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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Cartas do P.e Aldo 207


Asunción, 10 de outubro de 2011.

Caros amigos,
Nesta noite, fiquei mais tempo do que o normal olhando meus filhinhos doentes, particularmente Victor. Desde quando nasceu está na mesma caminha. Não fala, não vê, não escuta. Parece totalmente ausente da realidade. Depende do outro em tudo. Não tem caixa craniana e seus olhinhos, há tempos, estouraram. Só pode ser colocado em duas posições: deitado com a barriga para cima e, de vez em quando, delicadamente deitado sobre um dos dois lados. As escaras de decúbito, tratadas o tempo inteiro, junto com o gemidozinho que o acompanha, mostram o quadro físico que vemos dele. E no entanto, Victor é muito, infinitamente mais do que isso. É a evidência clamorosa da vibração do Ser. Eu o olho comovido, o acaricio porque ele existe. Existe! Que maravilhamento eu sinto em mim quando olho para o ser que vibra em cada detalhe do seu corpo martirizado! Victor existe, vive! Cada vez que me aproximo dele, fico impactado com a beleza de ser nada mais do que um fragmento de segundo: ele, como eu, é feito em cada momento. A sua beleza e a do ser, do seu ser quase enjaulado num corpo aparentemente deformado e que, no entanto, é templo do Espírito Santo. Ele, acredito, me conheça pelos meus beijos, pela ternura, mas sobretudo porque tanto eu como ele existimos e somos como “Tu que me fazes”. O valor da sua vida, como a do meu filho Aldo e de Mário, está no ser que posso contemplar e, imediatamente, reconhecer: eles, como eu, são relação com o infinito. Muitas vezes penso olhando para eles, assim “deformados” para o mundo – porque a cultura de hoje não consegue mais perceber o ser, aquilo que existe na sua profundidade. Tantos são os casais que, quando esperam um filho, mais do que ficarem comovidos até às lágrimas pelo fato de que ele exista, ficam é preocupados com o como ele é, como ele está, ou se é menino ou menina. Que besteira! Antes do ultrassom, há a comoção pelo ser. Aquela comoção que, seja lá qual for o resultado do ultrassom, cresce fazendo-nos vibrar porque o Mistério se manifestou. Que graça para mim, para vocês, o meu Victor, sacramento do ser que o cria em cada momento. É noite de sábado, mas não consigo me afastar de Victor, de Aldo e de Mário. Victor respira com dificuldade, fiz-lhe uma carícia e ele esticou seus pequenos punhos. Desde o seu nascimento parece ausente da realidade, no entanto ele está no coração da realdiade. A beleza destas criaturas está apenas no fato de que EXISTEM!
E existem porque um Outro, antes de formá-los assim no seio de suas mães, pronunciou seus nomes. Entendem, então, como é um milagre existir, que comoção suscita em mim o ser de cada um?
Olhando para eles só posso ficar grato por aquilo que me une a eles. O ser e o ser fato agora. Desejo a todos os que esperam um filho que tenham esta posição de adoração e de comoção e não a preocupação egoísta de como será, para que não aconteça que desfaça os nossos projetos que não têm nada que ver com o ser e, portanto, com o desígnio de Deus sobre cada um de nós. Pensem na diferença abissal que há entre olhar um doente, um leproso como o que está na capela do Santíssimo, com estes olhos fixos sobre o ser, e olhar os mesmos apenas em seu aspecto fenomênico! Sem esta posição, que sentido teria a vida e o nosso viver cotidiano?
Padre Aldo

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A grande alternativa proposta por Bento XVI entre o Mistério e a falta de sentido



Entrevista realizada por Federico Ferraù com Nikolaus Lobkowicz

“Como reconhecer o que é justo?” É esta a pergunta fundamental que está no centro da extraordinária reflexão sobre os fundamentos do direito que Bento XVI desenvolveu no seu discurso no Bundestag, durante a última viagem apostólica à Alemanha. IlSussidiario.net conversou a respeito dele com o filósofo Nikolaus Lobkowicz, que foi reitor da Universidade Ludwig-Maximilian de Munique e Presidente da Universidade Católica de Eichstätt, e atualmente é diretor do ZIMOS - Zentral Institut für Mittel- und Osteuropastudien, centro de estudos dedicado à Europa Central e Oriental.

Professor Lobkowicz, o discurso que o Papa Bento XVI dirigiu ao Parlamento Federal Alemão é, de verdade, tão importante assim?
Certamente. Não era a primeira vez que um Papa falava diante de um Parlamento: pensem nos discursos de Paulo VI e de João Paulo II diante da Assembleia Geral das Nações Unidas. Mas, é a primeira vez que um Papa, a convite do Presidente do Parlamento Alemão, discursa diante dele. A Alemanha é o país de origem de Martinho Lutero, do homem de quem brotou a primeira grande divisão da cristandade na época moderna. A maior parte das divisões ocorridas depois foi apenas uma consequência direta ou indireta deste acontecimento. Em primeiro lugar, é certo que Bento XVI aceitou o convite do Parlamento da sua pátria, mas, segundo penso, o significado verdadeiro do seu discurso diante do Parlamento Federal está no fato de se inserir nos esforços do Pontífice no sentido de promover a “reunificação” dos cristãos.

Uma reunificação? Mas, será uma proposta realista?
Esta reunificação é, para um católico, invariavelmente uma “recondução”, não à força, para a Igreja romana católica assim como se encontra hoje, mais especificamente à comunidade dos cristãos tal como a queria o Senhor e da qual a Igreja católica sempre se concebeu e ainda se concebe como a representante. Bento XVI certamente foi convidado como um chefe de Estado, a Cidade do Vaticano. Todavia, todos entenderam este convite não como um convite de um Estado a outro Estado, mas como o convite àquele que é o chefe da comunidade cristã de longe a mais numerosa, uma comunidade que se considera como a comunidade dos cristãos da qual se dividiram todas as outras. Naturalmente, hoje, a Alemanha não é apenas um país de católicos ou protestantes. Muitos membros do Parlamento alemão são mais ou menos explicitamente ateus. Por isto, Bento XVI, entre as possíveis numerosas variantes para a sua alocução, escolheu um discurso que não sublinhasse aquilo que é especificamente católico e nem mesmo aquilo que é cristão, mas, por assim dizer, aquilo que é direito natural. Aquilo que a Igreja chama “direito natural” é, sim, provavelmente, compreensível particularmente a partir de um ponto de vista católico, mas é, em última instância, acessível a qualquer um, seja cristão ou não. A doutrina do direito natural está fundamentada na ordem da criação e não especificamente na obra de Redenção de Jesus Cristo.

Segundo o Papa, não podemos descobrir e explicar aquilo que é “justo” sem retornar ao conceito de “natureza”. Por quê?
Porque, para descobrir o que é justo, é preciso aprofundar a pergunta que diz respeito ao quê (ou quem) é o homem. “Natureza”, neste contexto, é compreendida não, ou somente incidentalmente, como a realidade fora do homem, mas como a essência do homem, assim como Deus o criou e quis. Este homem é danificado pelo pecado, pelo “pecado original”. Mas a sua essência não é destruída por ele – como, pelo contrário, afirmam os protestantes. Uma das diferenças mais importantes entre a compreensão do homem católica e a protestante consiste no fato que, para Lutero, nada daquilo que o homem realiza sem a graça de Deus pode ser ordenado e bom, enquanto que a Igreja católica sempre sustentou que a graça realiza a natureza, por isso a pressupõe e constrói sobre ela. Paradoxalmente, a compreensão protestante do homem fez como que não se pudesse quase mais falar daquilo que é o homem segundo a sua essência.

Explique isto melhor, professor.
Uma vez que tudo é destruído pelo pecado, até às suas últimas raízes, no fim o homem pode fazer tudo o que lhe vem em mente. Até mesmo a maior das perversões é, em última instância, legítima ou, pelo menos, compreensível, porque Deus, se o homem se arrepende do que fez, na medida em que é Deus misericordioso, o perdoa. Por assim dizer, deve perdoar: onde nada de humano é legítimo por si mesmo, tudo aquilo que o homem é e faz deve ser perdoado. Porém, a Igreja católica sempre sustentou que o homem, não obstante o dano causado pelo pecado original, é bom segundo a sua essência. Deve simplesmente agir e viver em conformidade com sua essência, e não contra ela. A graça constrói sobre esta essência e a realiza. Certamente falta algo se não há a graça, por exemplo, se um homem não encontrou a Cristo e não foi batizado. Mas, isto não significa que algo ou alguém a quem falta algo é inevitavelmente mau ou mesmo malvado.

Os pagãos confirmam isso, como dizia São Paulo.
Sim. Para o pagão, mesmo o do mundo moderno, falta algo, mas, por isto, não é também automaticamente um celerado que, ao final, deve ser condenado e danado. Neste sentido, a doutrina católica é um convite para conhecer Deus e se aproximar dEle, enquanto que a protestante é, em última instância, sempre a tentativa de uma salvação da danação. Por vezes, a radicalidade quase absurda desta concepção, a concepção protestante, levou a pensar que, no fundo, tudo aquilo que o homem faz para si e para os outros seja compreensível e, por isso mesmo, perdoável. Naturalmente, é preciso considerar que quase desde o seu início não existiu “a” doutrina protestante: desde sua origem ela se dividiu em um número de variantes constantemente em crescimento. Algumas delas até mesmo se aproximaram de novo da perspectiva católica.

Segundo o senhor, qual é a pedra angular de todo o discurso do Papa? Por quê?
Sendo que o Papa falou para pessoas de convicções muito diferentes, falou quase como um filósofo, naturalmente um filósofo cristão, e não em primeiro lugar como um teólogo. Isto foi simples para ele: de fato, Ratzinger, assim como Hans Urs von Balthasar ou Henri de Lubac, meio século atrás, é um dos homens mais cultos do nosso tempo e também um dos mais cultos da longa história de bispos de Roma. Eu consideraria como pensamento fundamental do seu discurso a intuição segundo a qual até certo ponto não é necessário ser um cristão crente para reconhecer o que é correto e justo, o que cabe ao homem e o que não cabe. Exatamente por isso o seu discurso tocou também os deputados que não queriam saber nada sobre a fé cristã. Teria tocado também aqueles que não queriam escutar o seu discurso e que, por isso, se mantiveram distantes. As maiorias não podem decidir o que é verdadeiro e o que é falso, justo ou injusto, o que faz bem ao homem e o que lhe traz algum dano. Por isto, é necessária a justa compreensão da essência da realidade e, sobretudo, do homem, uma compreensão que a Igreja católica sempre afirmou como possível e urgente. A fé cristã não nega esta compreensão, mas a realiza.

O Papa citou várias vezes o “coração dócil” (literalmente o “coração que escuta”; ndt) de Salomão. Este coração é razão, mas é também definido como consciência. Não tem um pouco de... confusão? Por quê?
Há duas maneiras para descrever aquilo que, em alemão, se chama “consciência”. De um lado a consciência é descrita como uma voz no fundo da nossa autoconsciência que adverte e condena; de outro lado, com este conceito se entende uma dedução graças à qual podemos saber quais das nossas ações seria ou era moral ou imoral, errada ou justa. Nesta última descrição, a razão desempenha um papel decisivo. Se se pensa sobre o que é ou seria razoável, busca-se o modo justo de agir. É preciso apenas prestar atenção no fato que “razoável” e “justo” significam, neste caso, algo de totalmente diferentes de “esperto”, “que promete sucesso” ou coisas parecidas. Razoáveis, neste sentido, são todas aquelas decisões e ações que, de verdade, consideram tudo aquilo de que se deve ser tido em conta, por exemplo que Deus nos deu, junto com nossa essência, também uma ordem moral, que devemos respeitar e que devemos considerar em todas as nossas decisões.

É este o “coração que escuta”?
Aquilo a que o Papa se refere quando fala do “coração que escuta” é exatamente isto: se escutamos a nossa consciência, escutamos a razão, neste sentido. Isto pressupõe, naturalmente, que não escutemos as premissas de uma ideologia que falsifica a realidade. No fundo, cada um de nós conhece esta situação: sabemos o que seria “a coisa justa”, porém nos persuadimos continuamente de que seria justo algo diferente, às vezes tão distante no tempo que a nossa consciência “emudece” e não é mais possível escutar a sua voz de advertência. Se eu torturo ou mato alguém, traio a minha mulher ou roubo algo, no fundo, sempre sei, independentemente da minha visão de mundo, que isto “não é justo”; só que me convenço que, levando em consideração as minhas circunstâncias, isto é justo ou até mesmo necessário. Naquele momento, sei perfeitamente que estou me iludindo, mas tendo me distrair, me convenço, minto para mim mesmo.

Na primeira parte, o Papa disse que “aquilo que é justo” não é mais evidente. Por onde passa o caminho (o método) para reencontrar esta evidência? Como nós, homens pós-modernos, podemos encontrar isto? 
Aquilo que eu acabei de descrever se tornou cada vez menos claramente reconhecível na nossa cultura, por causa do desaparecimento das tradições cristãs. Desde a Idade Média (Ratzinger escreveu sua tese de habilitação para a Universidade de Munique sobre Boaventura) nasceram sempre mais frequentemente filosofias ou modos de pensar comuns que apagaram e, por assim dizer, renegaram as tradições cristãs e, deste modo, também aquelas partes do pensamento da antiguidade pré-cristã retomadas pelo cristianismo. Isto causou uma atrofia ou mesmo um ressecamento das convicções tradicionais sobre o que é “justo”. Eu, no fundo, acredito que seja um absurdo esta frase feita sobre os “pós-modernos”. De fato, a ruptura é muito mais antiga, sobretudo na cultura alemã. Pensadores como Kant, Hegel ou Nietzsche, que tinham muita coisa justa para dizer, mas descuidaram da verdade sobre questões essenciais, marcaram a cultura alemã de modo determinante. Mesmo se Hegel, por exemplo, tivesse ficado horrorizado ao conhecer a ideologia dos nazistas ou dos comunistas, ainda assim algumas convicções atuais, particularmente nos países de língua alemã, são referidas a ele e aos seus herdeiros. Assim, a Igreja católica, a partir de muitos pontos de vista, se tornou quase a única instituição a manter vivo aquilo que a cultura ocidental entendeu. Eu acredito, por isso, que seja possível readquirir as justas convicções sobre aquilo que é verdadeiro, significativo, correto e justo, somente na medida em que o mundo, e sobretudo os países de língua alemã, se tornem “mais católicos” outra vez.

O que o senhor quer dizer com isso?
Com isto não entendo necessariamente que todos devem se tornar católicos. Mas se trata de um modo de pensar que somente os católicos conseguem levar adiante, e também uma parte essencial dos crentes ortodoxos e anglicanos. Com efeito, não gostaria de excluir que nos estamos aproximando de um tempo que, na tradição cristã, é descrito como o do anticristo. Exatamente nas últimas décadas, por exemplo, se tornou particularmente atual a visão do anticristo apresentada por Vladimir Soloviov no início do século XX. Talvez o fim da história da humanidade, o “fim do mundo”, esteja mais perto do que geralmente pensamos...

É necessário chamar em causa a razão criativa de Deus para tornar a unir razão e natureza?
Sim, porque em última instância apenas a ideia segundo a qual Deus é o criador, de um lado, de toda a realidade, e de outro, também da nossa razão, é que nos permite ver ambas como ordenadas uma à outra. Se não somos nada mais do que macacos por acaso altamente desenvolvidos, vivemos num mundo no qual tudo o que está em jogo é a sobrevivência; mas o homem não sobreviverá para sempre. Somente na medida em que se admite que Deus criou o mundo por amor ao homem, é que a nossa existência tem um sentido neste mundo. Para aqueles que veem em nós um macaco que, por acaso, é mais desenvolvido, de forma que tudo se deve ao acaso de uma cega evolução que poderia mesmo ter terminado de uma forma completamente diferente da forma como terminou, não é possível existir nenhum sentido “objetivo” para a existência do homem. Então, não somos nada mais do que produto do acaso, que, um dia, se apagará novamente e desaparecerá. Então, nada tem sentido; e o homem não é nada mais nada menos do que um Prometeu que, um dia, desaparecerá de novo. Às vezes me espanto ao ver como os homens conseguem apenas suportar uma tal ideia; provavelmente podem suportá-la somente porque nunca a levaram até às suas extremas conclusões. Houve homens, no século passado, que se suicidaram por causa desta visão, com a ideia, por assim dizer, que a única coisa na qual podemos ainda dar prova de nós e que nos demonstra nossa unicidade consiste no fato que somos o único ser vivo sobre a terra que pode “eliminar” a si mesmo intencional e conscientemente. Dostoievski descreveu de forma persuasiva esta visão das coisas no seu romance Os Demônios...

Por que o Papa falou do “movimento ecológico na política alemã a partir dos anos 1970”? Qual é o sentido desta referência específica?
João Paulo II já havia falado de um dever do cristão de preservar o ambiente da destruição, ao invés de simplesmente desfrutar dele até que não reste mais nada. Não devemos esquecer que o movimento e o partido dos “verdes”, na Alemanha, tem sua origem, sim, a partir dos marxistas, mas atraiu também muitos cristãos que estavam preocupados com a destruição do ambiente. Conheço pessoalmente alguns “verdes” que são cristãos convictos. O desejo de proteger a criação é mais do que um mero sentimentalismo; no fundo, todos queremos viver num mundo que não tenha perdido completamente a sua natureza original. Por trás disto há também a preocupação com o sustento da humanidade que continua crescendo...

Por que a doutrina do direito natural não é mais popular no pensamento católico?
Este, efetivamente, é um problema: eu o descreveria como uma preocupante “protestantização” de uma parte dos teólogos católicos e da teologia ensinada por eles. Ver o jusnaturalismo como uma premissa importante e como uma implicação da interpretação da fé pertence à grande tradição da teologia católica. Para mim, há dois motivos que justificam a cada vez menor disponibilidade a se ocupar deste tema: em primeiro lugar, o influxo dos protestantes agnósticos (“somente a Sagrada Escritura vale!”), em segundo lugar, alguns modernos desenvolvimentos do direito natural, que argumentam de modo completamente diverso daquele da tradição cristã. Para dizer a verdade, emerge também o fato que não é fácil continuar a desenvolver o direito natural clássico da Igreja católica: parece que já foi dito tudo o que era essencial. Parece-me que o significado da doutrina do direito natural consista sobretudo no fato que contradiz a ideia segundo a qual existam apenas duas alternativas: a ciência moderna, frequentemente positivista, e a fé cega, quase irracional. Já há bastante tempo, desde antes de se tornar papa, que Ratzinger tem realçado o significado da terceira alternativa: o jusnaturalismo como uma representação daquilo que emerge da essência corretamente entendida do homem. Trata-se de não esquecer uma determinada visão de homem: do homem como criatura, a que a fé cristã não se opõe, mas realiza.

O Papa disse durante a celebração ecumênica em Erfurt, na sexta-feira passada que “a fé não é algo que concebemos ou com o que concordamos. É o fundamento sobre o qual vivemos”. O que significa isto para o diálogo interreligioso na Europa cristã?
Antes que o Papa viesse à Alemanha, houve, na Alemanha e na Áustria, uma discussão acalorada e vivaz. De um lado, alguns protestantes esperavam que o Papa, por assim dizer, canonizasse, pelo menos em parte, Lutero (e também Calvino e Zwingli); de outro lado, houve um movimento entre os teólogos católicos que queria abolir o celibato e até mesmo ordenar mulheres. Diante disto, Bento XVI sublinhou que a unidade dos cristãos e o seu restabelecimento não pode ser, em última instância, obra do homem, ou seja, não se trata de algo que se alcançará (como é no caso de questões políticas) através de tratados e compromissos. Somente o Espírito Santo, e não a negociação entre nós, pobres homens, pode indicar o caminho. Ao mesmo tempo, as palavras do Papa foram um chamado de atenção “para o caminho que já trilhamos”. Há meio século atrás, uma oração ecumênica como aquela que houve em Erfurt seria impensável. As palavras do Papa que o senhor acabou de citar, recordam a “longa duração” que sempre foi característica da Igreja católica: a disponibilidade do coração aberto para esperar até que o Senhor nos indique o caminho.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 28 de setembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Cartas do P.e Aldo 200

Asunción, 6 de julho de 2011.

Caros amigos,
É impressionante como a Presença do Mistério se impõe na minha vida, na medida em que olho e vivo a realidade como sinal! Não existe coisa, circunstância, fato que não seja a evidência da desproporção entre o meu nada e o Mistério que a realidade me revela continuamente. Viver suspensos na certeza de sermos queridos agora, agora que posso estar mal ou estar bem, estar emocionalmente no alto ou embaixo, ser simpático ou não. Ser querido por um Outro, assim como sou, e olhar com ironia para os meus limites. Dar-me conta e me surpreender, a cada dia, com o imprevisto que desfaz os meus projetos, as minhas programações, fazendo-me ver como é a realidade de fato e descobrir como a Providência Divina me faz vibrar pelo cêntuplo evidente em cada instante da vida. Um cêntuplo que não apenas é um a mais de vida, de humanidade, mas também é um a mais econômico e também de ação.
Hoje, por exemplo, chegaram-me dois emails: um de Barcelona, e outro de Reggio Emilia.
O primeiro me comunicava a feliz notícia de que Jordi (o arquiteto-chefe da “Sagrada Família” de Barcelona) e  Sotoo – que alguns dias faz, num fim de semana, havia se retirado para rezar, meditar, estudar o projeto, na belíssima Basílica de Nossa Senhora de Montserrat – terminaram tanto os cálculos estruturais, como odesejo do conjunto de imagens esculpidas em pedra e que estarão na fachada da nova clínica. Trata-se de comentar, na pedra, a frase de São Paulo aos Romanos: “A natureza mesma geme as dores de parto, esperando a ressurreição do Filho de Deus”. Assim, a nova clínica terá como base a Capela toda incrustada em madeira revestida com o “pão de ouro” do Santíssimo Sacramento e, no ponto mais alto, a imagem de Cristo saindo da terra, como num parto, traz consigo (“arrastra”: em espanhol é mais profundo) toda a realidade na plenitude da vida, no paraíso que será a realidade na sua perfeição máxima. Por isso, em breve o braço direito de Sotoo, Manolo, virá para dar início à obra.
Hoje, Francisco morreu de AIDS, um jovem abandonado por todos, mas que morreu entre os nossos braços. Tudo isto só é possível porque, quando o eu é agarrado pelo Mistério, gera uma cadeia de relações, como me escreve de modo comovente esta minha amiga de Reggio Emilia:
Caro Padre Aldo,
Quando as suas cartas nos chegam, fico me perguntando como é que chegam exatamente quando precisamos! Obrigada.
Assim, queríamos que você soubesse que, entre as tantas, aquela do “testamento da viúva” (de 27 de março de 2011) nos comoveu tanto que nos sentimos cobrados e organizamos uma venda extraordinária de “cappelletti” (você sabe, somos de Reggio Emilia, e aqui, eles são bem quistos!) feitos em casa. Apresentamos a proposta aos nossos amigos e algumas mulheres nos encontramos (de todas as idades!) para fazê-los. Aquilo que foi arrecado foi enviado para você nesses dias, num depósito de 500 euros.
Não é muito, uma gota no mar de necessidade, mas nasce de uma comoção depois de outro, porque foi assim aquilo que vimos brotar deste nosso pequeno “movimento”, nascido de forma impetuosa, porque ficamos tocados pela simplicidade da pertença daquela mulher que, tendo encontrado “a verdade da sua vida”, quis deixar tudo o que tinha.
Obrigada! Em anexo vão algumas fotos do nosso trabalho e, abraçando-o, pedimos-lhe que se lembre de nós na sua oração, junto de todos aqueles que trabalharam conosco.
Maura Bezzecchi
Maura Caprari
P.S.: Da próxima vez que vier à Itália, será nosso convidado para comer “cappelletti” conosco.
Como podem ver, não se trata de dotes particulares ou de capacidades, mas tão somente de deixar-se tomar pelo Mistério que, numa das leituras da semana passada, na Missa, dizia, através de Moisés, ao povo judeu: “Tu és a minha propriedade”, “eu me apaixonei por ti, por ti que és o menor de todos os povos”.
Amigos, espero que vocês vivam juntos este tempo, comovidos, rezando, como dizia a oração da coleta do último domingo, “Deus, que por meio da humilhação do Teu Filho, levantou a humanidade decaída, concedei-nos a VERDADEIRA ALEGRIA, para que, libertos da escravidão do pecado, possamos atingir a plenitude da felicidade” (em espanhol, “a felicidade sem fim”), como que dizendo de plenitude em plenitude.
Padre Aldo.

terça-feira, 28 de junho de 2011

De Galileu a Einstein, para alargar a razão


Entrevista com Paolo Musso, feita por Mario Gargantini

O cientificismo? Foram os filósofos que o inventaram. O racionalismo? Não é o nosso destino inevitável. Descartes? Um gigante da filosofia e da matemática, mas com a ciência moderna não tem nada que ver. A fé? Não apenas não é irracional, como o seu método tem muito de comum com o método científico. Pico Dela Mirandola, Pascal, Rosmini, Newman? Fiquem no sótão: a verdadeira alternativa para a modernidade é Galileu. São apenas algumas das teses, certamente “fortes” e destinadas a causar alguma discussão, contidas no último livro de Paolo Musso, La scienza e l’idea di ragione [A ciência e a ideia de razão, em tradução livre; ndt], que acabou de ser publicado pela  editora Mimesis, com um lisonjeiro prefácio de Evandro Agazzi: uma obra desafiadora que se propõe, como diz o subtítulo, a traçar um quadro crítico da evolução de “ciência, filosofia e religião, de Galileu aos buracos negros e além”. Conversamos sobre o livro com o seu autor, docente da Universidade da Insubria de Varese e da Universidade Católica Sedes Sapientiae de Lima (Peru).

A primeira coisa que impressiona no livro é a vastidão: não tanto como tamanho da obra, mas pela amplidão e, ao mesmo tempo, profundidade dos assuntos tratados.
Sem dúvida. Com efeito, trata-se de um empreendimento ambicioso, talvez até demais. De outro lado, numa época na qual a filosofia está se transformando cada vez mais em filologia, é preciso mesmo que alguém tenha a coragem (ou a inconsciência, se se preferir) de tentar grandes sínteses. Mas, o senhor disse bem quando se refere ao fato de que a amplidão não significa menor profundidade e, eu acrescentaria, ou precisão. Digo-o sem presunção, consciente de que o mérito não é meu, mas do verdadeiro exército de amigos que, frequentemente comum a disponibilidade extraordinária, me ajudou a ir a fundo das questões que, sozinho, nunca teria conseguido entender nem superficialmente. Hoje, o conhecimento científico está em tão rápida evolução que não é possível fazer filosofia da ciência de forma séria a não ser que seja através de um relacionamento constante com os cientistas no trabalho. Não se trata, porém, de um livro para especialistas: pelo contrário, foi pensado para permitir diversos níveis de leitura, desde o leitor comum, passando pelas pesquisas escolares ou monografias de final de curso, até chegar à pesquisa de nível universitário.

Quanto da sua atividade de ensino influiu sobre o texto?
Foi fundamental. Antes, gostaria de aproveitar para agradecer publicamente aos meus alunos de Varese e de Lima. Sem eles este livro nunca teria nascido. Não foi à toa que o dediquei a eles.

Quais são as principais ideias-chave?
Tudo partiu de uma constatação paradoxal e inegável: a visão de mundo que, hoje, é largamente dominante e que é chamada de “modernidade”, se mostra como filha da ciência, sempre vista como indissoluvelmente ligada ao racionalismo no plano filosófico e ao mecanicismo no plano físico; e visto que a ciência é, para nós, um horizonte intranscendível, a “modernidade” se mostra também como intranscendível, uma espécie de destino fatal a que seremos definitivamente entregues. O paradoxo está no fato que tudo isso não tem nada que ver com a ciência real, mas muito mais com aquela sua caricatura que é o cientificismo, nascido dos filósofos e que somente, depois, contagiou também os cientistas. Que, além do mais, quando estão trabalhando, não podem fazer menos do que ser anticientistas nos fatos: porque o autêntico método científico experimental, codificado de maneira insuperável por Galileu, baseia-se numa ideia de razão estruturalmente aberta para a realidade, para a experiência, para o imprevisto e para o mistério; enquanto que o cientificismo baseia-se numa ideia fechada de “razão-medida-de-todas-as-coisas”, que, se colocada em prática, destruiria em primeiro lugar a própria ciência. Por isto, grande parte do livro é dedicada a fornecer uma informação correta sobre como a ciência nasceu e se desenvolveu, superando gradualmente o mecanicismo das origens, através da análise de algumas das grandes etapas paradigmáticas (Galileu, Newton, a termodinâmica, a relatividade, a mecânica quântica, a cosmologia, o caos e a complexidade).

Uma das passagens cruciais é feita de um confronto entre Galileu e Descartes. Por quê?
Porque existe um mito muito difundido segundo o qual Descartes seria o verdadeiro cofundador da ciência moderna, ao lado (e, às vezes até, acima) de Galileu.

E porém?
Porém, isso não é verdade. Descartes nunca entendeu nada do método galileiano, que, pelo contrário, foi criticado abertamente, e durante toda a sua vida continuou fazendo ciência (ou melhor, pseudo-ciência) a priori, isto é, segundo o método dedutivo típico dos filósofos aristotélicos que, nas suas palavras, eram tão desprezados. A verdade é que Descartes foi o primeiro dos modernos na filosofia e na matemática, onde foi um verdadeiro gigante (a ponto de podermos dizer que, sem ele, nunca teria sido possível as geometrias não euclidianas), mas do ponto de vista das ciências naturais foi, pelo contrário, o último dos antigos.

Então, por que se criou este mito?
Foi uma ação intencional, desejada. E o motivo me parece evidente: tal mito, de fato, permite fazer circular injustamente como fatores constitutivos da ciência o racionalismo e o mecanicismo, que são cosubstanciais ao método cartesiano, mas que não têm nada que ver com o método galileiano.

Ou seja, Descartes não lhe é muito simpático...
Não é uma questão de simpatia. Certamente Descartes era insuportavelmente presunçoso, mas também Galileu o era. Da mesma forma, Descartes não foi certamente menos “crente sincero” do que ele, e do ponto de vista da coerência moral tinha mais pontos do que Galileu. Mas o que lhe faltava completamente (e que Galileu tinha no mais alto grau) era o sentido do mistério, ou seja, a capacidade de se maravilhar diante da realidade: que, como dizia Einstein, “é a semente de toda a arte e de toda verdadeira ciência”.

O outro grande protagonista do livro é exatamente Einstein.
Era suficientemente óbvio, dado o tema. Mas não era óbvia a descoberta que fiz do quão profundamente ele e Galileu eram ligados. Einstein tinha em casa os retratos de Newton, Faraday e Maxwell, mas se lermos atentamente os seus escritos vamos descobrir que o seu verdadeiro norte foi Galileu. Esta é também a explicação para muitos mal-entendidos: não é possível entender, de verdade, Galileu sem entender Einstein, mas são bem poucos os filósofos e os historiadores da ciência renascentista que conhecem a teoria da relatividade.

O senhor gosta muito de Galileu, e julga de forma muita negativa as teses de alguns dos mais importantes críticos da modernidade, como Del Noce, Guardini, De Lubac...
Não os julgo negativamente! Antes, as suas ideias, particularmente as de Del Noce, têm um papel central na minha análise. Aquilo que não me convence é a sua pars construens, porque é uma veleidade esperar opor a um gigante como Descartes pensadores certamente grandes mas que não estão à sua altura, e sobretudo que são irremediavelmente marcados pela sensibilidade moderna, como Pico Della Mirandola, Pascal, Rosmini ou mesmo Newman, de quem gosto muito.

Galileu, pelo contrário, tem certamante a physique du rôle... mas, ele também não tinha os seus defeitos?
Os seus defeitos não me interessam! O que deve interessar a todos é aquilo que nos deixou como herança: nada menos do que um novo (e formidável) modo de usar a razão. Que, se bem entendido, é o exato oposto do reducionismo. E que, ao mesmo tempo, representa um dos últimos pontos de resistência contra o relativismo e o irracionalismo que se têm difundido.

A propósito do relativismo, o senhor é muito severo também com a epistemologia contemporânea.
Em boa parte dela, se não em toda ela, há várias décadas, prevalece uma postura relativista e antirealista absurda que nega que a ciência possa conhecer o mundo assim como é verdadeiramente. Para sustentar isso, é preciso ou não conhecê-la ou fingir que não a conhece. É interessante notar que o relativismo cultural moderno se desenvolveu em grande parte exatamente a partir destas teses epistemológicas: mostrar sua insustentabilidade tem, portanto, implicações que vão muito além do âmbito científico.

Muitos autores católicos, porém, veem com favor esta epistemologia “fraca”, porque pensam que ajude a defender a fé das excessivas pretensões da ciência.
É só porque não a conhecem. Do contrário, entenderiam que não apenas a ciência não é inimiga da fé, como também, pelo contrário, é, pelo menos potencialmente, a sua melhor aliada, dado que é, de qualquer forma, o único setor da cultura que defende ainda a ideia segundo a qual a experiência pode conduzir à verdade, cuja negação apriorística e imotivada constitui, ao invés, o verdadeiro “dogma central” da modernidade. E, seja como for, como repete continuamente Bento XVI, a fé não se defende restringindo o alcance da razão, mas alargando-o, ou seja, abrindo a razão a um horizonte maior.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 28 de junho de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Cartas do P.e Aldo 195

Asunción, 3 de junho de 2011.

Caros amigos,
É belo se surpreender sempre mais com o olhar fixo no Mistério e os pés bem plantados na realidade, não importando se devo suar as proverbiais sete camisas, porque o suor é a dramaticidade com a qual se enfrenta a vida.
De volta à casa, como acontece em toda família, a pessoa se encontra com a realidade que, no meu caso, é aquela onde a dor transborda de todos os lados: moribundos, jovens com câncer e com AIDS, velhos abandonados, meninas grávidas ou violentadas, filhos que fogem ou se opõem ao caminho educativo das Casinhas de Belém, colaboradores com tantos problemas pessoais e familiares, pessoas que com a desculpa de ajudar criam mais problemas do que soluções. Nem mesmo coloquei os pés na terra, saindo do avião, e eis o cenário. O meui coração sentiu imediatamente que Deus me pede tudo, que a realidade já é amiga e, por isso mesmo, está sempre pronta a me provocar. Não tive tempo nem mesmo para a saudade do que encontrei na Itália, porque a realidade me faz formigar de uma nostalgia muito maior, infinitamente mais bela: a nostalgia de fixar bem nos olhos do Mistério, aquele Tu que me fazes. No avião eu tinha lido a introdução dos exercícios de Carrón. Imediatamente reconheci descrito, de forma operativa, o meu eu tornado ainda mais inquieto, desejoso, saudoso de vê-Lo. Eu estava cansado, o fuso horário, as confusões... as perguntas, a súplica, a necessidade urgente de não perder de vista, um instante sequer, a alegria pascal, ou seja, a companhia dos “vivos”: Julián de la Morena, Paolino, Padre Martino do Chile e visitor da São Carlos Borromeu na América Latina.
Dor, sofrimento, suor, alegria pascal. Sim, porque a alegria pascal é uma companhia na qual é evidente, claro, luminoso, o carisma que nos foi dado. O abraço destes amigos tornou ainda mais potente para mim a pergunta pelo Infinito que trago dentro de mim.
Assim, pude, tão logo cheguei em casa e desfiz as malas de presentes para as minhas crianças, visitar os doentes, os idosos, os meus filhos mais novos, o pessoal que estava trabalhando, vendo neles, mesmo se os olhos estavam anuviados pelo cansaço, a beleza radiante do rosto de Cristo. Aquele rosto que vi, em cada dia, na Itália, em cada lugar por onde passei.
Há, de fato, em todos os lugares, uma vida que desabrocha, um surplus de vida, de vontade de viver. E é esta vontade de viver que tão logo encontrei Isabel, uma garotinha de 15 anos – e que, numa carta, se define como um “vírus” –, me coloquei de joelhos diante do Mistério, suplicando-lhe que me dê aquela paternidade necessária para comunicar a ela a alegria de ser um dom. Um fato que me obriga a estar diante dEle, se verdadeiramente amo esta filha, porque sem esta minha posição não conseguirei lhe comunicar nada, não poderei lhe mostrar que também para ela existe a possibilidade de passar da consciência de ser um “vírus” à certeza “de amei-te com um amor eterno, tendo piedade do teu nada”.
A mesma posição eu senti como necessária quando, visitando a casa onde vivem algumas garotas grávidas (uma de 12 anos está no oitavo mês) e outras que acabaram ter seus filhos, saudando-as com afeto, depois de 15 dias sem as ver, não obtive sequer um olhar delas. Uma vez mais, vi em seus rostos a raiva da vida, de todos. Senti ternura por elas, da mesma forma que o Mistério sente por mim, olhando-me continuamente, acolhendo-me, porque “antes de ser concebido no ventre de minha mãe, Ele pronunciou o meu nome, fez de mim sua propriedade, teve piedade do meu nada, amando-me de um amor eterno”. E, então, eu as saudei dizendo: “Voltarei amanhã e vamos ficar juntos”.
No dia seguinte, o milagre: uma delas, depois de três meses conosco, se aproximou e me deu um beijo. Não somente isso, mas mesmo a sua feminilidade, antes destruída, se refez. Quando ela chegou aqui, com a sua barriga maior do que ela (que tem apenas 15 anos), estava suja, desarrumada, destruída pelo crack; agora, não tem mais nem sinal daquela menina perdida. Bonita, cabelos longos bem penteados, unhas pintadas, vestida como as garotas de hoje etc. Além do mais, vive para a sua filha.
Veio-me em mente aquilo que Dom Giussani disse em “É possível viver assim?”: a moralidade é olhar no rosto a Jesus... então, tudo se torna ordenado, a pessoa se penteia de certa maneira, abotoa seus botões, tem vergonha se está com sapatos sujos e diz “perdoe-me por estar assim desarrumado”.
Hoje, chegou outra garota que está no terceiro ano do ensino médio e está no terceiro mês de gravidez. Esta noite, faremos a festa com as outras para lhe dar as boas vindas. É Jesus que chegou com uma trouxinha na barriga. Olho para ela, é pequena, magra, os olhos verdes, e sinto uma ternura infinita. Outro caso de pedofilia. Mas, tenho a certeza – porque há anos a toco com a mão – que também para ela a certeza do Cristo ressuscitado triunfará. Não existe problema, por mais violento, que não encontre em Cristo a vitória
Certamente, trata-se de uma luta e de uma dor contínuas, mas esta é a condição para estar, instante após instante, diante do Mistério. A dor é tanta (também hoje, na clínica, morreu uma jovem mãe com quatro filhos) e, às vezes, parece me arrastar, no entanto, dentro de tudo isto encontro o repetir contínuo de “eu sou Tu que me fazes”, que muda tudo, e tudo se torna motivo de letícia, porque tudo, exatamente tudo, se torna positivo, porque tudo se torna grito, reconhecimento do Ser que me faz em cada momento, e por quem bate o meu coração.
Padre Aldo

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Uma defesa positiva da natureza humana

Por Dom Filippo Santoro
Bispo de Petrópolis - RJ

Toco um tema de grande relevância na sociedade e na Igreja nesses dias, que é a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a união de pessoas do mesmo sexo. A nossa fé dá um juízo também sobre este fato. Retomo a nota que saiu da última Assembleia Geral da CNBB que afirma:
“A diferença sexual é originária e não mero produto de uma opção cultural. O matrimônio natural entre o homem e a mulher bem como a família monogâmica constituem um princípio fundamental do Direito Natural. (...) A família é o âmbito adequado para a plena realização humana, o desenvolvimento das diversas gerações e constitui o maior bem das pessoas”. Esses são os pontos de referência para um juízo correto sobre a questão atualmente debatida. Continua a nota da CNBB: “As pessoas que sentem atração sexual exclusiva ou predominante pelo mesmo sexo são merecedoras de respeito e consideração. Repudiamos todo tipo de discriminação e de violência . (...) [Porém] equiparar as uniões entre pessoas do mesmo sexo à família descaracteriza a sua identidade e ameaça a estabilidade da mesma”.
Uma coisa é o respeito, a não discriminação, outra coisa é a riqueza da vida familiar, da identidade sexual que dá origem ao matrimônio, que dá origem à família. A família segundo o plano de Deus que tem o direito de ser protegida pelo Estado. “É atribuição do Congresso Nacional propor e votar leis, cabendo ao governo garanti-las. Preocupa-nos ver os poderes constituídos ultrapassarem os limites de sua competência, como aconteceu com a recente decisão do Supremo Tribunal Federal. [Isso] compromete a ética na política”, que uma decisão do Supremo Tribunal se substitua àquele que é o trabalho do Legislativo, do Congresso legitimamente eleito pelo povo.
Mas aquilo que nos interessa neste momento é o juízo dado sobre essa decisão do Supremo. A motivação usada pelos juízes nesse caso – daqueles que sustentam a união estável e a reconheceram equiparando-a a uma entidade familiar – é que nós vivemos em uma sociedade fragmentada. Existem tantos fragmentos, e um desses fragmentos é a Igreja Católica. O Supremo Tribunal decide quando um fragmento quer prevalecer sobre o outro e intervém para colocar ordem. O Supremo Tribunal tem a presunção de representar o uso da razão quando os direitos de um fragmento são invadidos pelo outro ou não são respeitados. Onze pessoas representam a razão num clima de fragmentação total, de confusão do eu; e aí que domina o poder. Não pode ser um grupo de pessoas que decide o que é justo e o que não é justo quando se trata de definir o que é segundo a razão. E se não é um grupo de pessoas quem é? É somente algo que está na natureza humana, que a razão reconhece, e que se chama lei natural. Existe uma lei natural que junta todos os fragmentos, todas as pessoas.
A fé católica, escuta a voz da razão, e nós somos os primeiros a defender esse laço que une todos os fragmentos da sociedade que sem um fundamento comum seriam incomunicáveis. Diz São Tomás de Aquino: “A lei natural não é outra coisa que a luz da inteligência infundida por Deus em nós. Graças a ela conhecemos o que se deve cumprir e o que se deve evitar. Esta luz e esta lei Deus a concedeu na criação”, (Collationes in decem praeceptis, 1); cit. in: João Paulo II, Veritatis Splendor, 40. Que a sociedade seja fragmentada é um fato, mas que não haja um fundamento comum é toda uma outra questão. Se não tivesse comunicação entre um fragmento e outro não poderia existir encontro entre as pessoas, não poderia existir comunicação, não poderia existir diálogo. O fundamento comum, que é a lei natural, deve ser reconhecido e respeitado. Nesse caso em que 11 pessoas têm todo poder de decidir o que é justo e segundo a razão se manifesta uma prevaricação do poder. Nenhuma lei humana pode-se substituir às leis não escritas que se encontram na natureza humana, como já dizia Sófocles na Antígona. E São Paulo afirma: “A lei está escrita em seus corações” (Rom 2, 15). A nossa posição é a defesa da racionalidade, é a defesa da unidade, é a defesa da natureza.
A partir do encontro com o Senhor, nós temos uma experiência humana diferente. Ele transforma a nossa vida. E nós damos este juízo não como uma posição contra uma outra, não acanhados porque atacados ou reivindicando espaços para a Igreja. Não é isso. É por uma experiência positiva, que não tem medo dos necessários sacrifícios, iluminada pelo encontro com o Senhor que podemos afirmar e defender a natureza humana. E somos agradecidos porque Ele abre os nossos olhos. Por isso, a nossa batalha não é uma batalha de defesa, uma batalha de pessoas colocadas no escanteio. Podemos perder – Jesus morreu na Cruz –, mas o importante é afirmar a verdade da experiência humana, aquilo que torna o humano grande e vibrante, que torna o humano extraordinário, porque capaz de infinito.
Nós fazemos uma batalha positiva, que nos permite encontrar qualquer pessoa, ter contato com qualquer um, porque dialogamos com a humanidade das pessoas, não de uma forma reduzida, mas com uma atenção profunda. Como fizeram os apóstolos e os primeiros cristãos. Naquele tempo estas coisas, no mundo da Grécia, eram aceitas, mas não era a forma humana mais digna. São Paulo em Corinto não está diante de uma sociedade patriarcal, mas pretensamente liberal e manifesta um outro ponto de vista radicalmente diferente. Pensemos como eram tratadas as mulheres, sem falar dos escravos. O Cristianismo revolucionou tudo isso. E nós através do testemunho de uma beleza extraordinária encontrada, podemos comunicar como é positivo para todos defender o bem da família, defender o bem da vida, a partir não de uma teoria, mas da experiência. Por isso, agradeçamos ao Senhor porque nos fez encontrar Aquele que é a fonte da nossa humanidade verdadeira, Aquele do qual a nossa alma tem sede, que o nosso coração deseja, e que não ficou distante e que nos encontrou e nos iluminou sobre a verdadeira consistência da nossa humanidade. E este é um bem para todos; é um aspecto da boa nova que ilumina a vida de qualquer pessoa. O eunuco e o apóstolo são abraçados pela mesma misericórdia, que indica um novo rumo para a vida e para as relações entre as pessoas.

* Extraído do site da CNBB, do dia 27 de maio de 2011.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Que na Universidade haja uma autêntica paixão pela Verdade...

Discurso do Santo Padre Bento XVI
aos dirigentes, docentes e estudantes
da Universidade Católico do Sagrado Coração

Aula Paulo VI
Sábado, 21 de maio de 2011

Senhores Cardeais,
Magnífico Reitor, ilustres Docentes,
Distintos representantes do pessoal,
Caros estudantes!
Estou muito feliz de poder ter este encontro com vós que formais a grande família da Universidade Católica do Sagrado Coração, nascida há noventa anos sob a iniciativa do Instituto Giuseppe Toniolo de Estudos Superiores, entidade fundadora e garantidora do Ateneu, pela feliz intuição de Padre Agostino Gemelli. Agradeço ao Cardeal Tettamanzi e ao Prof. Ornaghi, pelas calorosas palavras que me dirigiram em nome de todos.
O nosso tempo é um tempo de grandes e rápidas transformações, que se refletem também sobre a vida universitária: a cultura humanista parece atingida por um progressivo desgaste, enquanto se acentua o valor das disciplinas ditas “produtivas”, de âmbito tecnológico e econômico; esbarramos com a tendência a reduzir o horizonte humano ao nível daquilo que é mensurável, a eliminar do saber sistemático e crítico a questão fundamental sobre o sentido. A cultura contemporânea, por isso, tende a confinar a religião fora dos espaços da racionalidade: na medida em que as ciências empíricas monopolizam os territórios da razão, não parece haver mais espaço para as razões do crer, de forma que a dimensão religiosa é relegada à esfera da opinião e do privado. Neste contexto, as motivações e as características mesmas da instituição universitária são radicalmente questionadas.
Noventa anos depois de sua fundação, a Universidade Católica do Sagrado Coração se encontra vivendo esta virada histórica, na qual é importante consolidar e incrementar as razões pelas quais nasceu, levando àquela conotação eclesial que é evidenciada pelo adjetivo “católica”; a Igreja, de fato, “especialista em humanidade”, é promotora de humanismo autêntico. Emerge, nesta perspectiva, a vocação original da Universidade, nascida da busca pela verdade, de toda a verdade, de toda a verdade do nosso ser. E com a sua obediência à verdade e às exigências do seu conhecimento ela se torna escola de humanitas na qual se cultiva um saber vital, se forjam personalidades fortes e se transmitem conhecimentos e competências de valor. A perspectiva cristã, como quadro do trabalho intelectual da Universidade, não se contrapõe ao saber científico e às conquistas da engenhosidade humana, mas, pelo contrário, a fé alarga o horizonte do nosso pensamento, é caminho para a verdade plena, guia de autêntico desenvolvimento. Sem orientação para a verdade, sem uma postura de procura humilde e audaz, toda cultura se desfaz, decai no relativismo e se perde no efêmero. Tirada, pelo contrário, das garras de um reducionismo que a mortifica e a circunscreve, pode se abrir a uma interpretação verdadeiramente iluminada do real, desempenhando assim um autêntico serviço para a vida.
Caros amigos, fé e cultura são grandezas indissoluvelmente ligadas, manifestações daquele desiderium naturale videndi Deum que está presente em todo homem. Quando esta união se quebra, a humanidade tende a dobrar-se e fechar-se sobre suas próprias capacidades criativas. É necessário, então, que na Universidade haja uma autêntica paixão pela questão do Absoluto, a Verdade mesma, e portanto também pelo saber teológico, que no vosso Ateneu é parte integrante do currículo. Unindo em si a audácia da pesquisa e a paciência do amadurecimento, o horizonte teológico pode e deve valorizar todos os recursos da razão. A questão da Verdade e do Absoluto – a questão de Deus – não é uma investigação abstrata, separada da realidade do cotidiano, mas é a pergunta crucial, da qual depende radicalmente a descoberta de sentido do mundo e da vida. No Evangelho se funda uma concepção do mundo e do homem que não cessa de desencadear significados culturais, humanistas e éticos. O saber da fé, portanto, ilumina a pesquisa do homem, a interpreta humanizando-a, a integra em projetos de bem, arrancando-a da tentação do pensamento calculador, que instrumentaliza o saber e faz das descobertas científicas meios de poder e de escravização do homem.
O horizonte que anima o trabalho universitário pode e deve ser a paixão autêntica pelo homem. Somente no serviço ao homem a ciência se desenvolve como verdadeiro cultivo e custódia do universo. E servir ao homem é fazer a verdade na caridade, é amar a vida, respeitá-la sempre, a começar das situações nas quais ela é mais frágil e indefesa. É esta a nossa tarefa, especialmente nos tempos de crise: a história da cultura mostra como a dignidade do homem foi reconhecida verdadeiramente na sua integralidade à luz da fé cristã. A Universidade Católica é chamada a ser lugar no qual toma forma de excelência aquela abertura ao saber, aquela paixão pela verdade, aquele interesse pela história do homem caracterizam a autêntica espiritualidade cristã. De fato, colocar-se numa postura de fechamento ou de distanciamento diante da perspectiva da fé significa esquecer que ela foi ao longo da história, e o é ainda, fermento de cultura e luz para a inteligência, estímulo para que se desenvolvessem todas as suas potencialidades positivas para o bem autêntico do homem. Como afirma o Concílio Vaticano II, a fé é capaz de dar luz à existência. Diz o Concílio que a fé “vê todas as coisas sob um luz nova, e revela as intenções de Deus sobre a vocação integral do homem, e por isso guia a inteligência para soluções plenamente humanas” (Gaudium et spes, 11).
A Universidade Católica é lugar no qual isto deve acontecer com eficácia singular, sob o perfil seja científico, seja didático. Este peculiar serviço para a Verdade é dom de graça e expressão qualificante de caridade evangélica. A atestação da fé e o testemunho da caridade são incindíveis (cf. 1Jo 3, 23). O núcleo profundo da verdade de Deus, de fato, é o amor com o qual Ele se inclinou sobre o homem e, em Cristo, lhe ofereceu dons infinitos de graça. Em Jesus, descobrimos que Deus é amor e que somente no amor podemos conhecê-Lo: “todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus (...), porque Deus é amor” (1Jo 4, 7.8), diz São João. E Santo Agostinho afirma: “Non intratur in veritatem nisi per caritatem” (Contra Faustum, 32). O vértice do conhecimento de Deus se atinge no amor; aquela amor que sabe ir até à raiz, que não se contenta com ocasionais expressões filantrópicas, mas ilumina o sentido da vida com a Verdade de Cristo, que transforma o coração do homem e o arranca dos egoísmos que geram miséria e morte. O homem precisa de amor, homem precisa de verdade, para não desperdiçar o frágil tesouro da liberdade e ser exposto à violência das paixões e aos condicionamentos abertos e ocultos (cf. João Paulo II, Enc. Centesimus annus, 46). A fé cristã não faz da caridade um sentimento vago e piedoso, mas uma força capaz de iluminar os caminhos da vida em todas as suas expressões. Sem esta visão, sem esta dimensão teologal originária e profunda, a caridade se contenta com a ajuda ocasional e renuncia à tarefa profética, que lhe é própria, de transformar a vida da pessoa e as estruturas mesmas da sociedade. Este é um compromisso específico que a missão na Universidade vos chama a realizar como protagonistas apaixonados, convictos de que a força do Evangelho é capaz de renovar as relações humanas e penetrar no coração da realidade.
Caros jovens universitários da “Católica”, sois a demonstração viva daquele caráter da fé que muda a vida e salva o mundo, com os problemas e as esperanças, com as interrogações e as certezas, com as aspirações e os compromissos que o desejo de uma vida melhor gera e a oração alimenta. Caros representantes do pessoal técnico-administrativo sede orgulhosos das tarefas que vos são confiadas no contexto da grande família universitária no suporte da multiforme atividade formativa e profissional. E a vós, caros Docentes, é confiado um papel decisivo: mostrar como a fé cristã é fermento de cultura e luz para a inteligência, estímulo para que se desenvolva todas as suas potencialidades positivas, para o bem autêntico do homem. Aquilo que razão vê, a fé ilumina e manifesta. A contemplação da obra de Deus abre o saber à exigência da investigação racional, sistemática e crítica; a busca por Deus reforça o amor pelas letras e pelas ciências profanas: “Fides ratione adiuvatur et ratio fide perficitur”, aifrma Hugo de São Victor (De sacramentis, I, III, 30: PL 176, 232). Nesta perspectiva, a Capela é o coração pulsante e o alimento constante da vida universitária, à qual se une o Centro Pastoral onde os Assistentes Espirituais das diversas sedes são chamados a desenvolverem sua preciosa missão sacerdotal que é imprescindível para a identidade da Universidade Católica. Como ensina o Beato João Paulo II, a Capela “é lugar do espírito, onde pausam em oração e encontram alimento, orientação e sustento os crentes em Cristo, que vivem com modalidades diversas a vida intensa da Universidade; é academia de virtudes cristãs, onde cresce e se desenvolve a vida batismal, e se expressa com ardor apostólico; é casa acolhedora e aberta, para todos aqueles que, escutando o Mestre interior, se fazem buscadores de verdade e servem o homem na dedicação diuturna a um saber não satisfeito com horizontes estreitos e pragmáticos. No contexto da modernidade em declínio, ela se torna, com forte ênfase, centro vivo e propulsor de animação cristã da cultura: no diálogo respeitoso e franco, na proposta clara e motivada (cf. 1Pd 3, 15), no testemunho que interroga e convence” (Discurso aos Capelães europeus, 1 de maio de 1998). Assim dizia o Papa João Paulo II, em 1998.
Caros amigos, espero que a Universidade Católica do Sagrado Coração, em sintonia com as intenções do Instituto Toniolo, prossiga com renovada confiança o seu caminho, mostrando de forma eficaz que a luz do Evangelho é fonte de verdadeira cultura capaz de desencadear energias de um humanismo novo, integral, transcendente. Confio-vos a Maria Sedes Sapientiae e, com afeto, vos transmito de coração minha Bênção Apostólica

* Extraído do site do Vaticano, do dia 21 de maio de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Ensinar para competências: instruções de uso, evitando o “burocratês”


Por Dario Nicoli

Continua a reflexão de Dario Nicoli sobre o tema das competências. O primeiro artigo foi publicado no IlSussidiario.net de 29 de março (e traduzido para o português por Paulo R. A. Pacheco; ndt), o segundo, no dia 6 de abril (também traduzido por Paulo R. A. Pacheco; ndt)

Escola como comunidade de aprendizagem – Uma escola capaz de fazer isso é definida não como burocracia nem como organização de serviços, mas assume as características de uma comunidade de aprendizagem que será tal na medida em que fornecer àqueles que ali habitam uma perspectiva unitária e, de modo particular, de colocar a ênfase sobre o processo mais importante que acontece ali dentro, ou seja, a relação educativa como solicitação das qualidades humanas dos jovens, colocando em movimento seu desejo de saber e movendo-se junto ao longo de um caminho de pesquisa e de descoberta.
A organização formativa pretendida em sentido comunitário permite a fluidez e a continuidade dos processos de aprendizagem e de amadurecimento. Isso remete aos requisitos das learning organizations, segundo a regra do “desenvolver-se aprendendo”, mobilizando não apenas as habilidades cognitivas, mas também as intuitivas, emocionais, práticas e sociais.
Tal modelo impulsiona as escolas a remodelarem continuamente a própria matéria que é constituída por um pensamento criativo capaz de sempre fazer emergir novas estratégias. Isso exige que se promovam cursos de ação sempre novos, abandonando a ênfase excessiva nos objetivos que, frequentemente, acabam por se tornar camisas de força, de modo a que as pessoas entendam sozinhas qual é o objetivo adequado para toda situação (os objetivos “emergem” através do processo) e quais são os limites a serem evitados.
Os princípios deste modo de organizar a comunidade de aprendizagem são: inserir o todo nas partes (áreas disciplinares, técnicas, papéis...) apontando para a redundância das funções (todo docente não é apenas especialista de uma matéria, mas também membro de uma comunidade de aprendizagem e animador de situações de aprendizagem de caráter holístico), motivando os indivíduos a aceitarem os desafios independentemente de sua natureza e origem; perseguir a diferenciação e a variedade necessária apontando para a possibilidade de que as competências e as capacidades necessárias sejam possuídas pelo grupo e para que o indivíduo seja multifuncional; adotar o mínimo de regras para garantir a liberdade de auto-organização, evitando que os dirigentes se tornem “projetistas de tudo” para ser guias; aprender a aprender, evitando as receitas, mas promovendo posturas mentais abertas e criativas. 
É preciso que a organização-comunidade não caia na rotina, nem mesmo na “projetual”. Ela deve buscar a novidade e se abrir aos eventos potencialmente formativos, colocando em discussão mesmo as práticas consolidadas, quando estas precisam se renovadas.
É preciso recordar que o fator identitário, se não for continuamente “encarnado” na vida da comunidade, pode se transformar num mero discurso retórico, sem que dele flua a seiva vital para todos os âmbitos da vida interna. Os processos organizativos tendem ao resfriamento, os sistemas tendem à entropia (perda de energia) e isto acontece sobretudo quando dominam processos de inércia que replicam o já conhecido.
O fator que está no centro da identidade e nos seus valores deve ser renovado na vida cotidiana da organização: ele é, dessa forma, convalidado cada vez que os alunos aprendem, os pais participam, os professores tiram satisfação de seu trabalho, o contexto reconhece a importância do serviço prestado. Deve ser considerado, para tanto, o perigo de cair na excessiva projetualidade que leva a deslocar a atenção dos estudantes para o sucesso do projeto. Mesmo em temas de qualidade, não deve ser construída uma “organização de papel”, mas uma realidade da cultura como experiência, descoberta, caminho em direção ao saber que se renova continuamente, tirando ensinamento das próprias prática melhores, aberta aos eventos que trazem boas novidades.
A comunidade de aprendizagem requer uma obra de proteção a cargo do responsável, um equilíbrio entre abertura e conservação do seu estilo peculiar, da sua história de entidade que cresce com as pessoas que, aos poucos, começam a fazer parte de si.
Deve-se ter atenção para que os professores não sejam sobrecarregados por muitos compromissos, o que é tido como um dos principais impedimentos para que se realize uma verdadeira comunidade educativa: nem tudo aquilo que é possível deve ser feito, é preciso que seja também conforme à sensibilidade do contexto que pode mesmo rechaçar boas ideias se estas são percebidas como estranhas ao estilo próprio.
Deve ser perseguida e continuamente melhorada a distribuição dos encargos de trabalho, de modo a dar mais tempo e espaço para o “fazer comunidade”. Devem ser redimensionadas até a um nível “justo” as tendências à procedimentação dos processos, que representam a forma atual das lógicas de controle e de homologação que provêm das várias estruturas externas mas também internas (é o caso da qualidade).
Nem todos os espaços e os tempos devem ser preenchidos, porque é preciso deixar também abertas as portas para eventos inesperados e ideias não escritas nos projetos e nos documentos programáticos. Pode-se dizer, para certos casos, que o novo pode emergir do velho e que a rotina pode evidenciar, por contraste, um fator imprevisto que merece ser preferido em lugar do comportamento repetitivo. Uma organização-comunidade que deixa espaços para eventos não previstos sabe viver a espera, cultiva o sentido de privação e educa para a maravilha.
Devem ser reduzidos ao essencial os projetos de que a estrutura participa, preferindo somente aqueles que permitem inovar a didática ordinária ou mesmo que concorrem, de modo concreto e verificável, para o maior sucesso formativo dos estudantes e para a satisfação dos professores. Diversas indicações que derivam das novas teorias construtivistas pecam pela exorbitância: é possível que se exagere mesmo quando se trate de ideias e propostas boas em si mesmas, mas deletérias na medida em que podem acabar sufocando a justa fisiologia do ambiente de aprendizado.

O plano formativo e as unidades de aprendizagem – O ator principal do processo formativo é constituído pelo grupo/comunidade dos docentes agregados seja pelos eixos culturais/áreas profissionais, seja por conselhos de classe. A centralidade da comunidade de aprendizagem permite que se desenvolvam os passos indispensáveis para uma didática para competências: agregar as disciplinas por eixos culturais e identificar os “pontos fundamentais” dos saber; escolher uma abordagem mista, que alterne – de modo inteligente – aulas, tarefas, experiências; suspender o juízo e encorajar o caminho, tolerando incertezas ou erros  desde que haja dedicação e empenho; seguir aquilo que a experiência nos ensinou: aspectos que solicitam a curiosidade, erros a serem evitados, variações que chamam a atenção, momentos nos quais é possível pedir rigor e “disciplina”; evitar a dispersão do tempo e o tédio; solicitar aos estudantes que proponham publicamente o êxito do próprio trabalho.
Este modo de fazer escola pede um quadro de referência unitária da equipe/conselho de classe acerca das experiências que conotam o percurso formativo do ano: disso nasce a necessidade de delinear um Plano Formativo, um instrumento que represente as experiências que, no correr do ano, são capazes de suscitar um relacionamento dos estudantes com o saber em termos afetivos (curiosidade, vínculo, fascínio), concretos (utilidade, descoberta) e cognitivos (domínio) e de solicitar a identificação com a escola a partir do estilo das experiências nas quais são envolvidos. Tais experiências (intencionais e programadas, portanto elaboradas sob a forma de unidade de aprendizagem) preveem um vínculo e uma compreensão entre as diversas disciplinas, a fim de delinear um plano de trabalho comum capaz de perseguir efetivamente as metas educativas, culturais e profissionais declaradas.
É preciso encontrar uma compreensão comum entre escolas da mesma localidade e do mesmo contexto em torno das evidências das competências, de forma a garantir a univocidade de referências e transparência das certificações. Para dar um exemplo, as evidências da competência “consciência e expressão cultural” a respeito das dimensões históricas e sociais podem ser formuladas assim:
- Colocar fatos e eventos no tempo e no espaço, em dimensão sincrônica e diacrônica, reconhecer os elementos fundantes das civilizações estudadas e sua evolução, medir a duração cronológica dos eventos históricos e reportá-los às periodizações fundamentais.
- Selecionar, confrontar e interpretar informações de fontes e documentos de origens e tipos diversos (achados de diferentes épocas, documentos escritos, recursos em rede etc.).
- Identificar os possíveis nexos causa-efeito, descobrindo seus diferentes graus de relevância.
- Buscar e identificar na história do passado as possíveis premissas de situações da contemporaneidade e da atualidade. Reconhecer o valor da memória das violações de direitos dos povos para não repetir os erros do passado. Identificar as marcas da história no próprio território e reportá-los ao quadro sócio-histórico geral.
- Interpretar os relacionamentos entre os fenômenos históricos e seu contexto social, científico e cultural, com particular referência à evolução da tecnologia e a recíproca interação entre esta e a dimensão social.
- Identificar o papel que as estruturas organizativas da civilização (familiar, social, política, econômica) têm na vida humana e o relevo das dimensões religiosa, cultural e tecnológica, analisando suas transformações no tempo e as diversas configurações que tiveram e têm no espaço geográfico. Ler e compreender investigações e desenvolver percursos de pesquisa demográfica, com a utilização dos instrumentos e da metodologia apropriados.

Uma compreensão relativa às evidências das competências, e aos níveis típicos de domínio, permite que se desenvolva, de modo ordenado, a autonomia das escolas e, ao mesmo tempo, o necessário relacionamento de solidariedade e subsidiariedade que se instaura entre elas, evitando tanto a homologação que mata a cultura, como o caos que impede uma correta interação entre os atores do sistema educativo.
A unidade de aprendizagem (UDA) constitui a estrutura de base da ação formativa; conjuntos de ocasiões de aprendizagem que permitem ao aluno entrar em relação pessoal com o saber, enfrentando as tarefas que conduzem a produtos dos quais ele possa se sentir orgulhoso e que constituem objeto de uma avaliação mais confiante.
Podemos ter UDA de amplitude máxima (todos os formadores), média (alguns) ou mínima (eixo cultural). Ela sempre prevê tarefas reais (ou simuladas) e produtos relativos que os destinatários são chamados a realizar e indica os recursos (capacidades, conhecimentos, habilidades) que ele é solicitado a mobilizar para se tornar competente. Cada UDA deve sempre mirar pelo menos uma competência entre aquelas presentes no repertório de referência.
O critérios de fundo a que se referir é a possibilidade de solicitar os talentos dos jovens e de estimular à pesquisa, a tomar o caminho. É preciso ensinar por tarefas com retornos claros e estimulantes, variar as situações de aprendizagem e o modo de implicação com os estudantes, apontar, algumas vezes, para o maravilhamento e para o contraste com o ponto de vista usual. Deve ser evitada a prática que tende a derramar sobre os interlocutores uma quantidade relevante de noções e de regras, substituindo-a por algo que tenda a solicitar a curiosidade, definir um percurso de estudo, fornecer instrumentos e estimular a reflexão e a estruturação do saber adquirido. Deste modo, se aprende trabalhando.
O foco da competência, por isso, colocado sobre a evidência das tarefas/produtos que atestam concretamente o domínio por parte dos alunos, valorizando assim o conceito de “obra-prima” que acaba se estendendo sobre os eixos culturais e a cidadania. É o significado do critério da confiabilidade: com ela se compreende que somente na presença de pelo menos um produto real significativo, criado pessoalmente pelo destinatário, é possível que se certifique a competência que, dessa forma, corresponde efetivamente a um “saber agir e reagir” apropriadamente diante dos desafios (tarefas, problemas, oportunidades) inscritos no âmbito de referência da competência mesma (Fim da parte 3).

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 15 de abril de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Uma aula sobre o coração e a justiça dada por Tomás de Aquino e Giussani


Por Francesco Ventorino

“Existe um bem que ficaríamos contentes com possuir porque nos é caro por si mesmo e não pelas vantagens que dele possam advir?”. A questão emerge de um dos diálogos de Platão, A República. Glauco reflete sobre o bem e sobre o mal, interrogando seu mestre Sócrates. “Tenho uma grande vontade de ouvir – acrescentou – o que é justo e injusto e qual o poder que têm, por si, sobre a alma do homem”. Porque parece que os homens fazem as leis dando “nome de legítimo e justo àquilo que é estabelecido pela lei”. Seria, portanto, esta “a origem da justiça e a sua essência”?
Eis como é colocada desde as origens do pensamento ocidental a pergunta sobre o fundamento da lei humana e sobre sua justiça. Pergunta, esta, muito atual. Pietro Barcellona, que se dedicou muito a este tema e com o qual compartilhei as reflexões que deram origem ao livro La lotta tra diritto e giustizia (A luta entre o direito e a justiça – em tradução livre –, cujo original foi publicado pela Marietti, em 2008, sem tradução para o português; ndt), já tinha, há um tempo, colocado o dedo sobre esta ferida. “Nunca, como na atual fase, se ouviu tanto a prepotente necessidade de afirmar que existem direitos do homem que os Estados e os poderes constituídos não podem violar nem sacrificar, e todavia nada permite mais que se atribua forma e realidade a estes direitos. [...] A falta de todo fundamento metafísico e de toda legitimidade transcendente torna a ordem jurídica contingente e artificial, privada de qualquer referência a uma ordem natural que, de alguma forma, reconduza à harmonia do cosmo. Toda ordem é, por sua natureza, arbitrária, sem justificação nem medida. Definitivamente consumida a ideia de contar com algumas verdades eternas e imutáveis, com alguma razão universal, não sobra outra coisa senão se confiar à frágil contingência dos acordos contratuais e dos pactos sociais, com os quais os indivíduos decidem fixar um limite aos seus ilimitados desejos” (Il declino dello Stato. Riflessioni di fine secolo sulla crisi del progetto moderno – O declínio do Estado: reflexões de fim de século sobre a crise do projeto moderno – publicado pela Dedalo, em  1998).
Tal postura mental gera todo tipo de mentira, visto que o pensamento não adere mais à verdade da realidade e as palavras são distorcidas, sustentam um projeto sobre a sociedade que não tem outro ponto de referência diferente do poder mesmo.
“Uma questão fundamental que se coloca para o sistema democrático – escreveu Bento XVI quando era ainda o cardeal Ratzinger – é se a vontade de uma maioria verdadeira e legitimamente pode tudo. É possível que ela torne legítima todas as coisas, vinculando todos, ou a razão se encontra acima da maioria, de forma que nunca seria possível se tornar realmente um direito aquilo que fosse contra a razão?” (Chiesa, ecumenismo e politica – Igreja, ecumenismo e política – publicado pela Paoline, em 1987).
No famoso diálogo que teve, em Mônaco, em 2004, com Jürgen Habermas, o mesmo Ratzinger evidenciou a urgência de uma nova fundação da ética e do direito na sociedade contemporânea: “A tarefa de colocar o poder sob o controle do direito remete, consequentemente, à questão de como nasce o direito e de como deve ser o direito para que seja instrumento da justiça e não do privilégio daqueles que detêm o poder de legislar” (Ragione e Fede in dialogo – Razão e Fé em diálogo – publicado pela Marsilio, em 2005).
Como nasce, portanto, o direito? Entre as respostas a esta pergunta, aquela dada por Tomás de Aquino não deve ser desvalorizada. Na sua Suma Teológica, ele colocou na razão do homem a medida e o critério da bondade do seu agir: “O bem humano consiste no ser conforme à razão, e o mal no ser contrário à razão” (I-II, q. 18, a. 5, c.).
É possível que se tenha a impressão de que uma assertiva do gênero prefigure aquela autonomia da razão que está na base da doutrina moral kantiana, mas se trata, na realidade, de toda uma outra perspectiva. Kant tem razão quando afirma que o princípio da moralidade reside na razão. Mas, para o Aquinate, a razão não é entendida como emancipada de todo vínculo e, portanto, como instância absoluta e independente, mas como faculdade dada ao homem para conhecer aquilo que é, e, nessa medida, participe da luz intelectual de Deus. É, portanto, num sentido bastante particular que a razão humana funda, em Tomás, a moralidade do agir do homem: funda-a na medida em que colhe, com os próprios recursos naturais, aquela lei eterna que é a ordem e a medida que a razão divina dá a todas as coisas: “Ora, é em virtude da lei eterna, que é a razão divina, que a razão humana é a regra da vontade humana, pela qual se lhe mede a bondade. E por isso, diz a Escritura (Sl 4, 6 e 7): ‘Muitos dizem: quem nos patenteará os bens? Gravado está, Senhor, sobre nós o lume do teu rosto’, quase dizendo: a luz da razão, existente em nós, pode nos mostrar o bem e regular a vontade, na medida em que é a luz do teu rosto” (I-II, q. 19, a. 4, c.).
Tudo isso pressupõe uma confiança na razão humana, como imagem da razão divina. A razão é a exigência profunda e a capacidade de verdade e de felicidade que há no coração do homem e o critério com o qual medir os mios necessários para a sua realização.
As leis humanas podem se dizer justas, portanto, “na medida em que se uniformizam à reta razão” (I-II, q. 93, a. 3, c.). Quando elas se desviam da razão, então não têm mais a natureza de lei, mas muito mais de violência.
Agostinho, no IV livro do De civitate Dei, já havia colocada uma pergunta inquietante: “Uma vez que se tenha renunciado à justiça, o que serão os Estados senão uma grande confusão de criminosos?” (Remota itaque iustitia, quid sunt regna nisi magna latrocinia?). Não é verdadeiro, no fim das contas, que os criminosos mesmos formam pequenos Estados?  Homens comandados por um chefe e mantidos juntos por um pacto comum, partilham um roubo segundo uma lei tácita. Se este mal se alarga a um número maior de celerados, se se espalha por toda uma região, conquista cidades e subjuga povos, então assumirá mais abertamente o nome de reino: não tanto pela renúncia à maldade, mas pela tranqüila impunidade. Esta foi a resposta franca que um pirata deu a Alexandre o Grande. Parecer-lhe-ia justo, perguntou o Macedônio, infestar os mares? Por que ele continuava a causar danos? E o pirata, com temerária ousadia, respondeu: “Pelo mesmo motivo pelo qual tu infestas a terra; mas, visto que eu o faço com um barco insignificante, chamam-me malfeitor, e visto que tu o fazes com uma frota potente, chamam-te imperador”.
A lei humana é, por isso, opus rationis: merece ser reconhecida e observada na medida em que expressa uma aproximação progressiva da razão do legislador àquela ordem natural que tem seu fundamento último na razão divina. É este caminho de aproximação que explica a diversidade de opiniões entre os homens acerca de tudo aquilo que não é “justo” – ou seja, iuxta rationem – com evidência imediata.
Padre Luigi Giussani teve a inteligência para dizer isso com palavras existencialmente mais compreensíveis e eficazes. N’O senso religioso (publicado em italiano sob o título I senso religioso, pela editora Rizzoli, em 1997; ndt) conduz o leitor através de uma apaixonante análise introspectiva, que ele chama “experiência original” ou “experiência elementar”, para descobrir o que é o “coração”. Ele é como que “um complexo de exigências e de evidências com o qual o homem é lançado no confronto com tudo o que existe”. Estas exigências que emergem como evidentes para a consciência do homem, quando ele começa a enfrentar a realidade e, consequentemente, a refletir sobre si mesmo, reconduzem à ratio tomista. De fato, a razão para Tomás de Aquino – como vimos – é a exigência e a capacidade de verdade e de bem que há dentro do coração de cada homem.
A modernidade da abordagem de Giussani, que confia tudo a uma evidência interior, enquanto busca encontrar crédito no seu interlocutor, não lhe impede de sublinhar que para a nossa experiência elementar é também evidente que este “critério original”, mesmo sendo “imanente a nós”, não somos nós que no-lo damos, mas nos é “dado” junto com a nossa natureza: uma mãe esquimó, uma mãe da Terra do Fogo, uma mãe japonesa, dão à luz seres humanos que são reconhecíveis como tais, tanto por conotações exteriores como pela “marca interior”. Este critério original se revela, portanto, requintadamente pessoal e, ao mesmo tempo, universal.
A negação sistemática deste fundamento universal da verdade e da justiça expõe o homem ao totalitarismo nas suas várias formas jurídicas ou políticas. Hannah Arendt escreveu: “o chamado ideal do regime totalitário não é o nazista convicto ou o comunista convicto, mas o indivíduo para o qual a distinção entre realidade e ficção, entre verdadeiro e falso não existe mais” (Le origini del totalitarismo – As origens do totalitarismo – publicando na Itália pela Einaudi, em 2004; ndt). Mas a aceitação de um fundamento metajurídico do direito positivo está ligada àquela capacidade própria da razão humana de encontrar o verdadeiro e o bom nas coisas. Poucos, hoje, parecem dispostos a subscrever isso. Uma vez mais devemos dizer: é tarefa dos cristãos recordar ao homem a sua grandeza.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 14 de abril de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O equívoco sobre as competências faz mal aos professores e aos estudantes


Por Dario Nicoli

Continua a reflexão de Dario Nicoli sobre o tema das competências. O primeiro artigo foi publicado no IlSussidiario.net de 29 de março (e traduzido para o português por Paulo R. A. Pacheco; ndt). 

Este posicionamento só foi possível graças à consciência acerca das três dimensões fundamentais do saber:
- o saber possui uma dimensão lógico-cognitiva que pressupõe uma linguagem, um campo de referência e, além do mais, uma epistemologia que permite delinear os mapas conceituais e os esquemas cognitivo-operativos das disciplinas;
- o saber apresenta também uma dimensão afetiva e relacional que permanece escondida quando se reduz a inteligência a pura função de cálculo, memória e repetição. Todo âmbito disciplinar possui a capacidade de “sedução” no sentido que exprime um fascínio próprio capaz de atrair a pessoa e suscitar emoções. Assim, acontece uma mobilização da inteligência emocional, solicita-se ao estudante que se coloque em jogo, que cuide do objeto do seu estudo apreciando o caráter pessoal e social do saber, seja como procedimento seja como aspiração e necessidade;
- finalmente, o saber evidencia uma dimensão concreta: todo conhecimento está implicado na realidade que constitui seu ambiente, a partir do qual toma vida, dando nome às coisas e aos processos, tornando compreensível aquilo que acontece, contribuindo para formular hipóteses de solução e motivando a utilização dos instrumentos idôneos, fornecendo critérios apropriados para avaliar o percurso que se está percorrendo e sugerir melhorias. O caráter prático do saber está presente também na sua epistemologia: de fato, diz-se que um saber é abstrato no sentido de que foi “extraído” da realidade que representa o lugar no qual ele é necessariamente encorporado.
O poder da cultura e a “pessoa competente” – É exatamente devido a estas três características do saber – lógico-cognitiva, afetiva e relacional, concreta – que se podem pensar experiências de aprendizado não mais inertes, mas vitais, capazes de solicitar ainda mais a pessoa do estudante que, dessa forma, tem a ocasião de experimentar pessoalmente a cultura.
O jovem que se aproxima do saber é colocado, dessa forma, numa afeição que solicita a sua sensibilidade e suscita um vínculo e um desejo de aprender sobre; ao mesmo tempo, ele é levado a colher o valor daquilo que aprende, visto que, através dele, abre-se cada vez mais para a realidade, descobre a possibilidade de conhecê-la efetivamente e, portanto, se torna consciente das próprias capacidades e dos próprios talentos.
É preciso explicitar bem que a competência não é um objeto nem um fator que possa ser transferido do professor para o discente. Ela indica, em sentido próprio, a qualidade de uma pessoa, que é reconhecida quando esta se mostra capaz, com provas tangíveis e significativas, de mobilizar os próprios recursos – habilidades e conhecimentos – a fim de fazer frente, de modo adequado, às tarefas e aos problemas que lhe são confiados.
A competência não é assimilável nem a um conjunto de saberes, e nem mesmo a uma adaptação social, mas indica uma característica de natureza ético-moral da pessoa, uma disposição positiva diante do real. Competente é a pessoa autônoma e responsável que tem consciência dos próprios talentos e da própria vocação, possui um sentido positivo da existência, entra em relação de modo amigável com a realidade em todas as suas dimensões, de onde extrai os principais fatores em jogo, se insere de forma recíproca no tecido da vida social no qual age de modo significativo e eficaz.
As habilidades e os conhecimentos constituem a trama e, ao mesmo tempo, os ingredientes de uma ação formativa para tarefas e problemas que é capaz de solicitar o estudante no sentido da descoberta do valor do saber como fonte de afeição, útil, dotado de sentido.
Paola Mastrocola, no seu recente volume Togliamo il disturbo (Acabemos com o problema; ndt), na sua batalha antipedagógica, acha conveniente o expediente que tende a confundir a competência com a habilidade, reduzindo esta última a “exigência das empresas”. Na realidade, uma abordagem por competências permite que se fixe, de modo unívoco e comprometido para todos – professores, estudantes e famílias –, as metas necessárias para uma séria preparação do aluno: por exemplo, indicando nas evidências (ou desempenhos esperados) o correto domínio da língua ainda que apenas no perfil lexical, ortográfico e gramatical; além de, prevendo que o estudante saiba apresentar publicamente as obras literárias de autores tidos como indispensáveis, manifestando nisso não apenas preparação, mas também paixão e capacidade de convencimento junto dos seus companheiros. A abordagem por competências tem como meta, na realidade, “olhar para cima” e contrastar com a tendência à banalização do saber e ao desaparecimento de um real domínio pela palavra, mas o faz evitando posições restauradoras que não são credíveis porque não prestam contas com a realidade cultural e social do nosso tempo, que não é demonizada, mas compreendida, tomando dela o que tem de bom. Enquanto que o fechamento nas velhas escolas por pouco resulta numa operação, no longo prazo, pouco convincente exatamente naquele plano cultural que se declara, pelo contrário, desejoso de defender da enésima “nova barbárie”.
Nesta perspectiva, a escola pode, como afirma Jerome Bruner, cultivar as energias naturais que estimulam o aprendizado espontâneo ou “vontade de aprender”, aquelas que não dependem de uma recompensa externa, mas derivam de uma fonte intrínseca à pessoa, sendo inerente à feliz realização da atividade:
- a curiosidade: de fato, a mais singular característica humana é a atitude a ser aprendida;
- o desejo de competência, ou seja, o estímulo para enfrentar e resolver problemas, de forma que a competência se torna, por sua vez, um fator de motivação antes ainda de se tornar uma capacidade conseguida;
- a aspiração por emular um modelo proposto pelos professores entendidos como equipe, o que não significa necessariamente imitar o mestre, mas no fato de que ele se torne parte integrante do diálogo interno do estudante, uma pessoa de quem ele deseja o respeito, de quem quer fazer suas as qualidades;
- o compromisso consciente por se inserir no tecido da reciprocidade social, que representa o desejo intrínseco na natureza humana de responder aos outros e cooperar com ele tendo em vista um objetivo comum: há no vínculo social uma energia intrínseca para aprender, e não se trata de uma imitação, mas de uma dinâmica na qual se aprende reciprocamente.
A vontade de aprender é um motivo intrínseco, que encontra a sua fonte, a sua recompensa no exercício de si. Ela se torna um problema apenas em determinadas circunstâncias: como aquelas de uma escola na qual se impõe um programa, os estudantes são privados de toda iniciativa, a linha a ser seguida é rigidamente fixada. Portanto, não há um problema de aprendizado em si, mas de um método de ensino que impõe tarefas que não conseguem alavancar as energias naturais do aprendizado próprias do aluno.
O método para o aprendizado autêntico – O ensino não é uma sucessão de aulas e nem mesmo uma simples sequência de práticas operativas, mas é a organização e a animação de situações de aprendizado que se referem a situações reais na qual o sujeito é chamado a exercer papéis ativos, procedendo através deles na plena consciência e domínio também teórico dos saberes subjacentes.
Para trabalhar de modo consciente sobre as competências é necessário, portanto, coligar cada uma das competências a um conjunto delimitado de problemas e de tarefas; inventariar os recursos intelectivos (saberes, técnicas, saber-fazer, atitudes, competências mais específicas) colocados em ação pela competência considerada.
O discente se torna, dessa maneira, capaz de fazer uma experiência cultural que mobiliza suas capacidades e solicita suas boas potencialidades. O saber se mostra a ele como um objeto sensível, uma realidade ao mesmo tempo simbólica, prática e explicativa.
Isto comporta a escolha de ocasiões e de tarefas que consintam ao estudante fazer a descoberta pessoal do saber, reportar-se a ele com um espírito amigável e curioso, compartilhar com os outros esta experiência, adquirir um saber efetivamente pessoal.
É errado contrapor a didática por competências àquela por disciplinas; além do mais, a primeira, se bem entendida, contrasta a degeneração desta última que consiste na redução do trabalho do professor à transferência de uma certa quantidade de noções sem um vínculo buscado nem com os estudantes nem com a realidade, mas nem mesmo com os colegas. O ensino “empregadizado” se tornou uma rotina e, assim, a liberdade de ensino degenerou no automatismo.
O professor não se limita a transferir os conhecimentos, mas é um guia capaz de fazer perguntas, desenvolver estratégias para resolver problemas, levando o discente, assim, a compreensões mais profundas. Os “produtos” da atividade dos estudantes constituem as evidências de uma avaliação confiável, fundada em provas reais e adequadas.
O valor da didática por competências é definido pelas seguintes metas formativas: formar cidadãos conscientes, autônomos e responsáveis; reconhecer os aprendizados adquiridos; favorecer processos formativos eficazes e capazes de mobilizar as capacidades e os talentos dos jovens, tornando-os responsáveis pelo próprio caminho formativo; caracterizar de maneira europeia o sistema educativo italiano, tornando possível a mobilidade das pessoas no contexto comunitário; favorecer a continuidade entre formação, trabalho e vida social ao longo de todo o curso da vida; valorizar a cultura viva do território como recurso para o aprendizado; permitir uma corresponsabilidade educativa por parte das famílias e da comunidade territorial. (Fim da parte 2).

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 6 de abril de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.