mundo, quando não é iluminado pela luz divina! Verdadeiramente fica na escuridão o mundo, quando o homem deixa de reconhecer a sua ligação com o Criador, pondo assim em perigo também as suas relações com as outras criaturas e com a própria criação. Infelizmente, o momento atual está marcado por um profundo mal-estar, sendo uma expressão dramática disto mesmo as diversas crises econômicas, políticas e sociais.
A este respeito, não posso deixar de mencionar, antes de tudo, as graves e preocupantes consequências da crise econômica e financeira mundial. Esta não atinge só as famílias e as empresas dos países economicamente mais avançados, onde a mesma teve origem, criando uma situação na qual muitos, sobretudo entre os jovens, se sentiram desorientados e frustrados nas suas aspirações por um futuro sereno, mas tal crise marcou profundamente também a vida dos países em vias de desenvolvimento. Não devemos desanimar, mas redesenhar decididamente o nosso caminho com novas formas de compromisso. A crise pode e deve ser um incentivo para meditar sobre a existência humana e a importância da sua dimensão ética, antes mesmo de refletir sobre os mecanismos que governam a vida econômica: não só para procurar conter as perdas individuais ou das economias nacionais, mas para nos impormos novas regras que assegurem a todos a possibilidade de viver dignamente e desenvolver as suas capacidades em benefício da comunidade inteira.
Desejo ainda lembrar que os efeitos do atual momento de incerteza afetam particularmente os jovens. Do seu mal-estar nasceram os fermentos que nos últimos meses investiram, por vezes duramente, várias regiões. Refiro-me antes de mais ao Norte da África e ao Oriente Médio, onde os jovens – que, para além do mais, sofrem pobreza e desemprego e temem pela ausência de perspectivas seguras – lançaram aquilo que veio a se tornar um amplo movimento de reivindicação de reformas e de participação mais ativa na vida política e social. É difícil atualmente traçar um balanço definitivo dos recentes acontecimentos e compreender plenamente as suas consequências para os equilíbrios da região. O otimismo inicial cedeu, entretanto, o passo ao reconhecimento das dificuldades deste momento de transição e mudança, e parece-me evidente que a senda adequada para prosseguir no caminho empreendido passe pelo reconhecimento da dignidade inalienável de toda a pessoa humana e dos seus direitos fundamentais. O respeito da pessoa deve estar no centro das instituições e das leis, deve conduzir ao fim de toda e qualquer violência e prevenir contra o risco de que a atenção devida às solicitações dos cidadãos e a necessária solidariedade social se transformem em meros instrumentos para manter ou conquistar o poder. Convido a comunidade internacional a dialogar com os atores dos processos em curso, no respeito dos povos e com a consciência de que a construção de sociedades estáveis e reconciliadas, contrapostas a toda a discriminação injusta, particularmente de ordem religiosa, constitui um horizonte mais amplo e transcendente que o dos prazos eleitorais. Sinto uma grande preocupação pelas populações dos países nos quais continuam tensões e violências, particularmente na Síria, onde espero que se ponha rapidamente termo ao derramamento de sangue e comece um diálogo frutuoso entre os atores políticos, favorecido pela presença de observadores independentes. Na Terra Santa, onde as tensões entre palestinos e israelitas têm repercussões sobre os equilíbrios de todo o Oriente Médio, é preciso que os responsáveis destes dois povos adotem decisões corajosas e inteligentes a favor da paz. Soube com satisfação que, na sequência de uma iniciativa do Reino da Jordânia, foi retomado o diálogo; espero que o mesmo continue a fim de se chegar a uma paz duradoura, que garanta o direito de ambos os povos a viver em segurança em Estados soberanos e dentro de fronteiras seguras e, internacionalmente, reconhecidas. Por sua vez, a comunidade internacional deve estimular a sua criatividade e as iniciativas de promoção deste processo de paz, no respeito dos direitos de cada parte. Sigo também com grande atenção o desenrolar dos fatos no Iraque, deplorando os atentados que ainda recentemente causaram a perda de numerosas vidas humanas, e encorajo as suas autoridades a continuarem, firmes, pelo caminho de uma plena reconciliação nacional.
O Beato João Paulo II lembrava que “o caminho da paz é também o caminho dos jovens”[1], constituindo eles “a juventude das nações e das sociedades, a juventude de todas as famílias e da humanidade inteira”[2]. Por isso, os jovens nos pressionam para que sejam consideradas seriamente as suas exigências de verdade, justiça e paz. Nesta linha, foi a eles que dediquei a Mensagem anual para a celebração do Jornada Mundial da Paz, intitulada Educar os jovens para a justiça e a paz. A educação é um tema crucial para todas as gerações, pois depende dela tanto o desenvolvimento saudável de cada pessoa como o futuro da sociedade inteira. Por isso mesmo, aquela constitui uma tarefa de primária grandeza num tempo difícil e delicado. Para além de um objetivo claro, como é o de levar os jovens a um pleno conhecimento da realidade e, consequentemente, da verdade, a educação tem necessidade de lugares. Dentre estes, conta-se em primeiro lugar a família, fundada sobre o matrimônio entre um homem e uma mulher; não se trata de uma simples convenção social, mas antes da célula fundamental de toda a sociedade. Por conseguinte, as políticas que atentam contra a família ameaçam a dignidade humana e o próprio futuro da humanidade. O quadro familiar é fundamental no percurso educativo e para o próprio desenvolvimento dos indivíduos e dos Estados; consequentemente, são necessárias políticas que a valorizem e colaborem para a sua coesão social e diálogo. É na família que a pessoa se abre ao mundo e à vida e, como tive ocasião de lembrar durante a minha viagem à Croácia, “a abertura à vida é um sinal da abertura ao futuro”[3]. Neste contexto de abertura à vida, recebi com satisfação a recente sentença do Tribunal de Justiça da União Europeia, que proíbe atribuir alvarás em processos relativos às células estaminais embrionárias humanas, e também a Resolução da Assembleia parlamentar do Conselho da Europa que condena a seleção pré-natal em função do sexo.
Mais em geral, visando sobretudo o mundo ocidental, estou convencido de que se opõem à educação dos jovens e, consequentemente, ao futuro da humanidade as medidas legislativas que permitem, quando não incentivam, o aborto por motivos de conveniência ou por razões médicas discutíveis.
Continuando a nossa reflexão, um papel também essencial no desenvolvimento da pessoa é desempenhado pelas instituições educativas: estas são as primeiras instâncias que colaboram com a família e estão a cumprir mal a sua função precisamente quando falta uma harmonia de objetivos com a realidade familiar. É preciso programar políticas de formação para que a educação escolar seja acessível a todos e que a mesma, mais do que promover o desenvolvimento cognoscitivo da pessoa, cuide do crescimento harmonioso da personalidade, incluindo nisso a sua abertura ao Transcendente. A Igreja Católica sempre esteve particularmente ativa no campo das instituições escolares e acadêmicas, cumprindo uma obra apreciável ao lado das instituições estatais. Por isso espero que esta contribuição seja reconhecida e valorizada também pelas legislações nacionais.
Nesta perspectiva, é bem compreensível que uma obra educativa eficaz exija igualmente o respeito da liberdade religiosa. Esta se caracteriza por uma dimensão individual, bem como por uma dimensão coletiva e uma dimensão institucional. Trata-se do primeiro dos direitos do homem, porque expressa a realidade mais fundamental da pessoa. Muitas vezes, por variados motivos, este direito é ainda limitado ou espezinhado. Não posso evocar este tema sem começar por saudar a memória do ministro paquistanês Shahbaz Bhatti, cuja luta incansável pelos direitos das minorias terminou com uma morte trágica. E não se trata, infelizmente, de um caso único. Em numerosos países, os cristãos são privados dos direitos fundamentais e postos à margem da vida pública; noutros, sofrem ataques violentos contra as suas igrejas e as suas casas. Às vezes, vêem-se constrangidos a abandonar países que eles mesmos ajudaram a edificar, por causa de tensões contínuas e por políticas que frequentemente os relegam para a condição de espectadores secundários da vida nacional. Em outras partes do mundo, encontram-se políticas tendentes a marginalizar o papel da religião na vida social, como se ela fosse causa de intolerância em vez de uma apreciável contribuição na educação para o respeito da dignidade humana, para a justiça e a paz. O terrorismo religiosamente motivado ceifou, no ano passado, também numerosas vítimas, sobretudo na Ásia e na África. Por esta razão, como lembrei em Assis, os responsáveis religiosos devem repetir, com vigor e firmeza, que “esta não é a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição”[4]. A religião não pode ser usada como pretexto para pôr de lado as regras da justiça e do direito em favor do “bem” que ela persegue. Nesta perspectiva, tenho o gosto de recordar, como fiz no meu país natal, que a visão cristã do homem constituiu a verdadeira força inspiradora para os Pais constituintes da Alemanha, como aliás o foi para os Pais fundadores da Europa unida. Queria mencionar também alguns sinais encorajadores no campo da liberdade religiosa. Refiro-me à alteração legislativa, pela qual a personalidade jurídica pública das minorias religiosas foi reconhecida na Geórgia; penso também na sentença do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos favorável à presença do Crucifixo nas salas de aulas italianas. E, precisamente falando da Itália, desejo dirigir-lhe uma saudação particular na conclusão dos 150 anos da sua unificação política. As relações entre a Santa Sé e o Estado italiano atravessaram momentos difíceis depois da unificação. Mas, com o passar do tempo, prevaleceram a concórdia e a vontade mútua de cooperar, cada qual no seu próprio campo, para favorecer o bem comum. Espero que a Itália continue a promover uma relação equilibrada entre a Igreja e o Estado, constituindo deste modo um exemplo para o qual as outras nações possam olhar com respeito e interesse.
Quanto ao continente africano, que visitei de novo indo recentemente ao Benim, é essencial que a cooperação entre as comunidades cristãs e os Governos ajude a percorrer um caminho de justiça, paz e reconciliação, onde os membros de todas as etnias e religiões sejam respeitados. É triste constatar como está ainda distante, em vários países deste continente, tal objetivo. Penso, em particular, na recrudescência das violências que afetam a Nigéria – como o indicam os atentados perpetrados contra várias igrejas durante o período natalício –, nas sequelas da guerra civil na Costa do Marfim, na instabilidade que persiste na Região dos Grandes Lagos e na urgência humanitária nos países do Corno da África. Peço uma vez mais à comunidade internacional que ajude, com solicitude, a encontrar uma solução para a crise que há anos perdura na Somália.
Finalmente, sinto o dever de sublinhar que uma educação corretamente entendida não pode deixar de favorecer o respeito pela criação. Não podemos esquecer as graves calamidades naturais que, ao longo de 2011, afetaram várias regiões do Sudeste asiático e os desastres ecológicos como o da central nuclear de Fukushima no Japão. A salvaguarda do ambiente, a sinergia entre a luta contra a pobreza e a luta contra as alterações climáticas constituem áreas importantes para a promoção do desenvolvimento humano integral. Por isso espero que, depois da XVII sessão da Conferência dos Estados Membros da Convenção da ONU sobre as Alterações Climáticas, que recentemente terminou em Durban, a comunidade internacional se prepare para a Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável (“Rio+20”) como uma autêntica “família das nações”, ou seja, com grande sentido de solidariedade e responsabilidade para com as gerações presentes e as do futuro.
Senhoras e Senhores Embaixadores,
O nascimento do Príncipe da Paz ensina-nos que a vida não acaba no nada, que o seu destino não é a corrupção mas a imortalidade. Cristo veio para que os homens tenham a vida e a tenham em abundância (cf. Jo 10, 10). “Somente quando o futuro é certo como realidade positiva, é que se torna vivível também o presente”[5]. Animada pela certeza da fé, a Santa Sé continua a dar à Comunidade internacional o seu contributo próprio, guiada por um duplo intento que o Concílio Vaticano II – cujo cinquentenário se celebra este ano – definiu claramente: proclamar a sublime vocação do homem e a presença nele de um germe divino, e oferecer à humanidade uma cooperação sincera a fim de instaurar a fraternidade universal que a esta vocação corresponde[6]. Neste espírito, renovo a todos vós, extensivos aos membros das vossas famílias e aos vossos colaboradores, os meus votos mais cordiais para este novo ano.
Agradeço pela vossa atenção.

Notas
[1] Carta apostólica por ocasião do Ano Internacional da Juventude Dilecti amici (31 de março de 1985), 15.
[2] Ibidem, 1.
[5] Carta encíclica Spe salvi (30 de novembro de 2007), 2.
[6] Cf. Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 3.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 9 de janeiro de 2012. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

sábado, 7 de janeiro de 2012

A lei divina é fonte de vida


Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro

Quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Nas últimas catequeses meditamos sobre alguns Salmos que são exemplos dos gêneros típicos de oração: lamento, confiança, louvor. Na catequese de hoje gostaria de me dedicar ao Salmo 119 segundo a tradição hebraica, 118 segundo a greco-latina: um Salmo muito particular, único no seu gênero. Antes de mais, o é por seu comprimento: é composto, de fato, por 176 versículos divididos em 22 estrofes de oito versículos cada uma. Depois, tem a peculiaridade de ser um “acróstico alfabético”: ou seja, é construído segundo o alfabeto hebraico, que é composto por 22 letras. Cada estrofe corresponde a uma letra deste alfabeto, e com tal letra começa a primeira palavra dos oito versículos da estrofe. Trata-se de uma construção literária original e muito exigente, na qual o autor do Salmo teve que colocar em jogo toda a sua habilidade.
Mas, o que para nós é mais importante é a temática central deste Salmo: trata-se, de fato, de um imponente e solene canto sobre a Torá do Senhor, ou seja, sobre a Sua Lei, termo que, na sua acepção mais ampla e completa, é compreendido como ensinamento, instrução, direcionamento de vida; a Torá é revelação, é Palavra de Deus que interpela o homem e provoca a sua resposta de obediência confiante e de amor generoso. E é de amor pela Palavra de Deus que este Salmo é todo atravessado; ele celebra a sua beleza, a sua força salvífica, a sua capacidade de dar alegria e vida. Porque a Lei divina não é jugo pesado de escravidão, mas dom de graça que torna livres e leva à felicidade. “Nos Teus decretos me deleito; não esquecerei Tua palavra” (v. 16), afirma o Salmista; e em seguida: “Dirige-me na senda dos teus mandamentos, porque nela está minha alegria” (v. 35); e ainda: “Quanto amo a tua lei; passo o dia todo a meditá-la” (v. 97. A Lei do Senhor, a Sua Palavra, é o centro da vida do orante; nela ele encontra consolação, faz dela objeto de meditação, a conserva no seu coração: “Conservo no coração tuas promessas para não te ofender com o pecado” (v. 11), é este o segredo da felicidade do Salmista; e depois ainda: “Caluniaram-me os insolentes, de todo coração guardarei teus preceitos” (v. 69).
A fidelidade do Salmista nasce da escuta da Palavra, a ser guardada no seu interior, meditando-a e amando-a, exatamente como Maria, que “guardava, meditando-as no seu coração” as palavras que lhe eram dirigidas e os eventos maravilhosos nos quais Deus Se revelava, pedindo o seu assentimento de fé (cf. Lc 2, 19.51). E se o nosso Salmo começa nos primeiros versículos proclamando “felizes” os “que caminham na Lei do Senhor” (v. 1b) e “os que guardam os Seus ensinamentos” (v. 2a), é ainda a Virgem Maria quem leva à plena realização a perfeita figura do crente descrito pelo Salmista. É Ela, de fato, a verdadeira “feliz”, proclamada por Isabel porque “creu no cumprimento daquilo que o Senhor lhe disse” (Lc 1, 45), e é dEla e de sua fé que Jesus mesmo dá testemunho quando, à mulher que lhe havia gritado “Feliz o seio que te carregou”, responde “Mais felizes são aqueles que escutam a palavra de Deus e a põem em prática!” (Lc 11, 27-28). Certamente, Maria é feliz porque o seu seio carregou o Salvador, mas sobretudo porque acolheu o anúncio de Deus, porque foi atenta e amorosa custodiadora da Sua Palavra.
O Salmo 119 é, portanto, todo tecido ao redor desta Palavra de vida e de felicidade. Se o seu tema central é a “Palavra” e a “Lei” do Senhor, ao lado destes termos aparecem, em quase todos os versículos, sinônimos como “preceitos”, “decretos”, “mandamentos”, “ensinamentos”, “promessa”, “juízos”, e tantos verbos vinculados a estes como observar, guardar, compreender, conhecer, amar, meditar, viver. Todo o alfabeto passa através das 22 estrofes deste Salmo, e também todo o vocabulário do relacionamento confiante do crente com Deus; encontramos nele o louvor, o agradecimento, a confiança, mas também a súplica e o lamento, sempre, porém, atravessados pela certeza da graça divina e da potência da Palavra de Deus. Mesmo os versículos mais marcados pela dor e pelo senso de escuridão permanecem abertos à esperança e são permeados de fé. “Estou prostrado no chão; dá-me vida conforme tua palavra” (v. 25), reza confiante o Salmista; “Sou como um odre exposto à fumaça, mas não esqueço teus estatutos” (v. 83), é o grito do crente. A sua fidelidade, mesmo se colocada à prova, encontra força na Palavra do Senhor: “a quem me insulta, poderei responder que tenho confiança na tua palavra” (v. 42), ele afirma com firmeza; e mesmo diante da perspectiva angustiante da morte, os mandamentos do Senhor são o seu ponto de referência e a sua esperança de vitória: “Por pouco não me expulsaram deste mundo, mas não abandonei teus preceitos” (v. 87).
A lei divina, objeto do amor apaixonado do Salmista e de todo crente, é fonte de vida. O desejo de compreendê-la, de observá-la, de orientar a ela todo o próprio ser é a característica do homem justo e fiel ao Senhor, que a “medita dia e noite”, como recita o Salmo 1 (v. 2); é uma lei, a de Deus, que deve ser mantida “no coração”, como diz o bem conhecido texto do Shemá no Deuteronômio:
“Ouve, ó Israel! (...) trarás gravadas no teu coração todas estas palavras que hoje te ordeno. Tu as repetirás com insistência a teus filhos e delas falarás quando estiveres sentado em casa ou andando a caminho, quando te deitares ou te levantares” (Dt 6, 4.6-7).
Centro da existência, a Lei de Deus solicita a escuta do coração, uma escuta feita de obediência não servil, mas filial, confiante, consciente. A escuta da Palavra é encontro pessoal com o Senhor da vida, um encontro que deve se traduzir em escolhas concretas e se tornar caminho e seguimento. Quando Lhe é perguntado o que fazer para ter a vida eterna, Jesus aponta o caminho da observância da Lei, mas indicando como fazer para levá-la à realização: “Só te falta uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me” (Mc 10, 21). A realização da Lei é seguir Jesus, andar no caminho de Jesus, em companhia de Jesus. 
O Salmo 119 nos leva, portanto, ao encontro com o Senhor e nos orienta para o Evangelho. Há nele um versículo sobre o qual eu gostaria de me dedicar: é o versículo 57 – “Eu disse: Minha porção, Senhor, é guardar Tuas palavras”. Também em outros Salmos o orante afirma que o Senhor é a sua “porção”, a sua herança: “O Senhor é a minha parte da herança e meu cálice”, recita o Salmo 16 (v. 5a), “rochedo do meu coração e minha porção é Deus para sempre!” é a proclamação do fiel no Salmo 73 (v. 26b), e ainda, no Salmo 142, o Salmista grita ao Senhor: “És meu refúgio, és a minha porção na terra dos vivos” (v. 6b).
Este termo – “porção” – evoca o evento da repartição da terra prometida entre as tribos de Israel, quando aos Levitas não é dada nenhuma porção do território, porque a sua “porção” era o Senhor mesmo. Dois textos do Pentateuco são explícitos quanto a isto, utilizando o termo em questão: “O Senhor disse a Aarão: ‘Tu não terás herança na terra dos israelitas, nem haverá porção para ti em seu meio. Eu sou tua porção e tua herança no meio deles’”, assim declara o Livro dos Números (Nm 18, 20), e o Deuteronômio reitera: “Por isso Levi não tem porção nem herança com seus irmãos, porque o próprio Senhor é a sua herança, como o Senhor teu Deus lhe prometeu” (Dt 10, 9; cf. Dt 18, 2; Js 13, 33; Ez 44, 28).
Os sacerdotes, pertencentes à tribo de Levi, não podem ser proprietários de terras no país que Deus dava como herança para o seu povo, realizando a promessa feita a Abraão (cf. Gn 12, 1-7). A posse da terra, elemento fundamental de estabilidade e de possibilidade de sobrevivência, era sinal de bênção, porque implicava a possibilidade de construir uma casa, de criar os filhos, de cultivar os campos e de viver dos frutos da terra. Pois bem, os Levitas, mediadores do sagrado e da bênção divina, não podem possuir, como os outros israelitas, este sinal exterior da bênção e esta fonte de subsistência. Inteiramente doados ao Senhor, devem viver apenas dEle, abandonados ao Seu amor providente e à generosidade dos irmãos, sem ter herança porque Deus é a sua porção da herança, Deus é a sua terra, que os faz viver em plenitude.
E agora, o orante do Salmo 119 aplica a si esta realidade: “A minha porção é o Senhor”. O seu amor por Deus e pela Sua Palavra o leva à escolha radical de ter o Senhor como único bem e também de guardar as Suas palavras como dom precioso, mais valioso do que toda herança, e do que toda posse terrena. O nosso versículo, de fato, tem a possibilidade de uma dupla tradução e poderia mesmo ser lido da seguinte maneira: “A minha porção, Senhor, eu disse, é guardar as Tuas palavras”. As duas traduções não se contradizem, mas se completam: o Salmista está afirmando que a sua porção é o Senhor, mas também que guardar as palavras divinas é a sua herança, como, em seguida, dirá no versículo 111: “Minha herança para sempre são teus testemunhos, são esses a alegria do meu coração”. É esta a felicidade do Salmista: a ele, assim como para os Levitas, foi dada como porção de herança a Palavra de Deus.
Caríssimos irmãos e irmãs, estes versículos são de grande importância também hoje para todos nós. Antes de mais para os sacerdotes, chamados a viver apenas do Senhor e da Sua Palavra, sem outras seguranças, tendo Ele como único bem e única fonte de verdadeira vida. Nesta luz se compreende a livre escolha do celibato pelo Reino dos céus, que deve ser redescoberto na sua beleza e força. Mas estes versículos são importantes também para todos os fiéis, povo de Deus pertencente apenas a Ele, “reino de sacerdotes” para o Senhor (cf. 1Pd 2, 9; Ap 1, 6; Ap 5, 10), chamados à radicalidade do Evangelho, testemunhas da vida trazida pelo Cristo, novo e definitivo “Sumo Sacerdote” que se ofereceu em sacrifício para a salvação do mundo (cf. Hb 2, 17; Hb 4, 14-16; Hb 5, 5-10; Hb 9, 11ss). O Senhor e a Sua Palavra: isto é a nossa “terra”, na qual viver na comunhão e na alegria.
Deixemos, portanto, que o Senhor coloque em nosso coração este amor pela Sua Palavra, e nos conceda ter sempre no centro da nossa existência Ele e Sua santa vontade. Peçamos que a nosssa oração e toda a nossa vida sejam iluminadas pela Palavra de Deus, lâmpada para os nossos passos e luz para o nosso caminho, como diz o Salmo 119 (cf. v. 105), de forma que nosso caminhar seja seguro, na terra dos homens. E Maria, que acolheu e gerou a Palavra, seja nossa guia e nosso conforto, estrela polar que indica a via da felicidade. 
Então, também nós poderemos nos alegrar em nossa oração, como o orante do Salmo 16, com os dons inesperados do Senhor e pela imerecida herança que coube a nós:
“O Senhor é a minha porção da herança e meu cálice. Nas tuas mãos, a minha porção. Para mim a sorte caiu em lugares deliciosos, maravilhosa é minha herança” (Sl 16, 5-6).

* Extraído do site do Vaticano, do dia 9 de novembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Nossa Senhora, Mãe de Deus


Nossa Senhora, Mãe de Deus,
rogai por nós!

Graças ao seu “sim” nos foi reaberta a via da paz


Solenidade de Maria Santíssima Mãe de Deus
XLV Jornada Mundial da Paz

Bento XVI

Angelus

Praça São Pedro
Domingo, 1º de janeiro de 2012

Caros irmãos e irmãs!
Na liturgia deste primeiro dia do ano ressoa a tríplice bênção bíblica: “O Senhor te abençoe e te guarde. O Senhor faça brilhar sobre ti sua face, e se compadeça de ti. O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz” (Nm 6, 24-26). O rosto de Deus pode ser contemplado por nós, fez-se visível, revelou-se em Jesus: Ele é a imagem visível do Deus invisível. E isto graças também à Virgem Maria, da qual hoje celebramos o maior título, aquele com o qual participa de modo único da história da salvação: ser Mãe de Deus. No seu seio o Filho do Altíssimo assumiu a nossa carne, e podemos contemplar a Sua glória (cf. Jo 1, 14), sentir a Sua presença de Deus-conosco.
Iniciamos assim o novo ano 2012, fixando o olhar no Rosto de Deus que se revela no Menino de Belém, e na Sua Mãe Maria, que acolheu com humilde abandono o desígnio divino. Graças ao seu generoso “sim” surgiu no mundo a luz verdadeira que ilumina cada homem (cf. Jo 1, 9) e nos foi reaberta a via da paz.
Caros irmãos e irmãs, como já é um feliz costume, celebramos hoje a Jornada Mundial da Paz, a quadragésima quinta. Na Mensagem que dirigi aos Chefes de Estado, aos Representantes das Nações e a todos os homens de boa vontade, e que tem como tema “Educar os jovens à justiça e à paz”, quis chamar a atenção para a necessidade e a urgência de oferecer às novas gerações percursos educativos adequados para uma formação integral da pessoa, inclusive a dimensão moral e espiritual (cf. n. 3). Quis ressaltar, particularmente, a importância de educar aos valores da justiça e da paz. Os jovens, hoje, olham com certa apreensão para o futuro, manifestando aspectos da sua vida que merecem atenção, como “o desejo de receber uma formação que os prepare de modo mais profundo para enfrentar a realidade, a dificuldade de formar uma família e encontrar um lugar estável de trabalho, a efetiva capacidade de contribuir com o mundo da política, da cultura e da economia para  a construção de uma sociedade com rosto mais humano e solidário” (n. 1). Convido a todos a ter a paciência e a constância de buscar a justiça e a paz, de cultivar o gosto pelo que é reto e verdadeiro (n. 5). A paz nunca é um bem alcançado plenamente, mas uma meta a que devemos aspirar e para a realização da qual todos devemos agir.
Rezemos para que, não obstante as dificuldades que às vezes tornam o caminho árduo, esta profunda aspiração se traduza em gestos concretos de reconciliação, de justiça e de paz. Rezemos também para que os responsáveis das Nações renovem a disponibilidade e o compromisso para acolher e favorecer este irreprimível anseio da humanidade. Confiamos estes auspícios à intercessão da Mãe do “Rei da Paz”, para que o ano que começa seja um tempo de esperança e de pacífica convivência no mundo inteiro.

Extraído do site do Vaticano, do dia 1 de janeiro de 2012. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.