Mostrando postagens com marcador misericórdia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador misericórdia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Comentário ao Evangelho do dia - Tríduo Pascal


Sexta-feira da Paixão do Senhor
     
1ª Leitura - Is 52,13 - 53,12
Ei-lo, o meu Servo será bem sucedido; Sua ascensão será ao mais alto grau. Assim como muitos ficaram pasmados ao vê-Lo - tão desfigurado Ele estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano -, do mesmo modo Ele espalhará sua fama entre os povos. Diante dEle os reis se manterão em silêncio, vendo algo que nunca lhes foi narrado e conhecendo coisas que jamais ouviram. "Quem de nós deu crédito ao que ouvimos? E a quem foi dado reconhecer a força do Senhor? Diante do Senhor Ele cresceu como renovo de planta ou como raiz em terra seca. Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por Ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso dEle. A verdade é que Ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, Ele mesmo, nossas dores; e nós pensávamos fosse um chagado, golpeado por Deus e humilhado! Mas ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes; a punição a Ele imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas, o preço da nossa cura. Todos nós vagávamos como ovelhas desgarradas, cada qual seguindo seu caminho; e o Senhor fez recair sobre ele o pecado de todos nós". Foi maltratado, e submeteu-Se, não abriu a boca; como cordeiro levado ao matadouro ou como ovelha diante dos que a tosquiam, Ele não abriu a boca. Foi atormentado pela angústia e foi condenado. Quem se preocuparia com Sua história de origem? Ele foi eliminado do mundo dos vivos; e por causa do pecado do meu povo foi golpeado até morrer. Deram-Lhe sepultura entre ímpios, um túmulo entre os ricos, porque Ele não praticou o mal nem se encontrou falsidade em Suas palavras. O Senhor quis macerá-Lo com sofrimentos. Oferecendo Sua vida em expiação, Ele terá descendência duradoura, e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor. Por esta vida de sofrimento, alcançará luz e uma ciência perfeita. Meu Servo, o justo, fará justos inúmeros homens, carregando sobre Si suas culpas. Por isso, compartilharei com Ele multidões e Ele repartirá Suas riquezas com os valentes seguidores, pois entregou o corpo à morte, sendo contado como um malfeitor; Ele, na verdade, resgatava o pecado de todos e intercedia em favor dos pecadores.

Salmo - Sl 30
R. Ó Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito.

Senhor, eu ponho em vós minha esperança;*
que eu não fique envergonhado eternamente!
Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito,*
porque vós me salvareis, ó Deus fiel! R.

Tornei-me o opróbrio do inimigo,*
o desprezo e zombaria dos vizinhos,
e objeto de pavor para os amigos;*
fogem de mim os que me veem pela rua.
Os corações me esqueceram como um morto,*
e tornei-me como um vaso espedaçado. R.

A Vós, porém, ó meu Senhor, eu me confio,*
e afirmo que só Vós sois o meu Deus!
Eu entrego em Vossas mãos o meu destino;*
libertai-me do inimigo e do opressor! R.

Mostrai serena a Vossa face ao Vosso servo,*
e salvai-me pela Vossa compaixão!
Fortalecei os corações, tende coragem,*
todos vós que ao Senhor vos confiais! R

2ª Leitura - Hb 4,14-16; 5,7-9
Irmãos, temos um sumo sacerdote eminente, que entrou no céu, Jesus, o Filho de Deus. Por isso, permaneçamos firmes na fé que professamos. Com efeito, temos um sumo sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois Ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado. Aproximemo-nos então, com toda a confiança, do trono da graça, para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de um auxílio no momento oportuno. Cristo, nos dias de Sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, Àquele que era capaz de salvá-Lo da morte. E foi atendido, por causa de Sua entrega a Deus. Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que Ele sofreu. Mas, na consumação de Sua vida, tornou-Se causa de salvação eterna para todos os que Lhe obedecem.

Evangelho - Jo 18,1-19,42
Naquele tempo, Jesus saiu com os discípulos para o outro lado da torrente do Cedron. Havia aí um jardim, onde Ele entrou com os discípulos. Também Judas, o traidor, conhecia o lugar, porque Jesus costumava reunir-Se aí com os Seus discípulos. Judas levou consigo um destacamento de soldados e alguns guardas dos sumos sacerdotes e fariseus, e chegou ali com lanternas, tochas e armas. Então Jesus, consciente de tudo o que ia acontecer, saiu ao encontro deles e disse: "A quem procurais?". Responderam: "A Jesus, o nazareno". Ele disse: "Sou eu". Judas, o traidor, estava junto com eles. Quando Jesus disse: "Sou eu", eles recuaram e caíram por terra. De novo lhes perguntou: "A quem procurais?". Eles responderam: "A Jesus, o nazareno". Jesus respondeu: "Já vos disse que sou eu. Se é a mim que procurais, então deixai que estes se retirem". Assim se realizava a palavra que Jesus tinha dito: "Não perdi nenhum daqueles que me confiaste". Simão Pedro, que trazia uma espada consigo, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O nome do servo era Malco. Então Jesus disse a Pedro: "Guarda a tua espada na bainha. Não vou beber o cálice que o Pai me deu?". Então, os soldados, o comandante e os guardas dos judeus prenderam Jesus e O amarraram. Conduziram-nO primeiro a Anás, que era o sogro de Caifás, o sumo sacerdote naquele ano. Foi Caifás que deu aos judeus o conselho: "É preferível que um só morra pelo povo". Simão Pedro e um outro discípulo seguiam Jesus. Esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio do sumo sacerdote. Pedro ficou fora, perto da porta. Então o outro discípulo, que era conhecido do sumo sacerdote, saiu, conversou com a encarregada da porta e levou Pedro para dentro. A criada que guardava a porta disse a Pedro: "Não pertences também tu aos discípulos desse homem?". Ele respondeu: "Não". Os empregados e os guardas fizeram uma fogueira e estavam-se aquecendo, pois fazia frio. Pedro ficou com eles, aquecendo-se. Entretanto, o sumo sacerdote interrogou Jesus a respeito de seus discípulos e de seu ensinamento. Jesus lhe respondeu: "Eu falei às claras ao mundo. Ensinei sempre na sinagoga e no Templo, onde todos os judeus se reúnem. Nada falei às escondidas. Por que me interrogas? Pergunta aos que ouviram o que  falei; eles sabem o que eu disse". Quando Jesus falou isso, um dos guardas que ali estava deu-lhe uma bofetada, dizendo: "É assim que respondes ao sumo sacerdote?". Respondeu-lhe Jesus: "Se respondi mal, mostra em quê; mas, se falei bem, por que me bates?". Então, Anás enviou Jesus amarrado para Caifás, o sumo sacerdote. Simão Pedro continuava lá, em pé, aquecendo-se. Disseram-lhe: "Não és tu, também, um dos discípulos dele?". Pedro negou: "Não!". Então um dos empregados do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro tinha cortado a orelha, disse: "Será que não te vi no jardim com ele?". Novamente Pedro negou. E na mesma hora, o galo cantou. De Caifás, levaram Jesus ao palácio do governador. Era de manhã cedo. Eles mesmos não entraram no palácio, para não ficarem impuros e poderem comer a páscoa. Então Pilatos saiu ao encontro deles e disse: "Que acusação apresentais contra este homem?". Eles responderam: "Se não fosse malfeitor, não o teríamos entregue a ti!". Pilatos disse: "Tomai-o vós mesmos e julgai-o de acordo com a vossa lei". Os judeus lhe responderam: "Nós não podemos condenar ninguém à morte". Assim se realizava o que Jesus tinha dito, significando de que morte havia de morrer. Então Pilatos entrou de novo no palácio, chamou Jesus e perguntou-lhe: "Tu és o rei dos judeus?". Jesus respondeu: "Estás dizendo isto por ti mesmo, ou outros te disseram isto de mim?". Pilatos falou: "Por acaso, sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?". Jesus respondeu: "O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui". Pilatos disse a Jesus: "Então tu és rei?". Jesus respondeu: "Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz". Pilatos disse a Jesus: "O que é a verdade?". Ao dizer isso, Pilatos saiu ao encontro dos judeus, e disse-lhes: "Eu não encontro nenhuma culpa nele. Mas existe entre vós um costume, que pela Páscoa eu vos solte um preso. Quereis que vos solte o rei dos Judeus?". Então, começaram a gritar de novo: "Este não, mas Barrabás!". Barrabás era um bandido. Então Pilatos mandou flagelar Jesus. Os soldados teceram uma coroa de espinhos e colocaram-na na cabeça de Jesus. Vestiram-nO com um manto vermelho, aproximavam-se dEle e diziam: "Viva o rei dos judeus!". E davam-Lhe bofetadas. Pilatos saíu de novo e disse aos judeus: "Olhai, eu O trago aqui fora, diante de vós, para que saibais que não encontro nEle crime algum". Então Jesus veio para fora, trazendo a coroa de espinhos e o manto vermelho. Pilatos disse-lhes: "Eis o homem!". Quando viram Jesus, os sumos sacerdotes e os guardas começaram a gritar: "Crucifica-O! Crucifica-O!". Pilatos respondeu: "Levai-O vós mesmos para O crucificar, pois eu não encontro nEle crime algum". Os judeus responderam: "Nós temos uma Lei, e, segundo esta Lei, Ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus". Ao ouvir estas palavras, Pilatos ficou com mais medo ainda. Entrou outra vez no palácio e perguntou a Jesus: "De onde és Tu?". Jesus ficou calado. Então Pilatos disse: "Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para Te soltar e autoridade para Te crucificar?". Jesus respondeu: "Tu não terias autoridade alguma sobre mim, se ela não te fosse dada do alto. Quem me entregou a ti, portanto, tem culpa maior". Por causa disso, Pilatos procurava soltar Jesus. Mas os judeus gritavam: "Se soltas este homem, não és amigo de César. Todo aquele que se faz rei, declara-se contra César". Ouvindo estas palavras, Pilatos trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar chamado "Pavimento", em hebraico "Gábata". Era o dia da preparação da Páscoa, por volta do meio-dia. Pilatos disse aos judeus: "Eis o vosso rei!". Eles, porém, gritavam: "Fora! Fora! Crucifica-o!". Pilatos disse: "Hei de crucificar o vosso rei?". Os sumos sacerdotes responderam: "Não temos outro rei senão César". Então Pilatos entregou Jesus para ser crucificado, e eles O levaram. Jesus tomou a cruz sobre Si e saiu para o lugar chamado "Calvário", em hebraico "Gólgota". Ali O crucificaram, com outros dois: um de cada lado, e Jesus no meio. Pilatos mandou ainda escrever um letreiro e colocá-lo na cruz; nele estava escrito: "Jesus o Nazareno, o Rei dos Judeus". Muitos judeus puderam ver o letreiro, porque o lugar em que Jesus foi crucificado ficava perto da cidade. O letreiro estava escrito em hebraico, latim e grego. Então os sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: "Não escrevas 'O Rei dos Judeus', mas sim o que Ele disse: 'Eu sou o Rei dos judeus'". Pilatos respondeu: "O que escrevi, está escrito". Depois que crucificaram Jesus, os soldados repartiram a Sua roupa em quatro partes, uma parte para cada soldado. Quanto à túnica, esta era tecida sem costura, em peça única de alto a baixo. Disseram então entre si: "Não vamos dividir a túnica. Tiremos a sorte para ver de quem será". Assim se cumpria a Escritura que diz: "Repartiram entre si as minhas vestes e lançaram sorte sobre a minha túnica". Assim procederam os soldados. Perto da cruz de Jesus, estavam de pé a sua mãe, a irmã da sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que Ele amava, disse à mãe: "Mulher, este é o teu filho". Depois disse ao discípulo: "Esta é a tua mãe". Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo. Depois disso, Jesus, sabendo que tudo estava consumado, e para que a Escritura se cumprisse até o fim, disse: "Tenho sede". Havia ali uma jarra cheia de vinagre. Amarraram numa vara uma esponja embebida de vinagre e levaram-na à boca de Jesus. Ele tomou o vinagre e disse: "Tudo está consumado". E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. Era o dia da preparação para a Páscoa. Os judeus queriam evitar que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque aquele sábado era dia de festa solene. Então pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas aos crucificados e os tirasse da cruz. Os soldados foram e quebraram as pernas de um e depois do outro que foram crucificados com Jesus. Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava morto, não Lhe quebraram as pernas; mas um soldado abriu-Lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que viu, dá testemunho e seu testemunho é verdadeiro; e ele sabe que fala a verdade, para que vós também acrediteis. Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura, que diz: "Não quebrarão nenhum dos seus ossos". E outra Escritura ainda diz: "Olharão para aquele que transpassaram". Depois disso, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus - mas às escondidas, por medo dos judeus - pediu a Pilatos para tirar o corpo de Jesus. Pilatos consentiu. Então José veio tirar o corpo de Jesus. Chegou também Nicodemos, o mesmo que antes tinha ido a Jesus de noite. Trouxe uns trinta quilos de perfume feito de mirra e aloés. Então tomaram o corpo de Jesus e envolveram-nO, com os aromas, em faixas de linho, como os judeus costumam sepultar. No lugar onde Jesus foi crucificado, havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado. Por causa da preparação da Páscoa, e como o túmulo estava perto, foi ali que colocaram Jesus.

Comentário feito por Salviano de Marselha (c. 400-c. 480)
presbítero 

O amor de Deus por nós é bem maior que o de um pai. É isso que comprovam as palavras do Salvador no Evangelho: "Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o Seu Filho Unigênito" (Jo 3,16). E o apóstolo Paulo também refere: "Ele, que nem sequer poupou o Seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós, como não havia de nos oferecer tudo juntamente com Ele?" (Rm 8,32). Por isso nos ama Deus mais do que um pai ama o seu filho. É evidente que Deus nos estima para além da afeição paternal: por nós, não poupou o Seu Filho ─ e que Filho! Esse Filho justo, este Filho único, este Filho que é Deus. Poder-se-á dizer mais? Sim! Foi por nós, quer dizer, pelos maus, pelos culpados, que Ele não O poupou. [...] Por isso o apóstolo Paulo, para nos advertir, em certa medida, da imensidade da misericórdia de Deus, exprime-se assim: "De fato, quando ainda éramos fracos é que Cristo morreu pelos ímpios. Dificilmente alguém morrerá por um justo" (Rm 5,6-7). Com golpe certeiro, basta esta passagem para ele nos mostrar o amor de Deus. Porque, se dificilmente alguém morreria por um grande justo, Cristo provou-nos ser superior, morrendo pelos culpados que nós somos. Mas por que o Senhor agiu assim? O apóstolo Paulo explica-no-lo imediatamente pelo que se segue: "mas é assim que Deus demonstra o Seu amor para conosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós. E, agora que fomos justificados pelo Seu sangue, com muito mais razão havemos de ser salvos da ira, por meio dele" (v. 8-9). A prova que Ele nos deu foi o ter morrido pelos culpados: uma mercê tem mais valor quando é feita a indignos. [...] Porque, se Ele a tivesse concedido a santos e a homens de mérito não teria demonstrado que é Aquele que dá o que não deveria ser dado ─ teria demonstrado ser Aquele que não faz mais do que render o que é devido. Que Lhe retribuiremos, então, por tudo isto?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A Quaresma com os santos

A purificação espiritual por meio do jejum e da misericórdia

Dos Sermões de São Leão Magno, papa (Séc. V)
(Sermo 6 de Quadragesima, 1-2: PL 54,285-287)

Em todo tempo, amados filhos, a terra está repleta da misericórdia do Senhor (SI 32,5). A própria natureza é para todo fiel uma lição que o ensina a louvar a Deus, pois o céu, a terra, o mar e tudo o que neles existe proclamam a bondade e a onipotência de seu Criador; e a admirável beleza dos elementos postos a nosso serviço requer da criatura racional uma justa ação de graças. O retorno, porém, desses dias que os mistérios da salvação humana marcaram de modo mais especial e que precedem imediatamente a festa da Páscoa, exige que nos preparemos com maior cuidado por meio de uma purificação espiritual. Na verdade, é próprio da solenidade pascal que a Igreja inteira se alegre com o perdão dos pecados. Não é apenas nos que renascem pelo santo batismo que ele se realiza, mas também naqueles que desde há muito são contados entre os filhos adotivos. É, sem dúvida, o banho da regeneração que nos torna criaturas novas; mas todos têm necessidade de se renovar a cada dia para evitarmos a ferrugem inerente à nossa condição mortal, e não há ninguém que não deva se esforçar para progredir no caminho da perfeição; por isso, todos sem exceção, devemos empenhar-nos para que, no dia da redenção, pessoa alguma seja ainda encontrada nos vícios do passado. Por conseguinte, amados filhos, aquilo que cada cristão deve praticar em todo tempo, deve praticá-lo agora com maior zelo e piedade, para cumprir a prescrição, que remonta aos apóstolos, de jejuar quarenta dias, não somente reduzindo os alimentos, mas sobretudo abstendo-se do pecado. A estes santos e razoáveis jejuns, nada virá juntar-se com maior proveito do que as esmolas. Sob o nome de obras de misericórdia, incluem-se muitas e louváveis ações de bondade; graças a elas, todos os fiéis podem manifestar igualmente os seus sentimentos, por mais diversos que sejam os recursos de cada um. Se verdadeiramente amamos a Deus e ao próximo, nenhum obstáculo impedirá nossa boa vontade. Quando os anjos cantaram: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14), proclamavam bem-aventurado, não só pela virtude da benevolência mas também pelo dom da paz, todo aquele que, por amor, se compadece do sofrimento alheio. São inúmeras as obras de misericórdia, o que permite aos verdadeiros cristãos tomar parte na distribuição de esmolas, sejam eles ricos, possuidores de grandes bens, ou pobres, sem muitos recursos. Apesar de nem todos poderem ser iguais na possibilidade de dar, todos podem sê-lo na boa vontade que manifestam.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A memória se torna força da esperança


Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro

Quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Hoje, gostaria de meditar convosco um Salmo que resume toda a história da salvação de que o Antigo Testamento nos dá testemunho. Trata-se de um grande hino de louvor que celebra o Senhor nas múltiplas, repetidas manifestações da Sua bondade ao longo da história dos homens; é o Salmo 136 – ou 135 segundo a tradição greco-latina.
Oração solene de ação de graças, conhecido como o “Grande Hallel”, este Salmo é tradicionalmente cantado ao final da ceia pascal hebraica e, provavelmente, foi rezado também por Jesus na última Páscoa celebrada com os discípulos; a ele, de fato, parece se referir a anotação dos Evangelistas: “Depois de ter cantado o hino, saíram para o monte das Oliveiras” (cf. Mt 26, 30; Mc 14, 26). O horizonte do louvor ilumina assim a difícil estrada do Gólgota. Todo o Salmo 136 se desenrola em forma de uma litania, marcada pela repetição antifonal “porque eterno é Seu amor”. Ao longo da composição, são enumerados os muitos prodígios de Deus na história dos homens e Suas contínuas intervenções em favor de Seu povo; e a cada proclamação da ação salvífica do Senhor a antífona responde com a motivação fundamental do louvor: o amor eterno de Deus, um amor que, segundo o termo hebraico utilizado, implica fidelidade, misericórdia, bondade, graça, ternura. É este o motivo unificante de todo o Salmo, repetido de forma sempre igual, enquanto mudam as suas manifestações pontuais e paradigmáticas: a criação, a libertação do êxodo, o dom da terra, a ajuda providente e constante do Senhor para com Seu povo e cada criatura.
Depois de um tríplice convite à ação de graças ao Deus soberano (vv. 1-3), celebra-se o Senhor como Aquele que realiza “maravilhosos prodígios” (v. 4), o primeiro dos quais é a criação: o céu, a terra, os astros (vv. 5-9). O mundo criado não é um simples cenário sobre o qual se insere a ação salvífica de Deus, mas é o início mesmo daquela ação maravilhosa. Com a criação, o Senhor se manifesta em toda a Sua bondade e beleza, compromete-se com a vida, revelando uma vontade de bem da qual brota cada um dos atos de salvação. E no nosso Salmo, ecoando o primeiro capítulo do Gênesis, o mundo criado é sintetizado no seus elementos principais, insistindo particularmente nos astros, no sol, na lua, nas estrelas, criaturas magníficas que governam o dia e a noite. Não se fala aqui da criação do ser humano, mas ele está sempre presente; o sol e a lua são para ele – para o homem – para marcar o tempo do homem, colocando-o em relação com o Criador, sobretudo através das indicações dos tempos litúrgicos.
E é exatamente a festa da Páscoa que é evocada logo depois, quando, passando para a manifestação de Deus na história, começa-se evocando o grande evento da libertação da escravidão egípcia, do êxodo, traçado a partir de seus elementos mais significativos: a libertação do Egito com a chaga dos primogênitos egípcios, a saída do Egito, a passagem pelo Mar Vermelho, o caminho no deserto até a entrada na terra prometida (vv. 10-20). Estamos no momento originário da história de Israel. Deus interveio com poder para levar o Seu povo para a liberdade; através de Moisés, Seu enviado, impôs-Se ao faraó revelando-Se em toda a Sua grandeza e, finalmente, dobrou a resistência dos egípcios com o terrível flagelo da morte dos primogênitos. Assim, Israel pôde deixar o país da escravidão, com o ouro de seus opressores (cf. Ex 12, 35-36), “com as mãos levantadas” (Ex 14, 8), no sinal exultante da vitória. Também no Mar Vermelho o Senhor agiu com potência misericordiosa. Diante de um Israel assustado com a vista dos egípcios que o perseguiam, a ponto de lamentar haver deixado o Egito (cf. Ex 14, 10-12), Deus, como diz o nosso Salmo, “dividiu em dois o mar Vermelho [...], fez passar Israel pelo meio dele [...], precipitou no mar Vermelho o faraó e seu exército” (vv. 13-15). A imagem do Mar Vermelho “dividido” em dois parece evocar a ideia do mar como um grande monstro que é cortado em dois pedaços e, assim, tornado inofensivo. O poder do Senhor vence o perigo das forças das natureza e daqueles militares: o mar, que parece impedir o caminho do povo de Deus, deixa Israel passar de pés enxutos e, em seguida, se derrama sobre os egípcios derrubando-os. “A mão poderosa e o braço forte” (cf. Dt 5, 15; Dt 7, 19; Dt 26, 8) se mostram, dessa maneira, em toda a sua força salvífica: o opressor injusto foi vencido, engolido pelas águas, enquanto que o povo de Deus “passa pelo meio” para continuar o seu caminho em direção à liberdade. 
Neste ponto, o nosso Salmo faz referência a este caminho, com uma frase brevíssima, recordando a longa peregrinação de Israel para a terra prometida: “conduziu Seu povo através do deserto, porque eterno é Seu amor” (v. 16). Estas poucas palavras encerram uma experiência de quarenta anos, um tempo decisivo para Israel que, deixando-se guiar pelo Senhor, aprende a viver de fé, na obediência e na docilidade à lei de Deus. São anos difíceis, marcados pela dureza da vida no deserto, mas também anos felizes, de confiança no Senhor, de confiança filial; é o tempo da “juventude”, como é definido pelo profeta Jeremias, falando a Israel, em nome do Senhor, com expressões cheias de ternura e de nostalgia: “Lembro-me de tua afeição quando eras jovem, de teu amor de noivado, no tempo em que me seguias ao deserto, à terra sem sementeiras” (Jr 2, 2). O Senhor, como o pastor do Salmo 23 que contemplamos numa de nossas catequeses, por quarenta anos guiou o Seu povo, o educou e amou, conduzindo-o até a terra prometida, vencendo mesmo as resistências e a hostilidade de povos inimigos que querias impedir o seu caminho de salvação (cf. vv. 17-20).
No desenrolar-se das “grandes maravilhas” que o nosso Salmo enumera, chega-se assim ao momento do dom final, a realização da promessa divina feita aos Pais: “e deu a terra deles em herança, porque eterno é Seu amor; como patrimônio de Israel, Seu servo, porque eterno é Seu amor” (vv. 21-22). Na celebração do amor eterno do Senhor, nesse momento se faz memória do dom da terra, um dom que o povo deve receber sem nunca se apossar dela, vivendo continuamente numa postura de acolhida reconhecida e grata. Israel recebe o território no qual poderá habitar como “herança”, um termo que designa de modo genérico a posse de um bem recebido de outro, um direito de propriedade que, de modo específico, faz referência ao patrimônio paterno. Uma das prerrogativas de Deus é de “doar”; e agora, no fim do caminho do êxodo, Israel, destinatário do dom, como um filho, entra no país da promessa realizada. É terminado o tempo do nomadismo, sob tendas, numa vida marcada pela precariedade. Agora tem início o tempo feliz da estabilidade, da alegria de construir as casas, de plantar as vinhas, de viver na segurança (cf. Dt 8, 7-13). Mas é também o tempo da tentação da idolatria, da contaminação com os pagãos, da autosuficiência que faz esquecer a Origem do dom. Por isso, o Salmista menciona a humilhação e os inimigos, uma realidade de morte na qual o Senhor, uma vez mais, Se revela como Salvador: “Em nossa humilhação Ele se lembrou de nós, porque eterno é Seu amor; e nos livrou de nossos inimigos, porque eterno é Seu amor” (vv. 23-24).
Neste ponto nasce a pergunta: como podemos fazer deste Salmo uma oração nossa? Como podemos nos apropriar, para a nossa oração, deste Salmo? O importante é o contexto do Salmo, apresentado no início e no fim: a criação. Retornaremos sobre este ponto: a criação, como o grande dom de Deus do qual vivemos, no qual Ele se revela na Sua bondade e grandeza. Portanto, ter presente a criação como dom de Deus é um ponto comum para todos nós. Depois, segue a história da salvação. Naturalmente, podemos dizer: esta libertação do Egito, o tempo no deserto, a entrada na Terra Santa e depois todos os outros problemas, estão muito distantes de nós, não são a nossa história. Mas temos que ficar atentos à estrutura fundamental desta oração. A estrutura fundamental é que Israel se recorda da bondade do Senhor. Nesta história há tantos vales tenebrosos, há tantas passagens de dificuldade e de morte, mas Israel se recorda que Deus era bom e que pode sobreviver neste vale tenebroso, neste vale de morte, porque se recorda. Há a memória da bondade do Senhor, do Seu poder; a Sua misericórdia vale para sempre. E isto é importante também para nós: ter uma memória da bondade do Senhor. A memória se torna força da esperança. A memória nos diz: Deus existe, Deus é bom, eterna é a Sua misericórdia. E assim a memória abre, mesmo na obscuridade de um dia, de um tempo, o caminho para o futuro: é luz e estrela que nos guia. Também nós temos uma memória do bem, do amor misericordioso, eterno de Deus. A história de Israel é uma memória também para nós, como Deus se mostrou, criou um povo para Si. Depois, Deus se fez homem, um de nós: viveu conosco, sofreu conosco, morreu por nós. Permanece conosco no Sacramento e na Palavra. É uma história, uma memória da bondade de Deus que nos assegura a Sua bondade: o Seu amor é eterno. E também, mesmo nestes dois mil anos da história da Igreja, sempre há, uma vez mais, a bondade do Senhor. Depois do período obscuro da perseguição nazista e comunista, Deus nos libertou, mostrou que é bom, que tem força, que a Sua misericórdia vale para sempre. E, como na história comum, coletiva, está presente esta memória da bondade de Deus, que nos ajuda, se torna estrela da esperança para nós, assim também cada um de nós tem a sua história pessoal de salvação, e temos realmente que estimar esta história, ter sempre presente a memória das grandes coisas que fez também na minha vida, para ter confiança: a Sua misericórdia é eterna. E se hoje eu estou na noite escura, amanhã Ele me liberta porque eterno é Seu amor.
Voltemos ao Salmo, porque, no fim, ele retorna à criação. O Senho – é assim que diz – “dá alimento a todos os seres vivos, porque eterno é Seu amor” (v. 25). A oração do Salmo se conclui com um convite ao louvor: “Louvai o Deus do céu, porque eterno é Seu amor”. O Senhor é Pai bom e providente, que dá a herança aos Seus filhos e concede a todos o alimento para viver. O Deus que criou os céus e a terra e as grandes luzes celestes, que entra na história dos homens para levar à salvação todos os Seus filhos é o Deus que enche o universo com a Sua presença de bem, cuidando da vida e dando o pão. A invisível potência do Criador e Senhor cantada no Salmo se revela na pequena visibilidade do pão que nos dá, com o qual nos faz viver. E assim este pão cotidiano simboliza e sintetiza o amor de Deus como Pai, e nos abre para a realização neotestamentária, para aquele “pão da vida”, a Eucaristia, que nos acompanha na nossa existência de crentes, antecipando a alegria definitiva do banquete messiânico no Céu.
Irmãos e irmãs, o louvor bendito do Salmo 136 nos fez repercorrer as etapas mais importantes da história da salvação, até chegar ao mistério pascal, no qual a ação salvífica de Deus chega ao seu ponto alto. Com alegria cheia de reconhecimento celebremos portanto o Criador, Salvador e Pai fiel, que “de tal modo amou o mundo, que lhe deu Seu Filho unigênito, para que todo o que nEle crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). Na plenitude dos tempos, o Filho de Deus se faz homem para dar a vida, para a salvação de cada um de nós, e Se dá como pão no mistério eucarístico para fazer-nos entrar na Sua aliança que nos torna filhos. Para isso, alcança-nos a bondade misericordiosa de Deus e a sublimidade do Seu “amor eterno”.
Quero, por isso, concluir esta catequese fazendo minhas as palavras que São João escreve na sua Primeira Carta e que devemos sempre ter presentes na nossa oração: “Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato” (1Jo 3, 1). Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 19 de outubro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Comentário ao Evangelho do dia - Advento


3ª Semana do Advento - Quinta-feira

1ª Leitura - Is 54, 1-10
Alegra-te, ó estéril, que nunca foste mãe, exulta e regozija-te, tu que nunca deste à luz; os filhos da mulher abandonada são mais numerosos do que os filhos da bem-casada, diz o Senhor. Alarga o espaço de tua tenda e distende bastante as peles das tuas barracas; usa cordas bem longas e finca as estacas com segurança. Farás expansão para um lado e para outro e tua posteridade receberá em herança as nações que povoarão cidades abandonadas. Não tenhas medo, pois não sofrerás afronta alguma; nem te perturbes, pois não tens de que te envergonhar; esquecerás a vergonha sofrida na juventude e não te recordarás mais da humilhação da viuvez. Teu esposo é aquele que te criou, seu nome é Senhor dos exércitos; teu redentor, o Santo de Israel, chama-se Deus de toda a terra. O Senhor te chamou, como a mulher abandonada e de alma aflita; como a esposa repudiada na mocidade, falou o teu Deus. Por um breve instante eu te abandonei, mas com imensa compaixão volto a acolher-te. Num momento de indignação, por um pouco ocultei de ti minha face, mas com misericórdia eterna compadeci-me de ti, diz teu salvador, o Senhor. Como fiz nos dias de Noé, a quem jurei nunca mais inundar a terra, assim juro que não me irritarei contra ti nem te farei ameaças. Podem os montes recuar e as colinas abalar-se, mas minha misericórdia não se apartará de ti, nada fará mudar a aliança de minha paz, diz o teu misericordioso Senhor.

Salmo - Sl 29 (30)
R. Eu vos exalto, ó Senhor, porque vós me livrastes!
Eu vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes,*
e não deixastes rir de mim meus inimigos!
Vós tirastes minha alma dos abismos*
e me salvastes, quando estava já morrendo! R. 

Cantai salmos ao Senhor, povo fiel,*
dai-Lhe graças e invocai Seu santo nome!
Pois Sua ira dura apenas um momento,*
mas Sua bondade permanece a vida inteira;
se à tarde vem o pranto visitar-nos,*
de manhã vem saudar-nos a alegria. R. 

Escutai-me, Senhor Deus, tende piedade!*
Sede, Senhor, o meu abrigo protetor!
Transformastes o meu pranto em uma festa,*
Senhor meu Deus, eternamente hei de louvar-vos! R.

Evangelho - Lc 7, 24-30
Depois que os mensageiros de João partiram, Jesus começou a falar sobre João às multidões: "O que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que fostes ver? Um homem vestido com roupas finas? Ora, os que se vestem com roupas preciosas e vivem no luxo estão nos palácios dos reis. Então, o que fostes ver? Um profeta? Eu vos afirmo que sim, e alguém que é mais do que um profeta. É de João que está escrito: 'Eis que eu envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o meu caminho diante de ti'. Eu vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém é maior do que João. No entanto, o menor no Reino de Deus é maior do que ele. Todo o povo ouviu e até mesmo os cobradores de impostos reconheceram a justiça de Deus, e receberam o batismo de João. Mas os fariseus e os mestres da Lei, rejeitando o batismo de João, tornaram inútil para si mesmos o projeto de Deus".

Comentário feito por Santo Efraim (c. 306-373)
diácono na Síria, doutor da Igreja

"De entre os homens, nenhum é maior do que João." Se todos os santos, esses homens justos, fortes e sábios, pudessem reunir-se e habitar num só homem, não chegariam a igualar João Batista [...], e por isso se diz que em muito ele ultrapassa os homens e que pertence à categoria dos anjos (Mc 1, 2). "Mas o mais pequeno do Reino de Deus é maior do que ele." Com o que disse acerca da grandeza de João, Nosso Senhor quis anunciar-nos a abundante misericórdia de Deus e a Sua generosidade para com os Seus eleitos. Por mais célebre e grandioso que seja João, sê-lo-á menos do que o mais pequeno do Reino, como diz o apóstolo Paulo: "Pois o nosso conhecimento é imperfeito [...] mas, quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá" (1Co 13, 9-10). João é grande, e disse por intuição: "Eis o Cordeiro de Deus" (Jo 1, 29); mas essa grandiosidade, comparada com a glória que será revelada àqueles que dela forem considerados dignos, é como um mero antegosto. Por outras palavras, todas as coisas grandes e admiráveis da terra, comparadas com as beatitudes do alto, surgem-nos na sua pequenez e na sua vacuidade [...]. João foi considerado digno dos grandes dons deste mundo: a profecia, o sacerdócio (cf. Lc 1, 5) e a justiça [...]. João é maior do que Moisés e os profetas, mas a antiga Lei precisa do Novo Testamento, pois aquele que é maior do que os profetas disse ao Senhor: "Eu é que tenho necessidade de ser batizado por Ti" (Mt 3, 14). João é igualmente grande porque a sua concepção foi anunciada por um anjo, porque o seu nascimento esteve envolto em milagres, porque anunciou Aquele que dá a vida, porque batizou para a remissão dos pecados. [...] Moisés conduziu o povo até ao Jordão e a Lei conduziu o gênero humano até ao batismo de João. Mas "se de entre os homens, nenhum é maior do que João", o precursor do Senhor, quão maiores serão aqueles a quem nosso Senhor lavou os pés e em quem insuflou o Seu Espírito (Jo 13, 4; Jo 20, 22)!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Comentário ao Evangelho do dia - Advento


3ª Semana do Advento - Quarta-feira
São João da Cruz

1ª Leitura - Is 45, 6b-8.18.21b-25
"Eu sou o Senhor, não há outro, eu formei a luz e criei as trevas, crio o bem-estar e as condições de mal-estar: sou o Senhor que faço todas estas coisas. Céus, deixai cair orvalho das alturas, e que as nuvens façam chover justiça; abra-se a terra e germine a salvação; brote igualmente a justiça: eu, o Senhor, a criei." Isto diz o Senhor que criou os céus, o próprio Deus que fez a terra, a conformou e consolidou; não a criou para ficar vazia, formou-a para ser habitada: "Sou eu o Senhor, e não há outro. Quem vos fez ouvir os fatos passados e soube predizê-los desde então? Acaso não sou eu o Senhor? E não há deus além de mim. Não há um Deus justo, e que salve, a não ser eu. Povos de todos os confins da terra, voltai-vos para mim e sereis salvos, eu sou Deus e não há outro. Juro por mim mesmo: de minha boca sai o que é justo, a palavra que não volta atrás; todo joelho há de dobrar-se para mim, por mim há de jurar toda língua, dizendo: Somente no Senhor residem justiça e força". Comparecerão perante Ele, envergonhados, todos os que Lhe resistem; no Senhor será justificada e glorificada toda a descendência de Israel.

Salmo - Sl 84 (85) 
R. Que os céus lá do alto derramem o orvalho,
que chova das nuvens o Justo esperado! (Is 45,8)
Quero ouvir o que o Senhor irá falar:*
é a paz que Ele vai anunciar;
a paz para o Seu povo e Seus amigos,*
para os que voltam ao Senhor seu coração.
Está perto a salvação dos que O temem,*
e a glória habitará em nossa terra. R. 

A verdade e o amor se encontrarão,*
a justiça e a paz se abraçarão;
da terra brotará a fidelidade,*
e a justiça olhará dos altos céus. R. 

O Senhor nos dará tudo o que é bom,*
e a nossa terra nos dará suas colheitas;
a justiça andará na sua frente*
e a salvação há de seguir os passos seus. R.

Evangelho - Lc 7, 19-23
Naquele tempo, João convocou dois de seus discípulos, e mandou-os perguntar ao Senhor: "És Tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?". Eles foram ter com Jesus, e disseram: "João Batista nos mandou a Ti para perguntar: 'És Tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?'". Nessa mesma hora, Jesus curou de doenças, enfermidades e espíritos malignos a muitas pessoas, e fez muitos cegos recuperarem a vista. Então, Jesus lhes respondeu: "Ide contar a João o que vistes e ouvistes: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, e a Boa Nova é anunciada aos pobres. E feliz é aquele que não se escandaliza por causa de mim!".

Comentário feito por Beato João Paulo II (1920-2005)
papa

Diante dos Seus conterrâneos, em Nazaré, Cristo expõe as palavras do profeta Isaías: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor" (Lc 4, 18-19). [...] Mediante tais fatos e palavras, Cristo torna o Pai presente no meio dos homens. É muito significativo que estes homens sejam sobretudo os pobres, carecidos dos meios de subsistência, os que estão privados da liberdade, os cegos que não veem a beleza da criação, os que vivem com a amargura no coração, ou então os que sofrem por causa da injustiça social e, por fim, os pecadores. Em relação a estes últimos, de modo especial, o Messias torna-Se sinal particularmente visível de Deus que é amor, torna-Se sinal do Pai. [...] É igualmente significativo que, quando os mensageiros enviados por João Batista foram ter com Jesus e Lhe perguntaram: "Tu és Aquele que está para vir, ou temos de esperar outro?", Ele, referindo-Se ao mesmo testemunho com que havia inaugurado o Seu ensino em Nazaré, lhes tenha respondido: "Ide contar a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciada a Boa-Nova"; e é ainda significativo que tenha depois concluído: "Bem-aventurado aquele que não se escandalizar a Meu respeito". Jesus revelou, sobretudo pelo Seu estilo de vida e as Suas ações, como o Amor está presente no mundo em que vivemos, Amor operante, Amor que se dirige ao homem e abraça tudo quanto constitui a sua humanidade. Tal amor transparece especialmente no contato com o sofrimento, a injustiça e a pobreza, no contato com toda a "condição humana" histórica que, de vários modos, manifesta as limitações e a fragilidade, tanto físicas como morais, do homem. Precisamente o modo e o âmbito em que Se manifesta o Amor são chamados, na linguagem bíblica, "misericórdia". Cristo, portanto, revela Deus que é Pai, que é "Amor", como referiria João na sua primeira epístola (IJo 4, 16); revela Deus "rico em misericórdia" (Ef 2, 4).