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quarta-feira, 29 de junho de 2011

O que memória e beleza têm que ver com a lógica?


Por Giovanni Maddalena

O que memória e beleza têm que ver com a lógica? É verdade que a lógica expressa apenas verdades necessárias de forma que de certas premissas advêm inevitavelmente certas conclusões? “Inevitavelmente” significa “mecanicamente”?
Comecemos da segunda pergunta, esperando que ela, depois, ilumine as outras duas. Certamente, há tipo de raciocínio que são necessários, o que significa que é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão seja falsa. Os silogismos clássicos estudados noa escola são deste tipo. Se todos os homens são mortais e Sócrates é um homem, inevitavelmente Sócrates será mortal.
Apóiam-se sobre a necessidade também as audaciosas formalizações da lógica do século XIX que se estuda ainda nas universidades. De Frege a Gödel, esta lógica garantiu uma compreensão muito mais precisa da lógica das proposições (“se chove, pego o guarda-chuava”), da predicativa (“alguns professores são sábios”) e da modal (“é necessário que os torcedores do Torino sofram”). Como se sabe, o projeto de uma compreensão de toda a lógica através deste caráter necessarista encontrou nos teoremas da incompletude de Gödel um limite, no sentido que o grande lógico mostrou que a formalização, se coerente, nunca pode ser completa.
Por mais útil qe seja esta lógica necessária (e o é, não obstante os seus detratores), dela escapam alguns processos racionais, que foram classificados normalmente como “ampliativos”, no sentido que alargam o nosso conhecimento mesmo se perdem em termos de necessidade. A indução clássica é o mais notável destes tipos de raciocínio: um certo número de amostras exemplificativas me conduz a identificar uma lei geral. Se as amostras foram escolhidas adequadamente (por acaso etc.) e a hipótese é limitada, a indução tem boas probabilidades de ser útil para a pesquisa.
Todavia, permanecem fora também deste tipo de raciocínio processos lógicos como: certas descobertas científicas particularmente significativas (a anedota da maçã de Newton é uma boa metáfora disso), o diagnóstico médico, o raciocínio indiciário (o caso de Cogne), as certezas morais em situações novas (confio ou não confio?). Aqui, a necessidade parece totalmente perdida. Mas, se perde também o uso da razão?
C. S. Peirce, célebre lógico norte-americano do fim do século XIX, havia elaborado um procsso para todos estes casos. Chama-se abdução ou retrodução e é a passagem do consequente ao antecedente: no caso anterior seria “pego o guarda-chuva, portanto chove”. Na lógica clássica, trata-se de um erro (falácia), mas se sairmos de uma lógica necessária, isso pode ser justificado. Como?
Se nos encontramos diante de um fenômeno surpreendente, que não tivesse sido catalogado pela nossa experiência passada (do contrário, se trataria de uma indução), podemos formular uma condicional (se a explicação fosse X, então o fenômeno surpreendente se explicaria) que o introduza numa explicação nova e convincente, que podemos, depois, verificar dedutivamente (se fosse assim, as consequências seriam...) e indutivamente (com uma verificação a partir das amostras). Mas, como fazemos para encontrar a explicação na qual o caso surpreendente possa ser lido? Aqui, Peirce tinha as ideias pouco claras, mas deixou indicações que podem ser sistematizadas da seguinte forma.
Encontramos uma explicação lendo os sinais que se encontram por trás do limiar simbólico, ou seja, lendo sinais que não são palavras ou símbolos – que recordam o objeto através de uma interpretação –, mas lendo sinais mais elementares, ícones e índices, que recordam o seu objeto por similaridades e conexões (a maçã que cai como sinal de uma ordem – que deveria ser uma força – e a sua conexão com o resto dos fenômenos de “queda”). Desde modo, lemos os sinais segundo a sua beleza e a sua plausibilidade no contexto. Dois modos diversos para compreender estética e ética em sentido gnosiológico: o ideal aspirado pelo raciocínio e a concordância entre o ideal e o raciocínio em curso. Os melhores romances policiais adotam esta estratégia (por exemplo, Os assassinos da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe), bem como as grandes descobertas científicas e as certezas morais decisivas.
Mas, como fazemos para conhecer esta beleza? Com qual critério a julgamos? Como fazemos para saber que existe e o que é? Existe em nós um critério, frequentemente vago (que quer dizer “não determinado”), mas muito eficaz: Peirce o chamava “instinto racional”, a Bíblia o chama “coração”. Parece-me que seja o mesmo “instrumento” que Agostinho indicava com o termo “memória” no livro X das Confissões. Uma pessoa quer ser soldado para ser feliz e outra não quer ser soldado para ser feliz. Onde conheceu a felicidade para usá-la como critério? Ela se encontra inscrita no fundo da nossa razão e permanece como critério insuperável, mesmo que frequentemente só indeterminado, mais propenso a não ser satisfeito do que a se contentar, a dizer não mais do que sim (como dizia Sócrates do seu daimon), mas sinal inequívoco de que, no fundo dos nossos raciocínios, a nossa razão é feita para uma beleza sem fim.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 28 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

"Senhor, ensina-nos a rezar"

Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 4 de maio de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Hoje, gostaria de começar uma nova série de catequeses. Depois das catequeses sobre os Padres da Igreja, sobre os grandes teólogos da Idade Média, sobre as grandes mulheres, gostaria agora de escolher um tema que muito caro a todos nós: é o tema da oração, de modo específico da oração cristã, ou seja, a oração que Jesus nos ensinou e que a Igreja continua a nos ensinar. De fato, é em Jesus que o homem se torna capaz de se aproximar de Deus com a profundidade e a intimidade da relação de paternidade e de filiação. Junto com os primeiros discípulos, com humilde confiança, voltamo-nos então ao Mestre e Lhe pedimos: “Senhor, ensina-nos a rezar” (Lc 11, 1).
Nas próximas catequeses, aproximando-nos da Sagrada Escritura, da grande tradição dos Padres da Igreja, dos Mestres de espiritualidade, da Liturgia, queremos aprender a viver ainda mais intensamente a nossa relação com o Senhor, como se fosse uma “Escola de oração”. Sabemos bem, de fato, que a oração não é algo óbvio: é preciso aprender a rezar, como que adquirindo sempre de novo esta arte; mesmo eles que estão muito mais avançados na vida espiritual sempre sentem a necessidade de voltarem outra vez para a escola de Jesus, a fim de aprender a rezar com autenticidade. Recebemos o primeiro exemplo do Senhor, através do Seu exemplo. Os Evangelhos nos descrevem Jesus em diálogo íntimo e constante com o Pai: trata-se de uma comunhão profunda daquele que veio ao mundo não para fazer sua própria vontade, mas a vontade do Pai que o enviou para a salvação do homem.
Nesta primeira catequese, como introdução, gostaria de propor alguns exemplos de oração presentes nas antigas culturas, para mostrar como, praticamente sempre, e em todos os lugares, sempre houve quem se voltasse a Deus.
Começo com o antigo Egito, como exemplo. Aqui, um homem cego, pedindo à divindade que lhe seja restituída a vista, atesta algo de universalmente humano, como o é a pura e simples oração de pedido por parte de quem se encontra no sofrimento. Assim reza ele: “O meu coração deseja ver... Tu que me fizeste ver as trevas, cria a luz para mim. Que eu te veja! Inclina sobre mim o teu dileto rosto” (BARUCQ & DAUMAS, Hymnes et prières de l’Egypte ancienne. Paris, 1980. Tradução italiana em Preghiere dell’umanità. Brescia, 1993, p. 30). Que eu te veja; aqui está o núcleo da oração!
Junto às religiões da Mesopotâmia dominava um senso de culpa arcano e paralisante que, no entanto, não era privado da esperança de resgate e libertação por parte de Deus. Podemos, dessa forma, apreciar esta súplica feita por um crente daqueles antigos cultos, que soa assim: “Ó Deus, que és indulgente mesmo na culpa mais grave, absolve o meu pecado... Olha, Senhor, para o teu esgotado, e sopra tua brisa sobre ele: perdoa-o sem demora. Alivia a tua punição severa. Livre de toda amarra, faz que eu volte a respirar; despedaça as correntes, afrouxa-me os laços que me prendem”  (SEUX, M.-J., Hymnes et prières aux Dieux de Babylone et d’Assyrie. Paris, 1976. Tradução italiana em Preghiere dell’umanità, op. cit., p. 37). São expressões que demonstram como o homem, na sua busca por Deus, tenha intuído a seu respeito, ainda que confusamente, da um lado a sua própria culpa, de outro lado aspectos de misericórdia e de bondade divina.
Em meio à religião pagã da antiga Grécia assiste-se a uma evolução muito significativa: as orações, ainda que continuem a invocar a ajuda divina para obter o favor celeste em todas as circunstâncias da vida cotidiana e para conseguir benefícios materiais, se orientam progressivamente em direção a pedidos mais desinteressados, que consentem ao homem crente aprofundar o seu relacionamento com Deus e se tornar melhor. Por exemplo, o grande filósofo Platão relata uma oração do seu mestre, Sócrates, tido muito justamente como um dos fundadores do pensamento ocidental. Assim rezava Sócrates: “Faz com que eu seja belo por dentro. Que eu acredite rico quem for sábio e que só possua o dinheiro que um sábio possa ter e trazer consigo. Não peço mais do que isso” (Opere I. Fedro 279c). Queria ser, sobretudo, belo por dentro e sábio, e não rico de dinheiro.
Naquelas excelsas obras-primas da literatura de todos os tempos que são as tragédias gregas, ainda hoje, depois de vinte e cinco séculos, lidas, meditadas e representadas, estão contidas orações que expressam o desejo de conhecer Deus e de adorar a sua majestade. Uma delas, diz assim: “Sustento da terra, que tens teu trono na terra, quem quer que tu sejas, difícil de compreender, Zeus, quer tu sejas lei da natureza ou do pensamento dos mortais, a ti me volto, já que tu, agindo por caminhos silenciosos, guias os acontecimentos humanos segundo a justiça” (EURIPIDE, Troiane, 884-886). Deus permanece sendo um pouco nebuloso e, todavia, o homem conhece este Deus desconhecido e reza àquele que guia as vidas da terra.
Mesmo entre os romanos, que construíram aquele grande império no qual nasceu e se difundiu em grande parte o Cristianismo desde as suas origens, a oração, mesmo que associada a uma concepção utilitarista e fundamentalmente ligada à busca da proteção divina sobre a vida da comunidade civil, se abre, algumas vezes, a invocações admiráveis pelo seu fervor de piedade pessoal, que se transforma em louvor e ação de graças. Um autor da África romana, do século II depois de Cristo, Apuleio, testemunha isso. Nos seus escritos, ele manifesta a insatisfação dos seus contemporâneos quanto à religião tradicional e o desejo de uma relação mais autêntica com Deus. Na sua obra-prima, intitulada As metamorfoses, um crente se volta a uma divindade feminina com estas palavras: “Tu, sim, és santa; tu és, em todos os tempos, salvadora da espécie humana; tu, na tua generosidade, sempre ajudas os mortais; tu ofereces aos miseráveis sofredores o doce afeto que uma mãe pode ter. Nem dia nem noite nem instante algum, por breve que seja, passa sem que tu o satisfaças com teus benefícios” (APULEIO, Metamorfosi IX, 25. Tradução italiana em Preghiere dell’umanità, op. cit., p. 79).
No mesmo período, o imperador Marco Aurélio – que também era filósofo dedicado sobretudo a pensar a condição humana – afirmava a necessidade de rezar para estabelecer uma cooperação frutuosa entre a ação divina e a ação humana. No seu Recordações, ele escreve: “Quem te disse que os deuses não nos ajudam mesmo naquilo que depende de nós? Começa, pois, a rezar a eles, e verás” (Dictionnaire de Spiritualitè XII/2, col. 2213). Este conselho do imperador filósofo foi efetivamente colocado em prática por inúmeras gerações de homens antes de Cristo, demonstrando assim que a vida humana sem a oração, que abre a nossa existência ao mistério de Deus, se torna sem sentido e sem referência. Em toda oração, de fato, se expressa sempre a verdade da criatura humana, que, por um lado, experimenta fraqueza e indigência e, por isso, pede ajuda do Céu, e, por outro lado, é dotada de uma extraordinária dignidade, porque, preparando-se para acolher a Revelação divina, descobre-se capaz de entrar em comunhão com Deus.
Caros amigos, nestes exemplos de oração das diversas épocas e civilizações emerge a consciência que o ser humano tem da sua condição de criatura e de sua dependência a um Outro superior a ele e fonte de todo bem. O homem de todos os tempos reza porque não pode fazer menos do que se perguntar sobre o sentido de sua existência, que continua sendo obscuro e desconfortável enquanto não é colocado em relação com o mistério de Deus e do seu desígnio sobre o mundo. A vida humana é um tecido de bem e de mal, de sofrimento imerecido e de alegria e beleza, que espontânea e irresistivelmente nos impulsiona a pedir a Deus aquela luz e a aquela força interiores que nos socorram na terra e desdobrem uma esperança que vá além dos confins da morte. As religiões pagãs continuam sendo uma invocação que, da terra, espera uma palavra do Céu. Um dos últimos grandes filósofos pagãos, que viveu em plena época cristã, Proclo de Constantinopla, dá voz a esta espera, dizendo: “Incognoscível, ninguém te contém. Tudo aquilo que pensamos te pertence. Vêm de ti os nossos males e os nossos bens, de ti todo nosso anseio depende, ó Inefável, que nossas almas sentem presente, elevando a ti um hino em silêncio” (Hymni. Wiesbaden, 1957. Tradução italiana em Preghiere dell’umanità, op. cit., p. 61).
Nos exemplos de oração das várias culturas, que consideramos aqui, podemos ver um testemunho da dimensão religiosa e do desejo de Deus inscrito no coração de todo homem, que encontram cumprimento e plena expressão no Antigo e no Novo Testamento. A Revelação, de fato, purifica e leva à plenitude o anseio originário do homem por Deus, oferecendo-lhe, na oração, a possibilidade de um relacionamento mais profundo com o Pai celeste.
No início deste nosso caminho na “Escola da oração” queremos, então, pedir ao Senhor que ilumine a nossa mente e o nosso coração para que o relacionamento com Ele na oração seja sempre mais intenso, afetuoso e constante. Digamos-Lhe ainda uma vez: “Senhor, ensina-nos a rezar” (Lc 11,1).

* Extraído do site do Vaticano, do dia 4 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.