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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Cartas do P.e Aldo 203


Asunción, 6 de agosto de 2011.

Caros amigos,
Que graça e a Escola de Comunidade, para nós e para o mundo!
Nestas semanas pude experimentar na carne como o mundo precisa encontrar o Movimento, ou seja, a Escola de Comunidade. Carrón chama a nossa atenção justamente para a urgência de um trabalho pessoal que veja na Escola de Comunidade o centro deste trabalho. Pessoalmente, sou uma testemunha disto tanto no meu caminho de todo dia, quanto naquilo que acontece ao meu redor. A beleza desta obra que sempre mais suscita em quem a vive, em quem nela trabalha, mas também em quem a visita, faz nascer a pergunta: como é possível tudo isto? E quando respondo “é graças à catequese, ou à Escola de Comunidade que vivemos semanalmente com todas as 200 pessoas que trabalham aqui nos mais diversos âmbitos”, os que me escutam ficam cheios de curiosidade e de interesse. Assim, já há um tempo um grupo de diretores e de operários de uma multinacional, toda quarta-feira, das 8h às 9h da manhã, pontualmente, vêm até aqui para a Escola de Comunidade. Além do mais, aconteceu algo muito significativo no maior centro médico de reabilitação privado do país. O chefe deste centro assinou um contrato conosco para assistir gratuitamente os nossos pacientes e, em troca, pediu para irmos, pelo menos a cada quinze dias, fazer a Escola de Comunidade com seus dependentes e pacientes. O mundo também percebe que a Escola de Comunidade cria uma diferença no modo de viver e trabalhar.
Vale lembrar que aqui, este precioso instrumento que Giussani nos deixou deu origem a um periódico semanal que é publicado junto com o segundo jornal leigo mais vendido no Paraguai, toda quinta-feira. O bem que esse jornalzinho faz é impressionante. Por exemplo, hoje, duas jovens mães, depois de terem feito 40 km de viagem, vieram nos agradecer por aquilo que escrevemos! “Padre, estamos aqui há duas horas esperando pelo senhor para lhe agradecer e para abraçá-lo por causa daquilo que o senhor escreve nos editoriais, como por exemplo aquilo que escreveu sobre a Confissão”. E me trouxeram também um presente. Outro jovem, disse: “Padre, lendo o jornalzinho senti o desejo de ser padre, de verificar a minha vocação”.
A Escola de Comunidade nos ajuda a verificar a razoabilidade da fé no meio das vísceras do mundo, testemunhando assim que o cristianismo é o acontecer do humano. Claro que existem, toda semana, motivos para polêmica e, nesses momentos, me lembro de Giussani que dizia que Cristo polemizou com o mundo inteiro, o mesmo que Carrón continuamente nos lembra quando fala que a cultura dominante anestesia o eu.
Em suma, quero que a Escola de Comunidade não seja uma leitura espiritual ou apenas uma deixa para as nossas reflexões, mas que seja o trabalho que nos permita descobrir a razoabilidade da nossa fé vivida no impacto com o cotidiano, com o mundo.
Boas férias, na privilegiada companhia da Escola de Comunidade.
Padre Aldo

terça-feira, 22 de março de 2011

Cartas do P.e Aldo 181

Asunción, 19 de março de 2011.

Caros amigos,
estes dias têm sido, para mim, uma graça particular. Estive na Itália para encontrar os amigos que estão ajudando a Providência Divina a concluir os trabalhos da nova clínica para que, no dia 25 de março, possamos celebrar, com uma Santa Missa, o fim dos trabalhos de construção. Gostaria de ter me encontrado com alguns de vocês que nos acompanham, mas a impossibilidade se fez oração em Fátima, aonde tive a alegria e a graça de ir. Nunca havia estado ali e, finalmente, Nossa Senhora me quis consigo.
Foi bonito ver como, também na Itália, está acontecendo aquilo que estamos vivendo na América Latina, entre aqueles que seguem e olham concretamente para a experiência de fé que Julián Carrón vive. Foi como me encontrar com Giussani vivo, vibrante, apaixonado pelo homem, exatamente como, no dia 25 de março de 1989, ele me abraçou assim como eu estava reduzido. Verdadeiramente, olhar para onde Carrón olha é poder dizer em cada instante: “Tu, meu Cristo”.
Tive a graça de participar fisicamente da Escola de Comunidade no dia 9 de março, no Sacro Cuore. Foi uma experiência inesquecível ver como ele nos faz trabalhar, escutar aqueles testemunhos, naquela noite, frutos verdadeiros de uma experiência, daquele trabalho que ele nos provoca a fazer. Tivemos uma graça única, que não apenas elimina toda distância entre nós, seja física ou geográfica, mas nos enche de letícia, aquela letícia que transpiram dos meus doentes terminais antes de morrerem ou dos meus filhinhos. Sim, porque também eles dependem de como eu sigo Carrón, de como eu vivo o carisma, de como Cristo é contemporâneo.
Vi, na Itália, um monte de pessoas se encontrando, estando juntas não mais definidas pelo perímetro geográfico, mas por pessoas e lugares nos quais Cristo é claramente visível, nos quais o coração encontra aquela objetiva correspondência de que tem necessidade. Experimentei na carne o que significa que os jovens ainda têm aquele coração que tinham quanto parti, há 22 anos. Experimentei na carne que mais do que de emergência educativa, temos que falar de emergência educadores, ou seja, de homens adultos em cujos rostos brilhe a luminosidade do destino. Encontrei-me com crianças, adolescentes, jovens e me senti submerso por perguntas, as mesmas de 22 anos atrás, de 38 anos atrás. Encontrei operários, jovens empresários e os empresários da Confindustria de Bolonha. A maioria não apenas não era de CL, como também freqüentemente nem mesmo era católica, como é o caso de Gabrielle Nissin, o amigo judeu que escreveu o livro La bontà insensata (A bondade insensata; ndt), e em todos eu encontrei uma fome e uma sede de Cristo expressas de formas muito diferentes umas das outras. No encontro com os jovens empresários da Confindustria de Bolonha e no jornalista da RAI3 que fazia as perguntas, o preconceito do início se tornou, no fim, surpresa, alegria, amizade. Dei-me conta de que somente se estamos apaixonados por Cristo, somente se seguimos Carrón com inteligência e afeto, fazendo experiência de Cristo, nos tornamos fascinantes e interessantes para todos. Encontrei homens cansados das mediações, reativos aos discursos, ou pessoas que tinham medo de dizer Cristo, de mostrar que pertencem e desejosos de ver, de encontrar homens que, com a vida e com as palavras, falam daquilo que vivem, ou seja, homens com a certeza da fé, com o olhar fixo sobre aquele “Tu” que domina tudo.
Até mesmo os especialistas das mentes humanas que encontrei se rendem diante desta evidência, reconhecendo que a psicologia não é capaz de responder ao coração do eu, mas apenas aquele “Tu que me fazes”. 
Obrigado, e que a Quaresma seja, de verdade, um tempo de descoberta de que a misericórdia é o amor na sua origem.
Padre Aldo

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

“Bom caminho”


Saudação de Padre Giussani por ocasião do início da Escola de Comunidade sobre O senso religioso, dos estudantes de CL na Universidade Católica do Sacro Cuore. Milão, 8 de outubro de 1998

Fico muito grato a vocês de poder discutir acerca do volume que contém as minhas ideias, expostas em tantos anos de aulas, primeiro numa escola e sobretudo na universidade. Em cada ano, eu dizia: “Eu não quero forçar ninguém a se convencer, mas não quero que alguém renegue aquilo que eu digo se não tiver, pelo menos, lido as razões que eu digo”.
Permito-me pedir a vocês que me leiam com a intenção sincera e imediata de compartilhar com todos os jovens a dificuldade que têm de entender o valor da religião nascida de Jesus, filho de Maria, judeu de Nazaré.
Não é possível entender, senão verificando as ideias e os valores na própria experiência. Esta experiência pode consistir também no choque ou no sentimento particular que se surpreende em si mesmos, ou na história de um povo ou do mundo.
A experiência diz coisas que demonstram a sua verdade. Aquilo que eu digo a vocês foi-me inteiramente ditado por algo que eu estudei, desejei, repugnei, mas finalmente amei com paixão.
Para mim, é a experiência que ensina todo o valor de ideias e de coisas, permanecendo no tempo, persuasiva ou duvidosamente. Também grandes pintores, músicos e poetas demonstram continuar retomando o tema inspirado por uma “beleza” encontrada.
Nesta ocasião que vocês me deram, eu desejo a vocês uma sinceridade, uma franqueza em tudo e um amor à verdade que seja também compartilhado.
A minha vida conheceu a letícia nestas condições.

Finalmente, quero repetir-lhe aquilo que Santa Catarina, analfabeta, que é o maior gênio feminino italiano, dizia ao último Papa de Avignon: “Se fordes aquilo que deveis ser, colocareis fogo em toda a Itália. Não vos contenteis com pequenas coisas: Ele, Deus, as quer grandes”.

Bom caminho.
Padre Giussani

* Texto disponível na Tracce n. 10, novembro de 1998. Extraído do site de CL. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Cartas do P.e Aldo 173



Asunción, 23 de dezembro de 2010.

Caros amigos,
Jesus levou consigo, para o céu, a minha pequena Liz de 5 anos de idade. Estava conosco na clínica há três meses, por causa de um câncer na cabeça. Morreu ontem, deixando-nos a todos com o coração em pedaços e cheio de perguntas: “Padre, nesta manhã tive medo de não dar mais conta de ver tanta dor”, me disse a secretária da Clínica. E teria razão se Cristo não estivesse aqui, agora. Sem aquela criança que o Natal nos repropõe como um Fato vivo, contemporâneo, será que valeria a pena viver?
Pessoalmente, não conseguiria viver um minuto a mais rodeado por tanto dor como o sou, pelos mil “por ques” da mãe de Liz, uma mulher que me fez lembrar a mãe da pequena Cecília, que morreu de cólera, no romance de Manzoni. Quanto anos se passaram desde a leitura daquele capítulo, e no entanto ainda hoje me comove, como um sinal profético daquilo para o que eu seria chamado a viver todos os dias. Vocês entendem agora por que não posso ficar um segundo sequer sem gritar “Tu, ó meu Cristo”? Ou sem fazer de vocês partícipes daquilo que me acontece, para que, juntos, aprendamos aquilo que Carrón nos testemunha? Ontem, quando Liz morreu, pensei imediatamente nele, nas últimas Escolas de Comunidade sobre o sacrifício, sobre o valor que tem e no que consiste. Só assim me torno sempre mais consciente do fato de que é desumano, insuportável viver, respirar um segundo que seja sem que ele seja tudo para nós, sem que também para nós seja vibrante aquilo que São Paulo diz – “para mim, viver é Cristo e morrer é um ganho”. Quando, ontem, eu estava ao lado do leito de Liz, agonizante, os olhos semicerrados, as respiração difícil, a mãe de pé com uma lágrima nos olhos, quase paralisada pela dor, eu não conseguia, beijando Liz, não sentir presente o Mistério que estava para levar para si, no Paraíso, a pequena. Ela morreu como Jesus: por mim, por meus pecados e os de todos nós. O meu sacrifício é a estima de Jesus que, por mim, por vocês, desceu do céu  e se fez uma criança e, depois, morreu e ressuscitou por mim e por vocês.
É desconcertante, comovente, dar-se conta de que Jesus, antes da minha pequena Liz, fez o mesmo percurso humano. Nós a vestimos como um anjo, com uma coroa na cabecinha, como se fosse um pequena rainha. Sim, porque ela é uma rainha, como todos nós que fomos batizados. E, depois, a colocamos num caixão branco – a caixinha onde os seus ossos esperarão a ressurreição final.
Hoje, enquanto Liz era sepultada, fizemos um presépio vivo: o Menino Jesus foi um dos bebês da Casinha de Belém, de apenas três meses de vida. Depois, as outras crianças representando as ovelhinhas; os doentes, os ancião representando os pastores e os reis magos; e também alguns de nós que vivemos com eles. Cada um fez a sua parte. Foi, neste mar de dor, uma explosão de vida e de alegria. De fato, aqui, reina a vida, porque aquele “Tu, ó meu Cristo” é a única razão daquilo que existe e vive aqui. Amigos, que os nossos olhos, nestes dias e sempre, dentro de toda situação, mesmo a mais negra, estejam exclusivamente fixos em Jesus, para que possamos viver comovidos em cada instante da vida.
Amigos, mas o que pode haver de mais belo do que dizer “Tu, ó meu Cristo”?
Padre Aldo

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Cartas do P.e Aldo 170





Asunción, 2 de dezembro de 2010.

“E agora, eis o que diz o Senhor, aquele que te criou, Jacó, e te formou, Israel: Nada temas, pois eu te resgato, eu te chamo pelo nome, és meu. Se tiveres de atravessar a água, estarei contigo. E os rios não te submergirão; se caminhares pelo fogo, não te queimarás, e a chama não te consumirá. Pois eu sou o Senhor, teu Deus, o Santo de Israel, teu salvador. (...) Porque és precioso a meus olhos, porque eu te aprecio e te amo. Fica, tranqüilo, pois estou contigo” (Is 43, 1-5).

Como não chorar de comoção lendo estas palavra de Isaías? É Deus que fala a mim e a você e aos meus filhinhos, mais bonitos do que o sol e as estrelas, e do que as minhas Dolomitas.
Olhem os meus dois filhos que, aproveitando da ausência momentânea da enfermeira, conseguiram juntar suas duas camas... e vejam como “brincam” entre si.
Eles são gravemente deficientes, e no entanto entre eles há uma linguagem, uma comunicação que nasce da evidência que, para eles, aquilo que Isaías disse é uma experiência
Assim como é uma experiência para o meu pequeno Victor que não pode ficar sem Mário e Aldo. Parece um bonequinho de cera, todo machucado, e porém é Jesus sobre a cruz que, há dois anos, geme e sofre pelos meus e pelos pecados de vocês.
Viver aquilo que Giussani disse quando falava do sacrifício (o primeiro ponto, item “c” da Escola de Comunidade: “quando o sacrifício se torna um valor para a vida do homem”) e olhar estes meus filhinhos, me faz perceber, cada dia mais, a graça, o valor objetivo, o dom que é o “monstro”, o “repugnante” (são as palavras que Giussani usa) sacrifício, dor, que somente na cruz de Jesus, onde as minhas crianças estão pregadas, encontra o seu único e verdadeiro significado.
Ciao
Padre Aldo

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cartas do P.e Aldo 169

Asunción, 28 de novembro de 2010.

Caros amigos,
gostaria de comunicar a vocês alguns fatos que aconteceram e que testemunham com Cristo está presente na minha vida e, por isso, tudo é positivo, mesmo a dor que, de uma desgraça, se torna graça, como nos lembra a Escola de Comunidade.
1. Ontem (sexta-feira), tivemos a surpresa da visita de Marcos e Cleuza. Uma visita relâmpago, que foi, para eles, uma aventura única: 7 horas de viagem de avião para chegar aqui e 4 horas para voltar. Nunca aconteceu algo assim. Somente uma grande amizade, fruto da familiaridade com Cristo, permite este olhar entre nós. Marcos, ontem, tinha uma reunião importante na Assembléia Legislativa, mesmo porque lhe estão fazendo propostas interessantes. Mas, preferiu vir para festejar o aniversário de Padre Paolinio e encontrar os amigos da fundação, responsáveis pelas obras. O encontro foi muito bonito, as experiências contadas foram como um vibrar do eu diante de Cristo. A genialidade de Cleuza nos lembrou o que Carrón nos dizia comentando o Monologo di Giuda (Monólogo de Judas, canção de Claudio Chieffo; ndt) em La Thuile: “Judas era um apóstolo, eu não sou um apóstolo; Judas fazia parte dos grupinho de amigos de Jesus, e eu também faço parte dos amigos de Jesus, como Judas, como Pedro. Porém, Judas participava daquela amizade, mas diferentemente de Pedro e de mim, não pertencia àquela amizade. Uma coisa é participar, outra coisa é pertencer. Judas traiu Jesus, mas também Pedro, assim como também eu. Porém, uma coisa foi a traição de Judas, outra a de Pedro e a minha. Judas, diante do seu pecado, sendo apenas participante daquela amizade, e não pertencente, se suicidou. Pedro, porém, que pertencia àquela amizade, reconheceu o seu pecado e se deixou abraçar por aquele olhar. Assim é para mim e para Marcos. Nós não viemos porque participamos do que acontece aqui, desta obra, mas porque pertencemos a esta obra. Uma pessoa pode até fazer milagres, mas se a sua natureza não for a do Pai, tudo morrerá. O filho pródigo voltou não porque quisesse participar do banquete, ou porque estava cansado da miséria, mas porque, no meio de toda as misérias, ele pertencia ao Pai, era da sua mesma natureza. O nosso problema é apenas um: participamos ou pertencemos? Seguimos Carrón ou olhamos para onde Carrón olha? Uma coisa é participar do movimento, participar daquilo que Carrón nos diz, outra coisa é pertencer ao movimento, pertencer ao olhar com o qual Carrón nos guia e olha para a realidade. Eu venho aqui, do Brasil, porque decidi pertencer àquilo que vi, como Pedro. Eu venho do Brasil porque pertenço a vocês. Assim, vocês trabalham aqui porque pertencem a esta obra. E o sinal desta pertença é a alegria com a qual vocês trabalham e é o que marca a diferença com quem não pertence”
2. Tão logo chegaram, celebramos a missa para eles na clínica. Alguns doentes terminais, incapazes de se moverem, participaram também. Grande foi a surpresa quando um doente de câncer, com a parte direita do rosto toda vendada, porque literalmente estava “comida” pelo câncer, e o outro lado todo inchado, tomou o violão e, com uma alegria nos olhos que nos comover a todos, acompanhou os cantos. Cleuza, a um certo momento, disse: “como pode um doente naquelas condições, nas vésperas da morte, tocar com tanto ímpeto o violão? A resposta é apenas uma: porque, nele, é clara, é evidente a pertença ao Mistério... e era visível como ele estava identificado com Cristo eucarístico. Ele tocava assim e naquelas condições, porque olhava para Cristo, pertencia a Cristo. Desafio a qualquer prêmio Nobel de oncologia a dar a este doente aquilo que somente Cristo pode dar. Nenhum prêmio Nobel pode dar um doente terminal a força, naquelas condições, de tocar o violão. Quem lhe dá a força é apenas Cristo, que passa através de vocês, que estão próximos e veem nele Cristo. Eu venho de São Paulo porque preciso ver como também a vida que está morrendo refloresce na pertença. Não venho aqui para ver as pessoas morrendo e nem mesmo para ver o hospital, porque tudo isto posso ver também em São Paulo, mas para ver os milagres da pertença a Cristo, porque não é uma coisa deste mundo ver um moribundo tocando violão. Venho aqui para que a certeza que hoje me acompanha seja a certeza que me acompanhe também amanhã. Não me basta o passaporte para hoje, eu o quero também para amanhã. E sem vocês não tenho esta garantia. O passaporte para o amanhã eu não tenho, mas esta pertença o tem. Então, o problema é não ter uma reserva na pertença, reserva que é o caruncho que destrói tudo. Quanto mais pertenço, tanto mais cai a reserva. A outra face da reserva é a pretensão. Por que prevalece a pretensão? Porque nos esquecemos do destino do outro. Por este motivo, não estamos juntos para fazer obras, mas para que floresça o nosso eu e as pessoas conheçam a Cristo, encontrem a Cristo. E se o ponto não está claro, a obra já está morta. Quando alguém tem este olhar é livre. Não é definido pelos resultados, pelos êxitos. Pensem, por exemplo, nos pais: que respiro começam a viver quanto aos filhos, sobre os quais temos tantas pretensões. Eu posso abraçar, sustentá-los, mas não me posso substituir a eles, ao drama deles. O violeiro que escutamos é uma evidência. Eu não posso tirar-lhe o câncer, não me posso substituir a ele, o drama é todo seu, não posso fazer com que a proximidade da morte se afaste. Posso sim abraçá-lo, amá-lo, mas o drama é entre ele e Cristo, e se vê bem como a sua liberdade, que se deixa abraçar por Cristo, lhe permite até mesmo de ‘tirar sarro’ do câncer, aproveitando plenamente daquilo que está tocando”
Amigos, vocês entendem por que somos amigos e por que não conhecemos distância, e como mesmo os “problemas” provocados pelas companhias aéreas não nos distraem?
Para terminar e assim começar bem o Advento, um último fato que mostra como nada impede que a realidade, a doença, seja um dom. Outro dia, a doutora Cristina, infectologista, me descreveu as condições de um paciente de AIDS, encontrado num lixão. Ele é uma ferida só. Os vermes saem de uma orelha apodrecida e também dos genitais. Chamou-me para perto dele para que eu me desse conta de onde pode chegar a miséria humana e também do que seria do homem se não fosse de Cristo. Vi como ela, com tanto amor, com uma pequena pinça, tirava os vermes um a um – e isso todos os dias – e fiquei abalado e comovido. Perguntei-lhe: “Mas, Cristina... como consegue?”. E ela: “Mas, padre, é Jesus... este homem cheio de feridas é Jesus; e, por isso, faço este trabalho com alegria”. Fiquei sem palavras, maravilhado, comovido, enquanto ela, com as pinças, acompanhada por outra jovem médica e uma enfermeira, continuavam, com o sorriso nos lábios, a tirar aqueles vermes de cabeça preta e corpo branco.
Vocês entendem o que quer dizer “contemporaneidade de Cristo”? Se Cristo fosse um “ontem”, uma pessoa não seria capaz de estar diante de um homem que traz no corpo os sinais do apodrecimento.
Rezem por mim e por meus amigos sãos e doentes.
Padre Aldo

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Cartas do P.e Aldo 168





Asunción, 17 de novembro de 2010.

Caros amigos,
olhem para as minhas crianças no dia da sua Primeira Comunhão, no domingo dia 7 de novembro. São belas, muito belas, agora que, finalmente, Jesus entrou em seus corações, se tornando uma única realidade com Jesus.
A semente da graça batismal está se tornando uma árvore.
A história delas é conhecida de vocês. A violência marcou a sua concepção, o seu nascimento... os abusos sexuais. Traumas terríveis, suficientes para destruir uma vida. No entanto, o encontro conosco, o encontro com rostos definidos pelo “eu sou Tu que me fazes”, pela certeza de “amei-te com amor eterno, tendo piedade do teu nada”, não apenas lhe deu a vida outra vez, a alegria de viver, como também lhes deu a liberdade de perdoar aqueles que os colocaram no mundo e abusaram deles.
“Padre, não queremos ver e nem mesmo voltar para casa onde sofremos tanto; perdoamos nossa ‘mãe’ e o concubino que nos fez tanto mal”. Amigos, no dia em que me disseram esta frase, senti toda a potência daquilo que Carrón continuamente nos repete: “O homem não é e nunca será fruto do seus antecedente, por mais feios que sejam, porque ele é relação com o Mistério”. Porém, esta certeza, na qual consiste toda a proposta educativa de Giussani, pode chegar até a nós, aos meus filhos, somente na medida em que é a consistituição consciente do meu eu, somente na medida em que a minha familiaridade com Cristo é vibrante em mim, somente na medida em que acolho, a cada instante, aquilo que Giussani chama o “monstro” do sacrifício como condição para que a minha liberdade coincida com o “Tu, meu Cristo”. Como vocês podem ver, não se trata de medicar as feridas, por mais horríveis que sejam, mas se trata de permitir que Cristo tome posse do próprio eu. A batalha é dura, como diz a Escola de Comunidade sobre o sacrifício, mas o êxito é uma plenitude de vida, aquela plenitude que vocês podem ver no rosto das minhas crianças.
Amigos, tudo é importante e bom. Mas, sem Cristo, tudo é inútil, todo esforço é destinado a falhar!
Somente “eu sou Tu que me fazes” como consciência comovida de si sara a totalidade do humano. Deus e Nossa Senhora nos deem a alegria de vibrar ao pronunciar esta certeza, pelo menos da mesma forma como vibramos por causa de um amor repentino que esperamos chegar, da mesma forma que São Paulo, quando diz: “para mim, viver é Cristo”.
Ciao,
Padre Aldo

domingo, 17 de outubro de 2010

Cartas do P.e Aldo 166

Asunción, 16 de outubro de 2010.

Caros amigos,
“Padre, sou feliz de estar aqui, neste hospital. Desde que cheguei e vi tanta beleza – flores, jardins, plantas, ordem, limpeza – e, particularmente, tanto amor, me senti como se estivesse no paraíso. Mesmo o câncer assumiu um rosto diferente”. Foi o que Josefina me disse antes de morrer, esta noite.
A clínica está sempre cheia. Moribundos sozinhos, da rua, que chegam para receber um gesto de amor puro que encontra nos sacramentos o coração e, depois, partem para o Paraíso. Frequentemente, damos o batismo sub conditio, porque não sabemos nada sobre eles, apenas algo muito bonito que Carrón nos repete sempre: “amei-te de um amor eterno, tendo piedade do teu nada...” ou, como disse Giussani na Escola de Comunidade, “comovo-me porque tu me odeias”.
Olho para aquele meu filho, de quem sou também o padrinho, batizado no domingo passado, sempre sub conditio (significa que pode ser dado mesmo a quem já foi batizado), mongoloide, encontrado na rua, doente de AIDS porque foi abusado sexualmente, e não posso não me comover pensando, hoje, em como rezamos nas laudes (como eu gostaria que vocês, meus amigos, rezassem o livro das horas todos os dias, como quando estavam em GS [Gioventù Studentesca, equivalente, na Itália, aos Colegiais de Comunhão e Libertação; ndt], para descobrirem aquilo que, há 17 anos, intuíamos mas não se tinha feito carne ainda): “Pode uma mãe abandonar seu filho? Não se comover pelo filho do seu ventre? Bem, mesmo se se esquecesse, Eu não te esquecerei nunca”. Amigos, pobres de nós se introduzíssemos uma suspeita que fosse de que, na nossa vida, não seja assim, quaisquer que sejam as circunstâncias! Imaginem que desespero seria a nossa vida se esta certeza não fosse granítica como conteúdo do eu, quando um dia adoecéssemos de câncer ou quando a depressão nos pegasse!! Amigos, o pecado mais grave é a suspeita, a dúvida, quase como se Deus fosse capaz de nos enganar quando nos diz “amei-te de um amor eterno, tendo piedade do teu nada”.
Quantos momentos dramáticos aconteceram nestas semanas... cheguei mesmo a ficar com raiva (porém, há muito tempo, a minha raiva com Deus é cheia de ternura) dEle, mas não há nada que possa fazer nascer a suspeita de que tudo o que me aconteceu não seja uma ternura de Deus. Se eu não sofresse, não viveria aquela familiaridade com Ele que torna a vida tão bela e que me permite transmitir aos meus filhos a alegria do perdão.
Uma noite dessas, as minhas filhas da Casinha de Belém, as adolescentes, vieram até ao meu escritório para conversar comigo, confiando-me seus problemas (é um fato normal, mas sempre novo). Entre as tantas coisas que disseram, algumas me tocaram e foi quando elas, abusadas sexualmente pelo companheiro da “mãe” e com o consenso da mesma, me disseram: “papai, não queremos mais viver com a mamãe por causa daquilo que ela nos fez, porém nós a perdoamos”. E uma me disse: “eu queria vê-la, mas sei que ela não quer saber nada de mim”. “Por isso, precisamos que o senhor e Diana, a mamãe de fato, fiquem conosco quando temos tempo livre na escola, porque somos uma família”.
Numa outra noite, tentei ensinar para Noelia (de 5 anos) como se dobram as roupas. Eu a olhava e ela, muito empenhada, de vez em quando me olhava para ver se eu estava ou não de acordo. Que ternura! Porém, se Jesus não estivesse vivo, aqui, eu não seria capaz disso, eu ficaria impaciente. É a contemporaneidade de Cristo que permite às crianças que perdoem, e permite a mim ensinar como se dobram as roupas. Esta contemporaneidade é aquilo que deu a liberdade cheia de amor a César e Lorena que, tão logo se casaram, alguns meses atrás, decidiram vir viver com os homens na primeira Casinha de Belém. Já na primeira noite de casados, se viram com o quarto dos 11 meninos assustados, que se tornaram seus filhos, ao lado do seu quarto. Agora, Lorena está grávida e a felicidade para todos é ainda maior. Os filhos que eram de uma violência sem precedentes – eles estariam todos na rua, semeando violência –, hoje estão mudados e são muito bonitos. Mesmo Gabriel, para quem demos e se deu o meu sobrenome, que viveu apenas violência (fugia de todas as casas por onde passou, jogava pedras em vidros de carros, era respondão e tinha um cinismo terrível), agora é o melhor da sua sala.
Amigos, é o milagre da gratuidade, assim como nos descreve Giussani na Escola de Comunidade. Os meus educadores são todos pessoas que têm apenas a quinta série e, alguns, terminaram o ensino médio, e todos são os protagonistas deste milagre... mas, por quê? Porque, a cada dia, nos lembramos da nossa origem, que é a mesma das crianças: “eu sou Tu que me fazes”, ou “quem és Tu, ó Cristo, que me amaste de um amor eterno, tendo piedade do meu nada?”.
Amigos, a vida é uma grande aventura.
Com afeto
Padre Aldo

sábado, 14 de agosto de 2010

Cartas do P.e Aldo 157

Asunción, 14 de agosto de 2010.

Caros amigos,
Estas semanas foram bonitas porque particularmente difíceis, de forma que Paolino me disse: “Vamos a São Paulo para encontrar Marcos e Cleuza”. “Era exatamente isso que eu estava pensando”, lhe respondi. É muito bonito que também ele sinta essa exigência, que é apenas de quem é verdadeira com a própria humanidade. E assim pegamos o avião. Praticamente, nesses dois últimos meses, nos vimos quase toda semana. Quando chegamos, Cleuza nos disse: “Se vocês não tivessem vindo, mesmo Marcos e eu empenhados com a campanha eleitoral, teríamos ido até vocês”.
Por quê? Quando se vive intensamente a realidade, quando não se brinca com a própria humanidade, quando não se tira férias do próprio eu, a pessoa começa a sentir a urgência de estar com quem está empenhado na mesma aventura. O mundo de dor no qual eu vivo (somente no último sábado, morreram cinco pacientes), crianças vítimas de violência, que chegam continuamente, ou o empenho intenso de Marcos e Cleuza nesse momento no qual estão enfrentando a campanha eleitoral, sustentados apenas por amigos, porque não têm o poder econômico dos outros, com todas as dificuldades que estão em jogo, sim ou sim, faz com que a pessoa sinta a urgência de ver o rosto de quem mais recorda Cristo, ou melhor de quem é a Presença de Cristo.
Por isso, foi comovente o tempo que passamos juntos. Poderia sintetizar assim o que aconteceu, porque, para nós, o vermo-nos é sempre e somente um acontecimento.
1. Essa companhia é cheia de serenidade, porque somos unidos, somos parte de uma grande amizade. O empenho político de Marcos é um instrumento privilegiado para anunciar a Cristo, fazer conhecer o Movimento e um meio para ajudar a Associação da qual são responsáveis. É bonito ver no jornalzinho (são 2 milhões de cópias) o programa de Marcos e a nosso foto – seus amigos. Quem, na Itália, faria algo assim? Além do mais, em plena campanha eleitoral, entre um comício e outro, veio nos pegar e depois nos levou ao aeroporto. E, mais ainda, não existe empenho político que o impeça de ir à Escola de Comunidade ou aos encontros da Fraternidade, toda segunda-feira. Cleuza dizia: “Cristo se mostra através de uma Presença. Não me manda sinais, mas amigos, ou seja, uma Presença”. A maior dor de Cristo não foi física, mas moral: a solidão, o abandono, a traição. A presença de Cristo é uma amizade.
2. Não temos necessidade dessa companhia; de outra forma, como conseguiríamos enfrentar o oceano de dor que nos circunda, como por exemplo, as milhares de crianças violentadas e os seus violentadores? Que, por sua vez, são vítimas de abusos sofridos quando crianças?
3. “Eu não posso amar a Cristo se, antes, não experimento o amor que Ele tem por mim. E é uma alegria experimentar essa Presença dentro da luta (mesmo política) de todos os dias”.
4. “A peregrinação a Aparecida indicou o limite das nossas capacidades e, por isso, mendicamos caminhando até o Santuário. Agora, a campanha política é a continuidade daquela peregrinação. Não importa se Marcos vai vencer ou não, o que importa é que tudo isso é para a glória de Cristo. O resultado não importa como não importam as traições ou o abandono de alguns amigos. Aconteceu também a Jesus”.
Amigos, bom feriado [no dia 15 de agosto, na Itália, se comemora um feriado chamado Ferragosto, que coincide com o meio do verão, data na qual se celebra a Assunção da Virgem Maria; ndt], com esses pensamentos dos meus amigos. Estar com eles é, de verdade, uma “conversatio in coelis”. Por isso, recorremos uns aos outros muito frequentemente, porque é muito grande a sede que temos de Cristo.
Padre Aldo

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Cartas do P.e Aldo 155




Asunción, 02 de agosto de 2010.

Caros amigos,
Olhem as maravilhas do Senhor. Ontem, na clínica, batizamos três de minhas crianças (da Casinha de Belém) e três filhos de um jovem pai que está morrendo e desejava ver seus filhos cristãos antes de morrer. Foi uma festa. Particularmente para a minha pequena Maria Vitória Milagres, encontrada abandonada num saco de plástico no meio de uma praça. É belíssima. Ela foi abandonada pela mãe, mas salva pela ternura de Deus, que se ocupa de cada um de nós. E nós nos ocupamos um dos outros? Quanta necessidade de ternura cada homem tem, em particular quem sofre.
Outro dia, me chegou a notícia de que uma jovem mulher que ia às Escolas de Comunidade foi encontrada enforcada, depois de alguns dias, com o cãozinho ao seu lado. Que dor! Se não seguirmos Carrón, que “bate” em nós muito justamente para que possamos entender o que quer dizer o trabalho pessoal, fazer experiência, estes fatos continuarão a acontecer, porque quem pode fazer companhia a quem sofre senão quem vibra de paixão por Cristo, senão quem ama a própria humanidade. Carrón nos diz que apenas as pedras não se comovem. Olhar para estes meus filhos, renascidos pela ternura de Cristo, é querer apenas a Cristo, é querer um coração grande para amar o homem. 
Que bonita a Escola de Comunidade que Carrón tem feito conosco, porque, com ele, os discursos quase acabaram, as pregações, as exortações, as frases feitas. Para mim, é uma graça única, pois, de outra forma, como conseguiria ficar diante de um oceano de dor.
Ciao.
Padre Aldo

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Cartas do P.e Aldo 153

Asunción, 27 de julho de 2010.

Caros amigos,
como é belo e reconfortante ouvir um doente terminal que diz ao médico: "Doutor, diga-me o que eu tenho, porque é Deus que me deu a vida e será Deus quem decidirá a hora para eu voltar a Ele. Assim, me preparo bem e volto para a minha casinha, onde esperarei que o Senhor me leve".
Amigos, este milagre é possível para cada um de nós, desde que vivamos na certeza de que cada um é "eu sou Tu que me fazes".
Com afeto,
Padre Aldo

Nota: Toda quarta-feira, nós nos encontramos com todos os especialistas da clínica - ou seja, todos aqueles que têm alguma função junto aos pacientes - e vemos cada paciente na sua totalidade. É uma verdadeira Escola de Comunidade, da qual a pessoa volta para casa com a santa inquietude que faz estar diante do Mistério, comovido. O testemunho acima foi dado pelo médico responsável pela clínica durante o encontro de hoje.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Etsuro Sotoo

Acabei de chegar da Escola de Comunidade. Trabalhamos, hoje, a introdução dos Exercícios Espirituais da Fraternidade de Comunhão e Libertação - Pode um homem nascer de novo, sendo velho?
Dois amigos que estiveram, no último fim de semana, no Paraguai contaram o encontro que fizeram com Etsuro Sotoo, o arquiteto que "herdou" a Sagrada Família de Gaudí e que irá realizar as obras da fachada da nova clínica do Padre Aldo. Recolhi algumas das coisas que eles contaram do encontro feito, sobretudo algumas frases que, como notas de memória, ficaram gravadas neles... notas que, comunicadas, deixaram suas marcas também em mim.


É o trabalho que converte o humano.

Sofrimento, beleza e verdade são inseparáveis.

Quanto a gente se apaixona, não importa mais onde está o corpo, mas onde está o coração; porque, quando a gente se apaixona, o coração não é mais nosso, mas está na pessoa por quem a gente se apaixonou.

É preciso atenção à realidade. Não adianta querer forçar a realidade... é ela quem dita a forma como se relacionar com ela.

Na vida, é preciso paciência e atenção ao tempo... tudo tem o tempo certo.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Cartas do P.e Aldo 148

Asunción, 16 de junho de 2010.

Caros amigos,
Nestes meses, o artigo de Carrón – “Feridos, voltamos a Cristo” – foi o coração com o qual viver tudo. Um trabalho duro, mas muito bonito que não apenas incidiu em todos nós mas também nas minhas filhas, vítimas dos pais pedófilos. Uma vez mais, toquei com a mão o fato que, trabalhando seriamente sobre aquilo que Julián nos propõe (pensem na profundidade e na beleza do artigo, que foi publicado n’O Observatório Romano, sobre nós, padres: quem jamais nos falou assim, a não ser o Gius ou, agora, Julián?), o homem velho cheio de preconceitos, de esquemas, de moralismo etc. deixa o lugar para o homem novo. O homem novo gera homens novos que olham para a realidade com os olhos de Cristo.
Outro dia, uma filha minha de 9 anos, violentada e vítima de outras perversões por parte do pai (eu o chamo  de “pai” porque sempre tive presente as palavas de Deus quando diz: “Antes de conceber-te no ventre de tua mãe, Eu pronunciei o teu nome”. De forma que, mesmo este pobre coitado foi o meio através do qual Deus se serviu para que esta menina viesse ao mundo), se aproxima e me diz: “Sabe, padre Aldo? Olhando Jesus, eu perdoo todo o mal que meu pai me fez, mas fique comigo sempre aqui. Peço também que me confesse, porque no meu comportamento sou violenta e digo todos os palavrões que aprendi antes de vir para cá, junto com o senhor. Eu não quero estas coisas, mas não consigo evitar. Ajude-me”. Amigos, vocês têm ideia do juízo que estas palavras – “perdoo meu pai que abusou de mim” – carregam sobre cada um de nós? Mas, isso não é fruto do acaso, mas do fato de nós, educadores, termos o coração cheio daquelas palavras de Carrón. Palavras que me fazem abraçar vítimas e abusadores, sem tirar nada da responsabilidade de quem é o abusador... Mas, a “misericórdia divina tem braços grandes que acolhem todos que se dirigem a ela”.
Amigos, neste momento, temos necessidade apenas de reconhecer que somos pobres coitados, porém comovidos pela ternura de Deus. Como é possível não chorar de alegria fazendo Escola de Comunidade e ouvindo com que paixão Julián nos faz vibrar? Se não fosse assim, a minha vida com toda a carga de sofrimento que me circunda, seriauma coisa absurda. Enquanto que, vivendo circundado por amigos como Marcos, Cleuza, Julián de la Morena e muitos outros que estão aqui comigo, este lugar de dor, de acolhimento de vítimas de violência de todo tipo e da morte, esse lugar se torna a evidência de que Cristo ressuscitou. É bonito ver que a obra não nasce de um projeto, mas é um parto da realidade, a quem a liberdade é chamada a responder.
De verdade, a nossa não é uma companhia das obras, mas uma companhia de rostos tendidos ao Mistério que se torna obra; tanto é verdade que, mesmo os problemas mais duros – como o educar estas crianças vítimas da violência – se tornam simples e acabam acontecendo aqueles milagres comoventes, como crianças que, mesmo que profundamente marcadas, perdoam aqueles que abusaram delas.
Um abraço,
Padre Aldo.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Cartas do P.e Aldo 142

Asunción, 30 de abril de 2010.

Caros amigos,
vários me têm perguntado por que eu não escrevo mais como antes. A resposta é muito simples: é sempre mais necessário que nos eduquemos a seguir e a levar a sério o que Carrón nos ensina com o seu modo de viver o carisma de Giussani, enriquecido com o seu dom pessoal de entrar no coração da realidade, fazendo-nos colher toda a espetacular positividade que contém. É como se, olhando para ele, para a sua liberdade, para o seu modo de estar diante de Cristo, se percebesse sempre mais que, também para mim, é o mesmo.
“Olhar Cristo no rosto”: eis que nesta afirmação está contido todo o meu viver, estar diante dEle da manhã à noite. Estar diante dEle quando me levanto com mau humor e imediatamente preciso me colocar de joelhos para olhar no rosto a alvorada que desponta com um sorriso. Estar diante dEle para sair, fazer minha corridinha de meia hora para permitir que minha diabetes não brinque comigo... estar diante dEle rezando, possivelmente, os quatro mistérios do rosário para poder, mesmo que distraidamente, gozar da Sua vida tão bem sintetizada no rosário. Estar diante dEle tomando o café e, depois, correr, às 7h da manhã, para pegar as minhas crianças e levá-las para a escola, depois de ter dado um beijo em cada um delas - que tanto esperam - e depois de ter rezado com elas as orações diante de Nossa Senhora. Estar diante dEle quando, deixadas as crianças na escola, corro para a clínica onde, às 7h15, todos os dependentes da Divina Providência, a Chefe do hospital, esperam pela meia hora de adoração, dividida entre a procissão e a comunhão aos doentes, as leituras do evangelho e um pensamento que desperte em cada um a mesma posição do coração que há já mais de uma hora e meia enche o meu. Estar diante dEle quando me ajoelho diante de cada doente, dando-lhe um beijo no rosto e fazendo-lhe um carinho. É o momento mais bonito do dia: com a Eucaristia nas mãos, de joelhos diante de cada paciente. É reviver, em cada momento, o Mistério da paixão, morte e ressurreição. Este Mistério tão concreto do meu cotidiano, um cotidiano que começa cedo e termina tarde, quando, depois de ter dado um beijinho de boa noite nas minhas crianças (nem sempre consigo ir à Casinha de Belém, porque sempre tem um imprevisto), retorno para a clínica, para saudar as minhas pequenas hóstias brancas (Vítor, Cristina, Celeste, Aldo, Mário), frequentemente ainda acordados. Beijo-os, me ajoelho diante de cada um e, depois, tocando o rosto de um por um, faço o sinal da cruz. São o meu Jesus, o que mais sofre e que mais me conforta. Só depois de ter saudado este Crucifixo que são os meus pequenos doentes, é que saúdo Jesus Eucarístico e vou para a cama, tentar dormir... porém, olhando para Ele.
Vocês sabem quantas vezes eu retomo esse trecho da Escola de Comunidade no qual Giussani fala de olhar Cristo no rosto, e quantas vezes leio, releio as coisas que Carrón nos diz.
A surpresa mais bonita (vocês podem ler isso em Tempi) foi a visita de Marcos, Cleuza e Bracco (responsáveis do Brasil) na semana passada. Eu tinha voltado de uma longa viagem e todos sentíamos um grande desejo de nos vermos. Assim, eles pegaram o primeiro avião e vieram para cá. Eu estava muito cansado e precisava vê-los, estar com eles, porque, como diz Cleuza, “frequentemente, na vida, podemos nos encontrar no fundo de um poço. Então, você tem duas possibilidades: ou olhar em volta e se sentir sufocando, ou levantar os olhos e ver aquele metro quadrado de céu azul que lhe faz pedir, gritar por ajuda”. E, de fato, aconteceu assim: eles foram, para mim, aquele pedaço de céu azul. Mas, não porque tivéssemos feito um dia de retiro espiritual, mas pelo simples fato de que nos fizemos companhia, ajudando-nos com o texto de Carrón, publicado no jornal Repubblica, na Páscoa: “Feridos, voltamos a Cristo”. Todos somos feridos e, por isso, somos necessitados de voltar àquele Tu, àquele estar diante dEle.
Foi muito bonito, porque, vivendo com eles o que eu vivo todos os dias, foi como entrar ainda mais no coração da questão: a paixão pela glória de Cristo. E além do mais foi bonito porque mesmo os meus confrades vibram sempre mais com esta beleza. Porém, em Tempi, vocês vão encontrar todos os detalhes daqueles dias.
No dia primeiro de maio, a clínica faz 6 anos. Acompanhei mais de 700 pacientes para a morte entre os braços de Jesus. Em seis anos, a morte se tornou minha amiga e não tem mais o rosto feio como sempre eu a vi. Pensem: é o momento no qual você está para encontrar Jesus, aquele Jesus pelo qual eu acabei aqui, aquele Jesus pelo qual, graças a tantas misérias vividas, aprendi a tocar com a mão o significado do Horto do Getsemani, aquele Jesus que se serviu e se serve de um pobrezinho como eu, com um temperamento único e, frequentemente, com uma emotividade tão variada, mas que está bem ancorada na certeza de que nenhum problema é maior do que a resposta. Que nenhum problema é maior do que Jesus.
Uma enfermeira me dizia ontem: “O que move a minha vida é o milagre: tudo é, para mim, um milagre... do modo com o qual tiro uma fralda dos idosos ao modo como os limpo etc. A fé não é dizer ‘ou conta só até aqui’, mas a certeza de que Deus cumpre e, por isso, pede ajuda para você. Se eu estou aqui é porque o Senhor me quer aqui. A fé é a esperança que se cumpre. Por exemplo, quando chegam os mendigos, alguém poderia dizer: ‘Mas, estes não mudarão nunca, é inútil querer educá-los’. Porém, para mim, não é assim, porque tenho a certeza que nasce da fé de que, com o meu afeto, a esperança que algo lhes aconteça se tornará verdadeira. De fato, depois de meses, aprenderam a usar o banheiro, a aceitar os remédios, a ficar juntos na mesa usando mesmo o guardanapo. O milagre é o fruto da insistência da fé que é a esperança. Depende de mim que isso aconteça, porque se a minha liberdade não deixa uma fissura aberta para a graça, nem mesmo Deus pode fazer alguma coisa”.
E é belo ver como estas 150 pessoas que trabalham aqui, dependentes diretos do Pai Eterno, aprendam a viver assim o trabalho, aprendam a estar diante de Cristo e vejam, cada dia, os sinais da Sua Vitória. Chegam cheios de confusões e, no tempo, educados a estar diante dEle, mudam, se tornam humanos.
O mês de maio está às portas, e eu peço a vocês que rezem a Nossa Senhora para mim e para os meus doentes e para todos este povo que vive e sofre aqui.
Uma nota final: ontem, como a cada 15 dias, encontramos os doentes de AIDS para ficar com eles, porque o homem é uma companhia. Este é um índio, transexual com cabelos (tingidos) louros. É meu afilhado de crisma. É um daqueles que, graças ao afeto e aos remédios, de moribundo que era recomeçou a viver. Pois bem, veio de longe, tão pobre que disse: “Para vir ficar com vocês, em companhia, peguei emprestado um par de sapatos, porque, há meses, que ando descalço, porque não tenho nada, muitas vezes nada nem para comer”. Que comoção! É verdade: quando se há uma pergunto grande na vida, se busca uma companhia adequada e, não havendo sapatos para alcançá-la, pede-se emprestado a quem tem. Pergunta pequena, homens anãos. Pergunta grande, encontram-se gigantes.
“Feridos, buscamos Cristo”... levemos isso a sério... se não se está ferido... não se pede sapatos emprestado...
Com afeto,
Padre Aldo

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Fazer o Cristianismo 03

"Se uma pessoa não entende o que é a vida, não chega nunca a este nível de desafio [refere-se à resposta dada por um professor a um jovem que lhe perguntou por que ele o convidava a um determinado gesto realizado por CL: "Porque você tem uma ferida", referindo-se ao fato de que seu pai morrera, alguns anos antes, vítima da AIDS. Daquele momento em diante, o aluno não parou mais. E o professor terminou seu testemunho dizendo: "Por que digo isso? Porque a companhia não deve nunca se tornar uma anestesia para a ferida"; ndt]. A pessoa deve ter uma familiaridade com a vida para isso. Na medida em que a pessoa vive a vida, tem uma familiaridade, pode saber onde se encontram de verdade os nós para serem desfeitos. Então, é inútil insistir. Como quando você prende o pé e lhe dizem: 'Corre! Corre!'... A questão é soltá-lo, porque então conseguirá correr! Encontrar a modalidade - se o Senhor nos dá a luz - para fazer o movimento justo para soltá-lo: este é o verdadeiro desafio! Porque então você conseguirá correr. [...] O que isso quer dizer? Que o nosso movimento não nasce do êxito! Nasce do termos sido olhados assim! A questão é que, pelo contrário, tantas vezes o nosso movimento nasce da tentativa de sucesso. E quando não acontece segundo as nossas medidas, paramos de tentar. Porque tínhamos um projeto! Os jovens, que são mais inteligentes que nós, sabem disso muito bem. A questão é: qual é a fonte do movimento? Se eles percebem que é um movimento verdadeiramente gratuito, como estamos aprendendo na Escola de Comunidade [refere-se ao texto que, no momento, está sendo trabalhado nos encontros de Escola de Comunidade no mundo inteiro: o trecho sobre a caridade do livro de Luigi Giussani, "É possível viver assim?"; ndt], que é de fato por puro amor! Porque é este que comove o outro. Tenho aqui comigo um trecho de um texto escrito pela pianista russa Maria Judina: 'Exatamente no meu grupo tinha um chato, um jovenzinho de oito ou nove anos, praticamente sem família, que vivia junto com parentes de quem não gostava e por quem não era amado, de nome Akinfa; era antipático, enchia a paciência de todos, tirava sarro das crianças judias, brigava e assim por diante. Todos nós, e sobretudo eu que tinha uma responsabilidade maior com ele, o exortavam com a palavra e com o exemplo [não apenas com a palavra!], mas uma vez Afinka ultrapassou todos os limites: bateu em um de seus companheiros, xingou os adultos, cometeu um furtozinho e, assim, foi decretada a sua expulsão. Quando veio o momento de cumprir a condenação, o momento em que iria embora, eu, não sei como, desatei a chorar, e neste momento aconteceu o segundo nascimento de Afinka: desatou a chorar também, pediu perdão a todos, devolveu o que havia furtado e, daquele momento em diante, começou a me seguir sempre para onde eu ia como um cãozinho fiel, explicava a todos que, na sua vida, nunca tinha visto uma sua professora chorando por um aluno, que chorasse, para dizer com as suas palavras, pela alma e pela vida de uma criança mimada; esse era exatamente o sentido do seu maravilhamento e do seu desejo de se recolocar no caminho'. Isto não é para os jovens, mas para nós. É para nós! Então, quanto mais isso é familiar na nossa vida, tanto mais nos damos conta de que não é um problema de idade, de técnicas, mas é o mesmo para cada um."
(CARRÓN, Julián. Fare il cristianesimo. Tracce. 2010, p. 4)

sábado, 3 de abril de 2010

Cartas do P.e Aldo 140





Asunción, 29 de março de 2010.

Caros amigos,
Na Escola de Comunidade se fala da caridade como “dom comovido de si”. Hoje, Domingo de Ramos, a liturgia nos permite tocar com a mão esta verdade, que só pode se tornar carne no relacionamento consigo mesmo e com os outros.
Mando-lhes três fotos: são a descrição concreta da caridade como dom comovido de si. Na cadeira de rodas está a pequena Lourdes, com metástases em todo o corpo. Tem nove anos e é a segunda filha de 5 irmãos. Move apenas os olhos, sorri sempre, levanta a mão direita com a qual tenta levantar também o braço esquerdo. Chegou aqui para morrer, segundo os médicos, porém – por graça de Deus – não se diz que isso possa acontecer. Posso dizer – entre parênteses – que muitos dos doentes “terminais” que vieram para cá, agora estão em suas casas ou, no caso daqueles abandonados por causa da AIDS, estão na nossa fazenda. Milagre da caridade, como dom comovido de si. A pequenina, a minha Lourdes (que me ama tanto), é assistida pela jovem mãe 24 horas por dia. Um dia, perguntamos a Lourdes: “Você gostaria de receber Jesus, fazendo a primeira comunhão?”... e o seu olhar se iluminou. Preparando-a para a primeira comunhão, nos demos conta de que queria um presente: que os seus pais recebessem o Sacramento do Matrimônio. A Irmã Sônia falou com eles que, diante do pedido de sua filha, anuiram. E assim, hoje, Domingo de Ramos, aconteceu o milagre. Chegado o momento do “sim”, a pequena Lourdes começou a chorar de comoção, de felicidade. Tentava levantar a cabeça para olhar no rosto os seus pais, mas não conseguia. Os seus olhos brilhavam, comovidos e felizes. Uma vez mais, colhi duas coisas: a caridade é dom comovido de si e, se o grão de trigo não morre, não dá fruto. O martírio de Lourdes é a origem da piedade divina que permitiu dar o voto sacramental àquela união. Lourdes deu a vida pelos seus pais.
Como eu gostaria, caros amigos, que vocês pudessem apenas imaginar a alegia da pequena, dentro de toda a sua dor, no ouvir o “sim” para a toda a vida daquele jovem pai e daquela jovem mãe!
Quando chegou o momento da sua pimeira comunhão, vocês deveriam ver o rosto de Lourdes. O modo com o qual recebeu Jesus é indescritível. A mim restaram as lágrimas e a incapacidade de falar. Vocês entendem o que quer dizer “dom comovido de si”? O que quer dizer “eu sou Tu que me fazes”? O que significa “olhar Cristo no rosto”? Olhem as fotografias: é Jesus que, no início da Semana Santa, nos faz partícipes da Sua glória. Como eu gostaria que todos pudessem entender também a beleza do Sacramento do Matrimônio, pelo qual a minha pequena Lourdes deu a vida para os seus pais! Olhando para ela, eu pensava nos meus 32 filhinhos da Casinha de Belém que, a cada dia, me enchem de cartinhas que dizem a coisa mais bela e simples do mundo: “Para o meu papai Aldo: amo você, porque você é o melhor papai do mundo”, com um coração vermelho desenhado. Alguém, com razão, poderia dizer: “Exagerado!”. Mas, para quem não teve ninguém ou foi violentado, percebe logo que a virgindade é a única forma de paternidade e torna o homem capaz de um amor impossível sem esta graça.
Boa Páscoa, caros amigos.
Confio-me às orações de vocês.
Padre Aldo

segunda-feira, 29 de março de 2010

Muito maior que o pecado

Na última Escola de Comunidade, padre Carrón, lendo o editorial de Passos dedicado à “carta que o Papa escreveu diante de um fato tão brutal como o abuso de crianças”, sublinhou que esta carta “é um testemunho da ‘comoção’ da qual fala a Escola de Comunidade, que nos permite olhar tudo, sem eliminar nada, até chegar ao juízo. Visto que todos os jornais carregam um olhar diferente, nós não podemos fazer esta Escola de Comunidade sem falar e sem olhar esse fato de um outro modo, ajudados pelo testemunho do Papa, pois a pergunta é: ‘De onde nasce esse olhar?’”.
Por isso é muito importante que nesses dias leiamos, tornemos conhecido e difundamos o máximo possível nos ambientes o texto publicado.

Haveria muito o que discutir a respeito do que levou Bento XVI a escrever a Carta aos católicos da Irlanda. Poderíamos fazê-lo partindo dos fatos, dos números e dos dados que – lidos corretamente – falam de uma realidade muito menos imponente do que dá a entender a feroz campanha encetada pela mídia; ou das contradições dos que, nos mesmos jornais, acusam – com razão – certas coisas ignóbeis, mas algumas páginas depois justificam tudo e todos, sobretudo em matéria de sexo. Seria possível, e talvez isso ajudasse a entender melhor o contexto de uma Igreja sob ataque, independentemente dos seus erros. Só que o gesto humilde e corajoso do Papa levou a coisa para outros patamares, para o centro da questão.
Claro, a ferida existe. E é gravíssima. Do tipo da que levou Cristo a dizer aquelas palavras de fogo: “Quem escandalizar um só destes pequeninos que creem em mim, seria melhor que lhe pendurassem no pescoço uma pedra e o jogassem no abismo...”.
Há coisas torpes na Igreja. Isso foi reconhecido, de modo claro e forte, pelo próprio Joseph Ratzinger na Via Sacra de cinco anos atrás, pouco antes de se tornar Papa, e que nunca parou de lembrar depois, com realismo. Há o pecado, inclusive grave. Há o mal e o abismo de dor trazido pelo pecado. E há também a exigência de se fazer todo o possível – até com dureza – para frear esse mal e reparar essa dor. O Papa o está fazendo, como prova eloquentemente a sua Carta, ao lembrar que os culpados terão de responder “diante do Deus onipotente, como também perante os tribunais” humanos.
Mas, justamente por essas razões, o verdadeiro centro da questão, o focus esquecido, está em outro lugar. A par de todos os limites e dentro da humanidade ferida da Igreja há ou não há algo maior do que o pecado? Radicalmente maior que o pecado? Há algo que pode romper a medida inexorável do nosso mal? Algo que, como escreve o Pontífice, “tem o poder de perdoar até o mais grave pecado e de tirar o bem inclusive do mais terrível dos males?”.
Esse é o ponto: “Deus teve compaixão do nosso nada”, lembrava Dom Giussani numa frase usada por CL no cartaz de Páscoa: “Não só: Deus se comoveu com a nossa traição, com a nossa rude pobreza, esquecida e traidora, com a nossa mesquinhez. É uma compaixão, uma piedade, uma paixão. Teve piedade de mim”.
É isso que a Igreja traz ao mundo, não certamente por mérito, bravura ou coerência dos seus membros: a compaixão de Deus é pela nossa mesquinhez. Algo muito maior do que os nossos limites. A única coisa infinitamente maior do que nossos limites. Se não partirmos daí, não compreenderemos nada. Tudo fica incompreensível, literalmente.
Costumamos nos esquivar dessa compaixão, tentar escapar dela. Às vezes é dentro da própria Igreja que se reduz a fé a uma ética, e a moralidade a um impossível recurso solitário às leis, parecendo até que sentir necessidade desse abraço seja uma coisa de que deveríamos nos envergonhar. Mas se nos esquecermos de Cristo, se descartarmos totalmente a medida diferente que Ele introduz no mundo agora, através da Igreja, não teremos mais os termos necessários para entendermos e julgarmos a própria Igreja. Então, fica fácil confundir a atenção às vítimas e à sua história com silêncio conivente, e a prudência em relação aos culpados (verdadeiros ou presumidos) – acusados, talvez, por vozes que só se levantaram décadas depois – com a vontade de criar “cortina de fumaça” (o que, às vezes, evidentemente, ocorreu mesmo). Torna-se quase que inevitável falar mal do celibato, sem mencionar sequer o valor real da virgindade. E torna-se impossível entender por que a Igreja pode ser dura e, ao mesmo tempo, materna com os seus sacerdotes que erram. Pode puni-los com severidade e exigir que paguem a pena e reparem o mal feito (é o que ela vem fazendo, não de hoje, pois sempre o fez), mas sem romper – quando possível – o elo de ligação, por ser a única coisa que poderá redimi-los. Pode pedir aos seus filhos “sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai”, não para exigir deles algo impossível, mas para despertar neles a tensão a viver a misericórdia com que Deus nos abraça (“sede misericordiosos como é misericordioso o Pai que está nos céus”). É justamente por isso que a Igreja pode educar. Que, no fundo, é a verdadeira questão posta em discussão pelos que estão acusando (“vejam como até os padres erram, e erram feio! Como podemos confiar a eles as nossas crianças?”), como se o título de mestra da Igreja dependesse da coerência dos seus filhos, e não dEle. De Cristo. Da Presença que – em meio a todos os erros e horrores cometidos – torna possível no mundo um abraço como aquele do Filho pródigo retratado por Chagall no mesmo cartaz de Páscoa. Ali, junto com a frase de Giussani, há uma outra, de Bento XVI: “No fundo, converter-se a Cristo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto-suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência, a exigência do seu perdão e da sua amizade”.
É isso: o abraço de Cristo, dentro da nossa humanidade ferida e indigente e para além do mal que podemos cometer. Se a Igreja – com todos os seus limites – não pudesse oferecer isso ao mundo, inclusive às vítimas dessas barbaridades, então sim estaríamos perdidos. Porque o mal continuaria a existir, mas aí seria impossível vencê-lo.

Comunhão e Libertação

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Cartas do P.e Aldo 25

Asunción, 13 de janeiro de 2009.

Caros amigos,
A realidade se impõe e obedecer a ela é a coisa mais dramática, difícil e bela. Difícil, mas simples: basta olhar para ela. Difícil porque partimos dos estados de ânimo, do humor, dos preconceitos, do quanto respiramos o sistema dominante – mais ou menos conscientes disso. Eis então alguns fatos que me comovem, porque a realidade é mesmo bela e dramática.
1. Voltei do Brasil, há pouco. O calor é terrível, aqui, e estavam me esperando para a segunda parte da Colônia de Férias de verão. A primeira parte tinha sido em dezembro. Deixo a vocês imaginar o que quer dizer, para mim, com 62 anos, com um calor impressionante, colocar-me imediatamente ao trabalho com as crianças mais todo o resto. Porém, a realidade é amiga e eis-me aqui, desde as nove da manhã, no meio das crianças. A educação só acontece assim: estando e comunicando a paixão pela realidade. Como posso deixar todas estas crianças na rua ou vendo televisão etc.? Não, a realidade pede uma outra coisa... e, então, deve-se obedecer.
Por isso, digo sempre que é muito mais difícil obedecer à realidade que aos superiores. Neste caso, a realidade me pede uma coisa que os superiores não pediriam e um burguês diria: “estou pronto... fiz tudo o que tinha sido pedido e, sendo que é verão, mereço, agora, umas férias”. A realidade, ao não me deixar “repousar”, me faz repousar, porque, com este calor toda manhã, com as crianças que são um terremoto, devo colocar-me de joelhos... e este é o repouso.
2. As férias com os Zerbini... um mundo que sempre vivi aqui com alguns amigos, mas que certamente – desculpem-me se sou impertinente – não via mais desde quando Giussani, por causa da doença, não pôde mais guiar o movimento. Dou-me conta de que somente Carrón poderia – e nos está testemunhando isso – fazer-nos reviver, rejuvenescer no carisma de Dom Gius. Meu Deus! Não tem uma única palavra desse homem que não me faça “chorar” de comoção. Com ele, voltei ao início, a quando encontrei Giussani. Como é evidente que, para os simples de coração, ele tem uma única preocupação: levar-nos para o coração do carisma. Com ele, Giussani não é mais um mito ou um “era uma vez...”, como nas fábulas, mas alguém que existe hoje, alguém que é possível hoje, que acontece hoje. O encontro com os Zerbini foi viver com intensidade esta posição, esta aventura. Depois de anos em que vivi quase sozinho ou com poucos amigos a aventura da primeira hora, da grande história dos inícios e que os velhos como eu – sim ou sim – se recordam; depois desses anos, reencontrei, de modo surpreendente e comovente, como João e André, o rosto humano do Mistério. Olhar para os Zerbini foi rever a minha humanidade. Olhando para eles e, com eles, olhando Carrón, o meu eu se manifestou a mim, uma vez mais, em todo o seu esplendor. Alguns exemplos:
a) o entusiasmo pela realidade que reconhece em tudo os sinais inconfundíveis de Cristo. Passamos horas e mais horas falando da realidade, quer dizer, falando de Cristo, porque, como diz São Paulo ao Colossenses, “a realidade é o corpo de Cristo”. Ele não diz que “o corpo de Cristo é a realidade”. É partindo da realidade, na sua totalidade, que posso tocar e abraçar o leproso que tenho na clínica, ou o doente de AIDS com tuberculose. Se fosse o contrário, eu teria uma imagem de Cristo que não me permitiria fazer nada disso. Com Cleuza, Marcos e Bracco (responsável nacional de Comunhão e Libertação no Brasil; ndt), viajamos horas de carro, com um calor que, para mim, é um sofrimento, porém se nos darmos conta, porque estávamos falando de tudo e em tudo era claríssima a Presença de Cristo. Era como, quando comia, saia de férias, fazia uma boa caminhada, em Corvara, com ele. Ele nos fazia saborear Cristo em tudo. Nele, tudo era unido. Ele se comovia com as agulhas dos pinheiros. Velhos amigos, vocês se lembram ou não? Ou será que nos tornamos – como disse Cleuza – os exegetas, os intermediários de Giussanie ou da Escola de Comunidade?
Com os Zerbini é impossível reconduzir as coisas a Cristo, porque eles nos fazem descobrir dentro de todas as coisas a res, a presença de Cristo.
b) o ímpeto missionário. Vocês se lembram quando nós fazíamos um mar de filipetas, ou quando íamos para a praia ou para a montanha para panfletar, ou para vender as revistas, quando uma comunidade visitava a outra, quando se rezava “as horas” (refere-se às horas litúrgicas da tradição da Igreja – basicamente, Laudes, Hora Média, Vésperas e Completas –; ndt) na frente da escola, na universidade, quando a vida era “uma audácia ingênua”, como dizia o Gius para se referir ao ímpeto missionário? Vocês se lembram quando a gente julgava tudo e se retinha o valor? Vocês se lembram quando, em todos, o ideal da virgindade fascinava e o desejo de missão queimava a “bunda”? Pois bem, para mim, sempre ficou assim por pura garça, mas hoje vejo a mesma coisa brilhar nos Zerbini. Eles são aqueles que a gente era, mas com um maturidade impressionante. Eles fazem o que a gente – burgueses e cômodos, como diria a Cleuza – não faz mais. Vocês entendem como o Brasil inteiro está marcado por esta presença? Vocês entendem por que só agora eu compreendo o que Paulo VI disse: “a América Latina é a esperança da Igreja”? Mas, como isso pode ser possível se, aqui, um bispo se tornou Presidente? Como, se toda a América Latina segue a teologia da libertação? Carrón, no Natal, nos falava do tronco seco do qual desponta o brotinho: é isto o que está acontecendo aqui, entre nós... aqui onde finalmente vejo a realização da profecia de Paulo VI. Estes homens que guiam mais de 100 mil pessoas – eu as vi e passei alguns dias com eles – estão carregando a semente de uma novidade destinada a dar a todos uma esperança, um ardor novo... sempre que somos “humildes e simples”, como nos lembra Carrón. A panfletagem que eles fizeram em São Paulo – dois milhões de panfletos – me faz reviver o que sempre vivi. No Natal, aqui neste país pobre, nós distribuímos 20 mil panfletos com o artigo do Carrón. Agora vocês conseguem entender por que o Vice-Presidente da República, parlamentares, ministros, mendigos, bêbados, vêm para cá, para nos encontrar. Estando com os Zerbini e vendo tudo isto, eu revi toda uma história que, hoje, se parece com aquela que vivi há 35 anos atrás, mas com uma espessura única. A política: mas quem faz politica como eles, com a consciência que eles têm? Cleuza – o grito dos pobres, a “sindicalista” que grita – e Marcos – o deputado calmo, preciso, que escuta, acolhe e leva avante, com clareza e amor o grito dos pobres, no parlamento... Se os nossos políticos os vissem, se vissem o que a periferia de São Paulo, onde eles moram, está se tornando, se entusiasmariam... se fossem simples de coração.
c) a Escola de Comunidade. É a vida, a realidade que fala. Não se faz exegese. Uma breve leitura do texto, 15 minutos de meditação – ali mesmo, no salão com 2 mil pessoas – e, em seguida, perguntas ou relatos de fatos, de experiências de vida. E a vida muda.
d) o acolhimento: o coraçao de tudo é a necessidade, a necessidade de cada um. Por isso, me senti abraçado, acolhido. Não me deixaram sozinho nem por um segundo. Levaram-me para o aeroporto... E, como eu havia me enganado de aeroporto, e vendo-me nervoso, Cleuza me disse: “padre, é a Providência... é a Providência... assim, podemos ficar uma hora a mais com você”. E me levaram de um aeroporto a outro... E enquanto eu não desapareci por detrás dos vidros, eles não me deixaram. Era como se eu tivesse voltado 20 anos no tempo, quando Giussani me acompanhou a Linate (aeroporto em Milão; ndt) para tomar o avião para o Paraguai.
Marcos e Cleuza me levaram para conhecer o ginásio onde será realizado o encontro com Carrón, na metade de fevereiro. Pediam-me conselhos... que humildade! E, finalmente, decidiram, com 30 universitários, virem para Asunción, para ver o que o Mistério está fazendo aqui. Exatamente como sempre foi para mim, quando eu ia encontrar as pessoas, visitar comunidades, relatar experiências em todas as partes do que eu havia encontrado. O Brasil vem ao Paraguai e o Paraguai vai ao Brasil.
Onde existem pontos inconfundíveis do Mistério, quem é vir – homem – sente o fascínio da atração, do desejo de ir. Vocês se lembram, sexagenários como eu, de como era 30 ou 40 anos atrás? Agradeço a Deus que permitiu, a mim, pecador, ser ainda assim e ser feliz. Dessa forma, uma vez ao mês eu irei viver um dia com eles. Preciso olhar para eles, porque olhando para eles reencontro eu mesmo. Estes dias foram um presente, um belo presente para os meus 62 anos que estão chegando.
Tchau!
Com afeto
P.e Aldo

sábado, 11 de abril de 2009

Cartas do P.e Aldo 17

Posto uma carta do P.e Aldo, traduzida por amigas minhas de Belo Horizonte (muitíssimo obrigado à Frucchi e à Mariana!!!). Trata-se de uma carta enviada em dezembro do ano passado... e que vem bem a propósito nesse período litúrgico que estamos vivendo - da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Asunción, 07 de dezembro de 2008.

Caros amigos,
Acabei de celebrar a Missa no corredor do Bloco B do hospital, em frente às portas abertas dos quartos dos doentes terminais de câncer. Em um quarto estão duas belíssimas jovens mães. No outro dois homens muito mais jovens que eu. Comigo, um pequeno grupo de fiéis: enfermeiras, médicos, parentes e alguns doentes de AIDS, que lentamente, depois de serem trazidos para cá para morrerem e terem um lugar no cemitério, graças ao amor, à ternura, sem tirar nada dos antiretrovirais etc., estão se recuperando. Não esquecerei jamais o que me disse um jovem paciente, morto de AIDS: “padre, 90% da minha saúde quem me dá é o amor e a ternura, e 10% os remedios, a ciência.
Começo a missa e vejo o médico responsável, D.r Mazzoti, e o fisioterapeuta, D.r Solente, aproximarem-se de um dos dois homens doentes em situação muito grave – ou melhor, em condições gravíssimas. Chama-se Giovanni. Eles levantam sua cabeça, lhe dão de beber, o olham com ternura. Fico comovido. Além do mais o Evangelho do dia fala de Jesus que, depois de ter curado muitas pessoas, teve piedade da multidão que há três dias não comia e, então, tem medo de que, voltando a casa, desmaie pelo caminho (que ternura, que mimo, que homem o meu Jesus... e que soco no meu estômago pela minha burguesia) e, então, decide realizar a famosa multiplicações dos pães e dos peixes. Giovanni um pobre homem, com um gravíssimo câncer na garganta – que já lhe comeu a boca e o nariz... – chegou no hospital em estado de putrefação: da sua boca foram extraídos centenas de vermes brancos que lhe saiam também do nariz. Larvas depositadas pelas moscas quando estava na imundíce onde vivia. Os enfermeiros, a cada dia, o limpavam, tiravam esses vermes, com um amor que me ajuda a entender o Evangelho de hoje. Assim também o médico responsável e o fisioterapeuta, naquele momento de atenção a Giovanni, me remetem à mesma cena do Evangelho. Somente onde Cristo é um fato é possível essa doçura, esse sorriso até no tirar os vermes da garganta, da boca, do nariz de um pobre Cristo – porque Giovanni é Jesus em estado de putrefação... é Jesus, entendem? – fazendo-o se dar conta de que não coincide com os vermes, que ele não depende do câncer, nem da podridão da sua garganta, mas é relação com o Mistério, é “eu sou Tu que me fazes” ou “até os cabelos da minha cabeça estão todos contados”. Terminada a Missa, com os olhos vermelhos, aproximo-me e lhe dou um beijo com grande ternura, lhe dizendo: “Giovanni, sabe que Deus criou você para a felicidade e que não há nada, nem a sua condição, que impeça a verdade do que lhe estou dizendo?... então, rezemos”. E devagar os seus olhos se iluminam e seguem a minha boca, ainda sã e que pronuncia a oração.
À noite, tenho Escola de Comunidade. “A obediência é uma amizade”. Giussani fala do relacionamento entre Jesus e o Pai, ali no calvário. Torna-se dramaticamente simples, para mim, ler e explicar aquele texto... todos os dias o vejo nos fatos que acontecem na clínica, em mim. “Amigos, posso dizer-lhes uma coisa? Vocês sabem que os doentes, quando nem a morfina basta, lhes é sufficiente que eu me coloque perto deles e diga com eles uma oração ou ‘eu sou Tu que me fazes’ e o gemido ou o lamento se transforma em súplica e o rosto deles se ilumina?”.
É preciso acreditar no milagre – “até os cabelos da sua cabeça estão todos contados”. Olhem para Celeste... e ela não tem cabelos e os médicos a haviam enviado para a sepultura... mas vocês viram a foto que eu enviei a vocês? Ela tem, ao seu lado, um santinho de Giussani. Pois bem, domingo próximo ela fará sua primeira comunhão. Aquele homem que arriscou tudo neste pobre deprimido, hoje, na clínica, continua arriscando tudo sobre mim, mostrando-me a potência da sua presença, da sua santidade. Não teria nunca pensado que ele desejasse esta obra – que também não passava pela minha cabeça –, mas ele a quis para que a companhia que me fez continuasse, através de mim, a quantos, pelo mundo a fora, são “imundícies”. Este hospital é, para mim, a verificação cotidiana daquela companhia, daquela correspondência à minha – e também da de meus doentes – exigência de felicidade, de amor, de justiça, de beleza. Necessidade que as centenas de emails que recebo me lembram a cada dia.
“E diante de Joel é evidente, para mim, que é um Mistério, porque não está nas nossas mãos... mas me pergunto por que tanto sofrimento? Por que Deus, que nos faz, o permite? Como não vivê-lo somente como uma injustiça? Como é possível a vida ter um sentido assim? Como podemos estar diante disso? E, para ele, o que é o cêntuplo? Vem-me à mente o apóstolo Pedro que disse ‘somente Tu tens palavras de vida eterna; se formos embora, para onde iremos?’. Mas, às vezes, não me basta: me parece uma consolação... o que pode ajudá-lo e permitir que ele viva tudo de outra maneira? O que você quer dizer quando diz que vê neles a Presença do Mistério?... que, para ele, eu sou Jesus, que é o Paraíso aqui na terra?”. Estas são as perguntas dramáticas de uma mãe, diante do filho que sofre incessantemente... e são mil perguntas similares que me fazem, a cada dia, por email, de todos os cantos do mundo.
E não seria capaz de responder sem partir da minha vida, do meu nexo com a realidade – realidade que todos os dias me interroga, me remete ao Mistério no qual eu consisto, no qual tudo consiste. Mas seria abstrato tudo isso se não partisse do Crucifixo que me olha, na minha escrivaninha, que abraça o hospital inteiro com as suas enormes dimensões. A parede da clínica, que vejo da janela, sustenta um enorme crucifixo, que serve para recordar a todos a Sua Presença real nas 27 pessoas que ocupam os quartos, esperando a morte.
O Crucifixo, o Ressucitado, a Igreja, a Comunhão dos Santos, o Corpo Místico de Cristo são o conteúdo de cada dor, de cada gemido... por isso, quando o pequeno Victor geme, todo o corpo de Cristo – eu, vocês – vibra naquela dor redentora... quando Celeste sorri, todos nós sorrimos. Olhar o doente através da Hóstia que levo três vezes ao dia em procissão, é descobrir, ver, tocar com a mão o Sacrifício Pascal, che se renova continuamente na nossa vida. O porquê, os milhares de porquês entram no coração do eu, que coincide com o seu desejo de felicidade... um desejo de felicidade cuja dor, que parece uma contradição, é a condição para alcançá-la. Com certeza se não partíssemos do encontro com Cristo, visível no responsável do setor, no médico, na enfermeira, etc., no modo como olhamos o homem que sofre... dizer qualquer uma dessas coisas seria impossível. Não se pode viver a morte sem ser agarrados por Seu olhar. Mas, também esta manhã, depois de haver terminado a procissão, quando ouvi o grito “Edith morreu”, os olhos de todos marejaram, mas a certeza de que ela já estava diante de Cristo, da Sua Misericódia, nos encheu de letícia. Eu havia acabado de abençoá-la com o ostensório e seus ruídos se misturavam ao canto “Te adoramos Hóstia Divina, te adoramos Hóstia de amor”. Morreu logo depois... e era jovem, “comida” pelo câncer, porém sem nenhum gemido, sem nenhuma expressão de desespero. Foi-se, enquanto os filhos, chorando, já a olhavam nos braços de Jesus.
Viver a morte: este é o ponto. E somente a realidade que, como disse São Paulo, é Cristo, o permite e, então, todas as nossas perguntas encontram no Crucifixo, no Mistério Pascal, a única resposta. Mistério ao qual Cristo e a companhia nos educam continuamente, fazendo-nos viver a memória através dos sacramentos, da liturgia, da companhia.
Com afeto
P.e Aldo

terça-feira, 7 de abril de 2009

Cartas do P.e Aldo 15

Asunción, 06 de abril de 2009.

Caros amigos,
Estou aqui fazendo Escola de Comunidade com os meus três filhos: Cristina, de dois anos, doente com hidrocefalia, cega e com baixa audição, dorme e de vez em quando geme; Victor em condição igual a de Jesus na Cruz, geme constantemente, apertando com força os pequenos punhos (como sofre!); e o meu filho adotivo (Aldo; ndt), uma grande cabeça e quase corpo nenhum, que dorme rangendo os dentes. É a Vigília do Domingo de Ramos. Estou lendo aquele ponto da Escola de Comunidade onde Giussani diz (traduzo do espanhol como posso): “porque, minha amiga, lhe interessa o que acontece esta noite, esta noite passa e chega o dia de amanhã à noite... a maior parte das pessoas não chega aos 88 anos. MAS, DEPOIS, CHEGA A GRANDE GRAÇA DA GLÓRIA DE DEUS, A GRANDE GRAÇA FINAL”. Estas palavras me comovem. No fundo, estou aqui, com minhas crianças e meus doentes, esperando e vivendo já “a grande graça da glória da Deus, a grande graça final”. E como acontece tudo isso? Mediante a dor deste momento e depois da morte.
Hoje uma das minhas filhas morreu, outros estão perto. Não sei como dizer, mas estas palavras de Dom Gius tornam este lugar concreto, para mim, um lugar de esperança. “É preciso uma grande graça para esperar, ter recebido uma grande graça”, nos lembra Giussani, citando Péguy. Eis o que eu recebi: esta grande graça e, por isso, enquanto vejo os meus amigos sofrerem, sofro; enquanto vejo os meus moribundos prontos para partirem, meu coração aperta, mas estou feliz, verdadeiramente feliz.
O meu Victor está gemendo, é uma ferida só, parece um pouco como o Jesus de Mel Gibson (que nos mostra Jesus na sua dor mais aguda), e sofro, porém vocês imaginam a letícia que carrego no coração?! Porque onde há esperança, a dor e a letícia estão sempre juntas. Sinto-me ele, como ele. Sei que estamos prontos para quando chegar a grande graça da glória de Deus, a grande graça final. O que é a grande graça da glória de Deus? A segurança que o agora – a segurança certa e firme –, mediante a qual a realidade nos faz viver em cada instante – nós, os pobres doentes –, é para que Ele seja conhecido. E o milagre desta certeza é que todos os que vêm aqui mudam. O milagre é que a consciência de ser o corpo místico de Cristo se torna sempre mais forte e, neste corpo, eu, as minhas crianças, os meus moribundos, têm um papel essencial, como o de Jesus durante a Semana Santa. Que esperança de ressurreição o mundo teria, ou nós poderíamos dar ao mundo, se nós – pobre, doentes, crianças inocentes – não fóssemos mudados, apaixonados por Cristo? Temos o privilégio de ser a esperança para o mundo. Recebemos a grande graça de que fala Péguy. Cada dia, com o coração ferido, repito “eu sou Tu que me fazes” e, agora, aqui, está o coração de tudo: esta certeza. Uma certeza que não depende do meu estado de ânimo, ou do ter ou não a consciência – como as minhas crianças que gemem pela dor, mas não têm a consciência, ou como os meus moribundos. Mas isto não muda nada, porque é um fato... pelo Batismo nós somos “Tu que me fazes”. Existimos e sofremos apenas porque estamos certíssimos disto. E o digo a vocês, enquanto olho para as minhas três crianças, deitadas nas suas caminhas, na minha companhia.
Mas, pensem que bonito: “... mas, depois, chega a grande graça da glória de Deus, a grande graça final”. Como para Elza, que morreu há algumas horas e já está na visão de Deus. O Paraíso é mesmo belo – lhes garanto! –, porque o vejo aqui no meu hospital. Porque, o que é a esperança se não a certeza que toco agora, que vejo e que me enche o coração de letícia, que me faz “sonhar” com o dia em que, o que vejo agora, viverei plenamente. Cristina, Victor, Aldo, Ruben, Alice etc., eu mesmo, estamos no caminho final da vida, isto é, estamos perto da Beleza – para usar um exemplo: estamos perto do cimo das minhas caras Tre Cime di Lavaredo... quanta canseira para chegar lá em cima... quanta dor, no meu hospital... Mas, já vemos a meta e isto nos deixa alegres, mesmo que a morfina nos anestesie.
Amigos caros, gostaria que vocês pudessem, nesta Semana Santa, saborear aquelas palavras de Dom Gius, porque estão acontecendo já, no presente que estamos sendo chamados a viver: “mas, depois, chega a grande graça da glória de Deus, a grande graça final”.
Amigos, esta afirmação me comove até as lágrimas, enchendo-me de letícia. O meu hospital respira esta certeza... e, agora, o presente que a precede é cheio de uma grande familiaridade com Cristo. De fato, sou um privilegiado. Rezem para que eu seja sempre consciente disso. Mas, os meus doentes, que esperam o trem para o Paraíso, me lembram isso sempre: eles que, mediante o testemunho que são, me fazem entender muito bem o que é a esperança.
Boa Páscoa!
Padre Aldo