Mostrando postagens com marcador vocação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vocação. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Universidade: casa onde se busca a verdade da pessoa humana



Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Encontro com Jovens Professores Universitários

Discurso do Papa Bento XVI

Basílica do Mosteiro de São Lourenço do Escorial
Sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Senhor Cardeal Arcebispo de Madri,
Queridos Irmãos no Episcopado,
Queridos Padres Agostinianos,
Queridos Professores e Professoras,
Distintas Autoridades,
Meus amigos!
Com regozijo esperava este encontro convosco, jovens professores das universidades espanholas, que prestais uma colaboração esplêndida para a difusão da verdade em circunstâncias nem sempre fáceis. Saúdo-vos cordialmente e agradeço as amáveis palavras de boas-vindas e também a música executada que ressoou maravilhosamente neste mosteiro de grande beleza artística, testemunho eloquente, durante séculos, de uma vida de oração e estudo. Neste lugar emblemático, razão e fé fundiram-se harmoniosamente na pedra austera para modelar um dos monumentos mais renomados de Espanha.
Saúdo também com particular afeto a todos os que participaram, nestes dias, do Congresso Mundial das Universidades Católicas, em Ávila, sob o lema: “Identidade e missão da Universidade Católica”.
Encontrar-me aqui no vosso meio faz-me recordar os meus primeiros passos como professor na Universidade de Bonn. Quando ainda se sentiam as feridas da guerra e eram muitas as carências materiais, a tudo supria o encanto de uma atividade apaixonante, o trato com colegas das diversas disciplinas e o desejo de dar resposta às inquietações últimas e fundamentais dos alunos. Esta universitas, que então vivi, de professores e estudantes que procuram, juntos, a verdade em todos os saberes ou – como diria Afonso X, o Sábio – esse “ajuntamento de mestres e escolares com vontade e capacidade para aprender os saberes” (Sete Partidas, partida II, título XXXI), clarifica o sentido e mesmo a definição da Universidade.
No lema da presente Jornada Mundial da Juventude – “Enraizados e edificados em Cristo, firmes na fé” (cf. Col 2, 7) –, podeis também encontrar luz para compreender melhor o vosso ser e ocupação. Neste sentido, como escrevi aos jovens na Mensagem preparatória para estes dias, os termos “enraizados, edificados e firmes” falam de alicerces seguros para a vida (cf. n. 2).
Mas onde os jovens poderão encontrar estes pontos de referência numa sociedade vacilante e instável? Às vezes pensa-se que a missão de um professor universitário seja hoje, exclusivamente, a de formar profissionais competentes e eficientes que satisfaçam as exigências laborais de cada período concreto. Diz-se também que a única coisa que se deve privilegiar, na presente conjuntura, é a capacitação meramente técnica. Sem dúvida, prospera na atualidade esta visão utilitarista da educação mesmo universitária, difundida especialmente a partir de âmbitos extra-universitários. Contudo vós que vivestes como eu a Universidade e que a viveis agora como docentes, sentis certamente o anseio de algo mais elevado que corresponda a todas as dimensões que constituem o homem. Como se sabe, quando a mera utilidade e o pragmatismo imediato se erigem como critério principal, os danos podem ser dramáticos: desde os abusos de uma ciência que não reconhece limites para além de si mesma, até ao totalitarismo político que se reanima facilmente quando é eliminada toda a referência superior ao mero cálculo de poder. Ao invés, a genuína ideia de universidade é que nos preserva precisamente desta visão reducionista e distorcida do humano.
Com efeito, a universidade foi, e deve continuar sendo, a casa onde se busca a verdade própria da pessoa humana. Por isso, não é uma casualidade que tenha sido precisamente a Igreja quem promoveu a instituição universitária; é que a fé cristã nos fala de Cristo como o Logos por Quem tudo foi feito (cf. Jo 1, 3) e do ser humano criado à imagem e semelhança de Deus. Esta boa nova divisa uma racionalidade em toda a criação e contempla o homem como uma criatura que compartilha e pode chegar a reconhecer esta racionalidade. Deste modo, a universidade encarna um ideal que não deve ser desvirtuado por ideologias fechadas ao diálogo racional, nem por servilismos a uma lógica utilitarista de simples mercado, que olha para o homem como mero consumidor.
Aqui está a vossa importante e vital missão. Sois vós que tendes a honra e a responsabilidade de transmitir este ideal universitário: um ideal que recebestes dos vossos mais velhos, muitos deles humildes seguidores do Evangelho e que, como tais, se converteram em gigantes do espírito. Devemos nos sentir seus continuadores, numa história muito diferente da deles mas cujas questões essenciais do ser humano continuam a exigir a nossa atenção convidando-nos a ir mais longe. Sentimo-nos unidos a eles, nesta cadeia de homens e mulheres que se devotaram a propor e a valorizar a fé perante a inteligência dos homens. E, para fazê-lo, não basta ensiná-lo, é preciso vivê-lo, encarná-lo, à semelhança do Logos que também se encarnou para estabelecer a sua morada entre nós. Neste sentido, os jovens precisam de mestres autênticos: pessoas abertas à verdade total nos diversos ramos do saber, capazes de escutar e viver dentro de si mesmos este diálogo interdisciplinar; pessoas convencidas sobretudo da capacidade humana de avançar a caminho da verdade. A juventude é tempo privilegiado para a busca e o encontro com a verdade. Como já disse Platão: “Busca a verdade enquanto és jovem, porque, se o não fizeres, depois escapar-te-á das mãos” (Parmênides, 135d). Esta sublime aspiração é o que de mais valioso podeis transmitir, pessoal e vitalmente, aos vossos estudantes, e não simplesmente algumas técnicas instrumentais e anônimas nem alguns dados frios e utilizáveis apenas funcionalmente.
Por isso, encarecidamente vos exorto a não perderdes jamais tal sensibilidade e encanto pela verdade, a não esquecerdes que o ensino não é uma simples transmissão de conteúdos, mas uma formação de jovens a quem deveis compreender e amar, em quem deveis suscitar aquela sede de verdade que possuem no mais fundo de si mesmos e aquele anseio de superação. Sede para eles estímulo e fortaleza.
Para isso, é preciso ter em conta, em primeiro lugar, que o caminho para a verdade completa compromete o ser humano na sua integralidade: é um caminho da inteligência e do amor, da razão e da fé. Não podemos avançar no conhecimento de algo, se não nos mover o amor; nem tampouco amar uma coisa em que não vemos racionalidade; porque “não aparece a inteligência e depois o amor: há o amor rico de inteligência e a inteligência cheia de amor” (Caritas in veritate, 30). Se estão unidos a verdade e o bem, o estão igualmente o conhecimento e o amor. Desta unidade deriva a coerência de vida e pensamento, a exemplaridade que se exige de todo o bom educador.
Em segundo lugar, temos que considerar que a verdade em si mesma está para além do nosso alcance. Podemos procurá-la e aproximar-nos dela, mas não possui-la totalmente; antes, é ela que nos possui e estimula. Na atividade intelectual e docente, a humildade é também uma virtude indispensável, pois protege da vaidade que fecha o acesso à verdade. Não devemos atrair os estudantes para nós mesmos, mas encaminhá-los para essa verdade que todos procuramos. Nisto vos ajudará o Senhor, que vos propõe ser simples e eficazes como o sal, ou como a lâmpada que dá luz sem fazer ruído (cf. Mt 5, 13).
Tudo isto nos convida a voltar incessantemente o olhar para Cristo, em cujo rosto resplandece a Verdade que nos ilumina; mas que é também o Caminho que leva à plenitude sem fim, fazendo-Se caminhante conosco e sustentando-nos com o seu amor. Radicados nEle, sereis bons guias dos nossos jovens. Com esta esperança, coloco-vos sob o amparo da Virgem Maria, Sede da Sabedoria, para que Ela vos faça colaboradores do seu Filho com uma vida repleta de sentido para vós mesmos, e fecunda de frutos, tanto de conhecimento como de fé, para vossos alunos. Muito obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 19 de agosto de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

Jovens, a Igreja precisa da vossa fidelidade


Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Encontro com Jovens Religiosas

Saudação do Papa Bento XVI

Pátio de los Reyes de El Escorial
Sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Queridas jovens religiosas!
No âmbito da Jornada Mundial da Juventude que estamos celebrando, sinto uma grande alegria por poder encontrar-me convosco, que consagrastes a vossa juventude ao Senhor, e agradeço-vos a amável saudação que me dirigistes. Agradeço ao Senhor Cardeal Arcebispo de Madri por ter previsto este encontro num ambiente tão evocativo como é o do Mosteiro de São Lourenço do Escorial. Se a sua famosa Biblioteca guarda importantes edições da Sagrada Escritura e de Regras Monásticas de várias Famílias Religiosas, a vossa vida de fidelidade à vocação recebida é também uma maneira preciosa de guardar a Palavra do Senhor, que ressoa nas vossas formas de espiritualidade.
Queridas irmãs, cada carisma é uma palavra evangélica que o Espírito Santo recorda à sua Igreja (cf. Jo 14, 26). Não é em vão que a vida consagrada “nasce da escuta da Palavra de Deus e acolhe o Evangelho como sua norma de vida. Deste modo, viver no seguimento de Cristo casto, pobre e obediente é uma ‘exegese’ viva da Palavra de Deus. (…) Dela brotou cada um dos carismas e dela cada regra quer ser expressão, dando origem a itinerários de vida cristã marcados pela radicalidade evangélica” (Exort. apostólica Verbum Domini, 83).
A radicalidade evangélica é estar “enraizados e edificados em Cristo, e firmes na fé” (cf. Col 2, 7), que, na vida consagrada, significa ir à raiz do amor a Jesus Cristo com um coração sem divisão, sem nada antepor a esse amor (cf. São Bento, Regra, IV, 21), com uma doação esponsal como viveram os santos, vivida segundo o estilo de Rosa de Lima e Rafael Arnáiz, jovens patronos desta Jornada Mundial da Juventude. O encontro pessoal com Cristo que alimenta a vossa consagração deve se revelar, com toda a sua força transformadora, nas vossas vidas; e adquire uma especial relevância hoje, quando se “constata uma espécie de ‘eclipse de Deus’, uma certa amnésia, senão mesmo uma verdadeira rejeição do cristianismo e uma negação do tesouro da fé recebida, com o risco de se perder a própria identidade profunda” (Mensagem para a XXVI Jornada Mundial da Juventude de 2011, 1). Face ao relativismo e à mediocridade, surge a necessidade desta radicalidade que testemunha a consagração como uma pertença a Deus sumamente amado.
A referida radicalidade evangélica da vida consagrada exprime-se na comunhão filial com a Igreja, casa dos filhos de Deus que Cristo edificou: a comunhão com os Pastores, que propõem, em nome do Senhor, o depósito da fé recebido através dos Apóstolos, do Magistério da Igreja e da tradição cristã; a comunhão com a vossa Família Religiosa, conservando agradecidas o seu genuíno patrimônio espiritual e apreciando também os outros carismas; a comunhão com outros membros da Igreja como os leigos, chamados a testemunharem a partir da sua específica vocação o mesmo evangelho do Senhor.
Finalmente a radicalidade evangélica exprime-se na missão que Deus vos quis confiar. Desde a vida contemplativa que, na própria clausura, acolhe a Palavra de Deus em silêncio eloquente e adora a Sua beleza na solidão por Ele habitada, até aos mais diversos caminhos de vida apostólica, em cujos sulcos germina a semente evangélica na educação das crianças e jovens, no cuidado dos doentes e idosos, no acompanhamento das famílias, no compromisso em favor da vida, no testemunho da verdade, no anúncio da paz e da caridade, no trabalho missionário e na nova evangelização, e em muitos outros campos do apostolado eclesial.
Queridas irmãs, este é o testemunho da santidade a que Deus vos chama, seguindo de perto e incondicionalmente Jesus Cristo na consagração, na comunhão e na missão. A Igreja precisa da vossa fidelidade jovem, arraigada e edificada em Cristo. Obrigado pelo vosso “sim” generoso, total e perpétuo ao chamado do Amado. Que a Virgem Maria sustente e acompanhe a vossa juventude consagrada, com o ardente desejo de que interpele, encoraje e ilumine todos os jovens.
Com estes sentimentos, peço a Deus que recompense abundantemente a generosa contribuição da vida consagrada para esta Jornada Mundial da Juventude, e em seu nome vos abençoo de todo o coração. Muito obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 19 de agosto de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

Radicados em Cristo, damos asas à nossa liberdade



Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Festa de Acolhimento dos Jovens

Discurso do Papa Bento XVI

Praça de Cibeles, Madri
Quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Queridos jovens amigos!
Agradeço as carinhosas palavras que me dirigiram os jovens representantes dos cinco continentes. Com afeto, saúdo a todos vós que estais aqui congregados – jovens da Oceania, África, América, Ásia e Europa – e também a todos os que não puderam vir. Sempre vos tenho muito presente e rezo por vós. Deus concedeu-me a graça de vos poder ver e vos ouvir mais de perto, e de nos colocarmos juntos à escuta da Sua Palavra.
Na leitura que há pouco foi proclamada, ouvimos uma passagem do Evangelho onde se fala de acolher as palavras de Jesus e de pô-las em prática. Há palavras que servem apenas para entreter, e passam como o vento; outras instruem, sob alguns aspectos, a mente; as palavras de Jesus, ao invés, têm de chegar ao coração, radicar-se nele e modelar a vida inteira. Sem isso, ficam estéreis e tornam-se efêmeras; não nos aproximam dEle. E, deste modo, Cristo continua distante, como uma voz entre muitas outras que nos rodeiam e às quais estamos habituados. Além disso, o Mestre que fala não ensina algo que aprendeu de outros, mas o que Ele mesmo é, o único que conhece verdadeiramente o caminho do homem para Deus, pois foi Ele que o abriu para nós, que o criou para podermos alcançar a vida autêntica, a vida que sempre vale a pena viver em todas as circunstâncias e que nem mesmo a morte pode destruir. O Evangelho continua explicando estas coisas com a sugestiva imagem de quem constrói sobre a rocha firme, resistente às investidas das adversidades, contrariamente a quem edifica sobre a areia, talvez numa paisagem paradisíaca, poderíamos dizer hoje, mas que se desmorona à primeira rajada de ventos e fica em ruínas.
Queridos jovens, escutai verdadeiramente as palavras do Senhor, para que sejam em vós “espírito e vida” (Jo 6, 63), raízes que alimentam o vosso ser, linhas de conduta que nos assemelham à pessoa de Cristo, sendo pobres de espírito, famintos de justiça, misericordiosos, puros de coração, amantes da paz. Escutai-as frequentemente cada dia, como se faz com o único Amigo que não engana e com o qual queremos partilhar o caminho da vida. Bem sabeis que, quando não se caminha ao lado de Cristo, que nos guia, extraviamo-nos por outra sendas como a dos nossos próprios impulsos cegos e egoístas, a de propostas lisonjeiras mas interesseiras, enganadoras e volúveis, que atrás de si deixam o vazio e a frustração.
Aproveitai estes dias para conhecer melhor a Cristo e inteirar-vos de que, enraizados nEle, o vosso entusiasmo e alegria, os vossos anseios de crescer, de chegar ao mais alto, ou seja, a Deus, têm futuro sempre assegurado, porque a vida em plenitude já habita dentro do vosso ser. Fazei-a crescer com a graça divina, generosamente e sem mediocridade, propondo-vos seriamente a meta da santidade. E, perante as nossas fraquezas, que às vezes nos oprimem, contamos também com a misericórdia do Senhor, sempre disposto a dar-nos de novo a mão e que nos oferece o perdão no sacramento da Penitência.
Edificando-a sobre a rocha firme, a vossa vida será não só segura e estável, mas contribuirá também para projetar a luz de Cristo sobre os vossos coetâneos e sobre toda a humanidade, mostrando uma alternativa válida a tantos que viram a sua vida desmoronar-se, porque os alicerces da sua existência eram inconsistentes: a tantos que se contentam com seguir as correntes da moda, se refugiam no interesse imediato, esquecendo a justiça verdadeira, ou se refugiam em opiniões pessoais em vez de procurar a verdade sem adjetivos.
Sim, há muitos que, julgando-se deuses, pensam que não têm necessidade de outras raízes nem de outros alicerces para além de si mesmo. Desejariam decidir, por si sós, o que é verdade ou não, o que é bom ou mau, justo ou injusto; decidir quem é digno de viver ou pode ser sacrificado nas aras de outras preferências; em cada momento dar um passo à sorte, sem rumo fixo, deixando-se levar pelo impulso de cada instante. Estas tentações estão sempre à espreita. É importante não sucumbir a elas, porque na realidade conduzem a algo tão fútil como uma existência sem horizontes, uma liberdade sem Deus. Pelo contrário, sabemos bem que fomos criados livres, à imagem de Deus, precisamente para ser protagonistas da busca da verdade e do bem, responsáveis pelas nossas ações e não meros executores cegos, colaboradores criativos com a tarefa de cultivar e embelezar a obra da criação. Deus quer um interlocutor responsável, alguém que possa dialogar com Ele e amá-Lo. Por Cristo, podemos verdadeiramente consegui-lo e, radicados nEle, damos asas à nossa liberdade. Porventura não é este o grande motivo da nossa alegria? Não é este um terreno firme para construir a civilização do amor e da vida, capaz de humanizar todo homem?
Queridos amigos, sede prudentes e sábios, edificai as vossas vidas sobre o alicerce firme que é Cristo. Esta sabedoria e prudência guiará os vossos passos, nada vos fará tremer e, em vosso coração, reinará a paz. Então sereis bem-aventurados, ditosos, e a vossa alegria contagiará os outros. Perguntar-se-ão qual seja o segredo da vossa vida e descobrirão que a rocha que sustenta todo o edifício e sobre a qual assenta toda a vossa existência é a própria pessoa de Cristo, vosso amigo, irmão e Senhor, o Filho de Deus feito homem, que dá consistência a todo o universo. Ele morreu por nós e ressuscitou para que tivéssemos vida, e agora, junto do trono do Pai, continua vivo e próximo a todos os homens, velando continuamente com amor por cada um de nós.
Confio os frutos desta Jornada Mundial da Juventude à Santíssima Virgem, que soube dizer “sim” à vontade de Deus e nos ensina, como ninguém, a fidelidade ao seu divino Filho, que acompanhou até à sua morte na cruz. Meditaremos tudo isto mais pausadamente ao longo das diversas estações da Via-Sacra. Peçamos para que o nosso “sim” de hoje a Cristo seja também, como o dEla, um “sim” incondicional à Sua amizade, no fim desta Jornada Mundial e durante toda a nossa vida. Muito obrigado!

* Extraído do site do Vaticano, do dia 18 de agosto de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Jovens - arraigados e edificados em Cristo - manifestem a firmeza da sua fé



Viagem Apostólica a Madri
Por ocasião da XXVI Jornada Mundial da Juventude
18 a 21 de agosto de 2011

Cerimônia de boas-vindas

Discurso do Papa Bento XVI

Aeroporto Internacional de Madri Barajas
Quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Majestades,
Senhor Cardeal Arcebispo de Madri,
Senhores Cardeais,
Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Distintas Autoridades Nacionais, Autonômicas e Locais, 
Querido povo de Madri e da Espanha inteira!
Obrigado, Majestade, pela sua presença aqui, juntamente com a Rainha, e pelas palavras deferentes e amigas de boas-vindas que me dirigiu. Palavras que me fazem reviver as inesquecíveis demonstrações de simpatia recebidas nas minhas anteriores visitas apostólicas a Espanha, e de modo muito particular na minha recente viagem a Santiago de Compostela e a Barcelona. Saúdo cordialmente a todos vós que vos encontrais reunidos aqui em Barajas, e todos os que acompanham esta cerimônia através do rádio e da televisão. Uma menção muito agradecida desejo fazer aos que, com tanto zelo e dedicação, nas instituições eclesiais e civis, contribuíram com o seu esforço e trabalho para que esta Jornada Mundial da Juventude em Madri decorra em boa ordem e se cubra de abundantes frutos.
Desejo também agradecer de todo o coração a hospitalidade de tantas famílias, paróquias, colégios e outras instituições que acolheram os jovens vindos de todo o mundo, primeiro nas diversas regiões e cidades da Espanha e agora nesta grande cidade de Madri, cosmopolita e sempre de portas abertas.
Venho aqui para me encontrar com milhares de jovens de todo o mundo, católicos, interessados por Cristo ou à procura da verdade que dê sentido genuíno à sua existência. Chego como Sucessor de Pedro para confirmar a todos na fé, vivendo alguns dias de intensa atividade pastoral para anunciar que Jesus Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida. Para animar o compromisso de construir o Reino de Deus no mundo, no meio de nós. Para exortar os jovens a se encontrarem pessoalmente com Cristo Amigo e, assim, radicados na Sua Pessoa, converterem-se em Seus fiéis seguidores e valorosas testemunhas.
Esta multidão de jovens que veio a Madri... por que e para que vieram? Embora a resposta deva ser dada por eles mesmos, pode-se, no entanto, pensar que desejam escutar a Palavra de Deus, como lhes foi proposto no lema para esta Jornada Mundial da Juventude, de tal maneira que, arraigados e edificados em Cristo, manifestem a firmeza da sua fé.
Muitos deles talvez tenham ouvido a voz de Deus apenas como um leve sussurro, impelindo-os a procurá-Lo mais diligentemente e a partilhar com outros a experiência da força que tem na suas vidas. Esta descoberta do Deus vivo revigora os jovens e abre os seus olhos para os desafios do mundo onde vivem, com as suas possibilidades e limitações. Veem a superficialidade, o consumismo e o hedonismo imperantes, tanta banalidade na vivência da sexualidade, tanto egoísmo, tanta corrupção. E sabem que, sem Deus, seria difícil afrontar estes desafios e ser verdadeiramente felizes, colocando para isso todo o entusiasmo na consecução de uma vida autêntica. Mas, com Ele a seu lado, terão luz para caminhar e razões para esperar, não se detendo nem mesmo diante dos ideais mais altos, que hão de motivar os seus generosos compromissos para a construção de uma sociedade onde se respeite a dignidade humana e uma efetiva fraternidade. Aqui, nesta Jornada, eles têm uma ocasião privilegiada para colocar em comum as suas aspirações, trocar reciprocamente a riqueza das suas culturas e experiências, animar-se mutuamente num caminho de fé e de vida, no qual alguns se julgam sozinhos ou ignorados nos seus ambientes cotidianos. Mas não! Não estão sozinhos. Muitos da sua idade partilham os mesmos propósitos deles e, confiando inteiramente em Cristo, sabem que têm realmente um futuro à sua frente e não temem os compromissos decisivos que preenchem toda a vida. Por isso me dá imensa alegria poder escutá-los, rezarmos juntos e celebrar a Eucaristia com eles. A Jornada Mundial da Juventude traz-nos uma mensagem de esperança, como uma brisa de ar puro e juvenil, com aromas renovadores que nos enchem de confiança face ao amanhã da Igreja e do mundo.
Não faltam, certamente, dificuldades. Subsistem tensões e confrontos em aberto em muitos lugares do mundo, inclusive com derramamento de sangue. A justiça e o sublime valor da pessoa humana facilmente se curvam a interesses egoístas, materiais e ideológicos. Nem sempre se respeita, como é devido, o meio ambiente e a natureza, que Deus criou com tanto amor. Além disso, muitos jovens olham com preocupação para o futuro diante da dificuldade de encontrar um trabalho digno, ou por terem perdido o emprego, ou por ser este muito precário. Há outros que precisam de prevenção para não cair na rede das drogas, ou de uma ajuda eficaz, caso desgraçadamente já tenham caído nela. Há muitos que, por causa da sua fé em Cristo, são vítimas de discriminação, que gera o desprezo e a perseguição, aberta ou dissimulada, que sofrem em determinadas regiões e países. Molestam-lhes querendo afastá-los dEle, privando-os dos sinais da Sua presença na vida pública e silenciando mesmo o Seu santo Nome. Mas, eu volto a dizer aos jovens, com todas as forças do meu coração: Que nada e ninguém vos tire a paz; não vos envergonheis do Senhor. Ele fez questão de fazer-Se igual a nós e experimentar as nossas angústias para levá-las a Deus, e assim nos salvou.
Neste contexto, é urgente ajudar os jovens discípulos de Jesus a permanecerem firmes na fé e a assumirem a maravilhosa aventura de anunciá-la e testemunhá-la abertamente com a sua própria vida. Um testemunho corajoso e cheio de amor pelo homem irmão, ao mesmo tempo decidido e prudente, sem ocultar a própria identidade cristã, num clima de respeitosa convivência com outras legítimas opções e exigindo ao mesmo tempo o devido respeito pelas próprias.
Majestades, ao renovar-lhes o meu agradecimento pelas deferentes boas-vindas que me proporcionaram, desejo exprimir também o meu apreço e proximidade a todos os povos da Espanha, bem como a minha admiração por um país tão rico de história e cultura, pela vitalidade da sua fé, que frutificou em tantos santos e santas de todas as épocas, em numerosos homens e mulheres que, deixando a sua terra, levaram o Evangelho a todos os cantos do mundo, e em pessoas retas, solidárias e bondosas por todo o seu território. Trata-se de um grande tesouro, que vale a pena, sem dúvida, cuidar com atitude construtiva, para o bem comum de hoje e para oferecer um horizonte luminoso ao porvir das novas gerações. Embora atualmente haja motivos de preocupação, maior é a solicitude dos espanhóis pela sua superação com esse dinamismo que os caracteriza e para o qual contribuem grandemente as suas profundas raízes cristãs, muito fecundas ao longo dos séculos.
Daqui saúdo com grande cordialidade todos os queridos amigos espanhóis e madrilenos, e todos os que vieram de outras terras. Durante estes dias estarei junto de vós, mas tendo também muito presente todos os jovens do mundo, particularmente os que atravessam provações de diversa natureza. Ao confiar este encontro à Santíssima Virgem Maria e à intercessão dos Santos protetores desta Jornada, peço a Deus que abençoe e proteja sempre os filhos da Espanha. Muito obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 18 de agosto de 2011. Revisado e adaptado por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Cartas do P.e Aldo 202

Asunción, 26 de julho de 2011.

Caros amigos,
Tão logo terminaram os encontros com milhares de jovens, Marcos e Cleuza pegaram o avião, à meia-noite do domingo passado, e chegaram a Asunción. Dois dias passados juntos para poder dizer outra vez o nosso “sim” a Cristo. Encontramo-nos apenas para que reconfirmemos este sim. De outra forma, que sentido teria qualquer relação, ou tanta dificuldade num mundo que, para a grande maioria, as relações vividas são virtuais ou formais?
O nosso sim a Cristo não pode passar através do “mundo virtual”, porque Deus se fez companhia para o homem, fez-se carne. E sem a carne não existe nem Cristo nem o homem.
No dia seguinte, nos encontramos na nossa fazenda – toda a nossa Fraternidade. Depois de retomar o que havíamos dito um mês atrás e que Cleuza havia resumido com uma expressão belíssima em forma de pergunta: “somos cristãos ‘coca-cola’ ou homens apaixonados por Cristo?”. O Movimento, para nós, é uma coca-cola ou um dinamismo no qual a razão e o sentimento caminham juntos? Por que esta imagem da coca-cola? Porque quando tiramos a tampinha, faz pssssss e, em seguida, tudo acaba. Podemos usar também a imagem dos fogos de artifício.
Logo depois, começaram as intervenções. Uma pessoa em particular sublinhava seu drama pessoal, um drama que havia levado a sua pessoa à exaustão. “Tudo funcionava bem na minha vida, vivia a minha responsabilidade, jogando-me inteira até ao ponto de ser definida pelo meu trabalho. E fazendo assim eu pensava estar servindo bem a Deus. Mas, com o tempo, cedi... porque essa maneira de trabalhar para Deus me colocou em nocaute”.
Cleuza aproveita a deixa e, depois de ter descrito como também ela, antes de encontrar Carrón e o Movimento, passou anos determinada pela depressão, fruto de seu constante empenho em favor de Deus e dos pobres, disse: “Olha só, eu também vivi uma vida cheia de tormento e de amargura, convencida de estar servindo a Cristo. Tomei antidepressivos por anos, até ao dia em que encontrei o Movimento. Encontrando o Movimento, encontrei o valor da minha vida. Valor que percebi claramente no fato de que Deus não me criou para ser empregada doméstica, Sua empregada, mas por um ato de amor, me fez para Ele. Dentro do Movimento, entendi que eu não sou a serva de Deus, mas o objeto do Seu amor e, nesta perspectiva, os outros se tornam a minha alegria. Porque apenas se eu vibrar do amor de Cristo poderia ajudar os outros. Assim, os outros se tornam um presente para mim. Muitos me perguntam ‘por que vocês ainda vão ao Paraguai?’. Porque preciso escrever o meu sim a Cristo com vocês e vocês me foram dados. As coisas são guiadas por Ele e Ele conhece o número dos meus cabelos. (...) É preciso que tiremos nossas máscaras [e aqui ela conta a história de uma mulher humanamente destruída que ela havia tirado da rua e levado para sua casa, e do longo diálogo que teve com ela], para que Cristo se revele para nossa humanidade do jeito como Ele é. E é isto o que acontece na clínica para os doentes, que despojados de tudo pela doença pedem com urgência o próprio Cristo. Somente se arrancarmos as máscaras é que Cristo se revelará a cada um”.
O diálogo continuou por dois dias, compartilhando tudo. Mas, acredito que só isto já seja suficiente por agora, caros amigos. Seja como for, ou uma amizade tem este horizonte ali onde estamos, ou é uma cumplicidade mesmo se usarmos continuamente a palavra “Cristo”.
“Encontramo-nos para escrever o nosso sim a Cristo”. Que bonito!
Boas férias
Padre Aldo

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Cartas do P.e Aldo 201

Asunción, 13 de julho de 2011.

Caros amigos,
A desproporção entre o meu nada e o Mistério de que é feito o meu coração aumenta na medida em que vejo a minha impotência diante da minha necessidade e a de tantos que, sofrendo, desamparados, batem à minha porta. Que dor, que grito, dentro de mim, dirigido ao Mistério para que mostre o Seu terno rosto diante de três jovens mães internadas com câncer em estado terminal. Maria tem 29 anos e 5 filhos, Josefina tem 32 anos e 6 filhos, Cíntia tem 42 anos e 3 filhos. Três mulheres solitárias, sem maridos, que as abandonaram sozinhas com os 14 filhos. Enquanto eu celebrava a missa, achava que Josefina estava morrendo. Um câncer no pulmão parecia sufocá-la. Eu via a sua respiração difícil e olhava para a hóstia entre as minhas mãos. Sentia toda a sua dor e pedia a Jesus para olhá-la nos olhos, e pedia para dividir com ela a sua dor. Num certo momento, me aproximei dela e a acariciei e, depois de lhe ter dado a unção dos enfermos, logo depois de comungar, repousou. Quem sou eu, Senhor? Perguntava Santa Catarina. Nada. E quem és Tu? Tudo.
Ver a cada dia quem é o humano é dramático, e no entanto aquele homem que, num certo momento, para de viver é Cristo e, olhando para ele assim, não é possível não se ajoelhar. Porque, se aquilo de mais caro que você tem é Cristo, é verdade que aquele homem é aquilo de mais caro que você tem naquele momento. E ele é aquilo de mais caro que você tem porque ele, como eu, é aquilo de mais caro que existe para Cristo. E eu vi isto pela enésima vez neste sábado à noite, quando uma família, para se desfazer de uma parente idoso, com uma perna cheia de vermes numa grande ferida, passando de uma mentira para outra para nos enganar, conseguiu largar este pobre homem na frente da Clínica. Tinham nos procurado, enganando-nos, com o velhinho na carroceria aberta da camionete, enquanto eles estavam bem protegidos do frio na cabine. O motivo? Fede.
Nós o pegamos e eu vi naquele rosto triste a Presença do Mistério e, sem esperar nenhum médico e muito menos a assistente social (vocês sabem bem como, muito frequentemente, estes profissionais, antes de qualquer coisa, olham para a ficha clínica: se tem um diagnóstico e tudo preenchido corretamente). Jesus, que era um médico, caminhando pelas estradas e encontrando milhares de pacientes, olhava para quê? Para o diagnóstico? Para a ficha clínica? Ou escutava a dor dessas pessoas, olhava para sua fé e as curava imediatamente? Quanto a isto, sou um grosso: mando todos à merda muito facilmente. Eu olhava para ele e pensava: Deus se serviu também do engano dos parentes – que, há um tempo, o haviam abandonado num galinheiro – para mostrar a eles, para me mostrar que Ele não havia se esquecido daquele homem, daquele pobrezinho cuja realeza é objetiva, porque é relação com o Mistério.
Eu o beijei, levei para a Clínica. Os enfermeiros o transformaram. Porém, não havia leito livre e já era noite. Então, o Espírito Santo, sabendo que sou fraco de memória, me lembrou que, na Capela onde o Santíssimo fica exposto, onde já tem um mendigo doente, ainda havia um lugar. Assim, nós o levamos para ali e acho que Jesus gostou disso, porque agora Ele tem dois coroinhas cuidando dEle.
Enquanto isso, os parentes fugiram. Outra vez vi acontecer aquilo que o Salmo de Laudes do sábado diz: “pode uma mãe abandonar o seu filho?”, “Porém, eu não te abandonarei nunca”.
Experimentei isto na segunda-feira, quando uma adolescente que matou o seu companheiro quis renunciar ao seu filho, nascido aos 7 meses e que, agora, tem já 3 meses de vida. Ela vive na nossa casa de acolhida para meninas e adolescentes grávidas. Tive que ir ao juizado de menores com ela e com a advogada. Que dor ouvir a menina dizer ao juiz que me cedia o seu filho para poder voltar para a prisão de menores. Falava com uma frieza terrível e, comovido, eu olhava para o bebê entre os meus braços. O menino era como um lixo, e era maltratado por ela.
Terminada a aventura da adoção, voltamos para casa. Agora, Deus me fez, pela enésima vez, pai deste pequeno. E ela, esta pobre garota, voltará para a prisão para terminar a pena que poderia ter sido descontada aqui, conosco, na companhia do seu filho. Padre Paolino, depois do que aconteceu, me disse, pensando no que perde e ganha: “Nem mesmo a beleza sem Cristo consegue mover o coração de uma pessoa”. Você pode oferecer a ela o lugar mais bonito do mundo, mais limpo, mas sem o encontro com Cristo até mesmo uma campo de concentração é mais atraente.
Finalmente, uma notícia interessante no dia de São Bento: apresentou-se um jovem de 24 anos, rico, deserdado pela família e expulso de casa porque queria se tornar padre. Graduado em filosofia e com outros títulos. Chegou aqui graças ao semanário que publicamos e que ele lê (como é importante ter um espaço nos jornais laicos com um semanário “leigo”, ou seja, católico). Quer ser sacerdote porque está fascinado com a experiência que vibra no jornalzinho que publicamos.
Olhei para ele com muito distanciamento, mesmo porque, nestes anos, muitos chegaram aqui com este desejo, mas depois, diante da minha proposta, não voltaram mais. Eu o escutei e, em seguida, lhe perguntei: “Você gosta das garotas?”. Ele olhou para mim surpreso. E eu lhe disse: “Nesses tempos, esta é uma pergunta importante porque a condição, como dizia Giussani, para ser padre é ser homem”. “Padre, é claro que sim”, ele me respondeu. Bem, então eu lhe propus: “Por três meses... não apenas porque você é formado em filosofia e gosta de estudar e de cantar (ele cantava na ópera de Asunción), falar italiano etc. (um monte de dons que eu nunca tive, já que eu era um burro na escola), mas para que você possa aprender a prestar contas com o ‘morder a pedra’, como dizia o frei a Miguel Mañara. Hoje, você virá conosco – Padre Paolino e eu – à fazenda onde estão os doentes de AIDS, recusados por todos. Por três meses, você vai viver com eles: vai dormir num de seus quartos, numa beliche, comerá com eles, trabalhará a terra e, obviamente, terá o espaço necessário para a oração, a leitura, o silêncio etc. Depois, terminados os três meses, vai ficar com os ‘ex-mendigo’ da casa de São Joaquim e Sant’Anna, para dar banho e limpar estes filhos prediletos de Deus, vivendo com eles. E, então, finalmente, mais alguns meses na Clínica... Amigo, para ser padre, é preciso ter culhões, porque, de outra forma, amanhã, bastará que uma garota olhe para você, para que você desapareça, ou então você acabará vivendo no orgulho, nas lamentações e no burguesismo de tantos padres novos e nem tão novos assim que eu conheço. ‘É preciso sofrer para que a verdade não se cristalize numa doutrina’, dizia Mounier”. Ele olhou para mim e, com um sorriso, me disse: “Padre, obrigado. É isto que eu quero, aceito o desafio”. Subimos no carro, fomos para a fazenda e, desde o dia de São Bento, com o seu “ora et labora”, ele está ali, dando início a uma aventura que, se Deus quiser – quem sabe – será aquele que me substituirá, porque a vida passa e eu sempre pedi ao Senhor um substituto, mas que fosse alguém com culhões e que ame Cristo e os pobres muito mais do que um apaixonado ama a mulher com quem se casou, muito mais do que um apaixonado ama a sua namorada. 
Rezem, portanto, amigos, para que, se Jesus quiser, seja, para esse rapaz, de verdade, a possibilidade de viver a graça que me foi dada para viver. A regra é sempre a mesma: “calos nos joelhos, calos nas mãos, calos na mente”. Padres, ou seja, homens viris!
Ciao,
Padre Aldo

terça-feira, 12 de julho de 2011

Beatos Louis Martin e Zélie Guérin

12 de julho


Beatos Louis e Zélie,
rogai por nós!

Os pais de Santa Terezinha do Menino Jesus foram beatificados pelo Papa Bento XVI no dia 19 de outubro de 2006, numa cerimônia presidida pelo Cardeal José Saraiva Martins.

"Entre as vocações para as quais os homens são chamados pela Providência, o casameno é uma das mais nobres e das mais elevadas. Louis e Zélie compreenderam que podiam se santificar não apesar do casamento, mas através, no e pelo casamento. (...) O amor conjugal de Louis e Zélie é um puro reflexo do amor de Cristo por sua Igreja; é também um puro reflexo do amor com o qual a Igreja ama seu Esposo: o Cristo. O Pai nos escolheu antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irreprimíveis sob Seu olhar, no amor. (...) Qual é o segredo do sucesso de sua vida cristã? (...) Eles amavam a vontade do Senhor. Eles se conformaram à vontade do Senhor, sem recriminações. Para estarem seguros de caminhar na verdadeira vontade do Senhor, eles se voltaram para a Igreja, especialista em humanidade, colocando todos os aspectos de suas vidas em harmonia com os ensinamentos da Igreja. Louis e Zélie são um dom para os esposos de todas as idades, por causa da estima, do respeito e da harmonia com os quais eles se amaram durante 19 anos. Zélie escrevia a Louis: 'Eu não poderia viver sem ti, meu querido Louis'. E ele respondia: 'Sou teu marido e amigo que te ama para sempre'. Eles viveram as promessas do casamento: o compromisso de fidelidade, a indissolubilidade do vínculo, a fecundidade do amor, nas alegrias e nas provações, na saúde e na doença. Louis e Zélie são um dom para os pais. Ministros do amor e da vida, eles geraram numerosos filhos para o Senhor..." (Dom José Cardeal Saraiva Martins).

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Os homens sempre têm necessidade de Deus, mesmo neste nosso mundo tecnológico...

Bento XVI

Regina Coeli

Praça São Pedro
Domingo, 15 de maio de 2011

Caros irmãos e irmãs!
A liturgia do IV Domingo de Páscoa nos apresenta um dos ícones mais belos que, desde os primeiros séculos da Igreja, representaram o Senhor Jesus: o do Bom Pastor. O Evangelho de São João, no capítulo décimo, nos descreve os traços peculiares do relacionamento entre Cristo Pastor e o seu rebanho, um relacionamento de tal forma estreito que ninguém nunca conseguirá tirar as ovelhas de sua mão. Elas, de fato, são unidas a Ele por um vínculo de amor e de recíproco conhecimento, que garante a eles o dom incomensurável da vida eterna. Ao mesmo tempo, a postura do rebanho para com o Bom Pastor, Cristo, é apresentado pelo Evangelista com dois verbos específicos: escutar e seguir. Estes termos designam as características fundamentais daqueles que vivem o seguimento do Senhor. Antes de tudo, a escuta da sua Palavra, da qual nasce e se alimenta a fé. Somente quem é atento à voz do Senhor é capaz de avaliar na própria consciência as justas decisões para agir segundo Deus. Da escuta deriva, portanto, o seguimento a Jesus: age-se como discípulos depois de ter escutado e acolhido interiormente os ensinamentos do Mestre, para vivê-los cotidianamente.
Neste domingo, portanto, é espontâneo recomendar a Deus os Pastores da Igreja, e aqueles que estão se formando para se tornarem Pastores. Convido-vos, por isso, a uma oração especial pelos Bispos – inclusive o Bispo de Roma! –, pelos párocos, por todos aqueles que têm responsabilidades como guias do rebanho de Cristo, para que sejam fiéis e sábios no cumprimento de seu ministério. Particularmente, rezemos pelas vocações sacerdotais nesta Jornada Mundial de Oração pelas Vocações, para que nunca faltem operários capazes na messe do Senhor. Há setenta anos, o Venerável Pio XII instituiu a Pontifícia Obra pelas Vocações Sacerdotais. A feliz intuição do meu Predecessor se fundava sobre a convicção de que as vocações crescem e amadurecem nas Igrejas particulares, se facilitadas por contextos familiares saudáveis e robustecidos pelo espírito de fé, de caridade e de piedade. Na mensagem enviada para esta Jornada Mundial, chamei a atenção para o fato de que uma vocação se realiza quando sai “da própria vontade fechada e da própria ideia de autorrealização, para imergir numa outra vontade, a de Deus, deixando-se guiar por ela”. Mesmo neste tempo, no qual a voz do Senhor parece submergir em meio a tantas outras vozes, toda comunidade eclesial é chamada a promover e cuidar das vocações ao sacerdócio e à vida consagrada. Os homens, de fato, sempre têm necessidade de Deus, mesmo neste nosso mundo tecnológico, e sempre será necessário Pastores que anunciem a sua Palavra e façam com que Senhor seja encontrado nos Sacramentos.
Caros irmãos e irmãs, revigorados pela alegria pascal e pela fé no Ressuscitado, confiemos os nossos propósitos e as nossas intenções à Virgem Maria, mãe de toda vocação, para que, com a sua intercessão, suscite e sustente numerosas e santas vocações para o serviço da Igreja e do mundo.

Apelo
Continuo acompanhando com grande apreensão o dramático conflito armado que, na Líbia, causou um elevado número de vítimas e de sofrimentos, sobretudo entre a população civil. Renovo um urgente apelo para que o caminho da negociação e do diálogo prevaleça sobre o da violência, com a ajuda dos organismos internacionais que se empenham na busca de uma solução para a crise. Asseguro, além do mais, a minha orante e comovida participação no compromisso com o qual a Igreja local assiste a população, particularmente através de pessoas consagradas presentes nos hospitais.
O meu pensamento se dirige também à Síria, onde é urgente restaurar uma convivência orientada para a concórdia e para a unidade. Peço a Deus que não haja mais derramamento de sangue naquela pátria de grandes religiosos e de grande civilização, e convido as autoridades e todos os cidadãos a não pouparem esforços na busca do bem comum e na acolhida das legítimas aspirações por um futuro de paz e de estabilidade.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 15 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A urgência de se refletir sobre a linguagem e as novas tecnologias...

Discurso do Santo Padre Bento XVI
aos participantes da Assembleia Plenária
do Pontifício Conselho das Comunicações Sociais

Sala Clementina
Segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011.

Caros Irmãos e Irmãs,
estou feliz de poder vos acolher por ocasião da Plenária do Dicastério. Saúdo o Presidente, D. Claudio Maria Celli, a quem também agradeço as cordiais palavras, os Secretários, os Oficiais, os Consultores e todo o Pessoal.
Na Mensagem para a Jornada Mundial das Comunicações Sociais deste ano, convidei a refletir sobre o fato de que as novas tecnologias não somente mudam o modo de comunicar, como também estão operando uma vasta transformação cultural. Vai se desenvolvendo um novo modo de aprender e de pensar, com inéditas oportunidades de estabelecimento de relações e de construção de comunhão. Gostaria, agora, de me dedicar a falar sobre o fato de que o pensamento e a relação acontecem sempre na modalidade da linguagem, entendida naturalmente no sentido lato, não apenas verbal. A linguagem não é um simples revestimento intercambial e provisório de conceitos, mas o contexto vivo e pulsante no qual os pensamentos, as inquietudes e os projetos dos homens nascem para a consciência e são plasmados em gestos, símbolos e palavras. O homem, portanto, não apenas “usa” mas, em certo sentido, “habita” a linguagem. Particularmente hoje, aquelas que o Concílio Vaticano II definiu como “maravilhosas invenções técnicas” (Inter mirifica, 1) estão transformando o ambiente cultural, e isto exige uma atenção específica às linguagens que aí se desenvolvem. As novas tecnologias “têm a capacidade de pesar não apenas sobre as modalidades, mas também sobre os conteúdos do pensamento” (Aetatis novae, 4).
As novas linguagens que se desenvolvem na comunicação digital determinam, entre outras coisas, uma capacidade mais intuitiva e emotiva que analítica, orientam para uma diferente organização lógica do pensamento e do relacionamento com a realidade, privilegiam frequentemente a imagem e os vínculos hipertextuais. A tradicional distinção clara entre linguagem escrita e oral, por isso, parece desaparecer deixando lugar para uma comunicação escrita que toma a forma e a imediatez da oralidade. As dinâmicas própria das “redes sociais” solicitam, além do mais, que a pessoa esteja envolvida naquilo que comunica. Quando as pessoas trocam informações, já estão compartilhando a si mesmas e à sua visão do mundo: se tornam “testemunhas” daquilo que dá sentido à sua existência. Os riscos que se correm, certamente, estão sob os olhos de todos: a perda da interioridade, a superficialidade na vida das relações, a fuga na emotividade, a prevalência da opinião mais convincente sobre o desejo de verdade. E todavia eles são a consequência de uma incapacidade de viver com plenitude e de maneira autêntica o sentido das inovações. Eis porque a reflexão sobre as linguagens desenvolvidas pelas novas tecnologias é urgente. O ponto de partida é a mesma Revelação, que nos testemunha como Deus comunicou as suas maravilhas exatamente na linguagem e na experiência real dos homens, “segundo a cultura própria a cada época” (Gaudium et spes, 58), até à plena manifestação de si no Filho Encarnado. A fé sempre penetra, enriquece, exalta e vivifica a cultura, e esta, por sua vez, se faz veículo da fé, a quem oferece a linguagem para pensar a si e se exprimir. É necessário, portanto, fazer-se atentos na escuta das linguagens dos homens do nosso tempo, para ser atentos à obra de Deus no mundo.
Neste contexto, é importante o trabalho que o Pontifício Conselho das Comunicações Sociais realiza, aprofundando a “cultura digital”, estimulando e sustentando a reflexão para uma maior consciência acerca dos desafios que as comunidades eclesial e civil enfrentam. Não se trata apenas de exprimir a mensagem evangélica na linguagem de hoje, mas é preciso ter a coragem de pensar de modo mais profundo, como aconteceu em outras épocas, a relação entre a fé, a vida da Igreja e as mudanças que o homem está vivendo. É o compromisso de ajudar a todos os que têm responsabilidades na Igreja a serem capazes de entender, interpretar e falar a “nova linguagem” das mídias numa função pastoral (cf. Aetatis novae, 2), em diálogo com o mundo contemporâneo, perguntando-se: quais desafios o chamado “pensamento digital” coloca para a fé e para a teologia? Quais perguntas e solicitações?
O mundo da comunicação interessa a todo o universo cultural, social e espiritual da pessoa humana. Se as novas linguagens têm um impacto sobre o modo de pensar e de viver, isso diz respeito, de algum modo, também ao mundo da fé, da sua inteligência e expressão. A teologia, segundo uma clássica definição, é inteligência da fé, e sabemos bem como a inteligência, entendida como conhecimento reflexivo e crítico, não é estranha às mudanças culturais que estão em ato. A cultura digital traz novos desafios para a nossa capacidade de falar e de escutar uma linguagem simbólica que fale da transcendência. Jesus mesmo, no anúncio do Reino, soube utilizar elementos da cultura e do ambiente do seu tempo: o rebanho, os campos, o banquete, as sementes e assim por diante. Hoje, somos chamados a descobrir, também na cultura digital, símbolos e metáforas significativas para as pessoas, que possam ser de ajuda ao falar do Reino de Deus ao homem contemporâneo.
Além do mais, é de se considerar que a comunicação nos tempos das “novas mídias” comporta uma relação ainda mais estreita e ordinária entre o homem e as máquinas, dos computadores aos telefones celulares, para citar apenas os mais comuns. Quais serão os efeitos desta relação constante? O Papa Paulo VI, referindo-se aos primeiros projetos de automação da análise linguística do texto bíblico, já indicava uma pista de reflexão quando se perguntava: “Não é este esforço de infundir em instrumentos mecânicos o reflexo de funções espirituais, que se enobreceu e elevou a um serviço, que toca o sagrado? É o espírito que é feito prisioneiro da matéria, ou não seria talvez a matéria, já domada e obrigada a seguir leis do espírito, que oferece ao espírito mesmo um sublime obséquio?” (Discurso ao Centro de Automação do Aloisianum de Gallatare, 19 de junho de 1964). Intui-se nestas palavras o vínculo profundo com o espírito a que a tecnologia é chamada por vocação (cf. Enc. Caritas in veritate, 69).
É exatamente o apelo aos valores espirituais que permitirá promover uma comunicação verdadeiramente humana: para além de todo entusiasmo ou ceticismo fáceis, sabemos que essa é uma resposta ao chamado impresso na nossa natureza, o de sermos criados à imagem e semelhança do Deus da comunhão. Por isto, a comunicação bíblica segundo a vontade de Deus é sempre ligada ao diálogo e à responsabilidade, como testemunham, por exemplo, as figuras de Abraão, Moisés, Jó e os Profetas, e nunca à sedução linguística, como é, pelo contrário, o caso da serpente, ou de incomunicabilidade e de violência como é o caso de Caim. A contribuição dos crentes, então, poderá ser de ajuda para o mesmo mundo das mídias, abrindo horizontes de sentido e de valor que a cultura digital não é capaz, sozinha, de entrever e representar.
Concluindo, gosto de lembrar, entre muitas outras figuras de comunicadores, de padre Matteo Ricci, protagonista do anúncio do Evangelho na China na era moderna; personagem este de quem celebramos o IV centenário de sua morte. Na sua obra de difusão da mensagem de Cristo, ele sempre considerou a pessoa, o seu contexto cultural e filosófico, os seus valores, a sua linguagem, colhendo tudo o que de positivo se encontrava na sua tradição, e oferecendo animá-lo e elevá-lo com a sabedoria e a verdade de Cristo.
Caros amigos, agradeço-vos o vosso serviço; confio-o à proteção da Virgem Maria e, assegurando-vos minha oração, vos transmito a Bênção Apostólica.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 28 de fevereiro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Que a presença do educador cristão se torne expressão de amor e testemunho da verdade...

Discurso do Santo Padre Bento XVI
aos participantes da Plenária
da Congregação para a Educação Católica
(dos Seminários e dos Institutos de Estudo)

Sala do Consistório
Segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Senhores Cardeais
Venerados irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Caros irmãos e irmãs.
Dirijo a cada um de vós a minha cordial saudação por esta visita, em ocasião da reunião plenária da Congregação para a Educação Católica. Saúdo o Cardeal Zenon Grocholewski, Prefeito do Dicastério, agradecendo-lhe as corteses palavras, assim como o Secretário, o Sub-Secretário, os Oficiais e os Colaboradores.
Os temas que enfrentais nestes dias têm como denominador comum a educação e a formação, que constituem hoje um dos desafios mais urgentes que a Igreja e as suas instituições são chamadas a enfrentar. A obra educativa parece ter se tornado ainda mais árdua porque, numa cultura que muito frequentemente faz do relativismo o seu credo, falta a luz da verdade, antes chega-se mesmo a considerar perigoso falar de verdade, instilando assim a dúvida sobre valores de base da existência pessoal e comunitária. Por isto, é importante o serviço que desenvolvem no mundo as numerosas instituições formativas que se inspiram na visão cristã do homem e da realidade: educar é um ato de amor, exercício da “caridade intelectual”, que solicita responsabilidade, dedicação, coerência de vida. O trabalho da vossa Congregação e as escolhas que fareis nestes dias de reflexão e de estudo contribuirão certamente para responder à atual “emergência educativa”.
A vossa Congregação, criada em 1915 por Bento XV, há quase cem anos desenvolve a sua obra preciosa a serviço das várias instituições católicas de formação. Entre elas, sem dúvida, o seminário é uma das mais importantes para a vida da Igreja e exige, por isso, um projeto formativo que leve em consideração o contexto que acenamos antes. Várias vezes sublinhei como o seminário é uma etapa preciosa da vida, na qual o candidato ao sacerdócio faz a experiência de ser “um discípulo de Jesus”. Para esse tempo destinado à formação, é pedido uma certa distância, um certo “deserto”, porque o Senhor fala ao coração com uma voz que só se escuta se houver  o silêncio (cf. 1 Rs 19, 12); mas é pedida também a disponibilidade para viver juntos, para amar a “vida de família” e a dimensão comunitária que antecipam aquela “fraternidade sacramental” que deve caracterizar todo presbítero diocesano (cf. Presbyterorum ordinis, 8) e sobre a qual quis chamar a atenção em minha recente Carta aos Seminaristas: “a pessoa não se torna sacerdote sozinha. É preciso a ‘comunidade dos discípulos’, o conjunto daqueles que querem servir à Igreja comum”.
Nestes dias, estudai também o esboço do documento sobre a Internet e a formação nos seminários. Internet, pela sua capacidade de superar as distâncias e de colocar em contato recíproco as pessoas, apresenta grandes possibilidades também para a Igreja e a sua missão. Com o necessário discernimento para um uso inteligente e prudente, é um instrumento que pode servir não apenas para os estudos, mas também para a ação pastoral dos futuros presbíteros nos vários campos eclesiais, tais como a evangelização, a ação missionária, a catequese, os projetos educativos, a gestão das instituições. Mesmo neste campo, é de extrema importância poder contar com formadores adequadamente preparados para que sejam orientadores fiéis e sempre atualizados, dedicados a acompanhar os candidatos ao sacerdócio no uso correto e positivo dos meios informáticos.
Neste ano, também, marca o LXX aniversário da Pontifícia Obra para as Vocações Sacerdotais, instituída pelo Venerável Pio XII para favorecer a colaboração entre a Santa Sé e as Igrejas locais na preciosa obra de promoção das vocações ao ministério ordenado. Tal recorrência poderá ser a ocasião para conhecer e valorizar as iniciativas vocacionais mais significativas promovidas nas Igrejas locais. É preciso que a pastoral vocacional, além de sublinhar o valor do chamado universal para seguir a Jesus, insista mais claramente sobre o perfil do sacerdócio ministerial, caracterizado pela sua específica configuração a Cristo, que o distingue essencialmente dos outros fiéis e se põe a seu serviço.
Revisastes, além do mais, a prescrição da Constituição apostólica Sapientia christiana sobre os estudos eclesiásticos, quanto ao que respeita ao direito canônico, aos institutos superiores de ciências religiosas e, recentemente, à filosofia. Um setor sobre o qual é preciso refletir particularmente é o da teologia. É importante tornar sempre mais sólido o vínculo entre a teologia e o estudo da Sagrada Escritura, de modo que esta seja realmente a alma e o coração daquela (cf. Verbum Domini, 31). Mas o teólogo não deve se esquecer de ser também aquele que fala a Deus. É indispensável, portanto, manter estreitamente unidas a teologia com a oração pessoal e comunitária, especialmente a litúrgica. A teologia é scientia fidei e a oração nutre a fé. Na união com Deus, o mistério é, de algum modo, saboreado, se faz próximo, e esta proximidade é luz para a inteligência. Gostaria de sublinhar também a conexão da teologia com outras disciplinas, considerando que ela é ensinada nas universidades católicas e, em muitos casos, nas civis. O beato John Henry Newman falava de “círculo do saber”, circle of knowledge, para indicar que existe uma interdependência entre os vários ramos do saber; mas Deus e Ele apenas tem relação com a totalidade do real; consequentemente eliminar Deus significa fragmentar o círculo do saber. Nesta perspectiva, as universidades católicas, com sua identidade bem precisa e sua abertura à “totalidade” do ser humano, podem desenvolver uma obra preciosa para promover a unidade do saber, orientando estudantes e professores para a Luz do mundo, a “luz verdadeira que ilumina todo homem” (Jo 1, 9). São considerações que valem também para as escolas católicas. É preciso, antes de tudo, a coragem de anunciar o valor “lato” da educação, para formar pessoas sólidas, capazes de colaborar com os outros e de dar sentido à própria vida. Hoje se fala de educação intercultural, objeto de estudo também da vossa Plenária. Neste âmbito é pedida uma fidelidade corajosa e inovadora, que saiba conjugar clara consciência da própria identidade e abertura para a alteridade, para as exigências de viver juntos nas sociedades multiculturais. Também para este fim emerge o papel educativo do ensino da religião católica como disciplina escolar em diálogo interdisciplinar com as outras. De fato, isso contribui largamente não apenas para o desenvolvimento integral do estudante, como também para a consciência do outro, para a compreensão e para o respeito recíproco. Para atingir estes objetivos deverá ser prestada particular atenção para a formação dos dirigentes e dos formadores, não apenas de um ponto de vista profissional, mas também religioso e espiritual, para que, com a coerência da própria vida e com o envolvimento pessoal, a presença do educador cristão se torne expressão de amor e testemunho da verdade.
Caros irmãos e irmãs, agradeço-vos o trabalho competente que realizais para o serviço  das instituições educativas. Tende sempre o olhar dirigido a Cristo, o único Mestre, para que, com o seu Espírito, torne eficaz o vosso trabalho. Confio-vos à materna proteção de Maria Santíssima, Sedes Sapientiae, e de coração transmito a todos a Bênção Apostólica.

* Retira do site do Vaticano, do dia 7 de fevereiro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mc 3,13-19
Naquele tempo, Jesus subiu ao monte e chamou os que ele quis. E foram até ele. Então Jesus designou Doze, para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios. Designou, pois, os Doze: Simão, a quem deu o nome de Pedro; Tiago e João, filhos de Zebedeu, aos quais deu o nome de Boanerges, que quer dizer "filhos do trovão"; André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, aquele que depois o traiu.

Comentário feito por Santa Teresa do Menino Jesus (1873-1897)
Carmelita, Doutora da Igreja 

Não vou fazer outra coisa senão começar a cantar o que eternamente devo repetir – "As misericórdias do Senhor"!!! (Sl 88,1) [...] Abrindo [...] o santo Evangelho, os meus olhos caíram sobre estas palavras: "Tendo Jesus subido a um monte, chamou a Si aqueles que lhe aprouve; e vieram para Ele". Eis todo o mistério da minha vocação, da minha vida inteira e, sobretudo, o mistério dos privilégios de Jesus para com a minha alma... Não chama aqueles que são dignos, mas aqueles que Lhe apraz ou, como diz São Paulo: "Deus tem piedade de quem Ele quer e faz misericórdia a quem Ele quer fazer misericórdia. Não é portanto do que quer nem do que corre, mas de Deus que faz misericórdia" (Rom 9, 15-16). Durante muito tempo me perguntei por que Deus tinha preferências, por que nem todas as almas recebiam igual medida de graças; admirava-me ao vê-Lo prodigalizar favores extraordinários aos Santos que o tinham ofendido, como São Paulo, Santo Agostinho e que Ele forçava, por assim dizer, a receber as Suas graças; ou então, ao ler a vida dos santos que Nosso Senhor Se comprazia em acarinhar, deste o berço à sepultura, sem permitir no seu caminho qualquer obstáculo que os impedisse de se elevarem para Ele. [...] Jesus dignou-se instruir-me acerca deste mistério. Colocou diante de mim o livro da natureza e compreendi que todas as flores que Ele criou são belas. [...] Quis criar os grandes santos que podem ser comparados aos lírios e às rosas; mas criou também outras, menores e estas devem contentar-se com ser margaridas ou violetas, destinadas a deleitar os olhares de Deus quando as curva aos Seus pés. A perfeição consiste em fazer a Sua vontade, em ser o que Ele quer que sejamos... 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Mc 1,14-20
Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galiléia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: "O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!". E, passando à beira do mar da Galiléia, Jesus viu Simão e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus lhes disse: "Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens". E eles, deixando imediatamente as redes, seguiram a Jesus. Caminhando mais um pouco, viu também Tiago e João, filhos de Zebedeu. Estavam na barca, consertando as redes; e logo os chamou. Eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados, e partiram, seguindo Jesus.

Comentário feito por Santa Edith Stein (1891-1942)
carmelita, mártir, co-padroeira da Europa 

O Menino do presépio é o Rei dos reis, Aquele que reina sobre a vida e a morte, Aquele que diz "Segue-Me", e que quem não é por Ele é contra Ele (Lc 11, 23). E também no-lo diz a nós, colocando-nos perante a necessidade de escolher a luz ou as trevas. Ignoramos onde pretende o Menino Deus conduzir-nos neste mundo, e não nos compete perguntar antes do tempo. Sabemos apenas que todas as coisas concorrem para o bem dos que amam o Senhor (Rom 8, 28), e que os caminhos traçados pelo Senhor nos conduzem ao outro mundo. Ao tomar corpo, o Criador do gênero humano oferece-nos a Sua divindade. Deus fez-Se homem para que os homens pudessem tornar-se filhos de Deus. "Oh admirável comércio!" Foi para isto que o Salvador veio ao mundo. Um de nós tinha quebrado o elo da nossa filiação divina, era um de nós que tinha de o restabelecer e de expiar a falta. Mas nenhum ramo da antiga árvore, doente e degenerada, teria capacidade para tal; era preciso que neste tronco fosse enxertada uma planta nova, sã e nobre. E assim, Ele tornou-Se um de nós e simultaneamente mais do que isso: tornou-Se um conosco. É isso que o gênero humano tem de maravilhoso: o fato de sermos uma unidade. [...] Ele veio formar um corpo misterioso conosco, um corpo de que Ele é o chefe, a cabeça e nós os membros (Ef 5, 23.30). Se aceitarmos dar as mãos ao Menino Deus, se respondermos "Sim" ao Seu "Segue-Me", seremos Seus e teremos aberto o caminho para que a Sua vida divina passe por nós. É esse o começo da vida eterna em nós. Não é ainda a visão beatifica na luz da glória, estamos ainda na obscuridade da fé, mas já não é a obscuridade deste mundo – estamos já no Reino de Deus.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Lc 5,1-11
Naquele tempo, Jesus estava na margem do lago de Genesaré, e a multidão apertava-se ao seu redor para ouvir a palavra de Deus. Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago. Os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes. Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões. Quando acabou de falar, disse a Simão: "Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca". Simão respondeu: "Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes". Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam. Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que viessem ajudá-los. Eles vieram, e encheram as duas barcas, a ponto de quase afundarem. Ao ver aquilo, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: "Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!". É que o espanto se apoderara de Simão e de todos os seus companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer. Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados. Jesus, porém, disse a Simão: "Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens". Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus.

Comentário feito por Ludolfo de Saxe (c. 1300-1378)
dominicano e depois cartuxo em Estrasburgo 

Pedro lançou-se com humildade aos pés de Jesus. Reconhece nEle o seu Senhor e diz-Lhe: "Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador e não sou digno de estar na Tua presença. Afasta-Te de mim, porque sou apenas um homem e Tu és o Homem-Deus, sou pecador e Tu és santo, sou um servo e Tu és o Senhor. Que uma distância Te separe de mim, que estou separado de Ti pela fragilidade da minha natureza, a fealdade dos meus pecados e a fraqueza da minha vontade [...]". Mas o Senhor consola Pedro mostrando-lhe que a captura dos peixes significa que ele será pescador de homens. "Não temas, diz-lhe, não te assustes; crê e regozija-te, pois estás destinado a uma pesca muito maior; ser-te-ão dados outro barco e outras redes. Até agora tens pescado peixes com redes, doravante será pela palavra que pescarás homens. Através da santa doutrina atrai-los-ás para o caminho da salvação, pois foste chamado ao serviço da pregação. A palavra de Deus é semelhante ao anzol do pescador. Do mesmo modo que o anzol só pesca o peixe depois de lhe ter tocado, também a palavra de Deus só prende o homem para a vida eterna depois de lhe ter penetrado no espírito. Doravante serás pescador de homens. Doravante significa que, depois do que se passou, depois de teres dado provas de humildade, serás encarregado de pescar homens; pois a humildade possui um poder de atracção e, para alguém dirigir os outros, é bom que não saiba não enaltecer o poder que lhe foi dado".

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Santos Joaquim e Ana

Mateus 13, 31-35. 
Jesus propôs-lhes outra parábola: "O Reino do Céu é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. É a mais pequena de todas as sementes; mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto e transforma-se numa árvore, a ponto de virem as aves do céu abrigar-se nos seus ramos". Jesus disse-lhes outra parábola: "O Reino do Céu é semelhante ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até que tudo fique fermentado". Tudo isto disse Jesus, em parábolas, à multidão, e nada lhes dizia sem ser em parábolas. Deste modo cumpria-se o que fora anunciado pelo profeta: Abrirei a minha boca em parábolas e proclamarei coisas ocultas desde a criação do mundo.

Comentário feito por São João Crisóstomo (c. 345-407)
presbítero em Antioquia, depois Bispo de Constantinopla, Doutor da Igreja 

O Senhor apresenta a seguir a imagem do fermento: [...] da mesma forma que este fermento transmite a sua força à massa da farinha, também vós transformareis o mundo inteiro. [...] Não levanteis objeções, dizendo: Que podemos fazer, nós que somos apenas doze, no meio de tão grande multidão? Aquilo que demonstrará o brilho do vosso poder será precisamente o fato de enfrentardes a multidão sem recuar. [...] É Cristo que dá ao fermento o poder que ele tem: Ele misturou na multidão aqueles que tinham fé nEle, para que comuniquemos os nossos conhecimentos uns aos outros. Não Lhe censuremos, pois, o pequeno número dos Seus discípulos, pois o poder da mensagem é enorme; e, quando a massa tiver fermentado, tornar-se-á fermento para o resto. [...] Mas se doze homens fermentaram a terra inteira, que maus somos nós que, apesar de sermos em número considerável, não conseguimos converter os que nos rodeiam, quando tal número deveria ser suficiente para ser fermento de milhares de mundos! – Mas estes doze, dizeis vós, eram os Apóstolos! – E depois? Não estavam nas mesmas condições que nós? Não habitavam também nas cidades? Não partilhavam também o nosso destino? Não exerciam também uma profissão? Seriam anjos descidos do céu? Dizeis que eles fizeram milagres? Mas não é por isso que os admiramos. Até quando falaremos dos seus milagres para esconder a nossa preguiça? [...] – Então de onde vem a grandeza dos Apóstolos? – Do seu desprezo pelas riquezas, de seu desdém pela glória. [...] É a maneira de viver que dá o verdadeiro brilho e que faz descer a graça do Espírito Santo.

domingo, 18 de julho de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Lc 10, 38-42
Naquele tempo: Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e escutava a sua palavra. Marta, porém, estava ocupada com muitos afazeres. Ela aproximou-se e disse: "Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!" O Senhor, porém, lhe respondeu: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada."

Comentário feito por Santa Teresa de Ávila (1515-1582)
Carmelita, Doutora da Igreja 

Santa era santa Marta, e não dizem que fosse contemplativa. Pois, que mais quereis do que chegar a ser como esta bem-aventurada, que mereceu ter a Cristo Nosso Senhor tantas vezes em sua casa e dar-Lhe de comer e servi-Lo e comer com Ele à sua mesa? Se se ficasse como a Madalena, embevecida, não teria havido quem desse de comer a este divino Hóspede. Pois pensai que esta Congregação é a casa de Santa Marta e que há de haver de tudo. As que forem levadas pela vida ativa não murmurem das que se embeberem na contemplação. [...] Tenham-se por ditosas de O servir como Marta. Olhem que a verdadeira humildade consiste, em grande parte, em estar muito pronto em se contentar com o que o Senhor quiser fazer de cada um de nós, achando-nos sempre indignos de nos chamarmos Seus servos. Pois se contemplar e ter oração mental e vocal, e cuidar dos enfermos, e servir nas coisas da casa e trabalhar – mesmo no mais humilde –, se tudo é servir o Hóspede que vem estar, comer e recrear-Se conosco, que mais nos dá que seja nisto ou naquilo? Não digo que falhe pela nossa parte, mas que vos exerciteis em tudo, porque não está isto no vosso escolher, senão no do Senhor; mas se, depois de muitos anos, quiser a cada uma para seu ofício, bonita humildade seria quererdes escolher! Deixai o Senhor da casa fazer o que quiser. 

terça-feira, 13 de julho de 2010

Audiência Geral - São Boaventura (1)

Papa Bento XVI

Quarta-feira, 3 de março de 2010

São Boaventura de Bagnoregio

Queridos irmãos e irmãs
Hoje gostaria de falar de São Boaventura de Bagnoregio. Confesso-vos que, ao vos propor este argumento, sinto uma certa saudade, porque volto a pensar nas pesquisas que, como jovem estudioso, fiz precisamente sobre este autor, que me é particularmente caro. O seu conhecimento influiu em grande medida na minha formação. Com muita alegria, há alguns meses, fui em peregrinação à sua terra natal, Bagnoregio, uma pequena cidade italiana no Lácio, que conserva com veneração a sua memória.
Tendo nascido provavelmente em 1217 e falecido em 1274, ele viveu no século XIII, uma época em que a fé cristã, radicada profundamente na cultura e na sociedade da Europa, inspirou obras imperecíveis no campo da literatura, das artes visuais, da filosofia e da teologia. Entre as grandes figuras cristãs que contribuíram para a composição desta harmonia entre fé e cultura sobressai precisamente Boaventura, homem de ação e de contemplação, de profunda piedade e de prudência no governo.
Chamava-se João de Fidanza. Um episódio que teve lugar quando ainda era jovem marcou profundamente a sua vida, como ele mesmo narra. Tinha sido atingido por uma grave doença e nem sequer o seu pai, que era médico, esperava salvá-lo da morte. Então, sua mãe recorreu à intercessão de São Francisco de Assis, que tinha sido canonizado há pouco tempo. E João ficou curado.
A figura do Pobrezinho de Assis tornou-se-lhe ainda mais familiar alguns anos mais tarde, quando se encontrava em Paris, aonde tinha ido para estudar. Obtivera o diploma de Mestre de Artes, que poderíamos comparar com o de um Liceu prestigioso dos nossos tempos. Nesta altura, como muitos jovens de ontem e também de hoje, João formulou uma pergunta crucial:  "O que devo fazer da minha vida?". Fascinado pelo testemunho de fervor e de radicalidade evangélica dos Frades Menores, que tinham chegado a Paris em 1219, João bateu à porta do Convento franciscano daquela cidade, e pediu para ser acolhido na grande família dos discípulos de São Francisco. Muitos anos depois, ele explicou as razões da sua escolha:  em São Francisco e no movimento por ele iniciado, entrevia a ação de Cristo. Assim escrevia numa carta endereçada a outro frade:  "Confesso diante de Deus que a razão que me fez amar mais a vida do Beato Francisco é que ela se assemelha aos inícios e ao crescimento da Igreja. A Igreja começou com simples pescadores e em seguida enriqueceu-se de doutores muito ilustres e sábios; a religião do Beato Francisco não foi estabelecida pela prudência dos homens, mas de Cristo" (Epistula de tribus quaestionibus ad magistrum innominatum, in Opere di San Bonaventura. Introduzione generale, Roma 1990, pág. 29).
Portanto, por volta do ano de 1243 João vestiu o hábito franciscano e adquiriu o nome de Boaventura. Foi imediatamente destinado aos estudos e frequentou a Faculdade de Teologia da Universidade de Paris, seguindo uma série de cursos muitos exigentes. Obteve os vários títulos requeridos pela carreira acadêmica, os de "bacharel bíblico" e de "bacharel sentenciário". Assim, Boaventura estudou a fundo a Sagrada Escritura, as Sentenças de Pedro Lombardo, o manual de teologia daquela época e os mais importantes autores de teologia e, em contacto com os mestres e os estudantes que afluíam a Paris de toda a Europa, amadureceu a sua reflexão pessoal e uma sensibilidade espiritual de grande valor que, durante os anos seguintes, soube transferir para as suas obras e os seus sermões, tornando-se assim um dos teólogos mais importantes da história da Igreja. É significativo recordar o título da tese que ele defendeu para ser habilitado ao ensino da teologia, a licentia ubique docendi, como então se dizia. A sua dissertação tinha como título Questões sobre o conhecimento de Cristo. Este argumento mostra o papel central que Cristo teve sempre na vida e no ensinamento de Boaventura. Sem dúvida, podemos dizer que todo o seu pensamento foi profundamente cristocêntrico.
Naqueles anos em Paris, a cidade de adoção de Boaventura, desencadeava-se uma polêmica violenta contra os Frades Menores de São Francisco de Assis e contra os Padres Pregadores de São Domingos de Gusmão. Contestava-se o seu direito de ensinar na Universidade e chegava-se até a pôr em dúvida a autenticidade da sua vida consagrada. Certamente, as mudanças introduzidas pelas Ordens Mendicantes no modo de entender a vida religiosa, de que falei nas catequeses precedentes, eram tão inovativas que nem todos conseguiam compreendê-las. Além disso acrescentavam-se, como às vezes acontece também entre pessoas sinceramente religiosas, motivos de debilidade humana, como a inveja e o ciúme. Embora estivesse circundado pela oposição dos outros mestres universitários, Boaventura já tinha começado a ensinar na cátedra de teologia dos Franciscanos e, para responder àqueles que contestavam as Ordens Mendicantes, compôs um escrito intitulado A perfeição evangélica. Neste escrito, ele demonstra que as Ordens Mendicantes, de modo especial os Frades Menores, praticando os votos de pobreza, de castidade e de obediência, seguiam os conselhos do próprio Evangelho. Para além destas circunstâncias históricas, o ensinamento oferecido por Boaventura nesta sua obra e na sua vida permanece sempre actual:  a Igreja tornou-se mais luminosa e bonita pela fidelidade à vocação da parte daqueles seus filhos e filhas que não só põem em prática os preceitos evangélicos mas, pela graça de Deus, são chamados a observar os seus conselhos e assim, através do seu estilo de vida pobre, casto e obediente, são testemunho de que o Evangelho é nascente de alegria e de perfeição.
O conflito foi pacificado, pelo menos por um certo período e, mediante a intervenção pessoal do Papa Alexandre IV em 1257, Boaventura foi reconhecido oficialmente doutor e mestre da Universidade parisiense. Todavia, ele teve que renunciar a este cargo prestigioso, porque naquele mesmo ano o Capítulo geral da Ordem o elegeu Ministro-Geral.
Desempenhou tal encargo durante 17 anos com sabedoria e dedicação, visitando as províncias, escrevendo aos irmãos e intervindo por vezes com uma certa severidade para eliminar abusos. Quando Boaventura deu início a este serviço, a Ordem dos Frades Menores desenvolveu-se de modo prodigioso:  contavam-se mais de 30.000 frades espalhados por todo o Ocidente, com presenças missionárias no norte da África, no Médio Oriente e até em Pequim. Era necessário consolidar esta expansão e sobretudo conferir-lhe, em plena fidelidade ao carisma de Francisco, unidade de ação e de espírito. Com efeito, entre os seguidores do Santo de Assis havia vários modos de interpretar a sua mensagem e existia realmente o risco de uma ruptura interna. Para evitar este perigo, o Capítulo geral da Ordem em Narbona, em 1260, aceitou e retificou um texto proposto por Boaventura, em que se reuniam e unificavam as normas que regulavam a vida diária dos Frades Menores. No entanto, Boaventura intuía que as disposições legislativas, por mais que se inspirassem na sabedoria e na moderação, não eram suficientes para garantir a comunhão do espírito e dos corações. Era necessário compartilhar os mesmos ideais e motivações. Por isso, Boaventura quis apresentar o carisma genuíno de Francisco, a sua vida e o seu ensinamento. Reuniu, então, com grande zelo documentos relativos ao Pobrezinho e ouviu com atenção as recordações daqueles que tinham conhecido Francisco diretamente. Daqui nasceu uma biografia do Santo de Assis, bem fundamentada sob o ponto de vista histórico, intitulada Legenda maior, redigida também de forma mais abreviada e por isso chamada Legenda minor. Diversamente do termo italiano, esta palavra latina não indica um fruto da fantasia, mas ao contrário "Legenda" significa um texto autorizado, "que se deve ler" oficialmente. Com efeito, o Capítulo geral dos Frades Menores de 1263, reunindo-se em Pisa, reconheceu na biografia de São Boaventura o retrato mais fiel do Fundador e deste modo ela tornou-se a biografia oficial do Santo.
Qual é a imagem de São Francisco que sobressai do coração e da pena do seu filho devoto e sucessor, São Boaventura? O ponto essencial:  Francisco é um alter Christus, um homem que procurou Cristo apaixonadamente. No amor que impele à imitação, conformou-se de modo total com Ele. Boaventura indicava este ideal vivo a todos os seguidores de Francisco. Este ideal, válido para cada cristão ontem, hoje e sempre, foi apontado como programa também para a Igreja do Terceiro Milênio pelo meu Predecessor, o Venerável João Paulo II. Tal programa, escreveu na Carta Novo millennio ineunte, está centrado "no próprio Cristo, que deve ser conhecido, amado e imitado, para viver nele a vida trinitária, e transformar com Ele a história até ao seu cumprimento na Jerusalém celeste" (n. 29).
Em 1273, a vida de São Boaventura conheceu outra mudança. O Papa Gregório X quis consagrá-lo Bispo e nomeá-lo Cardeal. Pediu-lhe também que preparasse um importantíssimo evento eclesial:  o II Concílio Ecumênico de Lion, que tinha como finalidade o restabelecimento da comunhão entre as Igrejas latina e grega. Ele dedicou-se a esta tarefa com diligência, mas não conseguiu ver a conclusão daquela assembleia ecumênica, porque faleceu durante a sua realização. Um notário pontifício anônimo compôs um elogio de Boaventura, que nos oferece um retrato conclusivo deste grande santo e excelente teólogo:  "Homem bom, afável, piedoso e misericordioso, repleto de virtudes, amado por Deus e pelos homens... Com efeito, Deus concedeu-lhe tal graça, que todos aqueles que o viam permaneciam imbuídos de um amor que o coração não podia ocultar" (cf. BOUGEROL, J.G. Bonaventura. In: VAUCHEZ, A. (a cura di). Storia dei santi e della santità cristiana - Vol. VI - L'epoca del rinnovamento evangelico. Milano, 1991, pág. 91).
Recolhamos a herança deste Santo Doutor da Igreja, que nos recorda o sentido da nossa vida com as seguintes palavras:  "Na terra... podemos contemplar a imensidão divina mediante o raciocínio e a admiração; na pátria celeste, ao contrário, mediante a visão, quando nos tornarmos semelhantes a Deus, e através do êxtase... entraremos na alegria de Deus" (La conoscenza di Cristo, q. 6, conclusione, in Opere di San Bonaventura. Opuscoli Teologici/1, Roma 1993, pág. 187).

* Extraído do Site do Vaticano.

domingo, 27 de junho de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

Evangelho - Lc 9, 51-62
Estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu. Então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém e enviou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram num povoado de samaritanos, para preparar hospedagem para Jesus. Mas os samaritanos não o receberam, pois Jesus dava a impressão de que ia a Jerusalém. Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram: "Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los?". Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os. E partiram para outro povoado. Enquanto estavam caminhando, alguém na estrada disse a Jesus: "Eu te seguirei para onde quer que fores". Jesus lhe respondeu: "As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça". Jesus disse a outro: "Segue-me". Este respondeu: "Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai". Jesus respondeu: "Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus". Um outro ainda lhe disse: "Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares". Jesus, porém, respondeu-lhe: "Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus".

Comentário feito por Santa Edith Stein (1891-1942)
carmelita, mártir, co-padroeira da Europa 

O Salvador precedeu-nos no caminho da probreza. Todos os bens do céu e da terra Lhe pertencem. Não representam para Ele nenhum perigo; podia fazer uso deles e manter o Seu coração completamente livre. Mas Ele sabia que é quase impossível a um ser humano possuir bens sem se subordinar a eles e tornar-se seu escravo. Foi por esta razão que Ele abandonou tudo e nos mostrou, com o Seu exemplo, mais ainda do que pelas Suas palavras, que só possui tudo quem não possui nada. O Seu nascimento num estábulo e a Sua fuga para o Egito mostravam já que o Filho do Homem não teria onde reclinar a cabeça. Quem quiser segui-Lo tem de saber que não temos aqui morada permanente. Quanto mais vivamente tomarmos consciência disso, mais fervorosamente tenderemos para a nossa futura morada, e exultaremos com o pensamento de termos direito de cidadania no Céu.