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segunda-feira, 11 de julho de 2011

São Bento

11 de julho

*

São Bento
rogai por nós!

Crux Sacra Sit Mihi Lux
Non Draco Sit Mihi Dux
Vade Retro Satana
Nunquam Suade Mihi Vana
Sunt Mala Quae Libas
Ipse Venena Bibas

(A Cruz sagrada seja minha Luz
Não seja o Dragão meu guia
Retira-te Satanas
Nunca me aconselhes coisas vãs
É mal o que tu me ofereces
Bebe tu mesmo do teu veneno)

 * São Bento (azulejo), de Claudio Pastro

terça-feira, 5 de abril de 2011

“Nenhum homem é uma ilha”: de John Donne a São Bento, o eu sozinho não basta


Por Laura Cioni

Nenhum homem é uma ilha é o primeiro verso de uma poesia de John Donne, retomada por Hemingway como epígrafe do seu romance Por quem os sinos dobram, e usado por Thomas Merton para o título da sua autobiografia. A Bíblia já o havia dito antes, motivando, inclusive, a decisão de Deus de criar a mulher: Não é bom que o homem esteja só; em outro lugar, o texto sagrado indica o perigo da solidão: Infeliz do homem sozinho, porque se cair não tem quem o levante.
No filme Homens de Deus (originalmente intitulado Des hommes et de dieux - Homens e deuses; ndt) um dos aspectos mais interessantes é o caminho pessoal através do qual cada monge chega à decisão de não abandonar o mosteiro que se tornou perigoso; o silêncio no qual aqueles homens amadurecem a sua escolha se desfaz no momento em que comunicam uns aos outros as razões que os movem a permanecer e a continuar a vida comum ali, aonde a sua vocação os levou. Filhos de uma longa tradição monástica, a cirterciense, que, por sua vez, está ligada ao antigo tronco beneditino, estes homens demonstram numa situação dramática, que os levará à morte, a fecundidade de uma escola secular, centrada sobre a reabilitação do amor.
A ideia mesma da vida comum tem um dos seus fundamentos na desconfiança que os mestres do espírito nutrem por uma busca interior muito afastada, privada de relações com os homens, numa solidão que não corrige a tendência de muitos a se conceberem como mônadas, mas que, pelo contrário, a circunda de uma auréola. Gregório Magno, formado na escola de São Bento, comenta o trecho do Evangelho que relata a primeira missão dos discípulos de Jesus deste modo: O Senhor manda os discípulos de dois em dois para pregar, a fim de nos indicar de forma tácita que não deve, de forma alguma, assumir para si a tarefa de pregar quem não tem a caridade para com os outros. São Bernardo e os outros expoentes da escola cisterciense apenas sublinharam a centralidade do amor como força unificante e dinâmica da vida espiritual, seja pessoal que comunitária, colhendo as instâncias de uma época em que se estudou, por muito tempo, na obra de Cícero, a virtude da amizade.
A fecundidade desta visão educativa chegou, através dos séculos, aos dias de hoje, como documenta um livro de Madre Cristiana Piccardo, Pedagogia viva: Citeaux novecentos anos depois (sem tradução para o português; ndt). É a história de uma comunidade trapista feminina, da sua evolução, das suas fundações em todo o mundo, do caminho de adequação realizado diante da diversidade humana das jovens que, aos poucos, foram se apresentando à porta do mosteiro. A autora afirma que hoje "não basta aquela santa tensão vertical em direção a Deus, sustentada pela grande oração litúrgica e pela generosa fidelidade à austera observância, que caracterizou as gerações que nos precederam". É preciso prestar contas com a queda do modelo estóico, fundado sobre a capacidade de controle das próprias emoções e sobre o domínio da razão sobre o sentimento, com a mudança e o rápido declínio de outros modelos, com um difundida imaturidade afetiva.
Educar para o amor não é uma tarefa fácil e Madre Cristina descreve os passos realizados por sua comunidade que levaram à queda das máscaras do egocentrismo, da aridez e do medo, e levaram também ao favorecimento de uma reciprocidade fiel, de uma integração generosa, de uma confiança que afirma o outro, de uma amizade. Ela expõe tentativas e instrumentos do caminho educativo, assim como evoluiu no curso das várias décadas na sua comunidade, humildemente convencida de que isso pode ser útil também para além do âmbito monástico. E se refere às palavras de um monge trapista espanhol, o bem-aventurado Rafael, morto em 1938 e beatificado por João Paulo II em 1992: “Há em mim muita soberba, muita vaidade, muito amor próprio. E todavia, agora, me acontece algo estranho. Certos dias, depois da oração, mesmo se nela me pareça não sentir nada, descubro em mim um grande desejo de amar todos os membros da minha comunidade, quase uma ânsia de amá-los como Jesus os ama. Assim, ao invés de me escandalizar pela fragilidade de um irmão, como sempre me acontecia, experimento, por ele, uma grande ternura”.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 5 de abril de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O que quer dizer transmitir aos nossos alunos a poesia dos “grandes”?


Por Mauro Grimoldi

Caro editor,
Todos os dias, as crianças, do meio do tumulto dos bancos da escola, oferecem suas vozes para os grandes e o pequenos poetas. Porque assim há de ser: a poesia é obra acabada e não-acabada, ao mesmo tempo. Ela precisa, para voltar a nascer e crescer e se dar, de alguém que lhe dê voz, e que seja em voz alta.
Falando da obra-prima dantesca, Mario Luzi observa que “a Comédia dantesca é, entre as obras de arte, a mais ‘lida’ e, ao mesmo tempo, uma obra ainda por fazer, quero dizer, continuamente proposta à capacidade de reconstrução do homem e da sua inexaurível perfectibilidade”.
O simples ato de oferecer a própria voz, de participar nas palavras recebidas é, me parece, o primeiro, mas realizado, ato desta contínua reconstrução. Ato cognoscitivo e não acessório, visto ser realizado pela presença de quem já disse, o poeta, e de que, obedecendo, aprende a dizer.
Deste ato, nascem as palavras que permanecem na memória e, assim, simplesmente permanecendo, se ligam à experiência de quem as encontra e se deixam interrogar.
Pode acontecer, e acontece de fato, que este trabalho seja acompanhado da explosão inesperada e potente da comoção, ou da emoção, como que por uma imprevista erupção do ânimo.
Todavia, é a fidelidade, a duração, a capacidade que marca o progredir rumo à maturidade.
O homem cresce no difícil exercício da rotina, como quem vive num terreno áspero e fértil: “permanecer, perseverar na nua, hostil, cinza realidade, até ao momento em que ela revele, ao fiel e ao paciente, seu rosto íntimo. Isto é árduo. Hic labor, escreve Hans Urs Von Balthasar.
A paciência do pardal de Pascoli ganha o mundo, porque conhece a alegria do renascimento, enquanto que a andorinha cigana repete os cantos exóticos que aprendeu, mas não sabe a alegria “da neve, o dia em que degela” (o autor se refere à poesia Myricae, de Giovanni Pascoli: “Scilp: i passeri neri su lo spalto / corrono, molleggiando. Il terren sollo / rade la rondine e vanisce in alto: / vitt. . . videvitt. Per gli uni il casolare, / l’aia, il pagliaio con l'aereo stollo; / ma per l’altra il suo cielo ed il suo mare. / Questa, se gli olmi ingiallano la frasca, / cerca i palmizi di Gerusalemme: / quelli, allor che la foglia ultima casca, / restano ad aspettar le prime gemme. / Dib dib bilp bilp: e per le nebbie rare, / quando alla prima languida dolciura / l’olmo già sogna di rigermogliare, / lasciano a branchi la città sonora / e vanno, come per la mietitura, / alla campagna, dove si lavora. / Dopo sementa, presso l’abituro / il casereccio passero rimane; / e dal pagliaio, dentro il cielo oscuro / saluta le migranti oche lontane. / Fischia un grecale gelido, che rade: / copre un tendone i monti solitari: / a notte il vento rugge, urla: poi cade. / E tutto è bianco e tacito al mattino: / nuovo: e dai bianchi e muti casolari / il fumo sbalza, qua e là turchino. / La neve! (Videvitt: la neve? il gelo? / ei di voi, rondini, ride: / bianco in terra, nero in cielo / v’è di voi chi vide . . . vide... videvitt?) / La neve! Allora, poi che il cibo manca, / alla città dai mille campanili / scendono, alla città fumida e bianca; / a mendicare. Dalla lor grondaia / spiano nelle chiostre e nei cortili / la granata o il grembiul della massaia. / Tornano quindi ai campi, a seminare / veccia e saggina coi villani scalzi, / e - videvitt - venuta d’oltremare / trovano te che scivoli, che sbalzi, / rondine, e canti; ma non sai la gioia / - scilp - della neve, il giorno che dimoia.”; ndt).
Tantae molis erat Romanam condere gentem (Eneide, I, 33, “custava muito fundar o povo romano”), Tantae molis erat se ipsam cognoscere mentem (“custava muito à mente conhecer a si mesma”), parafraseava Hegel.
Agora, mais do que nunca, aqui, nas costas áridas do mundo, onde a única ginestra que resplandece e perfuma não é mais acolhida como sinal, mas pequeno oásis de sentimento num inferno sem significado, é preciso, como foi para São Bento, que o heroico se torne cotidiano e que o cotidiano se torne heroico.
Interpreto assim a minha tarefa de adulto e professor.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 2 de abril de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sábado, 18 de abril de 2009

Cartas do P.e Aldo 27

Asunción, 05 de janeiro de 2009.

Caros amigos,
Hoje, Celeste é testemunha da grandeza da Misericórdia Divina. Nela, há 11 anos, o mal (refere-se à sua leucemia; ndt) não pemitiu que entrasse um outro mal pior no seu coração: o mal de duvidar do rosto bom do Mistério; o mal da falta de confiança... confiança que, mesmo para um “condenado à morte” – como foi declarada ela, pelos médicos –, permite ver tudo o que lhe acontece como estupendamente positivo, como parte de um desígnio bom que nos é dado já experimentar. Se os hospitais não existissem por isso, para que serviriam?
Ontem, internamos um travesti com AIDS, tuberculose, abandonado num canto de um hospital. Há tempos não comia e não tinha ninguém que se interessasse por ele. Tão logo pôs os pés aqui, e sentindo-se abraçado e beijado, disse: “já estou ressuscitado”. Pediu que lhe cortassem os cabelos loiros, as unhas de mulher e que lhe tirassem o esmalte. Hoje, ele pediu para se confessar. Isto sim é um hospital como a Igreja nos ensina: “o pobre não é um fardo, mas um irmão” (em italiano, a frase tem um jogo de palavras que não conseguimos traduzir: “il povero non è un fardello, ma un fratello”; ndt).
Mas, voltemos a Celeste. Hoje, depois de anos de silêncio, ela pronunciou a primeira vogal: “A”! E a está repetindo continuamente. Além do mais, já recomeçou a escrever e a fazer contas de adição e de subtração... Que belo! Que comoção! Ela veio para cá para ser sepultada.
Como é possível viver sem se comover até as lágrimas, como Marcos Zerbini quando veio até aqui... e que, nos próximos dias, encontrarei em São Paulo, para estar na sua companhia e na de Cleuza... que depois virão aqui, de novo, entre o dia 17 e o dia 22 de janeiro, com 30 universitários para gozar daquela certeza: “eu sou Tu que me fazes”, contemplando os doentes e visitando, juntos, as reduções que, para nós, são como São Bento e São Francisco foram para a Europa.
Um abraço
P.e Aldo.